You know the holidays are coming up I don't want to spend them alone, memories of Christmas time with you will just kill me if I'm on my own.

[FLASHBACK]

- Feliz natal, Emmett. - M sorriu ao entregar-lhe o embrulho vermelho com um laço de papel envolvendo-o. Ele retribuiu o sorriso, estendendo as mãos e tocando o presente. Com o objeto na mão esquerda, levou a direita até a cintura da garota abraçando-a com vontade.

- Obrigado.

- Disponha. - Ela desfez o abraço para que o presente fosse desembrulhado. O garoto sorriu novamente e rasgou o pacote sem dificuldade vendo estampado na caixa retangular a foto ilustrativa do telemóvel Iphone 3G inteiramente preto. Ele olhou surpreso para a meia irmã e voltou os olhos novamente para o objeto.

- Não acredito. - Disse deixando a boca entreaberta. - Eu estava louco por um desses.

- Eu sei, por isso comprei. - Ela inclinou a cabeça para o lado direito sorrindo sincera.

- Caralho. Obrigado. - Agradeceu contente antes de puxá-la para envolver seu corpo com os braços fortes.

M tocou os fios de cabelo do rapaz, os bagunçados levemente.

- Você merece. - Confessou. Ele sorriu ao ouvi-la dizer aquilo.

Era por essas épocas do ano que esperava ansioso. Marilia estava sempre atenciosa e bem humorada quando datas festivas eram comemoradas; era nestes dias em que ela parecia esquecer como era seu modo de agir e tornava-se a menina doce que ele acreditava existir.

Ficaram assim durantes alguns segundos, o contato direto entre as peles, sentindo o calor ser transmitido de um corpo para o outro.

Emmett respirou fundo sentindo o cheiro da flagrância característica da Marilia; aquela que tanto gostava. Alisou os cabelos claros da mesma e suspirou.

- Sabe, eu sinto a sua falta. - Confessou. Esperou por algum resposta ou comentário grosseiro, mas só sentiu os braços em seu redor aperta-lhe mais forte e um suspiro bater contra a pele de seu pescoço.

- Eu também.

Sorriu diante a declaração. Era bom para seu ego saber que causara saudade.

Afastou o corpo pequeno pela cintura e encarou os olhos verdes que pareciam tão sinceros e puros. Uma coisa que admirava era os olhos da menina, era por eles que tinha conhecimento sobre as emoções que eram sentidas.

Sabia perfeitamente que quando a raiva predominava seus olhos estavam cerrados, quando estava afogava na tristeza eles pareciam vazios, ocos. Notava a alegria a partir do brilho intenso, a confusão e desespero pelo modo drástico que se moviam.

Eles diziam o que a garganta de M recusava-se a dizer.

Aproximou os lábios rosados e finos dos dela, encostando-os quando a observou fechar os olhos. Sem qualquer vestígio de malícia, iniciaram um raro beijo calmo entre eles. As línguas se enroscavam com calma, dançando uma sobre a outra lentamente. M sentiu as famosas e estúpidas borboletas voando em seu estômago, apesar de seu subconsciente alertando para se afastar, grudou-se mais no outro, aproveitando o momento.

Os dois estavam no jardim pertencente a casa da mãe de E, madrasta de M, onde ninguém parecia querer visitar.

- Acho melhor irmos lá para dentro. - Ela disse com a voz rouca ainda com os lábios colados aos dele.

- Tem razão. - Disse beijando seus lábios rapidamente antes de soltá-la.

- Certo, então vamos.

M fez menção de afastar-se, mas foi impedida pelas mãos fortes de Emmett segurando-lhe pelo braço. Ele a olhou receoso parecendo querer dizer-lhe algo.

- O que foi?

Suspirou antes de soltá-la, colocando as mãos no bolso do jeans em seguida.

- E-eu...Eu estava pensando se você...não sei, poderia dormir comigo hoje. Sei lá, só dormir, nada de segundas intenções. - Ele disse sem olhar em seus olhos.

- O quê?

- Não me faça repetir, por favor. - Disse em um sussurro, fechando os olhos. - Já está sendo difícil o suficiente...

- Para quê, Emmett? Por que isso agora? - Questionou. Era notável à confusão e à curiosidade no tom de sua voz.

Abriu os olhos vendo-a com a cabeça levemente inclinada para o lado. Teve certeza que sua resposta seria negativa.

- Eu só queria passar um tempo com você. - Confessou.

Ela piscou três vezes e retornou a cabeça ao seu devido lugar, engolindo seco ao pensar na possibilidade. Seria proximidade exagerada, não queria se envolver mais do que já estava.

Amava Dougie. Desejava Emmett. As posições não poderiam se inverter.

Era assim que tinha que ser.

- Eu...fico alguns minutos com você. Mas dormir não. - Disse cautelosa tentando esconder o abalo causado pelo pedido.

- Cer-certo...

Concordo balançado a cabeça surpreso; ela havia aceitado. Não o seu pedido apropriadamente, mas, aceitou.

E durante três horas após o término da comemoração o casal passou conversando sobre assuntos banais, passando para temas interessantes e recentes, indo para conversas sobre o futuro, logo em seguida dialogando sobre acontecimentos vividos, após dividindo experiências e no final renderam-se aos beijos, mais uma vez, sem malícia.

Era por este motivo que o natal de ano de dois mil e oito ficou-lhe cravado na memória.

[/FLASHBACK]

Lembrou-se nos mínimos detalhes do último natal permitindo que em seu rosto formasse um sorriso amargo.

Estávamos à oitenta e seis dias do natal e à noventa e um dias do ano novo e sentia-se angustiado por saber que ela não estaria lhe acompanhando na comemoração de mais um ano.

O ano em que seu pesadelo tornaria-se real.

Dia quatorze de fevereiro de dois mil e dez. Vinte horas e trinta minutos. No jardim de sua casa.

Data, hora e o local onde veria o sonho de tê-la despedaçar.

No jardim de sua casa, sobre a grama artificial, veria a única mulher que amou casar-se com outro.

[FLASHBACK]

- Temos uma notícia maravilhosa. - Esme, mulher morena e extremamente elegante, exclamou quando finalmente o marido, Carlisle - pai de M, padrasto de E e seu marido - e Emmett - seu filho, enteado de Carlisle, meio irmão de M - acomodaram-se no sofá central da sala. Marilia estava ao seu lado parecendo eufórica devido algum motivo desconhecido.

Emmett admirou-a por instantes questionando interiormente qual seria a razão até que Carlisle se pronunciou.

- Diga, Esme.

Esme olhou sugestivamente para a enteada pedindo permissão para comunicar o acontecimento. Ela, feliz, balançou a cabeça concedendo.

- Não sei se esse é o melhor momento para se falar sobre isso, mas... - A mulher respirou fundo antes de prosseguir, sorrindo em seguida e mantendo os olhos no semblante alegre ao seu lado. - Dougie pediu Marilia em casamento. - Ela pronunciou agarrando as mãos pequenas da garota enquanto ambas sorriam abobadas.

O quê?

Oh. Meu. Deus.

Emmett direcionou os olhos claros para o rosto iluminado por um sorriso largo, que ao ver pareceu como uma faca fincada em seu coração.

Casar-se, ele repetiu mentalmente sentindo o começo do típico vazio apoderar-se de seu corpo. Suas pálpebras se fechavam diversas vezes enquanto seus olhos eram direcionados para Carlisle, Esme e...para ela.

Pareceu que toda ação estava sendo produzia em câmera lenta.

O levantar de seu padrasto enquanto seus lábios contorciam-se em um sorriso radiante. A aproximação dos corpos; o abraço paterno. As mãos delicadas da sua mãe se encontrarem - igual o gesto de oração - e ir em direção da boca da mesma, parecendo eufórica com a cena. O rosto de M sobre o ombro do pai; o sorriso destacado.

E estava estático sobre o sofá branco da sala igualmente branca. Ele observou cada reação e cada rosto que ocupava meio metro quadrado no local. Embora sua mente implorasse para levantar-se, bancar-se o típico ator de Hollywood, escondendo a dilacerante dor atrás de um sorriso falso, ele continuou ali...parado.

- Minha menina... - O pai dizesse demonstrando a emoção.

Tudo na sala ostentava felicidade, com exceção do homem. Sentiu suas mãos tremerem deixando transparecer o nervosismo. Ele as fechou sobre suas coxas enquanto observava os seres à sua frente começarem a balbuciarem coisas que seus ouvidos não captavam; até eles não conseguiam cumprir a função designada aos mesmos. Mas, como se todas as forças estivessem contra ele, degustando de seu sofrimento, ouvi-se a voz comunicar a suposta data do acontecimento.

- Não sei, pai. Dougie sugeriu o dia quatorze de fevereiro do ano que vem. Vinte horas e trinta minutos, aqui no jardim de casa.

- Ele já está com tudo planejado, Carlisle. Tudo. - Exclamou a mãe, sua face contorcendo-se em felicidade.

"Está com tudo planejado", sua mente repetiu a sentença para a sua desgraça.

As lágrimas pareciam clamarem por liberdade, mas os olhos negaram tal pedido.

Captou lentamente o rosto de sua mãe cair sobre o seu, a expressão alegre alterando-se para uma que demonstrava confusão.

- Emmett, tudo bem, filho? - A voz singela perguntou.

Ele, com seu olhos turvos, observou a mãe e passou para a meia irmã. Tentou transmitir através do contato visual a mágoa que sentia.

Ela não podia fazer isso.

Mesmo sem nunca dizer as três palavras românticas, M tinha conhecimento sobre os sentimentos que o meio irmão nutria por ela. Não era necessário ele confessar-lhe o que sentia; seus olhos brilhantes quando olhava-a lhe entregavam, a devoção que transbordava de cada palavra dita referente a ela era evidente, o modo que a beijava denunciava o que ele nunca disse.

Mesmo não afirmando com palavras, ele afirmava com gestos.

Porém, Marilia parecia fazer questão de fechar os olhos perante aos sentimentos dele.

A garota, ao notar o modo como era observada, ofegou direcionando os olhos, até o momento brilhantes, para o piso liso abaixo de seus pés. De súbito sentiu-se enojada por estar diante daquela situação.

- Estou...bem, mãe.

Mesmo com os olhos fitando o chão, de modo que não encarasse E, conseguiu captar o momento em que ele se levantou parecendo transtornado e saiu porta à fora.

- Emmett, o que houve? - Ouvi-se o grito.

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Se houvesse mais algum corpo além do dele aquele local o mesmo se afastaria após ver o estado do homem que, mesmo parecendo impossível, continuava estático sobre o carro. Passaram-se mais uma fatídica de hora. Duas. Três.

Ele não sentia o tempo passar. Era como se tudo agora estivesse...sem vida. Tudo ruiu diante daquela cena miserável.

Ele contornou os joelhos com os braços, abraçando-os. Parecia como um menino de sete anos que acabara de descobrir que o seu super herói do quadrinho animado nunca existiu.

Fechou os olhos quando o vento calmo tocou seu rosto, era como se até mesmo ele pudesse sentir a dor que o dilacerava.

Como tudo isso aconteceu?, ele gritou mentalmente.

Além da mágoa, a tristeza, havia também, infelizmente, lugar para a raiva.

Raiva de sua mãe por fazer parte daquilo. Raiva de seu padrasto por aceitar aquele pedido; não é típico de um pai descordar do casamento da única filha? Raiva de Dougie; por que o bastardo tinha que ocupar o lugar que ele desejava? Raiva de Marilia; nunca, em nenhuma hipótese, ela deveria ter correspondido a ele; não deveria ser como é, ter os olhos profundo e sinceros; ter o jeito de menina inocente mesmo que, quando necessário, se igualasse a Hitler. Amaldiçoava-a por ter nascido.

E raiva de si mesmo; por ter se apaixonado.

Ele que soltava risadas debochadas quando seus amigos informavam que estavam apaixonados, quando assistia filmes de romance melodramático. Caçoava até quando via os olhos claros, idênticos aos seus, de sua mãe brilharem com uma simples declaração de amor do esposo.

Emmett era completamente descrente quando o assunto era sentimento. Dizia acreditar que amor não era algo real na sociedade de hoje em dia. Segundo sua "doutrina" - como dizia ele - o sentimento que muitos acreditavam sentir começara a ser escasso.

"Neste mundo onde há estupro, violência, traição, sofrimento, fome, miséria e o caralho a quatro. Tudo, absolutamente tudo em abundância, você ainda acredita que possa existe algum sentimento bom?"

Uma vez ele perguntou ao amigo que pareceu concordar com sua teoria.

Cansou-se de ouvir dos amigos que ele era a representação em carne e osso do pessimismo. Qual o problema se era o único que enxergava a realidade do mundo e não fechava os olhos para tal?

E agora lá estava ele, comprovando que o futuro é imprevisível e irônico.

Um dia repugnava o amor. No outro estava amando. No seguinte estava feliz por senti-lo. E no último veio a queda.

Amou alguém que não lhe amava.

A frase que lera de Abílio Guerra, uma única vez, adentrou sua mente como um baque.

"Toda a alegria vem do amor e todo o amor inclui o sofrimento."

Como se fosse possível seu coração contorceu-se ainda mais, aquela dor era, sem dúvida, a pior que sentira em seus vinte e dois anos. Todo seu corpo estava em estado dormente. Sua mente repetia cada momento com total perfeição.

Por Deus, faça parar. O sofrimento era tanto que a dor era angustiante, insuportável.

"A dor é inevitável. O sofrimento é opcional"

Como a frase de Abílio, a sábia do poeta brasileiro Carlos Drummond também foi dita por seu subconsciente.

Avaliou-a, lembrando-se da vez em que ouvira.

Sua professora de Geografia havia dito para seus colegas. Achou-a patética, mas no momento as palavras nunca pareceram tão verdadeiras e...acolhedoras.

Piscou os olhos, desta vez, ciente que os fez e lentamente deixou o corpo escorregar sobre o capô do Impala.

Ele poderia se sentir dilacerado, sem vida ou qualquer que fosse o sentimento presente, mas não era masoquista ao ponto de parar e sentir aquilo corroendo-o por inteiro.

Entrou no automóvel respirando pela última vez o ar puro do alto do mirante. Hora de voltar, ele pensou quando suspirou.

Sentindo as mãos tremerem e os olhos encharcarem novamente para sua infelicidade, retornou o caminho que cumpriu há...quanto tempo mesmo? Duas, três horas? Ou talvez quatro?

Já não importava.