A atmosfera ficou tão pesada entre os dois que ambos podiam senti-la. Era como se uma grande nuvem negra estivesse pairando sobre eles. Apenas o olhar de Jane o fez encolher seus ombros, ele sabia o que ela estava pensando, não era preciso falar mais nada. Thor, o todo poderoso filho de Odin nunca se sentiu tão covarde em toda sua vida. Jamais uma batalha sangrenta o fez ficar com tanto medo. Mas ele tinha plena consciência que aquela era a sua única fraqueza; perder o coração de uma mulher, principalmente de Jane, que lhe despertou um sentimento tão forte, tão forte que não havia palavras para descreve-lo. Não era o mesmo sentimento que ele tinha por suas "ex-namoradas", esses relacionamentos foram apenas aventuras passageiras e frívolas. Mas com Jane era diferente, era mais profundo. Jane Foster conquistou seu coração, ele não tinha nenhuma dúvida disso.
Os dois ficaram se olhando por alguns segundos em silêncio. Thor estava odiando o jeito como Jane o olhava, seus olhos transmitiam puro ódio. O deus nórdico temia que ela não o compreendesse, mas ele não podia fujir daquele confronto para sempre, não podia simplesmente se esconder como um covarde, precisava contar a verdade para ela, por mais que isso fosse vergonhoso para ele.
-Jane, precisamos conversar. Thor disse com firmeza.
Embora estivesse frágil por dentro, ela também lhe respondeu com firmeza: -Não temos nada para conversar! Quando ela estava fechando a porta na cara dele, Thor colocou abruptamente sua mão na porta, impedindo-a de fechá-la.
-Por favor, você precisa me ouvir! Jane tentou empurrar a porta novamente com toda sua força para fechá-la, ela não queria vê-lo, ela queria que ele fosse embora. Por mais força que ela fizesse jamais conseguiria empurrar a porta, Thor era mais forte e se esforçar para vencer aquela guerra de empurra-empurra seria patético.
-Jane,deixe-me explicar! Sabendo que não conseguiria fechar a porta com ele segurando firmemente com sua mão, Jane desistiu e levantou suas mãos, passando-as nervosamente pelos cabelos.
-O que você quer?! Ela gritou. -Você veio aqui para me pedir desculpas?! Acha que eu vou aceitá-la e depois me rastejar aos seus pés?! Quem você pensa que é?! Você faz idéia do quanto... Nesse momento ela parou por alguns segundos e começou a chorar, deixando suas lágrimas correrem livremente por seu rosto, então Jane recuperou seu folego e terminou de falar: -do quanto você me magoou? Os dois nem perceberam que estavam discutindo na porta de casa e todo mundo que passava pela calçada lançavam olhares para os dois, ou cochichavam um com os outros. Thor estava se sentindo péssimo e culpado por ser a causa dela estar chorando, ele baixou a cabeça envergonhado. -Isso não teria acontecido se eu... o loiro disse em pensamento. Thor levantou sua cabeça, suspirou e olhou firmemente nos olhos dela.
-Jane... ele disse tentando ficar calmo. -A única razão pela qual eu não atendia suas ligações é que...
-Eu não quero ouvir! ela gritou balançando sua cabeça de um lado para o outro. -Eu não quero ouvir suas mentiras! Vá embora! Jane gesticulava suas mãos no ar enquanto gritava. -Vá embora, Thor! Eu não quero... No momento em que ela esbravejava, o deus do trovão decidiu que já era hora de falar a verdade, ele resumiu em poucas palavras o vergonhoso motivo pelo qual não entrava em contato com ela:
-Eu tenho dislexia! Thor gritou.
Segundos após ele ter deixado isso escapar de seus lábios, ela parou de gritar também. Por um breve momento, ela achou que havia ouvido algo errado. Foi como se alguma coisa estivesse fora da lógica. Jane lhe lançou um olhar interrogativo, cerrando suas sobrancelhas:
-O que foi que você disse? Ela disse baixinho. O deus nórdico suspirou fundo, coçando sua nuca nervosamente. Não seria nada fácil explicar esse seu problema para ela. Em Asgard, a linguagem e os símbolos numéricos são totalmente diferentes dos da Terra. Quando Thor foi banido de seu mundo, ele teve que aprender a se comunicar na linguagem dos mortais. Foi muito difícil se adaptar no começo, mas com muito esforço ele conseguiu aprender a falar, mas escrever e ler já era outra história. Não é que ele não soubesse escrever, ele sabia, mas sua compreensão da escrita e leitura era muito limitada, sendo comparada com a leitura de uma criança de cinco anos, ou menos. Fora isso, Thor também sofria de discalculia, que é uma desordem neurológica que afeta a compreensão de reconhecer símbolos numéricos. Por causa desse seu problema, ele não tinha celular. O deus nórdico precisava se esforçar ao máximo para tentar reconhecer alguns números, porque seu cérebro trabalhava bem devagar nessa área, então isso significava que ele precisava ter muita paciência, e toda aquela confusão de botões com números e menus de configurações tirava ele do sério. Só que a raiz do problema não estava exatamente na sua deficiência, mas sim no seu orgulho. Thor Odinson era muito orgulhoso, e quando Jane lhe pediu o número do seu celular, ele ficou morrendo de vergonha de dizer que não tinha, porque a maioria das pessoas tem pelo menos um celular, e ela acharia estranho ele não ter, e então Jane perguntaria porque ele não tinha um celular, e Thor teria que contar a verdade pra ela. Teria que dizer que não sabia mexer direito no celular porque tinha muita dificuldade de ler, e isso feriria seu ego. O loiro não queria que Jane soubesse que não sabia ler e escrever direito, tinha muita vergonha. Thor poderia simplesmente inventar uma desculpa, mas ele não conseguia mentir.
Por mais que isso ferisse seu orgulho, Thor decidiu lhe contar a verdade. Enquanto ele falava, Jane permaneceu o tempo todo com suas sobrancelhas cerradas, seu rosto sem expressão. O deus nórdico estava torcendo para que ela entendesse seu lado, que fosse compreensível e o perdoasse. Mas após terminar de falar, a morena deu uma risadinha nervosa e disse:
-Uau! Nossa... essa foi a melhor desculpa que já ouvi em toda minha vida! ela disse sarcasticamente. -É sério, você é bom nisso!
Quando a morena tentou fechar a porta denovo, Thor tentou segurar seu braço -Jane, eu lhe juro que...
-Não toque em mim! Ela gritou alto enquanto se esquivava dele. Duas mulheres que estavam passando pela calçada no momento que ela gritou levaram um susto, as duas começaram a cochichar uma com a outra, achando que ele estava machucando Jane. Aquilo tudo estava sendo mais difícil do que ele imaginava, Thor não sabia mais o que falar para ela acreditar em sua palavra. Ele sabia que Jane estava muito zangada, e com toda razão, pensou consigo mesmo. O loiro suspirou e decidiu que a sua melhor opção era ir embora, e deixá-la em paz, pelo menos por enquanto.
-Tudo bem...tudo bem. Você está certa, Jane. É melhor eu ir embora. Mas eu quero que você saiba de uma coisa, eu não menti para você, eu jamais mentiria! E eu vou provar pra você! Mesmo que ele se ajoelhasse na frente dos seus pés e os beijasse ela não acreditaria na sua história. Era muito absurda para ser real. Alguns caras já haviam lhe dado algumas desculpas bem bizarras, mas a dele superava qualquer uma delas.
-Porque você está fazendo isso, uh? Jane disse cruzando seus braços. -Porque você simplesmente não desapareceu como todo homem faz quando uma mulher não transa com ele no primeiro encontro?! Porque você ainda faz questão de vir aqui e...
-Porque eu me apaixonei por você!
Thor a cortou abruptamente. Jane permaneceu em silêncio por alguns segundos. Mesmo estando com muita raiva dele, o modo como ele lhe disse isso, firme, mas com muito afeto, fez seu coração bater um pouco mais rápido. Jane queria continuar lhe dizendo poucas e boas, queria mostrar o quanto ela estava com raiva dele. Mas quais seriam suas réplicas contra uma declaração de amor daquela? Com ele a olhando afetuosamente com aqueles olhos azuis? Jane ficou travada, se afogando com suas próprias palavras. De repente Darcy apareceu ao lado dela proferindo palavrões para o deus do trovão.
-Seu...! A Nova-iorquina tentou atacá-lo com seus punhos, mas Jane a segurou pelos seus ombros.
-Darcy, não! Jane disse segurando-a. Thor recuou dois passos para trás, para desviar dos seus socos.
-Seu babaca! Como ousa vir até aqui?! Seu covarde, filho de uma...
-DARCY! Já chega! Jane gritou cortando-a. Ela suspirou e disse: -Acalma-se, ele já estava de saída... Ele já disse tudo o que tinha para dizer. A morena falou num tom severo. E com isso ela colocou um ponto final naquela história. Não havia mais nada para ser discutido. O loiro sentiu-se muito frustrado por ela ter dispensado ele mesmo após ter se declarado para ela. Não havia mais nada que ele pudesse fazer para convencê-la. pensou consigo. Antes de ir embora, o deus nórdico assentiu com a cabeça e falou:
-Me desculpe Jane, eu não queria ter te magoado... adeus. E assim, o loiro virou suas costas e foi embora, deixando-a com os lábios entreabertos, sem palavras.
-Isso mesmo! Vá embora seu babaca! Gritava Darcy enfurecida, gesticulando com suas mãos. Jane permaneceu absorta em seu silêncio, observando-o partir. Ela sentiu a mão de Darcy sobre seu ombro.
-Você fez a coisa certa! Mostrou pra ele quem é que manda! Agora vamos... vamos assistir TV. Jane virou suas costas, mas deu uma última olhada para ele, enquanto caminhava na direção do seu carro, por cima dos ombros.
-É...eu fiz e coisa certa... A morena deixou essas palavras escaparem dos seus lábios, sem ter certeza se o que saiu de sua boca compactuava com os sentimentos dentro do seu coração...
Mais um capítulo concluído! E ai?! Gostaram?! Até o próximo pessoal! Um abraço à todos!
