Quando eu o ouvi abrindo a porta, segurei o cabo da faca firmemente por debaixo do travesseiro. -Se ele tentar me machucar, eu juro que... Disse em pensamento. Após ele ter saído para beber, depois de quase me estrangular no sofá, Donald retornou para casa cinco horas depois, por volta das quatro da madrugada. Eu poderia ter aproveitado o tempo que ele estava fora para me mandar daquela casa, mas eu estava tão paralisada pelo medo, que mal conseguia pensar direito.

Cada passo que Donald dava em direção à nosso quarto, meu coração martelava dentro do meu peito. Eu sabia do que ele era capaz de fazer, e isso me deixava apavorada, indefesa. Cobri minha cabeça com o cobertor e fechei meus olhos quando ouvi a porta se abrindo. A respiração dele estava forte, ele começou a emitir aqueles sons estranhos com a garganta denovo, sons que nenhum humano poderia fazê-lo. Donald sentou-se na beirada da cama fazendo-a balançar um pouco. Apertei meus lábios e segurei a faca com mais força. Pelo movimento do colhão, percebi que ele estava se despindo. Minha respiração começou a ficar pesada e ofegante, aquela sensação de pavor, de ter a certeza que algo ruim está prestes a acontecer, era angustiante. Eu estava preparada para me defender se ele ousasse por suas mãos em cima de mim denovo. -Você não vai por suas mãos em mim Donald, não hoje... disse em pensamento.

Para a minha surpresa, nada aconteceu.

Donald se levantou, e após pegar uma toalha na gaveta do guarda-roupa, entrou no banheiro e foi tomar banho. Abri meus olhos tentando processar tudo aquilo. Após alguns minutos depois de entender o que havia acontecido, finalmente respirei aliviada. Mas só fiquei cem por cento tranquila quando ele deitou na cama, virou para o lado e dormiu. Era realmente muito difícil entendê-lo. Jamais conseguiria adivinhar quando Donald acordaria de um jeito e terminaria de outro.

Embora eu estivesse deitada ao lado de um monstro, naquela noite pela primeira vez depois de tanto tempo, consegui dormi tranquila.


Quando fechei meus olhos, pensei no meu pai e lembrei do que ele me disse um dia enquanto estávamos observando as estrelas numa noite...

Era uma noite morna de verão. O céu estava estrelado e perfeito para ser observado através da lente do nosso velho telescópio newtoniano. Eu tinha sete anos nessa época, meu pai me colocou em seu colo, e pediu para que eu olhasse para o céu e dissesse qual era a estrela mais bonita. Lembro que demorei um pouco para escolher, todas eram deslumbrantes. Então apontei para Sirrah, uma das estrelas que fazem parte da constelação de Andrômeda. Então meu pai me disse que eu poderia pedir qualquer coisa para aquela estrela, sob uma condição: O desejo tinha que vir do coração. Normalmente você acredita nessas coisas quando é criança, mas quando cresce e vira adulto você sabe que são só fantasias.

Mesmo sabendo que era fantasia, visualizei minha estrela no céu através da minha imaginação. Imaginei minha estrela pulsando com suas cores deslumbrantes, ela estava lá esperando pacientemente por mim. Então eu fiz meu desejo:

-Quero ser feliz denovo...

Coincidência ou não, o que aconteceu no dia seguinte mudou completamente a minha vida...


A escola onde Jane trabalha é uma escola comunitária que fica num bairro um pouco carente de Roswell. E como toda escola comunitária, é comum faltar recursos financeiros para comprar materiais pedagógicos, ou para organizar passeios. Mas isso nunca foi um empecilho para ela, quando Jane coloca uma coisa na cabeça, é difícil convence-la do contrário. E agora ela está com um novo objetivo para sua classe: Levá-los para conhecer um dos dez melhores planetários do país: The Hayden Planetarium, que fica em New York. A viagem custa muito caro, e a maioria de seus alunos não tem condições financeiras. Então Jane teve a idéia de vender lanches e doces com a ajuda de seus alunos.

Tudo foi preparado com muito capricho. As barraquinhas foram montadas no pátio da escola, e os alunos dividiram-se em grupos de cinco até seis para cuidar de cada barraca. Uma semana antes foi distribuído panfletos em lojas e supermercados da redondeza para convidar toda a comunidade para participar do evento. Jane ficou responsável pela venda de cachorros-quentes com mais dois alunos. Ela estava muito animada. Aos poucos, as pessoas foram chegando. Darcy também apareceu para dar apoio.

-Oi Jane! Como vai! Darcy abraçou sua melhor amiga calorosamente. -Já faz muito tempo que não a vejo. Porque não me telefonou mais?! Aquela pergunta pegou Jane de surpresa. Ela ficou um pouco tensa porque não conseguia inventar uma desculpa, afinal, Jane não tinha motivo para não ligar de vez em quando para Darcy. Mas ela não conseguia contar a verdade: -Porque Donald me proibiu... pensou consigo mesma.

-Ultimamente eu ando muito ocupada com as coisas da escola... O modo como Jane respondeu não a convenceu. Todo mundo já sabia o que estava acontecendo entre ela e Donald, inclusive Darcy. Era muito óbvio. Percebendo que sua amiga estava começando a ficar constrangida com seu silêncio, ela resolveu mudar de assunto rapidamente:

-E como estão as vendas? Darcy perguntou bem na hora em que um casal de idosos se aproximou.

-Bom dia, senhor. Como vai querer seu cachorro-quente? Jane perguntou.

-Bom dia. O meu sem mostarda. Assim que o casal pagou o lanche e foi embora, Jane voltou ao assunto que estava conversando antes:

-Se continuar nesse ritmo, acho que vamos arrecadar muito mais do que foi planejado! Ela disse com um sorriso orgulhoso.

-Eu torço muito para que tudo dê certo... Darcy disse com um sorriso. -E falando em cachorro-quente, quero o meu com bastante Katchup!

-Como você quiser! As duas riram. Enquanto preparava o lanche e conversava com Darcy, elas não perceberam que um cliente havia se aproximado.

-Quero o meu só com mostarda. Ele disse. Quando Darcy olhou para o lado, quase mordeu sua língua ao invés do cachorro-quente. Nunca, em toda sua vida, ela tinha visto um homem tão lindo! Ela ficou alguns segundos com a boca entreaberta contemplando aquele homem que mais parecia um deus grego. E abriu ainda mais a boca quando descobriu que Jane o conhecia.

-Thor? O tom de voz de Jane demonstrou que ela estava surpresa de vê-lo por ali, e ela não sabia porque. Afinal, eles já se conheciam. E pela primeira vez, as suas bochechas ficaram um pouco vermelhas, e ela não conseguia parar de sorrir feito uma idiota.

-Soube que você está arrecadando dinheiro para levar seus alunos em um passeio, isso é muito nobre de sua parte.

-É... Isso é tão importante para eles quanto para mim. Isso significa muito para a nossa escola.

-Eu não tenho dúvida... E quanto a você? Você está bem? Thor enfatizou a palavra "bem". O que ele realmente queria saber é se estava tudo bem em relação ao que havia acontecido semanas atrás na lanchonete. Darcy continuava com sua boca entreaberta, olhando para um e para o outro, para um e para o outro enquanto conversavam. Jane sentiu que Thor não queria uma resposta pronta do tipo "Sim, estou bem." O que ele realmente queria saber é se Donald ainda a estava maltratando, mas ela jamais admitiria isso pra ninguém.

-Estou bem melhor agora. Foi tudo o que ela pensou naquele momento. Thor a olhou nos olhos, procurando saber se Jane estava mentindo ou não. Ele não obteve nenhuma resposta sensata. Aparentemente ela parecia ótima, mas por outro lado, não sabia dizer se ela estava sofrendo nas mãos de Donald ou não. Tudo parecia muito confuso.

-Você disse só com mostarda? Jane perguntou tentando mudar de assunto.

-Oh, sim. Só com mostarda. E vou querer suco também. Então ela pediu para que um de seus alunos preparasse o lanche enquanto ela pegava o suco. Quando Jane se aproximou de Thor para entregar-lhe o copo que estava cheio quase até a borda, acidentalmente ela tropeçou e derramou todo o conteúdo na camiseta dele!

-Oh meu deus! Medesculpemedesculpe! Disparou tapando a boca com uma mão. Seus alunos apertaram seus lábios tentando se segurar para não soltar uma gargalhada. Darcy também não conseguia mais se segurar e soltou uma risadinha entre os dentes. Rapidamente Jane pegou um pano e correu para o lado de fora da barraca. O suco de uva formou uma mancha escura na camiseta branca dele. Ela colocou o pano em cima da parte que molhou para tentar secar o tecido, mas a mancha escura não saia.

-Sinto muito! Como eu sou distraída!

-Está tudo bem, Jane. Você não precisa se preocupar com isso, é só suco! O deus nórdico disse sorrindo. Ele achou engraçado o desespero dela.

-Não, de jeito nenhum! Você não pode ficar desse jeito! Vamos, eu vou arranjar outra camisa para você. Jane então se virou para seus alunos e disse: -Meninos, vocês podem cuidar da barraca por alguns minutos até eu voltar? Os meninos balançaram a cabeça: -Sim, professora. -Ótimo. Eu não vou demorar, eu prometo. Jane disse colocando uma mão em cada ombro dos dois.


Jane levou Thor até a sua sala e fez com que ele esperasse. O deus nórdico ficou encantado com toda a decoração da sala, havia mobiles de todos os nove planetas pendurados pelo teto, e a parede do fundo havia sido caprichosamente pintada com desenhos de constelações e galáxias. Thor estava tão distraído com tudo aquilo que nem percebeu Jane entrando na sala.

-Desculpe a demora, mas foi difícil achar uma camisa do seu tamanho.

-Você fez tudo isso? Thor perguntou olhando ao seu redor.

-Oh, sim. Mas meus alunos me ajudaram também.

-Ficou incrível!

Thor foi a primeira pessoa que elogiou a decoração da sala dela desde o início das aulas. Podia parecer bobo para os outros, mas aquilo significava muito para ela.

-Você acha mesmo? Disse emocionada.

-Claro! Você é muito criativa, Jane.

Isso a deixou sem palavras. Ela olhou para seus pés e disse "Obrigada". Depois levantou a cabeça e olhou para Thor. Ele estava sorrindo. Era um sorriso sincero e puro como o de uma criança. Jane sentiu que o elogio foi sincero, e apesar de ter ficado feliz, de repente ela ficou triste. -Donald nunca me deu um elogio... pensou consigo mesma. Uma lágrima começou a se formar em um dos seus olhos, mas Jane se manteve forte e se controlou para não chorar na frente do deus nórdico. Thor percebeu que a fisionomia dela havia mudado e cerrou suas sobrancelhas.

-Algum problema?

-Não é nada... Você não vai trocar sua camiseta? Jane disse mudando de assunto.

-Oh! Sim, claro!

Thor então puxou sua camisa para cima revelando todo seu tronco musculoso. As bochechas de Jane ficaram vermelhas, ela não sabia o que fazer com seus olhos. Ela olhava para o chão e para os lados.

-Ficou ótima. Thor disse quando finalmente colocou a nova camiseta.

-Que bom! Ela suspirou aliviada por ele já estar vestido. Agora eu preciso da outra camisa, se eu não lavá-la agora, essa mancha nunca mais vai sair.

-Não, de jeito nenhum! Eu posso lavá-la quando chegar em casa. Thor disse segurando a camiseta firmemente enquanto Jane segurava na outra ponta, puxando-a.

-Por favor Thor, deixe-me fazer isso.

Thor olhou para a mão dela, a mão que estava puxando a camiseta, e por acaso seus olhos captaram uma mancha avermelhada em volta do pulso esquerdo de Jane. O deus nórdico soltou a camiseta, e segurou o pulso dela com cuidado. -O que aconteceu com seu pulso? Ele perguntou preocupado.

-E-Eu escorreguei e acabei torcendo meu pulso quando cai no chão... Ela disse isso quando praticamente arrancou a camiseta das mãos de Thor e virou as costas, evitando fazer contato visual com ele. Jane era realmente uma péssima mentirosa, nem conseguia olhar nos olhos dele enquanto inventava uma desculpa. Thor abaixou a cabeça e fechou os olhos por alguns segundos, desejando que o que ele estava pensando não fosse verdade.

-Ele continua machucando você não é?

Aquele era o tipo de pergunta que Jane evitada mais do que qualquer outra coisa na sua vida. Era o tipo de pergunta que ela não queria que nenhuma pessoa lhe fizesse. Era como se isso já bastasse para revelar o que já era óbvio. Isso a deixava envergonhada, fraca. O silêncio tomou conta da atmosfera da sala, Thor olhou para Jane com paciência, esperando por uma resposta que nunca veio. E ela como sempre, desconversou:

-S-se você não se importa, meus alunos estão me esperando lá fora. Jane disse meio sem graça e olhando para o chão. O deus nórdico deu um suspiro leve, sentindo um pouco de pena daquela linda mulher na sua frente. A morena então levantou seu rosto e lhe perguntou:

-Você pode passar por aqui semana que vem para buscar sua camisa? Eu prometo que vou lavá-la assim que chegar em casa.

Thor deu uma risadinha e balançou a cabeça: - Ela é mesmo teimosa! pensou consigo.

-Sim, combinado. Ele disse. Jane também sorriu.

-Agora, se você não se importa... eu tenho que ir. Antes de desaparecer pela porta, o deus nórdico a chamou fazendo-a parar:

-Jane... A morena olhou para trás e viu Thor em pé com as mãos dentro dos bolsos da sua calça jeans. Então ele disse:

-Cuide-se. Ela assentiu com a cabeça e saiu.


Puxa pessoal, desculpe pela demora! Esse mês está sendo muito corrido para mim, vou fazer o possível para postar o mais rápido que puder na próxima vez. E ai pessoal, o que acharam deste cap.? Sei que está demorando para o romance dos dois se desenrolar, mas pra que tanta pressa não é? ^^ Bom, espero todos vocês no próximo capitulo! Até mais!