Jane P.D.V.
Meu pai foi uma grande inspiração para mim. Acho que por ser filha única, nós tínhamos uma conexão muito forte. Ele foi professor de astrofísica numa universidade e me ensinou tudo o que sabia sobre ciências. Para mim, meu pai foi a pessoa mais sábia que eu já conheci. Nunca conheci ninguém que falasse com tanta paixão sobre ciências como ele. Além de cientista, meu pai foi um poeta e amante incondicional dos mistérios do universo.
Eu cresci ouvindo suas teorias sobre universos paralelos e pessoas, como nós, vivendo em outros mundos... Eu honestamente acho quase impossível a probabilidade de existir vida inteligente em outros planetas, mas não descarto esta possibilidade. Mas meu pai era um sonhador. Ele acreditava que em algum lugar perdido deste imenso universo, há centenas de outros planetas habitados com pessoas como nós, fazendo a mesma pergunta: -Será que existe vida inteligente lá fora?
Quando ele faleceu, foi como se o mundo inteiro tivesse se desmoronado debaixo dos meus pés... Ele era um dos meus pilares, meu herói! A saudade que eu sinto dele ainda continua no meu peito até hoje, mas a dor, com o tempo eu superei. Eu achei um meio de transformá-la em inspiração, é por isso que eu decidi ser professora de ciências, para inspirar meus alunos e despertar neles cada vez mais o interesse pela ciência. Acho que se ele estivesse vivo, sentiria orgulho de mim...
No meio onde trabalho, todos me consideram uma mulher muito inteligente, mas eu discordo deles. Se eu fosse tão inteligente não cometeria tantos erros estúpidos na minha vida. Acho que isso tem um nome melhor: "Amor cego"...
Eu conheci Donald através da minha melhor amiga, Darcy. Ele é primo de uma amiga dela, Darcy me passou o número dele e nosso primeiro encontro foi na mesma lanchonete onde ele me bateu pela segunda vez...
Eu jamais imaginei que Donald era esse tipo de cara. Quando eu o conheci ele era educado e gentil, um homem perfeito. Após seis meses de namoro, ele me pediu em casamento. Foi o momento mais feliz da minha vida! Eu o amava, e aceitei seu anel de noivado na mesma hora, então decidimos morar juntos. Minha mãe ficou um pouco triste por eu ter saído da casa dela, mas ao mesmo tempo feliz, por estar tendo esta grande experiência na minha vida. No começo, Donald me tratava bem, fazia de tudo para me ver feliz, mas com o passar do tempo, ele começou a se distanciar de mim. Tinha dia que ele chegava em casa e passava por mim sem dizer oi, ou ia direto para a sala assistir TV sem dizer uma palavra. Eu achava que era só stress do trabalho, que ele estava passando por um momento ruim e que logo ia passar. Aos poucos, começei a perceber que ele vinha se comportando de uma maneira muito estranha. Donald começou a chegar tarde em casa, e na maioria das vezes, bêbado.
Donald estava se transformando em alguém que eu não conhecia. Ele já não era o mesmo cara gentil, este novo Donald estava se tornando obsessivo e assustador. Fazer amor com ele não era mais prazeroso, era doloroso, literalmente. Era como se ele me usasse como um objeto para seu próprio prazer, como um objeto que pode ser usado e descartado no lixo. As vezes ele me machucava durante o ato, mesmo implorando para ele parar, Donald continuava me provocando dor. Ele não tinha mais controle sob si mesmo. Eu perdi as contas de quantas vezes chorei escondida desejando que aquilo nunca tivesse acontecido...
Donald continuou me perseguindo de todas as maneiras que você possa imaginar. Cada dia que passava ele ficava cada vez mais obsessivo e paranoico. Certa noite, depois de chegar do trabalho, nós discutimos e ele começou a gritar comigo dizendo coisas sem sentido, que eu estava saindo com um cara chamado Steven, um cara que eu nunca vi na minha vida! Donald deletou minha conta no facebook, apagou todos meus contatos do celular, me proibiu de ver Darcy, Darcy! Isso pra mim foi a gota d'água! Eu decidi ir embora de uma vez por todas! Uma noite ele chegou em casa e ficou surpreso de ver minhas malas amontoadas em cima do sofá.
-O que é isso tudo? Estamos indo para algum lugar? Perguntou enquanto tirava o paletó e pendurava no cabide.
-Eu estou. Jane disse cruzando os braços firmemente.
-Como é? Perguntou cerrando as sobrancelhas. Naquele momento eu queria ter coragem suficiente para gritar e dizer que estava tudo acabado. Isso colocaria um ponto final na nossa história, eu estaria finalmente livre. Mas o modo como ele me encarou, me fez sentir como um animal encurralado pelo seu predador, e o que saiu de meus lábios foi: -A-acho que precisamos dar um t-tempo D-donald... Eu não conseguia esconder meu nervosismo, e Donald parecia estar se deliciando dele. Ele ficou lá parado me olhando por alguns segundos, sem expressão. Não dava para dizer o que ele estava pensando, e isso era ainda mais perturbador. Donald passou a mão pelos cabelos suspirando, e então sentou-se no sofá apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
-Sente-se... Ele disse dando uns tapinhas sobre o assento do sofá. O que eu mais queria naquele momento era estar mil metros longe dele, mas ele insistiu, só que desta vez seu tom de voz era autoritário.
-Sente-se Jane!
Eu sentei na ponta do sofá, Donald estava na outra ponta. Um espaço no meio nos separava, era deste modo que eu queria que as coisas ficassem entre nós dois, quanto mais distante melhor.
-Oh, Jane... Jane... ele disse sussurrando. Eu percebi com o canto dos meus olhos que Donald havia diminuído o espaço entre nós, ele estava mais perto, pouco menos de quinze centímetros. Meus músculos enrijecerem e meu coração começou a palpitar com mais força. -Você sabe que não pode ir à lugar nenhum, não sabe? Com um único movimento, ele usou seu próprio corpo para pressionar o meu no canto do sofá, tentei me mexer mas não conseguia. Não havia escapatória. Era só eu, e ele.
-Oh, querida... seu lugar é aqui, bem aqui...
Aquilo iria acontecer novamente, eu sabia disso. Senti sua mão direita apertando com força minha coxa, enquanto com a outra ele acariciava meus cabelos. Eu rezei para que Donald não me machucasse denovo. Tudo o que eu não queria era acordar na manhã seguinte com um olho roxo e ter que explicar para o diretor da escola como foi doloroso ter batido o olho na porta do carro... Com apenas uma mão, Donald puxou com força meus cabelos para trás, soltei um grito abafado quando ele fez isso, minha cabeça ficou inclinada, ele estava com total controle sobre mim.
-Você sabe porque você não vai sair desta casa, Jane?! Você sabe?! Aquele Donald que mais me aterrorizava tinha voltado. Meu corpo todo estremecia cada vez que ele gritava no meu ouvido. Ele arfava e estufava o peito como um animal, era assustador. Donald apertou meu rosto com sua mão livre, quase esmagando meu maxilar.
-Você é minha, só minha entendeu?! Não se atreva a me deixar nunca mais! Você não sabe do que eu sou capaz Jane! Ele empurrou a minha cabeça para o lado e levantou-se sem olhar para mim. Donald pegou a chave do carro e bateu a porta com força quando saiu de casa. Eu deveria ter suspirado aliviada por ele ter ido embora, ter relaxado um pouco, mesmo sabendo que fosse por algum tempo, mas eu não consegui. Eu estava presa dentro de um filme de terror, um filme do qual não havia final feliz. A cena toda já estava escrita, ele voltaria para casa mais bêbado do que antes, gritando e chutando tudo o que visse pela frente. Eu iria acordar assustada por causa do barulho. Donald tem cópias de todas as chaves da casa, então trancar a porta seria inútil. Ele entraria no quarto cambaleando com uma garrafa de cerveja na mão, mas bem consciente de suas ações. Após tomar um gole de cerveja e limpar sua boca na manga da camisa, ele jogaria a garrafa no chão e começaria a tirar suas roupas, começando pela camisa. Eu, como sempre, encolheria minhas pernas, protegendo-as com meus braços, seria o máximo que eu poderia fazer para me defender, mesmo sabendo que Donald as puxaria com força. Seu eu ousasse gritar, ele daria um soco na minha boca fazendo-me calar. "Esse é o nosso segredo." Ele sempre dizia... Então finalmente Donald estaria segurando meus braços com força, grunhindo, arfando e me xingando enquanto pairava por cima de mim demonstrando todo seu amor.
Minutos depois após fazer de mim seu objeto de prazer, ele dormiria pacificamente, como se nada tivesse acontecido. Eu, como sempre, me sentiria suja e culpada. -Como eu deixei isso acontecer denovo? Ao entrar no banheiro e encarar meu reflexo no espelho por alguns segundos, perguntaria para mim mesma se valia a pena viver desse jeito. A resposta seria óbvia. Então eu decidiria por um ponto final no meu sofrimento. Uma lâmina bem afiada iria me tirar daquele inferno. Apenas um único corte e tudo estaria acabado, Donald nunca mais iria me machucar...
Tudo isso passou pela minha cabeça numa fração de segundo no momento que Donald saiu de casa. Suicídio é uma solução bem rápida para qualquer problema, eu pensei nisto várias vezes. Mas é preciso muita coragem para fazê-lo, e eu não tinha coragem para tirar minha própria vida. Eu deveria tê-lo denunciado há muito tempo, mas os únicos motivos que me impediam de fazer isso eram o medo e a vergonha. Tinha medo que ninguém acreditasse na minha história, nem mesmo a polícia. Se ninguém acreditasse em mim, e Donald descobrisse que eu havia o denunciado, ele iria ficar ainda mais furioso, e iria descontar toda sua raiva em mim. Tinha vergonha de contar para minha família e amigos o que estava acontecendo, ninguém sabia e ninguém desconfiava, nem mesmo Darcy.
Mas tudo isso mudou numa noite...
Eu não sei dizer se aquilo aconteceu para meu bem, ou para meu mal. Só sei que que agora praticamente todo mundo em Roswell já sabe da minha história. O que eu mais temia está acontecendo, as pessoas não param de falar sobre mim. Sendo uma professora é ainda mais difícil. As mães dos meus alunos me olham com pena, e cochicham uma com as outras quando me veem. As vezes eu queria desaparecer, ou ficar algum tempo isolada em qualquer lugar, longe de todo mundo...
A nossa discussão começou dentro do carro. Donald me obrigou a ir almoçar com ele na lanchonete, eu não estava com ânimo. Na verdade, eu não tinha ânimo para fazer nada com ele. Mas Donald me ameaçava constantemente. Eu achei que a coisa não poderia ficar pior do que estava, mas ele conseguiu me tirar do sério. Quando Donald estacionou o carro perto da lanchonete, por coincidência, meu colega de trabalho, Matthew Laurence, que é professor de matemática, estacionou seu carro ao lado do nosso. Matthew desceu do carro e acenou para mim, eu acenei devolta, um gesto super normal. Não para Donald...
Ele se virou para mim e disse: -Quem é aquele cara?
-Ele trabalha comigo. Respondi secamente.
-Oh, ele trabalha com você?
-Sim.
-Quanto tempo?
Até aquele momento eu estava respondendo suas perguntas olhando diretamente para frente, quando Donald perguntou há "quanto tempo" nós trabalhávamos juntos, girei minha cabeça para encará-lo, ele estava me encarando e batendo seu polegar direito contra o volante, impacientemente.
-Você está sendo ridículo... Balancei minha cabeça cruzando os braços. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Então ele suspirou e disse:
-Você está mentindo para mim.
-O que? Minhas sobrancelhas arquearam.
-Você está saindo com ele.
Minha boca abriu e fechou. Fiquei paralisada por alguns segundos tentando processar o que ele havia acabado de falar. Donald estava ficando cada vez pior. Ali eu descobri o quão louco ele era, e perigoso.
-Não acredito que estou ouvindo isso! Você está totalmente louco! Tirei meu cinto e abri a porta do carro, eu queria ficar longe dele. Donald desligou o motor, e foi atrás de mim. -Ei, volte aqui Jane! Continuei andando em direção á lanchonete e deixei ele falando sozinho. Eu não sei porque de repente tive aquele tipo de atitude, talvez eu estava começando a aprender a me impor. Isso seria um ótimo começo. Quando passei pela porta ouvi o sininho tocar. O ambiente estava muito agradável e o cheiro de comida caseira, sem palavras. Por um breve momento, quase esqueci que Donald estava atrás de mim. Eu só queria que ele desaparecesse dali e me deixasse ser feliz. Eu achei que por estarmos em público, ele se comportaria como uma pessoa normal. Eu poderia ter fingido que éramos um casal feliz, aproveitando uma noite especial, pelo menos por algumas horas. Mas só foi sentarmos à mesa que ele começou, e então, Donald finalmente chegou a seu limite:
-Vadia!
-O que? Do que você me chamou?
-Você é uma V-A-D-I-A! Você é uma vadia, Jane Foster!
Aconteceu tudo muito, muito rápido. Eu acertei seu rosto em cheio, descarregando toda minha raiva, todo meu ódio naquele único tapa. Eu juro que não pensei nas consequências antes de agir, foi tão involuntário. O que eu não esperava é que ele revidaria. O tapa que ele me deu foi tão forte que cheguei a cair no chão. Enquanto eu estava caída no chão, vi um homem se levantar. Ele era loiro e alto, cerca de 1,98 de altura. Esse homem estava usando uma blusa xadrez vermelha com as mangas enroladas até as dobras dos braços, por baixo uma blusa preta em V, e calças jeans desbotadas. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo. Eu nunca o tinha visto pelas redondezas, e provavelmente, ele também. Mas ele foi o único homem que se levantou quando Donald me deu o tapa. Aquele homem não me conhecia, mas mesmo assim, se levantou para me defender.
Ele intimidou Donald e o fez ir embora como um cachorrinho medroso. Foi patético a maneira que Donald quis enfrentar aquele cara, se eles brigassem, Donald não teria nenhuma chance de sair com todos seus ossos intactos. Nós conversamos por alguns minutos depois que ele se mandou. Seu nome é Thor. É um nome forte, eu diria que é um nome bom para um rei, ou algo do tipo. Thor me ofereceu uma xícara de chá, mas me assustou quando me ofereceu um lugar para ficar! -Porque ele está me oferecendo sua casa para eu ficar se mal me conhece? Depois eu entendi sua intenção e deixei pra lá, eu tinha outras coisas piores para me preocupar.
Embora ele tivesse todo aquele tamanho e sua expressão fosse severa, eu percebi rapidamente que aquele homem era um doce de pessoa. Eu vi nos seus olhos que ele estava realmente preocupado comigo, ele colocou uma mão sobre meu ombro perguntando se eu estava bem. De todos os homens que conheci na minha vida, tirando meu pai, não lembro de nenhum que foi tão prestativo e educado quanto esse estranho. Talvez tenha sido minha imaginação, mas por um milésimo de segundos, me veio na mente Thor usando roupas diferentes, e lutando com sua espada em cima de um cavalo. -Acho que estou ficando louca. Pensei comigo mesmo e sacudi minha cabeça.
Sei que suas roupas eram casuais, mas sua postura e seus maneirismos eram dignos de um príncipe. Eu soube disso quando ele olhou diretamente nos meu olhos e se curvou beijando as costas da minha mão. Posso dizer com segurança que já sai com vários caras e sei quando eles só estão sendo gentis com a intenção de levar uma mulher para cama. Mas Thor não estava bancando o tipo "cavalheiro", ele era "cavalheiro". Aquele gesto de beijar minha mão me pareceu tão natural vindo dele, era como se ele já tivesse repetido isto várias e várias vezes...
Assim que ele deixou a lanchonete, pensei comigo mesma: -Esse homem... não pode ser deste planeta!
Fimmmm de mais um capítulo! Nossa, acho que esse ficou longo demais! E ai, pessoal? Vocês querem que eu continue? Não deixe de comentar, blz? Fuiiiii!
