Quando o caipira lhe sugeriu um passeio, Rosa Maria realmente não esperava uma coisa dessas.
É domingo. Dia de preguiça. Nos seus tempos de burguesia adolescente, a moça dedicava o tempo dela a um grande nada na solidão do próprio quarto, esperando a segunda chegar e ser hora de voltar ao ensino médio. Nas suas curtas semanas de vendedora, era um dia de trabalho qualquer, e ela costumava folgar na quarta-feira.
Desde que ela chegou na fazenda, no entanto, dias de trabalho e dias de não fazer nada acabaram se misturando. Se ela não está lavando louça ou contando gado numa mangueira, então ela está completamente ociosa no quarto, olhando para o teto. Breves interlúdios dessa rotina era quando o patrão, suposto namorado e talento revelação da música sertaneja contemporânea a leva para alguma "aparição estratégica" em um bar ou coisa parecida em Goiânia ou Brasília.
Domingos perdem o sentido quando todo dia parece ser domingo.
Nesse domingo, especificamente, no entanto, Rosa estava cansada da própria companhia e decidiu que iria aporrinhar alguém por lazer. Para azar dela, domingo é dia de descanso e a maioria dos funcionários tinha acordado cedo e ido a Anápolis, aproveitar a folga com o doce e frígido som do ar condicionado de shopping. Quando ela finalmente encontrou o caminho da sala de jantar, a casa estava vazia.
Bem, quase vazia. Mateus, o dono da casa e o tal do patrão e suposto namorado, logo apareceu pela porta, tão logo que, se ainda houvesse alguém para ver, acharia que tinham vindo do mesmo lugar.
Olhando para a cara de cansado do homem, ela é forçada a lembrar que ele não tem uma rotina fácil.
Ontem a noite, os dois foram a Catalão, numa gravação de um DVD de alguma dupla que ela não teve a paciência de lembrar o nome, no qual ele era convidado especial. Era esperado dela que ela aparecesse e ficasse no fundo de meia dúzia de fotos para as revistas de fofoca comentarem, então vestiram-na com um short desconfortável e um chapéu de cowboy. Ela andou por trinta minutos, procurando os fotógrafos e beliscando os parcos petiscos no bar do patrocinador, e depois se exilou no camarim até que fosse hora de ir embora.
Ele, por outro lado, teve que efetivamente trabalhar por esse tempo, entre figurino e maquiagem e a social que esse tipo de evento demanda e efetivamente cantar. Ela dormiu, ele não. Era até um pouco preocupante, vê-lo dessa forma.
Antes que ela pudesse se controlar, as palavras pularam da boca dela. "Então, o que tem de divertido pra fazer por aqui de domingo?"
Ele sorriu maroto e, nem uma hora depois, Mateus acelerava pelas estradas de terra que circundavam a imensa propriedade, poeira vermelha voando por detrás deles.
Era perigoso. Era uma péssima ideia, na verdade. A despeito da criminalmente grande caminhonete que ele reserva a esse fim, Rosa lembra da mãe ecoando cada notícia de morte nas estradas de Goiás como um agouro a todos eles, o destino final de toda vida humana no Centro-Oeste. Haviam muitas, muitas notícias para a mulher ecoar.
Apesar dos gritos e dos alertas, no entanto, ela sentia um estranho senso de confiança e segurança na empreitada, algo que lhe é estranho, uma vez que ela nunca tirou a carteira em função desse leve receio de veículos motorizados. Ela se pergunta se não é, talvez, por causa da companhia. Tem algo que lhe diz que, se fosse qualquer outra pessoa no banco do motorista, ela teria se agarrado ao banco para salvar sua vida, mas era o Mateus. Ela confiava nele para mantê-la segura, talvez pelo simples fato de que ele já fez isso muitas e muitas vezes nesse pouco tempo em que eles se conhecem.
Ela não botava confiança nesse plano, achava que não havia nada de bom a se ganhar simplesmente queimando diesel e dirigindo em círculos pelos repetitivos pastos ao redor, mas está sendo surpreendentemente agradável. Ela viu alguns dos casarões antigos que existiam aos montes na região, viu cachoeiras e passou por matas. Essas duas horas que corriam pela estrada lhe deu um senso de aventura, e ela começou a entender porque as pessoas fazem Rallye por essas partes de Goiás.
O vento bateu em seu rosto e Rosa levantou os braços no ar, rindo.
"Como tá indo?" O loiro perguntou sobre o som do vento.
"Estou me divertindo muito!" Ela respondeu com uma risadinha. Ele tirou uma mão do volante e a colocou em sua coxa. "Já temos um destino?"
Ele riu em um sopro de ar e acelerou. "De jeito nenhum! Você tá com medo?"
"Não! Eu estou ótima. Você me passa muita confiança." A moça fechou os olhos e respirou fundo. Tudo cheirava a poeira, poeira e o shampoo caro de eucalipto que ele usava. "Algum motivo em particular para escolher ir a setenta quilômetros por hora em uma estrada de terra?"
Rosa olhou para ele e esperou que ele respondesse. Mateus só riu, despreocupado.
"Tá vendo polícia por aí? Algum pardal? Você só vive uma vez, princesa. E eu estou vivendo luxuosamente, já que tenho você de companhia."
Ele agarrou a mão esquerda dela e a levou aos lábios, mas quando ela percebeu o que ele disse, seu queixo caiu e uma enorme gargalhada escapou de sua garganta.
"O quê?" Ele pergunta, na defensiva e com o rosto ruborizando.
"Você vive luxuosamente porque mora em uma mansão e é um astro da música." Ela riu da falsa modéstia dele.
Ele arfou com as acusações. "Não é verdade! Aquela fazenda não é nada comparada a você!"
"Você diz isso pra todas as suas namoradas falsas..." Ela retruca, levemente.
Os dois riem e fica por isso mesmo. A brincadeira entre eles acaba por ali, e ambos remoem o que foi dito. Há um certo consenso, não dito e não reconhecido, que se estabelece naquela caminhonete.
Pode até ser por troça, ninguém precisa levar a sério ainda, mas nada do que foi trocado ali era mentira.
