A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 2
A SURPRESA
Whispered something in your ear
It was a perverted thing to say
But I said it anyway
Made you smile and look away
Nothing's gonna hurt you, baby
As long as you're with me, you'll be just fine
Nothing's gonna hurt you, baby
Nothing's gonna take you from my side
(Nothing's Gonna Hurt You Baby – Cigarettes After Sex)
"Vocês..."
Laurent pestanejou quando se deparou com aquelas pessoas sentadas ao redor da enorme mesa de carvalho ornamentada com flores-de-lis e jarros de cerâmica bojudos cheios de vinho.
Tratava-se de uma das salas de festa menores do palácio, utilizadas para reuniões políticas ou recepções de cortesãos que solicitavam uma audiência.
Esperando pelo rei de Vere e por Damen, encontravam-se alguns dos melhores soldados que lutaram ao lado deles há quase dois anos atrás: Jord, Lazar, Aktis e Pallas. Não muito afastado, estava sentado o médico Paschal, Loyse de Fortaine e lorde Berenger com Ancel atravessado em seu colo.
Por último, Nikandros estava de pé com uma taça de vinho em sua mão, conversando com Makedon. Charls, não muito distante, exibia olhos maravilhados, ao lado do seu assistente Guillaime.
"Recebemos o seu convite, Lamen! Obrigado pela honra." — declarou Charls, colocando-se de pé e fazendo uma mesura solene.
Ali, encontravam-se algumas das pessoas que não apenas se mantiveram fiéis a Damen e a Laurent durante o tempo em que eles tentavam reconquistar os seus tronos, mas que estiveram muito perto de terem as suas cabeças cortadas e erguidas em uma estaca por uma suposta traição perante Kastor e o Regente. Eram as pessoas leais ao rei de Akielos e ao rei de Vere.
Laurent estava acostumado a ter pessoas curvando a cabeça diante dele a todo momento, mas um rubor subiu por suas faces quando aquelas pessoas, simultaneamente, curvaram-se com a sua chegada. Ele ficou aliviado quando Damen fez um gesto para que todos se levantassem, antecipando-se em dizer:
"Fico feliz que tenham podido vir para a celebração do aniversário de Laurent de Vere. Por favor, nos encarem como amigos... Esse é um encontro informal de amigos."
Laurent estava com a coluna um pouco rígida ao lado de Damen e ele moveu a mão ao redor do seu braço, puxando um pouco o rosto do akielon para perto.
"Convenceu as pessoas que estiveram do nosso lado a virem para uma comemoração privada...?"
"Não, não precisei convencê-las. Bastou convidá-las. Infelizmente, nem todos que lutaram ao nosso lado estão aqui, mas era necessário deixar algumas pessoas em seus postos... Lady Vannes precisou cuidar dos preparativos para recepcionar a comitiva de Vask. Lydos está cuidando das acomodações da tropa akielon."
Laurent insistiu:
"Eles vieram para o meu aniversário?"
"Sim. Achei que uma festa privada seria interessante, antes de uma festa política..."
"Certo. Obrigado."
Laurent tinha as bochechas matizadas de vermelho quando ele se aproximou dos convidados, ao lado de Damen, e o rei de Akielos percebeu com nitidez a inabilidade que o veretiano tinha em receber pessoas que estavam ali por ele.
Talvez Laurent estivesse acostumado com as jogadas políticas em que precisava utilizar a sua lábia, charme e inteligência no trato com as pessoas; ou com o exército em que precisava da língua ferina para dominar os seus homens. Mas aquele era um âmbito novo para Laurent porque ele caminhava por terrenos não explorados. Laurent não era visto com amigos. Nem deixava outras pessoas se aproximarem.
Mas Damen sabia que ele tinha sim amigos e que ele era um jovem de vinte e dois anos, apesar de governar um reino.
"Exaltados!" — cumprimentaram Pallas e Aktis quando os dois reis passaram por eles.
Ancel jogou os cabelos flamejantes para trás quando se curvou ao lado de lorde Berenger, mas mantinha um sorriso esperto em seu rosto. Aparentemente, ele era um adepto da moda akielon e veretiana difundida por Charls, trajando um quíton curto com laços amarrados ao redor da manga comprida.
Lazar olhava para as pernas nuas do escravo de estimação de lorde Berenger com a boca entreaberta. Lazar, definitivamente, tinha um fraco por pernas.
"Majestades, sentimo-nos honrados pelo convite. O presente em nome de Varenne já foi entregue aos seus serviçais..." — declarou lorde Berenger com uma reverência solene.
Damen sabia que lorde Berenger se colocara em risco quando estava na corte governada pelo Regente. O nobre se comprometera a levantar fundos para financiar a causa de Laurent e lhe oferecera passagem por Varenne em sua empreitada.
Ancel jogou os cabelos incendiosos novamente e disse com um sorriso que derretia bronze:
"Garanto que o presente dado não é, dessa vez, um boquete para o rei de Akielos!"
O cutucão que lorde Berenger deu em Ancel chegou a fazer barulho e fez com que Lazar abrisse ainda mais a boca.
"Ai, meu senhor! Não nos falaram que era uma festa sem formalidade...?" — queixou-se Ancel, apalpando o seu braço com uma careta de dor — "Fazia muito tempo que não via o rei de Akielos. Achei que era uma boa forma de deixá-lo confortável..."
Laurent manteve a sua expressão séria, mas no rosto de Damen havia um ar de desalento.
"Não, não é uma boa forma de me deixar confortável. Agradeço as suas presenças no aniversário do rei Laurent, lorde Berenger e Ancel..." — disse Damen com formalidade.
"Você fica bonitão com essas roupas de Akielos, Exaltado. Não é a lembrança que eu tenho sua daquele dia no caramanchão, acredite..."
Naturalmente, Ancel evocava novamente a vez em que ele chupou publicamente Damen quando todos achavam que o akielon era um escravo. Damianos não queria lidar com aquelas lembranças.
"Pois você já deveria ter se esquecido disso, Ancel..." — declarou Damen, corando um pouco.
Damen viu por sobre o ombro de lorde Berenger, Pallas voltar a cabeça para Nikandros, movendo a boca sem emitir som ao indagar:
"Quem é esse aí?"
"Um veretiano. Não pense muito a respeito..."
Por fim, Laurent ergueu as suas sobrancelhas pálidas, dizendo com austeridade:
"Talvez eu devesse pedir de presente para lorde Berenger a sua língua novamente, Ancel..."
"Sempre aos seus serviços, Majestade..."
"Perdoe-nos. Ele é jovem..." — desculpou-se lorde Berenger, puxando Ancel para um canto enquanto Lazar, com a boca aberta, acompanhava o escravo de estimação com o olhar e recebia uma cotovelada de um irritado Pallas.
Depois, foi a vez de os reis falarem com Charls, que exibia olhos maravilhados, ao lado do seu assistente Guillaime.
"Majestade! Rei Lamen!"
Os quatro se detiveram durante um tempo, conversando e Charls expunha para eles informações sobre o comércio de tecidos e as novidades obtidas em suas viagens por reinos distantes.
"A imperatriz Vishkar de Vask se uniu à concubina Pari recentemente, transformando-a em consorte. Sei por que eu forneci todos os tecidos e adornos do matrimônio para o império. Foi um casamento digno de uma imperatriz. Creio que os outros concubinos e o próprio esposo de Vishkar tenham ficado enciumados. Mas creio que, diante de uma mulher daquela, é natural que a própria imperatriz Vishkar perca a cabeça..." — falou Charls com uma expressão distante.
Guillaime, ao lado de Charls, sacudia a cabeça enfaticamente. Laurent contraiu as suas sobrancelhas de um modo quase imperceptível.
"Havia sabido de um matrimônio. Pari é tão bela como dizem...?"
"A realidade supera a imaginação e os comentários. Nunca vi mulher mais bela e acredite que já vivi um bocado, Majestade, viajando por muitas terras distantes. Mas o rei vai ter a oportunidade de ver Pari com os próprios olhos hoje à noite..."
"Ela vem?"
"Sim. Representando o próprio imperador..."
Após um tempo, Damen e Laurent cumprimentaram Paschal e Loyse.
Damen não pode deixar de reparar quando Laurent envolveu brevemente o braço da senhora que governava agora Fortaine e lhe sussurrou algo no ouvido. Loyse era a única mulher na festa e, com um gesto solene, assentiu para o rei de Vere com uma expressão cúmplice.
Quando alcançaram Nikandros e Makedon, Damen observou a postura mais sarcástica de Laurent ao se dirigir a Nikandros e a postura mais desconcertada dele ao interagir com Makedon coexistirem quase em um sincretismo. Pareciam dois reis de Vere.
"Fico surpreso que tenha se dado ao trabalho de vir de Ios para cá por uma festa de aniversário, algumas garrafas de vinho e uma fatia de bolo, Nikandros..." — declarou Laurent. A relação dele com o kyros de Ios sempre fora tensa e permeada por desconfiança.
"Eu gosto de bolo. E de Damianos também, claro..."
"Contente-se com o bolo!"
Damen pigarreou e Makedon se antecipou, rindo com gosto e batendo com força no ombro de Laurent.
"Você ainda é uma serpente, meu jovem!"
"E você ainda é um touro velho!"
Makedon gargalhou com mais vigor, batendo com mais entusiasmo no ombro de Laurent. Damianos percebeu que Makedon era o único que parecia se esquecer de que Laurent era o rei de Vere agora, tratando-o com a informalidade dedicada a um parente mais jovem.
"Cuide bem desse aí, Exaltado! Gosto desse garoto como se fosse um dos filhos malcriados do meu irmão!"
"Eu gostaria de que o senhor fosse o meu tio..."
"E eu teria gostado de poder tê-lo ensinado algo, Laurent, e ter dado uns safanões na cara daquele estrume do Regente que era o seu tio verdadeiro, se o tivesse conhecido."
"Eu também gostaria disso."
"Obrigado pelo convite. Trouxe a griva! Vamos todos beber!" — declarou Makedon — "E, talvez, você e Nikandros possam deixar essa velha animosidade de lado..."
"Ela já foi deixada de lado quando Laurent esteve em Ios e precisamos conviver por um longo verão. O mais longo que já vivi. Tentei ensinar para o rei de Vere a luta corporal de Akielos. É uma pena ele não ter o físico para o esporte..." — disse Nikandros, bebendo do seu vinho.
"De fato, permanecer enroscado em outro homem nu por esporte é mais o feitio de Nikandros..." — respondeu Laurent de um modo impassível.
"Você permaneceu vestido durante todo o tempo..."
"Me despi quando Damianos me ensinou. Ele luta melhor do que você."
"Já lutei com Damianos. Hei de concordar que ele tem mais paciência com novatos."
"Você foi um novato quando lutou com ele?"
"Um pouco, mas não tão inexperiente quanto o rei de Vere que se atrapalhou nos próprios laços da roupa..."
"Melhor do que cair por cima do próprio pau, Nikandros..."
Damen pigarreou e observava a cena como todos na sala. Aparentemente, Nikandros era um oponente forte na modalidade combate verbal praticado em Vere. Talvez, fosse até coroado. Mas ele brigava com Laurent e Damen fez um gesto para que ele se silenciasse. Makedon interveio com uma gargalhada espirituosa.
"Eis uma troca cultural divertida! Cuide bem do rei de Vere, Exaltado... Esse garoto tem um escorpião na língua e respeito isso..."
Nikandros revirou os olhos nas órbitas e murmurou:
"É o contrário. Damen que está dando uma festa surpresa de aniversário em homenagem ao rei de Vere. Laurent que tem que fazer por merecê-lo! Se esforçar para ser digno do Exaltado!"
Laurent estreitou os olhos azuis.
"Acha que não sou digno de Damianos, Nikandros? Damen enfiou a língua no meu ânus ontem à noite porque não tínhamos óleos. E eu quase desmaiei de tanto gozar, esquecendo até do meu próprio nome. Ele fez isso por iniciativa própria. Então, acho que estou merecendo o rei de Akielos sim..."
A frase dita por Laurent fez com que Nikandros abrisse a boca e a fechasse. E como acontece nessas situações, a sentença foi dita em um momento em que a sala estava mergulhada em silêncio. Loyse mordeu os lábios. Paschal desviou o olhar. Ancel bateu no ombro de lorde Berenger, tapando a boca com a outra mão para abafar a sua risada.
Damen viu os seus homens parecerem incertos se haviam ouvido mesmo o que foi dito em veretiano e Makedon gargalhou.
Quanto a Damianos... Bom, Damianos procurava um buraco no chão para se enterrar.
"... E eu faço boquetes satisfatórios em Damen sempre que ele chega de viagem! Não é um esforço, mas me dedico e garanto que ele goze, chamando pelo meu nome. E eu não preciso de um escravo de estimação para fazer isso. Posso cuidar do meu homem sozinho..." — continuou Laurent, alterando a voz em direção a Ancel.
Damen passou a mão pelo seu rosto que estava muito quente e começou a pensar que se lançar embaixo da mesa de carvalho não seria tão ruim. Talvez fosse a inabilidade de Lauren para interagir amistosamente com os outros. Talvez fosse Vere que não era tímida ao expor a intimidade de um casal. Talvez fossem as duas coisas.
Charls, como um homem que já vira muita coisa, explicava algo em particular para Guillaime, fazendo uma roda com os seus dedos enquanto o seu aprendiz arregalava os olhos.
"Pelos deuses, Laurent... Isso é... Com licença..." — declarou Nikandros, saindo tonto para o lado de Pallas e de Lazar.
"Você fez Nikandros corar feito um garotinho de treze anos que vê uma mulher nua. Acho que você levou a melhor nessa, Laurent de Vere... Não é o nosso costume em Akielos contar o que se passa no quarto de dois amantes..." — explicou Makedon de um modo paciente.
"E como as pessoas ficam sabendo que um casal está fodendo de verdade?"
O homem pareceu pensativo:
"Normalmente, basta que os envolvidos saibam, mas podemos ter um vislumbre disso pela cara do casal. E pelo rosto de Damianos de Akielos aqui, creio que você não faltou com a verdade... Bom, queiram me dar licença. Preciso ir buscar o meu presente para o rei de Vere..."
Damen há muito tinha conhecimento de que Laurent, quando se tornava reativo, era boca suja. E desde que eles dormiram juntos pela primeira vez em Ravenel, o akielon constatara no jovem um desejo mórbido de trazer para qualquer conversa aleatória com quem quer que fosse o fato de que os dois haviam fodido, nas palavras de Laurent.
Damen não sabia se esse era um comportamento imaturo de Laurent ou uma satisfação pessoal por superar os próprios obstáculos que tinha em relação ao sexo. De qualquer forma, Damianos estava constrangido e suas reações não eram muito diferentes das de Nikandros.
Ao se aproximarem de Jord, que estava com as faces vermelhas, Damen teve a certeza de que para os soldados veretianos, aquelas confissões do rei também eram desconcertantes. Pensando bem, Jord não era dado a mencionar para os soldados o que fazia ou deixava de fazer com Aimeric quando os dois estavam juntos, mantendo-se reservado em sua intimidade.
"Majestade Laurent, Exaltado Damianos!"
"Jord, venha se sentar ao meu lado! Traga Lazar também quando ele fechar a boca e parar de secar Ancel..." — ordenou Laurent, dando-lhe um tapa no ombro.
Minutos depois, todos se encontravam ao redor da grande mesa, sentados e degustando vinho, uvas, queijos e doces. Isander, o escravo akielon de Laurent, que agora trabalhava como um de seus serviçais, trouxe uma bandeja de ouro com algumas uvas para o veretiano, mas quando fez menção de servi-las na boca do rei de Vere, Damen tomou o prato do homem com olhos de cervo, dizendo:
"Pode deixar que eu mesmo me encarrego disso..." — e, pegando uma uva violeta e pequena em seus dedos, ele a levou aos lábios entreabertos de Laurent, sentindo a boca dele roçar em seus dedos.
"Você ainda tem ciúme de Isander..."
"Vejo que fez questão de manter o seu escravo favorito entre os serviçais reais..."
"Ele é eficiente. E está aprendendo veretiano. Eu não lhe daria um tapinha nas costas e o deixaria entregue à própria sorte aqui em Vere. Ele acabaria nas mãos de um nobre truculento qualquer, com fetiche ou ódio por akielons..."
Com uma expressão carrancuda, Damen serviu outra uva a Laurent.
Ancel, que estava sentado ainda no colo de lorde Berenger e mastigava um doce arquitetônico de creme rosado, disse:
"A emancipação dos escravos, se não for bem planejada, será uma desgraça principalmente para os próprios escravos..."
Berenger apertou discretamente a cintura de Ancel, pedindo que ele ficasse quieto, mas Laurent agora fitava o ruivo com um interesse renovado ao perguntar:
"Você é contra...?"
"Não sou contra, mas acho que há o risco de serem deixados à deriva milhares de escravos de estimação que se não for para foderem ou servirem, não sabem fazer porra nenhuma... E milhares de nobres que se não tiverem um escravo de estimação, vão começar a fazer bastardos feito coelhos que pesarão nos bolsos da coroa. No fim, para se apaziguar os ânimos, os escravos de estimação acabarão sendo solicitados como prostitutos sem contratos e nada mudará em Vere, exceto pela instabilidade na vida dos escravos de estimação..."
A mesa mergulhou em silêncio e Laurent tinha os olhos estreitos ainda fitando Ancel.
"Creio, então, Ancel, que você não saiba fazer porra nenhuma para estar afirmando isso..."
O escravo deu de ombros, tendo o seu cabelo vermelho deslizando sobre as espáduas nuas em que a manga comprida do quíton tinha um decote:
"Sei fazer números com fogo. Sei cantar algumas canções e sei dançar. Nada que me garantisse um teto e três refeições ao dia. Nada que pudesse me fazer sequer sonhar em comprar isso aqui..." — disse Ancel, mostrando o seu colar de rubis.
"Perdoem pelas palavras de Ancel. Ele é muito franco e costuma dizer o que pensa..." — declarou lorde Berenger, envolvendo os ombros do rapaz com um gesto protetor.
Damen, no entanto, percebeu que Laurent apoiou a mão no queixo como se estudasse Ancel. Lazar parara de comer e fitava o escravo de estimação, após ele cruzar as pernas muito brancas.
"Na verdade, estou mais interessado nas palavras dele do que estaria há alguns minutos atrás. Você tem frequentado as aulas para ler e escrever na biblioteca, Ancel..."
"Tenho. Mas não tenho a pretensão de ler Iságoras para o meu amo e continuo achando os livros de Berenger um tédio. Poderia morrer de tédio com todas aquelas palavras e se não fosse por minhas habilidades, meu belo mestre ainda estaria trancado em seu quarto lendo Iságoras e recebendo um boquete a cada cinco anos."
"Você fala muito em boquetes..."
"Sou veretiano no fim das contas..."
"Não me lembro de isso ser um patrimônio de Vere..."
"Mas Vossa Majestade entende a importância deles..."
"Não abuse do meu bom humor, Ancel! As aulas de leitura e escrita..."
"Li recentemente o meu primeiro livro chamado 'A raposa e o cercado'. Berenger diz que é uma história infantil, mas para mim, é sobre como os homens são idiotas por tentarem capturar uma raposa com uma armadilha tão ordinária e acharem que a liberdade também é algo tão ordinário como um prado sem comida."
"E por que você está querendo aprender a ler e a escrever? Está ainda tentando ascender socialmente?"
Ancel estendeu os braços ao redor de lorde Berenger sedutoramente, fazendo o homem corar um pouco.
"Já encontrei a minha posição na corte. Só quero mantê-la. Quando eu espionava os planos do Regente para o meu amo, os outros escravos e eu nos comunicávamos, fazendo desenhos e símbolos em nossas mãos e nos rebocos das paredes e todos achavam que éramos muito bonitinhos, feito crianças estúpidas pintando figuras pela casa, mas estávamos confabulando sobre a comitiva do príncipe herdeiro e os passos do Regente. Escravos se comunicam assim. Berenger disse que eu, talvez, precisasse das letras algum dia e resolvi dar uma chance..."
Jord, que ouvia o relato, indagou:
"Que símbolos usavam?"
"Símbolos comuns. Eu criei o nosso próprio alfabeto de códigos. O rei Laurent era o símbolo da estrela; o Regente era uma maçã podre; lorde Berenger era um livro e os exércitos eram um cavalo... Nicaise, certa vez, nos viu confabulando. Achei que ele nos delataria, mas ao invés disso, ele nos alertou que Laurent de Vere precisava ser uma safira porque a estrela era muito óbvia..."
"Lorde Berenger, leve Ancel à próxima reunião do Conselho com os cortesões..." —determinou Laurent com uma voz resoluta.
"Majestade?!"
"Precisamos de um porta-voz dos escravos e creio que Ancel seja o que estou procurando. Ele vai me ser mais útil do que Jeurre ou Chelaut..."
Ancel pestanejou os seus olhos profundos e verdes, indagando:
"Está me convocando para o Conselho, Majestade?"
"Não, não posso mudar os integrantes do Conselho de uma hora para outra, mas posso convocar suplentes e porta-vozes. Melhore a sua leitura e escrita. Venha com lorde Berenger. Preciso de alguém para cutucá-lo em momentos estratégicos..."
Lorde Berenger, parecendo honrado, curvou a sua cabeça, mas Ancel meneou o seu rosto bonito.
"O que o Conselho vai dizer do rei de Vere levar um escravo prostituto para as reuniões políticas?"
"Que a submissão e a putaria que o Regente deixou que imperassem em Vere por longos anos tem que ser extinta, eu espero..."
Damen estava impressionado também com a inteligência de Ancel, cuja lembrança ainda era do episódio no caramanchão em que o jovem se insinuara sexualmente para conseguir regalias.
Ancel se curvou para dar um beijo rápido na face de seu amo.
"Viu só? O rei de Vere gosta das minhas ideias. Não preciso ler aqueles livros chatos para ser inteligente..."
"Não, não precisa... Só precisa ser você mesmo, meu amor..."
As palavras carinhosas de lorde Berenger escorreram espontaneamente de sua boca e o modo terno com que foram ditas fizeram Ancel corar e Lazar desistir das pernas do veretiano.
Laurent, por um instante, se deteve fitando o casal enquanto Ancel sustentava o olhar de lorde Berenger, sorrindo.
O restante da manhã transcorreu tranquilamente e, após um quarto de horas, o almoço foi servido. Nesse ínterim, Damen viu Makedon se levantar e conversar com alguém na porta. Depois, ele se sentou. Em seguida, se levantou de novo. Por fim, com uma expressão animada e esfregando as mãos, ele declarou:
"Os atores do norte chegaram. Permita-me entregar o meu presente, Laurent..."
Damen ergueu as sobrancelhas quando viu uma jovem um tanto rechonchuda com o cabelo curto e muito loiro entrar, acompanhada de um homem grande e com a pele cor de oliva que usava enchimento sob a roupa. Um terceiro homem com olhos esbugalhados chegou com um pingente de leão desproporcional em sua lapela, acompanhado de um outro ator um tanto magrelo com uma máscara de monstro. Laurent se deteve olhando o conjunto, assim como todos.
Nikandros, então, esfregou os olhos como se não acreditasse no que via, no mesmo instante em que Damen percebia o que estava acontecendo.
"Você trouxe um teatro itinerante burlesco do norte de Akielos para a festa do rei, Makedon?" — indagou Nikandros, boquiaberto.
Damen voltou a olhar os atores e identificou o que representavam. Respectivamente, lá estavam uma sátira dele, de Laurent, do Regente e de Kastor. Aquele era o teatro burlesco de Akielos que agradava o gosto dos soldados mais rudes e homens que trabalhavam no porto. Vez ou outra, eles se apresentavam em tavernas e pagavam a sua estadia com uma dose de humor rasteiro e de baixo calão.
Damen vira uma companhia daquelas quando tinha onze anos e fora advertido por seu pai que deveria frequentar o teatro akielon real em vez de se entreter com baixaria e depravação de péssima qualidade.
"Achei que o rei de Vere merecia uma imersão cultural em Akielos..." — declarou Makedon.
"Isso não é a cultura de Akielos, Makedon..." — respondeu Nikandros com algum rancor.
Laurent observava os atores com curiosidade e fitou a garota de cabelos loiros e curtos.
"Creio que você seja eu..."
"Com trinta quilos a mais e cozinhando nessas roupas veretianas, Majestade. É uma honra poder conhecer os lendários reis das nações-irmãs..." — respondeu a jovem com um veretiano com forte sotaque do akielon de Sicyon.
O olhar de Laurent passou pelo Damen com enchimento sob a roupa; o Kastor de olhos esbugalhados que parecia ter levado um susto e o Regente, com a capa vermelha e trajando uma máscara de monstro enquanto movia a cabeça respeitosamente. Damen julgou ver um riso nervoso se desenhar brevemente no canto dos lábios de Laurent.
"Por que nunca fomos ao teatro de Ios, Damianos?"
"Podemos ir se desejar..." — e ele acrescentou, baixando consideravelmente a voz para não ser ouvido pelos atores— "Mas isso não é bem um teatro..."
"Quero ver. Por favor, comecem..." — determinou Laurent.
Damen trocou um olhar tácito com Nikandros, que bebeu mais um cálice de vinho. Makedon esfregou as mãos como se a companhia de teatro pertencesse a ele. Os veretianos se acomodaram para assistirem à apresentação em suas cadeiras de espaldar alto. Pallas e Aktis engoliram em seco.
Era ruim. Era muito ruim. Como um vir a ser algo e permanecer estacionado numa intenção embrionária para sempre. Damen não se recordava se achara graça ou não do teatro itinerante do norte quando tinha onze anos, mas se lembrava de não teimar com Theomedes para voltar a frequentá-lo, coisa que ele fazia quando queria muito algo.
Sinteticamente, os atores interpretavam o conflito entre os reis e seus usurpadores de forma burlesca. Os akielons, fora Makedon, estavam envergonhados por apresentarem aquilo em Vere e se preparavam para terem renovada a sua alcunha de bárbaros.
Charls e Guillaime demonstravam respeito pelos atores, mas havia um rubor inseguro em suas faces.
Quando Kastor tropeçou, tentando subir ao trono e caiu, puxando o Regente para o chão, Makedon se moveu na cadeira gargalhando, sendo acompanhado, para surpresa de todos, pelas risadas nervosas de Ancel e de Laurent.
Depois, o Damen burlesco, que era tratado como escravo, ao ser alimentado, acabava mordendo a mão de Laurent, que, por sua vez, confiscava toda a comida e se acomodava numa cadeira numa imitação fiel de Laurent sentado no trono real. A expressão de tédio, as pernas cruzadas e o ar indiferente... Um chicote em seu colo... Até que o Regente o empurrava do trono para que ele se estatelasse no chão, mas ele acabava caindo nos braços de Damen.
Por que havia tantas quedas? O enchimento do corpo do ator de Damen se revelou um pouco sob a roupa quando ele se levantou e Nikandros olhou para o seu cálice vazio, esvaziando-se também um pouco de si mesmo.
Em seguida, quando o Regente surgiu e tropeçou (não se sabia se devido ao roteiro ruim ou à máscara que cegava o ator), a atriz de Laurent pulou nas costas do ator de Damen com medo, tapando os seus olhos e o fazendo quase cortar Kastor ao meio com a espada por acidente.
Loyse deu uma risada sem dignidade. Jord, com o cenho franzido ao lado de Lazar, tentava acompanhar. Paschal tinha uma expressão muito parecida com a de Nikandros e parecia precisar de uma sálvia.
"Não consigo ver nada!" — queixara-se o ator de Damen com as mãos para frente, dando, sem perceber, uma cotovelada no Regente.
Ancel, literalmente, dava um tapa na perna de lorde Berenger enquanto quase caía de seu colo de tanto rir. Laurent, ao lado de Damianos, sacudia os ombros se divertindo.
Nesse momento, Damianos teve o seu olhar cruzado com o de Nikandros do outro lado da sala e o kyros de Ios fez um gesto obsceno com os dedos que não dependia de um código de escrita ou de símbolos elaborados como os de Ancel para ser entendido.
"Essa peça é uma porra tão grande que chega a dar vontade de morrer. Onde Makedon estava com a cabeça?"
Houve as cenas alusivamente sexuais em que Laurent supostamente fodia com o seu escravo e Damen saía de uma portinhola tremendo de frio enquanto Laurent não conseguia se sentar no seu cavalinho de pau.
Depois, por algum motivo, quando Kastor deu uma tossida, cuspiu farinha e por último, quando o Regente tirou finalmente a máscara de monstro, revelando embaixo dela um homem já morto, Laurent e Ancel se puseram de pé, batendo palmas efusivamente.
"BRAVO! BRAVO!"
Makedon parecia muito orgulhoso de si mesmo e Damen apoiou a mão no rosto, atordoado e envergonhado.
Talvez houvesse faltado infância para Laurent e para Ancel. Talvez o tom picaresco do teatro itinerante de Akielos com o seu caráter controverso agradasse alguns veretianos. Ou, talvez, aquela palhaçada tivesse algum brilhantismo submerso que só a mente aguda de Laurent e de Ancel conseguiam enxergar. E Makedon também.
Os três, em graus diferentes, gostavam de baixaria. Damen passou novamente a mão pelo rosto quando Laurent voltou a se sentar:
"Mais de um ano de cortejo e você ainda me surpreende, Majestade de Vere..."
"Isso é ruim? Os meses que lutamos contra o meu tio e o seu irmão foram tristes. A nossa história foi importante, mas havia muitos perigos. Fico feliz por alguém conseguir levar algum humor para o passado..."
Damen ficou aliviado pela peça não abordar as mortes de Augustus e de Kastor, assim como por não reavivar a memória de quem eram os responsáveis por elas. O veretiano estava certo. Havia muita tristeza no passado.
Laurent convidou os atores para se sentarem à sua mesa. E Makedon mandou trazer uma garrafa bojuda de cerâmica com aguardente akielon e taças para todos.
"Ao rei de Vere!" — declarou Makedon, erguendo a sua taça no ar e incitando todos a acompanhá-lo.
"Você não suportava veretianos e, agora, parece ter se tornado um grande apoiador do rei de Vere!" — comentou Aktis.
"Laurent aguenta beber a griva sem frescuras; lutamos juntos; caçamos juntos e estamos comemorando juntos em Vere. Gosto mais desse moleque do que muitos homens idiotas e preguiçosos que já tive no meu exército..."
O moleque era o rei.
"Fica ao meu lado se eu beber?" — perguntou Laurent, erguendo as suas retinas circundadas de azul para Damen.
O akielon acariciou o cabelo do veretiano, bebendo um gole da sua aguardente por educação e a deixando de lado.
"Claro!"
A partir de então, Laurent bebeu uma taça da griva que ele ainda dizia ter gosto de lavagem e na segunda dose, estava fazendo o seu famoso empilhamento de copos com Makedon. Charls cantarolou uma canção acompanhado de Guillaime.
As piadas de Ancel se tornaram mais alusivas. Loyse e Paschal conversavam animadamente e Pallas estava aborrecido com Lazar por algum motivo velado.
"Bendita seja a vez em que Damianos de Akielos e Laurent de Vere se enroscaram. Podemos desfrutar de momentos como esse... Quanto tempo já faz?" — falou Makedon, empilhando os seus copos sem sucesso e com a voz enrolada.
"Mais de um ano..." — respondeu Damen com um largo sorriso, ajudando Laurent a empilhar as suas taças em uma torre firme.
"Esse rapazinho conseguiu segurar o mulherengo Damianos de Akielos... É a mente de uma serpente mesmo..."
"Mulherengo e homenrengo!" — declarou Guillaime do outro lado da sala — "As histórias de Akielos chegaram muitas vezes aos ouvidos dos mercadores de tecidos. É verdade que o rei montou um rebanho inteiro de mulheres vaskianas?"
"Não foi um rebanho. Algumas garotas apenas..."
"E que derrubou três guerreiros, finalizando a luta com os três em seu quarto...?"
Damen observou as manchas vermelhas no rosto de Guillaime narrando as suas aventuras de quando ainda era príncipe e inconsequente, sem visualizar ainda a dimensão real do desígnio que isso lhe trazia.
"É verdade..."
Pallas, parecendo ainda desprezar Lazar, que o fitava por sua vez com uma expressão pesarosa, disse:
"Houve a história também das duas nobres patranas e de um homem íntimo ao príncipe..."
Laurent parou de empilhar as taças e se manteve muito quieto.
"Helena e Janira eram os nomes das nobres, não?" — perguntou Nikandros com um sorriso enviesado.
"Você se lembra delas melhor do que eu..." — riu-se Damen.
"De fato, você deve ter sido um príncipe com muito entusiasmo, rei Damianos... Montou toda Akielos, antes de vir para Vere?" — disse Jord.
Laurent tomou mais um gole da aguardente de uma só vez.
"São muitas histórias da época em que eu era um príncipe irresponsável. Agora, estou em compromisso com Vere." — declarou Damen, enlaçando os seus dedos nos de Laurent, mas não obtendo uma resposta.
E, após Laurent tomar mais um cálice da griva sem respirar, a festa foi encerrada. Todos pareciam haver se divertido bastante e prometeram se reencontrar mais tarde na celebração real. Quando os convidados e atores foram embora, Laurent estava silencioso e com um tom fortemente rosado em suas faces.
Ele falou com a voz um tanto embargada:
"Vamos dar uma volta..."
(cut)
Damen passava a mão pela cintura de Laurent, que caminhava com passos trôpegos pelo jardim. Havia os caramanchões de metal rodeados por videiras e com assentos confortáveis. Sobre as lajotas, se estendia uma fonte com lírios e jarros com jasmins-manga.
Serviçais transitavam, carregando vasos filigranados de flores e bebidas para a festa que se daria no interior do Salão Principal. Havia o ruído de alguém afinando uma harpa e um homem, com um avental manchado, correu para dentro do palácio, empurrando um carrinho com doces.
Os cortesãos, quando passavam por Laurent, curvavam as suas cabeças com solenidade e respeito, mas alguns cochichavam, fitando Damen.
"Vamos nos sentar aqui." — determinou o veretiano e Damen reconheceria aquele lugar em qualquer circunstância. Havia sido o caramanchão em que Laurent ordenara que Ancel chupasse o pau do akielon enquanto ele era um escravo. Lady Vannes, lorde Berenger e Laurent estabeleceram friamente as condições do ato ali.
Damen respirou fundo com as lembranças ainda nítidas. Laurent permaneceu um tempo quieto, antes de, finalmente, falar:
"Você deveria odiar todas essas pessoas, Damianos. Você deveria me odiar..."
Damen assentiu, recordando-se da cruz pela qual passara no dia anterior no pátio de treinamento quando retornava com mariposas no estômago, ansioso por reencontrar Laurent. Ali, ele fora chicoteado a mando de Laurent. Ali, ele corria de volta para Laurent.
"Você deveria também me odiar, Laurent. Mas não odeia, assim como eu não te odeio. E eu também não odeio os outros..."
Era a assunção tácita de que se Damen era capaz de perdoar Laurent, perdoaria também os outros que foram cruéis com ele enquanto ele era tomado por um escravo. Damen perdoaria até mesmo Kastor, que se não fosse morto pela espada de Laurent, teria assassinado os dois sem remorso.
O rei de Vere tinha os seus olhos azuis baixos e as faces ainda rosadas quando murmurou:
"Claro. Você é o melhor homem que conheço, Damianos, e é um rei de verdade... Eu deveria chupar o seu pau aqui diante de todos como reparação pelo que fiz. Seria uma forma justa de aparar as arestas do passado, não é mesmo? Uma exibição pública do rei de Vere de joelhos pelo rei de Akielos. Uma comprovação do seu domínio sobre mim. Poderia gozar na minha cara se quisesse e me exibir assim no dia do meu aniversário, Damen... Que tal?"
"Pare!" — falou Damen com rispidez — "Não tenho o desejo de humilhá-lo e ainda que eu lhe guardasse rancor, isso não acalmaria o meu espírito. Só me amarraria ainda mais neste lugar escuro. Já nos perdoamos..."
Aparentemente, Arles não trazia um conjunto de recordações desagradáveis apenas para Damen, mas para Laurent também, que tinha os olhos sombrios e desfocados pela bebida. Estar lá era uma obrigação, não uma escolha como o mar de Ios ou o forte de Delpha.
"Certo! Esqueci de que não gosta de exibições públicas de paixão." — disse Laurent — "Nunca poderemos estar juntos num dos caramanchões dos jardins acoplados."
"Não, não poderemos. Não tenho vontade de compartilhar a nossa intimidade com pessoas de fora. E além do mais... não quero essas pessoas olhando para o meu corpo... E nem para o seu."
"Eu deixei os banhos de Ios nu ao seu lado..."
"A nudez lá não é um tabu. Mas aqui, sim..."
"Creio que devo tê-lo matado de vergonha hoje mais cedo, expondo a nossa intimidade diante de Nikandros e dos outros..."
"Fiquei bem sem graça lá dentro, Laurent. Por que, afinal, sempre menciona a nossa cama quando está com Nikandros?"
"Porque ele tem um desejo confuso por você."
Damen moveu bruscamente o seu rosto enquanto acompanhava distraidamente alguns flautistas que adentravam o Salão Principal, assoprando os seus instrumentos para testá-los.
"O que?!"
"Não que Nikandros o queira de fato, mas você, talvez, tenha sido o primeiro homem que ele amou..." — prosseguiu Laurent, não parecendo se incomodar com a surpresa estampada no rosto de Damen — "Uma recordação bela e distante. Talvez Nikandros tenha sentido algo mais forte em seu coração quando ele se distanciou de você porque foi servir no Encontro dos Reis. Talvez ele tenha se sentido aliviado e amargurado ao mesmo tempo por poder ir para longe. Daí vocês se reencontraram após dois anos inteiros afastados e ele pensou: Ah, superei Damianos finalmente. Posso ser o seu melhor amigo de novo. Posso servir ao meu futuro rei. Mas parte dele ainda o ama e acha que ninguém é bom o suficiente para você. É um cão fiel que morderá qualquer um que ferir Damianos de Akielos."
Damen moveu os olhos com surpresa ao ouvir as palavras de Laurent.
"Nikandros nunca sentiu desejo por mim! De onde tirou essa ideia?!"
"Conversamos bastante enquanto ele me ensinava as lutas corporais de Akielos durante o verão em Ios. Claro que ele não me confessou a verdade, mas foi fácil montar o cenário geral com as informações que obtive..."
"Mas Nikandros gosta de mulheres! Sempre as preferiu..."
"Isso, de fato, torna você ainda mais exclusivo, Damen. Por um acaso, foi ele que você levou para o seu quarto junto com as nobres patranas que mencionaram lá dentro, não foi...?"
Damen se surpreendeu pelo modo como Laurent se recordava dos detalhes proferidos na festa, a despeito da aguardente em seu sangue.
Os dois homens viram um grupo de serviçais passar apressado por eles e curvar a cabeça de um modo respeitoso. Um rapaz de cabelos castanhos com rosto bonito e carregando algumas garrafas de vinho remanchou um pouco, fitando os dois reis.
Damen olhava o sol passando pelas trepadeiras e roseiras e declarou, sem meandros:
"Tínhamos quinze anos na época. Eram duas nobres de Patras que foram residir em Akielos na época da guerra e não conseguíamos escolher qual das duas queríamos mais. Elas estavam flertando abertamente comigo e com Nikandros. Então, fomos para o meu quarto e fodemos os dois com elas..."
"Ah, sim. Houve isso também. Você não poderia desviar os olhos de uma mulher bonita, Damianos. Mas Nikandros, nesse dia, também não conseguiu desviar os olhos de você..."
Damen engoliu em seco.
"Estávamos bêbados demais a uma determinada altura. Helena e Janira dormiam em minha cama e eu e Nikandros nos beijamos perto do fogo..."
Laurent tinha os olhos com uma sombra que vinha das videiras sobre a sua cabeça.
"Mas Nikandros não deixaria o momento passar só com um beijo, não é mesmo? Mulheres e bebida... Tudo se misturando ao príncipe de Akielos como se fossem uma coisa só..."
Damen, subitamente, sentia-se muito desconfortável.
"Ele me masturbou e eu o masturbei. Gozamos juntos. Mas quando ele quis ir mais adiante, lembrei que éramos melhores amigos e que não fazia sentido algum aquilo..."
"Lembrou-se dessa informação somente depois da punheta, Damen...? Interessante... Nós também éramos amigos em Ravenel..."
Damianos tocou no rosto de Laurent com um gesto delicado, dizendo:
"Nunca fomos somente amigos. Eu queria você, Laurent. Era uma situação completamente diferente. Com quinze anos, eu ainda não costumava ficar com outros homens. Havia só uma profunda curiosidade..."
"Que romântico! Você e Nikandros foram os primeiros um do outro."
"Não fale assim, Laurent! Depois disso, Nikandros disse que estava tudo bem e que não se lembrava da maioria das coisas que fizemos. Três meses depois, ele foi enviado para o Encontro dos Reis e nunca mais houve nada entre nós. Eu nunca nutri esse tipo de sentimento por Nikandros. Ele é o meu amigo. Eu dormi com homens depois disso, mas vi Nikandros somente com mulheres. Ele parece gostar muito delas..."
"De fato, ele gosta. Ele olha para os peitos das criadas de Ios, parecendo uma criança com fome. Se tivessem dormido juntos, ele talvez se frustrasse. Não porque não fosse prazeroso, mas porque tornaria real a fantasia dele. Alguns homens precisam da fantasia para viverem ou para servirem..."
Damen acarinhou uma mecha do cabelo de Laurent, observando a luz do sol sobre ela. Os tons de dourado brigavam até se harmonizarem.
"Me sinto mal por ele agora... Como pode chegar a essa conclusão?"
"Observando. Assim como ele me observa para ter certeza de que sou digno de você. Dou a ele o que quer quando ele duvida da minha afeição. Detalhes sórdidos e românticos condizentes com um envolvimento real. Nada que supere as aventuras de Damianos de Akielos em diferentes camas, claro. Mas, no fundo, até acho que Nikandros simpatiza comigo..."
Damen moveu o seu rosto.
"Houve outras camas, mas nenhuma como a nossa, Laurent... Não há o que superar."
"Difícil de acreditar. Quantas foram?"
O akielon se manteve em silêncio, sentindo-se um pouco encurralado no caramanchão novamente.
"... Não consegue contar?"
"Não..."
"Certo."
"Por que quer saber dos detalhes das minhas conquistas antes de nós dois, Laurent? Isso te excita?"
"Não. Na verdade, evidencia um déficit perturbador da minha parte. Não posso lhe fazer frente. Aqui em Arles, nunca houve exploração adolescente com melhores amigos. Somente exploração."
Damen baixou o olhar, sabendo do lugar escuro e sombrio que vinham aquelas palavras. Ele ia tentar falar algo para apaziguar os ânimos, mas Laurent esfregou os olhos, dizendo:
"Acho que preciso descansar. Me leve para o meu quarto..."
"Consegue andar? Quer que eu te carregue...?"
Laurent riu sonoramente quando, após três tentativas sem sucesso de seguir por uma linha reta, Damen o ergueu sobre as costas enquanto ele envolvia o pescoço do akielon com os braços. As suas pernas circundaram também firmemente a cintura do outro homem. Alguns nobres e soldados fitaram com curiosidade os dois reis, movendo-se como um casal de namorados pelos corredores do palácio.
"Achei que não quisesse que eu carregasse você em público..." — falou Damen, sorrindo ao ter Laurent com o queixo apoiado em seu ombro.
"Em alguns aspectos, isso é melhor do que foder em um caramanchão. Aquele cortesão ali pareceu mais surpreso com isso do que com a vista de um homem enterrado em outro no jardim..."
"Trata-se de mexer com os ânimos da corte de Arles então?"
"Como costumo dizer, sinto prazer com as pequenas vitórias. Mas mais do que isso, quero que todos saibam que somos amantes. Tenho um prazer nada pequeno com esse fato..."
"Somos mais do que amantes, Laurent. Eu poderia levá-lo para o Quarto Real assim todos os dias da minha vida..."
Damianos sentiu o corpo de Laurent se tornar mais lânguido e a sua cabeça se afundar em seu pescoço, fazendo-lhe algumas cócegas suaves.
"Você é o meu primeiro amante, Damen. E eu escolheria você em qualquer circunstância. Eu gostaria muito que pudesse sempre me levar assim para todos os nossos quartos em Vere ou em Akielos. Nunca pensei que pudesse ser tão feliz..."
Damen tinha um sorriso bobo em seu rosto quando três cortesãos se viraram em seus calcanhares para fitar o casal veretiano-akielon que seguia pelos corredores do palácio, embalando-se como adolescentes.
O conselheiro Mathe, que deixava um dos saguões com as suas roupas suntuosas e o medalhão do Conselho, parou um instante para contemplar os dois homens juntos, mas, após sorrir, deu-lhes as costas, voltando-se para os arcos de pedra que levavam ao jardim.
(cut)
Bastou que Damen fechasse a porta dos aposentos reais atrás de si e que Laurent fosse posto no chão para que o veretiano imprensasse o amante na parede, beijando-o com lábios ávidos.
Depois, ele deslizou a mão pelo peito, barriga e virilha do akielon. Quando Laurent alcançou o membro de Damen, uma mão oliva envolveu o seu pulso, dizendo com firmeza:
"Achei que quisesse descansar..."
"Posso descansar depois que você me foder..."
"Você está um pouco embriagado, Laurent. Oscilando entre doçura e agressividade. Não gosto de fazer nada com você nesse estado..."
"Não gosta de mim assim? Achei que gostasse de me ver perdendo o controle..."
"Podemos combinar um dia de bebermos juntos e deixar as coisas acontecerem se você quiser muito. Mas não vai ser hoje."
Damen se manteve recostado à parede, observando Laurent, mais baixo, enquanto segurava ainda o seu pulso com o bracelete dourado.
Depois de um tempo, Damen afrouxou o aperto e viu Laurent se aproximar de sua cama, que já havia sido arrumada pelos serviçais. Ele se deitou sobre ela com a cabeça apoiada no antebraço e havia algo de infantil na posição fetal que ocupou. Após um tempo, ele murmurou com um fio de voz:
"Foi dúbio no caramanchão quando Ancel o chupou. Você permaneceu me olhando e eu olhando para você até que, no final, eu fugi. Eu dei instruções a Ancel e só depois disso, você começou a desfrutar da boca dele. Eu não devia tê-lo forçado a passar por aquilo, Damen. No fim de tudo, eu fiquei com medo de você depois... Não, de você não... De mim mesmo."
"Eu também senti medo, Laurent. E raiva. Muita raiva."
Damen se aproximou de Laurent e fez um carinho em seu rosto enquanto o veretiano pestanejava de sono. O rei de Vere disse:
"Em Marlas, eu também agi com raiva. E com medo. Eu trouxe Isander para o meu lado em parte para te fazer ciúme; em parte para tentar substituir a sua presença. Mas eu falhei..."
"Não, não falhou. Eu senti, de fato, ciúme..."
"E você sentiu a minha falta. Você disse isso e eu percebi naquele instante que eu era somente um garoto tentando fazer jogos de poder com um homem adulto. Mas você, não. Você era um rei que sabia o que queria e sabia expressar o que desejava... As minhas tentativas de manter você afastado ou cativo nunca funcionaram, Damen..."
"Não, não funcionaram. E tampouco tudo o que eu conheci antes funcionou com você, Laurent. Você me fragiliza também... E eu gosto disso."
Damen sorriu, vendo o sono embalar Laurent e se curvou para lhe depositar um beijo carinhoso na maçã do rosto. Os cílios claros de Laurent se uniram e o rapaz adormeceu.
Damen alcançou, então, uma coberta e cobriu o corpo do rapaz. Antes, no entanto, removeu-lhe as botas lustrosas, deixando-as em um canto e retirou, cuidadosamente, a sua tiara.
Sozinho no quarto, Damen se sentou na poltrona reclinável do rei de Vere, após folhear alguns dos seus livros empilhados na cornija da lareira.
Havia exemplares em akielon, obras sobre a cultura e sociedade de Patras e de Vask, mas Damen optou pelo livro em veretiano de um pensador bem-humorado do qual Laurent gostava bastante e apontava como uma das mentes mais brilhantes da atualidade.
O autor questionava as estruturas sociais vigentes, pontuando as suas frases com uma ironia fluida que desembocava numa narrativa que se fixava na memória através do humor. Damen se acomodou próximo à sacada do quarto e se pôs a ler.
Talvez Laurent tivesse razão e algum humor fosse bom de ser acrescentado em suas histórias mesmo. Havia altos e baixos memoráveis no relacionamento dos dois reis, como na vez em Marlas, que após terem se deparado com a aldeia destruída e com cidadãos queimados vivos dentro de suas casas, o clima se tornara insustentável. A situação perturbara Damen num nível muito profundo e, depois de falar com os poucos sobreviventes do vilarejo e ser apontado como o mandante daquela atrocidade, ele se isolou próximo a um toco de árvore.
Horas antes, ele e Laurent haviam discutido também nas ruínas e as dores se sobrepunham, empilhando-se como pedras suscetíveis a desmoronarem. Tudo parecia estar fora de controle e Theomedes, se estivesse vivo, lamentaria ter um filho que estava deixando o seu reino e o seu nome sangrando até a morte.
Quando Damianos percebeu, na ocasião, que Laurent se aproximava do seu deliberado exílio, olhou-o não do modo que não conseguia mais evitar, mas com distanciamento. Damen, subitamente, sentia-se sozinho sob aquele céu pálido com estrelas desaparecendo e que anunciava uma nova alvorada. Passando a mão pelos olhos, o akielon perguntou de um modo seco:
"O que quer aqui, Laurent?"
"Eu só queria saber como você estava..."
A pergunta arrancou uma risada debochada de Damen como se levantasse a casca de alguma ferida. Somente algumas horas antes, Laurent o relembrara que ele fora o responsável pela morte de Augustus e isso cavava uma lesão entre os dois que nunca sararia.
"Por que se importa?" — irritara-se Damen com o veretiano — "A minha tristeza paga as minhas dívidas para com você? Eu matei o seu irmão. Tanto mais eu esteja pior, melhor para você, não?"
A resposta pareceu pegar Laurent de surpresa. Ele empalideceu e crispou os seus lábios, dizendo:
"Sim..."
"Então, pode comemorar porque hoje estou particularmente destruído. Me sinto fraco e impotente. Não vai durar muito, mas no momento é assim que as coisas são. Você tem o que sempre quis. A minha derrota. Uma pequena vitória, não? Agora, volte lá para dentro e faça o seu dever como futuro rei. E me deixe aqui sozinho, me mortificando pelo meu..."
Laurent se deteve ainda por quase um minuto inteiro, antes de dar as costas e partir. As coisas entre ele e Damen nessa altura pareciam definitivamente arruinadas, atingindo o ocaso com um ruído estrondoso de perda.
No Quarto Real, Damen virou a página do livro que lia, detendo-se em uma linha que o autor dissertava sobre mudanças e sobre a imperceptibilidade delas. Havia ironia no texto e o akielon riu. Laurent moveu a posição em seu sono.
Sim, há pouco mais de um ano, parecia impossível uma transformação na tensão entre Damen e Laurent, mas a chave, finalmente, girara em Karthas. Em Karthas, eles estabeleceram a paz.
Após isso, houvera aquela vez, então, que a comitiva akielon e veretiana seguia para o Encontro dos Reis. A mudança era perceptível.
Laurent usava um quíton, expondo seus braços, pernas, clavícula e coxas nuas. O calor não era feito para a sua constituição. Um tom rosado afogueava a sua pele branca e surgia alguns pontos de brotoeja em seu peito e pescoço. Havia manchas sob os seus olhos e ele parecia cansado sob o forte sol de Akielos. No entanto, em nenhum momento, o jovem maldisse a sua situação.
Quando escureceu e os homens montaram acampamento, Laurent se ausentou para tomar um banho no riacho. Damen se mantinha descansando em uma encosta, olhando o rio. Havia uma fogueira um pouco distante e os vaga-lumes subiam sobre as águas.
Laurent, retornando do banho improvisado, se sentou, então, ao lado do akielon. Com os cabelos molhados e o quíton úmido como se o tivesse vestido sem enxugar o corpo, ele murmurou, vendo o brilho dos insetos acendendo e apagando sobre o rio.
"Isso é bonito..."
Havia uma languidez preguiçosa naqueles dias. Akielos era quente e trazia uma nostalgia de fim de tarde que remetia a passados, infâncias, histórias que os homens não sabiam se haviam vivido mesmo nessa vida ou em outra. Fenômenos que não se tinha conhecimento se era fruto de uma imaginação humana ou gerados na infinitude de um deus distante.
Muitos soldados contavam histórias ao redor do fogo, rindo e relaxando. E Damen se mantinha ali, contemplando o descer da noite.
"Meu pai costumava me levar para cavalgar e, às vezes, conversávamos em fins de tarde como esse, olhando o rio. Theomedes era um homem que gostava de momentos calmos assim quando ele não estava com a cabeça concentrada na guerra. Acho que ele gostaria de você..."
Laurent, enxugando o seu cabelo com uma toalha, ruborizou um pouco na luz mortiça e disse:
"Mesmo eu sendo um veretiano...?"
"Sim. No início, ele não gostaria que eu cortejasse um príncipe de Vere e, talvez, se mostrasse tanto ou mais contrariado do que o seu irmão. Mas quando o conhecesse melhor, você o dobraria como dobrou Makedon, Laurent. Ele gostaria do modo como você fala a verdade. Gostaria da sua força e da sua lealdade. Do seu senso de justiça. Gostaria do modo como lê muitos livros e me lembraria a cada instante que isso é o que um rei deve fazer. No fim, quando você mostrasse a sua doçura, ele estaria fascinado por você e empolgado com a ideia de ganhar um outro filho. Ele o convidaria para passar longas temporadas em Akielos, praticando o lançamento de adagas e cavalgando com a comitiva dele perto das praias..."
Laurent sacudiu o rosto.
"O rei Theomedes era um amante da espada, Damen. Ele tinha a todos os veretianos como covardes e mentirosos e após noventa anos, tomou Delfeur de Vere. Assim como o meu pai que detestava akielons e se referia a todos de Akielos como bárbaros e sem cultura. As suas crenças eram alinhadas às do seu pai, Damen, e a opinião dele era valiosa para você. Theomedes me olharia com desprezo e ordenaria que você me esquecesse. Ele lhe daria um escravo loiro e que soubesse veretiano para você montar quando estivesse aborrecido, a fim de ajudá-lo a superar um arroubo juvenil inconsequente... E eu seria proibido de pisar em Ios até o fim dos meus dias."
As palavras de Laurent eram duras porque revelavam a verdade. Damen, após alguns segundos, insistiu:
"Eu optaria por ir, então, contra o meu pai. E eu não ia querer uma cópia de você, Laurent. Eu não ia tomar um escravo em seu lugar. Eu me oporia a Theomedes... e tentaria fazê-lo enxergar o mundo como ele é então..." — retrucou Damen, hesitante ao escolher as palavras porque se referia ao seu próprio pai.
Ele, finalmente, cumpria o destino das gerações que contestavam as anteriores. Que enxergavam o mundo com os seus próprios filtros e se voltavam para os seus antepassados, tentando torná-los melhores.
Laurent ruborizou violentamente, enxugando ainda o seu cabelo. Com a cabeça escondida da luz mortiça, ele disse com uma timidez evidente:
"Poderíamos ser pacientes, então, e tentar uma abordagem menos direta. Creio que pudéssemos estabelecer um plano para convencer Theomedes..."
Damen sorriu, acariciando as costas nuas do veretiano.
"Sim, mas ainda prefiro acreditar que o meu pai titubearia ao conhecer você. Gosto mais dessa versão dos fatos. Talvez ele tenha mudado onde quer que ele se encontre agora, Laurent. Talvez, mudasse se tivesse mais tempo..."
Laurent respirou fundo e apoiou a cabeça no ombro de Damen. Os vaga-lumes se moviam agora sobre o matagal.
"Acha que Augustus e Theomedes poderiam ter ficado do nosso lado então? Poderíamos ter dado fim à guerra entre Vere e Akielos?"
"Sim. E talvez eles estejam do nosso lado agora, Laurent. De algum modo..."
O veretiano se manteve em silêncio e deixou que Damen envolvesse os seus ombros. Abraçados, eles fitaram prolongadamente o rio refletindo os últimos raios alaranjados do dia.
"Nunca pensei que seria cortejado..." — declarou Laurent com uma confissão resoluta e verdadeira.
Damen se aproximou, beijando a fronte do rapaz em seus braços com lábios suaves.
"Por quê? Houve sempre muitos interessados pelo que ouvi dizer..."
"Eu só achei que seria sempre eu e... Obrigado por isso, Damianos..." — respondeu Laurent, fungando e se utilizando do anoitecer para esconder o seu rosto — "Os últimos dias foram os melhores..."
Damen fitou os contornos do rosto do rapaz, levando os dedos às suas costas. Seu rosto enrubesceu.
"Ei, não acabou ainda, Laurent. Faremos a troca de Jokaste com o Regente e teremos a nossa chance. Vamos sempre poder ter dias como esses quando isso tudo acabar. Eu prometo... O seu tio não vai poder encostar em nós dois no Encontro dos Reis."
Laurent se manteve muito rígido por alguns instantes. Depois, ele abraçou Damen, pedindo que ele deitasse a cabeça em seu colo. Com dedos delicados, Laurent acariciou os cabelos escuros do akielon e por um momento, pareceu que ia dizer algo. Seus lábios se moveram brevemente até serem selados. Por fim, ele declarou:
"Não, o meu tio não pode encostar em nós dois..."
Damen permaneceu com a cabeça apoiada no colo de Laurent por um longo tempo e ele sentiu a doçura daqueles dedos se movendo por seu rosto como se quisessem memorizá-lo. Depois, ele beijou as palmas das mãos de Laurent.
Quando Damen revisitou esse momento tempos depois, sabendo que Laurent a essa altura já decidira se entregar para o Regente, disposto a sacrificar a sua própria vida para protegê-lo, ele sentiu o seu peito confranger.
Aquele momento era um dos auges do seu relacionamento com Laurent. Não havia ódio. Nem rancor. Nem dor. Os dois estavam esvaziados daquela massa escura porque haviam se perdoado e, agora, eram homens livres existindo dentro de si mesmos. Suas almas se acarinhavam.
Tudo do que precisavam era de tempo para o seu amor se desenvolver. Precisavam de um espaço ilimitado, sem tantos riscos; sem tantas lutas; sem artimanhas e traições. Um espaço onde pudessem ser jovens amantes que descobriam o amor enquanto fitavam, absortos, um horizonte.
Damen, no Quarto Real, deu um breve sorriso ao finalizar uma passagem do livro sobre o qual se debruçava e virou a página, iniciando um novo capítulo.
Da varanda do suntuoso aposento, Damen ouvia o ruído de rodas pesadas de carroças acarreadas por bois atravessando pátios de pedra. E escutava também o som de rodas raiadas sendo puxadas por cavalos, sustentando sobre seus mecanismos, carruagens e liteiras. Um homem gritava instruções a outro e houve durante um longo tempo o som de uma música entoada por uma trompa, avisando a chegada da comitiva de alguma figura ilustre que adentrava a entrada principal.
Damianos ergueu os olhos da página da obra que retinha a sua atenção quando ouviu, horas depois, batidas suaves na porta do quarto. Isander entrou com os seus olhos de cervo escuros e com o treinamento akielon ainda introjetado, curvou-se no chão, pondo as suas mãos espalmadas diante da cabeça abaixada.
"Exaltado!"
"Levante-se, Isander. Akielos não é mais uma nação escravocrata e o rei de Vere está trabalhando arduamente para acabar com a escravidão aqui também..."
"Sim..." — murmurou Isander, ruborizando um pouco.
Ele usava roupas veretianas que cobriam bem o seu corpo e a sua pele oliva. Seus cabelos escuros haviam sido cortados um pouco e Damen constatou que ele havia se vestido bem para a festa de Laurent — "Lady Vannes pede a presença de Vossa Majestade para tratar de assuntos relacionados à Vask..."
Damianos fitou Laurent adormecido e coberto com a sua colcha. Ele parecia ainda derrubado pela aguardente akielon.
"O rei está descansando. Lady Vannes não pode esperar?"
Isander fez um aceno de cabeça e se mantinha com o seu olhar baixo.
"Nesse caso, Exaltado... Lady Vannes pediu que o senhor viesse. Trata-se de uma questão diplomática que demanda a presença do rei de Vere ou do rei de Akielos..."
Damen meneou a cabeça e indagou o serviçal, sem meandros:
"Sabe do que se trata, Isander?"
"A comitiva de Vask chegou. A imperatriz e a sua consorte precisam ser recebidas e o aguardam no jardim..."
Damen fechou o livro a contragosto. Após semanas de cavalgada, ele estava apreciando aquele momento de calmaria em que, isolados do mundo, ele relaxava lendo a obra interessante de um pensador enquanto Laurent adormecia ao seu lado. Ele não queria interagir com a política de Arles, sem a presença poderosa, inteligente e hábil de Laurent. Mas o rei de Vere dormia com uma doçura inimaginável para aquele mundo de manobras políticas e Damen não queria perturbá-lo.
"Cuide de Laurent, Isander."
Damen sabia que o akielon que agora atuava como um serviçal, trabalhando diretamente junto ao rei, era alguém da confiança de Laurent. O grupo seleto de serviçais da realeza cuidava da sua alimentação, das suas roupas e banhos. Eles traziam mensagens e levavam mensagens pessoais da nobreza. Muitas vezes, eles participavam das reuniões do Conselho, fazendo um voto de sigilo dos assuntos entreouvidos nesses encontros. Além disso, Damen sabia desde Marlas que Isander venerava Laurent como um bom amo. Ele não era uma ameaça.
Damianos deixou o quarto, rumando para o jardim central. Deparou-se ao alcançá-lo com um grupo próximo à fonte. Nele, encontravam-se lady Vannes acompanhada de duas vaskianas. Foi fácil identificar a imperatriz Vishkar.
Ela era uma mulher de pouco mais de trinta anos e tinha a pele pálida e macia como a de uma garota de quinze. Seus cabelos eram escuros, lisos e cortados na altura do queixo como os de um rapaz da realeza. A imperatriz usava uma túnica simples de lã crua por cima da roupa de montaria e o medalhão real de Vask pendia em seu pescoço. Essa era a sua única joia.
Curvando-se com as palmas das mãos unidas em um cumprimento típico de Vask, Damen achou a imperatriz bonita e sentiu que a realeza exalava de cada célula do seu corpo. O seu estilo estava preso entre o de um cavalariço e o de um nobre que aprendia a usar o arco de caça. O seu físico era pequeno e de formas retas como o de um garoto. Mas ela era uma imperatriz. A mulher mais poderosa de Vask.
"É uma honra conhecê-lo, Damianos de Akielos... Quando o rei Theomedes visitou Vask, eu ainda era uma criança e os assuntos políticos foram tratados todos com a minha mãe, mas me lembro dele nitidamente. Você se parece muito com o seu pai." — disse Vishkar com um veretiano polido.
"Sinto-me igualmente honrado em conhecer a líder do império vaskiano..."— respondeu Damen, imitando o gesto com solenidade — "Meu pai nutria grande estima pela imperatriz Betthany, Vossa Majestade Imperial..."
Ao erguer a cabeça, o olhar de Damen se deteve na figura atrás de Vishkar utilizando um capuz e uma capa que a mantinha discreta.
"O rei de Vere não pode vir?" — indagou Lady Vannes, que era a embaixadora de Vere em Vask e lidava com muitas das questões políticas envolvendo as duas nações.
"Infelizmente. Queiram me perdoar. Esta não é a minha corte. É a corte do rei Laurent. Ele teve um pequeno contratempo, mas estará presente no jantar. Não é o meu palácio e aqui sou também um visitante, mas acho que ele lhes diria para se sentirem em casa e desfrutarem da melhor hospitalidade de Arles..."
Vishkar sorriu com os seus olhos contornados de kajal, observando por alguns segundos o rosto de Damen. Uma íris dela era cinzenta como o oceano em um dia nublado e a outra, cor de âmbar como o sol da tarde. A heterocromia em Akielos era muito rara, mas quando alguém vinha a tê-la, os cidadãos diziam que dois deuses sopraram ao mesmo tempo dentro da criança no dia em que ela veio ao mundo. Damen julgou que, de alguma forma, o olho mais claro da imperatriz a fazia parecer uma pessoa parcialmente cega.
"É algo belo de se ver um rei cuidando de outro rei..." — declarou Vishkar com um sorriso jovial.
"Cuidamos um do outro, Vossa Majestade Imperial. Akielos e Vere são nações-irmãs e agimos como tal, mas na maioria das vezes, Laurent é um homem bastante independente e não precisa dos meus cuidados e nem dos de ninguém..."
"Exceto quando é levado a julgamento pelo golpe de um parente, assim como o rei legítimo de Akielos, certo, Exaltado...?"
"Sim, a traição familiar nos uniu. Como dizem, não se escolhe um parente, mas um amigo e um amante, sim..."
"Entendo..."
Nesse instante, a imperatriz fez um gesto para que a figura atrás dela se apresentasse. Damen viu a vaskiana oculta remover o capuz, antes de fazer o cumprimento com as mãos unidas e deixar que a sua capa de viagem se abrisse.
Damianos sentiu em si com um impacto toda a beleza e toda a juventude da mulher que ele tinha diante dos seus olhos. O cabelo da vaskiana era tão loiro que chegava a ter uma tonalidade esbranquiçada e algumas mechas, presas em um trançado, caiam soltas pelas costas em madeixas macias e compridas. A sua cintura era estreita e estava à mostra circundada por uma joia finíssima que era presa ao seu umbigo em um aro. A jovem usava um bustiê de seda dourada e saias com véus, assim como joias em seus braços, pescoço e tornozelos.
Lady Vannes olhou para o interior do decote profundo de Pari, parecendo deslumbrada também e gaguejou ao anunciar a visitante:
"Esta é a nova esposa da imperatriz Vishkar, Pari de Skarva."
A jovem, sem baixar o olhar, entoou com uma voz melodiosa em veretiano com forte sotaque vaskiano:
"Majestade..."
O olhar de Damianos desceu pelo corpo da jovem, antes de desviá-lo e se concentrar em seu rosto para responder ao cumprimento. Chegava a ser constrangedora a beleza de Pari, pois do momento em que ela removeu o capuz, parecia sugar toda a atenção ao seu redor. Alguns cortesãos a olhavam, fascinados. Serviçais cochichavam com o olhar fixo na jovem e alguns soldados estavam com as bocas escancaradas.
Em muitos aspectos, Damen chegou a achar a beleza de Pari diabólica. Havia selvageria em sua imagem realçada pelos olhos claros contornados de preto e pelos riscos escuros nas faces, tais quais as mulheres dos clãs faziam. A seda parecia somente um engodo para que a vaskiana parecesse civilizada.
Lady Vannes parecia tentar reencontrar as palavras.
"Bem, eu as acompanharei até a cama... Até os quartos..."
Vishkar sorriu, olhando os caramanchões ao redor.
"Achei que chegaríamos aqui e nos depararíamos com uma demonstração pública da paixão veretiana..."
"O rei Laurent não incentiva esses costumes, Sua Majestade Imperial..." — declarou Vannes.
"Ah, sim... Esse era um costume da corte do Regente, o parente que detestava homens e mulheres e só gostava de crianças..." — disse a imperatriz, estreitando os seus olhos — "Vask pode acreditar, então, que o jovem rei de Vere é um governante melhor?"
Damen julgou ver Pari dar um sorriso enviesado e breve para Vishkar. Ele não gostou disso.
"Laurent é o melhor!" — antecipou-se Damen, antes que pudesse se refrear — "Laurent não concordava com as atitudes do tio e foi perseguido justamente por se opor a ele... Laurent é o melhor homem para governar Vere." — e, marcando as suas palavras, Damen acrescentou, pouco se fodendo com o fato de ele ser um jovem rei falando com a imperatriz de Vask — "E esta é a casa dele!"
Vishkar assentiu, movendo a sua cabeça com uma renovada doçura que Damen achou leviana.
"Sim. Muitos boatos chegaram à Vask dos eventos surpreendentes de dois anos atrás. Todos culminando, claro, com a aliança de Akielos e de Vere. No fim da minha estadia, espero poder saber melhor quais são os boatos verdadeiros e os mentirosos..." — declarou Vishkar, demorando deliberadamente o seu olhar bicolor no bracelete de ouro de Damen.
Pari soltou uma risada sonora e Damen julgou que rir fora de hora não deveria ser um costume estrangeiro. O que ela queria? Provocá-lo?
Damianos se recordou, então, de Laurent lhe alertando de como os governantes de Vask e de Patras iam testá-los como novos reis, assim como a Guarda Real testava os novos soldados, a fim de lhes comprovar a coragem, a confiança e a lealdade.
"Sua Majestade Imperial poderá se certificar de tudo com os próprios olhos e ouvidos. Agora, Lady Vannes se encarregará de tudo o que precisarem..." — falou o akielon, sentindo o olhar ininterrupto de Pari sobre si. A jovem sorria e meneava o rosto como uma guerreira fitando um corpo em movimento.
"Agradeço a sua generosidade, Exaltado. Estou feliz por poder visitar Vere e espero que o rei Laurent aprecie o presente enviado por Vask. Espero que ele não tenha desenvolvido ojeriza pelos próprios costumes veretianos. Seria um conflito político delicado a recusa de um presente para uma mulher vaskiana como eu..." — declarou Vishkar com uma mão teatral espalmada no peito e as sobrancelhas erguidas.
Havia uma petulância nobre nela. Damen fitou o rosto de Vishkar, sem entender o teor das suas palavras. Sentia ainda o olhar de Pari sobre si. Foi Lady Vannes que, finalmente, encerrou o momento, instaurando formalidades e levando a imperatriz e a sua consorte para dentro do palácio.
Quando as três mulheres cruzaram o arco de pedra da entrada, passaram por Lazar, Pallas e Nikandros, que estavam já vestindo roupas alinhadas para o jantar. Damen observou um movimento engraçado de três homens, sincronicamente, virando em seus calcanhares para fitarem Pari. Damianos se recordou de Laurent naquele mesmo jardim, mais cedo, dizendo que o kyros de Ios fitava os peitos das criadas, parecendo uma criança com fome.
Lazar, para quem o sexo entre homens e mulheres era um tabu, tinha manchas vermelhas em seu rosto. Nikandros parecia confuso feito um jovem de quinze anos, o que era bem atípico, pois ele era um homem com controle das próprias emoções. E Pallas chegara a deixar cair a sua faca akielon ruidosamente no chão.
Quando a jovem vaskiana, ao lado da imperatriz Vishkar, virou-se a fim de observar maliciosamente Nikandros, Damen teve a certeza de que havia novos animais perigosos a solta na arena de Arles. Passado o momento, Lazar pareceu muito aborrecido com algo, batendo no braço de Pallas e saindo acabrunhado para o Salão Principal.
Damianos deixou o jardim então. Ao retornar para o Quarto Real, ele se deparou com Laurent já desperto, sentado sobre a cama, calçando as suas botas enquanto Isander mantinha os seus olhos de cervo baixos e uma expressão pesarosa em seu rosto. O veretiano dizia:
"...Você tem a liberdade, Isander. Pode foder com ela se assim o desejar..."
Damen se deteve, fechando a porta atrás de si e olhando de Laurent para Isander.
"Majestade..."
"Você a quer, Isander. Pode querê-la. É um serviçal, não mais um escravo."
Laurent, displicentemente, erguia-se agora, batendo duas vezes o seu pé no chão para acomodar melhor os calçados.
Isander, com os seus olhos escuros e cabisbaixos, foi dispensado e Damianos olhou com estranheza para Laurent e novamente para Isander indo embora.
"O que está acontecendo?"
Laurent respirou fundo e voltou a se sentar na cama com as pernas cruzadas e o olhar impessoal.
"Isander está com raiva de mim, mas não sabe como expressar isso sem ser com um olhar que beira o choro. Os meus serviçais são livres agora, mas Isander não sabe lidar com essa mudança. Ele foi criado em Akielos para servir na mesa e na cama de um amo. Mas só me serve na mesa e tem o vigor dos vinte anos. Naturalmente, está sofrendo porque deseja montar alguém..."
Damianos se deteve, observando Laurent.
"Isander está tentando se insinuar para você?"
Laurent revirou os olhos nas órbitas.
"Isander foi um escravo criado em Akielos. Não é como os escravos de estimação de Vere. Você sabe disso melhor do que ninguém. Ele nunca insistiria, sendo que os termos dos serviços dele já foram estabelecidos em Marlas. Recentemente, no entanto, soube que ele tem sentido atração por uma escrava do séquito de um dos conselheiros."
Damen arqueou as sobrancelhas.
"Ele gosta de mulheres?"
"Às vezes, quando as deseja..."
"Como você tem tempo de governar uma nação e saber dos mexericos dos serviçais, Laurent?"
"Isander cuida do meu banho, das refeições e me ajuda a me vestir de vez em quando. Precisamos conversar sobre algo."
"Eu achei que o sexo entre homens e mulheres fosse um tabu em Vere."
"Isander é akielon, Damianos. E a serviçal é patrana. Os escravos sempre gozaram dessa liberdade étnica mais do que a corte de Vere gostaria."
"E você está persuadindo Isander a dormir com essa escrava?"
"Não o estou persuadindo. Só o libertando mais uma vez. Ancel estava certo, Damen. Acabar com a escravidão não é só um movimento externo ou assinar um documento de libertação. Existem correntes e um conjunto de regras nas cabeças dos escravos que são mais difíceis de serem removidos do que as leis. Um escravo de Akielos é treinado para ser fiel ao seu amo, para proporcionar prazer. Não para senti-lo. Isander não consegue usufruir do seu poder que é desejar por conta própria, sem remoer culpa. É um mundo novo para ele também. O seu condicionamento está brigando com o desejo de um homem de vinte anos. Ele preferiria que eu o proibisse. Ou que eu o mandasse dormir com essa jovem..."
Damianos permaneceu um tempo absorvendo e refletindo sobre as palavras de Laurent.
"E o que você vai fazer?"
"Em algum momento, creio que, pelo bem dele, terei que ordená-lo ou proibi-lo. Não posso conviver com o mau-humor do meu melhor serviçal e vê-lo se torturando... Ele deseja o meu comando."
"Achei que Isander fosse apaixonado por você..."
"Ele é. De um modo fantasioso e inacessível desde que o recusei em Marlas, mas ele nunca tentaria algo que não estivesse em nosso contrato. Isander gosta muito de um tipo de mulheres: loiras e pequenas. E de homens fortes e intensos. Mas gosta sobretudo da fantasia. Tenho aprendido muito com ele. Onde esteve, Damianos?"
Damen respondeu, então, retornando para a cadeira reclinável diante da sacada. O sol começava a se pôr e havia uma brisa suave com o cheiro delicioso de flores.
"Lady Vannes mandou chamá-lo, mas você estava dormindo. Ela me pediu para eu ir em seu lugar por questões diplomáticas. A imperatriz de Vask chegou há pouco em Arles..."
Laurent se levantou da cama e se aproximou do lugar em que Damen estava. Quando Damianos o puxou para que ele se sentasse em seu colo, assim como lorde Berenger fizera com Ancel na festa mais cedo, o veretiano não protestou.
"O que achou dela?" — perguntou Laurent, se aninhando contra o peito de Damen.
"Achei-a perigosa. É uma soberana que se sente suficientemente confortável e confiante em sua própria pele. Uma leoparda. Ela não tem medo de um confronto direto, mas também joga com os gestos e com as palavras..."
"Lamento pela aguardente com gosto se lavagem de Makedon ter me derrubado. Mas estarei inteiro no jantar..."
"Está se sentindo melhor?" — perguntou Damen, acariciando uma mecha do cabelo de Laurent.
"Sim. Falei algo que não deveria enquanto estava bêbado?"
"Milhares de coisas. Mas só me lembrarei das palavras adoráveis como sempre..."
Laurent envolveu o pescoço de Damen com os seus braços, fitando o sol começar a descer sonolento sobre o horizonte alaranjado recortado por plátanos.
"Quem estava com a imperatriz?"
"A nova esposa, Pari de Skarva."
Laurent se manteve um tempo em silêncio, sentindo o braço de Damen em sua cintura.
"E como ela é?"
"Tão perigosa quanto a sua senhora. Vamos nos manter atentos hoje à noite..."
Laurent hesitou por um segundo, antes de acariciar os cabelos escuros de Damianos.
"Lady Vannes disse que existem muitos boatos distorcidos sobre a união de Vere e de Akielos sendo espalhados por Vask e por Patras. Tenho pensado muito sobre essa questão."
"A imperatriz falou sobre isso. Quem desperdiça, afinal, tanta energia para inventar histórias contra nós?"
"Você acha que o Regente e Kastor não contavam com apoiadores iguais a eles? Os dois não se fizeram sozinhos e após irem, deixaram algumas lacraias se movendo ainda em seu encalço sobre a terra..."
Damen observou, então, o rosto de Laurent, colocando uma mecha atrás da orelha do veretiano.
"Há algo de novo nas mentiras? Com quais delas, de fato, precisamos nos preocupar?"
Laurent ficou com o corpo subitamente muito rígido. Os seus olhos se estreitaram e as suas sobrancelhas se contraíram. Uma sombra pareceu perpassar por suas retinas circundadas de azul.
"Com a mentira de que você já me fodia quando lutou em Marlas contra Augustus. Que por isso vocês dois se enfrentaram e que o meu irmão queria defender a minha honra. E que nós dois nos mancomunamos para derrubar o meu pai e Augustus, assim como o Regente, anos mais tarde, até que Kastor descobriu o nosso plano secreto de unir Vere a Akielos. Você seria o responsável pelo que houve com Theomedes..."
Damen tinha os olhos arregalados em suas órbitas, parecendo que havia levado um soco em seu queixo.
"Mas você era uma criança quando eu lutei contra o seu irmão em Marlas! Não nos conhecíamos naquela época e você amava Augustus. Ele era o seu irmão! E eu amava o meu pai!"
Laurent assentiu.
"A sordidez faz parte da fofoca, meu ingênuo Damianos. Há um segundo boato tão ruim quanto este..." — o rapaz hesitou — "Algumas pessoas desconfiam do tempo em que você foi mantido como escravo aqui em Arles. Há o boato de que eu teria seduzido o Regente para derrubá-lo e que seduzi você também ao mesmo tempo para..."
"Pare!" — determinou Damen rispidamente, sentindo-se enojado — "Chega, Laurent! Eu não quero ouvir... São atrocidades sem sentido inventadas contra os sobreviventes dessa história. Nós dois fomos injustiçados por Kastor e pelo Regente e não merecemos isso... Existe alguma história em que não parecemos dois monstros?"
"Poucas, mas uma delas diz que o nosso relacionamento é uma grande mentira para que Vere e Akielos se mantenham unidas. Que não compartilhamos da mesma cama e que é tudo uma grande farsa para enfraquecer o poder de Patras e do império de Vask... Na verdade, essa história oscila com uma versão em que nós dois nos odiaríamos ou eu o odiaria, mas fingiria que não. Ou você me odiaria, mas me suportaria em sua cama por uma questão política. Percebe agora por que prefiro a peça do teatro itinerante de Makedon? Pelo menos, ela contava a verdade..."
Damen sacudiu o rosto.
"É por causa de boatos assim que Vere manteve por tanto tempo os caramanchões...? Para atestar a paixão entre um casal e afastar os mexericos?"
"Uma boa foda comprova muita coisa..."
"Uma boa foda pode não comprovar nada."
Laurent ergueu as suas sobrancelhas pálidas. Damen prosseguiu:
"...Mas não posso expor o meu coração num caramanchão. Então, que se danem os vaskianos e os patranos com os seus boatos maliciosos e mesquinhos. O que temos é precioso demais para servir de entretenimento para esses abutres..."
Laurent se aninhou um pouco mais no colo de Damen, encostando a cabeça em seu peito. Os dois permaneceram ouvindo os sons distantes de vozes, relinchos, melodia e silêncio que ocupavam os pátios, jardins e a entrada de Arles.
"Eu gostei das surpresas de aniversário..." — declarou Laurent, erguendo o seu queixo para falar próximo ao rosto de Damen — "A festa privada foi divertida... Era como estar entre..."
"Amigos?"
"Sim..."
"Eles são nossos amigos. Não estamos sozinhos, Laurent. Se existe muito veneno deixado por Kastor e pelo Regente lá fora, existe aqui dentro os nossos aliados que sabem exatamente quem somos..."
Laurent fitou o olhar escuro de Damianos, dizendo:
"Certo, mas não vou deixar ninguém nos machucar novamente nem em Arles e nem em nenhum outro lugar. Não vou deixar nada encostar em nós..."
Damen tomou a mão de Laurent, beijando-a com delicadeza.
"Tenho certeza disso... Que os deuses protejam Vishkar e Torgeir se eles resolverem ameaçar uma serpente em seu próprio covil. E, aliás, isso me faz recordar de sua outra surpresa de aniversário..."
Laurent se empertigou imediatamente, movendo os seus olhos pelo quarto, antevendo em expectativa algo que poderia surgir de qualquer lugar.
"O que é?"
"Algo que eu guardo comigo há dois anos..."
Laurent permaneceu olhando Damen e por um entendimento tácito, o veretiano voltou a apoiar o seu rosto no ombro do akielon.
"...Vejo que haverá suspense..."
"É uma surpresa no fim das contas..."
"E você vai me dizer o que é hoje ou no meu aniversário de trinta e dois anos?"
"Hoje, mas preciso de um tempo..."
"Quando eu digo que gosto das coisas lentas e demoradas, não era sobre isso ao que me referia..."
Damen sorriu enquanto Laurent acariciava ainda os seus cabelos escuros. Os dois homens se olharam e o akielon beijou com delicadeza a linha da fronte, das bochechas e do nariz do veretiano, fazendo-o ruborizar.
Damianos sentia que o carinho era como um nutriente para Laurent. Suas carícias o faziam fechar os olhos com profundidade, às vezes, parecendo digerir o tato de Damen sobre a sua pele como se o acomodasse em seu corpo.
"Eu gostaria de ter sido a sua exploração juvenil em Akielos..." — declarou Laurent com sinceridade e com o tom rosado em sua pele se tornando vermelho.
Damianos fitou um tempo Laurent, antes de dizer:
"Você era muito criança ainda nessa época. Mas quando eu o cortejasse uns oito anos mais tarde, duvido muito que não fugíssemos de uma festa para algum canto escondido, aborrecendo Augustus e fazendo o meu pai me passar um sermão mais tarde sobre a diplomacia entre Akielos e Vere..."
Laurent se curvou, sussurrando provocante no ouvido de Damen:
"Ia ser assim, então, que defloraria o príncipe de Vere? Puxando-o para um canto longe de uma festa qualquer e o seduzindo?"
"Não... Eu ia usar somente as mãos e a minha boca em você primeiro, se assim o desejasse. Uma forma inocente de dois príncipes enamorados se proporcionarem prazer. Mas eu ia provocá-lo muitas vezes, até que você só pensasse em fazer amor comigo e com mais ninguém..."
Damen sentiu os dedos de Laurent se fechando em seu quíton e oferecendo o seu rosto. O akielon desceu os lábios pelo pescoço pálido fechado em laços, ilhoses e babados.
"Não precisou das mãos e da boca para me fazer desejar isso, antes mesmo de Ravenel, Damen... Como ia me convencer a deixá-lo me foder?" — sussurrou Laurent, fechando os olhos e sentindo os lábios do akielon se mover sobre a sua orelha.
"Eu desceria a língua até os seus mamilos e os chuparia muitas vezes sem tocá-lo de outra forma. Dias depois, deslizaria os dedos para dentro de sua calça, mas, talvez, julgássemos isso muito ousado para ser feito com um príncipe de Vere. Então, pediria que se sentasse em meu colo como está sentado agora e que se movesse sobre mim. Eu manteria as minhas mãos temporariamente longe de você enquanto você, Laurent, começaria a me mostrar quem você é de verdade..."
Um suspiro deixou os lábios de Laurent e ele se moveu um pouco sobre o colo de Damen.
"E depois...?"
"Depois, eu deixaria que conduzisse as minhas mãos por seu corpo e na altura que começasse a usar a língua, talvez até como a usei ontem, você estaria já, talvez, pensando em como seria abrir as pernas para mim... Mas eu precisaria me segurar um pouco mais, não é mesmo? Porque com você é sempre melhor quando as coisas vão aos poucos..."
A voz de Laurent e a sua respiração entrecortada se tornaram um pouco pesadas. A sua pele estava febril.
"Beije-me, Damianos..."
Os beijos que os dois homens trocaram se tornaram cada vez mais intensos e o veretiano e o akielon se encontravam excitados. Com mãos firmes, Damen cessou os movimentos insinuantes dos quadris de Laurent, dizendo com a voz macia:
"Ainda temos coisas para resolver hoje, Laurent. Se eu tirar a sua roupa, creio que será necessário metade de um dia para fazer isso e se for vesti-la novamente, outra metade do dia. Prometo recompensá-lo depois..."
"Podemos ser rápidos..." — declarou Laurent com a voz ofegante, enterrando o rosto no pescoço de Damen.
"Com você, nunca é rápido, Laurent. Tampouco comigo. Quero poder fazer amor com você decentemente. Temos tempo. Não se apresse..."
Laurent sussurrou com os olhos nevoados:
"Eu teria aberto as pernas para você, Damianos... Eu teria... E quero abrir agora..."
"E eu teria o tomado em alguma madrugada em que você tivesse escapulido para o meu quarto, Laurent de Vere... Seria intenso e inesquecível como, de fato, foi em Ravenel. Eu gozaria dentro de você enquanto você gozasse em meus braços, chamando pelo meu nome."
"E continuaria me cortejando, após eu lhe entregar a minha virgindade?"
"Naturalmente. Com você, uma única vez nunca é o suficiente. Nessa altura, já estaríamos prometidos. E nessa altura, eu já o amaria com toda a minha alma, Laurent..."
O céu agora estava coberto pelo cinturão de Vênus com uma faixa rosada, azul e amarelada no horizonte. Algumas estrelas pálidas começavam a salpicar o espaço. Laurent se voltou para olhar o fim de tarde frio de Vere, que mergulhava o quarto em um tom alaranjado mortiço e belo. E depois, com a boca entreaberta e uma expressão um tanto infantil que Damianos não se esqueceria nunca, ele murmurou:
"Me amaria...?"
"Eu te amo, Laurent. Com toda a força que um homem pode amar alguém. Amo-o não de hoje, mas desde muito tempo... Amo-o com tudo o que há em mim."
Os olhos azuis de Laurent estavam fixos em Damianos e, após alguns instantes, ele enterrou o rosto no peito do akielon.
"Você tem certeza disso?"
Damen sorriu, acariciando o cabelo loiro do veretiano.
"Não esperava por essa resposta, mas sim... Tenho certeza..."
Laurent não se moveu. O silêncio que se estendeu pareceu estranhamente longo para Damen. O seu coração estava batendo acelerado e ele sabia que Laurent, recostado ao seu peito, sabia disso. Os barulhos ao redor pareceram se tornar distantes. Todo o universo parecia comprimido na extensão daquele quarto e de sua mobília. Por fim, Damen, com a voz mais firme do que a sentia de fato, disse:
"Não precisa se forçar a responder a isso ainda... Sei que não existem mentiras entre nós..."
Laurent se manteve ainda quieto contra o peito de Damen por arrastados segundos e o akielon começou a sentir o medo rondá-lo. Ele sempre temeu o silêncio de Laurent. Podia lidar até com as explosões de ira dele, mas numa das últimas vezes em que lidara com o silêncio de Laurent, o veretiano pensou em entregar a própria vida para o Regente, a fim de proteger Damen. O silêncio era perturbador e brutal.
Com um fio de voz alterada por algum sentimento misterioso, Laurent voltou a repetir:
"Você tem certeza...?"
Damen moveu, então, os ombros de Laurent, forçando-o a olhá-lo.
"É claro que tenho certeza, Laurent..."
Os olhos do veretiano estavam vermelhos e Damen sentiu o medo ocupar cada canto de si mesmo.
"... Eu tenho certeza. Achei que essa era uma surpresa boa. Há muito tempo, queria expressar os meus sentimentos por você, Laurent. Desde Ios. Mas nunca havia dito isso para mais ninguém e tenho os meus processos demorados também. Precisei me sentir seguro, mas... Você não parece nem um pouco feliz em ouvir isso..."
Quando Laurent se levantou do colo de Damianos, o akielon teve certeza de que havia gravidade no silêncio. Laurent estava muito quieto e, com o olhar baixo, sentou-se em sua cama, apertando os lençóis. Ele parecia, subitamente, muito jovem e imprensado em roupas suntuosas e apertadas demais. Parecia estrangulado em algo maior.
Damianos se ergueu também e caminhou até Laurent, se sentando ao seu lado. Durante alguns minutos, os dois se mantiveram sentados lado a lado com a circunspecção de Laurent pairando entre eles. No fim, Damen, não suportando mais aquela situação, passou a mão por seu rosto, esfregando os olhos que ardiam. Murmurou laconicamente:
"Certo..."
Laurent fungou ao dizer.
"Não é o que está pensando. Mas não consigo dizer agora..."
"Laurent, só existem duas respostas para o que eu falei para você. E até agora, só uma delas está se tornando provável aqui..."
Laurent tinha os seus olhos vermelhos quando os ergueu, mas não chorava.
"No fim das contas, é você quem complica as coisas, Damianos..."
Damen moveu o rosto com indignação.
"Por eu precisar dizer o que sinto?! O amor é simples, Laurent! Você o sente aqui e o deixa crescer livremente. Eu nunca amei ninguém de verdade até conhecer você..." — respondeu Damen com a mão em seu coração — "E, sim, um homem tem certeza de algo maravilhoso quando acontece em sua vida; quando o sente fundo em seu peito. Um homem não mente sobre isso ou brinca com essas palavras. Então, vou me aborrecer com você se perguntar se tenho certeza do meu amor novamente..."
Laurent tinha o rosto baixo quando murmurou, contraindo um canto de seus lábios.
"Lamento por você ter se apaixonado pelo rei frígido de Vere..."
Damen fechou os olhos, sentindo como se aquela adaga que Laurent sacara no dia anterior quando o surpreendera em seu quarto houvesse lhe atravessado o peito naquele instante. Damianos fungou, assentindo.
"Mas eu não lamento. Eu não lamento nada! Não se preocupe."
"Você está lamentando agora, Damen. Está lamentando por ter esperado tanto por isso e eu ter arruinado o seu momento. Disse que não preciso responder às suas palavras, mas você está oscilando entre arrependimento e decepção."
"Por que acha que eu tenho estado aqui durante tanto tempo, Laurent? Acha que não existia expectativa de algo? Acha que não há um envolvimento real? Falamos do futuro, de nossas famílias, dos nossos sonhos, dos nossos medos... De tudo que alguém que ama quer desnudar para o outro... Acha que eu cruzaria dois reinos só por uma aliança de Akielos com Vere e para montar em você quando me convém?"
"Não, não acho que você faria isso... E eu também aprecio tudo o que construímos, Damen..."
"Então por que você está me olhando como se eu estivesse fazendo algo errado? Daquela vez em Ios, Laurent, fizemos amor na beira do mar e eu já queria muito dizer o quanto eu já te amava naquela época, mas..."
"Pare!" — falou o veretiano, erguendo a voz um pouco mais alto do que era esperado talvez. Ele fechou os olhos como se experimentasse um sabor amargo com todo o seu corpo — "Por favor, pare!"
Damen se reteve, sentindo alguma das cicatrizes de suas costas repuxar. Ele se manteve paralisado e engoliu em seco. O medo se tornava dor.
Após um minuto arrastado e terrível, o akielon, finalmente, disse:
"Ninguém é obrigado a amar alguém de volta e não se sinta obrigado a nada, Laurent..."
Damen não sabia o que estava dizendo. Parecendo desnorteado, ele se levantou e só percebeu que deixaria o quarto quando Laurent o chamou:
"Aonde vai?"
Damen se voltou com os olhos vermelhos de morte. Ele havia esperado muito tempo para expor os seus sentimentos para Laurent porque sentia o seu coração vulnerável e desprotegido como nunca o sentira até então. Porque precisava de segurança para falar daquele amor incomensurável. Mas as coisas não haviam saído como ele pensava, após tanta espera. A sua afeição parecia ser não apenas unilateral, mas também inconveniente.
"Eu acho que... preciso ficar um pouco sozinho agora..."
"Damen..."
"Não se preocupe. Eu estarei ao seu lado no jantar, Laurent. Eu sou o rei de Akielos afinal. Eu só preciso de... um tempo para me recompor..."
"Damen..." — começou Laurent, sentindo aquele choro engasgar-se em sua traqueia. Aquele choro que o alcançou na vez em que constatou em si mesmo que desejava Damianos de Akielos.
De costas, Damen disse:
"Eu não posso ficar aqui agora..."
Laurent queria pedir que Damen esperasse; que não fosse embora; queria ir atrás dele. Queria explicá-lo que aquelas palavras resvalavam em uma parte de si mesmo muito escura e dolorosa.
Laurent nunca declarara o seu amor para ninguém, mas um homem já sussurrara no seu ouvido que o amava. De um modo manipulador que nenhum adulto ou criança dispunha de ferramentas para lidar. Alcançando algo sublime e o atirando em um chiqueiro podre. Sendo vil e não sentindo nada, porque, na verdade, como na peça de teatro itinerante do norte de Akielos, o Regente já nascera morto.
Talvez, ele tivesse dito as mesmas palavras para Nicaise. Ou para Aimeric...
Para todos que vieram antes ou depois. Fazia parte do plano de destroçar a alma de um menino para separá-lo de si mesmo. Para ele se perder no processo de se achar no homem que viria a ser.
"Não, o meu tio não pode encostar em nós..." — declarara Laurent, certa vez, com a cabeça de Damen apoiada em seu colo, observando vaga-lumes sobre um rio. Dissera ele, pouco antes de seguirem para o Encontro dos Reis.
Contudo, o Regente agora machucava Laurent e Damianos. E Laurent sufocava aquele choro em sua garganta porque não estava conseguindo dizer ao homem que amava que o amava.
Laurent nunca poderia amar alguém como amava Damen. Isso era a única certeza que o veretiano tinha em sua vida. Mas ele não conseguia verbalizar o óbvio como se uma mão se fechasse sobre a sua boca.
Laurent também não conseguia se levantar da cama, tornando-se a criança que não queria mais ser.
Então, Damen saiu. E Laurent permaneceu.
Sozinho. Atrás da porta.
NOTAS DA AUTORA
Esta é uma fic da qual muitos dos outros personagens de O Príncipe Cativo fazem parte, apesar dos protagonistas serem, naturalmente, Damen e Laurent como podem perceber no Capítulo 2.
Também, na fic, encontram-se personagens criados por mim porque eu precisava compor os monarcas e a corte de Vask e de Patras a partir do que CS Pacat contou pra gente nos livros. A história desta fanfic está pronta e foi maravilhoso como cada personagem novo foi surgindo e criando o seu papel na trama ou vice-versa.
Vishkar é a imperatriz de Vask que possui dois leopardos ao seu lado no trono, inúmeros concubinos à disposição e ela guerreou com Patras por anos. Quando li a breve descrição dela na trilogia de O Príncipe Cativo, caí numa imagem estereotipada de uma matrona inacessível e com o corpo pesado repleto de joias. Mas eu não estava satisfeita com essa ideia e queria justamente desconstruir algo matriarcal e austero num sentido profundo. Vishkar é mais velha do que Laurent e Damen, mas deveria ser de algum modo acessível a eles. Procurei algumas referências e fui ouvir música.
A ideia dela surgiu a partir, então, da belíssima Kristen Stewart debochada e badass no clipe de Ride'Em On Down dos Rolling Stones. Era isso! Eu queria uma mulher adulta para ser Vishkar, mas com uma mobilidade jovial de garota e rosto felino, esperta. A heterocromia nos olhos foi a cereja do bolo.
Com Pari de Skarva, a quarta esposa da imperatriz, me inspirei na aparência da cantora Sky Ferreira porque queria criar uma guerreira dos clãs bonita, mas com um tom um tanto selvagem e degenerado. Queria que todos quando olhassem para ela, vissem algo de instintivo e animal em si mesmos e por isso, se atraíssem por Pari.
Como será o rei de Patras, irmão de Torveld? Nos próximos capítulos, saberemos. :)
