7VERSE : VIDA 2
EPILOGO VIDA 2: ESTRANHAS PARCERIAS
CAPÍTULO 2
QUEM EU SOU NA VERDADE?
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Fazia uma semana que o agente Jensen Ross circulava com desenvoltura pelo edifício-sede do escritório de Los Angeles do FBI. Oficialmente, o agente texano viera participar de um curso de técnicas avançadas de combate ao cibercrime, com duração prevista de duas semanas. Um misto de curso de aperfeiçoamento e workshop para troca de experiências entre agentes. Um motivo perfeitamente plausível para a presença de Jensen Ross ali. Não precisava se reportar a ninguém especificamente e, uma vez dentro do prédio, poderia circular sem suscitar suspeitas.
Era para o curso ser apenas uma fachada, já que seu real objetivo era desvendar as circunstâncias da morte da promotora Jessica Moore. Mas, Sam estava verdadeiramente empolgado com tudo que estava aprendendo. Ele, que sempre se considerara um hacker habilidoso, estava descobrindo que, se comparado aos instrutores, ou mesmo a alguns de seus colegas de curso, mal podia ser classificado como aprendiz de hacker.
Os instrutores eram, em sua maioria, jovens hackers que foram apanhados e tiveram as penas convertidas em um trabalho que acabaria por levar outros como eles próprios para atrás das grades ou para a frente de uma platéia de federais como aquela.
Ou seja, por mais que fossem bons, não eram tão bons quanto os que os rastrearam. Sempre havia alguém melhor. Sam lembrou como fora facilmente rastreado por Ed Zeddmore e pensou no quanto estava se arriscando só pelo fato de estar ali.
Um instrutor em especial chamou a atenção de Sam. Gostou dele pelos mesmos motivos que fizeram com que a maioria dos agentes antipatizasse com ele logo de cara. O garoto era sarcástico, irreverente e parecia ter dificuldade em aceitar qualquer tipo de autoridade. Seu verdadeiro nome era Brock Kelly, mas ele preferia ser chamado pelo seu codinome na comunidade hacker: Ash. Não era o mesmo Ash que Sam conhecera no Roadhouse e que ajudara os Winchester no passado. Nem seria possível. Aquele Ash estava morto e esse era um garoto que mal completara os 18 anos.
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Ao final da primeira das cinco aulas que daria no curso, Ash propôs um desafio à platéia de agentes. Que três deles apresentassem algo que representasse um desafio às suas habilidades de hacker. Ele daria a solução antes do final da quinta aula. Podia ser algo pessoal ou ligado a algum caso que tenham trabalhado ou que estivessem trabalhando. E, alfinetou ao final, dizendo que se fosse um agente nenhum caso ficaria sem solução por mais de uma semana.
Ash pediu que os interessados digitassem o desafio diretamente no seu laptop, um equipamento sem portas de entrada e desconectado da rede e que, portanto, não podia ser acessado remotamente.
Ash olhou interrogativamente para o agente que formulara o terceiro desafio. Uma frase curta que trazia uma questão que podia ser interpretada de um milhão de formas diferentes. 'QUEM EU SOU NA VERDADE?'. O agente o encarava com um sorriso desafiador.
Ash tinha o hábito de dar apelidos para todo mundo e batizara Sam de sasquatch assim que batera os olhos nele, ou melhor, assim que batera os olhos no imenso par de sapatos que exibia ao sentar esticando as pernas à frente do corpo. O agente se identificara como agente Ross, de Dallas. Ash tinha memória fotográfica e lembrava do nome completo de todos os inscritos no curso. O único Ross da lista era Jensen Dean Ross. Lembrava também que já escutara aquele nome antes.
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Jensen Dean Ross era um nome conhecido e respeitado no FBI, uma verdadeira lenda viva. Como era um agente de campo, e muitas vezes trabalhava infiltrado, tinha sua imagem preservada pela organização. Só quem já trabalhara diretamente com ele conhecia sua aparência. Fora exatamente por isso que fora escolhido para ser personificado por Sam. Por ser respeitado e praticamente desconhecido. Corporativamente, havia poucos dados divulgados sobre ele. Fora do FBI, praticamente nada.
Sam se dedicara a descobrir o máximo possível sobre Jensen Ross nas duas semanas anteriores, com muito pouco sucesso. Suspeitava que as informações sobre os agentes fossem sistematicamente removidas da rede.
Teria que compor o personagem com base na visão que os outros faziam dele: um tipo obcecado pelo trabalho que vinha ganhando destaque pela seriedade e eficiência na resolução das tarefas a que era designado.
Agentes não costumam conversar sobre aspectos de suas vidas pessoais com estranhos, mesmo quando estes estranhos são outros agentes. E, muito menos, expor detalhes dos casos que estavam trabalhando, geralmente envolvidos por todo tipo de sigilo. Isso estava sendo bastante conveniente para Sam desempenhar seu papel sem levantar suspeitas.
Sam já tentara três vezes invadir a rede interna nível 4, onde estavam os arquivos sigilosos ligados às 10 linhas de ação prioritárias do FBI. Tinha até instalado dispositivos espiões em três diferentes PC's para capturar senhas que lhe permitissem acesso ao nível 4. Mas os usuários daquelas máquinas que invadira não tinham autorização para acesso àquele nível de informação. Provavelmente ninguém daquele setor tinha.
Estava chegando à conclusão que, sozinho, não conseguiria quebrar as barreiras de segurança no tempo que dispunha. Precisava de ajuda especializada. O desafio lançado por Ash lhe pareceu a oportunidade perfeita para cooptar um aliado. Mas, agira por impulso. É claro que sabia que se desse errado, isso podia levá-lo para atrás das grades por muito muito tempo.
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Ash estava curioso sobre o terceiro desafio, mas, ao contrário do que aparentava, era disciplinado e metódico na abordagem de um problema. Antes de se concentrar no desafio #3, se empenharia em resolver os desafios #1 e #2.
O desafio #1 era descobrir o paradeiro de um homem, tendo apenas o nome. O agente não revelara, mas a verdade é que ele perdera o rastro de um suspeito de espionagem industrial em uma empresa que tinha um grande contrato com o Ministério da Defesa.
Era uma corrida contra o tempo, pois o espião podia já ter deixado o país. O agente queria poder estar se dedicando exclusivamente ao caso, mas fora mandado para aquele curso para escutar um pirralho arrogante contar vantagem. Adoraria tirar o ar de superioridade da cara daquele idiotazinho metido. Mostrar a ele que no mundo real as coisas eram bem mais difíceis. Acha tão fácil assim? Então me diga aonde está o maldito espião.
O agente que propôs o desafio não ficou nem um minuto a mais no curso após Ash lhe entregar o papel com o endereço do homem. Não quis saber qual foi a linha de raciocínio nem o método usado por Ash para chegar ao suspeito. Tudo o que lhe interessava era capturar o sujeito e, assim, ganhar respeito na organização. Queria capitalizar a prisão do espião para impulsionar sua carreira. Não tinha a mínima intenção de dividir o crédito pela captura com quem quer que fosse.
Enquanto apresentava a solução do primeiro desafio, detalhando o método e a linha de raciocínio, Ash se pegou diversas vezes observando as reações do agente que lançara o terceiro desafio. Notou que ele mantinha uma expressão séria, compenetrada, extremamente profissional. Mas, notou também que aquele comportamento parecia forçado demais. Aquele homem não parecia alguém tão certinho assim. Ele agia como alguém que estivesse representando um papel. Decifra-me ou te devoro.
'Foi você mesmo quem pediu, sasquatch. Mais dois dias e sua vida vai ser um livro aberto para mim. Se eu quiser, descubro até a cor da cueca que você está usando. Ou o desafio é descobrir que você faz essa cara de mau, mas, na verdade, prefere usar calcinhas?'
Sam ficou encabulado sem nem saber bem o porquê, com o riso debochado que Ash lhe dirigiu.
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O segundo desafio equivalia a encontrar uma agulha num palheiro. Mas, é fácil encontrar uma agulha de aço quando se dispõe de um poderoso eletroímã. Você não vai atrás da agulha, faz a agulha chegar até você. E foi assim que Ash chegou à identidade de um estelionatário que operava no mercado secundário de títulos do Tesouro americano e que já tinha lesado investidores da costa oeste em mais de trinta milhões de dólares.
Ash vencera os dois primeiros desafios e fez um grande alarde destas vitórias. E fez questão de afirmar que, no dia seguinte, podiam contar com mais um desafio vencido. Sam começou a temer ser desmascarado em grande estilo. Seu destino estava nas mãos de Ash. Bem, restava uma alternativa. Matar o garoto. Mas, mesmo para isso, tinha poucas horas para agir. Claro que não cogitava aquilo, nem mesmo para se salvar. Tinha que confiar em seus instintos. Ash não o denunciaria.
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Era inevitável que a ansiedade quanto à possibilidade de ser desmascarado e preso tirasse o sono de Sam. Insone, ele resolveu fazer o que costumava fazer em ocasiões como aquela: buscar indícios de ocorrência de atividade sobrenatural em território americano. Os assassinatos rituais em Iron, uma cidadezinha do Meio-Oeste, pareciam não envolver aspectos sobrenaturais. Apenas mais um caso de crimes de ódio. Atividade poltergeist em Harveyville, no Kansas. Um universitário atacado e semidevorado, supostamente por um grande animal, próximo a Portland, no Oregon. Possessão demoníaca em Miami. Como sempre, muitas possibilidades.
Um caso em especial chamou a atenção de Sam: um assassino serial que removia a pele do rosto de suas vítimas e desenhava com faca um pentagrama em suas palmas das mãos e dos pés. Quatro mortes num intervalo de seis semanas na área rural de Cedar City, no Utah. A região tinha forte influência mórmon e os assassinatos estavam levando pânico a uma comunidade normalmente pacata. Milícias armadas estavam sendo organizadas para caçar o assassino.
Sam se perguntou se não devia esquecer o mistério em torno da morte de Jessica Moore e se concentrar em salvar inocentes de um monstro assassino. Como que em resposta, o celular de Sam toca.
– Oi, Sam.
– Ed? Como vai o treinamento?
– Perdi três quilos e estou todo dolorido. Mas, não foi por isso que liguei. Acabei de descobrir o paradeiro de Jensen Ross. Ele foi designado para investigar as mortes em Cedar City. Sabe do que estou falando?
– Estava pesquisando exatamente isso, mas não sabia do envolvimento de Jensen Ross. Ed, quero que siga amanhã à tarde para Cedar City. É o tempo que eu preciso para fazer chegarem a você credenciais falsas de repórter. Descubra o que puder sobre as mortes e fique de olho em Jensen Ross. Mas, não se arrisque. Ter alguém cuidando do caso me dá o tempo que preciso para fechar as coisas por aqui. Jensen Ross terá uma semana de vantagem. Se ele não der conta do recado, sigo para Cedar City daqui a oito dias. Nos encontramos no hotel em que estiver hospedado. E mais uma coisa, Ed. Mais urgente ainda. Para agora. Apague da internet qualquer referência a meu respeito. Acho que fiz uma besteira e um hacker, codinome Ash, pode estar neste exato momento na minha cola.
– Ash? Conheço de nome. Soube que o sujeito foi pego pelo FBI há cerca de um ano atrás.
– Ele virou instrutor do FBI. E eu desafiei o garoto. Ele é bom. Vai descobrir fácil que não sou Jensen Ross. Mas, não pode chegar a Samuel Winchester.
– Obrigado pela confiança, Sam. Mas eu não sou páreo pro Ash. Uma ponta solta, por menor que seja, e ele chega a você. Sinto dizer, mas acho que você está ferrado. Se eu fosse você, pegava a estrada hoje mesmo e sumia. Ficava um ano desaparecido.
– Obrigado, Ed. Conseguiu me tranquilizar bastante.
– Se for pego, negue que me conhece.
Sam desliga o celular, mas se mantém pensativo, ainda empunhando o celular.
– É, Jensen. Parece que de uma maneira ou de outra nossos caminhos vão acabar se cruzando.
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Na manhã seguinte, ao entrar na sala do curso, Sam é surpreendido por um chamado de Ash. Com um grande sorriso, ele entrega uma foto impressa a Sam. A foto mostrava um sorridente garoto de quatro anos, cabelos cor de trigo e olhos de um impressionante tom de verde.
– Você foi um garoto muito bonito. Mas, é impressionante como ficou diferente depois que cresceu.
Sam engole em seco. Fora desmascarado por Ash.
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COMENTÁRIOS:
1) 'Atividade poltergeist em Harveyville, no Kansas,' é uma referência à minha primeira fic, PERIGO REAL E IMEDIATO.
2) 'Um universitário atacado e semidevorado, supostamente por um grande animal, próximo a Portland, no Oregon', é uma reedição dos acontecimentos de VIDA 5 na realidade 2.
3) Sam estava destinado a morrer investigando os crimes em Cedar City (ver SETE VIDAS-PRÓLOGO). Um elemento da equação que levaria a este final foi removido: Diana. Se isso foi ou não o suficiente para mudar o destino de Sam veremos nos próximos capítulos.
22.05.2014
