Parte um – A primeira mensagem
5 de ouros - INVESTIGAÇÃO, ESPERA, ESTUPRO
Ed. Pov
Seis meses.
O cara pegou seis meses. É bem típico da impunidade nos dias de hoje.
Não contei a ninguém sobre a ameaça; preferi seguir o conselho da policial e tirar o cara da cabeça. De certa forma, me arrependi de ter lido no jornal a notícia da pena que ele pegou. (A sorte é que recusaram o pedido de condicional logo de cara.) Eu me sento na cozinha tipo assim, bem normal, com Porteiro e o ás de ouros. O jornal está na mesa, dobrado. Tem uma foto do bandido quando era pequeno: coisa meiga. Só consigo ver os olhos dele.
Os dias vão passando e pouco a pouco consigo tirar o cara da cabeça.
Fico imaginando:
Pensa bem: o que um cara como esse vai fazer?
Faz mais sentido continuar tocando a vida e tentar chegar aos endereços escritos na carta.
O primeiro é a Rua Edgar, n° 45.
Tento ir numa segunda-feira, mas dou uma amarelada.
Tento de novo na terça, mas não consigo sair de casa; a desculpa esfarrapada é que estou lendo um livro — muito do tosco, por sinal.
Só que, na quarta-feira, resolvo fazer alguma coisa e saio cruzando a cidade.
Já é quase meia-noite quando chego na Rua Edgar. Está tudo escuro: tacaram pedra nas luzes dos postes. Só sobrou uma e, mesmo assim, a danada fica piscando pra mim, toda fraca.
Conheço muito bem esta área porque o Emmvinha aqui direto.
Ele namorava uma garota daqui, em uma das ruas deste buraco. A menina se chamava Rosalie Hale, e Emm ficou com ela quando estava na escola. Quando a família dela se mudou, praticamente na surdina, ele ficou arrasado. Foi por isso que ele comprou aquela merda de lata-velha, pra poder ir procurar pela gata, só que mal conseguiu sair do subúrbio. Acho que o mundo era grande demais, e o Emm desistiu. Foi a partir daí que ele ficou mais esquisito e encrenqueiro. Acho que ele decidiu só se preocupar consigo mesmo daquele dia em diante. Talvez. Não sei. Nunca paro pra pensar muito no Emm. É uma política que criei e sigo.
Lembro disso tudo enquanto vou andando, mas também logo esqueço.
Chego ao fim da rua onde fica o número 45. Do outro lado da rua, passo pela casa e vou em direção às arvores, todas inclinadas, umas sobre as outras. Eu me agacho ali e fico esperando. As luzes da casa estão apagadas e a rua, silenciosa. A tinta da parede está descascando e uma das calhas, comida de ferrugem. A tela de proteção contra insetos está toda furada de picadas. Os mosquitos fazem a festa em cima de mim.
Tomara que não demore muito, penso.
Passam uns 30 minutos e eu quase caio no sono, mas, quando chega a hora, as batidas do meu coração tomam conta da rua.
Chega um cara tropeçando pelo caminho.
E um sujeito grande.
Mamado.
Ele sobe a escada da varanda e nem me vê, faz um esforço desgraçado pra conseguir enfiar a chave na porta e entrar.
Acende a luz do corredor.
E bate a porta.
— Cê tá acordada? — ele grita com raiva. — Venha aqui agora!
Sinto um aperto no peito, quase perco o ar. O coração praticamente vem à boca e chego a sentir o gosto. Dá até pra sentir o danado batendo na minha língua. Baixa uma tremedeira, eu me controlo, mas ela volta.
As nuvens descobrem a lua e eu fico me sentindo pelado. Como se o mundo pudesse me ver. A rua está toda parada e silenciosa; o único som que se ouve é do grandalhão que chegou bêbado em casa e que está fazendo força pra falar com a mulher.
Agora é a luz do quarto que se acende.
Pelas frestas das árvores, dá pra ver as sombras.
A mulher está se levantando de camisola, mas é agarrada pelas mãos do cara, que arranca a camisola com toda a força.
— Pensei que você estivesse acordada me esperando — ele diz. Ele segura a mulher nos braços. Me dá um nó na garganta. Em seguida, ele joga a criatura na cama e vai arriando as calças.
Ele trepa nela.
Ele enfia nela.
Ele transa com ela, e a cama grita de dor. A cama range, lamenta, e eu sou o único que está ouvindo tudo. Meu Deus do céu, o barulho é ensurdecedor. Por que o mundo não tá ouvindo isso?, eu me pergunto. Repito a pergunta várias vezes. Porque o mundo não tá nem aí, respondo finalmente, e sei que estou certo. E como se eu tivesse sido escolhido. Mas escolhido pra que?, pergunto.
A resposta é bem simples:
Pra se importar e cuidar.
Aparece uma garotinha na varanda.
Ela chora.
Eu observo.
Só ficou a luz agora, o barulho acabou.
Fica tudo no maior silêncio por alguns minutos, mas o barulho começa de novo — e eu não sei quantas que este cara consegue dar numa noite, mas com certeza é um feito e tanto. A parada continua lá no quarto, e a menina fica ali sentada, chorando.
Ela deve ter uns oito anos, mais ou menos.
Quando o lance termina finalmente, a garota se levanta e entra. Será que isso acontece toda noite? Eu digo a mim mesmo que é impossível, e a mulher agora é quem sai pra varanda.
Ela também se senta, como a menininha. Ela botou a camisola de novo, toda rasgada, e está segurando a cabeça com as mãos. Um dos seios é iluminado pela lua. Consigo ver o biquinho do peito apontando pra baixo, desanimado e ferido. Chega uma hora em que ela estica os braços e junta as mãos, como se estivesse segurando o coração. O sangue escorre pelos seus braços.
Eu quase vou lá, mas o instinto me segura.
Você sabe o que fazer.
Ouço uma voz dentro de mim sussurrar. E o que me segura de ir até a mulher. Não é isso que eu tenho que fazer. Não estou aqui pra confortar essa mulher. Posso confortá-la pelo resto da vida. Só que não vai adiantar nada: a parada vai continuar rolando amanhã, e depois, e depois.
Eu tenho é que dar um jeito nele.
É ele que eu tenho que encarar.
Mas não faz diferença: ela está chorando na varanda, e fico com uma baita vontade de ir lá e dar um abraço nela. Pena que não dá pra salvá-la e segurá-la nos braços.
Como as pessoas conseguem viver assim?
Como sobrevivem?
Acho que é por isso que estou aqui, talvez.
E se não estiver mais dando pra eles viverem assim?
N/A: Bom pessoal.. capítulo tenso não? O que acharam? Mandem reviews
Mylle Malfoy P.W: Adoro seus comentários.. Concordo com você, no fato de que ele deve tomar cuidado, mas tem muito mais por vir.
Bjs ficnets ;*
