7VERSE : VIDA 2

EPILOGO VIDA 2: ESTRANHAS PARCERIAS

CAPÍTULO 4

DESCOBERTAS PERIGOSAS

.


AGORA

.

02:12 AM, hora local.

Ash estava excitado. Informação é poder. Ele adorava a sensação de descobrir algo que alguém se esforçara muito para manter oculto. Adorava ser desafiado. Provar que era capaz de superar qualquer desafio. Mostrar que era o melhor. Como agora: fora desafiado por especialistas da mais respeitada organização policial do mundo, homens considerados hackers pelos seus pares, e saíra-se vencedor. Dedicando umas poucas horas para cada desafio. Vitorioso não uma, mas três vezes seguidas.

- Você não devia ter me desafiado, Sasquatch. Ou melhor, Samuel Campbell Winchester.

.

.

ANTES

.

Descobrir que Sasquatch não era o agente Jensen Dean Ross fora ridiculamente fácil. Afinal, pessoas reais têm parentes, frequentaram escolas, já ficaram doentes. As pessoas têm amigos, vão a festas, namoram, casam, pagam contas, têm cartão de crédito, pagam hipotecas. Todo mundo deixa rastros.

E, por mais que alguém tente, é impossível apagar a todos.

Existem registros que não podem ser apagados ou alterados por serem protegidos por leis. Podem, no máximo, ser ocultados. Ou o acesso a eles pode ser restringido. Estes dificilmente estão disponibilizados na web. Muitos existem apenas em papel e, quando muito, foram digitalizados e estão guardados na própria instituição. Os principais são os registros cartoriais: certidões de nascimento e óbito, registros de propriedades, testamentos. Um detetive iria atrás desses registros, um hacker buscaria alternativas. Hacker que se preze não manuseia papel empoeirado ou usa obsoletas máquinas de leitura de arquivos digitalizados.

Existem registros que estão na rede e têm acesso controlado ou franqueado apenas aos interessados. Registros escolares e de órgãos profissionais, processos judiciais, registros policiais e de infrações de trânsito, dados de prefeituras e de concessionárias públicas. Para qualquer um que se considere hacker é como se fossem livres para consulta.

E existem os gigantescos bancos de dados de bancos e instituições financeiras, seguradoras, operadoras de cartões de crédito, vendas on-line e, mais recentemente, as redes sociais. E, claro, os de grandes corporações e órgãos ligados à segurança nacional. Protegidos por todo tipo de barreiras e por criptografia. O acesso a estes está limitado apenas pela capacidade do hacker. É onde se separa os meninos dos homens. E, aqui, Ash, que mal completara 17 anos, já era um homem feito quando tinha apenas 14.

.

Ash partira da informação mais básica que dispunha, além do nome e de saber que tratava-se de um agente federal. Jensen Dean Ross nascera em Dallas.

Sabendo isso, foi fácil descobrir que Jensen frequentou a Dartmouth Elementary School em Richardson, cidade que, na prática, é um subúrbio afluente de Dallas. Seu nome está na lista da Secretaria de Educação do condado. Sabendo isso, não foi difícil obter uma foto de Jensen com quatro anos. Outra, com cinco. E mais uma, com sete. Por mais que Jensen tivesse mudado, era fácil constatar que Sasquatch nunca fora aquele menininho louro.

Jensen teve uma namoradinha em 1996, seu último ano no L. V. Berkner High School. E, em 2007, ela postou diversas fotos dos dois num site de compartilhamento de fotos. Nelas, as feições do homem que ele é hoje já seriam reconhecíveis, o que só confirmou o que Ash já sabia: que Sasquatch era um impostor.

Isso dava sentido à pergunta QUEM SOU EU NA VERDADE? Já sabia quem Sasquatch NÃO ERA. Faltava saber quem era o homem que assistia suas palestras. E não ia descobrir isso investigando a juventude do verdadeiro Jensen Ross.

Uma questão fundamental era: o verdadeiro Jensen Ross sabia que havia alguém se passando por ele, naquele momento, dentro de um escritório do FBI? Se ele sabia, com certeza não seria o único a saber. Alguma instância do FBI teria que ter conhecimento e dado aprovação para aquela farsa. E não seria por causa do curso. Tinha que ser algo relacionado a algum caso que Jensen estivesse envolvido naquele momento ou, pelo menos, muito recentemente. O impostor teria que ser também um agente. Essa era a segunda pergunta a ser respondida. Você é um federal, Sasquatch?

Não lembrava de já ter visto Sasquatch circulando no prédio antes do curso. Não que prestasse atenção em homens, mas Sasquatch era um tipo que chamava a atenção pelo tamanho. O curso reunira agentes de todos os escritórios do FBI. O agente Ross estava lotado no escritório de San Antonio, embora fosse de Dallas, embora. Talvez Sasquatch também fosse de lá.

Embora a foto de Jensen Ross - e também informações que permitiriam que fosse rapidamente rastreado, como endereço e nome dos pais - não aparecesse na sua ficha funcional, ela existia e podia ser acessada. Se Sasquatch fosse um agente, existia igualmente uma ficha dele e, na ficha, um nome e, com sorte, uma foto. Uma busca no quadro funcional do FBI, a nível nacional, com um programa de identificação facial dera resultado negativo. Mas, isso não significava que Sasquatch não fosse um agente. Ele poderia ser, assim como Jensen Ross, um agente com identidade protegida.

Sasquatch, fosse quem fosse, morava – ou estava hospedado – em algum lugar da cidade. Se estava em um hotel ou equivalente, dificilmente escolhera um a mais de 40 km do prédio do FBI. Em qualquer outra cidade, sua aposta seria menos de 10 km, mas, em Los Angeles, grandes deslocamentos eram a regra e não a exceção.

Sabendo do horário aproximado de entrada e saída do prédio, talvez conseguisse rastreá-lo através das câmeras de controle de trânsito da prefeitura e das câmeras de controle de entrada e saída do prédio do FBI. O curso se iniciara na segunda-feira da semana anterior. Tinha, pelo menos, oito dias de registros a disposição. Só precisava encontrá-los. Se desse a sorte de descobrir a placa do carro que Sasquatch usava nos seus deslocamentos e fosse um modelo novo, talvez tivesse GPS. O GPS do celular era outra alternativa. Mas, precisava do número.

Ash logo descartou a opção pelas câmeras de controle de trânsito. Não estavam posicionadas de forma a permitir a identificação do motorista. Ou davam uma visão panorâmica ou privilegiavam a visualização da placa. Não chegaria a lugar nenhum sem conhecer a placa e as características do veículo. Mesmo que soubesse onde e quando procurar gastaria mais tempo do que dispunha. Tentaria as câmeras de segurança na vizinhança imediata do prédio do FBI. A sua aposta era as câmeras das áreas de estacionamento. Mas, deixaria isso para o dia seguinte. Uma coisa de cada vez. Sua prioridade do dia era o desafio 2.

Antes, precisava fazer uma impressão de boa qualidade da foto do Jensen garoto. Estava ansioso para ver a reação de Sasquatch ao ser desmascarado.

.

Ash era observador e viu que Sasquatch baqueou ao ser confrontado com a foto do menino que ele nunca fora. Mas, foi coisa de segundos. Ele fora pego desprevenido, mas, ao responder, sorridente e irônico, já recuperara o autocontrole. A voz saíra firme e confiante.

– O tempo está correndo. Vai precisar correr muuuuito.

O sorriso confiante que Sasquatch lhe dirigiu, não se manteve por muito tempo. A sua linguagem corporal dele mudara. Estava menos atento, mais dispersivo. A forma com mexia os pés mostrava inquietação. Sasquatch disfarçava mal que estava preocupado. Foi a vez de Ash sorrir debochado. Sabia que acertara o alvo.

.

Final de mais um dia de curso. O segundo desafio era agora passado. Chegando em casa, Ash faz um lanche rápido e segue direto para o quarto disposto a só levantar da cadeira depois de resolver o terceiro desafio: a verdadeira identidade de Sasquatch.

19:23. Ash entra na rede interna do FBI.

19:43. Ash identifica o horário exato que Sasquatch passa o crachá eletrônico na roleta de entrada no primeiro dia do curso. Com isso, obtém o código de identificação do cartão; e, com ele, Ash começa a rastrear a movimentação de Sasquatch no interior do prédio nos dias de curso. Pretendia identificar um padrão de comportamento.

19:58. Surpresa. O cartão registrava o horário correto de entrada, mas falsificava o horário de saída. A acreditar nos registros do crachá, ele nunca permanecia mais de vinte minutos depois de terminadas as aulas do dia. Mas, não era isso que os registros das câmeras do saguão da entrada do prédio mostravam. Os registros de imagem mostravam que não houve um único dia da semana anterior que ele tivesse saído do prédio menos de quatro horas depois de terminada a última aula do curso. O que ele fazia este tempo todo?

Ficar mais tempo no prédio, por si só, não era algo suspeito. A maioria dos agentes que conhecia era workaholic. Se Sasquatch fosse realmente um agente, seria até natural que não pudesse ou não quisesse deixar o trabalho acumular no período do curso. Se ele trabalhasse no prédio, se tivesse uma sala sua, era certo que agisse assim. Como agente visitante podia requisitar uma estação de serviço. O problema é que ele escondia isso. Se a farsa fosse do conhecimento da instituição, ele não precisaria deste artifício. Isso não era só estranho, era tremendamente suspeito. O homem não podia estar bem intencionado.

Quem sabe essa não era a sua grande chance? Se conseguisse desmascarar um espião infiltrado, poderia pedir a extinção da sua pena. Talvez fosse até convidado a tornar-se um agente. 'Sasquatch, você vai ser o meu passaporte para voos mais altos'. Mas, não podia ser irresponsável. Precisava ter certeza absoluta.

21:16. Sasquatch não deixara o carro no gigantesco estacionamento em frente do prédio do FBI ou usaria a outra entrada do prédio. Havia três outros estacionamentos na vizinhança, explorados por empresas privadas. Pela direção que tomava ao deixar o prédio, as alternativas se reduziam a duas. Em ambas, o que não faltavam eram câmeras de segurança. Havia câmeras panorâmicas, setoriais, nas entradas e saídas e no caminho até o prédio. Tentaria primeiro o mais próximo, o estacionamento da Wilshire Boulevard, com entrada pela Kinross Avenue. No horário que Sasquatch costumava sair o estacionamento estava quase vazio. Isso facilitava bastante. Permitia acelerar a fita até ... Bingo. Sasquatch indo em direção a .. um Toyota 2007. Saindo e a placa está bem visível. Pelo jeito, vai pegar a Wilshire Boulevard.

22:28. Como imaginara, o carro estava alugado em nome de Jensen Dean Ross. O endereço residencial fornecido era, no entanto, de uma loja, uma Wetzel's Pretzels, no centro comercial NorthPark Center, em Dallas. O carro fora retirado há duas semanas no Aeroporto Van Nuys. Pagamento com cartão de crédito, também em nome de Jensen Ross, 'cujo número é .. este .. aqui. O endereço para envio da fatura do cartão é de Palo Alto. Universidade de Stanford. Interessante.'

Sabia que Sasquatch almoçava no restaurante do próprio FBI, como a maioria dos participantes do curso. Prestara atenção a isso na véspera. O homem comia o dobro da porção média. Duvidava que o almoço fosse sua única refeição diária. Provavelmente saía para jantar. Se utilizasse cartão de crédito, descobriria a região onde estava hospedado.

22:54. O carro não tinha GPS. Muito azar.

23:35. 'American Express. Humm! Aqui. Opa! Aqui está. Downtown. Na região do Los Angeles Convention Center. South Flower Street. South Great Avenue. Muitos hotéis na região, mas aposto que você não é gastador, Sasquatch. Vejamos, então. Hotéis econômicos nesta região. Milner Hotel, talvez. Vejamos. Vejamos. Bingo. Quarto 503. Mr. Ross, Jensen.'

'Uma informação útil, mas não avança na questão da identidade. Tentemos outra abordagem. Onde você esteve no último fim de semana, Sasquatch?'

'Sem gastos de restaurante no sábado. Apenas a sorveteria Soda Jerks no Pier de Santa Monica no final da tarde de sábado. Interessante. Se eu conseguir uma imagem de uma das câmeras da região. Aqui. Esta dá uma boa visão panorâmica e pega a sorveteria. O pagamento foi feito às 16:09. Avançando a fita. Aqui. Ah! Finalmente. E quem seria esse lindo garotinho? Seu filho? Papai e filhinho num momento de lazer?'

'Mais perto. Não há dúvida, é você mesmo. Mais perto. Mais perto. Congela. Ótimo.'

'Um close e, com um programa de identificação facial pirateado do FBI, mais os arquivos da Secretaria de Educação do condado de Los Angeles ... Não. Não. Este. BINGO! Benjamin Winchester Braeden. Filho de Luke Sampson Braeden e de Diana Campbell Winchester. É você, Sasquatch? Luke Sampson Braeden é você?'

02:10 AM. 'Luke Sampson Braeden. Advogado formado em Stanford em 2004. Não, você não é ele. Diana Campbell Winchester. Advogada formada em Stanford. Mesmo ano. Colegas de turma que se apaixonaram e casaram. E qual a sua relação com eles, Sasquatch? Alguém muito próximo para lhe confiarem o filho. Parente? Um amigo do casal, talvez. Um amigo de muitos anos. Vejamos se você estava na festa de formatura do casal. Stanford, Direito, turma de 2004. Te peguei, Sasquatch. Você e Diana, todo sorrisos. É, você tem um sorriso bonito. Devia sorrir mais vezes. Formatura fechada com lista de convidados. E entre os convidados de Diana, o irmão Samuel Campbell Winchester. Sasquatch, essa sua irmãzinha é de parar o trânsito. Se ela não fosse casada, eu juro que me candidatava.'

– Quatro horas ontem. Mais seis horas e meia hoje. É, Sasquatch. Samuel. Sammy. Você me deu uma canseira de mais de dez horas, mas peguei você. Agora que sei o seu nome, eu descubro até a cor da sua cueca.

.

.

E RETORNAMOS AO AGORA

.

02:14 AM. Quando a porta do quarto abriu, Ash não deu importância. Sua mãe às vezes acordava e, vendo que ele ainda estava no computador, lhe trazia um lanche. Depois repetia o eterno chavão de que ele não devia dormir tão tarde, lhe dava um beijo no alto da cabeça, depois um boa noite protocolar e ia dormir.

Estranhando o ruído da porta sendo trancada a chave, Ash se vira, ainda sorrindo da própria esperteza. E gela ao ver quem está no quarto com uma expressão indecifrável no rosto e uma pistola com silenciador apontada para a sua cabeça.

Sasquatch ?!

.


11.06.2014