Uma semana já havia se passado após eles terem discutido. Jane lutava dia após dia para esquecê-lo, mas não importava o quanto ela se esforçasse, ela não conseguia. E isso era o que lhe fazia deixar cada vez mais frustrada, com mais raiva e culpa de si mesma. Jane queria que o lance entre eles tivesse terminado no momento em que ele virou suas costas e foi embora, e ponto final. Ela não queria ficar chorando escondida pelos os cantos da casa como uma menina de quinze anos, ou preenchendo seu vazio comendo toneladas de sorvete enquanto assistia "Um amor para recordar". Toda vez que ela pensava nele, se sentia uma mulher fraca, que em pleno século 21 não deveria estar sofrendo por um homem, que as coisas andam rápido hoje em dia e sofrer por amor é uma opção. Mas no fundo, as coisas não eram tão simples assim. Jane estava tentando ao máximo esquecê-lo, mas quanto mais ela se esforçava, mais pensava sobre ele. Era uma batalha sem fim, seu cérebro dizia uma coisa, e seu coração outra. E ainda para piorar as coisas, estava chovendo a semana toda, deixando-a ainda mais de mau-humor.
Jane Foster estava explicando aos seus alunos a ordem dos planetas no sistema solar através de slides projetados na parede. Ela não tinha dúvida que ciência era sua grande paixão, e sempre procurava lecionar da melhor maneira possível, planejando atividades interessantes e trazendo novidades para seus alunos. Mas aquela semana estava sendo um inferno para ela, além de estar deprimida por causa da discussão com Thor, a orientadora estava a pressionando constantemente para entregar os diários de classe no prazo estipulado, para fechar as médias. A morena estava exausta, sua cabeça doía tanto que parecia que ia explodir a qualquer momento! Ainda faltavam três horas para finalizar o expediente e ela não via a hora de chegar em casa, tomar um banho e dormir.
-Então como vocês podem observar, a ordem dos planetas a partir do Sol é: "Mercúrio, Vênus, Terra, Júpiter..." De repente um de seus alunos levantou sua mão.
-Sim, Matthew?
-A-acho que Marte vem antes de Júpiter, professora. Naquele momento, a sala toda ficou em silêncio, direcionando seus olhares para Jane. Ela jamais errou ao falar as ordens dos planetas, era algo muito simples pra ela. Matthew era um menino muito inteligente, um aluno-exemplo, sempre tirava boas notas na sua matéria. Jane piscou algumas vezes como se estivesse saindo de um transe. -Eu não posso ter errado sobre algo tão básico. pensou consigo.
-Ahnmm... de-deixe-me ver isso... só um minuto Matthew. Ela não queria subestimar a inteligência dele, mas tinha certeza que Matthew havia se enganado.-Ele tem que estar enganado.pensou consigo. Então pegou seu livro de ciências para comprovar que seu aluno estava errado.
-Onde está...onde está... ela murmurava nervosamente enquanto folheava o livro. Toda a classe começou a cochichar uns com os outros, três garotos riram baixinho, tirando sarro dela. -Aqui está! Mercúrio... Vênus... Terra... Marte... marte? A morena fechou o livro e olhou para Matthew.
-Você estava certo... Se Jane já estava se sentindo mal, isso com certeza a fez se sentir péssima. Como eu posso ter esquecido isso?! Como?! pensou. -Isso...isso não pode estar acontecendo! De repente o sino para o recreio bateu e todos seus alunos pegaram seus lanches e saíram correndo alegremente pela porta. Ela continuou por algum tempo sozinha na sua sala, sentindo-se perdida. A morena não se considerava uma professora perfeccionista, mas aquilo realmente fez seu ego se encolher do tamanho de uma ervilha. Todos a consideravam uma ótima profissional, e errar na frente da classe foi realmente assustador. Talvez seu cérebro sofreu algum tipo de colapso, causado por todo o stress que estava passando; primeiro, sua discussão com Thor, depois a pressão para entregar os diários de classe no prazo previsto... Jane suspirou e olhou para a janela, ainda chovia muito lá fora e parecia que a chuva não iria dar trégua tão cedo. Então ela suspirou novamente, pegou suas pastas e foi para a sala dos professores.
O recreio era o único momento do dia em que ela podia tomar um café enquanto batia um papo com seus colegas de trabalho. Jane não gostava de ficar sozinha sem ter com quem conversar,mas naquele momento, se alguém se sentasse à sua frente na mesa ela tinha certeza que mataria a pessoa só com o olhar. E para evitar que alguém se aproximasse, Jane espalhou seus diários de classe pela mesa, assim, quem passasse por perto saberia que estava muito ocupada para conversar e seguiria em frente. Mas como a Lei de Murphy resolvera lhe pregar uma peça, Jenny Laurence, uma esnobe professora de Inglês, invejosa e pretensiosa, ao perceber que a morena estava deprimida, levantou-se da sua mesa e foi até a dela para importuná-la de propósito, por puro prazer.
-Olá, Jane. A morena estava com a cabeça baixa fazendo anotações quando Jenny sentou-se na cadeira e colocou sua bandeja sobre a mesa. Jane lhe lançou um olhar colérico por detrás de sua mecha, aquele tipo de olhar que poderia lançar raio lazer dos olhos. A sua vontade era pegar suas coisas e desaparecer da frente daquela megera. Mas Jane não queria ser mal educada, então ela suspirou e se esforçou para parecer natural.
-Oi, Jenny... disse forçosamente. Jenny era uma mulher muito perspicaz. Embora soubesse que Jane nunca falou mal dela pelas suas costas, ela sabia que ela a odiava. Era fácil de perceber. E saber disso era uma satisfação imensa! Pois ela podia provocá-la quantas vezes quisesse e ela jamais a confrontaria, pois Jane era muito profissional. Como as fofocas corriam bem rápido naquela cidade, não demorou muito tempo para que o lance entre ela e Thor caísse nos seus ouvidos. Na verdade, Jenny ficou morrendo de inveja quando soube que ela estava saíndo com o homem mais cobiçado da redondeza, e saber que os dois haviam discutido feio, foi algo que a deixou em êxtase.
-Pelo visto, acho que você não andou fazendo a lição de casa. Ela disse se referindo ao montante de diários de classe empilhados sobre a mesa. Jane estava tão concentrada que nem levantou seus olhos do papél.
-Eu estou tendo uma semana ruim. disse secamente.
-É... entendo. Jenny suspirou. Você parece estar deprimida. Eu também ficaria assim se eu levasse um fora do homem mais gato do bairro. Ela disse isso com um sorrisinho de satisfação no rosto que fez o sangue da morena ferver em suas veias. Geralmente ela era calma, mas infelizmente Jenny escolheu um dia errado para fazer graça da sua cara.A sua vontade era de pular no pescoço dela e esganá-la até lhe faltar ar para respirar. Mas ai ela se lembrou que estava no meio da sala dos professores, e não podia fazer nada além de engolir aquele insulto. Sua raiva era tão grande que Jane não conseguia nem mais olhar para ela. Então a morena pegou suas coisas e saiu rapidamente da sala, porque se ela ficasse seria capaz de fazer uma besteira. Enquanto a observava se retirar da sala, Jenny sorriu maliciosamente, sentindo aquela onda de satisfação por ter conseguido atingir seu ponto fraco.
Ainda sentindo-se humilhada pela sua colega de trabalho, a única coisa que queria fazer naquela hora era trancar-se no banheiro e chorar. Jane andou pelos corredores com a cabeça baixa para evitar que alguém visse seus olhos começando a ficar marejados de lágrimas. Ela andou com pressa se esquivando dos alunos com aquela pilha enorme de diários nos braços. Quando de repente ao virar para outro corredor à sua esquerda, ela esbarrou em alguém que estava vindo na direção contrária, e quando percebeu todos seus papéis estavam espalhados pelo chão.
-Droga! Ela esbravejou.
-Desculpe-me, moça! Mil perdões! Eu estava distraído! O homem à sua frente desculpou-se enquanto se agachava ajudando-a a coletar as folhas. Ele estava tão envergonhado que mal olhava para Jane, ela também não olhou para ele direito, pois estava muito ocupada organizando os papéis enquanto os pegava do chão. Então, quando finalmente eles se levantaram, os dois puderam se ver pela primeira vez. Ele era alto, não tão alto como Thor, mas era bem mais alto do que ela. Seus cabelos eram castanhos claros, usava um corte curto, com a franja levemente jogada para o lado. Seus olhos também eram azuis, mas não tão brilhantes como os dele. O homem estava usando uma blusa verde-militar em V com estampa, que dizia "Join the army", e uma calça cargo bege. Ele também tinha bicipes grandes e um tronco robusto. Nos primeiros segundos após ele ter visto ela, ficou completamente encantado com sua beleza. Embora percebera que ela não estava usando nenhuma maquiagem, achou que Jane era incrivelmente linda daquele jeito.
-Você está bem? Senhorita... Ele disse lhe entregando o motante de papéis.
-Foster, Jane Foster. Embora estivesse triste por causa de Jenny, ela sorriu timidamente enquanto enxugava rapidamente seus olhos com seu polegar, para ele não perceber que estava chorando.
-Me desculpe por ter esbarrado em você. Eu estava procurando a sala do diretor, sou novo aqui.
-Ahn, entendo... É o seu primeiro dia aqui? Apesar dela estar tendo um dia péssimo, Jane não ficou zangada por ele ter esbarrado nela. Ela compreendeu que foi apenas um acidente e essas coisas acontecem de vez em quando.
-Sim. Sou o novo professor de Educação Física. Meu nome é Steve Rogers. A morena havia deduzido no momento que seus olhos pousaram nele que pelo seu look e seu porte físico ele só poderia ser professor de educação física. Os dois começaram a caminhar pelo corredor enquanto conversavam.
-Meu nome é Jane Fos... ah, desculpe! você já sabe quem eu sou. Os dois riram mais descontraídos. -Eu sou professora de ciências.
-É mesmo? Eu gostava de ciências quando estava na escola... mas isso foi até o nono ano, depois eu fui para uma escola militar, lá nosso professor de ciências era terrível!
-É... toda escola militar tem fama de ser terrível...
-Sim, foi um inferno! Mas não foi tão terrível quanto servir o exército!
-Você serviu o exército?
-Sim. Steve disse sentindo-se orgulhoso. -Servi o exército por cinco anos. Não há experiência melhor para um homem do que servir sua pátria. Os olhos deles brilharam ao relembrar seus dias de glória no exército.
-Então... porque você saiu? Steve sabia que uma hora ou outra aquela pergunta viria. Ele suspirou melancolicamente e respondeu:
-Desobediência.
-Desobediência? Jane replicou cerrando suas sobrancelhas.
-Fui expulso porque não aceitei a cumprir uma ordem do nosso General.
-E que ordem foi essa? O ex-soldado a olhou com o canto dos olhos, apertando seus lábios.
-Matar civis inocentes.
-Nossa! A morena ficou admirada por ele ter sacrificado sua profissão pelo bem de milhares de pessoas. Isso sim é um ato de coragem. pensou consigo mesma.
-É... mas não pense que sou menos feliz agora do que antes. Eu adoro lecionar! É uma honra ter a oportunidade de ensinar para essas crianças os valores que aprendi no exército.
-Eu acho que algumas merecem apenas umas palmadas de vez em quando. Jane disse em tom de brincadeira fazendo o ex-soldado rir.
-Tem razão! Steve disse sorrindo. Eles pararam na frente da sala do diretor. Ele olhou através da porta de vidro e suspirou melancolicamente, lamentando-se por saber que a partir daquele ponto cada um seguiria para seu lado. Steve olhou para Jane por alguns segundos em silêncio, capturando cada centímetro dos seus belos traços. Ele não sabia dizer como e porque, mas alguma coisa nela lhe atraiu, e muito. Então o ex-soldado estendeu sua mão e disse:
-Foi um prazer conhece-la, Jane Foster. Vejo você por ai...
-Foi um prazer igualmente. Ela sorriu sacudindo a mão dele. De repente, naquele momento, ela pensou consigo que se fosse Thor no lugar dele, ele pegaria sua mão e beijaria os nós dos seus dedos. Ele faria isso, com certeza... pensou. Rapidamente ela lembrou que os dois não estavam mais juntos. -Thor!Thor!Thor! Porque eu ainda estou pensando naquele idiota?! Então sacudiu sua cabeça e se despediu de Steve. O ex-soldado assentiu com a cabeça e entrou na sala.
-Tchau! Vejo você por ai... Ela respondeu. Quando ela virou suas costas para seguir seu caminho, Jane abaixou sua cabeça, apagando seu sorriso aos poucos. E mais uma vez, contra sua própria vontade, seu coração lhe traíra:
-O que será que ele está fazendo agora? disse em pensamento.
-A quanto tempo ele está fazendo aquilo? Joe Parker, um homem de quase meia idade, um pouco acima do peso, perguntou ao seu colega de trabalho enquanto mordia um pedaço de pão e tomava um energético.
-Acho que já faz uma hora! Respondeu após checar a hora no seu relógio de pulso. Joe deu mais uma mordida no seu lanche e desviou seu olhar novamente para Thor, que cortava debaixo da chuva, o tronco de uma grande árvore com apenas um machado. O expediente geralmente durava oito horas, com duas horas de intervalo para o almoço, mas o príncipe de Asgard não estava com fome. Na verdade, seu coração estava inquieto porque não conseguia parar de pensar em Jane. Thor não estava conseguindo se conformar: -Não é justo! ele conversava consigo mesmo em pensamento, enquanto dava fortes machadadas no tronco da árvore, numa tentativa insana de liberar sua tristeza. Ele nem se importava se suas roupas estavam encharcadas e sujas de lama, o loiro estava com muita raiva de si mesmo, raiva por não saber mais o que fazer para conquistá-la denovo, então ele encontrou seu próprio jeito de liberar sua ira.
Thor estava muito apaixonado por Jane para aceitar perde-la assim tão fácil. Quando ele a viu pela última vez, no dia em que brigaram, embora soubesse que Jane estava muito zangada com ele, Thor viu dentro dos seus olhos que ela ainda tinha sentimentos por ele, fortes sentimentos. ele pensou. Então decidiu que era preciso lutar pelo seu amor, a qualquer custo.
A árvore já estava quase sendo repartida ao meio, faltando bem pouco para cair no chão. Os seus colegas de trabalho que o observavam de longe, ficaram muito impressionados com a grandeza de sua força. Thor perguntou pela última vez para si mesmo, enquanto ofegava dando suas últimas machadadas, fazendo a árvore cair no chão:
-O que... (Humph!) eu...(Humph!) devo...(Humph!) fazer?! (Humphhhhhhh!) E ao dar sua última machadada, o tronco finalmente se dividiu no meio e caiu, quebrando galhos de outras árvores ao redor enquanto caia no chão, fazendo um tremendo estrondo. Seus colegas olharam uns para os outros boquiabertos. Thor cravou a lâmina do machado no toco do que sobrou da árvore e começou a caminhar de cabeça baixa na direção deles, nem se importando com seus olhares de espanto. Por estar todo molhado e sujo de lama, ele não podia entrar no refeitório naquele estado, Joe Parker o advertiu imediatamente:
-Ei, você não pode entrar assim no refeitório!
-Não estou indo para o refeitório. Thor disse grosseiramente enquanto passava direito por ele, sem olhar nos seus olhos, com a cabeça baixa e as sobrancelhas cerradas. Joe ficou ofendido pela grosseria dele, mas não se atreveu a discutir com um cara daquele tamanho, isso seria bem estúpido da sua parte. Ele esperou o loiro se distanciar pelo corredor para então assim comentar com um outro colega ao seu lado:
-O que há de errado com esse cara?!
Após um banho morno e relaxante, o loiro voltou para o refeitório para finalmente almoçar. Embora o seu prato preferido estar no cardápio do dia, ele mal havia tocado na sua comida. Sua mente estava andando em círculos e chegando a lugar algum. O príncipe precisava mostrar para Jane que só tinha as melhores das intenções com ela, que era um homem de palavra e acima de tudo, nobre. -Mas como? ele pensava consigo. O loiro estava tão pensativo que não havia percebido até então que um de seus colegas de trabalho, estava escrevendo uma carta à sua frente. Com o canto dos seus olhos, ele percebeu que após colocar a carta dentro do envelope, ele colou um pequeno adesivo de coração na frente. Então de repente, ele sentiu como se uma luz tivesse iluminado sua mente e ele sabia exatamente o que fazer...
