Nota do Yoshiyuki: Eu tenho uma boa e uma má notícia! XDD
A boa que é estamos de volta! XD (povo dando vivas) E que o Jamie terminou a dissertação e está a dois meses de terminar a universidade! XDD (mais vivas) E nós conseguimos postar um capítulo novo no aniversário do Toshihiro e do Vladmir! XD (gritinhos histéricos de "feliz aniversário" no fundo)
A má notícia é que, por causa do terremoto/tsunami/eminente catástrofe nuclear no Japão, nós decidimos não fazer um off-talk dessa vez. Os dois aniversariantes (e mais um monte de personagens importantes) estão no Japão vivendo com racionamento de energia e pequenos terremotos, e por causa disso não estão com muita vontade de ficar fazendo bobagens por meia duzia de páginas. O.õ
Mas nós prometemos voltar em abril com um off-talk decente e um capítulo na fic quase esquecida dos Kita no Ookami! XD
E o capítulo de hoje tem 14 páginas e mais de 8,000 palavras, então não é como se o off-talk fosse fazer muita falta... XD
Então até o mês que vem! XD Aproveitem o capítulo! XD
Yoshiyuki Yuy,
São e salvo na Inglaterra
CAPÍTULO VI
AS PRIMEIRAS LUTAS
Yoshiyuki e Kouji foram recepcionados por um Toshihiro descabelado e no geral mais desarrumado do que o normal. Ele parecia ainda um pouco cansado, porém abriu um grande sorriso ao ver quem estava na porta.
- Vamos entrando, Yoshi...
Foi só o mestre de Fenku falar o nome do amigo que este, em uma repetição da cena do dia anterior, foi atacado por uma bomba feliz que se jogou contra ele. Kouji pulou para o lado quando Yoshiyuki agarrou o filho e o colocou em seu colo, cumprimentando-o animadamante. Kenji falou uma série de coisas em uma velocidade estonteante antes de voltar suas atenções para o primo:
- Kouji-Nii, meu pai me contou sobre a sua grande tragédia! Não se preocupe, assim que a gente voltar pra casa a gente vai jantar chocolate! E vamos comer chocolate de sobremesa também!
- Kenji, não exagere. Você sabe o que a sua mãe pensa sobre jantares com altas doses de estimulantes...
- Mas ainda assim! – O garotinho tentou argumentar. – É uma ocasião especial!
- Do que vocês estão falando? – Perguntou Toshihiro, visivelmente confuso.
- Kouji-Nii nunca comeu chocolate antes! Dá pra acreditar? – Kenji respondeu, fazendo questão de ressaltar o quão absurda essa idéia parecia.
- Isso é verdade? Se for assim, acho que eu tenho alguma coisa aqui que...
- Não, Toshihiro-san! – Kenji se esticou para ficar próximo ao chinês trançado sem sair do colo do pai. – Dar chocolate para o Kouji-Nii é uma missão para os Yuy na nossa casa com os nossos chocolates! Entendeu?
- Er… entendi… – Toshihiro achou melhor não comentar. Kenji era ainda pior do que Yoshiyuki havia sido nessa idade, provavelmente porque ao invés de um senhor sério e responsável e um adolescente ainda mais sério e responsável tomando conta dele, Kenji tinha um adulto não exatamente sério e talvez só um pouco responsável para educá-lo. A expressão facial de Kouji era bem parecida com a do mestre de Fenku. – Vamos entrando então, é falta de educação deixar meus convidados na porta!
Toshihiro fez sinal para os demais entrarem. As crianças estavam todas reunidas na sala: Yuuki se encontrava novamente isolado na varanda, enquanto David e Sasha se esparramavam em um dos sofás e Shizune e Akiko sentavam-se em volta da mesinha de centro. Satsuki estava no outro sofá ao lado de um garoto que Kouji não conhecia: ele tinha cabelos castanhos curtos bem penteados e um olhar sério e compenetrado apesar da postura relaxada. Ele parecia ser um pouco mais velho que os demais.
- Oh, o Tsubasa veio também? – Perguntou Yoshiyuki ao perceber a presença do garoto desconhecido. Tsubasa se levantou e foi cumprimentar os recém-chegados, fazendo uma reverência educada em frente a Kouji.
- Hajimemashite, Kouji-san. Eu sou Tsubasa Umeragi. Meu pai me falou sobre você. Estou realmente feliz em conhecê-lo.
- Yoroshiku onegaishimasu, Tsubasa-kun. – Kouji também se apresentou educadamente. Próximo aos dois, Yoshiyuki suspirou:
- Argh, quanta formalidade! Vocês são duas crianças, relaxem um pouco! – Exclamou ele, exasperado. Tsubasa voltou-se para o mestre de Ceres com uma expressão séria de desaprovação.
- Nós precisamos ser educados com pessoas desconhecidas, Yoshiyuki-san, principalmente se eles forem mais velhos. – Disse Tsubasa como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. – E pelos meus cálculos, Kouji-san é pouco mais de um ano mais velho que eu, então eu preciso mostrar respeito.
- Tsubasa, você precisa passar menos tempo com seu pai e mais tempo com o David e o Sasha. – Yoshiyuki sorriu para o filho de Umeragi, dando a discussão por encerrada, e voltou-se para Kouji. – Tsubasa é o filho do meu chefe. Ele também foi criado para ser extremamente polido com todo mundo, por isso eu tenho a impressão de que vocês vão se entender muito bem daqui pra frente. Tratem de ficar amigos logo pra eu não ter que ouvir essa linguagem formal o tempo todo, sim!
- Ah... – Kouji não soube bem o que respoder. Seu tio e Kenji tinham largos sorrisos em seus rostos, porém a expressão de Tsubasa era neutra. Felizmente o filho de Umeragi respondeu por ele:
- Nós seremos bons amigos, Yoshiyuki-san. Não precisa se preocupar com isso.
- Ótimo! – O sorriso de Yoshiyuki se alargou consideravelmente. O homem colocou Kenji no chão e pousou uma mão no ombro do sobrinho. – Isso significa que eu não preciso mais me preocupar em deixar o meu sobrinho tímido com um bando de crianças selvagens. Divirta-se, Kouji!
O garoto em questão foi salvo de ter que dizer alguma coisa em resposta quando Toshihiro se pronunciou:
- Espere um pouco, Yoshiyuki! – Pediu ele, em um tom quase urgente. – Você pode me dar uma carona? A Rumiko saiu na frente e eu fiquei sem carro... Eu só preciso de cinco minutos.
- Tudo bem, eu espero. – Mal terminara de falar, Yoshiyuki foi arrastado até o sofá por seu filho, sendo forçado a se sentar ao lado de Satsuki enquanto o garotinho se acomodava novamente em seu colo e Toshihiro desaparecia no corredor.
- E vocês dois, vão ficar aí parados? – Perguntou David, que até o momento observava o encontro de Kouji e Tsubasa com algum interesse. Os dois garotos em questão continuavam em pé no meio da sala, como se esperando por uma ordem especial para se moverem. – Se não têm nada melhor pra fazer, peguem suas beyblades e vamos logo pro quarto pra começar as lutas!
David pulou do sofá, desalojando Sasha no processo, e se aproximou da dupla com uma beyblade azul escura em mãos. Seu olhar tinha um brilho estranho que deixou Kouji um tanto inseguro.
- Nós vamos esperar o meu pai sair antes de começar. – Satsuki cortou a empolgação do primo com sua voz seca e autoritária. O sorriso de David murchou e ele passou a encarar a garota com o olhar venenoso de uma criança cujos pais não deixaram que ela comprasse uma loja de brinquedos inteira. – Eu não quero adultos se intromentendo.
- Então vocês estão planejando uma reunião secreta quando a gente for embora? – Perguntou Yoshiyuki, erguendo um sobrancelha. Satsuki olhou-o feio, mas quem respondeu foi Kenji:
- É que a gente não quer que ninguém nos impessa de destruir o quarto dos gêmeos durante as batalhas épicas de hoje, pai!
- Ah, entendi! – Pai e filho sorriram com cumplicidade. Shizune, Aiko, Sasha e David sorriram também, deixando Kouji confuso. Sendo o bom menino que era, ele não queria destruir a casa da amiga de sua mãe. Por causa do poder destrutivo de Flamelus, Kouji sempre treinava ao ar livre onde não poderia causar nenhum dano material, e sendo assim a ideía de lutar dentro de um apartamento soava um tanto assustadora para ele.
- Yoshiyuki-san, sobre o que é essa reunião que o Umeragi-san chamou? – Perguntou Shizune quando sorrir com cumplicidade e trocar olhares suspeitos com os amigos já havia perdido a graça. – Por que ele chamou todos os adultos?
- Sinto muito, Shizune, mas eu não posso dizer nada ainda. – Desta vez o sorriso de Yoshiyuki fez com que as crianças espalhadas ao redor deles (com exceção de Satsuki, Yuuki, Kouji e Tsubasa) fizessem beicinhos desapontados. Não seria surpreendente se eles estivessem passado os últimos minutos discutindo este assunto. – Não que eu saiba muita coisa, na verdade. Mako-chan não deu muitos detalhes dos seus planos, pra variar...
- E mesmo assim ele te mandou não dizer nada! – Exclamou Kenji, indignado. O garotinho cruzou os braços e tentou fazer uma cara braba, mas como sempre seu jeito de menino fofinho impediu que ele parecesse realmente brabo.
- É. – Yoshiyuki concordou, acenando com a cabeça. Kenji, Sasha, David, Akiko and Shizune murmuraram coisas como "não é justo" e "sem graça", baixando as cabeças desapontados. Vendo a reação das crianças, Yoshiyuki tentou animá-las. – Mas não se preocupem, vamos contar tudo pra vocês quando voltarmos.
- Vamos fazer o que? – O mestre de Fenku escolheu exatamente este momento para reaparecer na sala. Sua trança continuava bagunçada, mas ele vestia roupas um pouco mais formais e parecia só um pouquinho menos cansado.
- Nos contar o que o chefe do meu pai tem em mente! – Exclamou David, respondendo antes que alguém mais pudesse fazê-lo. – Nós vamos estar esperando, tio Toshi!
- Ah... tudo bem...?
Toshihiro olhou para Yoshiyuki, não muito certo do que deveria fazer. O mestre de Ceres sorriu, tirou o filho do colo e se levantou.
- Podemos ir, certo? – Ele perguntou se aproximando de Toshihiro. – As crianças estão planejando destruir o apartamento assim que nós sairmos, e eu não quero deixá-las esperando demais. – O homem piscou para o mestre de Fenku, que desta vez entendeu o que se passava e piscou de volta. Tanto Toshihiro quanto Yoshiyuki já estavam mais do que acostumados com os hábitos destrutivos de seus filhos (afinal eles também partilhavam destes mesmos hábitos), e entendiam perfeitamente a ansiedade que eles deveriam estar sentindo no momento.
- Certo, certo. Vamos indo, então.
Kouji foi o único a se mostrar hesitante quando os adultos se despediram do bando de crianças e bateram a porta do apartamento. Ele ainda não tinha certeza se deveria levar a sério os sinais de que parte do apartamento não sobreviveria intacta às lutas do dia. Sua timidez o impediu de dar voz as suas dúvidas, porém, e ele não teve outra alternativa se não ser seguir os demais rumo ao quarto dos gêmeos, onde uma pequena arena já os aguardava.
- Desculpem o atraso, pessoal! – Exclamou Yoshiyuki, entrando na sala de reunião com Toshihiro em seus calcanhares. Uma rápida olhada ao redor da mesa redonda indicou que eles eram os únicos que faltavam para completar o grupo. – Eu tive que buscar o Kouji na casa da Momoko-chan e levá-la até a casa do Toshihiro...
- E eu estava tentando pentear o meu cabelo. – Completou o mestre de Fenku. Alguns dos presentes riram do comentário, ainda mais porque a trança que era a marca registrada do homem estava mesmo desarrumada.
- Ainda não se recuperou da viagem, Toshihiro? – Perguntou Ken, sentado perto da porta. Aos trinta e dois anos, Ken aparentava ter não mais do que vinte e cinco: sua franja contunuava apontando para todas as direções, seu abrigo esportivo um pouco sujo dava-lhe um ar informal e maroto e seu sorriso sarcástico não mudara em vinte anos. Na verdade, as únicas coisas diferentes entre o Ken de 2004 e o de 2024 era que a versão mais velha era mais alta e tinha uma voz um pouco mais grave.
- Acho que vou precisar de pelo menos uma semana para isso...
O mestre de Fenku sentou-se na cadeira vazia entre o companheiro de time e Rumiko, enquanto Yoshiyuki caminhou mais um pouco ao redor da mesa, passando por Isaac e Nathaliya antes de encontrar um lugar entre ela e seu irmão. Ao lado de Koichi estava Hehashiro, e ao lado deste, Umeragi. Takashi estava do outro lado de seu chefe, com Lily a sua esquerda. A psicóloga estava ao lado de Rumiko, fechando a mesa redonda.
- A viagem foi tão ruim assim? – Perguntou o mestre de Fenrochi, colocando uma mão no ombro do amigo como gesto de apoio.
- Não foi ruim, foi só cansativa. Eu não consigo dormir muito bem em barcos, então acabei dormindo só umas duas horas por noite...
- Eu tenho certeza que o Toshihiro vai adorar contar as notícias da sua viagem, mas eu temo que agora não seja o momento. – A voz de Umeragi, vinda do outro lado da mesa redonda, interrompeu a conversa dos dois Taichi. No momento ele estava sentado, mas graças a anos de pesquisa e trabalho duro ele havia conseguido desenvolver um pequeno dispositivo eletrônico que permitia ele voltasse a caminhar. Ao contrario da caixinha preta desenvolvida por seu pai, este novo dispositivo não dependia de feras-bit para funcionar, o que o tornava muito mais seguro e estável. – Eu não convoquei esse reunião para que vocês pudessem colocar as fofocas em dia. – Apesar de sua personalidade ter se tornado um pouco mais otimista com o passar dos anos, Umeragi tinha sua reputação de dono de uma super-empresa para manter, por isso ele era um chefe rígido e exigente mesmo para seus amigos.
- Desculpe, Umeragi. – Enquanto Toshihiro se desculpou e fez algum esforço para parecer envergonhado, Ken apenas deu de ombros. Umeragi olhou feio para o mestre de Fenrochi por alguns segundos antes de voltar suas atenções para os recém-chegados.
- Agora que vocês chegaram eu posso finalmente revelar o motivo da reunião de emergência. – Ken começou a comemorar em altas vozes, porém foi impedido de continuar por um olhar de censura do mestre de Zeus. – Creio que a essa altura do campeonato todos nós sabemos sobre a súbita aparição de Kouji Kinomoto e das razões que o trouxeram a Tóquio, certo? – Os beybladers concordaram com a cabeça. – Pois bem, eu vi o conteúdo da carta de Satsuki, e acho muito difícil acreditar na maioria do que está escrito nela.
- Todos nós achamos, Umeragi. – Exclamou Lily. Sua postura era relaxada, porém seu olhar estava sério. – E é por isso que é difícil se acostumar com essa nova situação. – Falando como a psicóloga experiente que era, Lily emanava tanta autoridade quanto Umeragi, porém suas feições gentis faziam com que ela passasse essa autoridade sem intimidar os outros.
- Não foi isso que eu quiz dizer. – O dono da ShinTec retrucou. – Eu realmente não acredito no que está escrito na carta. Acho que a Satsuki está mentindo.
- E por que ela estaria mentindo? – Perguntou Rumiko. Agora que seu marido estava sentado ao seu lado, a mulher aproveitou para apertar a mão dele em busca de apoio. As palavras de Umeragi fizeram com ela se lembrasse dos minutos que passara lendo a carta pela primeira vez, e das sensações nada agradáveis que acompanharam esses minutos. – Por que ela mandaria o Kouji pra cá se ela não estivesse doente e quase...
- Que ela esteja doente é mesmo uma possibilidade. – Interrompeu Umeragi. Ele não foi o único a perceber que Rumiko talvez não conseguisse terminar sua fala, por isso decidiu retomar a palavra antes que sua mais famosa chefe de pesquisas tivesse problemas emocionais. Toshihiro e Lily apertaram as mãos da mestra de Fenki enquanto Umeragi continuava. – A parte que me intriga é a parte que ela diz que fugiu com medo do Yuy.
A última fala de Umeragi fez com que todos os beybladers voltarassem suas atenções para o mestre de Fenhir, aguardando sua reação com a respiração trancada. Sentado entre Koichi e Umeragi, Hehashiro permaneceu estático em seu lugar, olhando de um para o outro como se se preparasse para uma explosão.
- É mesmo? – Para alívio geral, Koichi não se mexeu, apenas ergueu uma sobrancelha (somente Yoshiyuki percebeu este pequeno jesto, porém).
- Sim. Até eu sabia o quanto ela gostava de você. Entre os presentes aqui nesta sala eu sou o que te conhece a mais tempo, e por causa disso eu tenho certa autoridade ao dizer que na época que ela fugiu você não era mais uma pessoa que despertasse esse tipo de medo. Você é agora, e foi antes de conhecer os Taichi, mas naquela época você era quase tão simpático quanto eu. – Yoshiyuki sorriu com a fala de seu chefe. Ken e Takashi quase soltaram pequenas gargalhadas, mas se controlaram bem a tempo.
- Vá direto ao ponto. – Retrucou Koichi, no mesmo tom que antes. – Você acha que ela estava mentido. E daí?
- E daí que, se ela realmente fugiu, foi por algum outro motivo. E eu quero descobrir que motivo é esse.
- Como assim? – Perguntou Nathaliya, inclinando-se em sua cadeira.
- Eu quero chegar até o fundo dessa história. Se Satsuki está mesmo doente, então nós vamos trazê-la de volta para Tóquio e curá-la, e vamos descobrir o que ela está escondendo.
- Você não sabe onde ela está. – Koichi também se inclinou para frente, encarando Umeragi com veneno no olhar. Hehashiro apertou o corpo contra sua cadeira, tentando ficar fora da linha de tiro. – E mesmo se soubesse, nada garante que ela vai estar viva quando você chegar até ela, ou que ela sobreviva à viagem de volta. – A grande maioria dos beybladers se encolheram ao ouvir o líder dos Taichi falar tão friamente sobre o possível destino da loira CDF, mas Koichi os ignorou. – Como você planeja chegar até ela em primeiro lugar?
- Seu filho sabe o caminho. – A expressão até então neutra no rosto de Koichi tornou-se fria e intimidante ao ouvir Umeragi chamando Kouji de "seu filho". – Nós vamos mandá-lo de volta para casa para trazer a sua namoradinha de volta.
Sua escolha de palavras deixava óbvio que Umeragi estava provocando seu antigo rival. Sentindo que a situação poderia sair do controle em poucos instantes, Yoshiyuki resolveu intervir:
- Mandar o Kouji sozinho? Como é que ele vai fazer pra trazer a Satsuki Nee-san então?
- Ele não vai estar sozinho, Yoshiyuki. – Umeragi passou a encarar o Yuy mais novo, forçando Koichi a jogar o corpo para trás novamente e adiar sua explosão. Ao lado do líder dos Taichi, Hehashiro respirou aliviado. – Eu acho que essa seria uma boa oportunidade para nossos filhos explorarem o país e aprenderem alguma coisa diferente.
- Você quer mandar as crianças junto com o Kouji? – Perguntou Isaac, sentando entre seu irmão e Nathaliya. O músico era um dos que mais havia mudado fisicamente com o passar dos anos: ele havia crecido até ficar quase do mesmo tamanho que Koichi, porém com bem menos músculos. Seu cabelo estava cortado bem curto e de volta a sua cor natural, e sua voz havia se tornado consideravelmente mais grave do que a de Ken. Além de Umeragi, ele era o que usava as roupas mais formais: camisa e gravata negras. – Isso não é perigoso?
- E irresponsável? – Completou Lily, com seus instintos de mãe super-protetora gritando dentro de sua cabeça.
- Eles têm a mesma idade que vocês tinham no campeonato mundial. Se vocês podiam salvar o mundo com essa idade, por que seus filhos não podem sair em uma pequena aventura? – Havia um pequeno sorriso no rosto de Umeragi enquanto ele falava. As reações de Lily e Isaac eram esperadas, por isso ele já tinha argumentos preparados para desafiá-los. – Além disso, nós todos somos adultos muito ocupados agora, não temos tempo pra ficar percorrendo o país atrás de uma mulher doente...
- Então a gente devia deixá-la em paz!
A exclamação de Koichi fez todos ficarem tensos novamente. Todos menos Umeragi, quer dizer. Afinal, uma das poucas coisas que não haviam mudado em sua personalidade era o seu prazer em provocar o antigo rival.
- Hum... me parece que alguém está com medo de encontrá-la de novo! É por que você acha que ela está falando a verdade ou por que você acha que a verdadeira razão é ainda pior do que simplesmente ter medo de você?
- Eu não tenho medo de encontrá-la! – Kochi se levantou bruscamente, derrubando sua cadeira no processo. Umeragi se levantou também, porém com um pouco mais de calma e suavidade. Sentindo o perigo de ser pego no meio do fogo cruzado, Hehashiro se deixou escorregar em sua cadeira, usando de sua baixa estatura para logo desaparecer embaixo da mesa. Ele reapareceu entre Lily e Takashi, a uma distância segura do confronto.
- Sim, você tem! Você está com medo que ela te rejeite de novo e que ela confirme o que disse na carta! Você está com tanto medo que prefere vê-la morta do que encará-la novamente! – Yoshiyuki pensou em se levantar também, mas Nathaliya o segurou. O mestre de Ceres encarou a companheira com o senho franzido, mas não tentou se levantar novamente. Talvez fosse melhor deixar seu Nii-chan explodir logo de uma vez.
- Satsuki fugiu! – Koichi socou a mesa para enfatizar seu argumento. Em seguida ele jogou a cadeira de Hehashiro longe e venceu a curta distância que o separava de Umeragi, erguendo-o pela gola da camisa até seus olhos ficarem no mesmo nível. Apesar desta demonstração de força, o dono da ShinTec não dava sinais de estar com medo. – Não importa se ela estava mentindo sobre seus motivos ou não, o fato é que ela fugiu! Se ela não quer mais saber da gente, então é melhor deixá-la em paz!
- Parem com isso, vocês dois! – A maioria dos beybladers respirou aliviado quando Nathaliya se levantou, fazendo o que Yoshiyuki pretendia fazer, porém de um jeito muito mais intimidante. Se ela já era agressiva e assustadora quando adolescente, após se tornar a chefe dos bombeiros sua capacidade de impôr respeito aumentara consideravelmente, o que fazia com que ela fosse a única do grupo capaz de rivalizar o mestre de Fenhir em matéria de ar autoritário. – Koichi, se você acha que a Satsuki deve ficar onde está, então você não tem mais nada do que fazer aqui! Ninguém vai te forçar a participar do plano do Umeragi, e enquanto você não assumir a responsabilidade pelo Kouji você também não vai poder impedi-lo de ir atrás da mãe se ele quiser!
- Tudo bem então. – O líde dos Taichi soltou Umeragi e se voltou para a mestra de Ciesel, passando por seu irmão para ficar ao lado dela. O mestre de Zeus ajeitou sua gravata como se nada fora do normal tivesse acontecido e voltou a calmamente observar o desenrolar dos acontecimentos. – Eu não quero ter nada a ver com nenhum plano idiota de resgate. Eu duvido que vocês cheguem a tempo, e se por um acaso chegarem, não precisam se dar ao trabalho de me manter informado. – O homem voltou-se para o seu irmão em seguida. – O que acontece com o Kouji não é problema meu. Se quiser mandá-lo de volta com um bando de crianças imaturas, a decisão é sua.
O líder dos Taichi não olhou para mais ninguém ao deixar a sala, batendo a porta ao sair.
- Mais alguém planeja se rebelar completamente ou podemos discutir o plano a sério agora? – Perguntou Umeragi, voltando a se sentar agora que o perigo parecia ter passado. Os demais beybladers se entreolharam, tensos, até Lily resolver falar:
- Eu continuo achando que não é uma boa idéia mandar as crianças sozinhas. Elas são muito novas, e tem a escola e...
- Se tudo der certo, elas não vão ficar mais do que dois ou três dias fora. Tsubasa, Yuuki e Satsuki são espertos o suficiente para ajudar os outros a recuperar qualquer matéria perdida. – Umeragi respondeu aos argumentos da mestra de Roufe com seu tom de homem de negócios prestes a comprar uma empresa concorrente, mostrando seu raciocínio impecável e sua habilidade oratória que usava para atrair seguidores desde os tempos da escola. – E eu já disse o que penso sobre eles serem muito novos.
- Eu acho que o Umeragi está certo. – Comentou Hehashiro, surpreendendo a esposa. Ele ainda estava ao lado de Lily, não muito animado com a tarefa de ter que ir resgatar a sua cadeira no fundo da sala antes de poder voltar ao seu lugar. – Quando eu tinha a idade do David eu estava viajando sozinho pelo mundo. Toshihiro tinha quase treze anos quando ele saiu com os Taichi, e os Kita no Ookami lutavam por suas vidas quando eram até mais novos do que isso. Fora que, se o Kouji conseguiu fazer a viagem até aqui sozinho e sem nenhum problema, fazer o mesmo trajeto com um pouco mais de companhia não devia ser difícil.
Alguns beybladers concordaram com a cabeça. Lily olhou feio para o marido por alguns instantes antes de baixar a cabeça e admitir a derrota:
- Talvez você tenha razão. Eu tenho que parar de ser tão super-protetora assim. David não é mais uma criança pequena, ele sabe se cuidar sozinho...
- Fora que essa pode ser uma oportunidade para eles aprenderem coisas que a escola não ensina e ver coisas que eles talvez só pudessem ver pela tv. – Completou Yoshiyuki, sorrindo animado. Ele estava gostando do plano de seu chefe. Se Umeragi estivesse certo e Satsuki voltasse para Tóquio e fosse curada, essa seria sua chance de assumir novamente o papel de cupido e fazer seu irmão voltar a ser o que era há dezesseis anos atrás.
- Então nós vamos mesmo mandar as crianças atrás da Satsuki? – Perguntou Toshihiro, vendo que todos agora pareciam ser a favor do plano. – Quando?
- Quanto mais cedo melhor. – Respondeu Umeragi, com um ar de satisfação pessoal inconfundível agora que todos o apoiavam. – Vamos falar com as crianças e ver o que elas acham. Se tudo der certo, talvez possamos mandá-las em dois ou três dias.
- Só isso? – Perguntou Lily, fazendo com que Hehashiro a abraçasse por trás para consolá-la. – É tão pouco tempo...
- Nós não sabemos por quanto tempo mais a Satsuki vai resistir. Se não nos apressarmos, não só a viagem terá sido em vão, mas vamos forçar o Kouji a ver aquilo que sua mãe queria evitar ao mandá-lo pra cá.
- Você está certo, nós não temos muito tempo. – Admitiu a mestra de Roufe, aconchegando-se no abraço do marido. – Vamos fazer isso então.
- Se todos estão de acordo, eu declaro essa reunião encerrada, e sugiro que voltemos à casa da Rumiko para contar o plano às crianças.
Os beybladers concordaram com o dono da ShinTec, não demorando para deixar a sala em um grande grupo animado.
- Agora é sua vez, Kouji Kinomoto, quero ver do que você é capaz! – Desafiou Satsuki enquanto ela recolhia sua beyblade da arena em seu quarto. A garota havia acabado de derrotar seu irmão de uma maneira particularmente humilhante. Antes de Yuuki, Satsuki já havia derrotado David, Sasha, Shizune, Kenji e Akiko, todos com relativa facilidade. O único que pareceu representar um certo desafio para a filha de Rumiko fora Tsubasa, mas o garoto também foi derrotado depois que Fenki e Zeus usaram seus ataques especiais. Para alívio de Kouji, o quarto dos gêmeos continuava inteiro mesmo depois de tantas lutas.
- Ah, eu não sei se posso contra você, Satsuki-chan! Você é muito forte! – Declarou Kouji, impressionado com a demonstração de poder da garota.
- Deixa de ser covarde! – Satsuki se aproximou de Kouji com um sorriso arrogante. – Não precisa ficar com medo de perder! Como você acabou de ver, todos eles perdem pra mim, não é como se sua derrota fosse ser algo surpreendente.
A maioria dos garotos, com exceção de Yuuki, que se recolhera para um canto obscuro do quarto depois de sua derrota particularmente humilhante, e Tsubasa, que era educado demais para contrariar aqueles mais fortes do que ele, fez cara feia e protestou contra a arrogância da garota. David foi o mais barulhento, agarrando Kouji pelos ombros e o guiando até a arena. Apesar de ser consideravelmente mais alto que o filho de Hehashiro e Lily, Kouji sentia-se tão nervoso em meio ao ambiente tenso do quarto que não ofereceu nenhuma resistência.
- Você vai ter que fazer ela pagar, Kouji! Não deixe que ela te insulte desse jeito!
- Isso, Kouji-Nii! – Exclamou Kenji, juntando-se ao primo na borda da arena – Nós seremos sua grande torcida empolgada! – Com um sinal para Akiko, os dois começaram a encenar uma coreografia ensaiada que haviam aprendido com Alice da última vez que a Portuguesa os visitara para o lançamento de um livro no Japão. Sentindo-se ainda mais nervoso agora que todos pareciam ver nele a última esperança de derrotar a lutadora mais forte, Kouji não teve outra alternativa se não tirar Flamelus do bolso e se preparar para sua primeira luta em Tóquio.
- Preparados? – Perguntou Tsubasa, assumindo a posição de juiz. Por ser o mais velho e mais responsável (ao menos até a chegada de Kouji) do grupo, Tsubasa sempre exercia essa função quando não era ele a lutar. Os dois lutadores acenaram com a cabeça. Satsuki estava confiante como sempre, porém as mãos de Kouji tremiam e ele por pouco não deixou sua beyblade cair antes do lançamento. – Três, dois, um, Go Shoot! – E as beybladers caíram na arena.
O estilo de Satsuki era muito parecido com o de Koichi, apesar de os dois nunca terem treinado juntos. Ela gostava de acabar com suas lutas rapidamente, sem piedade do adversário. Suas roupas também contribuíam para dar a impressão de que ela era uma lutadora durona e impiedosa: sua camiseta verde-musgo sem mangas tinha algo que lembrava ombreiras cor-de-vinho pontiagudas de aspecto letal. Seus braços estavam cobertos até o cotovelo por uma espécie de armadura vermelha com protuberâncias de metal prateado, e sua calça era azul escuro e larga, cheia de bolsos, presa por um cinto de couro marrom. Para completar o visual de guerreira feroz, seus braços de garota de doze anos já apresentavam certo desenvolvimento muscular, resultado das quatro horas diárias de treinamento com a fera-bit que herdara da mãe. Com as beyblades na arena, a garota não perdeu tempo mostrar seu poder:
- Fenki, ataque Dark Graveyard!
Ao ouvir o nome da técnica especial, David, Shizune e Sasha involuntariamente fecharam os olhos, com medo do que poderia acontecer. Até o momento ninguém havia conseguido resistir ao novo ataque do centauro, que fazia com que grossas tumbas de pedra irrompessem do chão da arena e tentassem acertar o adversário, expulsando-o da arena.
- Podem olhar, o Kouji não foi atingido! – Exclamou Kenji, com um largo sorriso no rosto ao presenciar o sucesso do primo. Até o momento Tsubasa era o único que havia conseguido sobreviver a esta fase inicial do ataque de Fenki.
- Isso, Kouji, você consegue! – Exclamou David, passando a fazer parte da torcida organizada do garoto. – Detona essa monstra por nós!
- Hupf, parabéns por sobreviver até aqui. – Declarou Satsuki, lançando um olhar particularmente venenoso na direção de David. Sua beyblade estava escondida no labirinto de lápides que se formara na arena enquanto Flamelus e Kouji permaneciam parados e alerta à espera do próximo ataque. – Isso prova que você não é um completo idiota como certas pessoas que eu conheço. – Como Satsuki ainda estava encarando David, o garoto mostrou a língua para ela, dando a entender que não havia sido afetado pela provocação. Quando a garota voltou a falar, sua voz saiu fria calculada, como se ela estivesse sentenciando Kouji a morrer dolorosamente. – Pena que o fim esteja próximo. Fenki, finalize o ataque.
Sem aviso, todas as tumbas começaram a cair, uma por uma em efeito dominó, forçando Flamelus a correr pela arena numa tentativa desesperada de fuga. A torcida de Kouji observou angustiada o desenrolar dos acontecimentos, pois nem mesmo Tsubasa conseguia se livrar desta parte do ataque. Quando a poeira levantada pela queda dos blocos de pedra cessou, porém, as duas beyblades continuavam a girar como se nada tivesse acontecido, para alívio geral da torcida.
- Ahá! Eu sabia! – Exclamou Sasha, abraçando Shizune para extravasar sua felicidade. A garota retribuiu o abraço e, aproveitando-se de uma pequena vantagem de altura com relação ao primo, bagunçou seus cabelos bicolores.
- Eu não acredito! Eu não acredito que vivi para ver esse momento! – Exclamou David, abandonando seu posto na torcida organizada para pular no pescoço do mestre de Flamelus. – Há anos eu venho tentando vencer essa daí, mas nunca passo do primeiro ataque! Você é um gênio, Kouji!
Do outro lado da arena, Satsuki não fez nenhum comentário, apenas cruzou os braços na altura do peito e mordeu o lábio inferior em concentração. Estava surpresa com o desenrolar da luta, é verdade, porém ela ainda tinha outras cartas na manga.
- David-kun, a luta ainda não acabou. – Ainda olhando fixamente para a arena, Kouji se desvencilhou da carga extra em seus ombros. Suas mãos não tremiam mais, sua auto-confiança aumentava a medida que a luta se arrastava. Seu sucesso até o momento era animador, mas ele devia ficar atento para uma mudança de rumo no confronto.
Kouji estava certo. Mal acabara falar e as duas beyblades partiram para um combate de força bruta, se atacando intensamente na arena e dando sinais de que logo o resto do quarto poderia sofrer danos materiais. Kouji pensou em fazer algum comentário a respeito disso, mas foi impedido quando Satsuki chamou seu próximo ataque:
- Fenki, Black Hole!
A torcida de Kouji soltou exclamações exasperadas. Ninguém além de Yuuki conhecia este ataque da garota, já que ela nunca precisara usar mais do que o Dark Graveyard para vencer suas lutas. Yuuki só conhecia essa técnica porque treinava no mesmo espaço físico que a irmã, e por isso era constatemente utilizado como saco de pancadas e "piloto de testes" por ela. Como o garoto permanecia ignorado em um canto to quarto, porém, ninguém reparou em seu pequeno sorriso triste que refletia sua alívio por deixar de ser o único a sentir o efeito deste ataque.
O Black Hole fez com que o chão de metal da arena começasse a derreter, formando um rodamoinho que aos poucos afundava no que deveria ser o fundo da arena, mas que por causa do ataque havia se tornado um grande buraco negro que sugava tudo ao redor. Os queixos dos beybladers desceram em queda livre ao ver Flamelus sendo sugado junto com o chão derretido da arena. Fenki girava logo a cima da arena, emitindo uma luz negra e um tanto sombria considerando as circunstâncias.
- Ai, ela vai ganhar… – Resmungou David, desanimado. O garoto baixou a cabeça, resignado, e bateu a cabeça no armário dos gêmeos, como se isso fosse de alguma maneira mudar a situação na arena. O restante da torcida de Kouji também se desanimou à medida que beyblade do garoto se aproximava da boca do buraco negro, até que no fim apenas Kenji ainda gritava palavras de incentivo ao primo:
- Vamos lá, Kouji-Nii! Faz Flamelus sair daí e atacar Fenki e acabar com a luta! Eu sei que você consegue!
Kouji, porém, não estava escutando o primo. Seus olhos estavam fechados para que ele pudesse se concentrar em sua comunicação com sua fera-bit. Fazia pouco tempo que o garoto conseguira atingir esse nível de sincronia com Flamelus, por isso falar com o grifo ainda exigia um grande esforço e concentração.
'Flamelus, por favor, não desista!' Pediu ele, enquanto tentava achar uma saída para a situação.
'Eu não desistirei enquanto você não desistir, Mestre! Nós vamos encontrar um jeito de vencer essa garota metida, você vai ver!' Respondeu a fera-bit com um tom de voz animado e determinado. Quando Satsuki explicara pela primeira vez a Kouji o que eram as feras-bit, o garoto pensara que elas seriam todas criaturas assustadoras e sérias por causa de seus milhares de anos de existência. Foi uma surpresa para ele falar pela primeira vez com Flamelus e perceber que o grifo parecia um adolescente imaturo e fofoqueiro. A personalidade "interessante" da fera-bit ainda o impressionava de vez em quando. 'Vamos atacar pra valer e sem piedade! Vamos usar todo o nosso poder pra garantir a vitória!'
'Mas se fizermos isso vamos destruir o quarto...'
'Não seja tão covarde, Mestre! Eu prometo que não destruo muita coisa, mas eu não posso ganhar do Fenki se eu não lutar pra valer!'
Ao redor de Kouji, sua torcida começou a perceber que o garoto não estava mais prestando atenção no que acontecia ao seu redor. Já fazia algum tempo que ele se encontrava parado em frente à arena com a cabeça baixa e o corpo rígido. Sua beyblade continuava escorregando para dentro do buraco negro, mas não a uma velocidade tão rápida quanto antes. Satsuki também estava calada, e com a cabeça baixa. Fenki falava com ela em um tom indignado, e ela estava começando a perder a paciência:
'Mestra, se continuarmos assim aquele passarinho com rabo de gato vai conseguir se soltar! Nós precisamos vencê-lo mais rápido!' Dizia a fera-bit histérica. Aparentemente Fenki estava ainda mais determinado a ganhar do que sua mestra, pois estava com saudade de ter Flamelus como oponente.
'Eu quero ver do que o Kouji-san é capaz, Fenki. Pelo que você me disse, Flamelus nunca foi mais forte do que você. Não tenho motivos para pensar que ele vai conseguir escapar, mesmo se os dois puderem se comunicar como a gente.'
- Fire Hurricane! – Kouji e Flamelus escolheram aquele exato momento para atacar. O grifo havia finalmente convencido seu mestre de que seu furacão de fogo não causaria nenhum dano ao restante do quarto. As chamas que saíram da beyblade branca e roxa logo foram sugadas pelo buraco negro, fazendo com que este explodisse depois de algum tempo engolindo o fogo. Kouji, Satsuki e Tsubasa foram jogados para trás com a força da explosão, porém o quarto continuou intacto, como Flamelus prometera.
Tsubasa foi o primeiro a se recompôr o suficiente para se aproximar da arena. Satsuki e Kouji o seguiram instantes depois, e o restante dos beybladers começou um empurra-empurra para ficar perto de Kouji assim que o resultado do confronto foi anunciado:
- E o vencedor é Kouji Kinomoto!
- Eu não acredito! Eu não acredito! – Grirou David, o primeiro a conseguir chegar perto o suficiente para ver com seus próprios olhos que a beyblade negra se encontrava parada no centro da arena, com a beyblade branca e roxa cutucando-o provocativamente, ainda girando forte.
'Toma isso! Toma isso!' gritava Flamelus na mente de Kouji a cada novo golpe na beyblade parada. 'Quem é o mais fraco agora, hein? Quem é o mais fraco?' O garoto teria rido da atitude de seu monstro sagrado se sua torcida animada não tivesse escolhido este momento para demonstrar sua felicidade em abraços e apertões.
- Você é o melhor, Kouji-Nii! – Exclamou Kenji, pendurado no pescoço do primo. O garotinho tentara pular em seu colo como fazia com o pai, porém Kouji era muito menor do que Yoshiyuki e não tinha nenhuma prática agarrando bombas energéticas. – Você venceu a Satsuki-sama!
- Finalmente o reinado daquela monstra caiu! – Continuou David, posicionando-se ao lado do mestre de Flamelus para dar-lhe tapinhas amigáveis no ombro. – Você não faz idéia de quanto tempo eu esperei por isso, Kouji! A Satsuki é uma ditadora malvada que ficava usando a força pra nos intimidar e nos impedir de aproveitar as coisas boas da vida! Você é o nosso herói!
Enquanto Kenji, David, Sasha, Shizune e Akiko continuavam a cumprimentá-lo e parabenizá-lo pela derrota, Kouji ficou sem saber o que dizer, voltando a ser o garoto tímido e envergonhado de sempre. Depois de algum tempo, porém, uma declaração de Akiko o deixou sem outra alternativa:
- E você derrotou Fenki! O que será que o Koichi-sensei vai dizer quando ele souber que o filho dele finalmente conseguiu fazer aquilo que ele vem tentando há mais de vinte anos?
Os beybladers ficaram todos em silêncio esperando a reação de Kouji. Akiko havia sido a primeira a perceber esse pequeno detalhe, os demais estavam tão preocupados em comemorar que haviam perdido um pouco a capacidade de analizar os significados menos imediatos do confronto.
- O que quer que ele pense, eu espero que isso não piore a opinião do Koichi-san sobre mim... – Kouji baixou a cabeça, lembrando-se do seu primeiro encontro com o pai, e como Koichi parecia odiá-lo somente por sua existência.
- E por que isso pioraria as coisas? – Perguntou Sasha. – Saber que o Kouji-san ganhou de Fenki devia deixar o Koichi-san orgulhoso, não?
- Ele pode ficar irritado porque o Kouji-san mal apareceu e já parece ter mais poder do que a única fera-bit que ele nunca conseguiu derrotar. – Declarou Yuuki, surpreendendo os demais por finalmente dizer alguma coisa. Agora que a luta estava terminada, ele havia se juntado a Tsubasa e Satsuki do outro lado da arena, observando a comemoração dos demais com uma expressão neutra. – Com o orgulho ferido desse jeito, Koichi-san é capaz de odiar o Kouji-san ainda mais.
- Você não precisava ser tão direto! – Resmungou David, percebendo que Kouji não reagira muito bem ao comentário do amigo. O mestre de Flamelus baixou a cabeça, corando levemente, e suspirou. – Era pra gente estar feliz agora, não depressivos porque o Kouji finalmente ganhou da sua irmã! Aliás, você também devia estar feliz e comemorando com a gente! – Ele acrescentou, encarando Yuuki de um jeito estranho. – Do jeito que a monstra de tortura eu achei que você seria o primeiro a pular de alegria!
- Eu vou pular de alegria quando conseguir derrotar a minha irmã com as minhas próprias forças, David. – O garoto respondeu, impassível. Ele estava sentado ao lado da irmã (Satsuki se ajoelhara na frente da arena ao ser derrotada, encarando sua beyblade em um estado de choque até Yuuki e Tsubasa aparecerem e retirarem Fenki de lá. Preocupados do jeito que estavam em comemorar com Kouji, os demais não perceberam nada disso) e tinha Fenki em suas mãos. – Até lá eu não me importo se alguém conseguiu vencê-la ou não.
- Blé, como você é frio! – Retrucou o moreno, mostrando a língua para o amigo.
- Eu sou realista.
A discussão entre Yuuki e David continuou por mais algum tempo. Observando os dois, Kouji teve a impressão de que isso era algum tipo de rotina, pois não só ninguém tentava pará-los, como os dois garotos pareciam ter seus argumentos na ponta da língua prontos para serem repetidos.
- Hey, quem mais quer lutar? – Perguntou Shizune de repente. – Agora que a Satsuki já enfrentou todos nós eu acho que está na hora de lutarmos entre a gente, não?
- Fora o Kouji-san! Se ninguém conseguia ganhar da Satsuki antes, ninguém vai conseguir ganhar do Kouji-san agora! – Declarou Sasha, ficando ao lado da prima e tirando uma beyblade metade verde e metade vermelha do bolso. – Sendo assim, eu te desafio, estimada prima minha! – Para dar mais efeito a suas palavras, o garoto apontou a beyblade para Shizune, que reagiu tirando sua própria beyblade vermelha do bolso.
- Desafio aceito! Vão saindo vocês todos porque a arena é nossa!
Shizune e Sasha trataram de expulsar todos os beybladers das proximidades do campo de batalha. Yuuki e Satsuki se recolheram para o mesmo canto que o novo mestre de Fenku ocupara durante a última luta, observando de longe o que acontecia com um ar de quem está apenas vagamente interessado. Os demais passaram a rodear a arena, com Tsubasa novamente assumindo o papel de juiz.
- Pronto pra perder, Alexandre Isaakov? – Perguntou Shizune, chamando o primo pelo nome completo para provocá-lo. Apesar de ser dar muito bem com ele no dia a dia, na arena eles cultivavam uma rivalidade que não estava presente entre seus pais. Eles sabiam exatamente quantas lutas haviam travado desde que receberam suas beyblades e feras-bit, e sabiam quantas lutas cada um havia vencido. Até aquele momento Shizune havia vencido 287 dos 573 confrontos travados, e Sasha vencera os outros 286. Era raro um deles vencer mais do que três confrontos seguidos, na verdade, pois o nível de poder dos dois era terrivelmente parelho.
- Você devia fazer esta pergunta a você mesma, Shizune-tan! – Devolveu Sasha, também em tom de provocação. – Eu vou igualar o nosso placar hoje, você vai ver!
- Competidores prontos? – Perguntou Tsubasa antes que a discussão pudesse se tornar longa e chata. Os primos concordaram com a cabeça. – Três, dois, um, Go Shoot!
As beyblades partiram para o ataque assim que se encontraram no ar, continuando o quebra-quebra ao pousarem na arena. Este primeiro estágio da luta não durou muito, porém, pois logo Sasha decidiu agir:
- Kylk, Tempestade de Gelo!
Uma raposa do ártico branca com as patas vermelhas e a cauda verde irrompeu da beyblade de Sasha, mostrando seus dentes em um sorriso incrivelmente parecido com o de seu mestre.
- Kylk? Que fera-bit é essa? – Perguntou Kouji, tentando se lembrar se sua mãe mencionara o monstro raposa.
- É a fera-bit que o chefe do meu pai criou pro Sasha! – Respondeu Kenji, que se posicionara ao lado do primo para assistir à luta. – Como as feras-bit dos Soldier of Russia são clones feitos especialmente pros seus mestres, Comulk e Ciesel não poderam ser passadas pro Sasha como Flamelus passou pra você, então nossos pais criaram Kylk e Cesie pra nós. – Enquanto falava, o garotinho tirou do bolso sua própria beyblade, que continha um uma criatura que poderia ser um unicórnio alado no bit-chip. – Sasha e eu temos feras-bit personalizadas, isso não é legal?
- Eu também! – Exclamou Akiko, se intrometendo na discussão. Segundos antes ela estava ao lado de Shizune do outro lado da arena, mas agora se colocava entre os dois primos, como se atraída pela conversa sobre feras-bit. – Como a fera-bit do meu pai agora está trancada no super-computador da ShinTec, eles fizeram uma fera-bit pra mim também! – E ela mostrou sua beyblade para Kouji, que continha um cão de três cabeças de aspecto letal no bit-chip. – Fryskie é bem mais forte do que Cesie! Eu sempre ganho quando a gente luta!
- Isso não é verdade! – Retrucou Kenji, cruzando os braços e fazendo beicinho de ofendido.
- É sim! – Devolveu Akiko, imitando a postura do garotinho.
- Não é!
- É sim!
- Não é!
O argumento das criancinhas talvez tivesse continuado por mais tempo se nessa hora o ataque de Kylk não tivesse se espalhado por todo o quarto. Farpas de gelo irromperam da beyblade vermelha e verde e se espalharam por todas as direções, obrigando o público a se proteger como podiam. Akiko e Kenji decidiram defender Kouji dando socos e chutes nas farpas que se aproximavam deles, David pulou para trás da cama de Yuuki e Tsubasa apanhou um cabo de vassoura que se encontrava convenientemente jogado no chão perto dele e o usou para desintegrar as farpas que ficavam em seu caminho. Em poucos instantes o quarto ficou completamente congelado.
- Blé, eu já conheço esse truque! – Exclamou Shizune, que se desviara das farpas vindas em sua direção pulando de um lado para o outro. – Se pensa que eu vou perder só porque você congelou a arena...
- Eu ainda não terminei, Shizune-tan! – Exclamou Sasha, sorrindo triunfante. Sua fera-bit exibia o mesmo sorriso, porém com dentes bem mais afiados. – Kylk, Anel de Magma!
Da beyblade de Sasha saiu um anel de fogo que se expandia ao avançar pela arena. O gelo que cobria a arena virou água por causa deste ataque, e em pouco tempo a beyblade de Shizune afundou, aparando de girar.
- E o vencedor é o Sasha! – Declarou Tsubasa, erguendo o cabo de vassoura no ar para marcar seu veredito.
- Ahá! Eu consegui! 287 a 287! – O vencedor pulou, socando o ar, e invadiu a arena para pegar sua beyblade. Ele continuou em frente, ficando cara a cara com a prima. – Que tal a minha estratégia nova? Eu a desenvolvi só pra ganhar de você hoje!
- Na próxima eu vou dar o troco, você vai ver!
Sasha e Shizune mostraram a língua um para o outro e se deram as costas. Quando ficou claro que nenhum dos dois falaria mais nada, David resolveu se pronunciar:
- O próximo sou eu! Eu te desafio, Tsubasa Umeragi! – O garoto tinha sua beyblade já no lançador e a apontava para o mestre de Zeus. – Vou te derrotar hoje pra poder derrotar a Satsuki-monstra e ganhar o direito de desafiar o Kouji!
- Como assim, "ganhar o direito"?
A pergunta de Kouji foi completamente ignorada, pois Kenji resolveu se manifestar na mesma hora:
- Que tal se a gente fizer uma luta em dupla? Eu quero desafiar a Akiko-chan porque ela falou mal da minha fera-bit! – Os olhos do garotinho brilhavam intensamente por causa dos confrontos eminentes, e sua beyblade parecia refletir esse brilho. – Vamos fazer eu e o David contra o Tsubasa-san e a Akiko-chan!
- Isso, boa idéia!
Vendo que tanto David quando Kenji estavam entusiasmados com a idéia, Tsubasa e Akiko não tiveram outra alternativa se não aceitar o desafio e preparar suas beyblades. Kouji foi escolhido para ser o juiz desta vez, e os cinco tomaram suas posições na arena.
- Competidores prontos?
Antes que os Beybladers pudessem responder, porém, a porta de entrada do apartamento se abriu e Kenji saiu correndo gritando "papai!", como se pudesse detectar a presença do mestre de Ceres com poderes sobrenaturais.
- Hey, se os adultos voltaram isso significa que a gente pode perguntar sobre a reunião! – Exclamou David, também largando a luta para correr até a sala. Sem outra alternativa, os demais foram atrás dele, também ansiosos para saber o que havia acontecido na reunião misteriosa.
