Parte um – A Primeira Mensagem

3 de ouros – Ás de ouros

Ed. Pov.

Os jornais aqui da cidade publicaram algumas matérias sobre o assalto que rolou no banco. Estão dizendo que eu tirei a arma do bandido depois de o seguir e sair no braço com ele. É bem coisa de jornal mesmo. Eu sabia que eles iam inventar história.

Eu sento na mesa da cozinha e dou uma passada rápida em algumas dessas matérias; Porteiro só fica ali de butuca, como sempre. Ele tá cagando e andando se eu sou herói. A única coisa que interessa pra ele é encontrar a comidinha ali na hora certa.

Abro uma cerveja pra minha mãe, que resolve dar uma passada aqui. Diz que está toda orgulhosa. Segundo ela, todos os filhos se deram bem, menos eu, mas agora pelo menos eu dei um motivo de orgulho, ainda que só por uns dois dias.

"Esse aí é meu filho", dá pra imaginar a coroa dizendo pra todo mundo com quem ela esbarra pelas ruas. "Eu não disse que um dia ele ia fazer alguma coisa que prestasse?"

Emm e Jasper, é claro, dão as caras por aqui.

Até a Bella vem me visitar com o jornal embaixo do braço.

Todos os artigos me citam como um taxista de 20 anos, Ed Masen, já que menti pra todos os repórteres sobre minha idade. Quando se mente uma vez, é preciso manter a mesma história do começo ao fim. Isso não é novidade pra ninguém.

Minha cara confusa aparece estampada em todas as manchetes; o negócio fica tão bom que um belo dia, quando estou saindo pra comprar leite, recebo a visita inesperada de um radialista que aparece pra gravar uma entrevista comigo. Ofereço um cafezinho pro cara, mas tenho que servir preto mesmo, já que não tem leite na casa.

Noite de terça-feira. Chego do trabalho e pego as correspondências na caixa de correio. No meio das contas pra pagar — luz e gás — e de umas propagandas, tem um envelope pequeno. Jogo tudo na mesa e deixo pra lá. Meu nome está escrito com uns garranchos e fico curioso pra saber do que se trata. Vou pra cozinha e, enquanto preparo um sanduba, fico pensando em ir logo lá abrir o troço pra saber o que é. Só que acabo esquecendo.

Já é bem tarde quando resolvo abrir o envelope.

Passo a mão.

Sinto alguma coisa.

Sinto um negócio solto dentro do envelope quando rasgo pra ver o que é. A noite está fria, como em toda primavera.

Eu tremo.

Vejo meu reflexo na tela da TV e na foto de minha família.

Porteiro ronca.

O vento sopra lá fora.

A geladeira chia.

Por um instante, parece que tudo pára pra me ver tirar uma carta velha de baralho lá de dentro do envelope.

E um ás de ouros.

Na luz fraca de minha sala, seguro a carta com cuidado, como se ela fosse quebrar ou amassar na minha mão. Tem três endereços escritos nela com a mesma letra do envelope. Leio devagar, com todo o cuidado. Tem uma vibe sinistra passando pelas minhas mãos. A vibe penetra no meu corpo e corre tudo, corroendo silenciosamente meus pensamentos. Leio:

Rua Edgar, nº 45, meia-noite.

Avenida Harrison, nº 13, 18:00.

Rua Macedoni, nº 6, 5:30 da manhã.

Abro a cortina e olho lá pra fora.

Nada.

Passo por cima do Porteiro e paro na varanda.

— Oi! Tem alguém aí? — grito.

Só que, mais uma vez, nada.

A brisa se afasta — quase que envergonhada por ter presenciado aquele mico — e fico lá, parado. Sozinho. A carta ainda está na minha mão. Não conheço esses endereços, ou, melhor dizendo, não conheço muito bem. Conheço as ruas, mas não tenho ideia de onde ficam as casas.

Com certeza é a coisa mais estranha que já me aconteceu.

Quem iria me enviar um lance desse?, pergunto pra mim mesmo. O que foi que eu fiz pra receber uma carta velha de baralho na minha caixa de correio, com uns endereços esquisitos rabiscados nela? Volto lá pra dentro e me sento na cozinha. Tento entender o que está acontecendo e quem me enviou esse negócio que pode até ser alguma coisa do destino. Uma porrada de caras me vem à cabeça.

Será que foi a Bella?, pergunto. O Emm? Jasper? Mamãe? Não faço a menor ideia.

Alguma coisa me diz que é melhor jogar a carta fora — melhor jogar na lata de lixo e esquecer. Mas sinto uma dor na consciência só de pensar em fazer isso.

Talvez seja o destino mesmo, penso.

Porteiro se aproxima e dá uma fungada na carta.

Que merda, dá pra ver ele pensando. Pensei que fosse alguma coisa de comer. Depois de cheirar pela última vez, ele dá uma parada e tenta decidir o que vai fazer em seguida. Como sempre, ele volta se arrastando pra porta, dá meia-volta e se deita. Ele se acomoda no conforto do pelo preto e dourado. Seus olhões brilham, mas também caem na escuridão profunda. Estica as patas no carpete velho e áspero.

Ele olha pra mim.

Eu olho pra ele.

E aí?, vejo ele pensar. Que diabos você quer?

Nada.

Bom.

Legal.

E fica tudo por isso mesmo.

Só que ainda estou segurando o ás de ouros, só pensando.

Liga pra alguém, digo a mim mesmo.

O telefone se apressa e toca. Talvez seja a resposta que estou esperando.

Tiro o fone do gancho e enfio na orelha. Chega a machucar, mas escuto com toda a atenção. Infelizmente, é minha mãe.

— Ed?

Conheço essa voz em qualquer lugar. Sei também que é certo desta mulher gritar, pois é o que ela faz sempre que fala ao telefone.

— Oi, mãe, tudo bem?

— Tudo bem é o caramba! Não se faça de desentendido, mocinho. Ninguém merece... E ela continua:

— Você não esqueceu de nada hoje, não?

Penso um pouco, tentando me lembrar. Não me vem nada à cabeça. A única coisa que consigo ver é a carta que estou virando na mão.

— Mãe, não faço a menor ideia.

— Você não muda mesmo! — e ela vai ficando puta. — Você ficou de pegar a mesinha de centro pra mim lá na KC, Ed! — ela se esgoela tanto que dá pra sentir o cuspe bater no meu ouvido. — Seu filho-da-puta!

Ela é um doce de criatura, né, não?

Como já mencionei antes, minha mãe tem uma boca pra lá de suja. Ela xinga o dia inteiro, todos os dias, não importa se está feliz, triste, indiferente, qualquer coisa. E claro que ela põe a culpa em mim e no Tommy. Diz que, quando a gente era pequeno e jogava bola no quintal, ficava xingando feito louca.

"Eu desisti de tentar dar um pára em vocês", ela sempre me diz. "Daí pensei: se não posso com eles, vou me juntar a eles."

É um milagre quando consigo levar um papo com ela sem ser pelo menos uma vez chamado de veado ou filho-da-puta. O pior dessa história é que ela xinga com toda a força. Sempre que me chama de alguma coisa desse nível, o palavrão sai cuspido de sua boca, parecendo até que ela está vomitando o negócio em cima de mim.

A velha continua reclamando, mas minha cabeça está longe. Daí volto a prestar atenção.

— ... e o que vou fazer quando dona Clearwater aparecer aqui pra tomar chá de manhã, Ed? Vou servir no chão?

— Diga que a culpa é minha, mãe.

— Ah, mas você não tenha dúvida de que vou dizer isso mesmo. Vou dizer que o merda do Ed esqueceu de pegar minha mesa.

O merda do Ed.

Odeio quando ela me chama assim.

— Não se preocupa, mãe.

Ela continua a encher o saco mais um tempo, só que eu volto a me concentrar no ás de ouros. A carta brilha em minha mão.

Eu toco nela.

Seguro.

Sorrio.

Olhando pra ela.

Esta carta tem um certo tipo de vibe e foi enviada pra mim. Não pro filho-da-puta do Ed. Pra mim — o verdadeiro Ed Masen. O futuro Ed Masen. Não mais o cara que vai morrer como taxista.

O que faço com esta carta?

Quem vou ser?

— Ed?

Não respondo.

— Ed? — a velha grita.

Volto pra conversa.

— Você tá prestando atenção?

— Tô... claro que tô.

Rua Edgar, nº 45... Avenida Harrison, nº 13... Rua Macedoni, nº 6...

— Foi mal, mãe — repito. — Eu me esqueci. Peguei uma porrada de passageiros hoje. Muito trabalho na cidade. Amanhã eu pego, falou?

— Tem certeza?

— Tenho, sim.

— Você não vai esquecer?

— Não.

— Então tá. Tchau.

— Peraí! — falo correndo.

Ela volta.

— O que é?

Luto pra conseguir abrir a boca, mas preciso perguntar pra ela. Sobre a carta. Decidi que devo perguntar pra todo mundo de que eu desconfio que tenha mandado o treco. Melhor começar pela minha mãe.

— O que é? — ela pergunta de novo, dessa vez um pouco mais alto. Consigo abrir a boca, e cada palavra parece brigar feio, tentando não sair.

— A senhora mandou alguma coisa pra mim pelo correio hoje?

— Tipo o quê?

Dou uma parada.

— Tipo um negócio pequeno...

— Tipo o que, Ed? Eu não tô com tempo pra isso.

Está bem. Tenho que dizer.

— É uma carta de baralho, um ás de ouros.

Ela não fala nada. Está pensando.

— E aí? — pergunto.

— E aí o quê?

— Foi a senhora que mandou a carta?

Percebo que ela já está de saco cheio. Uma sensação esquisita cruza a linha, enfia a mão pelo fone e me dá um sacode.

— Claro que não fui eu! — é como se ela estivesse retaliando alguém. — Por que diabos eu me daria ao trabalho de te mandar uma carta de baralho pelo correio? Eu deveria ter mandado um lembrete pra pegar — e ela volta a se esgoelar — A PORRA DA MINHA MESINHA!

— Tudo bem, tudo bem...

Por que ainda estou tão calmo?

Será a carta?

Não sei.

Mas daí, sim, eu sei. É porque eu sou sempre assim. Tão calmo que chega a ser patético. Eu deveria mandar a vacona calar a matraca, mas nunca fiz isso e nunca vou fazer. Afinal, ela não consegue ter uma relação assim com nenhum dos meus irmãos. Só comigo. Quando eles aparecem pra visitar (uma raridade), ela só falta beijar os pés deles, e eles se mandam de novo. Comigo pelo menos ela tem consistência.

Eu digo:

— Tá bem, mãe, só tava querendo saber se foi você. Só isso. É que achei estranho receber uma carta de baralho pelo...

— Ed? — ela me corta, com a voz de quem está de saco cheíssimo.

— O que foi?

— Vai tomar no cu, tá?

— Tudo bem, até amanhã.

— Tá, tá.

Desligamos.

Aquela porra de mesinha de centro.

Eu sabia que estava esquecendo alguma coisa quando estava voltando pra casa. Amanhã dona Clearwater vai aparecer por lá querendo conversar sobre meu heroísmo no banco. Tudo que ela vai ouvir é minha mãe dizendo que eu esqueci de pegar a mesinha de centro. Nem sei ainda como vou enfiar aquele trambolho no meu táxi.

Faço de tudo pra parar de pensar no assunto. Não tem a menor importância. Preciso, isso sim, descobrir por que esta carta veio parar aqui e de onde ela veio.

É alguém que conheço.

Isso é certo.

É alguém que sabe que eu estou sempre jogando cartas. Ou seja, só pode ser o Emm ou a Bella ou o Jasper.

Emm não é, com certeza. Jamais poderia ser ele. Ele não seria tão criativo assim.

Daí vem o Jasper. Duvido muito que tenha sido ele. Não parece ser o tipo de pessoa que faz um negócio desse.

Bella.

Digo a mim mesmo que é muito provável que tenha sido a Bella, mas não sei, não.

Alguma coisa me diz que não foi nenhum deles.

Às vezes a gente joga cartas na varanda aqui de casa, ou na varanda de outra pessoa. Centenas de pessoas podem ter passado e visto a gente jogando. De vez em quando, quando rola um bate-boca, o pessoal que está passando ri e grita perguntando quem está roubando, quem está ganhando e quem está reclamando.

Logo, pode ter sido qualquer pessoa.

Não consigo dormir.

Só fico pensando.

De manhã, acordo mais cedo do que de costume e saio andando pela cidade com Porteiro e um guia de ruas, procurando cada casa. A da Rua Edgar é uma espelunca caindo aos pedaços, bem no fundo da rua. A da Harrison é meio velha, mas decente. Tem um canteiro de rosas na varanda, mas a grama está amarela e maltratada. A da Macedoni fica nas colinas. Parte grã-fina da cidade. É um casarão de dois andares com uma entrada bem inclinada para a garagem.

Saio pra trabalhar e penso.

Naquela noite, depois de levar a mesinha de centro pra minha mãe, dou uma passada no Jasper e a gente joga cartas. Eu conto pra galera. Conto pra todos eles de uma vez só.

— Você tá com ela aí?

Balanço a cabeça dizendo que não.

Antes de ir dormir ontem, eu guardei a carta na primeira gaveta do armário do meu quarto. Nada vai tocar nela. Nem um ventinho sequer. Ela é a única coisa dentro da gaveta.

— Não foi nenhum de vocês, foi? — pergunto. Resolvi que não posso ficar fazendo muitos rodeios.

— Eu? — pergunta o Emm. — Acho que todo mundo aqui sabe que eu não sou inteligente assim pra inventar um lance desse nível — ele encolhe os ombros. — Além disso, eu não perderia meu tempo criando uma parada pra pegar alguém como você, Ed.

Como sempre, baixou o senhor Encrenqueiro.

— É isso mesmo — Jasper concorda. — Emm é casca-grossa demais pra um negócio desse.

Agora que se manifestou, o Jasper fica calado. Todos nós olhamos pra ele.

— O que foi, pessoal?

— Foi você, Jasper? — Bella pergunta.

Com o polegar, ele faz sinal na direção do Emm e diz:

— Se ele é burrão, eu sou preguiçoso — ele estica os braços. — Olha só pra mim: eu sou o maior vagabundo que existe. Passo metade dos dias na casa de apostas. Ainda moro com meus pais...

Deixa eu contar um lance que você ainda não sabe: o Jasper nem se chama Jasper de verdade. O nome dele é David Withlock. Nós o chamamos de Jasper porque ele tem uma tatuagem do Jimi Hendrix no braço direito, mas todo mundo acha que o desenho parece mais com o Richard Pryor. Daí é que vem Jasper. Todo mundo sacaneia e diz que ele deveria tatuar o Gene Wilder no outro braço pra ter a combinação perfeita. Se houve de fato uma dupla dinâmica, foi aquela. Vai discutir com filmes como Loucos de Dar Nó e Cegos, Surdos e Loucos?

Isso aí.

Não dá.

Mas, se um dia você se encontrar com ele, não mencione esse lance do Gene Wilder. Vá por mim. Taí uma coisa que deixa o cara furioso. Ele odeia essa história. Ainda mais quando está bêbado.

Ele é moreno e está sempre com aqueles pelinhos na cara. Tem cabelo encaracolado, cor de ovo, e os olhos são pretos, mas simpáticos. Ele não diz a ninguém o que fazer e espera das pessoas que também não venham lhe cobrar nada. E não tira a calça jeans surrada do corpo, entra dia, sai dia — a menos que tenha várias calças idênticas. Nunca pensei em perguntar.

Sempre que ele está chegando, dá pra escutar, porque ele anda de moto. O cara tem uma Kawasaki, ou coisa assim. Vermelha e preta. Ele raramente põe uma jaqueta no verão, pois anda de moto desde quando era pequeno. Está sempre com uma camiseta lisa ou com alguma camisa cafona que pega emprestado com o pai.

Continuamos todos a olhar pra ele.

O cara fica nervoso e vira a cabeça, junto com todos nós, pra Bella.

— Tá bem — ela começa a se defender. — Eu diria que, se tem alguém que poderia criar um negócio ridículo assim, esse alguém sou eu...

— Não é ridículo — eu digo. Estou quase defendendo a carta, como se ela fizesse parte de mim.

— Posso continuar?

Faço que sim com a cabeça.

— Ok. Bom, como eu ia dizendo, não fui eu mesmo. Só que eu tenho uma teoria de como e por que ela foi parar em sua caixa de correio.

Ficamos todos aguardando enquanto ela organiza os pensamentos. Ela continua.

— Tudo começa no assalto lá do banco. Alguém leu a história no jornal e deve ter pensado: "Taí um cara que promete. Ed Masen. Essa cidade tá precisando exatamente de um tipo como ele."

Ela sorri, mas quase que imediatamente fica séria. E diz:

— Vai acontecer alguma coisa em cada um desses endereços na carta, Ed, e você vai ter que reagir.

Penso no que ela disse e decido. Eu falo.

— Isso não parece nada bom, não é, não?

— Por que não?

— Por que não? E se tiver pessoas se porrando e eu precisar apartar a briga? Não é nada raro isso acontecer por aqui, certo?

— Acho que vai ser na sorte mesmo. Vai depender da carta que sair. Penso na primeira casa.

Rua Edgar, n° 45.

Num lugarzinho sinistro como aquele, não consigo imaginar nada de bacana acontecendo.

Passo o resto da noite tentando tirar o lance da carta da cabeça, e o Emm ganha três partidas, uma atrás da outra. Como sempre, ele faz. questão de ficar sacaneando a gente.

Pra ser sincero, odeio quando o Emm ganha. Ele se amarra em tirar uma onda. O filho-da-puta fica só cantando vitória e fumando o charuto.

Como o Jasper, ele ainda mora com os pais. Ele ajuda o pai nos serviços de marcenaria. Na verdade, trabalha pra cacete, embora não gaste um centavo do que ganha. Não compra nem os charutos. Ele rouba do coroa. Emm é o rei da pão-durice. O príncipe dos mãos-de-vaca.

O cara tem um cabelo louro, grosso, que fica pra cima quase dando nó, veste umas calças velhas dizendo que são confortáveis e passa o tempo todo com as mãos dentro dos bolsos, mexendo nas chaves. Está sempre com um sorrisinho sacana no rosto, debochando de alguma coisa que só ele sabe. Nós crescemos juntos, e só por isso que somos amigos. Na verdade, ele tem uma porrada de conhecidos também, por poucas razões. A primeira é que ele joga bola no verão e tem uns camaradas da pelada. A segunda e mais importante é que ele perde as estribeiras com a maior facilidade, feito um idiota. Você já percebeu que os idiotas têm uma porção de amigos?

E só uma observação.

Só que nada disso me ajuda. Escrachar o Emm não resolve a questão do ás de ouros.

Não tem como fugir, por mais que eu tente.

O negócio não larga do meu pé, está sempre ali martelando.

Chego a uma conclusão.

Digo a mim mesmo:

Ed, você tem que começar logo. Rua Edgar, nº 45. Meia-noite.

E noite de quarta-feira. Está bem tarde.

Sento na minha varanda com Porteiro, sob a claridade do luar.

Bella dá uma passada aqui, e eu digo que vou começar amanhã à noite. É mentira. Olho pra ela e fico pensando que seria muito bacana se a gente entrasse e fizesse um amorzinho gostoso no sofá.

Se um mergulhasse no outro.

Se os dois se agarrassem.

Se um comesse o outro.

Mas não rola nada.

Ficamos lá sentados tomando uma merdinha de bebida suburbana metida a alcoólica que ela trouxe, e eu esfrego meus pés no Porteiro. Adoro as pernas finas da Bella. Fico olhando pra elas por um momento.

Ela olha pra lua que agora está mais alta lá no céu. A danada subiu pra bem longe.

E eu pego a carta de novo e fico com ela na mão. Eu leio e me preparo.

Nunca se sabe, digo a mim mesmo. Pode ser que um dia alguém diga: "Sim, o Dylan estava prestes a virar um astro quando tinha 19 anos. Dalí estava bem no caminho de se tomar um gênio e Joana D'Arc foi queimada na fogueira por ser a mulher mais importante da História... E, aos 19 anos, Ed Masen encontrou aquela primeira carta entre as correspondências."

Quando o pensamento passa, olho pra Bella, pra lua pegando fogo lá em cima e pro Porteiro, e digo pra parar de me enganar.


Bom, mais um capítulo fresquinho. Espero que gostem... O que acharam? Mandem reviews.

Bjs ficnets ;*