As semanas se passaram, trazendo os tons cada vez mais avermelhados para as folhas das árvores. O outono estava em seu auge e todos os alunos de Odaiba High estavam empenhados na decoração da escola para o Otsukimi, um festival que ocorreria dali a uma semana. A turma do último ano estava encarregada de fazerem um túnel do amor, com cenas de romance à luz do luar. Esse projeto deixara as meninas entusiasmadas, pois todas poderiam impor a delicadeza necessária para que tudo corresse bem. Os meninos, ao contrário, estavam entediados com o tema, mas concordaram em fazer.
Em uma cálida manhã de setembro, Tai, Matt e Izzy estavam, como sempre, sentados no banco que se encontrava no canto do pátio. Todos foram dispensados de suas aulas e atividades extra curriculares, para que pudessem decorar e preparar a escola para o grande evento.
– Tinha me esquecido como esses festivais são bonitos – disse Tai, enquanto observava Esther segurando pequenos enfeites prateados. Ela viu que ele a olhava, sorriu e lhe soprou um beijo. Ele correspondeu o gesto, com um sorriso bobo no rosto.
– Acho que não é do festival que ele está falando – caçoou Matt, com um sorriso malicioso no rosto o ver o rosto de seu melhor amigo adquirir um forte tom de vermelho.
– Ah, cale a boca! Você também não está apenas admirando a decoração... – comentou Tai, apontando na direção das meninas. Ao lado de Esther, encontrava-se Jun Motomiya, irmã mais velha de Davis. Ela estava diferente do que era há alguns anos: agora andava mais arrumada e não perseguia Matt, fazendo com o vocalista dos Lobos Adolescentes a reparasse de verdade pela primeira vez.
– Não sabe do que está falando – Matt tentou disfarçar, mas ficou vermelho ao ouvir o comentário do amigo. Ficou ainda mais encabulado quando seu olhar encontrou o de Jun, que sorriu gentilmente para ele.
– Alguém viu a Sora por aí? – perguntou Izzy, sem tirar os olhos do tablet em seu colo.
– Eu a vi mais cedo, antes de descermos para o pátio... – disse Matt prontamente. A aproximação de Matt e Sora tirava Tai do sério. Não queria admitir, mas invejava o amigo por tê-la sempre por perto, enquanto ele se limitava a observá-la de longe.
– Ela está estranha, não acham? – Izzy questionou, ainda com os olhos fixos no aparelho. Mas percebeu as reações surpresas de ambos os amigos. No entanto, a reação fora provocada por motivos diferentes: Matt ficou com medo de que Izzy acabasse descobrindo o que se passava com Sora, já que ele sabia o motivo que fizera a menina se afastar. Tai, por outro lado, queria desesperadamente saber por quê a amiga sequer o olhava. Isso o magoava profundamente, mesmo tendo prometido a si mesmo que a esqueceria.
– Estranha? – Matt foi o primeiro a se pronunciar, com um riso nervoso –Talvez ela esteja ocupada com o torneio interestadual, que se aproxima...
– Mas a Esther também está no time, e não me parece tão ocupada. Não estou certo, Tai? – Izzy viu que o amigo concordou com a cabeça, ao mesmo tempo que Matt fechava a cara.
– Bem, eu tenho falado com ela todos os dias, e ela não me parece estranha... – disse Matt, tentando manter um tom casual.
– Outra coisa que eu tenho observado muito é que ultimamente, ela está sempre com Yuki...
– Ele é o namorado dela, não é? – Matt interrompeu, esperando despistar Izzy, mas no fundo concordava com o amigo. Achava estranho Sora estar passando tanto tempo com Yuki, já que tinha ouvido da própria menina dizer que não o amava e que logo terminaria o namoro.
– Bem, eu continuou achando estranho, uma vez que Yuki sempre foi distante... – Izzy desligou o aparelho que descansava sobre seus joelhos e se levantou – Eu tenho que ir, prometi ajudar Yolei com a monitoria na sala de informática.
– Até mais – respondeu Matt enquanto via seu amigo desaparecer. Olhou para o lado e viu que Tai estava pensativo – Qual é o problema?
– Eu não sei, algo me diz que Izzy está certo...
– Como assim? – Matt não gostava do rumo que a conversa tomava. Ficou apreensivo, mesmo sabendo que Tai e Sora compartilhavam o mesmo sentimento. Mas a amiga dissera que era melhor deixar de lado, que Tai poderia viver a vida dele sem ela, se ele estivesse feliz. "Se você soubesse a verdade...", o loiro pensou com certo pesar. Não queria ver seus dois melhores amigos naquela situação, mas era melhor deixá-los resolver seus problemas sozinhos.
– Eu não sei... – o portador da Coragem olhava para Esther, que tinha se afastado com as outras meninas para arrumar outro canto do pátio.
– Bem, eu preciso ir... vou encontrar com o Takeru – Matt se levantou – Ele passa tanto tempo com Kari que estou começando a ficar sem meu espaço na vida dele – o garoto se divertiu ao ver a expressão ciumenta de Tai se espalhar por seu rosto – É brincadeira! Vou ensaiar com a banda. A gente se vê.
– Claro... – Tai respondeu para o amigo que se distanciava. Estava pensando na conversa que ouvira há pouco. Queria consertar as coisas com a melhor amiga, mesmo sabendo que essa atitude só deixaria mais difícil a ideia de esquecê-la. Percebeu que se enganara no momento em que tinha acatado à ideia de Matt, a ideia de tirá-la de sua mente, saindo com outra pessoa. "Mas ela está com o Yuki, por que eu não posso ser feliz com o que está acontecendo comigo?", pensou ele, com uma angustia cortando seu coração como uma lâmina em brasa. Tai se levantou, ainda imerso em pensamentos e saiu dali, sem ver para onde estava realmente indo.
Sora estava sentada na arquibancada do campo de futebol, sozinha. Tinha decidido treinar um pouco para espairecer, já que fora dispensada de todas as atividades naquela semana. Ela bufou ao ver que passava da hora do almoço e sentiu seu estômago roncar ferozmente, então decidiu comer ali mesmo. Abriu seu bento cor-de-rosa e pegou seu par de hashi. Enquanto saboreava a refeição, olhava em volta, pensativa. Não conseguia se livrar da forte sensação de que alguma coisa estava errada. Estava mais distraída que o normal e tinha pesadelos estranhos. Isso sem falar nos calafrios horripilantes que sentia todas as vezes que estava ao lado de alguém... um alguém que ela nunca conseguia se lembrar.
– Devo estar maluca... – ela olhava para o grande carvalho que se encontrava na entrada da quadra esportiva, lembrando-se de que quando ela e Tai eram mais novos, costumavam fugir de suas respectivas casas para olharem as constelações debaixo daquela árvore. Sentia falta de seu melhor amigo, mas queria que ele fosse feliz. As coisas não estavam bem e ele só melhorou por causa de Esther, dando uma prova concreta de que ela não era necessária na vida dele, afinal. Ela se sentia magoada, mas não conseguia mais chorar por causa disso. Passou dias sem dormir, se lamentando.
– Olá, baby! – com o susto que levara, deixou seu bento cair, junto com metade de seu almoço. Uma sensação ruim percorreu o corpo de Sora, fazendo-a se retrair ao ver Yuki se aproximando.
– O-olá, Yuki... – "É ele!", pensou enquanto seu namorado chegava cada vez mais perto – O que está fazendo aqui? – ela manteve a voz firme, não demonstrando o tamanho medo que sentia.
– Vim te buscar... quero te levar a um lugar especial – ele abriu um sorriso caloroso, mas Sora só sentia aquela sensação desagradável percorrer seu corpo com cada vez mais intensidade.
– Yuki, precisamos conversar – ela estava reunindo toda sua coragem para dizer o que sentia e o que pensava em dizer há tempos – Eu... eu acho que não podemos mais nos ver.
– Mas... por que? – perguntou o rapaz, com uma voz magoada.
– Porque eu não o amo... não o amo da mesma maneira... que você me ama – ela abaixou a cabeça, para não encontrar os olhos de Yuki. De repente, sentiu os braços do rapaz envolvendo-a, fazendo com que a sensação se tornasse mais forte. Seu queixo fora levantado, fazendo-a olhar nos olhos dele. A respiração de Sora ficou cada vez mais acelerada, mostrando que ela estava começando a se desesperar. Tentou se livrar do abraço de aço que a prendia, mas suas forças começavam a despencar. Assim que seu olhar cruzou com o do rapaz mais velho, ela viu um par de asas de morcego e um lampejo vermelho passar pelos belos olhos negros dele.
– Tai! – com o resto de sua força, chamou pela pessoa que tanto amava e confiava, esperando que ele pudesse salvá-la. Ela não sabia se estava imaginando ou se seu chamado realmente fora atendido, mas ouvira uma voz família e reconfortante lhe chamar, antes que seus olhos se revirassem nas órbitas e tudo ficasse escuro.
Tai caminhava pelo colégio, ainda pensativo. Queria dizer tantas coisas à Sora, mas sabia que não podia. Não queria perde-la definitivamente. Pensou em Esther e em como ela era tão diferente de Sora, mas ao mesmo tempo, tão igual. Queria que os beijos dela o extasiassem, queria que as caricias dela fossem o suficiente e queria que seu coração correspondesse ao amor que ela dava à ele. Estava tão absorto em seus pensamentos, que ficou um pouco surpreso em se ver parado em frente a quara esportiva.
E lá estava ela. Sentada em uma das arquibancadas, sozinha. Seu bento cor-de-rosa e enfeitado com coelhinhos estava em seu colo, enquanto ela olhava distraidamente a paisagem à sua frente. Tai decidiu ficar atrás de um moita, para poder observá-la o tempo que quisesse. "Ela é tão linda", pensou ele, com uma sensação engraçada em seu estômago. Ao vê-la tão calma e serena, pensou no quão tolo era por pensar que poderia mesmo tirá-la de seus pensamentos.
Ficou admirando o amor de sua vida calmamente durante alguns minutos, até que viu alguém se aproximando. Um rapaz alto, com ombros largos e um sorriso no rosto se aproximara de Sora. Tai deduziu que seria o tal de Yuki, e por isso, cerrou os punhos com raiva. Viu que eles conversavam e que logo o rosto do universitário adquiriu um semblante magoado. Ele viu que o rapaz a abraçava e que, ela tentava se soltar inutilmente, uma vez que Yuki era muito maior que ela. Uma agonia atingiu o coração de Tai, que estava decidindo se seria melhor interferir, afinal, poderia ser só uma briga de namorados.
Mesmo assim, seu instinto protetor lhe avisou para ficar alerta assim que viu o rapaz levantar o rosto de Sora, a fim de encontrar seus olhos avermelhados. Uma expressão maligna tomou conta do olhar de Yuki e Tai pôde ver a verdadeira forma do ser que segurava a tenista, já desacordada. Ele era humanoide, mas seus braços eram demasiadamente compridos para o corpo. Grandes asas de morcego saíam de suas costas e dois chifres se encontravam encarrapitados em sua cabeça. O sorriso debochado do monstro fizera Tai acordar de seu choque, ao ver o velho inimigo se levantar com Sora nos braços.
– Sora! Sora! – Tai saiu de seu esconderijo, sem se importar em lutar com Devimon, que olhava-o desafiadoramente. Contanto que Sora estivesse segura, lutaria sozinho com o mais fortes dos digimons, se precisasse.
– Já é tarde, vou levá-la embora. Você não poderá fazer nada para salvar a pobre alma desta garota! – um novo lampejo vermelho passou pelos olhos do demônio e um grande buraco negro aparecera no céu. Devimon levantava vôo em direção ao portal. Tai se sentiu fraco e aos poucos, foi perdendo a consciência. A última coisa que viu antes e apagar foi o pequeno vulto de Sora, desaparecendo aos poucos naquele imenso portal escuro.
