Eu só queria entender o que estava acontecendo. Por um segundo, meus pensamentos vacilaram, imaginando vários cenários. Mas nenhum deles havia me preparado para o que Sakura acabara de dizer. Só poderia ser uma brincadeira. E de mau gosto, alias. Sob um determinado ponto de vista, minhas emoções – e meu coração – deveriam estar em sobressalto, incapaz de conter tanta felicidade. No entanto, eu me sentia irritada. Sentimento contrário e totalmente oposto que não se encaixa nessa situação. Levantei-me da cama de Sakura, decida a ir embora para meu apartamento. Só que não pude prever a rapidez da morena, que segurou um de meus pulsos. Seus olhos esverdeados estavam marejados e percebi que lágrimas não demorariam a rolar.

— Por que está fazendo isso comigo? – perguntei um tanto ríspida, quebrando o silêncio ensurdecedor daquele quarto.

Sakura engoliu em seco antes de continuar.

— Não estou fazendo nada. Apenas estou revelando o que sinto. Não sente o mesmo por mim?

Soltei uma risada debochada.

— O Shaoran vai adorar saber disso, Sakura. Por que não vamos contar a ele?

— Pare com isso! Não é sobre ele que estamos conversando! É sobre nós!

Nós? Nunca existiu um nós!— Era só o que me faltava. Essa era a prova de que Sakura não estava em seu estado normal ou estava adorando aquele jogo.

— É, Tomoyo. Um nós que poderá existir.

— O que você quer que eu pense?! – Eu não queria machucar Sakura, então me soltei de sua mão com o máximo de delicadeza que pudesse. – Você e Shaoran sempre estiveram juntos e...

— É verdade, eu pensei que gostava dele. – Sakura me fez cortar os pensamentos, levantando a palma para cima, indicando com esse gesto que tomaria a palavra. - Você conhece nossa história como ninguém. Só que não sei se você percebeu, de uns tempos para cá a nossa relação não é mais a mesma. Ainda mais quando o Eriol entrou na sua vida...

— O Eriol? – agora a confusão deveria estar estampada na minha cara.

Eriol foi apenas um caso de alguns meses. Algo bem passageiro. Nos conhecemos em uma festa da faculdade. Nem mesmo tinha alguma pretensão quando lhe passei meu telefone. Mas, talvez, ele fosse uma solução. Só que na realidade, foi uma tentativa frustrada de esquecer aqueles sentimentos por Sakura. Apensar de nos darmos bem, isso não foi o suficiente para nos manter juntos.

— Você não pode imaginar os ciúmes que comecei a sentir dele... Pensei que era ciúmes de amiga, mas quando vocês se beijavam, eu sentia vontade de arrancá-lo de perto de você...

Tentei ignorar essas informações e permanecer firme. Mesmo que elas tenham me causado um calafrio pelo corpo. Então poderia ser real...

— Você comentou algo sobre isso. – Me vi ainda na defensiva, cruzando os braços. Sakura realmente havia comentado algumas vezes sobre o seu relacionamento com Shaoran. Ela não via o que estava errado, mas é como se o seu amor por ele houvesse "diminuído de tamanho" ao longo daqueles meses. – Achei fosse apenas mais uma fase de vocês.

— Eu também achei, pois não somos um casal, eu diria, estável. – A vi sorrir de canto, um tanto triste. – Só que dessa vez não dava para voltar, não depois do que descobri sentir por você.

— Sakura, olha só, você deve estar confundindo as coisas, está bem? – disse totalmente descrente dos tais sentimentos que ela alegava sentir. – Volte para o Shaoran e vamos parar com isso. Você e eu vamos nos machucar.

— Tomoyo, você precisa acreditar em mim...

— Eu não tenho que acreditar em nada. Pense melhor, tenho certeza de que logo verá as coisas com a clareza que necessita. Agora, eu vou voltar casa.

Uma vez em casa, larguei a mala em um canto qualquer do quarto. Joguei-me na cama, me permitindo extravasar a dor que eu sentia em meu peito. Sakura só poderia estar confundindo as coisas. Nós somos amigas há anos, mas isso não significava que o seu amor por mim haveria de mudar. Ela seria feliz com Shaoran, como sempre aparentou ser. Logo essa nuvem negra iria desaparecer dos pensamentos de Sakura. Era por isso que eu estava esperando. Senti que não conseguiria parar de chorar tão cedo. Eu gostaria que Sakura se apaixonasse por mim, mas não dessa forma. Eu simplesmente não conseguia acreditar. Depois de algum tempo, me levantei da cama e fui tomar um banho.

Totalmente nua debaixo do chuveiro, deixei a água quente me atingir por completo. Eu precisava reorganizar os meus sentimentos. E talvez... me afastar um pouco de Sakura. Enquanto permaneci ali, inerte, deixando a água tocar cada pedaço do meu corpo, decidi que não iria mais ao trabalho de Sakura. Eu iria sempre a visitar na cafeteria depois das aulas na Faculdade de Artes de Tomoeda. Aproveitava e pedia um chocolate quente enquanto Sakura vinha conversar comigo quando não tinha que atender algum cliente. Eu sentiria falta desses momentos. Sentiria falta de saber se ela está bem ou se precisa de algo. Ou de apenas conversar. Mas era necessário dar esse tempo.

Antes que ficasse toda enrugada, sai debaixo do chuveiro. Ainda bem que havia colocado minha toalha para secar ali mesmo no box e não no varal. Voltei para o quarto e foi nesse instante que ouvi meu celular tocar. Imaginei que fosse Sakura outra vez, então nem me dei ao trabalho de ver o nome no visor. Enquanto tentava sair de sua casa, Sakura suplicava que eu escutasse, que dizia a verdade. Alguma vez eu menti para você?! Essa pergunta que ela me fez não sai da cabeça. Verdade que ela nunca havia mentido, mas sempre haveria uma primeira vez. Essa foi a primeira.

Eu não sei exatamente quanto tempo se passou sem ver Sakura. Mas sei que estava chegando ao meu limite. Fiquei sabendo por nossas amigas próximas que Sakura e Shaoran não estavam realmente juntos. E que a morena não sorria mais e só focava em duas coisas: seu trabalho na cafeteria e o seu curso de Administração em uma cidade próxima de Tomoeda. Felizmente ou não, a nota que Sakura havia tirado no vestibular não havia sido o suficiente para ela cursar administração em Tomoeda, então ela foi para a faculdade de uma cidade próxima. Meu coração se apertava a cada vez que as meninas me falavam tais coisas. Eu não conseguia imaginar Sakura sem sorrir ou sem seu espírito alegre e livre, despertando aquilo que cada um tem de melhor.

É verdade que não nos falávamos mais. E as bocas dos conhecidos diziam que ela sentia muito a minha falta. E eu estava aguentando firme por nós duas. Até que aquela loucura terminasse. Eu esperava que meu amor por Sakura não mais existisse. Ela havia mentido e se atreveu em tocar em algo que era muito importante para mim. Mas quem eu quero mesmo enganar. Mesmo sufocado, como um corpo jogado ao mar agarrado em uma pedra, meus sentimentos ainda estavam ali. Sufocados, esperando por alguém que eu salvasse. E para ser sincera, eu não era mais a mesma. Até as minhas aulas que eu adorava tanto, começaram a perder a graça.

Eu acabaria logo com isso.

Após chegar de mais uma manhã de aulas, joguei minha pasta no sofá da sala. Tranquei a porta e coloquei a chave no hacker. Enquanto tomava um banho rápido, eu podia sentir borboletas em meu estômago. E elas voavam freneticamente. Terminado o banho, fechei o registro e me enrolei na toalha. Escolhi um vestido cor de creme de alças largas e que batia na altura dos meus joelhos. Nos pés, uma sandália simples. Amarrei o cabelo em um rabo de cabelo alto. Ao me olhar no espelho de corpo inteiro que ficava em meu quarto, pensei se estava fazendo o certo. Ao que tudo indicavam, a distância que havia imposto não estava fazendo bem para nenhuma de nós duas. Então não havia motivos para insistir nisso.

Aliás... Sakura já deve ter percebido a confusão que fez. Já deu mais que tempo para perceber isso.

Após transferir meus pertences para outra bolsa, com a chave do carro nas mãos, sai de casa. Quando tranquei a porta, respirei fundo.

Quando a vi, meu coração parecia ter parado, como sempre fazia.

Sakura estava com o seu uniforme, o cabelo solto, agora batendo quase nos ombros. Quando nos encaramos, percebi que suas esmeraldas visivelmente haviam brilhado. Com um gesto de mão, pediu que eu esperasse. E precisaria mesmo esperar. A cafeteria estava cheia naquela tarde. Enquanto aguardava, uma outra garçonete veio me atender. Pedi um suco de laranja com açúcar e me pus a observar as pessoas chegavam e depois um tempo, partiam. Voltar àquele lugar me fez sentir quase que... em casa novamente.

Passado algumas horas, vi Sakura se aproximar e se sentar de frente para mim.

— Mas que surpresa. Não pretendia te ver tão cedo. – Disse me encarando nos olhos.

Sustentei seu olhar.

— Sakura... Eu sei que desapareci da sua vida.

— Realmente, você desapareceu, como o vento. – Disse a morena com o tom voz amargurado. – Deve ter pensado que enlouqueci de verdade, não é?

— Eu só queria te dar tempo e... espaço. Você precisava pensar direito.

— Tomoyo, presta atenção. – Eu estava estranhando ver Sakura tão firma e decidida. – Eu sei o que te disse naquela noite. E esse tempo não alterou nada. Meus sentimentos continuam aqui. É verdade que senti ódio de você, não vou mentir. Afinal, você desapareceu sem mais nem menos.

— Eu fiquei sabendo por nossos conhecidos que você e Shaoran não estão mais juntos...

— E há muito tempo. Será que você se faz de idiota ou apenas se nega a ver a verdade?

— Quem você pensa que é... – Comecei a dizer, a raiva borbulhando meu lábios, fazendo cocegas para disparar a próxima sentença.

— Quem VOCÊ pensa que é para chegar em ter o dedo na minha cara para dizer que estou errada! – Sakura explodiu primeiro e eu recuei um pouco. Tudo que eu não precisava era de uma cena em seu ambiente de trabalho. – Você sabe a falta que senti de você!? O quanto me culpei por amar você?!

— Sakura, eu... – levei minha mão até a da morena, que estavam espalmadas sob a mesa, devido a sua explosão. Ela tentou retirá-la, mas a agarrei antes que tivesse a chance. – Eu também senti muito a sua falta, pode acreditar em mim. Mas... Vamos parar com isso. Se o seu sentimento é real, o meu também é.

Pontos para mim. Minhas palavras haviam desarmado a morena. Percebi sua respiração mais lenta e os olhos marejados. E apesar da emoção que a tomava, eu pude perceber que era verdade. O tal amor que ela diz sentir por mim. E por que não a corresponder quando sinto o mesmo? Fosse o que fosse, poderíamos lidar com isso juntas, não poderíamos?

— Espero que isso não seja a deixa para mais um desaparecimento.

Ri por alguns segundos do bico que Sakura fazia.

— Não é, pode acreditar em mim. Vamos fazer isso juntas, ok?

E seu sorriso era tudo que eu precisava ver para ter a certeza de que estávamos juntas nessa.