Parte um – A Primeira Mensagem

Ás de espadas – O assalto

Ed pov.

O assaltante é um mané.

Eu sei disso.

O banco inteiro sabe disso.

Até meu parceirão Emmet, que é mais mané do que o assaltante, sabe disso.

O pior de tudo é quo o carro do Emm está estacionado lá fora, e o parquímetro, correndo. Estamos todos deitados aqui no chão de cara pra baixo, e os 15 minutos de estacionamento estão quase acabando.

- Por que esse cara não anda logo com isso? – falo bem baixinho.

- Pois é – Emmet responde. – Que absurdo – o som da voz dele bate no chão e faz aquela vibração seca. – Vou levar uma multa por causa desse otário. Outra multa não dá, Ed. Não to podendo.

- E esse carro aí nem vale a dor de cabeça.

- Como é que é?

Emm olha pra mim. Dá pra sacar que ele está ficando puto. Ofendido. Se tem um lance que o Emm não admite, é que alguém fale mal de seu carro. Ele pergunta de novo.

- O que você disse mesmo, Ed?

Respondo baixinho:

- Eu disse que esse carro não vale a dor de cabeça, Emmet.

- Olha só, eu engulo qualquer desaforo, Ed, mas...

Eu me desligo do que ele está dizendo, porque com toda sinceridade, quando o Emm começa a falar do carro, ninguém aguenta a chatice. Ele não consegue parar de falar, parece até criança; só que dá um tempo! O cara acabou de fazer 20 anos!

A falação continua por mais um minuto até que eu tenho que dar um corte.

- Emm, esse carro é uma vergonha, tá ligado? O troço não tem nem freio de mão, pô! Tá ali parado por causa de dois tijolos que você colocou nas rodas de trás, cara – tento falar o mais baixo possível. – Na maioria das vezes você nem se dá ao trabalho de trancar. Acho que você quer mais é que alguém faça em estrago nele pra você poder receber o seguro.

- Não tem seguro nenhum.

- Tá vendo só?

- O pessoal do Automóvel Clube disse que não valia a pena.

- Dá pra entender.

Nesse momento, o bandido se vira e grita:

- Quem é que tá de papo ai atrás?

Emm não dá a mínima. Está nervosinho por causa do carro.

- Quando eu te dou uma carona pro trabalho, você não reclama, né, seu presunçoso?

- Presunçoso? Que diabo quer dizer isso?

- Ae, já mandei calar o bico ai atrás – o bandido grita de novo.

- ENTÃO ANDA LOGO COM ISSO! – Emm responde todo puto. Agora já era, o cara está com a macaca. Ferrou.

Ele está com a cara virada pro chão do banco.

Está acontecendo um assalto.

Está quente demais para a primavera.

O ar-condicionado está pifado.

Acabaram de avacalhar com o carro dele.

O velho Emm já está a ponto de explodir, ou de enlouquecer, sei lá; a coisa vai ficar feia.

Continuamos esticados no chão, de cara para o carpete azul-claro, velho, sujo, e nós dois estamos ali, um comendo o outro com os olhos. Jasper, um camarada nosso, está com a metade do corpo embaixo da mesa do Lego, deitado entre todas as peças que se esparramaram quando o bandido entrou gritando e sacudindo tudo. Bella está bem atrás de mim, e a minha perna está ficando dormente porque o pé dela está bem em cima.

A arma do assaltante está apontada para o nariz de uma infeliz atrás do balcão. O nome no crachá é "Jéssica". Coitada da Jéssica. A garota treme tanto quanto o assaltante enquanto ela espera um zé-mané colocar o dinheiro na sacola – uma figura de 29 anos, com a cara cheia de espinha, usando uma gravata e com o sovaco todo ensopado de suor.

- Pô, por que esse cara não anda logo? – Emm reclama.

- Eu já disse isso. – lembro

- E daí? Não posso fazer um comentário, não?

- Tira o pé de cima de mim – digo pra Bella

- O quê? – ela pergunta

- Eu disse pra tirar o pé de cima de mim... Minha perna tá ficando dormente.

Ela tira, meio que de má vontade.

- Valeu.

O bandido se vira e grita pela última vez.

- Quem é o filho da puta que tá falando?

O negócio com o Emm é o seguinte: mesmo quando tudo está na boa, o cara já é problemático. Gosta de criar uma encrenca. É quase antipático. É aquele tipo de amigo com quem a gente está sempre discutindo – ainda mais quando o assunto é a merda do Falcon, a lata velha. E quando ele não está com a macaca, é um babaca imaturo.

Ele grita de sacanagem:

- É o Ed Masen, moço. É ele que tá de papo.

- Muito obrigado! – eu digo

(Meu nome completo é Edward Masen. Sou taxista, tenho 19 anos. Não sou nada diferente dos outros jovens daqui destes subúrbios – não tenho lá muitos planos pro futuro, e as possibilidades são poucas. Tirando isso, leio mais livros do que deveria, sou um zero à esquerda na cama e não entendo nada de imposto de renda. Prazer.)

- Cala essa boca, Ed! – o bandido grita. – Senão vou até aí e mando chumbo nesse traseiro.

Emm dá uma risadinha.

Parece até que estou na escola de novo, com o professor de matemática – aquele sádico – na frente da sala só dando ordens, quando no duro mesmo ele está cagando e andando, não vê a hora da sirena tocar e poder voltar pra casa, encher o bucho de cerveja e engordar feito um porco de cara pra TV.

Olho pro Emm. Dá vontade de esganar o moleque.

- Qual é, meu irmão? Tá querendo morrer? Você já tem 20 anos na cara.

- Cala essa boca, Ed! – o bandido grita mais alto dessa vez.

Falo mais baixinho ainda:

- Se eu levar um tiro, a culpa é sua. Você sabe disse, né?

- Eu mandei calar a boca, Ed!

- Você está achando isso muito engraçado, não tá, Emm?

- Agora chega – o assaltante deixa de lado a mulher do balcão e se aproxima da gente, puto da vida. Quando ele chega, nós todos olhamos pra ele.

Emm.

Bella.

Eu.

E todos os outros infelizes espalhados pelo chão.

A ponta da arma encosta bem na minha cara, no meio dos olhos. Dá vontade de coçar, mas eu me seguro.

O bandido olha pra frente e pra trás, pra mim e pro Emm. Através da meia fina que colocou na cara, dá pra ver o bigode ruivo e as marcas de espinha. O sujeito tem os olhos pequenos e é orelhudo. É bem provável que esteja roubando o banco para se vingar do mundo por ele ter vencido o concurso de feiura três anos seguidos.

- E então, quem ai é o Ed?

- É ele – respondo apontando pro Emm.

- Ih, sai fora, velho - Emm protesta, e sua cara me diz que ele está muito calmo pro meu gosto. Ele sabe que esse bandido não é de nada, pois, se fosse, a gente já estaria morto. Ele olha pro cara-de-meia e diz:

- Opa, peraí... – ele passa a mão no queixo – Você não me é estranho.

- Tá bom, tá bom – resolvo confessar – Eu sou o Ed.

Só que o bandido está prestando atenção no que o Emm tem a dizer.

- Emm – sussurro alto – cala a boca mané.

- Cala a boca, Emm – Bella manda.

- Cala a boca, Emm! – grita Jasper do outro lado.

- Quem é você, diabo? – o bandido grita pro Jasper, se virando pra descobrir de onde veio a voz.

- Jasper.

- Então nem começa, Jasper. Cala essa matraca!

Tudo bem - a voz respondeu – Valeu!

Todos os meus amigos parecem um bando de idiotas metidos a valentões. Não me pergunte por quê. Como muitas coisas, só sei que é assim.

O bandido então começa a ficar com o sangue fervendo. O suor começa a ultrapassar a meia que esconde o rosto.

- Já to de saco cheio disso – ele resmunga. Quando ele fala, parece que solta fogo.

Só que nem assim o Emm cala a droga da boca.

- Cara, acho que estudamos na mesma escola, sei lá, um troço desse, sacou? – ele continua.

- Tu tá querendo morrer, não tá? – o bandido está uma pilha, ainda fervendo.

- Olha só – Emm explica - , na verdade só tô querendo que você pague a multa de estacionamento pra mim. Não posso passar dos 15 minutos estacionado ali e você tá me prendendo aqui.

- Tô mesmo, e daí? – ele aponta a arma.

- Pra que essa agressividade toda, cara?

Ai meu Deus, eu penso. O Emm já era. Ele vai levar um teco na garganta.

O bandido olha lá pra fora através da porta de vidro, tentando sacar qual é o carro do Emm.

- Qual é o seu carro? – ele pergunta, reconheço até que com educação.

- É aquele Falcon azul-claro ali.

- Aquela porcaria ali? Essa porra não serve nem pra mijar em cima; é ruim de eu pagar multa por ela, hein.

- Opa, alto lá – o Emm fica todo ofendido de novo. – Já que você tá roubando o banco, o mínimo que pode fazer é pagar minha multa, não acha, não?

Enquanto isso.

O dinheiro está pronto pra viagem, e Jessica, a garota do balcão, chama o bandido. O bandido se vira e volta pra lá.

- Anda logo, vadia – ele grita, e ela passa a sacola. Imagino que seja preciso falar assim quando se está assaltando. Ele viu tudo quanto foi filme e prestou bem atenção. Não demora muito e ele volta pro nosso lado, com o dinheiro na mão.

- Você! – o ladrãozinho grita pra mim. Agora que ele está com a grana, parece que se reanimou. O cara prestes a me porrar com a arma quando de repente alguma coisa chama sua atenção lá fora.

Ele olha. Bem pra fora do vidro. Uma gota de suor pinga de seu pescoço.

Ele respira fundo,

Ele fica todo bolado.

Ele diz:

- Essa não!

A polícia está lá fora, mas não faz ideia do que está rolando dentro do banco. A notícia ainda não vazou. Os guardas estão expulsando alguém que estacionou um Torana dourado em fila dupla na porta da padaria do outro lado da rua. O carro rala dali, os guardas também, e o bandido mané fica na mão, sem carona, só com a grana.

Daí ele tem uma ideia.

Ele se vira de novo.

Pra gente.

- Você – ele se dirige ao Emm. – Passa as chaves.

- O quê?

- É isso mesmo que você ouviu.

- Esse carro é peça rara, meu irmão!

- É uma merda rara, isso sim, Emm – sacaneio. – Agora passa logo as chaves pra ele ou quem vai acabar com a sua raça sou eu!

Fazendo uma cara de poucos amigos, Emm enfia a mão no bolso e tira as chaves do carro.

- Toma cuidado – ele pede.

- Chupa meu pau – o bandido responde.

- Ô, não tem necessidade disso! – Jasper grita embaixo da mesa do Lego.

- E você cala essa boca! – o bandido responde aos berros e sai batido.

O problema é que as chances do carro do Emm pegar logo de primeira são de cinco por cento.

O bandido sai varado pela porta do banco e ruma em direção à rua. Ele tropeça e derruba a arma perto da entrada, mas resolve continuar sem ela. De repete, vejo que o cara ficou bolado, na dúvida entre voltar e pegar a arma ou seguir em frente. O tempo é curto e ele continua correndo, deixando a arma pra lá.

Quando ficamos de joelhos pra ver o que o safado está fazendo, vemos ele se aproximando do carro.

- Fica olhando... – Emm começa a rir. Eu, Emm e Bella estamos só de olho, e o Jasper se aproxima da gente.

Lá fora, o bandido dá uma parada e tenta descobrir com que chave abre o carro. Nesse instante, todo mundo começa a rir da incompetência do cara.

Finalmente ele consegue entrar e tenta ligar o carro várias vezes, mas a lata-velha se recusa a dar partida.

Então.

Por algum motivo que nunca vou entender.

Saio correndo, pego a arma no caminho. Quando atravesso a rua, olho bem nos olhos do bandido. Ele tenta sair do carro, mas agora é tarde.

Estou com a arma apontada já janela do Ford.

Estou com a arma apontada nos olhos dele.

Ele para.

Nós dois paramos.

Ele tenta sair e correr, e eu juro por Deus como nem me dou conta de que estou mandando chumbo até que avanço na direção do cara e ouço o vidro se estilhaçando.

- O que é que você tá fazendo? – Emm grita desesperado do outro lado da rua. Caiu o mundo dele. – Você está atirando no meu carro!

Surgem então as sirenes.

O bandido se ajoelha.

Ele diz:

- Que idiota que eu sou!

Eu só concordo.

Por um momento eu olho pra baixo e sinto pena do cara, pois me dou conta de que posso estar olhando para o homem mais azarado e infeliz do planeta. Primeiro, ele rouba um banco onde encontra uma cambada de imbecis como eu e o Emm. Daí o carro que era pra ser usado na fuga some. Aí, quando ele acha que resolveu a situação pegando outro carro, ele encontra a lata-velha mais escrota do hemisfério sul. De certa forma, tenho pena dele. Imagina só que humilhação.

Depois que os guardas tiram o bandido algemado dali, viro pra Emm e digo:

- Tá vendo aí? – continuo e, me empolgo falando mais alto, apontando pro carro – Tá vendo aí? Isso é pra você ver que esse carro é pra lá de escroto! – dou uma parada pra deixar o cara pensar um pouco. – Se essa droga valesse alguma coisa, o malandro teria ralado daqui, concorda?

Emm dá o braço a torcer.

- Acho que sim.

Na verdade , é até difícil saber se pra ele não teria sido melhor se o bandido tivesse fugido, pois assim ele poderia mostrar que a carroça não era tão escrota assim.

É caco de vidro pra tudo quanto é lado: na rua, nos bancos do carro. Tendo decidir quem ficou mais no chão: se foram os cacos de vidro da janela ou se foi a cara do Emm.

- Ae – digo – desculpa aí pela janela. Foi mal.

- Deixa pra lá. – Emm responde.

A arma, que ainda estou segurando, está quente e grudenta, parecendo chocolate derretido.

Chegam mais outros guardas pra fazer perguntas.

Vamos até a delegacia e eles perguntam sobre o assalto, o que rolou e como que a arma foi parar na minha mão.

- Ele deixou cair?

- Foi isso que eu disse, não foi?

- Olhe aqui, meu filho – diz o policial. Ele tira os olhos dos papéis. – Não precisa dar uma de nervosinho pra cima de mim.

O policial tem uma pança de cerveja e um bigode já ficando branco. Por que será que uma porrada de policiais acha que precisa deixar o bigode crescer?

- Nervosinho? – pergunto.

- Isso mesmo, nervosinho.

Nervosinho.

Até que gosto dessa palavra.

- Desculpa aí, seu guarda. Ele deixou a arma cair quando estava saindo do banco, e eu peguei quando fui atrás dele. Foi isso. Ele era do mal, tá ligado?

- A-hã

Passamos bastante tempo lá dentro. A única hora em que o policial perde a paciência é quando não aguenta mais ouvir o Emm exigindo indenização pelo carro.

- O Falcon azul? – o policial pergunta.

- Esse mesmo.

- Filho, vou ser curto e grosso: esse carro é simplesmente um ultraje. É uma desgraça.

- Eu te disse – lembrei.

- Pelo amor de Deus, o carro não tem freio de mão!

- E daí?

- E daí que você não tem sorte de não sair multado. O veículo não tem a menor condição de estar rodando.

- Muito obrigada.

O policial sorri.

- Não tem de quê.

-E vê se segue meu conselho.

Estamos quase saindo quando percebemos que o policial ainda não acabou. Ele manda a gente voltar, ou pelo menos manda o Emm voltar.

- Que conselho? – Emm pergunta.

- Por que não arranja um carro novo, filho?

Emm olha pro cara todo sério.

- Por questões pessoais.

- Tipo o quê? Falta de grana?

- Ah dinheiro não é problema. Fique o senhor sabendo que eu trabalho – ele consegue até parecer o dono da verdade. – Só que tenho outras prioridades.

Ele agora dá um sorriso como só mesmo alguém que tenha tanto orgulho de um carro assim consegue dar. – Além disso, eu adoro meu carro.

- Então tudo bem – o guarda encerra o papo. – Tchau pra você.

- Quer fazer o favor de me dizer que prioridades são essas que você tem? Logo você? – pergunto pro Emm depois que a gente sai da sala.

Emm olha pra frente, todo esquisito.

- Vê se cala a boca, Ed – ele diz. – Uma porrada de gente pode até ter te achado um herói hoje, mas, pra mim, você não passa de um babaca que meteu bala na janela do meu carro.

- Se você quiser, eu pago pelo estrago.

Ele dá mais um sorriso.

- Não precisa.

Pra ser sincero, é um alivio. Prefiro a morte do que ter que colocar um centavo furado naquele Falcon.

Quando saímos da delegacia, Bella e Jasper estão lá fora esperando, mas não estão sozinhos. Tem uns jornalistas por perto e tiram uma porrada de fotos.

- É aquele ali! – alguém grita; quando vejo, a galera toda está em cima de mim, fazendo perguntas . Tento responder tudo rapidinho, explicando mais uma vez o que aconteceu. Não moro numa cidade pequena e aqui tem gente do rádio, da televisão e dos jornais, todos eles vão escrever e matérias e mostrar os acontecimentos no ida seguinte.

Imagino as manchetes.

Até que seria bem maneiro alguma coisa do tipo: "TAXISTA VIRA HERÓI", mas é bem provável que eles publiquem algo assim: "MALANDRO TOMA VERGONHA E FAZ ALGUMA COISA QUE PRESTE". Emm vai morrer de rir dessa.

Depois de mais ou menos uns dez minutos de perguntas, o povo vai embora e a gente volta pro ponto onde o carro está estacionado. Encontramos uma bela de uma multa presa entre o limpador e o para-brisa do Falcon.

- Filhos-da-puta – protesta Bella, enquanto Emm pega o papel pra ler. A gente estava no banco porque o Emm ia depositar o salário dele. Ele agora vai usar a grana pra pagar a multa.

Tentamos retirar os vidros dos bancos para podermos entrar. Emm tenta fazer o carro pegar umas oito vezes , só que nada.

- Que ótimo – ele diz.

- Grande novidade – responde Jasper.

Eu e Bella ficamos na nossa.

Bella assume o volante enquanto a gente empurra. Levamos a lata velha pra minha casa, que fica mais perto do centro.

Alguns dias depois, recebo a primeira mensagem.

Isso muda a coisa toda.

Nota da tradutora:. E ai gente? Capitulo grande não?... Olha a fic é dividida em cinco partes, com cada uma delas com 13 capítulos... Ao decorrer mande suas dúvidas que eu respondo no próximo capítulo... Se deixarem reviews posto um bônus na quinta...

Bjs ficnets ;*