INTENÇÕES DE UMA DEUSA – CAPÍTULO 15
A sala inteira foi acometida por um silêncio perturbador, ninguém ousava dizer nada, apenas olhavam, ora para Annely, ora para Kamus, esperando o desenlace daquela estranha situação.
Annely sentia o corpo inteiro tremer e não sabia se era de raiva ou nervosismo. Achava que a qualquer momento suas pernas cederiam ou que não conseguira segurara o choro por muito mais tempo. Mas não deixaria que ele a visse perturbada, de jeito nenhum, enfrearia aquela situação com coragem, afinal ela não havia feito nada de errado.
- Está na escola, se quiser pode buscá-la comigo mais tarde. Ela sai às três. – Ela falou finalmente, mal acreditando que conseguira respondê-lo com toda aquela calma.
Kamus sentiu suas defesas serem derrubadas, ele esperava todas as respostas do mundo, menos aquela. De repente não sabia o que fazer, não seria tão fácil assim encarar uma garotinha de cinco anos e dizer-lhe que era seu pai, mas agora ele estava em um caminho sem volta.
- Annely, do que esse cara tá falando? – Rafa foi o primeiro a tomar coragem para dizer algo.
- Ele está falando da Kamily, Rafa, ele é o pai dela. Apresento a vocês Louis Kamù Terceiro ou, como ele adora ser chamado, Kamus de Áquario! – a jovem deu um sorriso triunfante, conseguira virar a situação. Agora os olhos inquiridores se dirigiam ao aquariano que sentiu a garganta apertar com toda aquela atenção.
- Seu desgraçado, filho de uma ... o que fez com a minha sobrinha – Airoia correu na direção de Kamus como o leão enfurecido. Estava tão preocupado em lavar a honra da sobrinha que nem se deu conta que estava diante da moça que julgava estar morta.
Antes que ele chegasse a seu alvo, Miro entrou na frente de Kamus e Mu segurou Aioria. A confusão se instalou de vez, Rafa também queria bater em Kamus, Aldebaram pegou Annely no colo e a rodopiava de um lado para o outro morrendo de felicidade. Saga tentava inutilmente manter algum diálogo com July, que não sabia se o mandava a merda ou se tentava entender o que estava acontecendo. Metade da banda estava tagarelando, levantando as mais loucas suposições para evento. Thati punha lenha na confusão entre Airoia e Kamus. Agora era Mu que abraçava amiga de infância, os dois muito emocionados com o reencontro. Lívia fitava Shaka, passando a mão na frente do rosto do rapaz tentado constatar se realmente se trava de cegueira ou tapadez mesmo; ela, Annely e Natália tiveram uma conversa mais cedo, portanto, ela sabia muito bem as razões da confusão e podia se distrair com o loiro.
Saori estava desesperada, sem saber o que fazer para acabar com o tumulto e Seiya estava providenciando uma água com açúcar para deusa. Miro e Luna se agarravam em um canto; o escorpiano desistiu de evitar que Aioria batesse em Kamus, pois no fundo ele também queria dar uma surra no amigo. Márcia discutia com Máscara da Morte, ele defendendo Kamus e ela Annely, ainda sem saberem o que de fato ocorria. Em fim, a casa estava entregue ao caos.
- VAMOS PARA COM ESSA BADERNA, AGORA!
Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para o dono do grito com cara de espanto. Era uma criança. Uma menininha. Era Kamily.
- Kami! O que faz aqui? Deveria estar na escola? – Annely foi até a filha e a pegou no colo de uma forma desesperada, apavorada com a idéia dela ter ouvido algo que não devia.
- Ai mãe! Não me aperta desse jeito!– A garotinha tentava se desvencilhar do abraço, observando à todos ali presentes com olhos curiosos. – Não tive aula, reunião de professores, eu havia me esquecido.
A menina falou com ar de superioridade antes de se livrar da mãe e correr para os braços daquele que era sua verdadeira adoração.
- Tio Hyoga, que saudade! – O loiro pegou a garotinha e lhe deu um beijo no rosto. Recebendo outro em retorno. – Sabe, tio, tomei uma decisão importantíssima!
- Sério, e qual é?
- Quando eu crescer e for bem grande – fez um gesto exagerado mostrando o quão grande seria - Eu vou me casar com você!
- NÃO VAI, NÃO – Hyoga sentiu a garota ser tomada de seus braços. Kamus, com os olhos arregalados, pegou a menina de qualquer jeito, carregando-a com apenas um dos braços – Seu pedófilo! Fica longe desta menina, Hyoga, ou se verá comigo.
- Quem é o surtado? – Kamily perguntou apontando com o polegar para o homem que a segurava.
Kamus a pôs no chão e se ajoelhou para poder fitar a garotinha mais de perto. Os dois passaram a se olhar e, novamente, o silêncio tomou conta do ambiente. Annely sentia que o coração saltaria da boca, tinha muito medo do que o aquariano poderia falar.
- Você é igual a mim. – A menina falou com a voz um pouco embargada, passado a mãozinha pelo rosto do homem a sua frente, os dedinhos deslizando sobre as estranhas sobrancelhas, depois pelo cabelo arrepiado. – Também se aprece com o meu avô Loius, não é mesmo, mamãe?
Mesmo que quisesse, Annely não conseguiria responder, estava completamente entregue ao pranto, as lágrimas corriam livremente pelo rosto. Sem conseguir encarar as perguntas da filha, a garota simplesmente saiu correndo subindo as escadas sem olhar para trás.
Mal as pessoas se deram conta da reação de Annely e tentavam tomar alguma decisão a respeito, a porta de entrada da mansão se abriu mais uma vez.
- O que há com a tranca dessa porta? Fechem isso de uma vez, toda vez que eu começo a entender o que está acontecendo chega mais um para confundir a história. – Máscara da Morte berrava para a jovem mulher que adentrava o recinto, surpresa com a quantidade de pessoas naquele ambiente da casa.
- Nossa! Quanta gentileza em um homem só! É alguma reunião importante que estou interrompendo?
- De forma alguma, madrinha, a senhora é sempre muito bem vinda. – Saroi tentava amenizar a falta de educação do Cavaleiro de Câncer.
- Eu busquei a Kamily na escola e a trouxe para cá, ela estava ansiosa em ver o Hyoga e também em ficar com a mãe. Nem me esperou deixar o carro na garagem, veio correndo. Não vou me demorar, só vim trazê-la e ver meu filhotinho mais novo. – Alexandra procurou Rafael com os olhos recebendo cumprimentos de todos os membros da banda enquanto fazia sua busca até encontrá-lo de cabeça baixa próximo a escada.
A doce e elegante dama que chamava a atenção de todos por sua delicadeza, mostrou à todos o quanto mãe é mãe, e isso vai além de qualquer etiqueta.
- RAFAEL GRIFFINDOR ÍLIRIA ... ONDE FOI QUE VOCÊ ARRUMOU ESSE OLHO ROXO? COM QUEM ESTEVE BRIGANDO E SEU PAI ACOBERTANDO?
- Mãe não grita, olha as linhas de expressão!
- ME DIGA AGORA!
- Eu caí.
- MESMO! E caiu da mesma forma que o rapaz ali? – Ela inquiria apontado para Kamus que também apresentava marcas da briga na noite anterior. Novamente as atenções se concentravam no pobre cavaleiro que mais do que nunca queria sumir.
- Mãe, eu não briguei com ele, eu não briguei com ninguém.
- E eu te perguntei se você brigou com ele? Eu perguntei se você caiu assim como ele.
- Eles caíram sim! Caíram na porrada na boate – Kanon não conseguiu se segurar, a cena já estava engraçada, ele só queria ter mais motivos para rir.
Alexandra olhou para Rafa com olhos mortais.
- Mãe a senhora vai acreditar nele! O papai nem vai com a cara deste mané. Eu não briguei com esse cara, eu não teria porque brigar com o pai da Kami, não é mesmo? – Rafa quase engoliu a própria língua por dizer a última frase, mas fora inútil, o mal já estava feito. Ele encarou a sobrinha que olhava para Kamus de forma assustada, tentando assimilar o que foi dito.
Ikki deu um tapa na nuca do Rafa, ninguém podia ser tão sem noção.
- Eu não tenho pai! – Foi tudo que a garotinha conseguiu dizer, olhando para o cavaleiro com mágoa e rejeição. Depois correu novamente para os braços de Hyoga onde se aninhou e começou a chorar, deixando o rapaz extremamente constrangido. – Eu quero minha mãe...
- Hyoga, tire ela daqui! Ela está muito impressionada. Onde está Annely? – Alexandra se manifestou de imediato, não queria que a neta recebesse uma informação dessas de uma forma tão leviana.
- Creio que ela tenha ido para o quarto dela, tia! – Ana Paula falou.
- Vou levá-la agora mesmo, senhora! – Hyoga disse tomando as escadas em que levavam aos quartos da mansão.
Com a saída de Cisne a sala voltou a cair no mais absoluto silêncio, que logo foi quebrado por uma série de risos descontrolados.
- Gente! O cubo de gelo deu cria, até o gênio e o estranho gosto por aves é o mesmo, não é lindo? Parabéns para o papai, parabéns para o papai. – Todos olharam indignados para Máscara da Morte que gargalhava e cantarolava, quase chorando de tanto rir. Mas o canceriano foi silenciado por Márcia e Mu, ela lhe deu um beliscão no braço e Mu um belo "pedala" que chegou a derrubar MM no chão.
Kamus não tinha coragem, muito menos vontade de encarar ninguém, apenas se dirigiu à saída da mansão, sem antes deixar de avisar a Miro que não era para vir atrás.
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Annely estava jogada sobre a cama abraçada ao travesseiro que ela não sabia por que tinha o cheiro do perfume que Kamus sempre usava. Pelo menos era o que ele usava quando namoraram. Não parou de chorara nem por um segundo, completamente atordoada.
Ouviu batidas na porta e deu um longo suspiro! Não queria ver ninguém, na verdade queria sumir do mundo por um bom tempo até que conseguisse encontrar coragem para enfrentar a situação, mas tratava-se de um desejo inatingível.
- Quem é? – perguntou com tom raivoso.
- Sou eu, Nellyzinha, abre a porta!
- O que você quer, Hyoga? – Ela falou ao abrir a porta a contra gosto. Toda a má vontade com o loiro se esvaiu no momento em que viu a filha no colo do rapaz, olhando para ela com a carinha assustada, cheia de lágrimas que só aumentaram ao ver a mãe.
Kamily esticou os braços e se inclinou na direção de Annely que a recebeu com um forte abraço. Passou a mão, carinhosamente, pelos cabelos da filha e lhe deu um beijo terno. Sentia-se fraca, incapaz, mas sabia que não poderia ser levada pela covardia no momento em que, a criaturinha que ela mais amava na vida, exigia que fosse mais forte que nunca.
- Vou deixá-las a vontade – O cavaleiro disse dando um beijo fraterno em cada uma antes de se retirar.
Annely entrou no quarto e voltou a fechar a porta. Foi até a cama onde colou a filha sentada, depois se ajoelho em frente ao móvel para poder encará-la melhor.
Ficaram em silêncio por um bom tempo, a menina não parava de chorar, soluçava. Annely nada fazia para conter o choro, sabia que seria inútil, além do mais, aquelas lágrimas eram necessárias, mostravam que Kamily, por mais precoce que fosse, não passava de uma criança, com os medos e alegrias comuns a esta fase da vida. Ela apenas acariciava a menina, se preparado para responder o enxame de perguntas que viriam assim que ela se acalmasse.
- Ele não é meu pai, é? – E havia começado.
- Foi ele quem te disse isso, querida?
- Não, foi o tio Rafa, disse na frente de todo mundo. Ele não fez nada, ficou lá, com cara de bocó. Eu não gosto dele!
- Não diz isso, Kami, você nem o conhece, não pode saber se gosta ou não.
- Não me importa! Ele é feio e bobo!
Annely não conseguiu conter um riso, era engraçado ver Kamily de um jeito tão infantil, jamais imaginou que a filha reagiria assim, sempre teve uma vontade enorme de que a ela recobrasse a memória só para dizer-lhe quem era seu pai e agora que, finalmente isso acontecia, ela desenvolvia tanta relutância.
- Querida, vamos conversar. Vem aqui! – Ela disse deitando-se na cama.
- Este quarto está uma bagunça! O que aconteceu aqui? Uma guerra? – A menina resmungava ao se deitar ao lado da mãe, ela odiava ver suas coisas bagunçadas, principalmente com a bagunça de outras pessoas.
- Está mesmo! Devem ter cedido o quarto para o Miro, ele é o rei do caos. – Annely comentou, só agora reparando na desordem do lugar.
Abraçadas na cama, mãe e filha começaram a conversar. Annely falou sobre a recuperação de sua memória e depois começou a narrar todos os eventos que recobrou de seu passado. Ela foi extremamente honesta com a menina, não deixou nenhum detalhe obscuro, cuidando apenas para não falar coisas que estariam além da compreensão de uma criança daquela idade. Tudo foi assunto entre a duas: sua vida como menino, a grande amizade que tinha com Miro, Shaka, Mu e Deba, seu padrinho, o tio, a verdadeira vida de seu pai, e claro, seu relacionamento com Kamus. Fez questão de falar que foi muito feliz ao lado dele, que se gostavam muito. Explicou que, pelo que ela soube, eles imaginavam que ela havia morrido no acidente, pois foi essa a informação que chegou ao Santuário, e ela, sem memória, nada pode fazer para avisar que estava bem.
Kamily ouvia tudo com atenção, estava encantada com a história que a mãe contava. Seu avô era um Cavaleiro de Ouro, sua mãe viveu a maior parte da vida no Santuário de Athena se passando por um garoto e, mesmo isso, não foi empecilho para que ela conhecesse seu pai e tivesse um romance. Pouco a pouco, a raiva que sentia pelo homem que lhe foi apresentado naquela tarde foi diminuindo, tornando-se curiosidade e até um pouco de admiração. No final o clima tenso do início da conversa havia desaparecido, as duas riam dos fatos engraçados que Annely se lembrava de ter vivido.
Estava feito, Annely estava em paz com sua alma e sua obrigação de mãe, e se sentia feliz como jamais esteve. Sua vida agora estava completa, pelo menos tinha um passado e um presente, o futuro pertencia aos deuses, e não seria ele a lhe preocupar nesse momento que em que todo aquele peso era retirado de suas costas.
- Mamãe! Se vocês se davam tão bem, porque hoje quando eu cheguei parecia que você e ele estavam brigando?
- Ai, filha, isso é muito complicado. Pense! Passaram-se muitos anos, nossas vidas tomaram rumos completamente diferentes, ele achava que eu estava morta e, de repente, ele me encontra e descobre sobre você, ele acha que eu escondi isso dele, sei lá...
- Olha, mamãe! Se você quiser, eu explico tudo para ele. Você me explicou e eu entendi, então é só falar com ele o que me disse e vocês podem ficar juntos de novo!
Annely quase engasgou com a sugestão da filha. De jeito nenhum ela pensava em voltar a ter qualquer coisa com Kamus, não depois de tudo que aconteceu na boate. Além do mais, ela não entendia as mudanças de opinião da criança, antes detestava o pai agora já tinha sonhos de vê-lo reconciliado com a mãe.
- Isso não, Kami! Tire essa idéia da sua cabecinha, não existe a menor possibilidade que eu e seu pai fiquemos juntos. Vem cá, você não disse que não se importava e que achava ele um bobo feio?
- Mãe antes um bobo... e eu só disse a parte do feio de raiva, ele não pode ser feio, sou filha dele! Como eu dizia, antes um bobo que o Rain, qualquer coisa é melhor que ele. Além do mais, quero ter irmãos bonitos, a genética do tal de Kamus é melhor, na verdade é ótima! Você não gosta mesmo de nenhum dos dois, fica com que você já sabe que a prole é boa.
- Prole?
- Livros do vovô. Eu já expliquei isso! Mãe eu acho que a senhora deve procurara ler mais, tudo que eu falo você faz cara de boba. Eu vou lá em baixo tomar um sorvete, tá bom? – E dizendo isso, a menina saiu do quarto como se a conversa tida ali não fosse nada de mais, apenas a simples constatação de que teria macarronada para o jantar. Qualquer semelhança com o pai, não é mera coincidência.
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- Acho que depois disso, não teremos ensaio hoje! – Leo falou quebrando o clima pesado que se fez na sala após a saída de Hyoga e Kamus.
- Acho que não teremos um ensaio tão cedo, isso sim! Tadinha da Annely, é uma situação difícil a dela, quanto mais para uma pessoa que não tem muita noção do seu passado.
- Não se preocupe com isso, Themys, a Nelly recuperou a memória, mas isso não quer dizer que as coisas vão ser mais fáceis, ela está muito magoada com o pai da Kami. – Lívia esclareceu.
- Mas eu também estaria muito magoada, depois do que ele fez ontem, como ele pode? Além do mais, ele nunca procurou por ela, se conformou coma idéia da morte e pronto! Ela tem mais que ficar com raiva mesmo! – Nat falou brava, tinha achado o comportamento de Kamus na boate a pior coisa do mundo.
- Não podem ficar julgando o Kamus desse jeito! Ele também está sofrendo com isso tudo. Acha que é fácil encontrar com uma pessoa que você achava que estava morta e ainda receber a notícia que vocês tiveram uma filha? Eu sei que o pinguim não é o cara mais sensível do mundo, eu mesmo acho que ele pisou na bola ontem, mas vamos da um desconto. – Miro falou se desvencilhando dos braços de Luna para defender o amigo, ele, mais do que ninguém, sabia o quanto estava sendo difícil para o francês lidar com tudo aquilo.
- Miro está certo! Além do mais esse é um problema que só cabe a Kamus e Annely. – Mu falou com a voz serena atraindo a atenção de Roberta que, até agora, só se preocupava em entender a confusão, ela fitou o cavaleiro com curiosidade, achando o seu jeito comedido extremamente charmoso.
- Faço suas minhas palavras Mu! Só lamento que esta situação tenha me impedido de rever minha afilhada como eu queria! – Shura falou sentando no sofá ao lado de Alexandra, que parecia estar completamente desnorteada com o evento. – Você está bem?
- Estou, apenas um pouco assustada, não queria que as coisas tivessem acontecido assim, se está sendo difícil para minha filha, imagina para Kamily? Ela é uma criança!
- Tia Alexandra, conhecendo bem a minha afilhada, eu te digo, acho que ela vai encarar essa história melhor que os dois. – Márcia tentou acalmar a mulher.
- Eu concordo com Márcinha, Alexandra, Kami é uma criança esperta! – Nat falou.
- Assim espero! Como vai, Shura? Quantos anos, não é mesmo?
- Vinte e um longos anos! Desde da noite em que você entregou Annely para Aioros. Devo dizer que mudou muito pouco, continua sendo uma linda mulher, meu amigo tem muita sorte!
- Não tenha dúvida disso, Shura! Aioros sempre teve muita sorte e um amigo a quem devemos toda gratidão do mundo. Apesar da decepção com uma possível traição do meu marido, você foi além de seus sentimentos de raiva e criou nossa filha com todo amor. Você fez de Annely uma mulher responsável, uma filha carinhosa, uma pessoa determinada e boa. Muito obrigada mesmo, você é realmente digno da confiança que Aioros sempre lhe confiou!
- Queria muito vê-lo!
- E verá, ele também está ansioso com o reencontro, mas infelizmente teve uma cirurgia de emergência na clínica.
- Cirurgia, clínica? – A interrogação veio por parte de Aioria que ouvia atentamente a conversa entre a cunhada e o companheiro.
- Vocês ainda não sabem, não é mesmo? Aioros formou-se em veterinária, é um excelente cirurgião. – Alexandra respondeu com um sorriso.
- Veterinário? Meu irmão é agora um veterinário, minha sobrinha tem uma banda, eu tenho um sobrinho, uma cunhada e uma...uma sobrinha-neta? O que fizeram com minha vida, em nenhum momento ocorreu que eu queria participar de tudo isso? Como meu irmão pode fazer isso comigo? Me largou naquele Santuário quando eu só tinha 8 anos, me deixou crescer acreditando que ele era um traidor, e depois levou de mim a única coisa boa que ele havia deixado: porque ele nunca nos avisou que Annely estava viva? Porque nos deixou sofrer desse jeito? – Aioria falava alto e nervoso, sentia muita magoa do irmão.
- Por favor, fique calmo, não faça tão mau juízo de seu irmão! Aioria, você não faz idéia do quanto ele sofre por saber o sofrimento que ele lhe impôs, nunca foi a vontade dele. Cansei de ver meu marido passar noites em claro pensando em você, tento os piores pesadelos, sentido culpas horríveis. Por vezes ele lamentava mais ter deixado você do que a própria Annely, isso porque sabia que você que levaria o carma de ser irmão de um traidor. Não seja tão impulsivo! Se ele não tivesse agido como fez, provavelmente o Santuário estaria entregue ao mal até hoje, e Athena jamais teria retornado ao lugar que lhe era de direito.
- Ela tem razão Aioria, se seu irmão não tivesse agido por fora eu jamais... Nunca teria voltado a ser quem eu realmente sou, se vivemos em paz hoje e tivemos tantas vitórias, foi graças ao sacrifício que ele fez, que vocês dois fizeram! – Saga tomou a fala para si, sabia que devia sua vida, a liberdade de sua alma ao cavaleiro de Sagitário. O geminiano estava com os olhos úmidos e era apoiado pelo irmão que também se sentia da mesma forma. A atitude do cavaleiro chamou a atenção de uma certa ruiva, que o achou altamente tentador que com aquela ilusória aparência de fragilidade.
O leonino se sentou, tentando assimilar as argumentações de Alexandra. Ele sabia que a mulher estava certa, mas era muito difícil ignorar os anos de sofrimento pelos quais passou. Queria muito ver o irmão, queria abraçá-lo, saber que era real, e também queria socá-lo, mas não necessariamente nessa mesma ordem. Chorava raivoso, mas todos sabiam que logo essa mágoa passaria. Ele sentiu uma mão sem seu ombro e olhou para cima e viu o sobrinho.
- Olha tio, quando Annely apareceu, eu reagi muito mal, estava acostumado a ser o filho único, mas o papai me convenceu de que logo eu saberia como é bom ter irmãos e daria valor, pois sentia muito falta do dele.
Aioria deu um sorriso via muito de seu irmão em Rafael. Ele se levantou e deu um forte abraço do garoto que, apesar da timidez, correspondeu ao carinho do tio.
- Você me lembra muito seu pai.
- Todo mundo me fala isso, só queria ter metade da força dele.
- Ah moleque! Não tenha dúvidas da sua força, vi a surra que você deu no Kamus. Lutou de igual para igual com um Cavaleiro de Ouro. É mesmo filho de Aioros, o cavaleiro mais forte que o Santuário já viu. – Saga falou passando a mão na cabeça de Rafa, bagunçando os fios castanhos.
Logo, logo todos ali presentes começaram a se dispersar. O pessoal já sabia que não haveria mais ensaio. Luna e Miro foram para varanda para ficarem mais a vontade. Os rapazes de bronze foram jogar uma partida de futebol junto a Kanon, MM, Saga, Aioria, Rafa, Mu e Leo enquanto as meninas ficaram para assistir ao jogo.
Shaka caminha por um dos corredores da casa enquanto Lívia e Nat caminham pelo outro, no momento em que os corredores se cruzaram a pianista e o cavaleiro trombaram um no outro.
- Ai que mancada! Eu trombei com o ceguinho! – Ela falou por impulso.
- Além de rir feito idiota, você também é desatenta?
- Olha, quer dizer, ouça já que não pode ver, não é porque você é cego que pode ir ofendendo as pessoas, não. Eu não tenho como ver além das paredes para adivinhar que você estava vindo.
- Que seja! – Ele disse de forma desdenhosa e desviando das duas continuou a andar.
- Nossa, ele é um grosso, viu! – Natália falou olhando para o cavaleiro com cara de brava.
- Ele é um gatinho, Nat, isso sim. Ele bem que poderia se perder e parar no meu quarto uma vez, perguntado se eu tenho cds de jazz. Kkkkkkkkkkkkk. Eu ia ensiná-lo a ter bons modos...
- Megera, só você mesmo!
As duas riram e continuaram seu caminho sem perceber que, com olhos mais que abertos, Shaka analisava todos os detalhes das curvas traseiras de Lívia, com um sorriso maldoso nos lábios.
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Algumas horas depois da confusão no Hotel...
Os orbes azuis fitavam o nada. Em sua mente havia apenas a imagem da pequena menina chorando assustada e correndo para os braços de seu discípulo. Não conseguia decifrar os próprios sentimentos, na verdade nunca foi muito bom em lidar com eles, por isso fingia que simplesmente não existiam. Sabia apenas que sentia um vazio enorme, uma estranha sensação de abandono e completa impotência.
Ouviu batidas na porta e revoltou-se com a intromissão. Será que Japonês era uma língua tão complexa que nem mesmo os próprios japoneses entendiam? Jurava que havia deixado na porta o aviso de "não perturbe". Decidiu-se por abrir a porta nem que fosse para brigar com a camareira. Tinha que descontar suas frustrações em alguém e ninguém a mandou não seguir o aviso.
- Não sabe ler não? Fiz questão de...– Disse, abrindo a porta com brusquidão. As palavras morreram ao perceber que não era uma camareira intrometida que estava a sua porta, mas sim a culpada por toda a confusão sentimental que o dominava.
- Meu japonês é excelente, Louis, e, lamento, você colocou o aviso errado – A mulher falou de forma irônica pegando o papel na porta e entregado ao cavaleiro que permanecia estático enquanto ela entrava em seu quarto – Este quer dizer que o quarto está livre para ser arrumado. Tem sorte que eu bati antes, mas uma camareira bem que poderia pegá-lo em uma situação constrangedora.
- Como foi que subiu sem ser anunciada?
- Pode não saber muito bem quem eu sou, mas acredite, é impressionante o que as pessoas são capazes de fazer por uma simples assinatura minha. O acesso ao seu quarto me custou apenas um pedaço de papel e um rabisco: Um grande beijo de Annely G. Ilíria.
- Para você ver como no mundo de hoje as pessoas se contentam com tão pouco, não é mesmo? – Ele falou com um tom gélido e sarcástico.
– Hahahahha...sempre tão divertido. Não sei por que não largou o Santuário e se dedicou a sua verdadeira vocação: palhaço! – Ela respondeu na mesma moeda.
- Não foi para me elogiar que você se deu ao trabalho de vir aqui e muito menos para distribuir autógrafos a estes pobres mortais, não é mesmo?
- Claro que não, vim para buscá-lo, você vai para mansão comigo.
- E por que eu iria?
- Porque eu sei que apesar dos pesares, você jamais condenaria uma criança pela raiva que sente de mim. E eu também não faria isso com ela. Kamily quer conhecê-lo, eu já conversei com ela e acho que ela está bastante receptiva, dentro das limitações dela é claro.
- O que disse a ela?
- A verdade...Disse que houve um tempo em que nos amamos muito e que ela é fruto apenas das coisas boas que vivemos. – Annely tentou ao máximo disfarçar o quanto àquela conversa mexia com ela, mas sabia que não estava tendo muito sucesso, na verdade sucesso nenhum, os olhos marejados a entregavam por completo.
- Mas isso é passado, não é mesmo? Agora cada um seguiu sua vidinha, você vai se casar com o cornudo almofadinha e eu vou, bem, eu vou poder fazer o que quiser da minha vida, mas de fato acho que temos que pensar na situação da menina.
- Me diz, você fez curso não fez? Como alguém consegue ser tão irritante. Como ousa chamar meu noivo de cornudo almofadinha?
- Ele não é? Você acha que nós fizemos o que naquela boate? Brincamos de esconde-esconde!
- Eu não quero falar disso, foi um acidente. Você está sendo muito grosseiro, não foi para isso que eu vim aqui.
- Acidente! Não quero nem imaginar com mais quantos você andou se acidentando por ai.
Nunca em toda sua vida esperava ouvir algo tão ofensivo, nem mesmo a imprensa, que é sempre tão maliciosa, já disso algo tão degradante ao seu respeito como ele fez. Muito mais do que raiva, Annely sentiu por Kamus algo um ódio profundo e uma mágoa irreparável. Pensou em lhe dar um tapa, em socá-lo, chutar, mas não fez nada disso, se se mostrasse atingida com o que ele disse estaria lhe dando razão. Foi segurando ao máximo a vontade de trucidar o cavaleiro que ela falou antes da sair do quarto fechando a porta com força:
- Nunca mais fale comigo a não ser o estritamente necessário para que tenhamos uma convivência razoável diante da minha filha. Só poderá vê-la se for na minha frente eu diante de uma pessoa de minha confiança. Suas ligações para ela serão sempre monitoradas, e eu juro que, se tiver que me valer de da justiça para garantir que o que eu estou falando seja cumprido, não hesitarei em fazê-lo. – Ela voltou abrir a porta e completou – E só mais uma coisa. Eu tive que me acidentar com muitos mesmos, pois você nunca foi homem suficiente para me satisfazer, seu ... seu...seu pinto pequeno!
Voltou a bater a porta, nela se apoiando em seguida, mas logo lhe faltaram forças e ela foi lentamente escorregando até o chão. Chorava de raiva, se pudesse mataria Kamus dando-lhe uma morte lenta e dolorida. Dentro do quarto, o cavaleiro era acometido pelo mesmo sentimento que dominava a jovem a sua porta. As palavras de Annley martelando em sua mente, do momento em que disse que só teria acesso à filha caso fosse monitorado até o ridículo xingamento, ela, mais do que ninguém, sabia que desse problema ele não sofria. Bateu com força na porta tentando descarregar a tensão.
- Ai! – Ela gritou no momento em que sentiu a porta ser sacudida.
Kamus teve a certeza que ouviu alguém reclamar no instante em que bateu na porta, sem pensar ele a abriu fazendo com que Annely caísse de costas no chão e batesse a cabeça.
- Seu idiota! – Ela xingou, pondo a mão na cabeça sem se levantar.
- De fato, o idiota sou eu, é muito inteligente ficar encostada em uma porta com a certeza de que essa nunca se abrirá. Levanta daí!
- Não, aqui está confortável, muito obrigada! – Annely estava determinada a irritá-lo
- Eu vou fechar com você ai.
Annely se fez de surda e não se moveu nem um centímetro. Kamus então puxou a porta para fechá-la, usando-a para bater na cabeça da garota enquanto mantinha um sorriso sádico no rosto.
- Gggarrrraaaaaaaaaaa – Ela berrou antes de se virar ainda sem se levantar, mas de uma forma que tivesse acesso às pernas do cavaleiro dando lhe um puxão que o fez cair. Em questão de segundos estavam os dois rolando no chão. Batiam-se, estavam descontrolados, como se fossem duas crianças disputando um brinquedo. Mas aproximação dos corpos causou muito mais do que escoriações em ambos, logo sentiram ser dominados por um calor inexplicável, uma vontade louca de...
- Não olhe isso, Kami! – Miro falou puxando a garotinha para cima, lhe tapando os olhos para que não visse o beijo luxurioso que seus pais trocavam jogados no chão do quarto do hotel que estava com a porta aberta. Annely já havia retirado a blusa de Kamus e lhe beijava o pescoço quando ouviu o escorpiano. Os dois se olharam surpresos e logo se afastaram tentando, ao máximo, se recomporem e ignorar o flagrante.
- Filha, Miro, que bom vê-los, o que fazem aqui? Desde quando estão ai? – Annely disse com o sorriso amarelo se levantando, jogando para Kamus a blusa que havia arrancado.
- Acabamos de chegar! – Miro respondeu ao mesmo tempo que Kamily dizia com um sorriso debochado.
- Estamos desde o momento que os tapas viraram beijos, ou quando vocês decidiram que arrancariam a língua um do outro. Se quisessem privacidade deveriam ter fechado a porta.
Annely e Kamus ficaram completamente vermelhos, sabiam, muito bem, que não tinham desculpa para o que estavam fazendo.
- Kamily queria muito vir para cá, como Hyoga esta momentaneamente proibido de se aproximar dela eu vim trazê-la. – Miro informou tentando amenizar o clima tenso que se instalou.
- Mentira! Na verdade o tio Hyoga estava tentando convencer a Milla de que a garota que ele ficou na boate ontem não significa nada para ele. Vovó deixou o Miro responsável por mim, mas como ele quer ir ao cinema com a tia Luna para poder se aproveitar dela, ele não quer me levar, e olha que eu estou doida para ver a "Era do gelo II". Então ele me trouxe aqui e veio dizendo que o pai é o Kamus e ele que tem que ficar cuidando da catarrenta, ele falou baixinho, mas eu ouvi muito bem!
Kamus e Annely olharam para o cavaleiro de escorpião com reprovação e esse lhes retribuía com o sorriso amarelo.
- Não me olhem assim não! Eu tenho pouquíssimas oportunidades para aproveitar a vida e uma garota linda como a Luna. Quem não soube evitar foram vocês... Quem pariu Matheus que balance. – Miro pegou Kamily e a entregou para Kamus – Eu fico chupando dedo enquanto os dois ai ficam aproveitando, sem essa, tchau! – E saiu fechando a porta do quarto.
- Oi! – Kamily dizia com o sorriso para o cavaleiro de Aquário se sentia ainda mais confuso ao carregar a menina.
- Ola! – Ele disse pondo-a no chão.
- Vocês voltaram a namorar, mamãe? Me livrei do mala almofadinha do Rian?
Annely deu um suspiro desanimado, e ainda teve que encarar o sorriso de satisfação de Kamus. Então sua filha não gostava do noivo da mãe, as coisas seriam mais fáceis do que ele pensava. Poderia não tê-la para si, mas o almofadinha sofreria com a sua constante presença. Annely o olhou com raiva e ele sorriu mais ainda fazendo com a que jovem estremecesse por dentro, mas não era de raiva, o sorriso de Kamus derrubava todas suas defesas, desertava seu libido como ninguém era capaz de fazer.
- Kamily, eu já disse para tirar essa idéia da cabeça. Não há nada entre eu e seu pai e se você fizer uma perguntinha sequer sobre o fato de estarmos nos beijando ficará um mês sem aparecer na mansão, sem Hyoga, sem Seiya... Fui clara?
- Como água.
- Ótimo! Tome – Ela se direcionou até o cavaleiro lhe entregando um pedaço de papel no qual acabara de anotar um número – Este é o número do meu celular, qualquer coisa é só me ligar. Fique com ela, será muito bom para vocês dois se conhecerem. Tenho que ir até o bifê para fazer a prova dos salgados do casamento, pois isso não poderei ficar.
- Ela ficará bem não se preocupe. – Ele falou ao pegar o papel e guardar.
- Eu sei disso, eu só não sei se você ficará bem. Já cuidou de uma criança de cincos anos?
- Não!
- Então boa sorte – Ela disse com um sorriso maligno e abrindo a porta falou antes de sair. – Depois eu te mando o convite do casamento, boa tarde!
Kamus viu a porta se fechar e teve vontade de destruí-la. Annely sempre teve, desde que a conheceu, o estranho poder de lhe tirara do sério. Olhou em volta a procura da filha que não estava em nenhum lugar da sala do apartamento. Praguejou qualquer coisa em francês e foi em busca da menina. Sem dúvida ele não estava nem um pouco preparado para a peça que o destino lhe pregou.
Continua...
Como eu disse, podem ir se acostumando com os capítulos grandes. Esperam que tenham paciência para lerem até o final. Muita, mais muita coisa ainda vai acontecer. Obrigada por todos que me acompanham, são vocês que me incentivam a continuar.
Beijos,
LuanaRacos.
