Por favor, me desculpem pela demora!! Tô numa correria danada, providencioando documentos e fazendo exames de admissão [é, eu passei num concurso público! \o/]
Respondendo a uma pergunta: A Bella vai aparecer, sim, mas ainda demora um pouco. Ela aparece depois de o Edward ter saído da prisão.
V — As bodas
O dia seguinte estava delicioso; o sol surgiu puro e brilhante, e os primeiros raios de cor purpúrea matizaram com os seus rubis as extremidades espumosas das ondas. O jantar fora preparado no primeiro andar da própria Reserva, onde existia o caramanchão que já conhecemos. Era uma vasta sala a que davam luz cinco ou seis janelas, por cima de cada uma das quais (explique esse fenômeno quem puder!) estava escrito o nome de uma das grandes cidades da França; uma varanda de madeira, como o resto do edifício, prolongava-se ao correr das janelas.
Embora só ao meio-dia devesse começar o banquete, já desde as onze horas estava a varanda coberta de convivas, que passeavam impacientemente. Eram os marinheiros mais considerados do Faraó e alguns soldados amigos de Cullen. Todos, para honrarem os noivos, tinham trazido os seus trajes mais garridos. Entre os convidados corria o boato de que os proprietários do Faraó deviam honrar com a sua presença as bodas do imediato. Era, porém, tamanha a honra, que ninguém se atrevia a acreditá-la. Mas Newton, que chegou em companhia de Supertramp, confirmou a notícia, porque pela manhã tinha estado com o próprio Sr. Withlock, que lhe dissera que viria jantar na Reserva.
Com efeito, um momento depois, entrava na sala o Sr. Withlock, que foi saudado pelos marinheiros do Faraó com uma unânime exclamação de aplauso. A presença do negociante era para eles a confirmação do boato que já corria de que Cullen seria nomeado capitão; e como Edward era muito estimado a bordo, estes honrados homens agradeciam assim ao negociante o estar uma vez, por acaso, a sua escolha de harmonia com os seus desejos.
Apenas entrou o Sr. Withlock, incumbiram Newton e Supertramp de irem procurar o noivo, para lhe anunciarem a chegada da ilustre personagem, cuja presença já havia produzido tão viva sensação, e dizer-lhe que se apressasse. Newton e Supertramp partiram quase a correr; mal, porém, haviam dado cem passos, avistaram, na altura do depósito da pólvora, um grupo de pessoas.
O grupo compunha-se de quatro moças, amigas de Tanya e também catalãs, que acompanhavam a noiva, a quem Edward dava o braço. Ao lado dela vinha o pai de Cullen, e atrás, Jacob, sorrindo sinistramente, o que nem Edward nem Tanya notaram, tão satisfeitos que só se viam a si próprios e a esse belo céu que os abençoava.
Newton e Supertramp desempenharam-se de embaixada, e, depois de com toda a cordialidade haverem trocado um aperto de mão com Edward, Newton foi colocar-se ao pé de Jacob, e Supertramp ao lado de Cullen, pai, alvo de todas as atenções. O velho estava vestido com a sua bela casaca de seda, ornada de grandes botões de aço facetados. As pernas, finas mas nervosas, espanejavam-se numas magníficas meias estampadas de algodão, que a uma légua de distância cheiravam a contrabando inglês. Do chapéu de três bicos pendia um imenso laço de fitas brancas e azuis; enfim, apoiava-se numa bengala torcida formando uma espiral. Parecia um desses peralvilhos que el 1796 de pavoneavam nos jardins reabertos do Louvre e das Tuileries.
Ao pé dele, como dissemos, havia-se colocado Supertramp, que, com a esperança de um bom jantar, se conciliara com os Cullen; Supertramp, em cuja memória mal ficara uma incerta recordação do que na véspera ocorrera, como ao acordar pela manhã acharmos no espírito a sombra do sonho que tivemos enquanto dormimos. Ao chegar-se para Jacob, Newton lançou um penetrante olhar para o amante logrado; e este, atrás dos noivos, perfeitamente esquecido por Tanya, que, entregue ao delicioso e juvenil egoísmo do amor, só tinha olhos para Edward, ora se mostrava enfiado, ora se tornava vermelho, por súbitos assomas que desapareciam, para dar lugar a uma palidez sempre crescente. De vez em quando olhava para o lado de Marselha, e então um tremor nervoso e involuntário lhe sacudia os membros, como se esperasse, ou pelo menos previsse, algum grande acontecimento.
Cullen trajava com severa simplicidade: pertencente à marinha mercante, trazia uma casaca que dava seus ares de farda militar, e o seu belo semblante, realçado pela beleza e alegria de sua noiva, cada vez se tornava mais gentil. Tanya era formosa como uma dessas gregas de Chipre, de olhos de ébano e lábios de coral. Caminhava com esse voluptuoso e livre andar das arlesianas e das andaluzas. Uma donzela da cidade teria talvez procurado encobrira sua alegria debaixo de um véu, ou pelo menos sob o veludo de suas pálpebras; não acontecia, porém, outro tanto a Tanya: sorria-se e olhava para quantos a rodeavam, e o seu olhar e o seu sorriso diziam, tão francamente como o podem dizer estas palavras: "Se são meus amigos, alegrem-se comigo, porque realmente sou felicíssima".
Logo que os noivos e sua comitiva foram avistados da Reserva, o Sr. Withlock desceu, e foi a seu encontro acompanhado pelos marinheiros e soldados com quem ficara a e a quem renovara a promessa de que Cullen sucederia o capitão Waylon. Vendo-o chegar, Edward deixou o braço da noiva e confiou-o aos Sr. Withlock. O negociante e a noiva deram então o exemplo, subindo a escada de madeira, que leva à sala onde estava disposto o jantar, e que por alguns minutos vergou sob o peso os passos dos convivas.
— Meu pai — disse Tanya, parando no meio da mesa —, fique à minha direita, e à minha esquerda porei aquele que me serviu de irmão — acrescentou, com uma meiguice que penetrou até o mais íntimo do coração de Jacob, como uma punhalada. Os lábios fizeram-se brancos, e debaixo da cor trigueira de seu rosto varonil pôde ver-se mais uma vez desaparecer o sangue para afluir ao coração. Ao mesmo tempo, Cullen procedeu de igual forma, à sua direita colocou o Sr. Withlock e à sua esquerda, Newton; depois indicou aos mais que se sentassem como melhor lhes parecesse.
Serviam-se já os salsichões de Arles, de carne escura e de aroma ativo,as lagostas de brilhante invólucro, os mariscos de concha rosada, os ouriços-do-mar, semelhantes a castanhas pela sua capa coberta de espinhos, e as lapas, que os apreciadores do Sul afirmam que substituem com superioridade as ostras do Norte; enfim, todas essas delicadas gulodices que a onda atira às areias da praia, e que os pescadores designam com o nome genérico de frutos do mar.
— Que silêncio! — disse o velho, saboreando um copo de vinho cor de topázio, e que o próprio Pamphile acabava de colocar diante de Tanya —; quem dirá que há aqui mais de trinta pessoas com vontade de se divertirem?
— Ah, ah, um marido nem sempre está alegre! — disse Supertramp.
— É certo que me sinto agora tão feliz que não posso estar alegre. Se for assim que o entende, vizinho, talvez tenha razão: o contentamento produz às vezes um resultado singular: oprime tanto como a dor.
Newton observava Jacob, cuja índole, fácil de impressionar, absorvia e manifestava cada comoção.
— Ora essa — disse —; receia alguma coisa? Parece-me que corre tudo conforme os seus desejos.
— É isso mesmo que me assusta — disse Cullen —; parece-me que o homem não é destinado para uma felicidade tão repentina. A felicidade é como os palácio das ilhas encantadas, cujas portas são guardadas por dragões; é preciso combater para conquistá-los; e, realmente, ignoro como mereci a ventura de ser marido de Tanya.
— Marido! Marido! — disse Supertramp, rindo —; ainda não, meu capitão; experimente ser marido, e verá como é recebido!
Tanya corou.
Jacob estava na cadeira sobre espinhos: à menor bulha [N: bulha=barulho] estremecia, e de vez em quando enxugava os pingos de suor que lhe borbulhavam na testa, como as primeiras gotas de uma chuva de trovoada.
— A falar a verdade, vizinho Supertramp — disse Cullen —, não vale a pena desmentir-me por tão pouco. Tanya ainda não é minha mulher, não há dúvida... (e puxou pelo relógio), mas daqui a hora e meia já o há de ser.
Soltaram todos um grito de surpresa, menos Cullen, pai, que, rindo, mostrou os dentes ainda belos. Tanya sorriu-se, mas não corou. Jacob apertou convulsivamente o cabo da sua faca.
— Daqui a uma hora?! — disse Newton, empalidecendo também —; como é isso?
— Sim, meus amigos — respondeu Cullen —; graças à influência do Sr. Withlock, o homem a quem mais devo depois de meu pai, todas as dificuldades desapareceram: tiramos dispensa dos banhos; às duas e meia aguardar-nos-á na Casa da Câmara o maire de Marselha; ora, como já deu uma hora e um quarto,julgo não me enganar dizendo que daqui a uma hora e trinta minutos Tanya se chamará Srª. Cullen.
Jacob fechou os olhos; queimou-lhe as pálpebras uma nuvem de fogo; encostou-se à mesa para não desfalecer; mas, apesar de todos os seus esforços, não pôde reprimir um gemido, que foi abafado pela bulha das risadas e das felicitações da assembléia.
— Isto é que é andar! — disse o pai de Cullen —; chama então a isto perder tempo, hem? Chegado ontem de manhã, casado hoje às três horas! Para tornar as coisas fáceis, não há como os marinheiros.
— Mas as outras formalidades? — objetou timidamente Newton —; o contrato, a escritura?
— O contrato — disse Cullen rindo —, o contrato está feito e perfeito. Tanya nada tem, e eu idem, casamo-nos com comunhão de bens; isto não leva muito tempo a escrever, nem custa muito dinheiro!
Este gracejo excitou nova explosão de alegria e de bravos.
— Assim, o que tomávamos por uma festa de noivado, é simplesmente um banquete de núpcias.
— Ainda não, sosseguem — disse Cullen. — Amanhã parto para Paris; quatro dias para a ida, outros tantos para a volta, um dia para tratar do que tenho que fazer;no dia dois de março será o verdadeiro jantar de núpcias.
A promessa de um novo banquete aumentou a alegria a tal ponto que o pai de Cullen, que no princípio do jantar se queixava do silêncio, fazia agora inúteis esforços para manifestar os seus votos de prosperidade em favor dos noivos.
Cullen adivinhou o pensamento do pai, e respondeu-lhe com um sorriso cheio de amor.
Tanya começou a olhar para o relógio de cuco da sala, e fez um sinalzinho a Edward.
Havia em toda a mesa a estrepitosa alegria e a liberdade que caracteriza o fim dos banquetes das pessoas da classe inferior. Os que estavam descontentes com os seus lugares tinham se levantado e sentaram-se noutros. Começavam já todos a falar ao mesmo tempo, e ninguém pensava em responder ao que lhe diziam, senão ao seus próprios pensamentos.
A palidez de Jacob quase que se comunicara às faces de Newton; já não vivia,parecia um réprobo no meio de um lago de fogo. Tinha sido um dos primeiros a levantar-se, e passeava pela sala, procurando não ouvir nem as canções, nem o tinir dos copos.
Supertramp aproximou-se dele, no momento em que Newton, de quem parecia fugir, acabava de encontrá-lo escondido num dos cantos da sala.
— Na verdade — disse Supertramp, a quem os bons modos de Cullen, e mais ainda o vinho do Pamphile, haviam extinguido todos os vestígios do ódio, cujo germe a inesperada ventura de Cullen lançara na sua alma —, Cullen é um excelente rapaz; e quando o vejo ao pé da noiva, digo que teria sido pena que lhe pregassem a peça que ontem lhe preparavam.
— Também — disse Newton — viste que a coisa não teve seguimento. O pobre Jacob estava tão aflito que a princípio tive dó dele; mas, desde que se resignou a ponto de ser o primeiro convidado do seu rival, nada mais digo.
Supertramp olhou para Jacob e achou-o lívido.
— O sacrifício é tanto maior — prosseguiu Newton — que na verdade a rapariga [N: lembrando que antigamente rapariga não era xingamento] é lindíssima. Que feliz é o meu futuro capitão! Quisera, ainda que fosse por doze horas, chamar-me Cullen.
— Vamos? — disse a linda Tanya —; estão dando duas horas, e esperam-nos às duas e um quarto.
— Sim, sim, vamos — disse Cullen, levantando-se precipitadamente. — Vamos — repetiram em coro os convidados. Neste momento, Newton, que não perdia de vista Jacob, que estava sentado no parapeito da janela, viu-o abrir os olhos espantadamente, levantar-se convulso, e cair de encontro à balaustrada da mesma. Quase no mesmo instante, ouviu-se na escada extraordinário rumor, um ruído de passos e um barulho de vozes misturado com o tinir de armas, que abafou imediatamente as ruidosas exclamações dos convidados, e chamou a atenção geral, que de pronto se manifestou por um inquietador silêncio. Aproximou-se o ruído, e três pancadas abalaram a porta; todos olharam uns para os outros como espantados.
— Em nome da lei! — gritou uma voz vibrante, a que ninguém respondeu.
A porta abriu-se imediatamente, e um comissário de polícia, trazendo a sua faixa, entrou na sala com quatro soldados e um cabo.
A inquietação sucedeu o terror.
— O que há? — perguntou o negociante, dirigindo-se ao comissário, a quem conhecia —; decerto há algum engano.
— Se houver engano, Sr. Withlock — disse o comissário —, será prontamente reparado; entretanto, trago uma ordem de prisão; e, embora me custe, tenho de cumpri-la. Qual dos senhores é Edward Cullen?
Todos os olhares se dirigiram para o rapaz, que, apesar de comovido, conservou toda a sua dignidade, deu um passo em frente, e disse:
— Sou seu, senhor, que me quer?
— Edward Cullen — prosseguiu o comissário —, em nome da lei, está preso.
—Preso?! — disse Edward, empalidecendo —. Mas por que me prendem?
— Ignoro; no primeiro interrogatório o saberá.
O Sr. Withlock compreendeu que nada havia que fazer contra a inflexibilidade da situação: um comissário com a sua faixa não é um homem, é a estátua da lei, fria, surda e muda.
O velho, ao contrário, correu para o oficial: há coisas que um coração de pai ou de mãe nunca compreendem. Rogou, suplicou; lágrimas e pedidos de nada serviram; mas era tanta a sua desesperação, que o comissário se sentiu comovido, e disse:
— Sossegue, senhor; talvez seu filho esquecesse alguma formalidade para com a Alfândega ou para com a Saúde; e, segundo todas as probabilidades, quando houver dado todas as informações que desejarem, será solto.
— Então, que quer isto dizer? — perguntou Supertramp, carregando o sobrolho para Newton, que se fingia admirado.
— Não sei! — disse Newton —; estou como você: vejo o que acontece, nada entendo, tudo me confunde.
Supertramp procurou com os olhos Jacob; havia desaparecido.
Toda a cena do dia antecedente se representou então a Supertramp com pavorosa lucidez. Dir-se-ia que a catástrofe acabava de rasgar o véu que a embriaguez da véspera correra entre ele e a sua memória.
— Oh! Oh! — disse com voz rouca — será a continuação daquela brincadeira de que falava ontem, Newton? Pois olha que, nesse caso, ai de quem a tiver feito, porque é tristíssima.
— Por forma alguma! — exclamou Newton —; bem viu que rasguei o papel.
— Não o rasgou —disse Supertramp —, atirou-o para um canto.
— Cale-se, nada viu: estava bêbado.
— Onde está Jacob? — perguntou Supertramp.
— Eu sei lá! Provavelmente tratando dos seus negócios. Em vez, porém, de nos ocuparmos com isso, vamos consolar esses pobres aflitos.
Com efeito, durante esta conversação, Cullen, rindo, havia apertado a mão aos seus amigos, dado um beijo em Tanya, e por fim tinha-se entregue à prisão, dizendo:
— Sosseguem, o erro vai explicar-se, e provavelmente nem chegarei a ir para a cadeia:
— Oh! Decerto, afiançá-lo-ia eu — disse Newton, que nesse momento se chegara, como dissemos, ao grupo principal.
Cullen desceu a escada precedido do comissário de polícia e cercado de soldados. Esperava-o à porta uma carruagem, cuja portinhola estava aberta; subiu, dois soldados e o comissário acompanharem-no. A porta fechou-se, e a carruagem tomou o caminho de Marselha.
— Adeus, Cullen! ... Adeus, Edward! ... — exclamou Tanya, precipitando-se para a varanda.
O preso ouviu esse último grito, saído como um soluço do dilacerado coração de sua noiva, e deitando a cabeça pelo postigo da carruagem, disse:
— Até mais ver, Tanya!
E desapareceu em uma das esquinas do Forte de Saint-Nicolas.
— Esperem-me aqui — disse o negociante —; entro na primeira carruagem que encontrar, corro a Marselha, e trago-lhes notícias.
— Vá — responderam todos —; vá e volte depressa.
Houve depois desta dupla partida um momento terrível de estupefação entre os que haviam ficado.
O velho e Tanya abandonaram-se por algum tempo à sua dor; encontrando-se, porém, com o olhar, reconheceram-se como vítimas do mesmo golpe, e caíram nos braços um do outro. Entretanto, Jacob voltou à sala, bebeu um copo de água, e foi sentar-se numa cadeira. Quis o acaso que fosse na que estava próximo daquela em que Tanya caíra ao separar-se dos braços do velho. Jacob, por instintivo movimento, recuou a sua.
— Foi ele — disse a Newton, Supertramp, que não tinha até ali arredado os olhos do catalão.
— Não o creio — respondeu Newton —; é demasiado pateta. Em todo o caso, caia o golpe em quem o deu.
— Não fala de quem o aconselhou?
— Oh, se se respondesse por palavras ditas no ar...
— Responde-se por elas, quando caem e ferem.
Entretanto, os convidados iam trocando entre si, acerca da prisão, os mais diversos comentários.
— E o que pensa desta desgraça, Sr. Newton? — perguntou uma voz.
— Eu? — disse Newton —; parece-me que ele trouxe alguns pacotes de fazendas de contrabando.
— Mas, se assim fosse, o senhor deveria sabê-lo, porque é o comissário.
— É verdade; mas o comissário só sabe da carga que lhe é declarada. Sei que carregamos algodão e nada mais; que tomamos o carregamento em Alexandria, na casa do Sr. Pastret, e em Esmirna, na casa do Sr. Pascal; não me perguntem mais nada.
— Oh! Agora me recordo — disse o pobre pai, agarrando-se a esta esperança — de que ele ontem me disse que trazia uma caixa de café e outra de tabaco.
— Pois há de ser isso —disse Newton —; a Alfândega , enquanto estivemos ausentes, mandou, sem dúvida, visitar o Faraó, e descobriu a alhada.
Tanya, que nada disto acreditava, rompeu subitamente em soluços.
— Vamos, vamos, esperança! — disse, sem saber o que dizia, o velho Cullen.
— Esperança! — repetiu Newton.
— Esperança! — quis dizer Jacob; sufocou-o, porém, a palavra; tremeram-lhe os lábio, nenhuma lhe saiu da boca.
— Senhores — disse um dos convidados, que ficara de sentinela na varanda —, senhores, uma carruagem; ah! É o Sr. Withlock! Ânimo, ânimo! Traz-nos, sem dúvida, boas notícias.
Tanya e o velho correram ao encontro do negociante, que já se tinha apeado; o Sr. Withlock estava extremamente pálido.
— O que há? — exclamaram ambos.
— Meus amigos — respondeu o negociante sacudindo a cabeça —, o caso é mais sério do que pensávamos.
— Oh, senhor! — exclamou Tanya —, ele está inocente.
— Assim o creio — respondeu o Sr. Withlock — mas acusam-no.
— E de quê? — perguntou o velho Cullen.
— De ser agente bonapartista.[N: na época, equivalia a uma acusação de alta traição]
Tanya deu um grito, e o velho caiu prostrado sobre uma cadeira.
— Ah! — disse a meia voz Supertramp —enganou-me, Newton, e a brincadeira foi executada; não quero, porém, deixar morrer de dor o velho e a rapariga: vou dizer-lhes tudo.
— Cale-se, desgraçado! — exclamou Newton, agarrando a mão de Supertramp — ou então nem por você respondo. Quem lhe diz que Cullen não é realmente culpado? O navio arribou à ilha de Elba, e ele ficou um dia inteiro em Porto-Ferrajo. Se lhe acharem alguma carta que o comprometa, os que o tiverem desculpado serão considerados, sem dúvida, como seus cúmplices.
Com o rápido instinto do egoísmo, Supertramp compreendeu toda a solidez deste raciocínio; assustado, olhou para Newton com olhos de terror e de angústia, e, pelo passo que dera para diante, deu dois para trás.
— Esperemos, pois — murmurou.
— Sim, esperemos — repetiu Newton —; se ele for inocente, há de ser solto; e se for culpado, é inútil comprometer-se a gente por um conspirador.
— Neste caso, vamo-nos; não posso continuar a permanecer aqui.
— Sim, vamos — disse Newton, satisfeito por achar companheiro para a retirada —; vamo-nos, cada um que se vá embora como puder.
Retiraram-se; e Jacob, constituindo-se de novo protetor da donzela, tomou Tanya pela mão e reconduziu-a aos Catalans. Os amigos de Cullen levaram para a Avenida de Meillan o velho quase desmaiado. Depressa se espalhou na cidade a 0otícia de que Cullen fora preso como agente bonapartista.
— Acreditará, porventura, numa tal acusação, meu caro Newton? — perguntou o Sr. Withlock, encontrando-se com o seu comissário e com Supertramp, quando voltava apressado para a cidade, para ter algumas notícias diretas de Edward pelo delegado do procurador régio, Sr. de Volturi, de quem era conhecido — acredita em semelhante coisa?
— Quem sabe!... — respondeu Newton —; não lhe disse que Cullen tinha, sem motivo nenhum, arribado à ilha de Elba, paragem que, como sabe, se me tornou suspeita?
— Mas não comunicou essas suspeitas a ninguém?
— Não, por certo — acrescentou Newton em voz baixa —; bem sabe que por causa de seu tio, o Sr. Policarpo Withlock, que militou no tempo do outro e que não esconde as suas opiniões, o senhor é suspeito de ter saudades de Napoleão; e, nesse caso, muito receio teria eu de fazer mal a Edward e ao senhor. Há coisas que é do dever de um subordinado contar ao patrão, e encobrir severamente aos mais.
— Bem, Newton, bem — disse o negociante —; é um rapaz honrado, e por essa consideração também eu não me havia esquecido de si, no caso de ser o pobre Cullen nomeado capitão do Faraó.
— Como assim, Senhor?
— Sim, tinha de antemão perguntado a Cullen o que pensava a seu respeito, e se teria alguma repugnância em conservá-lo a bordo, porque, talvez me engane, me parecia que não se davam muito bem.
— E o que respondeu ele?
— Que julgava efetivamente ter-lhe dado, numa certa circunstância que me não quis dizer, algumas razões de queixa; mas que toda a pessoa que merecia a confiança do patrão, merecia igualmente a sua.
— Hipócrita! — disse para si Newton.
— Pobre Cullen! — disse Supertramp —; é um excelente rapaz.
— Sim; mas aí temos o Faraó sem capitão — disse o Sr. Withlock.
— Oh! É de esperar — disse Newton —, como não podemos partir senão daqui a três meses, que até então Cullen esteja solto.
— Sem dúvida; mas até lá?
— Até esse tempo, cá estou, como o mais experimentado capitão, do governo de um navio. Ser-lhe-á de extrema vantagem servir-se de mim; e não terá, quando Edward sair da cadeia, de agradecer a ninguém esse serviço. Ele voltará para o seu lugar, e eu para o meu.
— Obrigado, Newton; assim tudo se concilia. Tome, pois, o comando; vigie a descarga, está para isso autorizado; os negócios não devem parar por qualquer catástrofe que nos aconteça.
— Sossegue, senhor... Mas, porventura, poderemos ao menos ir visitar esse pobre Edward?
— Logo lhe direi. Vou ver se falo ao Sr. de Volturi, e interceder a favor do preso. Sei que é um realista exaltado, mas, que diabo! Por mais realista e mais procurador régio que seja, também se é homem, e não o julgo mau.
— Não — disse Newton —; ouvi, porém, dizer que era ambicioso, e são coisas muito parecidas.
— Enfim — disse o negociante com um suspiro —, veremos. Vá para bordo, que eu lá irei ter daqui a pouco.
E separou-se dos dois para ir ao Palácio da Justiça.
— Está vendo — disse Newton a Supertramp — o jeito que o negócio vai tomando. Ainda quer agora valer a Cullen?...
— Não, por certo; mas sempre é terrível brincadeira aquela que tem semelhantes consequências.
— Ora! Quem a fez? Não foi você, nem eu, não é verdade? Foi Jacob. Bem sabe que atirei o papel para um canto, e até julgo que o rasguei...
— Não, não! — disse supertramp — Quanto a isso, estou certíssimo, parece-me que ainda o estou vendo ao canto do caramanchão, todo amarrotado, e bem quisera que ainda estivesse onde o vi.
— O que quer? Talvez Jacob o apanhasse e copiasse ou o mandasse copiar, ou mesmo não se daria a esse trabalho... Oh! Valha-me Deus! Agora penso que era capaz de mandar a minha própria carta! O que me vale, por felicidade, é o disfarce da letra.
— Mas então sabia que Cullen conspirava?
— Eu nada sabia, como o disse; tudo foi uma pura brincadeira; mas parece que, brincando, atinei com a verdade.
— É o mesmo — replicou Supertramp —; dava tudo que me pedissem para que tal não houvesse sucedido, ou, pelo menos, para não estar envolvido nessa trapalhada; hás de ver, Newton, que dela resultará desgraça.
— Se tem de resultar desgraça, é para o verdadeiro culpado, e esse é Jacob, e não nós. E o que quer você que nos aconteça? Fiquemos sossegados, não digamos uma palavra de tudo isto, e a trovoada há de passar sem despedir raios.
— Amém! — disse Supertramp, despedindo-se de Newton, e dirigindo-se para os lados de Meillan, sacudindo a cabeça e falando consigo, como quem está muito preocupado.
— Bom! — disse Newton — as coisas levam o caminho que eu previra: eis-me capitão interino, e se o pateta do Supertramp guardar segredo, capitão deveras. Só haveria risco se a justiça soltasse Cullen; mas — acrescentou com um sorriso — a justiça sempre é justiça, confio nela.
E ao dizer isto, saltou num bote, dando ordem ao catraieiro que o levasse a bordo do Faraó, onde ia esperar pelo negociante, que, como lembrado estará o leitor, assim o determinara.
Bom, é isso.
O próoximo capítulo se chamará "O delegado do procurador régio", e nele serão apresentados alguns personagens novos.
