Sakura caminhava graciosamente como se não carregasse nada em suas mãos. O seu quadril balançava suavemente de um lado para o outro. O cabelo castanho, curto, encontrava-se livre das marias-chiquinhas.

Ao voltar a atenção para o quadril da Kinomoto, meus olhos se detiveram em alguns detalhes. A cada passo, um pouco do corpo de Sakura se revelava. Além das suas coxas, era possível ver a polpa da bunda de Sakura com aquela roupa. Não era como nunca tivesse visto Sakura de lingerie ou até mesmo de biquíni, mas nesta noite em especial, havia algo diferente. Eu não conseguia identificar o que era, mas, ao mesmo tempo que tentava entender, eu tentava dizer a mim mesma que nada daquilo fazia sentido.

Meu corpo, inesperadamente, começou a me dar sinais claros de que não queria permanecer na casa de Sakura. Sentia a boca seca. Uma reviravolta em meu estômago. Um nó em minha garganta. "Preciso sair daqui". Eu não sabia qual argumento usar para dizer a Sakura que precisava partir, mas também sabia que não poderia ficar.

No entanto, antes que pudesse me manifestar, vi Sakura parar junto ao pé da escada, onde deixou minha mala. Como se estivéssemos em câmera lenta, me vi sendo guiada por Sakura até onde estava agora há pouco.

- Pode ir subindo. Já, já, estarei no quarto com sua mala. - Não pude deixar de notar que a voz de Sakura carregava uma certa dose de autoritarismo. No entanto, era uma ordem se escondia atrás de um pedido feito de forma educada e doce. - Preciso trancar a casa.

Andava impaciente de uma ponta a outra no quarto de Sakura. Algo estava fora do lugar naquela noite. O script de minha vida com Sakura sofreu alterações sem que ao menos eu fosse consultada sobre isso. Um misto de angústia e desespero criaram mãos invisíveis que me apertavam a garganta, retirando minha capacidade de enxergar as coisas de modo racional.

Como estava de costas para a porta, não presenciei o momento em que Sakura a abriu. Só vim a me dar conta de que já não estava mais sozinha ao sentir o toque de algo em meus ombros. Meus olhos se detiveram no reflexo do vidro da janela.

Por ele, vi Sakura mover seus lábios, formando um sorriso.

- Você está bem? - A ouvi perguntar, como se estivesse preocupada. Mas por que não conseguia acreditar em suas palavras?

- Estou. - Respondi fazendo questão de sustentar o olhar de Sakura. Por íntimos segundos me perdi na imensidão daquele par de jades que são os seus olhos.

- O.K. - Disse.

Eu sentia que poderia explodir a qualquer instante. O que havia de errado com Sakura?! O que havia de errado entre nós?!

- Nós precisamos conversar. - Tão logo Sakura finalizou sua frase, senti seus dedos perfurarem a fina camada de pele dos meus ombros.

- Você está me machucando.

E aquilo não era nenhuma mentira.

Ademais, as respostas para as minhas dúvidas não deveriam e não seriam respondidas por um simples reflexo. Desta forma, retirei a mão de Sakura de minha pele sem cerimônias, fazendo questão de não quebrar nosso contato visual. Precisava deixar claro que Sakura não controlaria essa questão a seu bel prazer. Por mais que a amasse, não iria agir como se fosse uma marionete, exposta aos seus instintos e desejos. Girando nos calcanhares, me pus a sua frente. E isso a fez dar um passo para trás, com os dedos de sua mão espalhado em seus lábios.

Pelo visto, eu acabara de destruir a ilusão que Sakura criara para nós nesta noite. Como se despertasse de um transe, Sakura perdera o controle sobre mim. Sob este ponto de vista, a nossa conversa se tornaria mais justa. Já que ela se afastara, eu me aproximei, com mais um passo. E como gato e rato, permanecemos nesta disputa, até que as costas de Sakura encontraram a parede. Não havia mais para onde fugir. E nós sabíamos disso.

- Vamos conversar. Não sei quanto a você, mas eu tenho muitas perguntas a fazer.

A vi engolir em seco, concordando comigo com um simples aceno de cabeça. Sakura deu a volta, puxando-me pelas mãos até sua cama. Nos sentamos uma de frente para a outra. O som das nossas respirações era o único som que podia ouvir. A esperei iniciar a conversa, mas Sakura apenas movia os lábios sem dizer uma palavra sequer. Sinceramente, não me importava. Nem que passássemos a noite em claro, tudo ficaria esclarecido entre nós.