A EXECUÇÃO DOS MORTOS
CAPÍTULO 4
A ARENA (PARTE 1)
Just like you said
It's all been done before
I don't have to talk pretty
for them no more
I can talk what I want, how I wanna
I can talk what I want, how I wanna
I don't have to talk taste for you, mama
no, no
Ray, ray, ray
Raise me up
It's the voodoo, Mississippi south
69 million stars
Birds are flying out of my mouth
Spirits creeping in my yard
Sold my head, it's tilting back
something dancing me around
Putting crystals on my neck
Lifting my feet off the ground
(Raise me up – Lana Del Rey)
A arena consistia em uma parte central de anfiteatros cobertos de areia, onde se realizava combates entre gladiadores e feras. Nela, o sangue; suor; lágrimas e a poeira se misturavam com o chão de terra em uma lama só enquanto os corpos precisavam se estraçalhar até a morte.
A arena era a miniatura do espaço circular e fechado que envolvia cada pessoa abandonada à própria sorte e ao seu estado mais primitivo. Era a natureza. Era o naturalismo. O natural em carne viva e sem lapidação.
Semelhantes às arenas eram os ringues dos escravos de estimação de Vere em que, circundados por homens poderosos, garotos com os membros ainda descoordenados e a própria excitação em um estado brutalizado, lutavam uns com os outros para dominarem.
Para mais satisfazerem do que serem satisfeitos. Para montarem uns nos outros, sob gritos ou vaias. Era a natureza agindo a serviço da perversidade. Era o prazer sendo encabrestado por sadismo e por si mesmo. Por algo devastador que existe dentro de cada homem. E sobre o qual ninguém quer pensar o suficiente pelo medo de entender.
Também existiam as guerras em que homens desde tempos remotos, incorporando a própria morte e deliberando sobre o tempo de cada um, ceifavam a existência com um brandir de espada.
Como a guerra em que Damianos de Akielos golpeara Auguste de Vere fatalmente. Uma luta limpa, mas injusta como eram todas as guerras que colocavam homens depredando uns aos outros. Que colocavam príncipes caindo de joelhos, olhando para o sol por uma última vez e sentindo já saudade do mundo no momento em que o deixavam.
Por último, havia as arenas da corte de Vere, as quais Damen já frequentara durante o seu tempo de escravo e nas quais Laurent crescera. A política também era uma arena.
Cavalos, fortes, cidades inteiras, plantações, vidas e soldados podendo ser pulverizados ou mantidos vibrantes por uma década inteira. Todos debruçados sobre os ombros de seus governantes que bebiam vinho e estruturavam o futuro com um aceno de dedos ou de cabeça. Viveremos ou pereceremos? — seria o que eles perguntariam com ansiedade em seus olhares injetados.
Na arena política, o golpear e os carinhos adulatórios eram feitos com as palavras. Os olhares eram cúmplices ou prolixos.
Todas as arenas consistiam na dança da destruição rodopiando a vida até que ela se tornasse tonta. E vazia. Mas a política era um circo em que os homens se combatiam com a mente. E apesar de, por conta disso, ela parecer ser um espaço mais confortável, na verdade, ela era tenebrosa.
Uma palavra errada e um país inteiro poderia sucumbir ou morrer agonizando. A política era a sofisticação da brutalidade. Uma forma de embelezar a poeira, o sangue, o suor e as lágrimas da arena com tapetes de flores bem maduras. Como se faziam com os túmulos.
Damen e Laurent se posicionaram no Salão Principal, escutando os ruídos de congratulação produzidos pelas quatro cortes que ocupavam Arles.
Em um determinado momento, o rei de Akielos soltou a mão do rei de Vere e se pôs a aplaudi-lo também, observando-o pelas fendas de sua máscara. Contemplando o jovem rei de vinte e dois anos com uma face de ouro envolta por serpentes que pareciam brotar de sua própria mente.
"Arles é um covil de cobras." — dizia sempre Laurent com uma contração desagradável do lábio superior que Damen não sabia identificar se era desdém ou asco. Mas aquele era o lugar em que Laurent de Vere nascera e se criara. E ninguém melhor do que ele sabia rastejar por aquele terreno acidentado e pantanoso.
Com um gesto muito elegante, Laurent agradeceu à recepção, curvando-se mais que um monarca austero e menos do que uma autoridade humilde. Em seguida, os dois reis se sentaram em seus respectivos tronos, lado a lado.
Como de costume, Damianos se acomodou com as pernas afastadas, a coluna ereta e as mãos apoiados no braço do seu assento. Ao seu lado, estavam os seus serviçais e os seus soldados.
Laurent se sentou com a sua postura descansada e as pernas posicionadas num ângulo como se a qualquer momento ele fosse cruzá-las e pedir uma taça de vinho. A cabeça do veretiano estava apoiada na mão direita com uma curvatura que não expressava tédio exatamente. Era a linguagem corporal de Laurent quando ele espreitava com curiosidade o mundo ao redor, como se esperasse que ele o surpreendesse. Os seus serviçais e homens ocuparam também o seu lado.
O Salão Principal se viu completo, então, com a presença dos reis das nações-irmãs Vere e Akielos. Os dois jovens monarcas se encontravam cercados por serpentes, leões, leopardos e águias de ouro. Animais com cérebros humanos que confabulavam e faziam estratégias sobre o seu próprio ecossistema predatório.
O protocolo em que os representantes designados das quatro nações se dirigiam ao rei de Vere antecedia o momento em que o monarca de Patras e a imperatriz de Vask se apresentariam formalmente.
Damen viu Nikandros, kyros de Ios, ao lado de lorde Berenger, se aproximar como o representante de Akielos enquanto o outro homem era o porta-voz de Vere. Eles usavam as máscaras douradas e se movimentavam como um leão e uma serpente caminhando pelo tapete vermelho envolto em candeeiros, fitas e flores-de-lis perfumadas.
Os dois homens, postando-se diante de Laurent e de Damen respeitosamente, removeram os rostos de ouro ao se dirigirem aos reis. Com gestos profundos, eles se ajoelharam, ratificando a sua lealdade às nações irmãs. Berenger parecia muito orgulhoso pela posição a qual fora designado. E com humildade, reforçou o juramento feito pelos veretianos no dia da coroação de Laurent em Marlas:
"Feliz aniversário, Majestade! Que a longevidade, a justiça a e força sejam o norte de Vere. Que a luz da nossa estrela guardiã nos encha de esperança e orgulho, mesmo em dias sombrios e a flor-de-lis seja um símbolo sagrado da delicadeza e alma dos filhos de Vere..."
Com um aceno de cabeça solene, Laurent acolheu as palavras do homem de Varenne.
Em seguida, Nikandros reforçou o discurso akielon, mas antes, ergueu as sobrancelhas e crispou os lábios ao observar a postura relaxada de Laurent no trono. Seu olhar o mediu dos pés à cabeça.
"Você parece oscilar entre lealdade e objeção, kyros de Ios. Não vai me dar os parabéns?"
Damen pigarreou no instante em que Nikandros semicerrava o olhar e abria a boca. O kyros, então, fechou os olhos como se contasse não até dez, mas até o próprio infinito, e, por fim, como se vomitasse as palavras, declamou o juramento de Akielos:
"Nós, akielons, como cidadãos da nação-irmã Akielos, juramos apoiar Vere e o seu único e legítimo rei. Nossas espadas e adagas trabalharão em favor do povo veretiano dia e noite para manter a paz. Nossa lealdade se mantém ininterrupta e fulgurante como o mar e o sol de Ios..."
Ao finalizar o seu discurso, Damen pigarreou novamente, pensando: E os parabéns?
"E os parabéns?" — indagou Laurent, sem meandros com o seu queixo apoiado no dorso da mão, como se tivesse lido os pensamentos de Damianos.
"Feliz aniversário, Majestade de Vere." — declarou Nikandros, girando os olhos nas órbitas.
Damianos pensou que precisava conversar com Nikandros sobre aquela animosidade e teimosia perante Laurent.
Aquela postura não era a de um kyros, o que era um pouco surpreendente, visto que Nikandros sempre fora, quando mais jovem, elogiado pelos mestres e soldados por sua disciplina e boas maneiras em Akielos.
Damianos se recordou da conversa que tivera mais cedo com Laurent em que o veretiano sinalizara para algum afeto não correspondido da parte de Nikandros. Seria possível aquilo? Ou Nikandros simplesmente amargava ainda as palavras constrangedoras ditas por Laurent na hora do almoço?
Lorde Berenger e Nikandros se levantaram, então, descendo novamente as suas máscaras e se colocando cada um ao lado do seu rei.
Em seguida, vieram os representantes das duas outras nações. Torveld se aproximou como o embaixador de Patras, ao lado de um homem que Damen não conhecia, mas sem dúvida, era algum nobre importante da corte de Vask, dada a suntuosidade de seus trajes.
Com solenidade, Torveld se dirigiu aos dois reis, utilizando o veretiano com fluência e polidez. Na última vez que ele estivera em Vere, estava enfeitiçado por Laurent, mas tanto em Ravenel quanto em Marlas, Torveld parecera renovado, demonstrando somente uma admiração respeitosa no trato com o veretiano.
Os cabelos de Torveld estavam mais compridos e havia um brilho em seu olhar. Seu rosto estava bem barbeado e, com entusiasmo, ele parabenizou o rei de Vere, desejando-lhe vida longa e um reinado de paz.
Erguendo o seu olhar, Damen sorriu ao enxergar a figura bela de Erasmus próxima ao assento do qual Torveld se levantara. O jovem akielon usava uma túnica patrana suntuosa com bordados e ostentava um arco fino de ouro ao redor de sua cabeça, emaranhando-se nas madeixas claras. Com um recato delicado, ele aplaudia o embaixador de Patras, seu amo.
"Torveld de Bazal, é sempre uma enorme alegria tê-lo em Arles, apesar de Arles ser mais aprazível hoje do que há dois anos atrás. Tenha sempre em Vere uma nação aliada. Podemos esperar que Patras tenha vindo com o desejo de renovar os nossos laços?" — declarou Laurent na sua posição descansada.
Torveld olhou brevemente para o homem vaskiano ao seu lado, assentindo, mas não deixando de dizer:
"Creio que a Majestade de Vere e a Majestade de Akielos já estejam a par sobre os boatos que circulam por Patras. Não acredito neles e muitos também não. Mas Torgeir, o rei de Patras, verificará o quanto deles é verdade, antes de renovar os votos com as nações-irmãs. Estejam preparados."
Laurent se mantinha no seu estado emocional relaxado.
"Eu nasci pronto, Torveld. Obrigado por seu conselho."
O próximo a falar foi o homem vaskiano. Ele tinha cabelos negros emoldurando o seu rosto de nariz fino e boca bem desenhada. A sua pele era clara feito algodão e os seus trajes muito elegantes, costurados em veludo verde, seda e madrepérola.
Com uma voz melodiosa feito uma flauta sendo soprada por um músico habilidoso, ele entoou as suas felicitações. Havia uma androginia em sua constituição e ele teria arrematado diamantes em lances de nobres se fosse um escravo de estimação em Vere na época do Regente. Algumas vozes vaskianas, por algum motivo, falavam junto com o porta-voz de Vask entre a multidão. Ao fim dos seus votos de paz e longevidade, o homem declarou:
"... Falo em nome da nação de Vask. Falo como Sorem de Ver-Tan."
Quando o representante se apresentou, um silêncio se fez no Salão Principal como se o mutismo tombasse feito uma bigorna e Damen pode compreender os cochichos nervosos entre os sodados vaskianos enquanto o homem proclamava os votos de Vask.
O belo vaskiano ergueu o seu olhar vicejante para os dois reis enquanto Torveld se mantinha em silêncio com os olhos baixos, compreendendo o choque da revelação.
Laurent estreitou o seu olhar, levantando-se, logo após Damen.
"Sorem, o imperador de Vask...?"
"Sim, Majestade!"
Damianos, imediatamente, uniu as suas mãos no cumprimento característico da nação vizinha e o seu gesto também foi imitado por Laurent, com algum atraso. Com alguma resistência. Estudando a figura diante de si e a medindo.
Vask era uma nação matriarcal desde a sua fundação. Sendo governada por mulheres, o legado imperial era passado de mãe para filha. O imperador não exercia poder governamental no país, mas ele era respeitado também como uma autoridade por ser o pai da futura imperatriz e o seu conselheiro mais próximo.
Apesar do concubinato e do casamento com até quatro cônjuges diferentes ser permitido à imperatriz, era necessário um imperador escolhido criteriosamente para garantir filhos ao reino e que a linhagem imperial não se perdesse. Vishkar, até onde Akielos e Vere sabiam, dera à luz a duas meninas gêmeas há seis anos atrás.
Com o respeito que era deferido a uma autoridade do país vizinho e não a um representante, Damen e Laurent se mantiveram de pé. Por que a imperatriz enviara o imperador para uma solenidade prestada normalmente por um nobre ou embaixador?
"Vossa Majestade Imperial abrirá o cortejo de Vask?" — indagou Laurent, fitando o homem por trás de sua máscara dourada.
Erguendo o seu olhar com algum recato, Sorem declarou, pestanejando os seus cílios compridos como os de uma menina:
"Não. Eu só farei o juramento de reconhecimento como um cidadão vaskiano. Hoje, represento somente o meu povo e o exército. Vishkar de Vask representará o império."
Damen não ousou buscar o olhar de Laurent, mas sabia que ele compartilhava do mesmo pensamento. A solenidade era um procedimento abaixo de uma autoridade real. Por que Vishkar submetera o imperador àquele constrangimento?
Por um instinto natural de confabulações sobre guerra, Damianos buscou também o olhar de Nikandros ao seu lado. O rosto do kyros era novamente uma face de leão com fendas nos olhos. Mas Damen julgou ver as írises escuras fitando a situação também com desconfiança.
Fazendo uma mesura elegante, o imperador retornou para o lado dos seus nobres, assim como Torveld. Os serviçais vaskianos e patranos, então, se puseram a ressoar as suas trombetas, anunciando a imperatriz e o rei.
Os dois monarcas vieram sem máscaras. Como rei e imperatriz. Como pessoas imbuídas de majestade.
Torgeir lembrava Torveld, mas havia um estreitar mais feroz em seus olhos escuros. O seu cabelo era mais comprido e um tanto revolto. Estando no fim dos trinta anos e seguindo para a quarta década de sua vida, Torgeir trajava toda a opulência de Patras sobre a pele oliva. Seu corpo era forte, mas não tanto quanto o de Damianos.
Já a imperatriz se mantinha estreita e pequena como um cavalariço, mas trajando roupas vaskianas reveladoras. A sua barriga dura e definida com uma musculatura de alguém que dedicava horas severas ao treino militar estava à mostra e de seu umbigo, assim como do de Pari de Skarva, brotava um anel prateado. A sua camisa de seda era curta demais para o frio veretiano e ela trajava calças justas e com o as cores de Vask sob o manto pesado.
Torgeir e Vishkar cochicharam algo no ouvido um do outro, antes de se colocarem a andar. O olhar bicolor da imperatriz se cravou no imperador como uma flecha enquanto tinha a mão do rei de Patras em seu ombro. Depois, ela se aprumou e se pôs a caminhar.
Damen sentiu a atenção das autoridades de Patras e de Vask se alternarem entre ele e Laurent. O akielon viu os dois monarcas se colocarem diante dele e do rei de Vere e os cumprimentarem com solenidade, recitando palavras pomposas e protocolares com um veretiano límpido e correto. Depois, Torgeir e Vishkar seguiram com mais algumas reverências contidas. Eles. A águia de Patras e a leoparda de Vask.
Laurent se manteve com a sua postura austera, recebendo os cumprimentos com uma educação que lhe era natural e o fazia parecer um rei celestial e nobre por trás de uma máscara de serpentes.
"Sejam bem-vindos à Vere. Lamento por estar indisposto quando Vossa Majestade Imperial chegou."
Vishkar pestanejou o seu olhar com heterocromia, antes de sorrir e dizer:
"Não se preocupe, Majestade. O rei de Akielos fez as honrarias de modo impecável. Damianos é muito parecido com Theomedes. Mas não consigo ver o seu rosto, Laurent de Vere. Ele existe por trás da máscara?"
Damen sentiu a ligeira tensão quando Torgeir enviesou um sorriso pelo canto do seu rosto. Laurent, então, retrucou:
"Obviamente, existe. Mas o que é o rosto, senão uma máscara cobrindo uma caveira?"
"Vishkar, não perturbe o jovem rei..." — declarou Torgeir com um tom amigável.
"Vossa Majestade Imperial tentou me perturbar? Perdoe-me, eu nem percebi..." — declarou Laurent com a ingenuidade de uma serpente enrolando-se na perna de um homem. E acrescentou— "A imperatriz é diferente do que eu imaginava..."
A vaskiana sorriu com uma curva sensual do seu lábio.
"E como o rei de Vere me imaginava? Como uma matrona com os seios de fora, refestelada em um trono comendo uvas e criando dois leopardos? Uma filha, talvez, pendurada em cada seio..."
Damen baixou o seu olhar porque essa era exatamente a imagem que ele nutrira a vida inteira da imperatriz de Vask.
"Não. Só a imaginava diferente... Achei que fosse alguém que demorasse para usar a ironia."
Ela sorriu, colocando as mãos para trás e falando baixo como se compartilhasse um segredo.
"A ironia também é uma linguagem de Vask, mas não é o caso aqui. Eu gosto também de me sentar ao trono com os seios de fora, comendo uvas e brincando com as minhas filhas. Em Vask, uma mulher é o que deseja ser..."
"Mesmo as escravas?" — indagou Laurent, fingindo inocência.
Vishkar afastou um pouco o rosto, assentindo:
"Evitamos a palavra escravo em meu reino, Majestade. Concubino é mais adequado. Minhas esposas Mircela e Pari foram concubinas, mas creio que elas são hoje o que desejam ser..."
"Mas não são elas que estão sentadas no trono comendo uvas, com os seios de fora e nutrindo crianças herdeiras e leopardos..."
"Ah! É isso que o rei de Vere concederá aos seus escravos libertos? O próprio trono?" — E, depois, acrescentou, pousando o seu olhar em Damen — "Ah, desculpe. Creio que isso já aconteceu..."
Laurent retrucou, retirando, finalmente, a sua máscara:
"Chegamos muito rápido na parte sobre o tempo que Damen morou em Arles. Esperava mais rapapés, mais estimulação antes do clímax. Damen nunca foi um escravo, assim como nunca deixou de ser o herdeiro do trono de Akielos. O que houve foram pessoas dispostas a acreditarem na própria mentira que criaram. Ainda bem que houve tempo para lembrarmos a todos quem somos. E houve o tempo de punir os mentirosos."
Laurent frisava as suas palavras, mas o olhar bicolor de Vishkar se demorava em seu rosto. As írises da vaskiana deslizaram pela fronte de Laurent, suas pálpebras e bochechas. Por fim, a sua atenção se derramou na boca de lábios rosados do veretiano, declarando com sinceridade:
"Vossa Majestade é ainda mais bela do que dizem. Se não fosse prometido já ao rei de Akielos, eu o cortejaria..."
Laurent fez uma mesura de agradecimento, um pouco desconcertado, talvez, por ter o seu encadeamento de embate verbal rompido.
"Vossa Majestade Imperial também é bela. Mas creio que um arranjo sexual entre nós dois fosse complicado e inviável..."
"Se conhecesse o meu esposo, saberia que é possível..."
"Já o conheci. A senhora o mandou cumprir um papel abaixo de sua posição..."
"Ele mereceu, após vir para Arles sem ser convidado... Mas a despeito de ser um exibido, preciso reconhecer que Sorem é um homem belo e com traços delicados como o jovem rei de Vere. E com o mesmo apetite por homens viris que a Majestade Laurent nutre, pelo que ouvi falar."
"Vamos falar agora sobre os meus gostos sexuais? Preciso saber do leito vaskiano, então, para não ser exposto sozinho. A imperatriz de Vask, por acaso, monta o imperador como um homem viril faria?"
"Oh, sim! Eu monto. Percebe agora que as mulheres de Vask podem fazer qualquer coisa?"
Damen, como se despertasse de um transe, pestanejou. Ele observou Laurent fitar com curiosidade Vishkar, parecendo tentar descobrir como a vaskiana fodia uma flor delicada como o imperador. Torgeir passava a mão pelo pescoço, parecendo tão perdido quanto Damen. Nikandros havia removido a máscara novamente e tinha a boca aberta.
A conversa se iniciara como uma troca de farpas políticas e após perpassar intenções; a abolição; o passado e seios nus, agora, debruçava-se sobre os lençóis de Vask e os detalhes sórdidos de como uma mulher podia enrabar um homem.
Damen tocou de forma protetora a mão de Laurent enquanto descia a sua máscara. Ele temeu que Laurent, em um embate, começasse a fazer revelações íntimas sobre a forma como os dois faziam amor. Além disso, Damen não gostou da imperatriz dizendo que cortejaria Laurent. Talvez, menos ainda de Laurent a achando bela.
Há muito, Damianos sabia que Laurent não se atraía sexualmente por mulheres. Mas isso não impedia que o akielon se sentisse protetor e passasse o braço pelos ombros de Laurent, reforçando o seu relacionamento com ele.
Torgeir pigarreou, então, redirecionando a conversa.
"Damianos de Akielos, você é muito parecido com Theomedes. Ouvi falar muito de você pelo meu irmão e também pelo escravo dele, Erasmus..."
Damen assentiu com solenidade e declarou:
"Torveld tem a estima de Akielos e Erasmus, apesar de ter se mudado para Patras, é akielon e tem a minha amizade também..."
"Vejo que trouxe vários escravos de Patras para Vere, Majestade." — disse Laurent.
Torgeir ergueu as sobrancelhas.
"O conselheiro Mathe, quando me recebeu mais cedo, apontou o mesmo fato. Damianos sabe como os escravos são bem tratados em Patras. Eles são cuidados tão bem ou até melhor do que em Akielos. Segundo Torveld, Erasmus chegou em Patras com marcas de queimadura praticadas por seu antigo mestre de Vere. Isso seria inadmissível em Patras..."
Laurent franziu as sobrancelhas, declarando:
"As torturas sofridas por Erasmus foram infligidas por meu tio e pelos seguidores dele. O Regente foi ceifado do nosso convívio, mas creio que, infelizmente, precisarei cavar um pouco mais para arrancar algumas raízes que ele deixou e impulsionar mais mudanças nas leis de Vere."
Vishkar ouvia o diálogo com atenção e perguntou:
"Só em Vere?"
"Somente em meu reino e em Akielos, no qual Damen compartilha dos mesmos ideais que eu. Não posso interferir nas políticas fora das nações-irmãs..."
Torgeir e Vishkar aquiesceram, declarando a resposta como aceitável.
"...Mas também não posso prever como as mudanças em meu reino irão influenciar as terras vizinhas..."
Torgeir contraiu as sobrancelhas, declarando:
"Está profetizando ou fazendo uma leitura do que está acontecendo em Patras, Laurent de Vere? Alguns escravos de prazer malcuidados declararam um período de dez meses sem servirem os seus mestres e estão acampados diante do palácio de Bazal em protesto. Torveld está lidando com eles e os mestres serão punidos por maltratarem os seus escravos e esses homens e mulheres serão realojados. Aparentemente, há um atiçador entre eles. Não saberia de nada a respeito?"
Damianos trocou um olhar rápido com Laurent e respondeu:
"Majestade, não sabíamos desse acontecimento..."
Laurent, no entanto, levou a mão ao queixo, dizendo com inocência. Outra máscara.
"Achei que os escravos de Patras não sofriam maus-tratos..."
"Eles são uma exceção. Como disse, os seus mestres serão punidos..."
Laurent assentiu, pestanejando com os seus cílios longos.
"Uma exceção..."
Vishkar bateu, então, com os nós dos dedos na máscara de leopardo que ela ainda segurava, produzindo um ruído oco.
"É um artefato interessante para uma festa de aniversário, Majestade."
"Pensei que cada cidadão gostaria de se ver representado pelo brasão de sua nação. Contudo, houve alguma dificuldade na hora de definir qual máscara os serviçais vestiriam. Isander, um dos meus serviçais, é akielon. Talik, a escrava de lady Vannes, é vaskiana. E Latifa é patrana. Contudo, entre tantos outros, eles vivem em Vere porque os escravos são vendidos, trocados e realojados de acordo com o gosto dos seus mestres e não de acordo com as suas próprias vontades. Escravos não têm nação. Quando a alguns foi dada a escolha para optarem por uma máscara, eles não souberam o que fazer e declararam que usariam aquela que seus mestres escolhessem. Alguns chegaram a dizer que, talvez, fosse melhor haver uma máscara somente para os escravos. Então, creio que nem sempre haja um rosto por detrás de uma máscara e nem sempre haja máscaras suficientes para um rosto..."
Damen deslizou o olhar para Laurent enquanto Torgeir e Vishkar confabularam por um tempo em silêncio. Com olhares escuro, cinzento e cor de âmbar.
"Ah, a inteligência dos veretianos... Experimentei um pouco dela com o Regente a partir das negociações intermediadas por lady Vannes. Um homem muito astuto o Regente, é verdade, mas também... Perdoe-me, como posso dizer isso? Um governante bastante... complicado..." — declarou Vishkar.
"Não perdoo. O meu tio era um grandíssimo puto asqueroso e fracassado, a imperatriz deveria dizer..."
"Um bosta arrombado do caralho com ódio das mulheres, é bem verdade..."
Damen se surpreendeu pelo vocabulário veretiano versado da imperatriz, que se esquecera de lavar a boca com sabão em Vask antes de vir para a corte e, pelo menos nisso, se alinhava com Laurent que sabia xingar nos quatro idiomas com a habilidade de um prostituto nascido e criado em um bordel.
Vishkar prosseguiu:
"...Mas se olhar com os seus olhos inteligentes para a minha corte, rei Laurent, verá que até mesmo os concubinos são leopardos e filhos de Vask. Aliás, Vossa Majestade de Vere vê o seu palácio como um reduto de serpentes já que escolheu cobras para o seu rosto?"
Laurent ergueu as sobrancelhas, declarando:
"Sem dúvida! Foi aqui que o Regente se fortaleceu em menos de uma década. Arles é um covil."
"E é assim que Laurent de Vere se vê também? Como uma serpente?"
"Somente uma serpente pode prever o bote de outra. Então, creio que sim."
Torgeir trocou um olhar com Damen, respirando fundo ao dizer com honestidade:
"Viemos em paz, Majestade. Vishkar, raffie, controle a sua língua. Esperamos poder conversar mais durante o jantar sem animosidade..."
"Certo, raffie..."
Damen observou Vishkar sorrir de um modo enviesado, dando o braço para Torgeir. Há muito, ele sabia da amizade estabelecida entre Vask e Patras, após as duas nações lutarem muitos anos nas fronteiras até os esforços de Torveld converteram o conflito em paz quando o antigo rei de Patras e a imperatriz Betthany morreram.
Damianos se lembrava ainda das notícias sobre a guerra chegarem em Akielos através do mensageiro de Theomedes.
A imperatriz, com catorze anos, já lutava, derrubando patranos com tonfas de metal em campo aberto e servindo ao exército da mãe. E Torgeir, muito jovem, partiu o crânio de vaskianos com o seu machado a mando do pai. Até que os antigos governantes de Vask e de Patras faleceram e a paz veio rápida e definitiva por escolha de seus herdeiros. Mas aquela amizade parecia inusitada. Insólita.
Damen não imaginava que a imperatriz e o rei que lutaram muito jovens numa guerra longa seriam um homem com um sorriso afável por trás da indumentária patrana e uma garota pequena e com a língua feroz.
Mas, então, ele se lembrou que lutou em Marlas contra Vere quando também era um garoto e que, talvez, a sua imagem fosse surpreendente para as autoridades das nações vizinhas. Assim como a sua relação com Laurent seria impensada há três anos atrás. As imagens construídas na mente e as previsões nunca abarcavam a totalidade da vida. Egeria, a mãe de Damen, costumava dizer isso, segundo Theomedes.
"Patras e Vask parecem bem próximas..." — declarou Laurent com o olhar se detendo no braço de Torgeir que envolvia a cintura nua de Vishkar.
Torgeir sorriu, parecendo-se inconfundivelmente com o seu irmão.
"Após nos enfrentarmos algumas vezes em campo aberto e sobrevivermos por uma generosidade dos deuses, nos aproximamos. O plano do meu irmão era nos unir em casamento, mas creio que eu não poderia satisfazer aos desejos de Vishkar e tampouco, ela aos meus..."
Vishkar girou o seu rosto para fitar Torgeir com uma expressão divertida.
"Torgeir não deixaria que eu o montasse nem que a paz dependesse disso. E creio que, fora isso, ele não tem algo que eu aprecio muito..."
"Uma boceta?" — pensou Damen, sem dizer.
"Uma boceta?" — disse Laurent, sem pensar, erguendo o seu olhar falso de menino surpreso e ingênuo.
"Eu ia dizer bom-humor, mas já que mencionou isso, devo concordar também. Torgeir é um grande amigo. Aliás, espero que possamos deixar a corte de Vere todos desfrutando de uma grande amizade."
"É tudo o que eu desejo. Mais amigos. Senão não estaria de pé há quase meia hora em meu próprio aniversário..." — comentou Laurent com a naturalidade e a empáfia que trouxe uma lembrança da Arles de dois anos atrás para Damen.
Torgeir sorriu, dizendo:
"Aguardamos Vossas Majestades no jantar..."
O patrano e a vaskiana se retiraram solenemente e, quando se viu a sós com Laurent, Damen ouviu o veretiano dizer, suspirando:
"Foi bem mais tranquilo do que eu havia imaginado..."
Damen ergueu as sobrancelhas e abriu um pouco mais os seus olhos.
"Foi tranquilo você e Vishkar se eviscerando?"
Laurent cruzou as pernas em seu trono, apoiando a face no dorso da mão.
"Ah, Damianos, não seja tão sensível! Até agora, só vi provocação corriqueira. Se isso é tudo o que Vishkar trouxe, Vask e Patras serão as nações primas de Vere e de Akielos nas próximas décadas..."
Damen se manteve olhando Laurent daquele modo que acabava o olhando em momentos como aquele. Com um misto de fascínio e de assombro.
"O que foi?"
"Nada..."
Depois, suspirando, Damianos fez um gesto para que Nikandros se aproximasse. O kyros de Ios fez uma mesura profunda, antes de se ajoelhar ao lado do rei de Akielos. Em akielon, Damianos perguntou:
"O que achou do primeiro contato com Vask e Patras, Nikandros?"
"Uma desgraça. É sempre assim em Vere?"
"Não. Esse foi só o aquecimento. As coisas vão piorar."
"Pelo modo como Laurent e Vishkar se deram bem, creio que uma guerra desponta no horizonte, Damen..." — falou Nikandros.
Laurent não mudou de posição em seu trono, mas produziu um ruído de enfado ao ouvir as palavras de Nikandros, que, se fosse transcrito em palavras, diria, possivelmente a palavra baboseira. O kyros crispou os lábios e olhou para o teto enquanto respirava fundo.
"Aproxime-se de Torgeir, Nikandros. Observe-o. Mas seja discreto." — decretou Damen.
"Certo, Majestade!" — respondeu o kyros de Ios, movendo o seu olhar escuro pelas fendas de leão.
Damen se aproximou de Laurent, murmurando quando Nikandros os deixou:
"Não vai mandar alguém de sua confiança observar Vishkar?"
Laurent, ajustando novamente a máscara de serpentes em seu rosto, declarou:
"Ora, Damianos, você me subestima! Eu já coloquei alguém a vigiando. Desde o momento em que a imperatriz pisou em Arles. Desde o momento que ela cruzou a fronteira de Vere, na verdade."
(cut)
Antes de se reunirem no jantar, havia um breve momento em que os reis interagiam com os membros das cortes vizinhas.
Com um tapa de leve no ombro de Damen, Laurent, com o seu rosto dourado circundado por serpentes, se ergueu do trono e gesticulou que cumpriria o seu gesto protocolar de interagir com outros visitantes, desaparecendo na multidão.
Damen assentiu, seguindo o caminho contrário, a fim de entreouvir conversas e falar com mais convidados na festa.
No Grande Salão, a maioria das pessoas trajava ainda as suas máscaras e entre elas, com os rostos à mostra, serviçais e escravos deslizavam, servindo os seus mestres.
Damianos cumprimentou pessoas como o rei de Akielos deveria fazer. Ele viu Jord seguindo Laurent há alguma distância como parte da sua Guarda Real. Ele viu Ancel com roupas reveladoras e uma tiara de topázios passar com um bastão, ao lado de lorde Berenger.
Damen fitou os membros do Conselho de Vere conversando com o imperador de Vask, que pestanejava os seus cílios longos e tinha as mãos unidas no cumprimento característico da sua terra.
Damianos observou de longe, próximo à sacada em que flores de jasmim anão se curvavam perfumadas em ramos cheios, Charls entregar algo volumoso em uma sacola de couro para Isander, que, por sua vez, mantinha o seu olhar de cervo obediente e gentil.
Depois, o comerciante se aproximou para cochichar algo no ouvido do akielon, mas se afastou rapidamente quando se deparou com Damen, que se aproximava dos dois.
"Majestade Lamen!"
O rei de Akielos olhou com alguma curiosidade a cena inusitada. Ele não se recordava de já ter visto Charls e Isander interagindo anteriormente. Será que o comerciante de tecidos veretiano estava cortejando o escravo recém-liberto de Laurent?
Isander parecia um pouco surpreso com a chegada de Damianos e se mantinha carregando a sacola próxima ao corpo como se quisesse escondê-la. A sua cabeça permanecia baixa perante o rei e havia uma tensão em seu rosto. Por fim, o servo akielon, com um gesto profundo, pediu licença e se retirou.
Damen ergueu as sobrancelhas, dirigindo-se a Charls.
"Vejo que você e Isander estão se tornando... íntimos...?"
Charls corou um pouco, dizendo um tanto sem jeito:
"Sem dúvida, o serviçal akielon é um homem de constituição forte e bela e que mexe com os sentidos de um homem como eu, Lamen. Mas não é o caso de um cortejo. Estava lhe entregando somente algumas sobras de tecido a pedido do rei de Vere..."
Lady Vannes, que passou pelos dois homens, conversando com uma cortesã, despediu-se da outra mulher e se incluiu na conversa. A máscara de serpente repousava sobre a sua cabeça, revelando o rosto inteligente, os olhos astutos e o nariz um pouco grande da veretiana, embaixadora em Vask.
"Como está se desdobrando a dança entre as nações-irmãs e as nações vizinhas?" — indagou ela, bebendo vinho.
"Com Laurent e a imperatriz fazendo barbárie verbal..." — respondeu Damen.
Vannes moveu os olhos, certificando-se que ninguém os escutava.
"A imperatriz, talvez, em algum momento, tenha achado que o rei de Vere fosse um desses garotos melindrosos que dão gritinhos com qualquer esbarrão e que não conseguem lidar com uma mulher como ela. Vishkar não poderia estar mais enganada. Mas devo dizer que até que gosto da imperatriz. Adoraria tê-la em minha cama, mas para uma embaixadora, é proibido o envolvimento com a chefe de Estado da nação vizinha."
Damen olhou ao redor e viu Vishkar conversando com Torgeir. Ao seu lado, ela tinha Pari de Skarva banhada em ouro e atraindo os olhares das pessoas próximas ao retirar a sua máscara de leopardo.
"...Mas a beleza de Pari chega a ser enlouquecedora..." — declarou Vannes com a voz distante, olhando em direção à vaskiana. Seus lábios estavam entreabertos como se aspirasse Pari.
Charls concordou:
"Eu havia dito para a Majestade que ela é uma mulher bastante singular..."
Damen fitou Vishkar interromper durante algum momento a sua conversa com Torgeir para acarinhar o rosto de sua consorte.
Depois, quando o rei de Patras as deixou sozinhas, as duas mulheres se beijaram com profundidade e o rei de Akielos captou Nikandros hesitando entre seguir Torgeir e permanecer próximo, favorecendo as duas vaskianas que se agarravam de um modo mais efusivo com o seu olhar. Mas o kyros era muito leal ao seu rei e, aprumando-se, ele se preparava para deixar o recinto no encalço de Torgeir.
Naturalmente, em Akielos, havia lésbicas e mulheres que gostavam de dormir tanto com homens quanto com mulheres, mas não era comum as demonstrações públicas de prazer entre qualquer casal no reino akielon e Damianos ainda se lembrava do impacto que o sexo ao ar livre lhe causara quando ele viera como escravo para Vere.
Observando as expressões desamparadas de Pallas e de Aktis ao verem pessoas ensaiando se devorarem na festa, Damen constatou que deveria ter informado melhor os seus homens, aqueles leões assustados, sobre o que deveriam esperar encontrar na capital veretiana.
Lady Vannes, observando Pari deslizar o dedo sob a blusa de Vishkar, declarou com um suspiro:
"Se não fosse pelo protocolo de embaixadora..."
"Vishkar disse que Pari foi uma escrava..." — comentou Damen.
Lady Vannes assentiu.
"Sim, uma concubina. Aliás, a história de Pari é demasiadamente impressionante. Ela foi retirada das tribos de mulheres caçadoras quando mais jovem pelo próprio pai e atuou em um prostíbulo em Skarva, o que é degradante para uma mulher dos clãs. O imperador, com pena, a acolheu por algum tempo como uma espécie de companhia para cavalgadas, parceira de treinos e mesmo a incluiu em sua própria guarda com um gesto de generosidade..."
Damianos viu Pari se aninhar no abraço de Vishkar.
"E o que aconteceu?"
"A imperatriz se apaixonou pela favorecida do esposo e a tomou, declarando-a sua concubina. Algum tempo depois, a imperatriz elegeu Pari sua consorte, dando-lhe um casamento pomposo e preterindo o próprio imperador ao trazer Pari para Vere..."
Damen pestanejou um pouco pensativo.
"Existem outras consortes?"
"Duas. Junity, que pertenceu à Guarda Nacional, e Mircela, que também era uma concubina. Vask é uma nação declaradamente polígama. Os vaskianos acreditam que o amor monogâmico deixa as pessoas egoístas e mesquinhas. A monogamia é um tabu tão grande em Vask quanto é o sexo fora do matrimônio entre homens e mulheres em Vere. Mesmo as consortes e o imperador têm liberdade para se deitarem com quem desejarem, desde que retornem para os seus lares. Em Vask, não existem os problemas de bastardos reais porque uma mulher sempre sabe quem são os seus filhos e sabe como evitá-los se não os desejar. No entanto, creio que, por baixo dos tabus sociais, sejamos todos humanos já que Vishkar parece gostar de Pari acima dos outros..."
Damen refletiu sobre a sua própria situação como Majestade de Akielos em que se esperava que o rei se ligasse a uma mulher e tivesse outras amantes em sua corte, garantindo filhos e herdeiros saudáveis ao reino. Theomedes desposara a mãe de Damen, Egeria, e fora dedicado também à Hypermenestra, mãe de Kastor, garantindo herdeiros a Akielos.
Mas Damianos estava ligado a Laurent de Vere e desde que eles iniciaram o seu cortejo há dois anos, o akielon não se sentira inclinado a procurar outras camas e evitava pensar na questão dos herdeiros.
Com um senso prático e racional, era possível que, quando chegasse o momento, Laurent impelisse Damen a tomar uma mulher para gerar filhos, assim como o impelira, certa vez, a dormir com vaskianas para estabelecer alianças com o clã de Halvik. E era essa a racionalidade altruísta que se esperava de um rei.
Mas, por que, então, Damen, quando pensava na questão, sentia-se mal com a possiblidade de estar com outra pessoa, estando com Laurent? Assim como se enciumaria se o veretiano procurasse outra cama.
Ruborizando um pouco, Damen pensou, certa vez, que se pudesse escolher alguém com quem gostaria de ter filhos seria justamente Laurent. Uma criança dos dois teria, certamente, a astúcia, a nobreza e o senso de justiça do veretiano. Características fundamentais a um rei. Características que o akielon admirava muito. E Damen refletia que seria belo observar Laurent demonstrando a sua doçura, a qual somente algumas pessoas tinham o privilégio de ver, dedicada a um filho.
Mas Laurent já declarara uma vez que a sua linhagem terminaria com ele e Damianos não sabia como seria o futuro. Ele não queria adicionar pressão ao relacionamento dos dois. Mas o que ele sabia era que não tomaria uma amante por protocolo, estando o seu coração voltado inteiramente para Laurent de Vere. Enquanto o veretiano o quisesse, ele permaneceria ao seu lado inclinado a um senso de fidelidade que independia de normas.
Damen, com uma reverência educada, despediu-se de Charls e de lady Vannes e passeou um pouco mais pelo Salão.
A uma distância, ele viu o imperador se afastar do conselheiro Mathe e permanecer um tempo espreitando Vishkar e Pari. Com um abandono em sua expressão, Sorem de Ver-Tan, então, respirou fundo e caminhou até o balaústre da sacada, deslizando o indicador discretamente pelo canto do seu olho.
O rei de Akielos espreitou o salão e observou Laurent conversando com Torveld e Erasmus, próximo a um dos inúmeros candeeiros.
Quando os olhares dos dois se encontraram, o akielon e o veretiano se encararam por um tempo significativo em que Laurent inclinou discretamente a cabeça em um comando tácito.
Tomando duas taças de vinho da bandeja de um serviçal veretiano, Damen, então, seguiu o imperador até a sacada, colocando-se ao lado dele sob os jasmins-estrela e jasmins-anões. Do balaústre, era possível ver os jardins do palácio tomados por nobres passeando com os seus acompanhantes ou escravos.
Sorem tinha o seu olhar fixo em um ponto específico quando Damianos o abordou, servindo-o uma das taças de vinho. Próximo à fonte de mármore do jardim, a silhueta de uma nobre vaskiana carregava uma criança enrodilhada em um manto e parecia ser ela que o imperador acompanhava com o olhar.
"Permita-me, Majestade Imperial..."
A comunicação vaskiana de Damen melhorara muito graças à rigidez de Laurent, que, quando percebeu o hiato de palavras e gramática, verbos e a dificuldade em terminar frases do amante, forçou-o a conversar em vaskiano com ele durante meses inteiros. Quando Damen errava algum termo, Laurent o corrigia ou melhorava a sua entonação, repetindo pacientemente a palavra da maneira correta.
Em muitos aspectos, Damen julgava que Theomedes, que sempre repetia que era importante saber a língua das nações amigas e inimigas, gostaria do jeito de Laurent que preenchia lacunas com determinação severa. Contudo, encontrando-se em um ponto tão importante de seu governo, Damen utilizou o veretiano, que lhe era fluente, para abordar Sorem.
O homem de feições delicadas voltou os seus olhos esverdeados como o mato queimado pelo sol para Damianos, ruborizando levemente.
De perto e sem a tensão anterior, o akielon podia observar detalhadamente os traços do vaskiano. Ele possuía olhos estreitos e um ângulo sensual em seu queixo. Segundos antes, ele estava com as mãos nos bolsos e o seu corpo magro descansava numa curvatura elegante. O seu olhar variava entre a vivacidade e o cansaço.
"Muito obrigado, Vossa Majestade de Akielon. O vinho veretiano é mais doce do que a bebida de Vask, ouvi dizer... Pode me chamar de Sorem."
"Nesse caso, devo lhe pedir que me chame pelo meu nome também..."
"Como quiser, Damianos..." — sorriu Sorem, levando a taça à boca, antes de remexer o conteúdo com movimentos circulares do copo.
"É a sua primeira vez em Vere?" — indagou Damen, fingindo displicência.
"Não, eu atuei como embaixador durante o período da guerra, mas jamais havia visto nada de Vere além das montanhas de Varenne. E o Regente e seus homens me recebiam na fronteira de Vask com uma notória má vontade no período em que ele governou Vere. Um homem de difícil trato, o Regente, devo dizer... Aquela criança que o acompanhava e o modo como ele a tocava, que a carregava sobre os joelhos enquanto falava... me dava arrepios."
Damen baixou o seu olhar, inferindo que Sorem se referia a Nicaise.
"... É bom de qualquer forma ver um jovem rei no trono de Vere. Acredito que as novas gerações sempre possam trazer mudanças para o mundo..." — E, sorrindo para Damen, ele acrescentou — "Em Vask, acreditamos que as melhores coisas vêm em pares. Dois reis em ascensão. Ouvimos sobre a história fascinante de Damianos de Akielos e de Laurent de Vere em Skarva."
"Há muitas mentiras nas histórias contadas..."
Sorem deu de ombros, apoiando os seus cotovelos no balaústre e observando a festa com um tom amargurado em sua voz.
"Há muitas mentiras sempre..."
Damen estudou o rosto do vaskiano por alguns segundos, antes de voltar a sua atenção também para a festa, tentando descobrir o ponto em que o olhar de Sorem se fixava. Por fim, o akielon perguntou, sem meandros:
"Por que a imperatriz de Vask o designou para uma tarefa abaixo da sua autoridade, Majestade Imperial?"
Sorem bebeu um gole do vinho e fechou os olhos, achando-o, possivelmente, forte.
"Eu não devia estar aqui. Vishkar elegeu Pari a sua consorte favorita e se pudesse, a transformaria em imperadora hoje mesmo. Eu deveria ter ficado em Skarva cuidando das meninas enquanto Vishkar esquece do nosso juramento de matrimônio..."
Damianos olhou para a sua taça, demonstrando algum recato, antes de perguntar, fingindo desconhecimento:
"Como a imperatriz conheceu Pari de Skarva?"
"Eu e Vishkar estávamos casados há três anos. O antigo imperador morreu em uma caçada e sendo eu primo de terceiro grau de Vishkar, fui escolhido pela imperatriz para cônjuge. Quando eu trouxe Pari para a corte, retirei-a de um dos piores bordéis clandestinos de Skarva. Ela estava drogada e inconsciente, sendo violada por incontáveis homens. Soube que ela foi trazida do seu clã e iludida de alguma forma pelo próprio pai. Então, eu a acolhi. Dei-lhe uma vida digna no palácio e a coloquei em minha própria guarda. Uma mulher vaskiana do clã nunca perde a ligação com a luta e com a caça. Então, achei que isso acalmasse o seu espírito, o seu orgulho machucado. Eu não tenho o gosto sexual por mulheres e foi fácil para Pari acreditar em mim, assim como foi fácil para eu acreditar nela..."
Damen se recordou de quando fora trazido para Vere como escravo há poucos anos atrás e fora mantido prisioneiro e inconsciente num navio. Os escravos akielons como Erasmus sofreram violências terríveis nas mãos de homens cruéis. O rei de Akielos já ouvira dizer que alguns homens nutriam um desejo mórbido de domesticar uma mulher de algum clã vaskiano, que, por natureza, era selvagem e livre feito uma fera. A história de Pari era terrível.
"...Mas tudo mudou quando Vishkar colocou os olhos em Pari. A princípio, ela a deixou como parte da minha guarda, mas as duas eram vistas sempre conversando. Depois, Pari ascendeu como concubina e por último, consorte... Pari não me quer por perto hoje em dia e Vishkar faz todos as suas vontades. Por isso, fui impossibilitado de vir, mas não segui a ordem de Vishkar. Sinto-me excluído, mas creio que fiz por merece estar aqui. Por isso, fui rebaixado como punição diante das cortes vizinhas e dos próprios vaskianos. É muito poderoso o vínculo entre as mulheres, não é mesmo...?"
Damen observou à distância, as duas leopardas com as suas máscaras realojadas dançarem juntas no Grande Salão e serem observadas com fascínio pelos visitantes. Vishkar e Pari pareciam ter entre si o tipo de eletricidade e magnetismo animal revestido por paixões que acontece raras vezes na vida de uma pessoa.
Nesse ínterim, Isander fez ressoar o clarim, anunciando que o jantar seria servido e Damen, com polidez, resgatou a taça vazia do vaskiano e a depositou na bandeja de um serviçal que passava.
"Lamento por qualquer infortúnio, Sorem de Ver-Tan. Saiba que a sua presença é muito apreciada em Arles e que respeitamos as autoridades de Vask sem distinção. Por favor, desfrute da festa..."
Damen fez uma reverência educada, anunciando que ele estava se retirando, mas, nesse momento, Sorem segurou o braço do akielon com os seus dedos pálidos como algodão, murmurando em um akielon muito baixo:
"Damianos, não confie em Vishkar e em Pari. Elas vão tentar forçar Vere e Akielos a ingressarem em uma guerra. Pari de Skarva anseia por uma guerra mais do que tudo, como uma guerreira dos clãs..."
Damen observou a figura nervosa do homem diante de si. Tocando em sua mão, ele a sentiu trêmula.
"... Posso ser punido por lhe dizer isso, mas, por favor, me escute!"
Damen observou o seu redor, olhando as pessoas que se movimentavam até as mesas. Contraindo as sobrancelhas, ele indagou:
"Como posso ter certeza de que está dizendo a verdade?"
Sorem apertou os olhos, antes de observar também as pessoas ao seu redor. Damen percebia agora um soldado com a máscara de leopardo se detendo entre os convidados e mirando na direção dele e do imperador vaskiano.
"Na hora da entrega dos presentes dados pelas nações de Vask e de Patras, Torgeir presenteará o rei de Vere com uma safra da bebida feita com a melhor cevada patrana. Eu serei incumbido de presentear Vere com uma joia de Vask. Era uma função atribuída à Pari, mas estando eu aqui, o direito é concedido a mim. Depois, Vishkar dará, então, a sua cartada final para colocar o rei em uma situação delicada. Ela oferecerá para Laurent de Vere alguém de seu concubinato para ele levar para a cama ao estilo veretiano. Em Vask, um presente recusado é como dizer a alguém que não é bom o suficiente e que não dispõe de boas coisas. Presentes são extremamente valorizados em minha terra. Se Laurent de Vere recusar, será como dizer que Vask é inferior. Será como cuspir na cara da imperatriz."
Damen se manteve parado, tentando assimilar as informações que lhe eram ditas em sua língua.
"Estamos em Vere! Laurent agirá conforme os seus costumes e recusará!"
"Vishkar pensou muito bem em tudo. Se o rei de Vere recusar o presente, pisará no orgulho vaskiano e ela usará isso como pretexto. Se ele aceitar o presente, estará se servindo da escravidão de outro país e os seus ideais de abolição serão afetados... Qualquer que seja a decisão, isso acarretará em consequências graves. Mas, escute, eu pensei num plano. Eu vou agir de um modo que Vishkar não poderá declarar guerra à Vere, Majestade. Eu não desejo a guerra para o meu povo! Eu perdi a minha mãe na guerra!"
Damen observou à distância, Laurent conversar ainda com Torveld e Erasmus. Depois, observou o soldado vaskiano se aproximar em uma linha reta em sua direção. Sorem empalideceu ainda mais, o que parecia impossível dada a brancura de sua pele. O sangue de seus lábios fugira.
Diante do rei de Akielos e do imperador, o guarda de Vask fez um gesto solene, antes de retirar a máscara de leopardo.
Ele era um soldado de corpo alongado com a pele oliva e os cabelos escuros e lisos. Falando em vaskiano, ele se anunciou:
"Majestade de Akielos, com licença, a imperatriz solicitou que eu acompanhasse Sorem de Ver-Tan até a mesa."
Damen julgou ver o imperador engolir em seco, antes de replicar em vaskiano, sem alterar a delicadeza em sua voz:
"Então, preciso de uma escolta agora até mesmo para ir jantar? Não demorará muito para que me sigam até o banheiro quando eu for mijar. Vai se foder, Nabsib! Eu vou sozinho!" — declarou o imperador com uma contração na boca. E, voltando-se para Damianos, com um olhar expressivo, ele declarou em akielon, tocando a mão de Damen — "Foi um prazer conversar com você, Majestade de Akielos. Por favor, lembre-se do que eu lhe disse..."
Damen permaneceu fitando um tempo Sorem passar pelo soldado chamado Nabsib com o rosto baixo e reservado. O guarda vaskiano fez uma mesura solene e desapareceu na festa, seguindo o imperador.
O rei de Akielos deixou a sua taça sobre o balaústre e se dirigiu para a mesa destinada aos reis, da qual Laurent se aproximava. O veretiano foi interceptado por um momento por Herode e, após breves palavras, sinalizou para que os membros do Conselho ocupassem a mesa real também. Contornando algumas pessoas, Damen, finalmente, alcançou o pulso delicado de Laurent sobre o qual o bracelete dourado se fechava.
"Sentiu a minha falta, querido?" — perguntou o veretiano, mirando a mão de Damianos ansiosa em seu braço.
"Descobri coisas muito importantes, Laurent..."
"Vai ficar feliz também com o que eu descobri..."
Damen, erguendo o olhar brevemente para os arranjos no salão e se sentando no lugar ao lado de Laurent destinado a ele, declarou:
"É uma armadilha, o presente de Vask..."
Laurent permaneceu olhando Damen com a sua expressão habitual levemente avaliadora e separou os lábios, perguntando:
"Armadilha?"
Nesse instante, no entanto, os dois homens foram interrompidos pela presença de Torgeir puxando a cadeira de espaldar alto que lhe era reservada, ao lado de Vishkar e Pari de Skarva, que tomavam outros assentos.
Um pouco mais atrás, o imperador, com olhos nervosos fixos no chão, vinha, parecendo pequeno, esquecido e ignorado pela imperatriz.
"Enfim, nos reunimos novamente!" — declarou Torgeir, sentando-se de frente para Damen e Laurent.
