Heyy... aí está mais um capítulo!
Eu pretendia dizer outras coisas nessa nota, mas vou adiá-las em respeito a uma norícia que recebi essa semana... estava eu lendo fics, quando vejo um aviso de que uma tradução foi cancelada, e o motivo do cancelamento é que a autora da original, infelizmente, tinha falecido. O que me deixou mais chocada foi saber quem era a tal autora, era a Daddy's Little Cannibal, que tem mais de 40 fics, e grande parte dekas traduzidas pra uns três idiomas. Fiquei triste com a partida dela.
IV — A traição
Newton acompanhou com os olhos Edward e Tanya até que desapareceram encobertos por uma das esquinas do forte de Saint-Nicolas; e voltando-se depois, viu Jacob que se tinha deixado cair na cadeira, pálido e trêmulo, enquanto que Supertramp balbuciava uma canção báquica.
— Então, meu caro senhor — disse Newton a Jacob —, aí temos um casamento que me não parece ser do agrado de todos.
— Amim desespera-me — disse Jacob.
— Ama Tanya?
— Adorava-a.
— Há muito tempo?
— Desde que a conheço, sempre a amei.
— E fica aí a arrancar os cabelos em vez de procurar o remédio? Com os diabos, não supunha que a gente de sua raça procedesse assim!
— O que hei de fazer? — perguntou Jacob.
— Eu sei lá! O que tenho eu por acaso com isso? Estou como o senhor apaixonado pela menina Tanya? Procurai, diz o Evangelho, e achareis.
— Já tinha achado.
— O quê?
— Queria apunhalar o homem, porém a mulher disse-me que, se acontecesse alguma desgraça ao seu noivo, matar-se-ia.
— Oh, são coisas que se dizem, mas não se fazem!
— Não conhece Tanya; ela cumpre o que promete.
— Pateta! — disse consigo Newton; — que me importa que ela morra contanto que Cullen não seja capitão?
— Eu prefiro morrer — prosseguiu Jacob com inabalável resolução — a que morra Tanya.
— Isso é que é amor! — disse Supertramp com voz cada vez mais avinhada; — isso é que é, ou eu não entendo da poda.
— Vejamos — disse Newton —, você parece-me um bom rapaz, e creia que desejava ser-lhe útil, mas...
— Sim — disse Supertramp —, vejamos.
— Meu caro — disse Newton —, já está muito bêbado; acabe a garrafa, para ficar como um cacho. Beba e não se importe com o que fazemos; pois para isso seria preciso que estivesse em seu juízo.
— Eu, bêbado? — disse Supertramp — essa é boa! Ainda posso dar cabo de quatro de suas garrafas, que não são maiores do que frascos de água-de-colônia. Pamphile, mais vinho!
E para demonstrar a sua proposição, Supertramp bateu com o copo na mesa.
— Dizia o senhor... — tornou Jacob, esperando com avidez o seguimento da frase que ficara suspensa.
— O que lhe dizia? Já me não lembro, o borrachão do Supertramp fez-me perder o fio das idéias. — Bêbado, embora; pior para os que temem o vinho: esses é que têm algum mau pensamento, e receiam que o vinho o arranque do coração.
E Supertramp desatou a recitar os versos de uma cantiga, então muito em voga:
todos os malvados bebem água,
é bem provado pelo dilúvio
— O senhor dizia — tornou Jacob — que desejava valer-me; mas acrescentava...
— Sim; mas acrescentava eu... para lhe valer basta que Cullen não se case com aquela que você ama, e o casamento parece-me que pode falhar, sem que Cullen morra.
— Só a morte os separará — disse Jacob.
— O amigo raciocina mal — disse Supertramp — e aqui está Newton que é um finório, um maganão, um astucioso que vai provar-lhe que está enganado. Convence-o, Newton, olha que fiquei por você; diz-lhe que não é preciso que morra Cullen; além de que seria triste que morresse; Cullen é bom rapaz, gosto dele. A sua saúde, Cullen!
Jacob levantou-se impaciente.
— Deixe-o falar — replicou Newton, segurando o pescador; — apesar de bêbado como está, o que ele disse não é um grande disparate. A ausência separa tanto como a morte: suponha que havia entre Edward e Tanya as muralhas de uma prisão; não seria o mesmo que se houvesse a laje de uma sepultura?
— Sim; mas sai-se da cadeia — disse Supertramp, que com uns restos de inteligência ia seguindo a conversação —; e quando se consegue sair da gaiola, e se chama Edward Cullen, vingamo-nos.
— O que importa? — disse Jacob.
— E demais — tornou Supertramp —, por que motivo iria Cullen para a cadeia? Não furtou, nem roubou, nem matou.
— Cale-se! — disse Newton.
— Não quero calar-me — disse Supertramp —; quero que me digam por que é que hão de levar Cullen para a cadeia. Eu gosto de Cullen; à sua saúde, Cullen!
E bebeu outro copo de vinho.
Newton conheceu nos olhos vidrados do alfaiate os progressos da embriaguez, e voltando-se para Jacob:
— Então, compreende que não é preciso matá-lo?
— Não, decerto, se, como dizia há pouco, houvesse meio de prendê-lo; porém esse meio...
— Procurando bem, pode ser que se ache... — disse Newton. Mas por que diabos estou eu a me meter nisto?! É alguma coisa que me diga respeito?
— Não sei se tem alguma coisa com isso — disse Jacó, agarrando-lhe o braço —; sei só que tem algum motivo particular de ódio contra Cullen. Quem odeia não se engana com os sentimentos dos outros.
— Eu, odiar Cullen? Juro que não. Vi-o pesaroso e afligiu-me o seu desgosto. Como, porém, julga que obro por motivos particulares, adeus, meu caro amigo, arranje-se como puder.
E Newton fez menção de se levantar.
— Ainda não — disse Jacob, segurando-o — fique! No final das contas, pouco me importa que queira mal ou não a Cullen; odeio-o eu, bem alto o confesso. Ache o meio, eu o executarei, contanto que não haja morte, porque Tanya disse que se mataria, se matassem Cullen.
Supertramp, que tinha deixado cair a cabeça na mesa, endireitou-se e contemplando Jacob e Newton com um olhar carregado e estúpido, disse:
— Matar Cullen!... Quem fala aqui em matar Cullen? Não quero que o matem; é meu amigo... Ofereceu-me esta manhã emprestar-me o seu dinheiro, como já lhe emprestei o meu... Não quero que matem Cullen!
— E quem fala aqui em matar, pateta? — prosseguiu Newton. Estamos tratando de uma simples brincadeira: vamos, beba à saúde dele. — E, enchendo-lhe o copo, acrescentou: — Deixe-nos sossegados.
— Sim, sim, à saúde de Cullen! — disse Supertramp vazando o copo — À sua saúde! À sua saúde!
— Mas, o meio? ... O meio? — disse Jacob.
— Ainda não o achou?
— Não; isso é consigo.
— É verdade — tornou Newton —, os franceses têm sobre os espanhóis essa superioridade: os espanhóis refletem, e os franceses inventam.
— Pois invente — disse Jacob, com impaciência.
— Tragam papel, pena e tinta! — gritou Newton.
— Papel, pena e tinha! — exclamou Jacob.
—Sim; sou guarda-livros, são esses os meus instrumentos, e sem eles nada sei fazer.
— Aqui tem — disse o criado, trazendo o que fora pedido.
— Quando penso — disse Supertramp, deixando cair a mão no papel — que aqui está quanto basta para matar um homem com maior certeza do que se o esperassem no meio de um bosque para assassiná-lo!... Sempre tive mais medo de uma pena, de um frasco de tinta e de uma folha de papel, do que de uma espada ou de uma pistola.
— O maganão não está tão bêbado como parece — disse Newton. — Deite-lhe mais vinho, Jacob.
Jacob encheu o copo de Supertramp, e este, como verdadeiro bebedor, levantou a mão de cima do papel e levou-a ao copo. O catalão acompanhou o movimento até que Supertramp, quase vencido por esse novo ataque, tornasse a pôr, ou antes, deixasse cair o copo na mesa.
— Prossigamos — disse o catalão, vendo que os restos da razão de Supertramp iam desaparecendo depois deste último copo de vinho.
— Dizia — continuou Newton — que se depois de uma viagem como a que acaba de fazer Cullen, e na qual tocou em Nápoles e na ilha de Elba, alguém o denunciasse ao procurador régio como agente bonapartista...
— Denunciá-lo-ei eu! — disse com vivacidade o pescador.
— Sim;mas então fá-lo-ão assinar tal declaração, e hão de acareá-lo com o denunciado. Eu bem sei que lhe posso fornecer os meios para sustentar a acusação. Porém, Cullen não ficará eternamente preso; mais dia menos dia, sai da cadeia, e nesse dia ai de quem o houver denunciado!
— O que mais desejo é que tenha de entender-se comigo.
— Sim, e Tanya! Tanya, que o abominará se tiver a desgraça de arranhar a pele do seu muito amado Edward!
— É exato — disse Jacob.
— Não, não — respondeu Newton —, se se decidisse semelhante coisa, então melhor seria pegar simplesmente, como eu faço, nesta pena, molhá-la na tinta e escrever com a mão esquerda, para a letra não ser reconhecida, a seguinte denunciazinha, assim redigida.
E Newton, juntando o conselho ao exemplo, escreveu com a mão esquerda, e com letra que nenhuma semelhança tinha com a sua, as seguintes linhas que apresentou a Jacob e que este leu a meia voz:
O Senhor Procurador Régio é avisado por um amigo da religião e do trono, que Edward Cullen, imediato do Faraó, chegado esta manhã de Esmirna, depois de ter tocado em Nápoles e em Porto-Ferrajo, foi encarregado por Murat de uma carta para o usurpador, e, por este, de outra para o centro bonapartista de Paris. Ter-se-á, prendendo-o, a prova do crime, porque encontrarão a carta; se a não tiver consigo, há de estar ou na casa do pai, ou na sua cabine a bordo do Faraó.
— Deste modo — continuou Newton — a sua vingança não seria mal pensada, porque nunca o poderiam acusar: tudo caminhará por si mesmo; só falta dobrar a carta, como eu faço, e pôr-lhe no sobrescrito: "Ao Senhor Procurador Régio"; e tudo ficará pronto.
E Newton escreveu, brincando, o sobrescrito.
— Sim, tudo ficaria pronto — exclamou Supertramp, que, com o último esforço de inteligência, acompanhara a leitura, e compreendia, por instinto, as desgraças que podiam ser causadas por esta denúncia —; sim, tudo ficaria pronto; e completar-se-ia assim a maior das infâmias.
E estendeu o braço para pegar na carta.
— Também — disse Newton, pondo-a longe do alcance da mão dele — o que digo e o que faço é uma pura brincadeira; seria o primeiro a sentir, se acontecesse alguma coisa ao bom do Cullen, e olha... — pegou então na carta, amarrotou-a e atirou com ela para um canto.
— Contudo — disse Supertramp —, Cullen é meu amigo, não quero que lhe façam mal.
— E quem é que lhe quer fazer mal? Nem eu, nem Jacob — disse Newton, levantando-se e olhando para o pescador, que ficara sentado, mas cujo olhar não se desviava do papel atirado a um canto.
— Nesse caso — tornou Supertramp —, dêem-me vinho: quero beber à saúde de Edward e da bela Tanya!
— Já bebeu mais d que deveria, borrachão — disse Newton —; e se continua, terá de deitar-se aqui por não poder suster-se em pé.
— Eu! — disse Supertramp, levantando-se, com a impertinência de bêbado: — Eu não me poder ter em pé! Aposto que subo a torre de Accoules e sem sequer balançar!
— Pois sim — disse Newton. —; apostamos amanhã. Hoje, já é tempo de nos irmos embora. Dá cá o braço, vamos para a cidade.
— Vamo-nos — disse Supertramp —; mas não preciso para isso do seu braço. Não vem, Jacob? Volta conosco para Marselha?
— Não — disse Jacob —; volto para os Catalans.
— Faz mal; vem conosco para Marselha, vem.
— Nada tenho que fazer em Marselha, por isso não vou lá.
— O que é que disse? Não quer companhia, meu rapaz? Bem, como entender! Liberdade para todos. Vamos, Newton, e deixemos esse senhor voltar para os Catalans, já que assim o quer. — Newton aproveitou este momento de boa vontade de Supertramp para arrastá-lo para os lados de Marselha; mas,para deixar a Jacob um caminho mais curto e mais fácil, em vez de ir pelo cais de Rive-Neuve, voltou pela Porta Saint-Victor. Supertramp acompanhou-o cambaleando, agarrado a seu braço. Mal dera uns vinte passos, quando Newton, voltando-se, viu Jacob correr para o local em que estava o papel, guardá-lo na algibeira, e logo saindo do caramanchão, caminhar para os lados do Pillon.
— E esta! O que ele faz? — disse Supertramp —; mentiu-nos; disse que ia para os Catalans, e vai para a cidade. Oh! Jacob, olha que se engana, meu rapaz!
— Está com a vista perturbada — disse Newton. — Ele vai direitinho para o lado das Vieilles Infirmeries.
— Sim! — disse Supertramp —; pois teria jurado que tinha voltado para a direita. Decididamente, o vinho é um traidor.
— Vamos, vamos — disse consigo Newton — , julgo que a coisa vai agora a bom caminho; deixemo-la ir indo.
É isso aó, por hoje é dó, pessoal.
Semana que vem, provavelmente na quarta, postarei o próximo.
