– O que há de errado com o Tai? – pergunta TK, sentando-se no sofá da casa dos Kamiya, na noite seguinte à chegada de Tai.

– Você não percebeu? – disse Kari, voltando da cozinha e jogando uma lata de refrigerante para ele. TK apenas balançou a cabeça e deixou a amiga continuar – Ele ainda está apaixonado pela Sora, TK...

– Ele ainda não superou? – TK sentiu uma onda de solidariedade por Tai. Ele também estava passando por algo parecido, só que menos complicado. Sempre que estava perto de Kari, ficava extremamente nervoso e sem graça, mesmo sendo amigo dela há anos. Só por pensar nela, TK corou discretamente, mas não passou despercebido por Kari.

– Claro que não... e ela também não superou a partida dele ainda.

– Mas se ele voltou, ela pode respirar tranquila e tentar esquecer, não é?

– Não sei se é tão fácil assim... – Kari olhou para as mãos, que estavam cruzadas em seu colo – Acho que ela também ama o Tai, mesmo que nunca tenha se dado conta disso.

– Por que acha isso? – às vezes, TK se esquecia que Kari era uma ótima observadora e sempre tinha um ponto de vista próprio e sólido sobre tudo o que ela pensava.

– É que ela sofreu muito quando Tai foi embora. Quero dizer, até mais do que eu ou o Matt ou Izzy, que são os melhores amigos dele.

– Mas ela também é a melhor amiga dele...

– Ah, TK! – disse ela, exasperada. Ele não havia entendido nada!

– O que foi? – ele se assustou com a atitude dela, pois não era de seu feitio gritar.

– Estou dizendo que ela sofreu muito mais porque está apaixonada por ele! – disse Kari, sacudindo os braços – Ela está do mesmo jeito que eu ficaria se você fosse embora e... – percebendo o que havia acabado de dizer, ela corou furiosamente e levou as mãos à boca, espantada. Mas TK sorria, como se fosse uma manhã de Natal.

– O que você disse? – perguntou ele, fazendo-a corar mais ainda.

– Eu... nada... eu... você ouviu! – ela desviou o olhar rapidamente. TK sorriu para ela e levantou seu queixo delicadamente, fazendo-a encontrar os olhos dele. Assim que olhou em seus lindos olhos azuis, ela não conseguiu resistir e deixou-se ser lentamente envolvida pela situação.

– Era tudo o que eu queria ouvir, Kari... – ele sussurrou e a beijou delicadamente. TK esperava que ela fosse bater nele, mas para sua surpresa, ela o puxava para mais perto, intensificando o beijo. Era como se ela quisesse colocar todo o amor que sentira por ele durante todos aqueles longos anos.

– Estou vendo que a conversa entre amigos está boa, hein! – Tai estivera observando os dois durante alguns minutos antes de interromper. Queria ter a coragem que TK teve para beijar Sora.

– Tai! – TK lançou um olhar de desculpas, pois sabia que o amigo era superprotetor quando se tratava da irmã mais nova.

– Está tudo bem... eu só vim pegar um copo de água. Mas acho que já está ficando tarde... amanhã vocês tem aula – disse Tai, com uma expressão calma, indiferente à cena que acabara de presenciar.

– É verdade... é melhor você ir para casa, TK – disse Kari, que ainda estava muito corada, mas feliz por ter finalmente beijado o cara dos seus sonhos – Amanhã a gente se vê.

– Eu te mando uma mensagem quando chegar... – ele deu um pequeno beijo nos lábios de Kari e saiu do apartamento.

– Por que está ai parada? – perguntou Tai, com a mesma expressão calma.

– Estou esperando você soltar sua bomba – Kari riu, mas logo ficou preocupada.

– TK é um bom menino... não tem motivo brigar com você por isso.

– Você está bem, Tai? – ela se aproximou do irmão e o abraçou. Ele beijou o topo de sua cabeça

– Não se preocupe... estou cansado.

– É a Sora, não é, maninho? – disse Kari, apertando os braços em torno de seu irmão.

– Como você adivinhou? – perguntou ele, sarcasticamente, fazendo Kari sorrir.

– Eu acho que você deveria dizer o que sente à ela...

– Eu não posso falar nada. A Sora escolheu Yuki e está com ele... eu não vou me meter no relacionamento dos dois... – disse Tai, balançando a cabeça. Sua irmã o importunava para falar à Sora como ele se sentia, pois morar dois anos em Hong Kong de nada adiantara.

– Tai, olha... você quem sabe... eu só acho que você deveria contar à ela. Você foi morar longe, pensando que poderia esquecê-la, mas não foi isso o que aconteceu... você ainda a ama com todo o seu coração. Não é justo você esconder dela um sentimento tão bonito... E você viu como ela ficou quando você chegou.

– Kari, é melhor irmos dormir... temos aula amanhã. – Tai encerrou o assunto. No entanto, ele pensava nas palavras de sua irmã mais nova. Realmente não era justo esconder esse sentimento tão intenso de Sora. Mas também não seria justo sofrer mais ainda por causa dele. Ele suspirou e virou para o lado, pegando no sono quase que instantaneamente.

No dia seguinte, Tai levantara e se olhara no espelho. Não estava com paciência para encarar o primeiro dia de aula, mas pôs o uniforme e saiu de casa. Já na rua, Tai decidira fazer o caminho mais longo até a escola. Não queria chegar muito cedo, pois não sabia o que esperava por ele. Queria saber se Sora já havia saído de casa. Quando eram mais novos, costumavam ir e voltar da escola juntos. Nunca se importara em pegar o caminho mais longo, já que permitia que ele passasse mais tempo ao lado da amiga.

– Ei, você! – ele ouviu uma voz suave, mas firme. Olhou para trás e viu uma menina vindo em sua direção. Ela era definitivamente muito diferente das meninas japonesas: tinha uma pele morena e grandes olhos dourados, como se eles fossem o próprio ouro derretido. Os cabelos negros dela eram compridos e caiam em cachos delicados por suas costas. Seu sorriso era doce e contrastava com sua pele, e seu corpo era esguio e curvilíneo. Tai a encarou e percebeu que sua boca estava entreaberta.

– Olá! – disse Tai, corando. "Que droga! Eu não sou tímido desse jeito!", pensou ele, enquanto via a menina se aproximar.

– Você está em Odaiba High? – perguntou ela.

– Por acaso, estou... – depois de se recuperar do choque, Tai lhe dá um sorriso amigável.

– E está cursando que ano?

– O último...

– Então está no mesmo ano que eu! – ela disse, animada – Você veio de onde?

– Eu sou daqui, mas eu fui estudar em Hong Kong por um tempo... ganhei uma bolsa para o futebol e achei melhor aceitar...

– Ah, então eu finalmente conheci o famoso Tai Kamiya! – disse a menina.

– Como... como você sabe meu nome? – ele sentiu seu rosto esquentar de novo.

– Não fique sem graça... você é amigo de Sora Takenouchi, não é? – a pergunta fez Tai congelar imediatamente.

– Sim... eu... quero dizer... somos amigos – ele respondeu – Como a conhece?

– Ela está na mesma equipe de tênis que eu... – disse ela, dando de ombros – Ela sempre me fala do melhor amigo que escapuliu para Hong Kong do nada... – a menina completou, depois de andarem alguns minutos em silêncio.

– Ela sempre fala? – Tai ficara animado em saber que Sora ainda se lembrava dele... com mais frequência do que imaginava.

– Sim... eu vejo que ficou contente em saber disso – a menina deu um sorriso significativo à ele, fazendo-o corar ainda mais – Bem, eu preciso pegar uns livros, e eu acho que você precisa saber qual é a sua classe – ela indicou o prédio da secretaria e só então Tai percebeu que eles já estavam parados no portão da escola.

Enquanto isso, Sora estava sentada em sua carteira habitual. Sua noite de sono fora comprometida pelo sonho que tivera.

"Ela e Mimi estavam sentadas em uma árvore no digimundo. Mas o tempo parecia ter regredido, pois elas usavam as mesmas roupas que usavam antigamente e suas feições eram muito mais joviais. Mimi se virou para Sora e pegou suas mãos.

Você sabe, Sora. Você sabe o que sente por ele – murmurou ela – Sabe que ele sente o mesmo que você.

De repente, todo o cenário some, inclusive Mimi e a árvore em que estavam sentadas. Sora se viu em uma espécie de vácuo, um lugar onde não tinha absolutamente nada. O cenário muda mais uma vez e ela se vê pendurada na borda de um imenso buraco. Ela gritou desesperadamente, pois reconheceu aquele lugar: era o buraco em que Nanomon ia jogá-la há muitos anos atrás. Seus braços tremiam com o esforço de se segurar, quando uma mão agarrou seu pulso e tudo ficou escuro.

Várias memórias surgiram naquele momento: Sora e Tai quando eram pequenos, brincado na caixa de areia; A lembrança mudou, mostrando os dois alguns anos depois. Eles jogavam futebol no mesmo time. Tai dera um passe para ela, e ela fez o gol da vitória. Ele a olhou com um grande sorriso no rosto. 'Você foi ótima!', gritou ele; a próxima lembrança era dos dois no digimundo. Ele segurava seu braço, para que ela não jogasse seu brasão do amor fora. Ele a fizera enxergar que era digna daquele brasão; Mais uma vez, a lembrança mudou, mostrando os dois um pouco antes de Tai partir. Ela havia contado a ele que estava saindo com Yuki e que estava muito feliz, pois se interessara por ele há alguns meses. Na hora, ela não percebeu, mas assim que prestou atenção na expressão de Tai, ela viu que havia tristeza em seus lindos olhos castanhos. As lembranças pararam e o sonho voltou para o buraco de Nanomon. O aperto em seu pulso era forte, mas ela não tinha mais medo. Sabia quem a estava segurando.

Sora, eu nunca vou te deixar cair... – ela olhou para cima e viu Tai com um sorriso torto nos lábios. Ele estava alguns anos mais jovem, seus cabelos estavam revoltos e aqueles olhos a olhavam com uma espécie de idolatria – Eu nunca poderia fazer isso, porque eu... eu..."

Sora olhou em volta e viu que estava em sua sala de aula novamente. Grunhiu frustrada porque não conseguia se lembrar do resto do sonho.

– Sonhando acordada a essa hora? – Sora olhou para trás e sorriu para Esther, sua amiga do clube de tênis. Era uma das poucas meninas que Sora conseguia ser amiga, pois a maioria das garotas em Odaiba High eram muito superficiais.

– É que eu não dormi muito bem essa noite... Tive uns sonhos esquisitos – Esther deu um sorriso compreensivo para Sora e se sentou na carteira que estava ao seu lado.

– Sabe quem eu encontrei vindo para cá? Aquele seu amigo, o Tai Kamiya – Sora congelou ao ouvir o nome do amigo.

– E como você sabia que era ele?

– Bem, ele estava meio cabisbaixo, então decidi puxar assunto... perguntei de onde ele era e ele me respondeu que era daqui, mas que fora estudar fora porque ganhou uma bolsa para o futebol... ai só juntei dois mais dois... – Esther deu de ombros.

– Entendo...

– Ele me pareceu bem animado quando eu disse que você havia falado dele...

– Esther! Como ousa? – perguntou Sora com certa censura na voz. Mas ela também ficara animada em saber da reação de Tai.

– Eu só disse à ele que você o tinha mencionado...

– Menos mal... – murmurou Sora, enquanto a porta da sala se abria e o professor Fujitaka entrava.

– Bom dia! – o professor Fujitaka abriu um grande sorriso para a turma – Espero que todos tenham aproveitado as férias, pois voltaremos a trabalhar duro para passar para uma boa faculdade... – os alunos gemeram, desanimados – Quero lhes apresentar um novo aluno, que estará conosco durante o segundo semestre. Pode entrar, Tai – o professor pediu e Tai entrou na sala. Muitos ali o reconheceram e deram um pequeno sorriso de boas vindas. Tai cumprimentou a todos e sorriu.

– Ele é bem bonito não é, Sora? – Esther cochichou.

– Eu... eu não sei... – disse ela, um pouco envergonhada. Mas por trás daquele constrangimento, uma sensação esquisita percorreu seu corpo. De repente, sentiu vontade de esganar a amiga por falar de Tai daquele jeito.

– Bem, como alguns de vocês sabem, este é Taichi Kamiya. Ele havia se mudado, mas voltou a se juntar a nós. Agora, vamos ver onde você vai se sentar... – assim que o olhar do professor bateu na mesa vazia atrás de Sora, ela sentiu seu rosto queimar – Pode se sentar ali, atrás de Sora, ao lado de Yamato – Tai sorriu ao ver que estava sentado ao lado de seu melhor amigo. Mas naquele momento, o que mais lhe interessava era a bela garota ruiva sentada a sua frente. A sua Sora.