Sora saía de mais uma aula de tênis, feliz por ter tido algo para ocupar sua cabeça frustrada por algumas horas. Tentara, sem sucesso, obter respostas de Matt e Izzy que lhe negaram veementemente qualquer tipo de informação.
"– Mas você prometeu que ia me ajudar, Matt! – disse ela, tentando abordar o amigo pela terceira vez naquele dia. Queria muito saber o que fizera Tai ficar feliz de repente. E o mais importante: o que o fez ficar tão triste.
– Eu prometi que íamos conversar com o Tai e ver que se passava e que íamos fazer o possível para ele melhorar. Mas em nenhum momento disse que te falaria o que aconteceu – ele lançou um olhar irônico à amiga, que marchou até a sala de aula, visivelmente irritada."
Ela se dirigiu ao vestiário e foi direto tomar uma ducha, para relaxar seus músculos tensos pelo esforço físico. Fechou os olhos assim que a água morna tocou seu rosto delicadamente e soltou um suspiro pesado ao se lembrar mais uma vez de sua frustração.
"Mais tarde, pouco depois de falar com Matt, Sora lembrou-se que tinha de pegar uns livros no armário. Se levantou pesadamente da carteira e saiu da classe, andando até o corredor onde os armários se encontravam. Ela parou diante da porta de metal, girou sua combinação e o abriu, encontrando tudo o que precisava. Fechou o armário e virou-se para ir embora, quando se chocou com alguém, deixando todo o material cair de seus braços.
– Me desculpe, Sora! – disse Izzy, recuperando os livros da amiga, que sorria, apesar do susto – Deixe que eu carrego.
– Não precisa, Izzy... – respondeu ela. Mas o amigo gentilmente insistiu e ela cedeu, deixando que ele a ajudasse.
– Agora, vamos logo, ou nos atrasaremos para a próxima aula – ele começou a andar em direção à sala de aula, quando Sora o segurou pela blusa, fazendo-o voltar alguns passos.
– Vocês... vocês já conversaram com o Tai, não foi? – começou ela.
– Sim... conversamos com ele no almoço – disse Izzy, engolindo em seco. Sabia que em algum momento, ele teria que enfrentar aquela situação. Só não sabia como sair.
– E descobriram o que havia de errado com ele?
– Bem... descobrimos – murmurou ele.
– E...? – ela o fitava com evidente curiosidade.
– E... e... e eu não posso te falar, Sora... – disse ele, baixando os olhos.
– Por que? – perguntou ela, indignada.
– Bem... é que é complicado... se o Tai não te disse nada, é porque ele não quer que você saiba... – Izzy parou de falar, ao ver que aquelas palavras abalaram a menina que até então trazia uma expressão irritada no rosto. Agora, suas belas feições tinham traços inconfundíveis de dor. Dor de perceber que seu melhor amigo não confiava mais nela."
Sora soltou outro suspiro, deixando as lágrimas caírem, uma após a outra. A moça jogou água no próprio rosto e respirou fundo algumas vezes, tentando acalmar seu coração perturbado. Assim que saiu do banho, pegou suas roupas e as vestiu. Saiu do vestiário dez minutos depois e foi direto ao portão da escola, mas se deteve ao ver uma figura familiar andando alguns metros à frente, totalmente alheio à sua presença.
Ela percebeu que Tai estava nervoso, já que era de seu feitio passar a mão nos cabelos quando algo o incomodava. Sora o observou chegar no portão e desaparecer por trás do muro. "Será que ele foi embora?", pensou ela, enquanto andava lentamente em direção à saída, quando outra figura a fez parar novamente. Esther andava calmamente para a saída, levando um pequeno susto ao ver que alguém se encontrava ali. Logo, sua colega de time abriu um grande sorriso, o que fez Sora pensar se aquela pessoa que estava conversando com ela era Tai.
Consumida por uma enorme curiosidade, ela andou cuidadosamente até o muro, para que não fosse vista por Esther. Ficou ali atrás, roendo as unhas com uma expectativa que explodiria sua cabeça à qualquer momento.
– É... é que eu queria falar com você... e ... estava te esperando – como previra, a pessoa com quem Esther se encontrara era, de fato, Tai. Assim que percebeu quem era o dono da voz, Sora se sentiu tentada em sair de seu esconderijo e arrastar Tai para longe, mas se conteve e continuou ouvindo.
– Então diga... – a voz de sua colega de time era doce, como se soubesse o que viria à seguir e gostasse da ideia. O coração de Sora se acelerou, como se também soubesse o que estava por vir. "Não, Tai", pensou ela, com um estranho aperto no peito.
– Você quer sair comigo? – a voz de Tai saiu constrangida, mas firme. O que fez o coração de Sora parar momentaneamente e seus olhos se encherem de lágrimas quentes.
– É claro! – Esther aceitou, com uma voz alegre. Parecia que estava esperando por aquela pergunta e ansiava poder respondê-la.
Sora estava sentada em um banco no parque, horas depois de ter saído da escola. Já havia anoitecido e fazia frio, mas ela não se importava. Não queria ter que encarar ninguém, principalmente um certo moreno de olhos gentis, da cor do chocolate derretido. Seu celular tocava incessantemente na mochila, mas Sora não fazia menção em atendê-lo. Na verdade, ela não ouvia o toque estridente do aparelho, apenas fixava o nada, deixando algumas lágrimas lhe escaparem ocasionalmente. Seu torpor parou quando ouviu passos e sentiu que alguém sentava ao seu lado.
– Você fica muito mais bonita quando sorri... – disse Matt, que presenciara sua crise de choro em silêncio. Sem dizer mais nada, pegou um lenço e secou o rosto de Sora carinhosamente. Em seguida, a abraçou.
– O... obrigada... – murmurou ela, enquanto descansava a cabeça no ombro do amigo – Eu precisava disso.
– Está bem frio, não acha? – Matt desconversou e falou de assuntos aparentemente comuns, fazendo-a rir em alguns momentos, mas observava a reação da amiga quando ele tocava no nome de Tai "por acidente" e percebera que uma sombra sempre passava por seus olhos de rubi quando o amigo era mencionado.
– Sabe, Matt... – começou ela, quando eles se silenciaram – Acho que você quer uma explicação. E eu te devo uma. Até porque, você me ajudou...
– Ah, não foi nada... você não me deve explicações... – Matt não queria que ela se sentisse obrigada a falar. Queria apenas que ela desabafasse caso quisesse.
– Não, eu devo... – ela estava com a voz trêmula, deixando claro que a qualquer momento, começaria à chorar – É que essa semana não foi fácil... primeiro, porque o Tai ficou triste daquela maneira e agora, ele se afastou de mim. E eu não sei o que eu fiz à ele... é como se eu não existisse mais... e ainda tem a Esther – ela contou sobre o convite de Tai e logo depois, sucumbiu ás lágrimas e chorou como nunca havia chorado antes. Matt, como sempre muito calmo, apenas acariciou as costas da amiga gentilmente, para que ela pudesse se sentir segura para colocar todas as mágoas para fora. Ela finalmente parou de chorar e levantou a cabeça até encontrar o olhar de Matt, que permanecia na mesma calmaria de quando ela começara seu longo lamento.
– Sora... – ele chamou, um pouco inseguro do que dizer – Eu não acho que o Tai fez isso por mal...
– Por que diz isso? – ela perguntou, num misto de curiosidade e raiva por Matt estar defendendo-o.
– Eu não posso te dizer, mas confie em mim. O Tai é um idiota, mas ele nunca te magoaria desse jeito. Aposto que ele nem sabe que você se sente assim... – Matt abriu um sorriso, tentando animá-la.
– Você não pode me dizer...? – a menina franziu o cenho, desconfiada.
– É... eu... eu preciso ir – disse Matt se levantando, apreensivo. Sabia que Sora iria confrontá-lo sobre Tai, mas não podia contar o maior segredo de seu melhor amigo..
– Yamato Ishida! O que você supostamente não pode dizer? – ela havia se levantado e segurado o pulso do amigo com força.
–Olha, Sora... – disse ele, depois de encará-la por alguns segundos – Eu sei que você, mais do que ninguém, sabe a importância da amizade que eu tenho com o Tai... se quiser, você pode perguntar à ele...
– Pode crer que sim! – ela gritou mais uma vez, mas murchou completamente quando percebeu que estava pressionando Matt à fazer algo que ele prometeu que não faria – Não precisa me contar nada... é eu... eu estou me sentindo tão mal com isso tudo...
– Não se sinta mal... o Tai merece ser feliz... – vendo que o olhar triste voltou ao rosto de Sora, ele hesitou em continuar falando.
– É, eu acho que sim...
– E não é isso que importa? – Matt se arrependeu de ter feito aquela pergunta, pois a amiga recomeçou a soluçar.
– Claro que importa, Matt! – ela chorou – Mas tem um único motivo que faz eu me sentir desta maneira! Um motivo que eu nunca quis admitir... mas que veio à tona assim que ele pisou aqui no Japão novamente!
– E qual seria? – perguntou ele, mesmo desconfiando da resposta.
– Acho que o amo, Matt – respondeu ela, com a voz embargada.
