Disclaimer: Tróia não me pertence, faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.

Segunda Chance

Capítulo 2

Aquiles e Pátroclo retornaram ao hotel em que o mais velho estava temporariamente hospedado, e os dois seguiram para o restaurante local para o almoço, onde encontraram com alguns dos homens do grupo de Aquiles, inclusive seu braço direito, Andrej. Reencontrar com o seu subordinado que lhe ajudara a liderar os mirmidões em tantas vitórias, Aquiles se deixou levar mais uma vez pelas memórias da Grécia Antiga e da Guerra de Tróia e ficou satisfeito de saber que mais de seus amigos estavam vivos e inteiros, o único problema era que aquela era outra vida, certo? Todas as peças da guerra antiga estavam ali, todas as pessoas, todo o cenário, mesmo que o tipo de arma e de território fosse outro pelo qual brigavam, não deixava de ser a mesma situação. E o fato de já ter passado por ela era o que deixava Aquiles apreensivo ao ter que mesclar aquelas lembranças de uma vida nova às lembranças da guerra troiana.

– Andrej… – Aquiles chamou a atenção do homem sentado na cadeira à sua direita, aproveitando o momento em que Pátroclo saiu da mesa. – Quero que escolha dois homens para ficarem de olho em Pátroclo pelo menos essa noite.

– Meu senhor? – o comentário do outro foi levemente confuso.

Aquiles conteve a vontade de sorrir ao notar que o servo fiel o chamava pelo mesmo honorífico que na guerra de uma vida passada.

– Apenas faça. – respondeu Aquiles.

– Como quiser. – disse Andrej, já pegando o celular para se afastar da mesa e fazer umas ligações.

O tempo em que Andrej passava as ordens pelo celular e o tempo em que Pátroclo voltou foram o mesmo. O almoço se encerrou sem mais demoras e quando saíram do restaurante do hotel, o primo de Aquiles afastou-se deles com um breve aceno para se juntar aos amigos que ligavam fazia já alguns minutos. Apenas uma troca de olhares foi o suficiente para Andrej confirmar que já havia colocado alguns guardas na cola do jovem Pátroclo.

– Já providenciou meu apartamento? – perguntou Aquiles, quando chegaram ao saguão de entrada e acomodaram-se num dos sofás mais reservados.

– Já vai poder se mudar amanhã, senhor. – Andrej confirmou, sentando-se na poltrona de frente para a que Aquiles se sentara. – Mas então, o que o garoto estava dizendo era verdade? Sobre invadir o território de Heitor?

– Precisarei dos dez melhores homens que tivermos. – disse Aquiles. – E meus dois melhores atiradores. Eles vão nos acompanhar no nosso trajeto principal. Os demais, mande para o território norte que ainda está sem controle. Como é mais perto do território de Heitor, eu imagino que ele esteja visando o mesmo que eu… por isso, é melhor termos uma boa milícia a postos.

– Mas senhor… por que invadir esse lugar? Os lucros não são altos, e os pontos não são estratégicos o suficiente para serem de interesse à nossa facção. – o alarme de Andrej certamente tinha fundamento.

– Porque Agamenon quer que eu caia. – disse Aquiles, numa naturalidade extrema.

– Meu senhor…

– E eu tenho assuntos pendentes a tratar. – o loiro completou, pousando os olhos decididos sobre o outro homem.

Ao encarar o chefe diretamente, Andrej sabia que nada mais podia ser feito para que ele mudasse de ideia. Consentiu mesmo contra a vontade e o seguiria a qualquer missão por mais suicida que pudesse parecer. Ele apenas se levantou, e respondeu com as simples palavras.

– Vou reunir os homens o mais rápido possível. – disse Andrej. – O mesmo ponto de encontro de sempre?

– Sim. – respondeu Aquiles. Já estava começando a se acostumar com as novas informações que tomavam conta de sua mente recém-desperta. – Pode ir agora.

Andrej apenas concordou com um aceno de cabeça e saiu na direção do saguão de entrada do hotel. Aquiles ficou observando o movimento da rua através das janelas de vidro panorâmicas que cercavam o lobby de entrada. Depois de um tempo apenas observando, decidiu ele mesmo se levantar e sair do hotel. O atendente ofereceu para buscar seu carro, ou para chamar o motorista, mas ele recusou ambos. Queria conhecer aquele mundo ele mesmo, fosse da primeira vez ou não. Queria ver tudo de novo, aos poucos, com seus próprios olhos e sentir novamente que estava vivo. Não conseguia compreender a vontade dos deuses, não sabia por que só ele estava ali com as mesmas memórias e mesmas dores de antes, daquela vida anterior, mas devia haver algum propósito maior, e ele só descobriria depois de reencontrar cada uma das pessoas com quem tivera ligação. Ele sentia que estava mais uma vez na guerra de Tróia, e se realmente estivesse nela, faria todo o possível para que o desfecho fosse outro.

– Se há algo como destino… eu o mudarei com minhas próprias mãos. – comentou consigo mesmo, enquanto caminhava lentamente pelas calçadas da avenida movimentada, observando os prédios de aparência antiga contrastando com os modernos.

Ao mesmo tempo ele se sentia fora de lugar e no lugar certo. As lembranças de sua vida passada não sumiam, ficavam cada vez mais vívidas, e enquanto caminhava pelas calçadas de concreto, era como se seus pés tocassem as areias dos terrenos da Grécia antiga. Ainda sentia uma dor incômoda na cabeça, como se seu cérebro tentasse assentar todas as informações num lugar só, mas tudo se organizava lentamente e ele se adaptava com facilidade. Afinal, era uma de suas melhores habilidades enquanto guerreiro: adaptação.

Antes que ele desse conta do quanto já tinha andado, tinha se afastado o suficiente do hotel, passando por um dos parques da cidade, agora mais movimentado com o sol perto de se pôr. Imaginou que o movimento tinha aumentado por conta das pessoas saindo dos trabalhos e das crianças saindo das escolas. Decidiu que finalmente estava na hora de voltar para o hotel, afinal, precisava estar descansado e preparado para o encontro que teria àquela noite. Era como estar se preparando para outra guerra grega e era naquilo que ele era bom.

Parou na calçada para atravessar a rua de volta ao hotel, enquanto os carros continuavam ultrapassando o sinal verde. Ao levantar os olhos para ver o outro lado da rua, sentiu algo que não sentira nem em sua vida anterior. Os olhos se arregalaram levemente e um nó se formou em sua garganta. Ela estava bem ali, a apenas alguns passos, e ao mesmo tempo, a milênios de distância. Estava tão bela quanto naquela noite que se confundia em sua cabeça, há apenas um dia, e há mais de dois milênios atrás. Os cabelos cacheados acompanhavam o som do vento e ela sorria ao conversar com outras mulheres que lhe acompanhavam. Naquele minuto, ele nunca sentiu que ela pudesse estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo.

– Briseis… – o nome deixou seus lábios de forma inconsciente, e mesmo sabendo que ela teria sido incapaz de ouvi-lo naquela distância, ela levou a mão aos cabelos para colocá-los atrás da orelha, e naquele rápido movimento, seus olhares se encontraram.

Não importou que o contato visual tivesse durado apenas um segundo, ou que o sorriso que ela abriu fosse em resposta a algum comentário das amigas. Foi o suficiente para ele, naquele novo mundo, saber que também teria aquela segunda chance. Ali, tê-la também seria possível, e estava ao alcance de suas mãos.

Por um momento, pensou em jogar tudo para o alto e atravessar a rua, correr atrás dela, não deixar que sumisse de seu campo de visão. Mas de novo, sabia que não era o momento certo, e que sua chance chegaria. Ele ainda tinha um assunto muito importante pendente, e seria resolvido naquela mesma noite. Deu a volta e seguiu por um caminho totalmente oposto ao da jovem, não teve a chance de ver quando ela voltou o rosto para trás para tentar encontrá-lo de novo em meio à multidão. Ele a encontraria, quando fosse a hora.

Aquele fim de tarde foi estranhamente comum para Aquiles. Andando de um lado a outro no quarto do hotel luxuoso em que estava hospedado, olhando através das janelas panorâmicas para uma cidade que jamais imaginaria ver na Grécia antiga. Era como se tudo e nada tivesse mudado ao mesmo tempo. O sentimento de ansiedade se espalhava por seu corpo antes de sair na missão, como costumava acontecer antes de qualquer batalha que participara em sua vida antiga, qualquer grande batalha, como aquela que encontrou pela primeira vez com o príncipe de Tróia.

Durante o início da noite, ele ficou apenas recolhido aos seus aposentos, sabendo que a hora de atacar seria apenas quando a lua já estivesse muito alta. Pouco depois do cair da noite, a única visita que ele recebeu foi de Andrej.

– Já está tudo preparado, senhor. – ele aproximou-se de Aquiles, na sala de estar, sentando-se num sofá ao lado da poltrona em que o seu chefe sentava. – Tomei a liberdade de estudar a área e os melhores locais de acesso, eu creio que tenho dois bons lugares pros atiradores, por onde o senhor prefere que…

– Pelo caminho principal. – Aquiles nem se preocupou em ver a planta que Andrej tinha levado consigo.

– Mas, meu senhor, é uma boate movimentada e…

– A ideia é que saibam que eu cheguei. – respondeu o homem. – Pode distribuir os homens nos pontos táticos. Não preciso saber onde, confio na sua estratégia. E eu tenho certeza de que ela vai ser muito boa, porque não estarei armado.

– Desculpe, meu senhor, disse que… não vai estar armado? – Andrej arregalou de leve os olhos, acompanhando o movimento de Aquiles ao se levantar da poltrona e andar calmamente até as portas panorâmicas com vista para a sacada do elegante quarto.

– De que adiantaria, se eles vão nos revistar na entrada do clube? – Aquiles colocou ambas as mãos nos bolsos, observando o céu escuro e sem estrelas com o qual ele não gostaria de se acostumar. As noites da sua Grécia costumavam ser bem mais iluminadas mesmo quando a lua não estava no céu. – Parece que não confia nas minhas habilidades manuais, Andrej.

– Meu senhor, estaremos dentro do território de Heitor, eles não vão desperdiçar a chance de lhe atacar, mesmo sem receberem ordens! Por favor, reconsidere. – o tom de Andrej era quase desesperado ao deixar o mapa de lado para se aproximar de Aquiles.

– As noites eram mais bonitas no passado. Não consigo ver mais o caminho das estrelas no céu. – Aquiles divagou, o que só pareceu deixar Andrej ainda mais desconsertado.

– Nós podemos atacar pelos galpões, meu senhor, seremos rápidos e precisos, antes que eles percebam a nossa chegada, já teremos nos infiltrado o suficiente para ser tarde demais para eles.

– E não será muito mais eficiente se eles tiverem algo com que se distrair no meio tempo, meu amigo? – respondeu Aquiles, dando a volta nos calcanhares para seguir até a saída do quarto. – Você toma conta do território, eu tomo conta de Heitor, Andrej. Está na hora de irmos.

– Sim, senhor.

Andrej não teve alternativa senão acompanhar seu chefe para fora do quarto e então do hotel. O motorista os esperava na entrada do hotel luxuoso e eles seguiram por um longo caminho pelas ruas mais movimentadas da capital grega na direção dos bairros mais badalados da noite no fim de semana. Andrej não tornou a questionar a atitude do chefe, eventualmente o encarava de lado, no banco do passageiro do carro elegante, tentando imaginar o que se passava na cabeça dele. Não lhe eram incomuns as decisões impetuosas e passionais de Aquiles, a despeito de algumas péssimas escolhas, ele ainda era o melhor e mais bem treinado assassino do grupo Micenas, comandando a facção dos mirmidões, que embora poucos em quantidade, eram muito em habilidade. Mas depois de uma vida de servidão ao homem ao seu lado, naquele dia em particular, ele não conseguia sequer imaginar o que estava se passando na cabeça do chefe. E aquilo lhe deixava inquieto.

Entre prestar atenção na expressão contemplativa de Aquiles encarando o cenário para além da janela do carro e trocar mensagens e ligações com os subordinados que esperavam instruções sobre o ataque daquela noite, longos trinta minutos se passaram e eles chegaram à entrada de uma boate com luzes frenéticas, música alta, e uma longa fila de espera que Aquiles e Andrej prontamente ignoraram, seguindo direto até o par de seguranças que bloqueava a entrada.

A reação dos dois foi pronta ao identificarem a dupla inusitada. O primeiro segurança se apressou em passar uma informação pelo rádio e o outro não hesitou em puxar uma arma para apontar na direção da testa de Aquiles, ato que só não se concretizou porque Andrej se colocou na frente do chefe no mesmo instante. O movimento com a arma de fogo fez com que as primeiras pessoas na fila gritassem e se afastassem, assustados.

– Calma, Andrej, ele não vai atirar antes de receber autorização. – Aquiles colocou uma mão no ombro de Andrej, para afastá-lo para o lado e tirá-lo da mira da arma.

– Mas, senhor…!

– Não estou armado. Sei que seu chefe está aqui, e eu tenho certeza de que ele vai querer me receber.

– Nem mais um passo, ou eu mesmo estouro os seus miolos. – o segurança que apontava a arma puxou o gatilho e Andrej se inquietou. Aquiles sequer piscou, e manteve a pressão no ombro de Andrej para que ele não fizesse nenhum movimento brusco.

Antes que ele pudesse adicionar algum comentário, o outro segurança se aproximou do colega e puxou-o pelo ombro, passando alguma informação aos sussurros que pareceu deixar o dono da arma indignado.

– Você vem comigo. – o segundo segurança se aproximou de Aquiles e lhe puxou pelo braço sem muita delicadeza. Ele tirou também uma arma do cós e empurrou Aquiles para andar a sua frente, com o cano da arma pressionado contra as suas costas. Ele só lançou um olhar de lado para Andrej. – Ele fica.

– É claro que eu não―!

– Fique aqui, Andrej. Prepare o carro, eu não devo demorar. – Aquiles instruiu, o que deixou Andrej ainda mais perturbado por não saber o que o chefe estava pensando. – Eu confio em você.

– Meu senhor…!

– Confie em mim também, Andrej.

Andrej não soube como reagir. Apenas assistiu enquanto o segurança levava Aquiles para dentro da boate movimentada, e enquanto ele ainda tinha algum campo de visão, outros seguranças se juntaram a dupla para garantir a restrição de Aquiles. O subordinado engoliu em seco, ele realmente não sabia o que mais pensar ou esperar, afastou-se da entrada da boate e ali permaneceu, esperando pela próxima ordem ou a próxima ligação.

Aquiles não ofereceu qualquer resistência ao longo do caminho dentro da boate movimentada. Com aquelas luzes frenéticas e o som estridente, seria fácil se livrar da ameaça, mesmo que estivesse superado em número. Mas aquela não era a sua intenção, ele só se deixou escoltar calmamente até o outro lado do prédio, subindo lances de escada e entrando em corredores pouco iluminados e com o som mais abafado, no que imaginou ser a direção do escritório de Heitor. Bom, ou aquilo, ou ele estaria para sempre confinado numa masmorra para perecer depois de ter dispensado a ajuda de um dos únicos homens a quem podia confiar a sua vida. O pensamento incerto lhe fez sorrir consigo mesmo, e antes deles chegarem a alguma sala de fato, o caminho deles foi atrapalhado por uma figura que Aquiles não gostaria de ter encontrado.

– O que ele está fazendo aqui?! Por que não o mataram logo na entrada?! Vocês estão ficando loucos?!

O homem de aparência jovial, provavelmente na mesma idade de Pátroclo, desviou do caminho que seguia com uma bela mulher em roupas curtas para avançar na direção de Aquiles como se fosse um cão de caça, os olhos injetados de raiva, uma arma sendo puxada do cós da calça para apontar para Aquiles sem a firmeza que ele esperava de um guerreiro experiente. Era talvez divertido pensar que até mesmo naquela vida, o jovem favorito de Príamo ainda tinha inseguranças quanto às próprias habilidades. Ele ainda não passava de uma criança, a despeito das glórias da vida passada.

– Foram ordens do seu irmão, chefe. Temos que levá-lo até ele. – o segurança que tinha ameaçado Aquiles com a arma até então se colocou entre ele e o jovem rapaz.

– Ordens do Heitor? Ele já devia ter dado ordens pra matar esse desgraçado do lado de fora! – o rapaz esbravejou, e Aquiles sorriu com a atitude passional. – Foi ele que acabou com a nossa operação ontem! Veio aqui só pra deb―

– Chega, Paris.

A nova voz se sobrepôs não só ao discurso furioso do rapaz, mas à música abafada que, naquele momento, pareceu um som muito distante aos ouvidos de Aquiles. Ele ergueu o olhar de Paris para o homem que tinha surgido atrás dele, alto, cabelos e olhos escuros, um conjunto de terno cinza bem alinhado, o olhar determinado que trouxe a Aquiles a sensação muito mais intensa de que, a despeito da época em que estavam, aquele seria o seu maior oponente.

– Mas Heitor, ele…!

– Vocês estavam demorando, agora sei o motivo. – Heitor parou no meio do corredor e manteve o olhar analítico em Aquiles. – Não esperava recebê-lo logo depois de acabar com uma de nossas transações, Aquiles. Mas me deixou curioso com a ousadia.

– Eu imaginei que seria esse o efeito. – Aquiles finalmente se pronunciou, e então, ergueu as mãos, num gesto amplo para indicar os seguranças ao seu redor. – Se importa?

– Entre. – Heitor indicou a porta aberta da sala da qual ele tinha saído.

Aquiles deu uma olhada nos seguranças ao redor antes de voltar a andar e entrar na sala que Heitor tinha indicado, os seguranças acompanharam, mas com um gesto breve de mão de Heitor, eles pararam no corredor.

– Irmão, o que acha que está fazendo, recebendo esse miserável aqui, desse jeito?! Ele já devia estar amordaçado…

– Deixe que eu resolvo daqui, Paris. – respondeu Heitor.

– Eu não sei o que tem em mente, mas eu vou ficar pra descobrir.

Antes que Paris conseguisse dar o primeiro passo para entrar na sala, Heitor o impediu, colocando a mão em seu ombro.

– Mas o qu―

– Não seria educado deixar a senhorita desacompanhada, Paris. – Heitor indicou a mulher que tinha sido deixada de lado depois do gesto impulsivo de Paris, e a expressão no rosto do jovem foi de descrença. – Eu disse que resolvo daqui.

– Heitor, você não está pensando em…?

– Fiquem de guarda. Podem entrar a qualquer sinal de confusão. – Heitor indicou aos seguranças, que logo se posicionaram em ambos os lados da porta, e entrou para fechá-la atrás de si, deixando um Paris indignado com a atitude.

Quando Heitor fechou a porta atrás de si, o som da música intensa da boate diminuiu ainda mais. O isolamento acústico certamente dificultaria que os seguranças entrassem ali para lhe ajudar caso estivesse numa situação crítica que não envolvesse tiros sem silenciadores, mas havia algo na situação, na postura de Aquiles, na visita completamente inusitada que estavam despertando todos os seus sentidos mais aguçados. E naquele dia em específico… havia algo mais.

Heitor observou o homem em seu escritório com atenção. Aquiles entrara na sala parecendo se fazer muito confortável, como se estar no antro do território inimigo não lhe afetasse em nada. Ele tinha colocado as mãos dentro dos bolsos, olhava a decoração ao redor com muito interesse, ficando de pé diante da mesa de tampo de vidro impecavelmente organizada de Heitor. Ele deu uns passos no cômodo amplo, tocou as poltronas de couro com a ponta dos dedos, avaliou as decorações de peças resgatadas da Grécia antiga protegidas por armários de vidro, e só então se voltou na direção do dono da sala.

Aquiles finalmente encarou Heitor diretamente nos olhos. O herdeiro de Príamo, uma vez príncipe da cidade mais fortemente protegida de toda a Grécia antiga, ainda parecia ostentar toda a postura de realeza que conhecera de outros tempos tão distantes e tão recentes em sua memória. Heitor manteve a distância segura de uns cinco passos, não voltou ao seu lugar convencional, na poltrona de couro atrás da mesa de vidro, mas se recostou ao aparador que estava próximo à porta de entrada, com uma bandeja de cristal, uma garrafa de bebida cara e alguns copos de vidro. Ele cruzou os braços diante do corpo e encarou Aquiles com o mesmo olhar intenso, quase como se houvesse ali também mais do que meros trinta ou quarenta anos de vida, e sim milênios.

– Eu confesso que nem nas minhas hipóteses mais absurdas, imaginei um cenário em que você voluntariamente entraria no meu território, no meu escritório, cercado pelos meus melhores homens, e ainda desarmado, Aquiles.

– Se meus movimentos fossem tão previsíveis, eu não seria o melhor guerreiro da Grécia, não é mesmo? – respondeu Aquiles, e embora tivesse usado o termo "guerreiro" por uma conotação antiga, acabou lhe sendo mais interessante ao ver a mudança leve na expressão de Heitor. Assim como Pátroclo tinha lhe acusado mais cedo, já estava esperando o atestado de loucura.

– Não, mas pode ser o mais idiota. – adicionou Heitor. – Não espera certamente que eu caia na sua tática de distração e ignore o território que meus homens foram instruídos a proteger, não é mesmo? Não vai funcionar, Aquiles.

– Não, eu não espero. – Aquiles deixou uma risada escapar e apoiou a mão no encosto de uma das poltronas de frente para a mesa de Heitor, mas não procurou se sentar. – Mas eu espero comprar tempo suficiente para convencer Agamenon que cumpri as ordens dele e, ao mesmo tempo, propor uma trégua que poderá beneficiar a nós dois nessa guerra.

– Você? Veio me propor uma trégua? – o tom de incredulidade de Heitor era palpável, ele até mesmo arqueou uma sobrancelha para o comentário alheio. – O homem mais fiel, habilidoso e influente de Agamenon, vindo ao território de Príamo, para propor uma trégua? Acho que pode perceber o motivo da minha descrença sem que eu detalhe mais.

– Mais habilidoso, sim. Mais influente, também. Mais fiel? Minha fidelidade não é vendida por tão pouco, príncipe. – respondeu Aquiles, e mais uma vez, viu na expressão dele a surpresa pelo uso dos termos antiquados, e esperou mais uma vez que ele reagisse como Pátroclo, mas talvez o assunto tivesse mantido o foco dele.

– Que tipo de trégua tem em mente? Não vai me dizer que Agamenon o mandou aqui para tentar um acordo?

– Não, aquele porco é orgulhoso demais para isso, para perceber que está na beira do abismo. Ele não enxerga nada além do próprio nariz e da sede de poder. – Aquiles tamborilou os dedos no encosto da cadeira e olhou de novo a decoração ao redor, com as peças que lhe levavam de volta à sua vida passada. – Eu quero ver Agamenon cair. E o único com poder suficiente para fazê-lo é Príamo. E nós dois sabemos que o nome é do seu pai, mas todas as operações são suas.

– Ah, sabemos? – Heitor deixou uma risada irônica escapar do canto dos lábios.

– Bom, do seu irmão covarde é que não são. – respondeu Aquiles.

– Por que é que eu acreditaria em você, Aquiles? – perguntou Heitor, o quê de curiosidade tomando o tom de voz.

– Porque eu estou determinado a dar um fim nessa guerra. – respondeu Aquiles, levando as duas mãos de volta aos bolsos, parado ainda a uns bons três passos de distância de Heitor, a expressão assumindo um ar mais sério. – Chega de mortes, chega de disputas movidas apenas pelo capricho de um regente medíocre e repugnante. Eu não vou deixar que mais vidas se percam em nome de Agamenon.

– Humpf. – Heitor deixou o ar escapar com um quê de escárnio pelo canto dos lábios. – É um belo discurso para o homem que mais matou inimigos em nome desse mesmo "regente medíocre e repugnante". E os inimigos que você e seus mirmidões mataram nem sempre estiveram envolvidos na sua "guerra". Eu não tenho motivos para acreditar na sua mudança de espírito agora, Aquiles.

– Eu não esperava que acreditasse tão logo, ou não seria o homem que enfrentei. – Aquiles também deu uma risada breve. – Talvez eu precise de mais do que entrar no seu território desarmado para que comece a acreditar em mim, Heitor.

– Ou talvez eu possa lhe matar aqui e agora e impedir que lidere mais operações contra os meus homens em meus territórios.

Heitor puxou uma arma dentro de um coldre, debaixo do terno onde ele tinha mantido os braços cruzados até então. Puxou o gatilho e apontou na direção de Aquiles, mas não houve a reação que ele esperava, ao menos não uma de possível retaliação. Ou ele não tinha medo de morrer, ou tinha certeza de que Heitor não atiraria.

Aquiles encarou a arma apontada em sua direção e, em todos os anos de vida, das lembranças da Grécia Antiga e das lembranças que tomaram sua mente ao acordar naquele novo mundo, ele não lembrava de ter se sentido tão vivo, mesmo à beira da morte. Em algum lugar de sua mente, ele teve certeza que aquele ainda não era o momento de sua segunda morte, e foi o que lhe deu confiança para dar um passo para frente, sem hesitar.

– Pelo menos dessa vez, tenha certeza de matar a pessoa certa.

O olhar intenso de Aquiles em Heitor não vacilou, e naquele momento, Aquiles sentiu como se houvesse algo mais também na expressão do homem a sua frente. Heitor não abaixou a arma, e pareceu nem piscar, mas não foi a falta de reação dele que surpreendeu Aquiles, e sim a resposta que veio a seguir.

– Eu não sou tão tolo a ponto de cometer o mesmo erro duas vezes, Aquiles.

Naquele momento, Aquiles não soube discernir qual o som mais alto em seus ouvidos: se o som mecânico da arma sendo desengatilhada, ou se o som da batida alta de seu coração, agora sendo tomado por pura adrenalina. Ele não escondeu a expressão de surpresa, os olhos claros se arregalaram levemente para a expressão ainda muito sóbria e imparcial de Heitor. Naquele mundo, naquela era, Pátroclo estava vivo, então o erro ao qual Heitor tinha se referido não podia ser daquela vida. Aquiles não prestou atenção quando Heitor abaixou a arma, e encontrou a voz de novo no fundo da garganta, numa expectativa quase infantil.

– Você se lembra…

– Você também. – a resposta de Heitor veio acompanhada do movimento sutil de devolver a arma ao coldre. Ele desencostou do aparador e colocou uma mão no bolso da calça, agora frente a frente com Aquiles a um mero passo de distância, estendendo-lhe a mão livre. – Bem-vindo ao futuro, Aquiles.

Final do Capítulo 2