Parte um – A Primeira Mensagem

4 de ouros – O juiz e o espelho

Ed. Pov.

Minha próxima surpresa adorável é uma bela de uma intimação. Vou ter que ir ao tribunal mais próximo e contar minha versão do que rolou no banco. Aconteceu mais cedo do que eu tinha pensado.

Está marcado pras duas e meia da tarde. Vou dar um tempinho durante o trabalho e voltar pra cidade, direto pro tribunal.

Quando chega o dia, apareço usando meu uniforme, e eles me deixam esperando do lado de fora do tribunal. Quando entro pra dar meu testemunho, dou de cara com uma porrada de câmaras, todas espalhadas. A primeira pessoa que vejo é o bandido. Ele é mais feio ainda sem máscara. A única diferença é que agora ele parece mais puto da vida. Acho que uma semana no xadrez deixa qualquer um assim mesmo. Ele já não tem mais aquele ar de idiota e azarado.

O malandro está de terno.

Um terno de quinta. Combina bem com a cara dele.

Quando ele me vê, vou logo olhando pro outro lado, pois o cara tenta me fuzilar com os olhos.

Que se dane, agora é tarde, eu penso, mas só porque ele está lá embaixo e eu, aqui em cima, na segurança do banco de testemunhas.

O juiz me cumprimenta.

— Bem, vejo que você se vestiu muito bem para a ocasião, Sr. Masen.

Eu dou uma checada no visu.

— Obrigado.

— Eu não estava falando sério. Foi ironia.

— Eu sei.

— Bem, não vá bancando o esperto.

— Não, senhor.

A sensação que tenho é de que o juiz está com vontade de me colocar no banco dos réus também.

Os advogados me fazem perguntas, e eu respondo com toda a sinceridade.

— Senhor Masen, este é o homem que assaltou o banco?

— Sim.

— Está certo disso?

— Totalmente certo.

— Mas, diga-me, senhor Masen: como pode ter tanta certeza disso?

— Porque eu reconheceria esta feiura desgraçada em qualquer lugar. Além disso, foi exatamente ele que a polícia algemou naquele dia.

O advogado olha, fazendo pouco de mim, e se explica.

— Queira me desculpar, senhor Masen, mas precisamos fazer estas perguntas para que possamos analisar o caso com todos os detalhes e dados possíveis, seguindo todos os regulamentos.

Eu concordo:

— Por mim, tudo bem.

O juiz agora se mete na parada:

— E quanto às feiuras desgraçadas, senhor Masen, será que você poderia evitar a utilização desses termos ofensivos? Até mesmo porque, caso ainda não tenha percebido, você também não é nenhuma obra de arte.

— Muito obrigado.

— Não há de que — ele sorri. — Agora responda às perguntas.

— Sim, meritíssimo.

— Obrigado.

Quando termino, passo pelo bandido e ele me diz:

— Fala ae, Masen.

Não dê ouvidos, digo a mim mesmo, mas não consigo segurar a onda.

Dou uma parada e olho pra ele. O advogado lhe pede pra calar a boca, mas ele não cala.

Ele diz baixinho:

— Tu é um homem morto, velho. Espera só pra ver... — as palavras dele não chegam a me deixar realmente abalado. — Se liga no que tô te

dizendo. Lembre disso todo dia quando se olhar no espelho, malandro — ele quase sorri. — Tu é um homem morto.

Eu finjo que estou calmo.

Faço que sim com a cabeça e digo:

— Valeu — e continuo meu caminho.

E Deus, eu rezo, permita que ele pegue prisão perpétua.

Quando deixo o tribunal, as portas se fecham e vou dar no saguão. O sol ilumina tudo ao redor.

Uma policial me chama de volta e diz:

— Se eu fosse você, não me preocuparia com aquilo, Ed.

Pra ela é fácil falar.

— Tô com vontade de sair da cidade — digo pra ela.

— Ouça — ela continua. Eu gosto dela. E uma mulher baixa, troncuda e simpática. — Quando esse casca-grossa terminar de cumprir a pena, a última coisa que ele vai querer é voltar — ela pensa no que disse e parece firme. — Algumas pessoas endurecem na prisão — ela joga a cabeça na direção do bandido. — Esse aí não é esse tipo de pessoa. Ele passou a manhã toda chorando. Duvido muito que ele venha a te perseguir.

— Valeu — respondo. Sinto um alívio correndo pelo corpo todo, mas não acredito que dure muito tempo.

"Tu é um homem morto," ouço aquela voz de novo, e vejo as palavras na minha cara quando entro no táxi e olho no espelho retrovisor.

Isso me faz pensar sobre minha vida, minhas realizações inexistentes e minhas habilidades gerais de incompetência.

Quando estou tirando o carro do estacionamento, penso: Um homem morto. Ele tem razão.


N/A: Bom pessoal mais um capítulo pra vocês... O que acharam? Mandem reviews.

Bjs ficnets ;*