No final do expediente, após finalmente ter passado a limpo todos os seu diários de classe, Jane Foster só pensava em ir pra casa e descansar, nunca havia se sentido tão exausta na sua vida. E para piorar seu humor, a chuva não havia dado trégua. Então ela ligou para Darcy para vir lhe buscar de carro. Todo mundo já tinha ido embora pra casa, só restava ela, que estava esperando por sua carona há mais de meia hora! Jane começou a perder sua paciência, então ela tirou seu celular novamente da bolsa pra passar uma mensagem de texto para Darcy:
"Por favor, não demore. Jane." Ela digitou rapidamente. Alguns minutos depois, seu aparelho vibrou, era Darcy respondendo devolta.
"Desculpe Jane, mais vou demorar mais alguns minutos. Não fique brava! Te amo. ^^" Ao ler a mensagem, Jane rolou os olhos e suspirou frustrada, não acreditando que teria que esperar por mais alguns minutos. Ela estava cansada, precisando de um banho e de uma boa noite de sono, mas o que mais poderia fazer? Ela não tinha carro e dependia de Darcy pra tudo. O jeito era esperar mesmo. Como estava dentro da sua sala, a morena sentou-se na sua cadeira e cruzou os braços em cima da mesa, tendo apenas como entretenimento a chuva que batia no vidro das janelas, fazendo as gotas escorrem até o chão. Jane ficou olhando melancolicamente para a janela por alguns minutos. Aos poucos, começou a ficar com muito sono, suas pálpebras começaram a ficar tão pesadas que mal conseguia deixar seus olhos abertos. De repente, alguém deu três batidas na sua porta, fazendo-a sobressaltar na mesa.
-Oi... Steve Rogers disse timidamente enquanto abria a porta. Jane piscou algumas vezes e esfregou seus olhos com as costas da mão.
-Oi. Não sabia que você ainda estava aqui. A morena disse. O ex-soldado caminhou na direção dela enquanto olhava discretamente à sua volta. Era a primeira vez que ele entrava na sala dela.
-Eu precisava organizar algumas coisas lá no ginásio... Mas...porque você ainda está aqui?
-Bem... é que eu não tenho carro... disse encolhendo os ombros. -Então como está chovendo, pedi pra minha amiga vir me buscar, mas ela vai demorar um pouco...
-Olha, eu estou indo para casa agora, você quer uma carona?
Por causa de toda sua história, de tudo o que aconteceu, por causa da sua extrema desconfiança com homens, era bem óbvia sua resposta... Jane sabia que Steve era seu colega de trabalho, que aparentemente parecia ser um cara do bem, mas não o conhecia o suficiente para dizer se ele era algum psicopata ou estuprador, mas... Se ela não estivesse tão cansada, tão esgotada, fisicamente e mentalmente, Jane com certeza teria negado a sua oferta sem pensar duas vezes. Mas como estava chovendo, e Darcy iria demorar um pouco, resolveu arriscar só dessa vez. Ela pensou.
-Se não for incomodo...Jane falou sorrindo, timidamente.
-De maneira alguma! Steve disse prontamente.
Quando eles entraram no carro e Steve deu a partida para ir embora, Jane sentiu aquela sensação comum de se sentir desconfortável por estar perto de uma pessoa desconhecida, de se sentir deslocada e não ter assunto para conversar, ainda mais sendo ele um homem. Nos primeiros dez minutos eles só olhavam para a frente, sem fazer contato visual um com o outro, ou conversar. Steve também estava se sentindo desconfortável, então ele ligou o CD player, deixando a música tocar bem baixinho.
"Someone told me long ago
There's a calm before the storm,
I know; It's been comin' for some time.
When it's over, so they say,
It'll rain a sunny day,
I know; Shinin' down like water..."
Jane cerrou suas sobrancelhas ao ouvir aquela música. Ela reconheceria aquela velha canção em qualquer lugar.
-Que banda é essa? A morena perguntou só para saber se estava certa sobre aquela música ou não.
-Creedence. É uma banda dos anos 60, é que eu sou bem antiquado, sabe? Steve sorriu levantando o canto direito dos seus lábios. Ele agradeceu a deus por eles finalmente terem quebrado o gelo e começarem a conversar sobre alguma coisa. Jane também riu com o modo como ele falou. Creedence era realmente uma banda muito antiga, ela ficou imaginando que idade ele deveria ter, 26? 27? Talvez 28 no máximo. Era muito difícil achar alguém nessa idade fã de Creedence.
-Que coincidência... meu pai era fã dessa banda!
-Era? Steve perguntou intrigado, lançando-lhe um olhar rápido com os olhos e voltando-os para a estrada denovo. O sorriso dela se apagou um pouco.
-É... ele, uhn... meu pai já faleceu há muito tempo...
-Ah... sinto muito... Depois disso, aquela atmosfera negra retornou deixando o clima um pouco tenso denovo. Jane ficou em silêncio por alguns minutos, olhando melancolicamente para frente. O ex-soldado se arrependeu por ter abrido sua boca, aquele era o último assunto no mundo que gostaria de conversar com um garota, especialmente Jane. Nos dois minutos seguintes, o único som entre eles estava vindo do CD player...
"I want to know,
Have you ever seen the rain?
I want to know,
Have you ever seen the rain
Comin' down on a sunny day?"
A verdade, é que Jane havia despertado o interesse do ex-soldado Americano, e ele estava muito curioso para saber um pouco sobre a vida pessoal dela, coisas bem comuns como:seus filmes preferidos, seus hobbies, o que gostava de fazer nos finais de semana, se tinha namorado... principalmente se tinha namorado. Steve tinha quase certeza que ela tinha, pois uma mulher tão linda e doce como ela não ficaria sozinha por muito tempo, ele pensou. Ele queria muito saber sobre a vida dela, mas não queria bombardeá-la de perguntas, dando-lhe uma impressão errada. Então a única saída era começar aos poucos, com bastante calma, para não assustá-la.
-Então... você mora junto com sua amiga? Disse quebrando o silêncio entre os dois.
-Sim, mas é temporário. A morena fez questão de adicionar esse detalhe. -Em breve vou me mudar, mas não sei ainda se compro uma casa ou um apartamento. Acho que a melhor opção para mim agora é um apartamento, e não muito grande de preferência.
-Uhmm... entendo... Porque? Você é solteira? Esse foi o momento que ele estava esperando. Uma brecha para poder fazer perguntas pessoais sem parecer forçado.
-Sim, e você? Jane também estava curiosa sobre Steve, mas não tanto quanto ele estava por ela.
-Sim, sou. Ele disse com um sorriso bobo nos lábios. Jane Foster não tinha namorado, ele não tinha namorada. Não havia nenhum obstáculo no caminho impedindo que ele a convidasse para sair pra algum lugar. Apesar dele ter enfrentado muitas guerras, desastres e visto muita gente morrer na sua frente, quando o assunto se tratava de mulheres, Steve Rogers se considerava o mais fracote de todos os soldados. Lhe faltava coragem para convidá-la para sair, ainda mais sabendo que Jane era sua colega de trabalho.
-Pode me deixar aqui. Jane disse apontando em direção à casa de Darcy. Ainda chovia forte, a morena não tinha nenhum guarda-chuva, mas isso não era nenhum problema pra ela, só do fato de chegar em casa a fez se sentir aliviada. Quando ela colocou a mão na maçaneta da porta, Steve segurou o braço dela gentilmente e disse:
-Não, por favor. Deixe-me levá-la até a porta. O modo como ele a tocou, o modo como ele falou, e o modo como ele a olhava, a fez se lembrar de Thor. Os dois eram diferentes sim, mas havia alguma coisa, alguma coisa que os dois tinham em comum, só que Jane não sabia bem o que era. Talvez porque os dois eram incrivelmente atraentes? Sim, ela tinha que confessar. Achou Steve um cara muito, muito atraente. Mas... sendo honesta consigo mesma, mesmo ainda estando magoada com Thor, e sendo difícil admitir isso para si mesma devido as circunstancias, achava que Thor era muito, muito mais atraente, muito mais sexy, e muito, muito mais... -Chega! Disse para ela mesma, interrompendo seus próprios pensamentos: -Porque você continua pensando nele? Você já esqueceu o que ele fez? Thor é um babaca! Ele destruiu seu coração! Ele é... ele é... ele era... o homem mais lindo que já conheci, por dentro... e por fora... A morena percebeu com o canto dos seus olhos que Steve não parava de olhá-la, esperando sua resposta. Jane então sacudiu sua cabeça, como se estivesse saindo de um transe e disse:
-Não, de jeito nenhum! Você vai se molhar.
-Mas você também vai... Steve respondeu com um sorrisinho travesso nos lábios, provocando-a. Jane também sorriu e suspirou, sentindo-se derrotada. Ele tirou sua jaqueta de couro, que era tão grande que poderia cobrir duas pessoas com o porte físico dela. O ex-soldado cobriu sua cabeça com a jaqueta e deu a volta no carro pela frente, ele abriu a porta e quando Jane se levantou, Steve rapidamente cobriu os dois com sua jaqueta. Os dois correram pela grama até chegar na varanda da casa, Darcy ainda não havia chegado.
-Pronto! Missão cumprida. Steve disse num tom de voz geralmente usado por soldados, fazendo-a rir.
-Obrigada, Stee... digo, soldado Steve! A morena também disse num tom militar, interagindo com a brincadeira. Os dois riram alegremente. Steve parecia ser um homem bom, Jane pensou. E depois do seu gesto de gentileza, seria muito rude da sua parte não convidá-lo para entrar e tomar pelo menos um café.
-Você quer entrar e tomar um café comigo?
Havia uma mecha de cabelo molhada, grudada na testa de Jane. O ex-soldado a colocou atrás da orelha dela gentilmente, com seu dedo indicador. As bochechas dela ficaram rosadas.
-Eu adoraria... mas agora não posso...
-Ah... entendo...
-Mas... podemos combinar para tomarmos café num outro dia... Se você quiser, é claro! O ex-soldado acrescentou isso rapidamente para amenizar a sua decepção se caso ela não aceitasse, mas para sua surpresa a resposta dela foi positiva.
-Eu adoraria.
-É sério? Q-quer dizer... Ótimo! Combinado, então. Steve não conseguia acreditar que teve coragem de convidá-la para tomar um café. Tudo estava indo muito bem. Era quase um sonho. O que ele fez logo em seguida foi um pouco atrevido da sua parte, afinal, os dois mal se conheciam direito. Steve se inclinou e deu um beijo no rosto dela.
-Tchau, te vejo amanhã.
Ele cobriu sua cabeça com a jaqueta e saiu correndo pela grama até chegar no seu carro. Jane observou ele indo embora e ficou alguns minutos na varanda observando a chuva, atônita. Ela sabia o que estava acontecendo, mas desejava do fundo do seu coração que não estivesse: Steve Rogers, ex-soldado Americano, seu colega de trabalho, estava a fim dela...
E a coisa mais engraçada disso tudo é que Jane não sabia o que ele viu nela. Jane não se achava bonita e muito menos sexy, enfim... Jane sabia que Steve era o tipo de homem que toda mulher se mataria para ter em sua cama, menos ela... A morena o achou atraente, gentil e cavalheiro, todas as qualidades que Thor tinha, mas com um grande detalhe: Ele não era Thor... Pelo menos ele não era o Thor que ela conheceu antes dele ter feito o que fez. Jane gostaria de sentir alguma coisa por Steve, ele parecia ser um cara honesto e foi tão legal com ela lhe dando uma carona até em casa, e a cobrindo com sua própria jaqueta para não se molhar, mas ela não sentiu nada por ele. Jane só aceitou tomar um café com Steve para lhe retribuir sua gentileza. E agora estava com medo que o ex-soldado pudesse interpretar isso de outro jeito. De repente a chuva parou, e aos poucos as nuvens negras foram sumindo, dando lugar às estrelas. Sirrah, sua estrela da sorte estava mais brilhante do que nunca. A morena olhou para o céu e a ficou observando por alguns minutos, desejando que tudo tivesse sido diferente, que Thor não tivesse mentido, que eles nunca tivessem brigado. Jane fechou seus olhos e abraçou a si mesma. Imaginando que se nada disso tivesse ocorrido, ela poderia estar nos braços dele agora.
É... ela lutava para admitir para si mesma, mas metade do seu coração tinha ódio dele, raiva, não o queria vê-lo nunca, nunca mais! queria enterrá-lo para sempre no esquecimento... Mas por outro lado, a outra metade, teimava em perguntar: -O que ele está fazendo agora? Será que está com outra garota? E a questão mais crucial de todas: Ele ainda pensa em mim?
-"Todos os dias..." Ele repetia para si mesmo, se esforçando para se lembrar como se escrevia a palavra "todos". Thor já havia perdido as contas de quantas folhas de papel já havia amassado e jogado no lixo, mas a lixeira já estava quase cheia. O príncipe também quebrou alguns lápis involuntariamente, por causa dos seus dedos fortes. Thor estava frustrado porque não sabia escrever direito, o loiro sabia que não era um poeta, mas queria que sua mensagem expressasse tudo o que seu coração estava sentindo, mas não conseguia encontrar as palavras certas. Frustrado, ele cerrou seu punho e bateu na mesa com força. -Humph!
-Se isso não der certo... não sei mais o que fazer. -Não posso perde-la! Não... Thor corrigiu a si mesmo: Eu não vou perde-la! Disse passando a mão pelo seus cabelos. Então pela trigésima sétima vez, ele arrancou mais uma folha do seu caderno e começou tudo denovo...
