A semana se passou rapidamente para todos, exceto para Tai, que andava estranho desde seu passeio com Sora. Era uma manhã de sexta feira, e ele precisava se levantar para ir à escola. Estava quase desistindo de sair de casa quando Kari entrou em seu quarto, com o rosto franzido de preocupação.
– Tai... – começou ela, mas Tai apenas se levantou e se dirigiu ao banheiro, onde se trancou. Kari se sentou na cama do irmão, extremamente magoada com o fato de seu melhor amigo nesse mundo estar triste. Então decidiu ligar para TK, que com certeza a confortaria.
– Bom dia, minha luz! – cumprimentou TK ao atender o telefone. Kari não pôde deixar de abrir um pequeno sorriso, pois ele sempre tinha esse efeito sobre ela.
– Bom dia... – disse ela, com uma voz que denunciava que ela não estava muito bem.
– O que houve, Kari? – ele perguntou com uma voz preocupada.
– É o Tai... ele está tão estranho... – ela contou o que havia acontecido naquela manhã e TK apenas escutou, sem interromper – Eu não sei mais o que eu faço... ele está assim desde quando saiu com a Sora na segunda feira.
– E você já falou com ela?
– Já, mas ela está tão no escuro quanto eu. Ela só disse que Tai ficou estranho do nada, disse que precisava ir e saiu correndo... ela também parece estar preocupada.
– Então fica difícil saber... e se o Tai não contou para você ou para Sora, provavelmente não vai contar para mais ninguém... – TK ponderou.
– Ou... – disse Kari, pensativa – Isso! – gritou ela, assustando o namorado do outro lado da linha.
– Você está começando a ficar parecida com a Mimi.. – disse ele, fazendo graça. Kari riu e se desculpou pelo susto.
– É que eu acho que o Matt e o Izzy podem ter uma resposta... – ela pegou seu D-terminal e começou a escrever um e-mail para Izzy, explicando tudo o que havia acontecido – TK, estou mandando uma mensagem para o Izzy. Por favor, ligue para o Matt e explique a situação. Eles já devem ter reparado que Tai está estranho e até mesmo conversado com ele sobre isso...
– É, é verdade. Vou ligar para o Matt... espero que ele consiga fazer o Tai dizer o que está acontecendo...
– Obrigada, TK, você é o máximo! – disse Kari, deixando-o vermelho do outro lado da linha – Nos vemos daqui a pouco!
– Até daqui a pouco, Kari! – ele se despediu e sorriu consigo mesmo, por ter conseguido tirar um sorriso de sua amada.
Tai se arrumou rapidamente e engoliu uma torrada antes de sair de casa. Andou pelo caminho mais rápido até o colégio, pois não queria passar pela casa de Sora. Ele não sentia raiva dela, nunca poderia. Mas sentia raiva de si mesmo, pois nunca tivera coragem o suficiente para dizer como se sentia. "Genial, eu tive coragem de enfrentar digimaus e corri vários perigos... e agora estou aqui, sem coragem para dizer o que sinto à ela!", pensou ele, revoltado. Ele estava tão absorto em seus pensamentos, que não percebeu quando esbarrou em alguém e derrubou a pessoa no chão.
– Ei! Toma cuidado! – disse uma voz irritada, mas suave. Tai olhou para baixo e viu Esther caída, com o material espalhado pela calçada.
– Me desculpa, Esther... – disse ele, meio corado. Ajudou-a a se levantar e recolheu o material da menina no chão.
– Está tudo bem? – sua voz suave já não estava mais irritada. Tai a olhou e viu que seu rosto estava franzido com preocupação.
– Está tão na cara assim? – perguntou ele, em um tom de brincadeira.
– Sim, está... – ela abriu um sorriso, que fez Tai ficar mais vermelho.
– Eu estou meio chateado essa semana...
– Acho que todos perceberam. Você é muito alegre, Tai... – ela sorriu mais ainda.
– Queria ser menos transparente... – resmungou ele, fazendo Esther rir.
– Ah, vamos! Não é uma coisa ruim! – Tai a encarou, como se ela fosse maluca – Quero dizer... eu acho muito legal alguém se mostrar por inteiro, sem se esconder de ninguém. Eu trocaria com você, porque não consigo chorar quando tenho vontade...
– É sério? – ele se lembrou de Kari, que agia de forma parecida.
– É sim, Tai... não se preocupe, tudo vai ficar bem. Eu não quero te forçar a me contar o que está te incomodando, mas se precisar... – ela abriu os braços, deixando claro que ele poderia contar com ela a qualquer momento. Tai sorriu e a abraçou, deixando-a vermelha. Então olhou nos olhos dourados da menina e instantaneamente se sentiu melhor. Surpreso com essa reação, não pensou duas vezes e tomou uma decisão que mudaria sua vida.
Enquanto isso, Sora estava na sala de aula, com Matt e Izzy. Ambos haviam dito à ela que Kari estava preocupada e queria saber o que tanto incomodava Tai. No fundo, ela sabia que a repentina mudança de Tai acontecera por causa da ligação que ela recebeu de Yuki, mas não queria admitir.
– Acho que deveríamos perguntar logo, a Kari me pareceu muito abalada no e-mail que me mandou – disse Izzy, que também estava preocupado com o amigo.
– E o Takeru disse que ele não quis dizer à Kari e nem à você, Sora... – Matt notou a expressão triste da amiga e logo se arrependeu por ter dito aquilo – Nós vamos consertar isso! Na hora do almoço eu e o Izzy vamos conversar com ele e ver o que está acontecendo. Ele está assim há quase uma semana.
– Obrigada, gente... – Sora sussurrou e enterrou a cabeça nos braços, deixando claro que não queria mais participar daquela conversa. Izzy e Matt se entreolharam e se deram por vencidos, pois sabiam que nada do que dissessem animaria Sora.
– Bom dia! – disse uma voz animada, dando um susto em todos os que estavam na sala. Sora levantou a cabeça rapidamente e viu que Tai acabara de entrar. Ele trazia um grande sorriso no rosto e estava completamente diferente do cara cabisbaixo que estava durante toda a semana.
– Bom dia, Tai! – disse Izzy, com uma expressão óbvia de confusão – Está tão animado...
– É! E tudo graças à vocês dois! – Tai deu um abraço de urso nos amigos, que ainda não haviam entendido o que estava acontecendo. Assim que disse isso, Esther entrou na sala, acompanhada de alguns colegas. Ela conversava animadamente com eles e quando foi se sentar em seu lugar ao lado de Sora, olhou para Tai e sorriu alegremente.
– Ah... agora eu entendo o motivo da sua felicidade repentina... – disse Matt, sorrindo ao olhar de Tai para Esther. Izzy continuou pensativo, enquanto Sora lentamente percebia que o motivo do sorriso de Tai era sua colega de time. Seus olhos se encheram de lágrimas inesperadas, mas ela não as derramou. Sabia que estava tirando conclusões precipitadas, pois pelo o que ela ouvira de Tai, o motivo do sorriso dele era algo que Matt e Izzy haviam dito ou feito. Mas por que ela parecia tão certa de que Esther tinha uma grande participação nessa história?
Na hora do almoço, os três estavam naquele mesmo banco que se encontrava em um canto do pátio de Odaiba High. A única diferença no cenário era que Sora não havia aparecido na reunião do clube de tênis a alguns metros dali. Tai ficara preocupado com o sumiço da amiga, mas se repreendeu por pensar nela. Queria recomeçar e decidiu seguir o conselho dos amigos: esquecer Sora para não sofrer mais.
– E então, Tai? – Izzy começou – O que aconteceu que você ficou triste do nada e de repente voltou a ficar tão alegre?
– Eu decidi fazer o que vocês sugeriram... – vendo que Izzy continuava confuso, ele acrescentou – Vou seguir em frente! Esquecer a Sora... – a última parte foi dolorosa de dizer, mas Tai não queria continuar amando alguém que não o amava da mesma maneira... ou que ele pensava que não.
– Eu já sabia... assim que Esther sorriu para você, eu percebi o que aconteceu... – disse Matt, dando tapinhas nas costas do amigo. Então, Matt colocou as mãos no peito e disse, teatralmente – Finalmente você fez o que era certo para o seu coração partido!
– Cala a boca! – disse Tai, dando um tapa brincalhão, mas forte na cabeça de Matt. Izzy sorriu ao ver que o amigo estava alegre de novo.
– E o que fez o grande Tai Kamiya mudar tanto assim de ideia? – perguntou Matt, ironicamente.
Tai sorriu e contou tudo aos amigos: sobre o dia em que saíra com Sora e a ligação que ela recebeu do namorado. Sobre a maneira que ela havia dito que amava Yuki. Disse que não podia mais aguentar ser infeliz, enquanto ela estava feliz, mesmo que não fosse culpa dela. Depois contou o que acontecera entre ele e Esther naquela manhã e como ele havia se sentido bem depois que esteve com ela.
– Eu não sei o que eu sinto pela Esther, mas ela foi a única pessoa que me fez sorrir enquanto eu estava mal. Por um triz, eu não fui parar no Mundo das Trevas – disse Tai, fazendo Matt estremecer com o assunto – Na verdade, ela que foi esse "triz" da questão... – um grande sorriso brotou em seu rosto ao dizer isso.
– Nossa, Tai... acho que você está começando a se apaixonar por ela... - disse Izzy, finalmente – Mas vai devagar, você não vai esquecer a Sora tão rapidamente e... Por que estão me olhando assim?
– Tai, você percebeu que o Izzy está te dando dicas sobre garotas? – disse Matt, com um osrriso irônico no rosto. Ele olhou para Tai, que estava da mesma maneira.
– É, eu acho que o Izzy sabe tanto porque tem alguma coisa acontecendo com ele...
– Ei! Espera um pouco! – Izzy estava tão vermelho quanto seus cabelos – Eu só quis dizer que Tai amou Sora durante toda a vida. Não vai esquecê-la assim – ele estalou os dedos.
– Eu sei... – Tai olhou sério para o chão. Sabia que Izzy estava certo, mas ele prometera a si mesmo que ia tentar.
– E então, o que vai fazer? – perguntou Matt.
– Estava pensando em chamá-la para sair... só um encontro normal... – ele deu de ombros – Como disse o especialista, tenho que ir devagar – Izzy apenas o ignorou, enquanto Matt e Tai riam do semblante do amigo.
O sinal indicando o fim das aulas acabara de tocar em Odaiba High. Todos os alunos rapidamente se dispersaram rapidamente. Tai estava na porta, esperando Esther sair. Ela havia se atrapalhado com algumas matérias e permaneceu na sala, copiando o que estava no quadro. Ele se ofereceu para ajudar, mas ela o dispensou, dizendo que já estava quase acabando.
– Ainda está aqui, Tai? – a voz de Esther o surpreendeu.
– É... é que eu queria falar com você... e ... estava te esperando – ele engoliu em seco quando a menina levantou uma sobrancelha.
– Então diga... – ela sorriu e Tai respirou fundo.
– Você quer sair comigo? – ele desviou o olhar, envergonhado. Não queria ver a expressão dela. O silêncio durou apenas alguns segundos, mas para Tai, pareceu durar horas.
– É claro! – disse Esther, com uma voz doce. Tai olhou para ela e viu que havia um grande sorriso em seu rosto. Instantaneamente, a voz de Matt veio à sua cabeça. "Você pode esquecer a Sora e partir para outra...". "Eu sei que posso seguir em frente.", pensou ele, enquanto encarava aqueles lindos olhos dourados pela segunda vez naquele dia.
