Neste mundo sempre houveram muitas coisas fantásticas.

Coisas as quais escapavam qualquer forma de explicação, seja racional ou mágica.

Vivemos num mundo onde magos formam guildas que protegem e ajudam os reinos de acordo com suas necessidades. Onde elfos protegem os seus reinos nas imensas florestas inexploradas. Onde anões mineram as vastas montanhas e profundas cavernas em busca dos melhores metais com os quais fabricarão suas magníficas criações. Onde os orcs assombra as estradas, e por vezes violam uma vítima, gerando um hibrido que terá as qualidades tanto do pai orc quanto da mãe humana. Onde histórias sobre grandes dragões são contadas nos reinos, não como contos fantasiosos, mas como memórias de histórias reais que encantam e assombram as pessoas.

Ainda assim, existem coisas nesse mundo que podem desafiar qualquer forma de explicações, por qualquer uma das raças e nos mostrar como tudo o que conhecemos pode mudar em uma única noite.

Em uma noite, a lua não era visível no céu. Era uma noite escura, e o tipo de noite que as pessoas facilmente ignoram. O tipo de noite que alguém facilmente assume que será como todas as outras noites que já foram vistas.

Contudo, naquela noite sem lua, luzes surgiram no céu.

Uma aurora se formou na escuridão do céu, ofuscando as estrelas enquanto cobria tudo com um magnífico espetáculo luminoso. Cores dançavam no céu, mudando entre todas as possíveis cores do espectro, fazendo daquela noite uma noite magnífica.

Aquela aurora se estendeu por todo o espaço que esteve debaixo do céu noturno. Cada floresta, cada vale, cada cidade, cada aldeia do continente. Em todo o lugar, todos os seres podiam olhar para o céu e ver o maravilhoso céu noturno com suas cores magníficas. Todas as raças e credos pararam naquela noite para olhar e admirar o céu noturno, cada um com seus próprios pensamentos sobre o que acontecia, e cada um com sua própria interpretação do que aquilo poderia significar.

Sacerdotes pararam e rezaram para seus deuses. Estudiosos observaram o céu noturno, curiosos sobre tal evento. Os cidadãos comuns olhavam para aquilo com admiração.

Seria um sinal divino? Seria algo relacionado aos deuses ou aos espíritos antigos?

Haviam muitas formas de se interpretar o que se enxergava no céu naquela noite. Mas havia algo no qual todos que olhavam para aquilo poderiam concordar: o espetáculo que se formava naquele céu noturno sem lua era algo magnífico.

As luzes da aurora se estenderam por toda a noite. Desaparecendo somente com os primeiros raios da alvorada, e a noite que se passou, ainda que magnífica, seria algo que ficaria apenas na lembrança.

Poucos dias depois dessa aurora, em um grande reino das terras humanas, as notícias de que a rainha daquelas terras estava grávida foram motivo de grande alegria para o povo. Aquele era o primeiro filho do rei, o futuro soberano daquelas terras.

Contudo, aquela gravidez não era algo normal.

A gravidez se estendeu de maneira extremamente veloz, com a rainha tendo desenvolvendo um ventre proeminente num período de apenas duas semanas. O feto em seu útero estava crescendo de maneira anormalmente rápida.

O comportamento da rainha também foi estranho durante esse período, pois ela constantemente se queixava de dores no ventre, e tinha pesadelos. Contudo, o mais estranho de tudo foi seu apetite, que se tornou algo que espantou muitos, pois ela estava pedindo para lhe trazerem insetos e pequenos roedores e pássaros para consumir inteiros e crus.

A gravidez da rainha durou menos de três meses, quando ela finalmente entrou em trabalho do parto.

O parto foi longo e doloroso, e no fim, o herdeiro finalmente nasceu.

Contudo, ao invés de expressões de alegria, olhares do mais puro horror estavam nos olhos de todos, enquanto as parteiras gritavam aterrorizadas. O bebé, se poderia ser chamado assim, não era algo rosa e frágil, como seria o caso de muitos outros, mas preto como carvão, com mandíbulas proeminentes e monstruosas em sua face, e com três pares de olhos vermelhos como sangue.

A rainha havia dado à luz uma monstruosidade que era meio homem e meio aranha.

Aquele nascimento foi apenas o começo.

Através dos reinos, em cidades e aldeias, entre nobres e plebeus, nasciam seres que estavam em algum ponto entre a humanidade e as feras.

Uma mulher nobre, esposa de um rico mercante, havia dado à luz um filhote de gato. Uma camponesa de uma aldeia pobre dera nascimento a um potro, que soltava pequenos relinchos enquanto balançava mãos com três dedos.

Isso não acontecia com todas, é claro, cerca um entre cada cem nascimentos era uma dessas anomalias, meio homem e meio animal.

Tais eventos não estavam limitados apenas aos seres humanos.

Havia um relato que entre uma das casas élficas, uma elfa havia dado à luz a um pequeno cervo. Entre os anões, circulava uma história de uma anã que havia parido um bezerro.

O continente estava pasmo com esses eventos. Respostas eram necessárias.

Todos os magos, sacerdotes e estudiosos do continente começaram a procurar expostas, por semanas, sem sucesso.

Contudo, em todas as suas investigações e pesquisas, eles chegaram à mesma conclusão: esses nascimentos haviam começado depois daquela noite em que a aurora fora vista no céu.

A conclusão de que esses dois eventos estavam relacionados eram óbvias, contudo, a maneira como eles se relacionavam, e o motivo propriamente dito de esses nascimentos ocorrerem continuava um mistério.

O tempo passou.

Cerca de oitenta anos já se passaram desde o primeiro nascimento.

Ainda neste dia, um entre cada cem nascimentos resulta em um ser que está em algum lugar entre humanidade e animal. Um "filho da aurora", como eles são chamados.

Ainda neste dia, os maiores pensadores do continente tentam encontrar uma resposta sobre o porquê desses nascimentos ainda ocorrerem, e sobre o que isso significa.

Seria um evento de natureza mágica? Uma maldição?

Seria o resultado de algo que os deuses estão fazendo? Um novo jogo entre eles, ou uma maneira de reorganizar o mundo?

Seria o prelúdio de uma nova era? Uma era onde as feras irão viver e morrer como homens?

Esses nascimentos ainda irão continuar?

O que isso significa para o continente, e para o resto do mundo?

Ainda há muitas perguntas sem respostas...

~Larsin Agarion, nômade das terras do Norte