Nicolau Flamel ou Niklaus Flamel?

Harry gostaria de poder esquecer o que vira no espelho de Ojesed tempos atrás, mas não conseguiu. Começou a ter pesadelos. Tinha pesadelos repetidamente com os pais desaparecendo em um relâmpago de luz verde enquanto uma voz esganiçada gargalhava maldosamente, ao menos ele acreditava que eram pesadelos, mas que mais pareciam alucinações em certos momentos, momentos quando estava ele caminhando pelos corredores de Hogwarts, via a alegria estudantil a seu redor, o grupo de amigos, os professores caminhando, e até ruídos dos elfos domésticos trabalhando através dos corredores internos das paredes, e mesmo com toda sua atenção erguida a seu redor, imagens do assassinato de seus pais nublando sua visão e o atormentando pouco a pouco.

Realmente Dumbledore estava certo, por mais que seja um verdadeiro mentiroso e manipulador aos olhos de Harry, ele era alguém poderoso e muito sábio, pois aquele vendo a si mesmo e como estava agindo, pudera realmente notar que algo o induzia forçadamente a proteger um objeto do qual nem mesmo era dele.

- Está vendo? Dumbledore tinha razão, aquele espelho podia deixar você maluco. - disse Ron, quando Harry lhe contou os sonhos, e por mais que Harry seja muito paciente com a inocência e birra de crianças, realmente incomodou esse tom de superioridade que o garotinho parecia transmitir com algo que de cara estava fazendo mal a Harry.

Harry estava tão longe de obter alguma conexão de Nicolau Flamel com Niklaus, que o mesmo passara somente a deixar isso de lado. Harry tinha ainda menos tempo do que os outros dois, tanto pelo trabalho na biblioteca, no treino de Quadribol que recomeçara após o brilhante jogo deles, quanto pelo fato do Potter ter muitas responsabilidades de seu título divergente.

Oliver estava puxando pelo time como nunca fizera antes. Até mesmo as chuvas intermináveis que substituíram as nevadas não conseguiam esmorecer a sua animação. Os Weasley reclamavam que seu capitão estava se tornando fanático, mas Harry o apoiava. Além do desejo de ganhar, Harry descobriu que tinha menos pesadelos quando voltava exausto dos treinos.

Então, durante um treino particularmente chuvoso e enlameado, Oliver deu uma notícia ruim ao time. Acabara de se enfurecer com os Weasley, que davam mergulhos violentos um sobre o outro e fingiam cair das vassouras.

- Vocês querem parar de se comportar feito bobos! - berrou o capitão. - Isso é o tipo de atitude que vai fazer a gente perder o jogo! Snape vai apitar dessa vez e vai procurar qualquer desculpa para tirar pontos da Grifinória.

George Weasley realmente caiu da vassoura ao ouvir isso.

- Snape vai apitar o jogo? - perguntou embolando as palavras com a boca cheia de lama. - Quando foi na vida que ele apitou um jogo de Quadribol? Ele não vai ser parcial se tivermos chance de passar à frente de Sonserina. - O resto do time pousou ao lado de Jorge para reclamar também.

- A culpa não é minha. - disse Oliver. - Nós é que vamos ter de nos cuidar e jogar uma partida limpa, para não dar a Snape desculpa para implicar conosco. - Estava tudo muito bem, pensou Harry, mas ele tinha outra razão para não querer Snape por perto quando estivesse jogando Quadribol. Isso pois Quirrell estava sempre na cola do professor como se tentasse puxar conversa com o mesmo, mas que o professor de poções praticamente o expulsava hostilizadamente como uma praga, e isso incomodava muito Harry.

Sua cicatriz sempre doía excruciantemente perto desse homem, seus sentidos o alertavam de perigo, e aquele jeito de gaguinho indefeso não enganava a Harry, algo que Harry achara que Dumbledore passara a desconfiar também, pois seus olhos por mais que estivessem ofuscados pelas lentes de seus óculos de meia-lua, sempre agora pareciam focados no gaguinho de Hogwarts, como se esperasse que ele atacasse no próprio salão principal, assim estando sempre pronto paras reagir no mesmo momento, ato indicado quando Harry percebeu que uma das mãos de Albus se encontrava sempre oculta pela manga de suas vestes, com o que com certeza deveria estar com sua varinha empunhada.

Os outros jogadores se demoraram conversando no final do treino como sempre faziam, mas Harry rumou direto para a sala comunal de Grifinória, onde encontrou Ron e Hermione jogando xadrez. Xadrez era a única coisa em que Hermione perdia, uma experiência que Harry achava que lhe fazia muito bem pois a mantinha mais humilde.

- Não fale comigo agora. - pediu Ron quando Harry pretendia mais era tomar uma ducha. - Preciso me concentrar. - Ele dissera só para assim ver a cara do Harry.

- Que aconteceu com você? Está com uma cara horrível. - Hermione perguntou ao segurar ele pelo pulso mostrando que queria ele ali, falando baixinho para ninguém mais ouvir, Harry contou aos dois o desejo sinistro e súbito de Snape de ser juiz de Quadribol. - Não jogue! - disse Hermione na mesma hora.

- Diga que está doente. - aconselhou Ron.

- Finja que quebrou a perna - sugeriu Hermione.

- Quebre a perna de verdade - insistiu Ron.

- Não posso! - respondeu Harry - Não temos apanhador de reserva. Se eu fujo, Grifinória não vai poder jogar.

Naquele momento, Neville entrou aos tombos na sala comunal.

Como conseguira passar pelo buraco do retrato ninguém sabia, porque tinha as pernas grudadas pelo que eles imediatamente reconheceram ser o Feitiço da Perna Presa. Devia ter precisado andar aos pulos como um coelho até a torre de Grifinória.

Todo o mundo caiu na gargalhada menos Hermione e Harry, a garota ficara em pé de um salto e fez o contrafeitiço. As pernas de Neville se separaram e ele se endireitou, tremendo.

- Que aconteceu? - perguntou Hermione, levando-o para se sentar com Harry.

- Malfoy. - disse Neville com a voz trêmula. - Encontrei-o na saída da biblioteca. Ele disse que estava procurando alguém em quem praticar o feitiço.

- Vá procurar a Professora Minerva! - insistiu Hermione. - É proibido usar feitiços nos corredores.

- Não quero mais confusão. - Murmurou ele sacudindo a cabeça.

- Você tem de enfrentá-lo, Neville! - disse Ron. - Ele está acostumado a pisar nas pessoas, mas não há razão para você se deitar aos pés dele para facilitar.

- Não precisa me dizer que não sou bastante corajoso para pertencer a Grifinória. Draco já fez isso. - disse Neville engasgado.

Harry apalpou o bolso de suas vestes e tirou um sapo de chocolate, o último da caixa que Hermione lhe dera no Natal. Deu-o a Neville, que estava com cara de quem ia chorar.

- Você vale muito mais que isso. - disse Harry. - O Chapéu Seletor escolheu você para Grifinória, não foi? Só precisamos te treinar para espancar os merdinhas. - A boca de Neville se contraiu num sorrisinho de concordância enquanto desembrulhava o sapo.

- Obrigado, Harry. Acho que vou para a cama... Você quer o cartão, você coleciona, não é?

Quando Neville se afastou, Harry olhou para o cartão de Bruxo Famoso:

- Dumbledore outra vez. Ele foi o primeiro que... - E soltou uma exclamação. Olhou para o verso do cartão. Em seguida olhou para Ron e Hermione. - Puta merda - murmurou - Encontrei Flamel! Eu disse a vocês que tinha lido o nome dele em algum lugar. Li-o no trem a caminho daqui. Escutem só isso:

"O Professor Dumbledore é particularmente famoso por ter derrotado Lorde Grindelwald, o Lorde das Trevas, em 1945, e ter descoberto os doze usos do sangue de dragão, e por desenvolver um trabalho de alquimia em parceria com Nicolau Flamel, o último membro vivo de sua extensa arvore genealógica." - Hermione ficou em pé de um salto. Não parecia tão animada desde que eles tinham recebido as notas do primeiro dever de casa.

- Não saiam daqui! - disse e saiu escada acima em direção aos dormitórios das meninas. Harry e Ron mal tiveram tempo de trocar um olhar intrigado e ela já estava correndo de volta, com um enorme livro velho nos braços.

- Nunca pensei em olhar aqui - falou excitada. - Tirei-o da sessão restrita semanas antes das férias natalinas para me distrair um pouco.

- Distrair? - admirou-se Ron, mas Hermione mandou-o ficar quieto, enquanto procurava alguma coisa e começou a folhear as páginas do livro, ansiosa, resmungando para si mesma.

Finalmente encontrou o que procurava.

- Eu sabia! Eu sabia! - Disse ela eufórica.

- Já podemos falar? - perguntou Rony de mau humor.

Hermione não lhe deu resposta, assim se virando a Harry:

- Nicolau Flamel. - Sussurrou ela teatralmente - é, ao que se sabe, a única pessoa que produziu a Pedra Filosofal.

A frase não teve bem o efeito que ela esperava. Pois disso Harry já sabia, o seu foco era a ligação com Niklaus, no qual ali parecia que não tinha como ser um mero irmão ou parente, desde que Nicolau Flamel aparentava ser o último de sua linhagem.

- Olhem, leiam isso aqui. Ela empurrou o livro para os dois, que leram:

"O antigo estudo da alquimia preocupava-se com a produção da Pedra Filosofal, uma substancia lendária com poderes fantásticos. A pedra pode transformar qualquer metal em ouro puro ao simples toque. Produz também o Elixir da Vida, um ingrediente fundamental para que torna quem o bebe imortal.

Falou-se muito da Pedra Filosofal durante séculos, mas a única Pedra que existe presentemente pertence ao Sr. Nicolau Flamel o famoso alquimista e amante da opera. O Sr. Flamel que comemorou o seu sexcentésimo sexagésimo quinto aniversário no ano passado, leva uma vida tranquila longe dos olhos da sociedade, sendo essa uma escolha tomada desde que o último de sua linhagem foi assassinado ainda no fim dos anos 50, com sua mulher, Perenell de seiscentos e cinquenta e oito anos ambos sumiram da sociedade magica após se despedirem do último de seus alunos, o famoso Magizoologista Newt Scamander."

O livro também continha uma ilustração de um homem idoso e de aparência frágil, porém eram os olhos dele que atraiam a atenção e Harry.

Olhos que só vira uma vez. Assim com um sorriso triunfante, parecia que finalmente chegara à resposta que tinha que se provar.

- "Sim, velho pra caramba, mas parece com o homem que me deu a maleta... É, esses olhos não dão para confundir." - Harry pensou com um som de trincado ressoando em seus ouvidos, só para arregalar os olhos na conclusão que se formava no seu mapa mental e ligava tudo ao dia em que ele embarcara no trem. Teorias se formando a mil, como se o mesmo estivesse sob algum tipo de entorpecente que não o fazia usar todo seu raciocínio para se obter a resposta que queria. - "Então Percy estava certo, existe mesmo um feitiço de intenção que atrapalha os sentidos mentais no terceiro andar, fazendo sua mente nublar ou perder o foco e não raciocinar direito no que reflete a Nicolau Flamel?" - Harry realmente riu audivelmente sob duvida dos dois a seus lados, onde só Hermione percebia que Harry parecia estar obtendo conclusões em alta velocidade assim como ela fazia. - "É, devo concordar que é uma técnica brilhante de magia, talvez eu não conseguisse ter tal clareza se Hermione não mostrasse essa informação, sendo por isso que todos os livros sobre uma figura importante do ramo alquímico simplesmente sumiu de uma biblioteca tão famosa quanto a de Hogwarts. Dumbledore é bom, mas acho que ninguém é perfeito, e Hermione mal sabe que acabou de me dar todas as respostas, Quirrell realmente está atrás do que está no terceiro andar, Snape é um dos guardiões, assim como Hagrid que forneceu uma besta magica poderosa, talvez somente uma forma de atrair atenção com aquele aviso do velho na seleção, junto ao feitiço no terceiro andar que faz todos os alunos aventureiros a serem confundidos a cair fora do local, o verdadeiro inimigo seria o único a continuar transitando por lá desde que se for tão poderoso, não seria um mero feitiço a impedi-lo, e é ai que está a verdadeira armadilha, pois daria foco a como transpassar o Cérbero, e também buscando maneiras de ultrapassar as próximas etapas, e por isso está tentando obter amizade com Severus, afim de obter uma vantagem nos próximos desafios."

- "Poderia ser qualquer professor, isso se eu estivesse pensando como um garoto inocente de onze anos, mas Severus é especial nesse contexto. Minerva é leal de mais a Albus e uma amiga incrível para não informa-lo de um mero funcionário buscando saber do que tinha no terceiro andar, Filius é poderoso demais para não questionar se ele não usaria de suas eximias habilidades em duelo e brutalidade Goblin para conter um perigo eminente, e os outros, claramente vendo externamente agora, Albus os mantinha sob fixa atenção desde o início das aulas, como se buscasse uma ação dos mesmos, bom, isso ao menos até eu desatar o turbante de Quirrell na partida de Quadribol, pois aqueles olhos realmente brilharam com um conhecimento antigo, e do nada seu foco nos outros funcionários ter se acabado era algo a teorizar de que talvez ele desconfiasse de todos, e estava num processo de seleção sob quem realmente queria roubar a Pedra Filosofal, situada abaixo do alçapão, que com certeza deve ter algumas armadilhas por camadas afim de envia-los ao subsolo." - Harry pensava a mil, ignorando seus amigos que o chamavam. - "Sim, camadas de defesas não tão perigosas quanto um Cérbero perigoso, algo somente superficial para enviar o inimigo cada vez mais abaixo, assim, chegando a Pedra, onde com certeza Albus poderia confronta-lo em poder total sem precisar se preocupar com os alunos, que no momento estariam sendo protegidos pelos funcionários e o local de confronto muito fundo no castelo para afeta-los."

- Viram? - disse Hermione, quando Harry terminou seu longo raciocínio e ria com a genialidade do diretor, que aos olhos de qualquer um pareceria mais um velho senil colocando alunos em perigo. - O cérbero deve estar guardando a Pedra Filosofal de Flamel! Aposto que ele pediu a Dumbledore que a guardasse em segurança, porque são amigos e ele sabia que alguém andava atrás dela, esse é o motivo por que Dumbledore quis transferir a pedra de Gringotes, um local extremamente seguro, mas porque trazer a uma escola repleta de alunos?

- Armadilhas Hermione, Hogwarts é segura, mas com certeza deve ter brechas ou caminhos de ida e volta, até porque estamos em um castelo, e castelos comumente tem tuneis de escape no caso de emergências, assim podendo atrair quem queria roubar a pedra e assim trazendo o inimigo direto para um local que Albus costuma reinar em poder total, ou seja, enquanto Albus estiver em Hogwarts, ele estará no controle de tudo isso. - Harry explicou para a menina que tinha um brilho no olhar pela explicação. - Enfim, agora que acabamos com as teorias da conspiração mundiais e tentativas de roubo de relíquias, acho que vou tomar um banho, estou suado. - Harry disse se levantando e ajeitando, só agora notando que a menina havia usado ele como cama e se aninhado no colo do mesmo.

- E-eu, não me importo. - Hermione disse baixinho sob olhar estranho de Ron.

- Mas eu sim. - Harry disse com graça beijando o topo da cabeça da menina. - Melhor cheiroso do que fedendo. - E assim subiu para seu dormitório, onde poderia enfim tomar um banho e relaxar a mente após tal raciocínio logico e sensação de alivio ao não ter sua mente sendo confundida ou coisa do tipo por mais tempo.

[ ... ]

Na manhã seguinte, na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, enquanto copiavam as diferentes maneiras de tratar mordidas de lobisomem, Harry e Rony continuavam a discutir o que fariam com uma Pedra Filosofal se tivessem uma. Somente quando Ron disse que compraria o próprio time de Quadribol foi que Harry se lembrou de Snape e da partida que se aproximava.

- Eu vou jogar. - disse a Ron e Hermione. - Se não fizer isso, o pessoal de Sonserina vai pensar que tenho medo de encarar Snape... fora que Quirrell com certeza estará lá, então vou mostrar a ele que não me intimido fácil.

- Vamos tirar aquele sorriso da cara deles se vencermos. - Harry que dizia tudo com um sorriso confiante, prontamente escutou:

- Desde que a gente não acabe tirando você da quadra. - disse Hermione.

À medida que a partida se aproximava, Harry foi ficando cada vez mais nervoso, mesmo que negasse isso para Ron e Hermione. O resto do time também não estava tão calmo assim. A ideia de passar à frente de Sonserina no campeonato das casas era maravilhosa, ninguém fazia isso havia quase sete anos, mas será que conseguiriam, com um juiz tão parcial?

Harry não sabia se estava ou não imaginando, mas parecia estar sempre encontrando Snape por todo lugar em que ia. Às vezes, ele até se perguntava se Snape não o estava seguindo, tentando apanhá-lo sozinho para conversar ou seja lá o que.

Porém, Harry sempre o evitava pois Quirrell surgia em cada canto com aquele tom gago e irritante dele.

Harry sabia que, quando lhe desejassem boa sorte à porta do vestiário na tarde seguinte, Ron e Hermione estariam se perguntando se o veriam vivo outra vez. Isto não era o que se poderia chamar de consolo. Harry mal ouviu uma palavra da conversa de Oliver para animar os jogadores enquanto vestia o uniforme de Quadribol e apanhava sua Nimbus 2000.

Entrementes, Ron e Hermione tinham encontrado um lugar nas arquibancadas junto a Neville, que não conseguia entender por que eles estavam tão sérios e tampouco por que haviam trazido as varinhas para o jogo. Mal sabia Harry que Ron e Hermione tinham andado praticando secretamente o Feitiço das Pernas Presas. Tinham tido essa ideia ao verem Draco usá-lo contra Neville e estavam preparados para usá-lo contra Snape se ele desse o menor sinal de querer machucar Harry, e também contra Malfoy caso ameaçasse Neville.

Porém, mal sabiam eles que Harry dera uma boa lição de moral no Malfoy, que o fez simplesmente sumir de sua frente por um bom tempo, junto a seus comparsas que agora realmente mostravam medo de chegar perto dele.

- Agora não esqueça, é Locomotor Mortis. - Cochichou Hermione enquanto Ron escondia a varinha na manga.

- Eu sei! - Rony respondeu com maus modos. - Não chateia.

Ao mesmo momento que tal conversa ocorria, Harry suspirava pesadamente onde sentira Oliver puxa-lo para um lado:

- Não quero pressioná-lo, Potter, mas se há um dia em que precisamos agarrar o pomo logo de saída é hoje. Termine o jogo antes que Snape possa favorecer Lufa-Lufa demais.

- A escola inteira está lá fora! - disse Fred Weasley, espiando para fora da porta. - Até mesmo, putz, Dumbledore veio assistir!

O coração de Harry deu um salto.

- Dumbledore? - disse, correndo até a porta para se certificar se Fred tinha razão. Não havia como confundir aquela barba grisalha.

Harry poderia ter dado uma grande gargalhada de alívio. Não gostava do velho, mas tinha noção de seu poder. Ou seja, estava seguro, simplesmente não havia jeito de Quirrell ousar machucá-lo se Dumbledore estivesse assistindo.

Talvez fosse por isso que Quirrell parecia tão zangado, onde se escondia dos outros professorem em um canto.

Porém, Snape estava o mesmo e Harry vinha desconfiando que algo mal poderia ocorrer.

- Nunca vi Snape com uma cara tão feia. - disse Hermione pensando se teria que usar seu lado sádico novamente, e atear fogo às vestes do professor.

- Olhe, começou. Ai! - Alguém cutucara Ron na cabeça. Era Draco.

- Ah, desculpe, Weasley, não vi você aí. - Draco deu um largo sorriso para Crabbe e Goyle. - Quanto tempo será que Potter vai se aguentar na vassoura desta vez? Alguém quer apostar? E você, Weasley? - Rony não respondeu, Snape acabara de achar uma penalidade na Grifinória porque George Weasley mandara um balaço nele.

Hermione, que mantinha todos os dedos cruzados no colo, apertava os olhos fixos em Harry, que circulava sobre os jogadores como um falcão, à procura do pomo.

- Sabe como eu acho que eles escolhem jogadores para o time da Grifinória? - disse Draco bem alto alguns minutos depois, quando Snape aplicou nova penalidade em Grifinória sem a menor razão. - Escolhem as pessoas que dão pena. Vê só, o Potter, que não tem pais, depois os Weasley, que não tem dinheiro. Você também devia estar no time, Longbottom, você não tem miolos. - Neville ficou muito vermelho, mas se virou para encarar Draco.

- Eu valho muito mais que você, Malfoy. - Gaguejou ele recitando o que Harry sempre dizia sobre sempre ter amor próprio, pois se depender da opinião dos outros, tu tá fodido.

Draco, Crabbe e Goyle rolaram de rir, mas Rony, que continuava sem coragem de despregar os olhos do jogo, disse:

- Isso mesmo, responda a ele, Neville.

- Longbottom, se miolos fossem ouro, você seria mais pobre do que Weasley e isso já é muita coisa.

Os nervos de Hermione já estavam esticados ao máximo de tanta preocupação com Harry, e não estava ajudando essa criançada ao redor dela fazendo uma cena.

- Estou lhe avisando, Draco... Mais uma palavra...

- Ron! - disse Hermione de repente o interrompendo. - Harry! - Apontou ela a distância.

- Quê? Onde? - Indagou ele assim vendo Harry inesperadamente dar um mergulho espetacular, que provocou exclamações e vivas da torcida. Hermione se levantou, os dedos cruzados na boca, enquanto Harry voava para o chão como uma bala.

- Você está com sorte, Weasley, Potter com certeza localizou dinheiro no chão! - disse Draco rindo infantilmente.

Rony reagiu. Antes que Draco soubesse o que estava acontecendo, Ron partiu para cima dele e o derrubou no chão.

Neville hesitou inicialmente, porém depois pulou o encosto da cadeira para ajudar onde dera um belo soco no nariz de Crabbe.

- Vamos, Harry! - Hermione gritou, pulando em cima da cadeira para observar Harry se precipitar na direção de Snape, ela nem sequer reparou que Draco e Rony estavam embolados em baixo de sua cadeira, nem nos pés arrastados e gritos que saiam do redemoinho de socos que era Neville, Crabbe e Goyle, onde o menor insistia em continuar batendo neles sob susto de cada um que não vira o suposto aborto tão sério e irritado os impedindo de se levantar e subjugar o menor, o que no futuro entre os primeiranistas da Sonserina seria conhecido como o modo fúria Longbottom, que mesmo tomando uns tapas e socos, devolveu com dez desajeitados mas que mostravam surtir bastante efeitos.

No alto, Snape virou na vassoura abruptamente para não ser atropelado pelo suicida Potter, bem em tempo de ver uma coisa vermelha passar veloz por ele, deixando de atingi-lo por centímetros, e no segundo seguinte, Harry saia do mergulho, o braço erguido em triunfo, o pomo seguro na mão.

As arquibancadas explodiram, tinha que ser um recorde, ninguém era capaz de lembrar do pomo ter sido agarrado tão depressa, e muito menos ameaçado se chocar tão velozmente contra um professor, principalmente o morcegão de hogwarts.

- Ron! Ron! Cadê você? A partida terminou! Harry ganhou! Nós ganhamos! Grifinória está na frente! - gritava Hermione, pulando da cadeira para o chão e dali para a cadeira e se abraçando com Parvati na fileira da frente.

Harry saltou da vassoura antes de chegar ao solo. Não conseguia acreditar. Agarrara o pomo. O jogo terminou, nem chegara a durar cinco minutos. Quando Grifinória invadiu o campo, ele viu Snape pousar ali perto com o que parecia ser um certo tremor em suas pernas e alivio por finalmente estar em terra firme, a cara branca e os lábios contraídos, depois Harry sentiu uma mão no seu ombro, ergueu a cabeça e deparou como rosto sorridente de Dumbledore.

- Muito bem. - disse Dumbledore baixinho, de modo que somente Harry pudesse ouvir. - Que bom ver que você não ficou pensando naquele espelho... e novamente me desculpo por tudo o que ocorreu, fiquei preocupado que o espelho poderia te afetar tão negativamente ao ponto de acarretar em um acidente hoje, mas vejo que você é mais poderoso que eu para não deixar algo assim te influenciar.

- Ainda a muito a se resolver, mas deixemos isso para o fim do ano letivo, por enquanto aproveite suas aulas que eu cuido do resto. – Harry não sabia se ele falava sobre suas demandas na noite em que desabafou sobre sua infância, ou se era sobre Quirrell, mas de certo modo pareciam ser os dois.

Snape cuspiu com amargura no chão ao ver o Potter piscando para ele, e assim dera volta com sua capa ondulando dramaticamente no processo.

Mas que de costas Harry não pudera notar, era o mínimo sorriso de Severus pela audácia do rapaz, e ao menos isso estava parecendo conquistar o professor que nunca pensara que iria considerar a cria de seu carrasco, com algo além de um aluno.

[ ... ]

Harry deixou o vestiário sozinho algum tempo depois, para levar sua Nimbus 2000 de volta à garagem. Não se lembrava de ter se sentido mais feliz. Realmente fizera agora uma coisa de que poderia se orgulhar, ninguém poderia mais dizer que ele era apenas um nome famoso, ou que era privilegiado pelos professores, até porque era a segunda vez que mostrara verdadeiras habilidades e não pura sorte. O ar da noite nunca lhe parecera mais gostoso. Caminhou descalço pelas gramas úmidas, revivendo mentalmente a última hora, que era um borrão de felicidade: Grifinória correndo para erguê-lo nos ombros, Ron e Hermione a distância, pulando de alegria, Ron e Neville dando vivas com o nariz escorrendo sangue.

Harry chegara à garagem. Recostou-se na porta de madeira e contemplou Hogwarts, com suas janelas avermelhadas pelo sol poente. Grifinória na liderança. Ele conseguira, mostrará a Snape... mostrara que podia ser tão inteligente quanto atlético no Quadribol.

Seja lá qual a rixa do mestre de poções com sua aparência, Harry se orgulhava de estar obtendo uma atenção aceitável do professor, desde que ele participara da criação de poções e tarefas, isso desde que Harry curara sua perna com um feitiço avançado.

E por falar em Snape:

Uma figura encapuzada descia rapidamente os degraus de entrada do castelo. Sem dúvida não queria ser vista, andava o mais depressa que podia em direção à floresta proibida. A vitória de Harry se apagou de sua mente enquanto o observava.

Reconheceu o andar predador da figura. Snape, escapulindo até a floresta enquanto todos jantavam, que estava acontecendo?

Harry tornou a montar a Nimbus 2000 e levantou voo não por querer ser intrometido na vida do professor, mas sim por querer manter essa sensação de adrenalina, que era uma das poucas que o fazia se sentir verdadeiramente vivo.

Planando silenciosamente sobre o castelo, viu Snape entrar na floresta correndo. Seguiu-o.

As árvores eram tão juntas que ele não conseguia ver aonde fora Snape. Voou em círculos cada vez mais baixos, roçando a copa das árvores até que ouviu vozes. Planou em direção a elas e pousou, sem ruído, em uma alta bétula.

Subiu com cuidado em um dos ramos, segurando-se firme na vassoura, tentando espiar por entre as folhas.

Embaixo, na clareira sombria, estava Snape, mas não estava sozinho. Quirrell estava com ele. Harry não conseguiu distinguir a expressão no seu rosto, mas a gagueira estava pior que nunca.

Harry apurou o ouvido para entender o que conversavam e se estava correto, teria suas dúvidas sanadas sobre o professor de turbante.

- ... Não sei por que você quis se encontrar logo aqui, Severus...

- Ah, quis manter o encontro sigiloso - disse Snape, a voz gélida. - Afinal os alunos não devem saber sobre a Pedra Filosofal. - Harry se curvou para frente.

Quirrell balbuciou alguma coisa.

Snape interrompeu-o.

- Você já descobriu como passar por aquela fera do Hagrid? - Severus indagou presunçosamente como se soubesse todos os planinhos maquiavélicos do gaguinho.

- M... M... Mas, Severus, eu...

- Você não quer que eu seja seu inimigo, Quirrell. - Ameaçou Snape, dando um passo em direção a ele.

- N... N... Não sei o que você...

- Você sabe perfeitamente o que quero dizer. - Uma coruja piou alto e Harry quase caiu da árvore. Firmou-se em tempo de ouvir Snape dizer:

- ... As suas mágicas de araque. Estou esperando.

- M... Mas eu n... N... Não...

- Muito bem! - interrompeu-o Snape. - Vamos ter outra conversinha em breve, quando você tiver tido tempo de pensar nas coisas e decidir com quem está a sua lealdade.

E jogando a capa por cima da cabeça saiu da clareira. Estava quase escuro agora, mas Harry pôde discernir Quirrell, parado muito quieto como se estivesse petrificado.

Porém quando mais achara que Quirrell estava sendo usado e era a vítima da situação, quando sua mente parecia desconfiar agora de Severus como se ele estivesse tentando puxar o professor para isso, quando Harry se virara para ir embora com a ideia de que Snape realmente era o vilão. Ele pode enfim escutar:

- "Milorde... Acalme-se, pelo visto ele ainda é leal a ti." - Foi o que Quirrell disse com uma face seria nunca antes vista, onde a cicatriz de Harry doera excruciantemente. Fazendo-o sair dali de imediato com o professor de turbante olhando para sua antiga localização.

[ ... ]

- Harry, onde é que você esteve? - perguntou Hermione com a voz esganiçada.

- Vencemos! Você venceu! Nós vencemos! - gritou Ron, dando palmadas nas costas de Harry - E deixei o olho de Draco roxo e Neville conseguiu quebrar o nariz de Crabbe e Goyle sozinho! Ele ainda está na enfermaria, mas Madame Pomfrey diz que ele vai ficar bom.

- Isso é que é mostrar a Sonserina! Todos estão esperando você na sala comunal, estamos dando uma festa, Fred e George roubaram uns bolos e outras coisinhas nas cozinhas.

- Deixem isso para lá agora. - disse Harry, sem fôlego e massageando sua testa. - Vamos procurar uma sala vazia, esperem até ouvirem isso... - Ele verificou se Pirraça não estava na sala antes de fechar a porta, depois contou aos amigos o que vira e ouvira.

- Então tínhamos razão, é a Pedra Filosofal e Snape está tentando obrigar Quirrell a ajudá-lo a roubar. Ele perguntou se o outro sabia como passar por Fofo, e falou alguma coisa sobre as magiquinhas de Quirrell. Imagino que haja outras coisas protegendo a pedra além de Fofo, uma porção de feitiços, provavelmente, e Quirrell deve ter feito algum contrafeitiço de que Snape precisa para entrar... - Ron ditava a tudo.

- Você quer dizer que a Pedra só está segura enquanto Quirrell resistir a Snape? - perguntou Hermione alarmada.

- Não, Hermione, mais do que tudo, agora eu acredito totalmente que Quirrell possa estar se pagando de cordeirinho indefeso para roubar a pedra, não sei totalmente sobre Severus, mas o perigo real com certeza é Quirrell.

- Mas... não tem sentido algum depois de tudo que disse. - Hermione disse em completa dúvida.

- Escutem bem... Quando Snape saiu, o ar parecia se tornar mais sombrio, e Quirrell disse:

- "Milorde... Acalme-se, pelo visto ele ainda é leal a ti."

- Foi por isso que sai de lá o mais rápido que pude, minha cicatriz parecia que ia pegar fogo e eu perderia a consciência... E ele parecia estar falando com alguém..., mas não tinha ninguém. - Harry ditou se sentando numa poltrona.

- Harry! Isso é mal. - Hermione disse sob olhar atencioso dele. - Milorde... Isso não te lembra nada? - Por fim ela disse com todos encarando assustados ao que ela se referia.

- Sim, eu sei..., mas ele não deveria estar morto? Que porra toda é essa agora? - Harry ditava confuso com tudo, onde sempre que conseguia uma resposta, outras dez perguntas surgiam no processo.

Seja o que iria ocorrer, Hagrid estava certo. Estavam se metendo em coisas realmente grandes, e começava a pensar que era hora de recuar, ou iria se meter num tabuleiro de xadrez e assim não conseguir mais sair.

E com isso dou fim ao décimo quarto capítulo da Changed Prophecy.
Espero que estejam gostando, e não se esqueçam de comentar.
Aos poucos as coisas vão se sanando, Harry entendendo mais das coisas, Neville se tornando mais corajoso e Draco mais irritante.
Estou buscando preencher furos que sinto que a autora real dos livros deixou, onde na obra canônica tivemos uma visão inocente das coisas, e aqui vemos algo mais maduro, onde Harry nota que há feitiços no corredor e como ele é complexo para manter alunos longe, como o espelho pode afeta-lo negativamente se for de mente fraca, como Harry tenta não julgar diretamente ao Severus, mas que as coisas não parecem ser todas inocentes.
E além de tudo, mesmo com seu desejo por adrenalina, Harry sabe que não deve se intrometer demais, pois ele não é nenhum herói, e a responsabilidade é de Albus para proteger seus alunos.

Comentem críticas, opiniões, ideias, só não se tornem leitores ghosts. Que somem e nunca falam nada.
Estarei aguardando a todos na sessão de comentários.