Tai estava deitado em sua cama, pensando em todas as maneiras possíveis de chamar Esther para um encontro. Pensou em falar com ela na saída, mas concluiu que levaria um fora, pois ela era basicamente, uma desconhecida. Ele achou melhor se aproximar aos poucos, para ver se tinha pelo menos uma chance. E o mais importante: para ver se finalmente conseguia tirar Sora Takenouchi de seus pensamentos.

– Tai, telefone! – disse Kari, interrompendo seus devaneios – É a Sora... – comentou ela, enquanto fechava a porta. Ele ficou olhando para o telefone por alguns segundos, em choque, já que não esperava que ela ligasse para ele. Então se lembrou de que a amiga estava esperando que ele atendesse.

– Oi... oi Sora! – a voz de Tai falhou levemente ao dizer seu nome.

– Olá, Tai! É tão bom ouvir sua voz de novo – disse Sora. Tai arregalou os olhos de surpresa, mas logo abriu um grande sorriso ao ouvir aquelas palavras.

– É, é muito bom ouvir você também...

– Eu estava pensando se você não quer fazer algo hoje à noite... você sabe... sair por aí e jogar conversa fora, quem sabe...

– Mas é claro! – Sora deu uma risadinha ao notar o entusiasmo em sua voz e Tai ficou envergonhado. Então tentou manter a compostura, antes de voltar a responder – Quero dizer... eu adoraria.

– Então se arrume e passe aqui para irmos andando.

– Já estou indo – disse Tai, se atrapalhando ao tentar trocar os shorts velhos por uma bermuda.

– Ok, a gente se vê daqui a pouco... beijos.

– Tchau tchau! - Tai tropeçou e caiu.

– Percebi que alguém ficou muito feliz por receber uma ligação de Sora... – ironizou Kari, que assistiu a reação de seu irmão enquanto ele falava ao telefone. Tai ficou vermelho.

– Você não ia se encontrar com o TK? – ele resmungou, deixando Kari sem graça.

– Ele vem aqui... – disse ela, numa voz humilde.

– E você vai ficar sozinha com ele aqui? – disse Tai, levantando uma sobrancelha. Seu gênio superprotetor começou a dar sinais perigosos e Kari, percebendo isso, murmurou que ligaria para TK e iria à uma sorveteria, o que fez o digiescolhido da coragem soltar um grande suspiro de alívio.

Trinta minutos mais tarde, depois de se certificar que Kari iria mesmo à sorveteria, Tai se encontrara com Sora, na porta de seu prédio. Os dois andavam vagarosamente pelas ruas de Odaiba. Tinham decidido comer em uma lanchonete que eles sempre frequentavam quando eram mais novos. Enquanto se dirigiam até o seu destino, Tai não pôde deixar de reparar em como Sora havia ficado mais bonita. Seus cabelos estavam soltos, sem nenhum chapéu ou presilha neles. Ela usava uma minissaia vermelha e uma blusa azul clara, que combinava com sua pele. Ela reparou que ele estava olhando, mas não se incomodou. Na verdade, Sora se sentiu lisonjeada e grata às aulas de tênis, que lhe deram um corpo de causar inveja nas outras meninas.

– O que foi? – perguntou Sora, deliciada com a situação.

– N... nada, Sora – Tai ficou vermelho e procurou desesperadamente uma desculpa para explicar o porquê de ele estar encarando-a – É que todos mudamos muito inclusive você... e isso me preocupa.

– Como assim? – Sora ficou intrigada com a resposta dele.

– É que vendo que você está tão mudada, me lembro que Kari também cresceu e... – ele fez uma pausa – E agora, ela está com o TK. Eu os vi se beijando ontem à noite.

– Entendo... – Sora ficara um pouco decepcionada por Tai compará-la com a própria irmã dele, mas tentou dar continuidade à conversa, como se nada tivesse acontecido – E o TK está vivo depois disso?

– Na verdade, está. Eu estava com outras coisas na cabeça... coisas do coração – ele murmurou a última parte, para Sora não ouvisse, mas infelizmente, ela havia ouvido e o olhava um pouco surpresa.

– E... você quer me dizer alguma coisa? – a pergunta de Sora fez o sangue de Tai ferver e seu coração disparou. E ao invés de responder, apenas balançou a cabeça e olhou para o chão por um bom tempo.

– E então? – disse ela, querendo manter um clima agradável entre os dois – Como foi morar em Hong Kong?

– Foi bem legal... aprendi muitas coisas novas – disse Tai despreocupadamente – Aprendi a cozinhar, inclusive...

– Então quer dizer que parou de queimar as coisas? – Sora fingiu estar em choque e riu do olhar carrancudo de Tai. O amigo não tinha nenhuma habilidade na cozinha.

– Isso eu deixo para minha mãe, você sabe... – Tai sorriu, perguntando se Sora ainda se lembrava da catástrofe que sua mãe era na cozinha.

– Ah, vamos, Tai! Não era tão ruim! – ela respondeu e riu.

– Aquelas receitas naturais dela quase mataram o Izzy uma vez – Tai começou a rir com a amiga. Continuaram conversando até chegarem na lanchonete. Lá, Sora pediu um hambúrguer, uma porção grande de batatas fritas e um milk-shake de baunilha. Tai pediu o mesmo.

– Você ainda faz o mesmo pedido de sempre! – observou ele, enquanto a garçonete anotava seus pedidos.

– É claro! Nada melhor do que fritas e milk-shake de baunilha! – disse ela. Tai olhava para o rosto sorridente de Sora. Um dos motivos que ele a amava tanto era que ela não tinha frescuras em relação à tudo. Comia o que queria, quando queria, sem se preocupar com as calorias.

– Você sabe que eu prefiro o shake crocante, mas minha mãe diz que fazer o mesmo pedido da moça é cavalheirismo.

– Devo me sentir honrada com o uso incomum da sua educação? – disse Sora, levantando uma sobrancelha – Está com febre? – ela continuou, levantando-se para alcançar a testa de Tai.

– O que você quer dizer com isso? – ele a olhou, entrando na brincadeira. Nesse momento, a garçonete chegou com o pedido de ambos.

– Que você é um ogro! – ela riu e o som fez com que o coração de Tai pulasse uma batida. Para disfarçar, ele bebeu um pouco do milk-shake e cuspiu na direção dela. Ela sorriu, percebendo o que ele queria fazer. Bebericou um pouco e fez o mesmo. Eles ficaram um bom tempo vendo quem acertaria quem. Não ligavam para os olhares de censura das outras pessoas, nem para as pessoas que riam da estúpida brincadeira do jovem casal.

– Eu me diverti muito! – disse ele, assim que pararam em frente ao prédio de Sora.

– Eu também! Deveríamos fazer isso mais vezes... – sugeriu ela.

– É claro! – ele a viu sorrir e sentiu seu estomago revirar – Bem... é melhor eu ir andando.

– É verdade, está ficando tarde – disse ela, consultando o relógio de pulso.

– Obrigado pelo passeio – Tai ia se virando para ir embora quando uma mão delicada o segurou pelo pulso.

– Tai, quero te pedir um grande favor... – disse Sora, sem graça.

– Qualquer coisa! – ele a viu se aproximar e sentiu seu coração acelerando.

– Me dá um abraço? – ela estendeu os braços. Tai não sabia o que dizer, já que não era comum Sora ser tão carinhosa com ele. Mas mesmo assim, deu lhe um abraço apertado, colocando nele todas as palavras não ditas. Ela pareceu perceber e corou levemente – Você é o meu melhor amigo...

– Você também é minha melhor amiga, Sor – disse ele, meio decepcionado. Em seu íntimo, sabia que ele queria ser muito mais do que um amigo.

– Então um dia você vai me explicar por que foi embora? – disse ela, com os olhos brilhantes pelas lágrimas acumuladas.

– Um dia, Sor... – ele deu um sorriso triste. Se ele contasse o motivo de ter partido, provavelmente a perderia.

– Tudo bem... não vou forçá-lo a me contar nada... é só que eu senti tanto a sua falta, que chegou a doer... – ela olhou para o chão, como se quisesse esconder os olhos marejados.

– Me desculpe...

– Você é um idiota, Tai – disse ela, sorrindo fracamente. Ele não e sentia ofendido quando ela o chamava de idiota, pois ele sabia que era a forma que ela tinha para lhe mostrar o quão importante ele era.

– Sempre serei um idiota para você – ele engoliu em seco e aproximou seu rosto do dela, sem ter muita ideia do que fazer. Ele queria beijá-la e sentia que aquele momento seria ideal.

Sora ficou olhando Tai se aproximar e sentiu uma grande agitação no estômago. Era agradável e lhe parecia certo estar tendo aquele momento com seu melhor amigo. Ela fechou os olhos, esperando ansiosamente os lábios de Tai... quando seu telefone tocou.

– Ahhh! – ela gritou com o susto e com frustração. Ela rapidamente se recompôs e viu eu Tai fazia o mesmo. O rosto dele estava furiosamente corado.

– É melhor atender o telefone... – disse ele, sem graça. Ela viu que a ligação era de Yuki e suspirou pesadamente.

– Olá, Yuki – disse ela, sem nenhum entusiasmo.

– Nossa, baby, que voz desanimada é essa? – ele parecia preocupado no outro lado da linha.

– Não é nada... estou pensando no monte de deveres de casa para fazer...

– Ah, que droga! Você está ocupada... – ele disse, triste.

– O que tem em mente? – ela olhou para Tai, que fingia brincar com uma folha.

– Queria te levar para jantar. Estou me sentindo mal por estar tão ausente...

– Não tem problema, eu entendo que você tem seus compromissos...

– Eu queria compensar e...

– Tudo bem, me pegue às oito em ponto – ela interrompeu Yuki. Estava alegre por poder passar um tempinho com ele. Ela viu que Tai ficara tenso com o que ela acabara de dizer.

– Ah, mas é claro! A gente se vê! Amo você, baby.

– Eu também amo você – respondeu ela, suavemente. Ela desligou e olhou para Tai, que estava com uma expressão estranha no rosto... seria dor?

– Eu preciso ir... – ele disse assim que viu os olhos preocupados de Sora. Ele sabia que ela havia percebido.

– Espera, Tai... o que houve?

– Não foi nada... – disse ele, se virando e correndo o mais rápido que podia, deixando Sora chocada.

– Tai! – ele a ouviu gritar seu nome repetidas vezes. Ele aumentou o ritmo da corrida, até que não ouvisse nenhum resquício da voz de Sora. Avistou seu prédio, mas não queria ir para casa. Então foi até o parque, onde poderia mais uma vez, chorar pela menina dos olhos vermelhos.