7VERSE : VIDA 2

EPILOGO VIDA 2: ESTRANHAS PARCERIAS

CAPÍTULO 3

DE MÉDICO E DE MONSTRO, UNS POUCOS TÊM MUITO

.


.

O agente federal Jensen Ross não estava gostando do rumo que as coisas estavam tomando.

Já vira acontecer antes. Nunca acabava bem. O pânico se instalara e milícias estavam se formando para caçar o assassino serial que a midia batizara de 'O Esfolador de Cedar City'. Apesar da referência a Cedar City, por ser maior e mais conhecida, na verdade os corpos foram encontrados na área dos parques florestais a nordeste da cidade, no interior do triângulo formado por três pequenas comunidades: Enoch, Parowan e Brian Head.

Tecnicamente, não foram assassinatos. As vítimas foram abandonadas com vida e teriam sobrevivido se encontradas a tempo. As mutilações infringidas, embora terríveis na aparência, dificilmente levariam à morte em circunstâncias normais. Mas, em todos os casos, quando encontradas, as vítimas já estavam mortas por hipotermia e desidratação.

O modus operandi foi o mesmo em todos os casos. A vítima foi sequestrada e levada para um lugar ainda não identificado, onde teve a pele do rosto, todo o couro cabeludo (escalpo) e dois terços da língua removidos cirurgicamente. Depois, a vítima foi transportada ainda viva para um ponto deserto da região de bosques, onde fora amarrada, com cordas, a estacas fincadas no solo. Presa pelos pulsos e pelos tornozelos, com o corpo formando um Y, braços abertos e pernas fechadas. O criminoso desenhou, então, com um objeto cortante, pentagramas nas palmas das mãos e dos pés das vítimas, supostamente num ritual. Mas, não há provas de que realmente tenha havido algum tipo de ritual, já que não surgiram testemunhas e nenhum objeto caracteristicamente ritual foi encontrado. As vítimas foram, então, abandonadas à própria sorte.

Exames toxicológicos mostraram que os procedimentos cirúrgicos foram realizados com a vítima anestesiada e que houve preocupações de assepsia e de prevenção de infecções, mesmo no desenho dos pentagramas. As palmas das mãos e dos pés foram banhadas com álcool antes e depois dos cortes. Mas, dificilmente, o objetivo seria aumentar as chance de sobrevivência da vítima. Isso não faria sentido, já que as vítimas foram abandonadas nuas, ao relento, em madrugadas muito frias e numa região de bosques, onde as chances de serem encontradas a tempo eram mínimas, para não dizer nulas. Fazia mais sentido, admitindo-se a hipótese de morte ritual, que as vítimas tenham sido cuidadosamente preparadas para serem oferecidas em sacrifício.

Embora as vítimas tenham sido encontradas nuas, os exames não acusaram nenhuma evidência de violência sexual praticada contra elas. Isto eliminava um grande número de suspeitos em potencial e fortalecia a hipótese de motivação religiosa.

Jensen vira os corpos de duas das quatro vítimas no necrotério de Cedar City e também vira os registros fotográficos feitos pela perícia técnica e pelo legista destas e das duas outras vítimas. Era uma visão assustadora. Os músculos da face totalmente expostos, o couro cabeludo arrancado, a língua cortada. Todos homens brancos jovens, embora nenhum fosse adolescente. Um possível padrão. Outro possível padrão. Todas as vítimas eram nativas da região e, mais especificamente, da comunidade mais próxima ao ponto onde o corpo foi encontrado: Enoch, Parowan ou Brian Head. Todos membros de famílias radicadas na região há mais de um século.

Não parecia ser simples coincidência que duas das vítimas fossem da região, mas morassem fora. Uma morava em Salt Lake City e outra em Denver. Estavam na região visitando parentes e foram sequestrados. As outras duas vítimas trabalhavam em Cedar City, em atividades mal vistas pelos grupos fundamentalistas. Um instrutor de esqui, com fama de malandro e mulherengo; e um barman que trabalhava num inferninho, com diversas passagens pela polícia por tráfico de drogas. Ovelhas negras de famílias com profundas tradições religiosas.

Esfolamento e escalpelamento. A visão dos corpos era horrível, mas o pior era saber que existe um nome para cada barbaridade que um ser humano é capaz de fazer a outro. Uma prova inconteste de que não fora a primeira, e, provavelmente, não seria a última vez que algo assim aconteceria. A remoção cirúrgica da língua tinha um termo médico moderno: glossectomia. Mas, ter a língua arrancada era uma punição muito praticada e não só na antiguidade.

Os relatórios dos peritos destacavam a perícia cirúrgica da remoção da pele do rosto das vítimas. O médico e o monstro eram uma única pessoa. Talvez não exatamente um médico, mas alguém com formação na área médica. Isso era, sem dúvida, um elemento importante, e já havia uma equipe do escritório local do FBI trabalhando nisso. Diversos nomes tinham sido investigados com base neste perfil, mas todos dispunham de álibis convincentes. A investigação ainda estava na estaca zero.

Os pentagramas evocavam práticas satânicas. Um prato cheio para a imprensa sensacionalista e a especializada no bizarro e no sobrenatural. Uma segunda equipe estava voltada para essa linha de investigação. Dois dos investigados acabaram presos por crimes sem relação direta com os atribuídos ao Esfolador de Cendar City. Homens igualmente capazes de monstruosidades. Felizmente tirados de circulação.

Como não podia deixar de acontecer, a cada assassinato a região era invadida por um exército de jornalistas e de curiosos. Mas, como o último assassinato ocorrera há dezesseis dias e era agora notícia velha, a maior parte já tinha satisfeito a curiosidade mórbida, a própria e a de seu público, e partido. A maioria, mas não todos. E era com esses idiotas que Jensen tinha que se preocupar.

Um tal de Ed Zeddmore lhe apresentara uma credencial de repórter, mas cinco minutos de pesquisa na internet revelara quem o sujeito era na verdade. Um pretenso caçador de fantasmas. O site dele, Ghostfacers, deixou de ser atualizado há três meses, mas continuava lá. Com nomes, endereço eletrônico para contato, espaço para propaganda e até pedido para contribuições. Deve ter vindo atraído pelos pentagramas desenhados nas vítimas. Precisava ficar de olho no sujeito. Para segurança dele próprio.

O medo fazia crescer a tensão. O próprio Jensen vinha sofrendo hostilidade por parte dos moradores. Mesmo quando era reconhecido como o agente do FBI oficialmente designado para investigar os crimes. Ou, talvez, exatamente por isso. A região tinha colonização mórmon e muitas propriedades pertenciam a grupos fundamentalistas que praticavam a poligamia e buscavam manter-se isolados. Esses grupos eram previsivelmente hostis a agentes federais, já que a poligamia, embora tolerada, era proibida por lei no estado. Eram naturalmente hostis a forasteiros e a tudo que fosse estranho ao seu modo de vida. E, insuflada por autoproclamados porta-vozes de Deus, essa hostilidade começava a descambar para a violência.

Cedar City era uma cidade universitária e toda a região estava acostumada a receber um fluxo regular de turistas, em sua grande maioria jovens. Com os excessos típicos da idade, principalmente quando se descobriam, pela primeira vez, livres da vigilância paterna. A provinciana Cedar City, para esses grupos tradicionalistas, era a própria capital do pecado. Uma ameaça para seu modo de vida isolado e uma tentação para seus jovens.

A crueldade das mortes e a suspeita de satanismo mexiam com medos arraigados. Fortalecia os valores tradicionais. Fortalecia o medo de tudo que fosse de fora. Exaltava os ânimos. Qualquer estranho à comunidade de fiéis era automaticamente colocado na lista de suspeitos. Idiotas. Não viam que esse tipo de crime estava geralmente associado a algum tipo de pensamento religioso, mesmo que por negação.

Agressões verbais e ameaças de agressão física contra forasteiros e turistas não eram novidade na região, mas vinham aumentando de frequência e de gravidade desde o início da série de crimes. A ação mais comum era um grupo de fanáticos intimidar forasteiros, forçando-os a entrarem em seus carros e a deixarem a região. Mas, três semanas antes, duas mulheres que andavam abraçadas foram atacadas com pedras. Um rapaz coberto de piercings e tatuagens tinha levado uma surra de desconhecidos e estava internado em coma profundo. Uma repórter fora hostilizada e tivera o gravador digital quebrado.

Jensen estava na cidade há duas semanas. Chegara dois dias depois do último assassinato. O que mais lhe chamou a atenção foi a participação maciça da população em cultos e atividades promovidas pelas igrejas. Soube depois que a frequência de fiéis nas missas aumentara muito desde que começaram as mortes. Sempre que acontece um crime, a primeira pergunta a se fazer é: QUEM GANHOU COM O CRIME? E aqui, quem parecia ter ganho algo eram as igrejas e os grupos fundamentalistas.

Jensen acreditava estar fechando o pano de fundo, mas faltavam as provas. E faltava, principalmente, identificar o criminoso.

.

Maldita investigação. Tudo indicava que ainda ficaria na cidade por, pelo menos, uma semana. Quase um mês inteiro fora. Não que isso fosse novidade em sua vida. Sempre fora muito focado no trabalho. Já acontecera de ficar meses longe de casa, emendando uma investigação na outra. Isso nunca antes chegara a incomodá-lo realmente. Era seu dever e saber disso lhe bastava. Mas, neste momento específico de sua vida, tudo que Jensen queria era um tempo para si próprio.

Um tempo para si próprio. Era pedir muito? Depois de cinco anos sem férias? Droga, ele também tinha direito a ter uma vida sentimental.

Antes, não tinha ninguém à sua espera. Chegara a pensar que nunca teria. Já estava até meio que conformado. Agora, tinha medo. Medo de perdê-la. E nem poderia culpá-la. Se casamentos desmoronam quando um se mostra ausente, o que dirá um namoro. Qual a garota que aceita uma ausência de três semanas?

Queria poder ligar para ela, nem que fosse apenas para ouvir a sua voz. Mas, não podia. Não podia arriscar que rastreassem a ligação e pusesse tudo a perder. Oficialmente, ela estava morta. E era importante que todos continuassem pensando assim.

Entrou na intranet do FBI e acessou o nível 4. Abriu sua caixa de e-mails. Quatrocentas e setenta e seis mensagens novas. Acumulados nas duas semanas que não acessara o sistema. Como detestava aquela perda de tempo. Deleta. Deleta. Deleta. Importante. Importante. Deleta. Deleta. Deleta. Muito Importante. Talvez. Deleta. Engraçado, uma série de mensagens do escritório de L.A. sobre um workshop de combate ao cibercrime. Olhou na lixeira. Havia outras que deletara sem ler. A primeira de três semanas atrás. Vejamos ...

– Confirmação de inscrição? Que merda é essa? Será .. ? Não, ninguém seria tão louco.

Jensen acessa a página de treinamento interno.

– Escritório Los Angeles. Mês Novembro. Cursos Técnicos. Técnicas Avançadas. Combate ao Cibercrime. Aqui está. Participantes. Lista de Presença. Jensen Ross. Presente em todas as aulas de todos os módulos da primeira semana. Os dados da segunda semana não estavam atualizados. FDP. Usando MEU nome para invadir o FBI sabe-se lá com que propósitos. Mas, isso não vai ficar assim!

Jensen já fora palestrante no escritório de L.A. mais de uma vez e sabia que todas as palestras eram gravadas em vídeo. A maioria das salas tinha uma única câmara, que, naturalmente, ficava voltada para o palestrante. Esta câmara tinha áudio e boa resolução. Umas poucas salas tinham, no entanto, uma segunda câmara que esquadrinhava a audiência e costumava ter baixa resolução. Se tivesse sorte, ..

Bom. ESTAVA com sorte. Tinha a lista de participantes e, agora, tinha os vídeos das aulas. Era só identificar os participantes um a um confrontando as fotos dos respectivos registros funcionais com o vídeo e descobriria quem não correspondia a nenhuma das fotos.

Mas, nem precisou. O palestrante de técnicas usadas por hackers fizera um desafio e alguém, que se identificara como agente Ross, resolvera desafiá-lo. AGENTE ROSS! O sujeitinho tinha topete. Nem para ficar na encolha e tentar passar despercebido. Não, tivera a petulância de se expor aos holofotes.

O sujeito fora audacioso, mas jogara com a sorte e perdera. Na manhã seguinte, o maldito impostor receberia voz de prisão no momento em que pusesse os pés no prédio do FBI. Não ia escapar de uma longa pena em prisão federal. Ele, Jensen, se empenharia pessoalmente para que a pena fosse a mais longa possível. Usaria toda a sua influência para que cumprisse a pena na unidade com a pior fama, a mais rigorosa, a mais isolada. O sujeitinho ia descobrir da pior maneira que escolhera a pessoa errada para brincar. Ia fazê-lo arrepender-se amargamente de ter tentado enlamear a reputação do agente Jensen Dean Ross.

.


UM ROSTO PARA JENSEN ROSS:

Na realidade 2, Dean existe numa versão feminina: a Diana Winchester que se descobriu grávida no capítulo 1. Jensen Ross não é a contraparte de Dean Winchester da realidade 2. Jensen Ross é uma versão alternativa de Jensen Ackles e tem a aparência física que o ator tem atualmente (nona temporada). O Dean da realidade zero é mais jovem (terceira temporada).


30.05.2014