Cap. 2 – Dúvidas, suspeitas... Saudade

Nada melhorou, muito pelo contrário. Emily se fez distante, fechada, estava constantemente dispersa e na defensiva com todos. Não tenho certeza de que os outros percebiam, mas era evidente que ela escondia algo. E algo grande. Depois de sair com ela por pouco mais de um ano, podia reconhecer os sinais, mas não sabia o que escondia. Isto era algo que não conseguia decifrar.

No dia seguinte ao rompimento, ela tentou manter a distância, sem sequer me olhar. Tentei manter a aparência de que tudo estava bem e que não notava a pouco habitual distância de Emily. Mesmo que isto fosse terrível. A distância imposta, a frieza, o fato de não poder encontrar seu olhar, tudo era doloroso demais.

O trabalho nos obrigava a ficar próximos e ao mesmo tempo nos dava a oportunidade de nos afastarmos. Cada um mergulhado em um arquivo, em um caso, em algo que nos mantivesse longe um do outro. A rotina, ainda que estranha, de trabalhar na UAC.

Quando nosso primeiro caso chegou nada havia melhorado. E o caso nos foi bastante perturbador, a morte nunca foi um assunto agradável. E não fui o único a perceber as mudanças em Emily. Morgan foi me falar dela na primeira oportunidade, estava achando Emily estranha e quando lhe perguntou o que acontecia, num táxi estranho e fedorento, ela se esquivou totalmente do assunto.

- Que está acontecendo com ela? – Morgan me perguntou.

- A que se refere? – Tentei fugir da conversa.

- Sabe muito bem a que me refiro, Hotch. – Seguiu firme. – Não está parecendo ela mesma, não fui só eu que percebi. Sei que você também nota. Se sabe de alguma coisa seria bom compartilhar.

- Não sei o que está acontecendo com ela. – Respondi por fim. – Nem o que aconteceu.

- Vamos, parceiro! Não me diga que nem a você ela contou o que se passa? – Olhou-me de forma inquiridora, mas não tinha nada para lhe dizer e ele pareceu entender isto. – Sério? Não te disse nada? Isto é impossível, vocês dois...

- Sinto muito, Morgan. – Cortei para evitar mais explicações. – Espero que não seja nada importante. Qualquer coisa que souber te direi.

Não que fosse um problema Morgan sentir que não era normal que ela e eu não nos falássemos, mas achei que não podia mencionar que ela estava realmente estranha sem revelar que até a noite passada estávamos juntos e que isto tinha me perturbado totalmente.

Não podia falar disto, mas de algum modo começava a parecer que seria inevitável entrar no perigoso terreno de ter que descobrir um segredo de Emily Prentiss.

Durante o caso não poderia tentar, não podia me envolver com isto sem colocar em risco a estabilidade da equipe para trabalhar, que já se achava abalada com Emily tão nervosa e preocupada. Mas uma vez que o caso acabou, com a ultima garota a salvo e o suspeito fora do jogo, foi inevitável que me aproximasse de Emily.

A detive quase casualmente antes que deixasse a UAC. Praticamente todos já tinham saído e me pareceu um ótimo momento, de qualquer modo se alguém da equipe nos visse saberia que era melhor deixar as coisas assim.

- Emily! – Chamei em voz baixa. – Estou terminando, quer que te leve?

- Hotch... Que preciso fazer para que entenda? – Disse, parando bruscamente. – Não compreende que terminamos?

- Não, querida. Você terminou comigo e alguma coisa está errada nisto. – Declarei muito convencido. – Precisamos conversar sobre isto, por favor.

Ela soltou um suspiro, parecendo estar a ponto de começar a chorar. Algo a estava deixando descontrolada e não entendia porque não podia me falar, porque não era capaz de confiar em mim, em algum de nós... Simplesmente se trancara num casulo para se proteger, como a Emily Prentiss de cinco anos antes, quando começou a trabalhar na UAC.

- Aaron, chega. Não pode continuar com isto. Falei que acabou.

- Mas, Em...

- Estou cansada, quero ir para casa. Não quero continuar com isto. Terminamos. É simples.

- Emily, eu amo você...

Um silêncio. Uma dúvida. Iniciando um pequeno gesto, quase imperceptível, que ela sempre fazia ao responder "e eu a você", mas ela não o completou. Ficou tudo no "quase". Neste gesto quase imperceptível que somente eu saberia reconhecer.

- É o melhor. Acredite-me, Aaron. – Disse e me olhou triste. – Não faria isto se não fosse o melhor.

Deu a volta, olhou-se uma última vez, como se tivesse ficado algo por dizer, como se ainda tivesse palavras pendentes. Só que, apesar destes sinais, se foi em completo silêncio.

Continua...