Parte um - A primeira mensagem
7 de ouros - AVENIDA HARRISON
Ed. Pov.
Neste ponto, acho que já dá pra você ter uma idéia do que eu fiz com relação à parada da Rua Edgar. Ou pelo menos, se você for um pouco parecido comigo, já até sabe.
Um grande.
Cagão.
Definitivamente covarde.
É claro que, com a minha infinita sabedoria, estou preferindo dar um tempo. Nunca se sabe, Ed. Vai que as coisas até melhoram sozinhas.
Cara, sei que é uma grande idiotice, mas acho que não tem como eu lidar com esse tipo de coisa assim desse jeito. Preciso de experiência no ramo. Preciso vencer numas lutas antes de ver como eu me saio contra um estuprador do tamanho do Tyson.
Numa noite, pego a carta de novo enquanto tomo café com Porteiro. Ontem eu dei Nescafé Tradição pra ele beber, e o bicho ficou amarradão. No início, ele nem queria tocar.
Olhou pra mim. Olhou pra tigela.
Pra frente e pra trás.
Demorei quase cinco minutos pra me dar conta de que ele me viu colocar açúcar na minha caneca onde está escrito "OS TAXISTAS NÃO SÃO OS MAIORES MANÉS DA RUA". Depois que coloquei açúcar na tigela, ele ficou mais animado. Bebeu de lamber a tigela, todo alegrinho, e depois ficou olhando com cara de quem queria mais.
Nós dois, eu e Porteiro, estamos ali sozinhos na sala. Ele manda ver no café enquanto eu olho pra carta, para os outros endereços. Avenida Harrison, nº 13 é o próximo da lista, e decido ir lá na noite seguinte, às seis em ponto.
— O que você acha, Porteiro? — pergunto. — Essa vai ser melhor, concorda? Ele me dá um sorriso, pois ficou todo ligadão com o café.
— Eu já disse — Emm aponta o dedo para o Jasper. — Eu bati, sim. Não tô nem aí pro que você diz.
— Ele bateu? — Jasper me pergunta.
— Cara, não lembro.
— Bella?
Ela pensa por um instante e faz que não com a cabeça. Emm joga as mãos pro ar. Ele agora tem que pegar quatro cartas. É assim que se joga Porre. O cara vai jogando fora até ficar com duas cartas na mão e bate. Se esquece de bater antes de baixar a penúltima carta, tem que pegar quatro. Emm sempre esquece de bater.
Ele franze a testa quando pega as cartas, mas, em segredo, tenta se segurar pra não rir. Ele sabe que não bateu, mas sempre tenta se safar. Faz parte do jogo.
Estamos na sacada da Bella. Está escuro, mas os holofotes estão acesos e as pessoas olham pra cima quando passam pela vila. Bella mora perto de mim; é só virar a esquina que estou na casa dela. O lugar é meio baixo nível, mas é legal.
Na primeira hora de jogatina, olho pra Bella e sei que estou de quatro por ela, e estou nervosaço. O nervoso é porque às vezes não sei o que fazer. Não sei o que dizer. O que posso dizer pra ela quando sinto a fome crescer aqui dentro? Como ela ia reagir? Acho que ela está decepcionada comigo porque eu caguei pra faculdade e agora só dirijo um táxi. Pelo amor de Deus, eu li Ulisses e metade das obras do Shakespeare. Mas ainda sou um caso perdido, um inútil, um zé-mané. O que eu percebo é que ela nunca se imagina comigo. Só que ela já deu pra outros caras que não são diferentes de mim. Ás vezes nem consigo pensar nisso. Sabe? Pensar no que eles fizeram, como foi a parada e como ela gosta de mim e me considera.
Mas eu sei muito bem.
Eu não quero só sexo com ela.
Eu queria sentir nossos corpos se apertarem, só por um instante.
Ela sorri pra mim quando ganha uma partida, e eu sorrio pra ela.
Me deseje, eu imploro, mas nada acontece.
— E ae, que fim levou aquela carta esquisita? — Emm pergunta mais tarde.
— O quê?
— Você sabe muito bem o quê — ele aponta pra mim com o charuto. Bem podia raspar aquela barba.
Mando a maior mentira e todo mundo escuta:
— Eu joguei fora. Emm aprova:
— Boa idéia. Aquilo tava me cheirando a maior merda.
— Podes crer — concordo. Fim de papo. Acho. Bella me olha achando aquilo engraçado.
Durante as partidas seguintes, fico pensando no que rolou mais cedo, quando fui à Avenida Harrison, nº 13.
Pra falar a verdade, foi até um alívio, porque não chegou a acontecer nada. A única pessoa lá era uma velhinha que não tem cortinas nas janelas. Ela estava lá dentro sozinha, preparando o jantar, depois se sentou, comeu e tomou um chá. Acho que ela comeu uma salada e tomou uma sopa.
E a solidão.
A solidão como sobremesa.
Gostei dela.
Fiquei dentro do táxi o tempo todo, só de butuca. Estava quente e daí bebi uma água que estava lá havia um bom tempo. Fiquei rezando pra que estivesse tudo bem com a mulher. Parecia que ela era bem maneira, gentil, e lembro de como a chaleira cafona que ela tem na cozinha começou a apitar até que ela se aproximou pra diminuir o fogo. Tenho quase certeza de que ela falou alguma coisa com a chaleira, como se estivesse falando com uma criança. Como se chaleira fosse um bebê chorando.
Fiquei meio deprê ao pensar que um ser humano pudesse ser tão solitário a ponto de se consolar com a companhia de utensílios domésticos que apitam e de se sentar sozinho pra comer.
Não que a minha situação seja melhor que a dela.
Vamos falar sério:
Quem me acompanha nas refeições é um cachorro de 17 anos. Ele bebe café comigo. Do jeito que a gente vive, parece até que somos casados. Mas mesmo assim...
A velhinha mexeu com meu coração.
Quando esticou o braço e colocou o chá, foi como se ela tivesse colocado alguma coisa dentro de mim, enquanto eu estava sentado no táxi. Foi como se ela tivesse puxado uma cordinha e me aberto. Ela entrou e colocou um pedacinho de si dentro de mim e saiu de novo.
Ainda sinto o negócio em algum lugar aqui dentro.
Estou sentado aqui jogando cartas, e a imagem dela está espalhada na mesa. Eu sou o único que consegue ver. Vejo a mão dela tremendo ao levar a colher até a boca. Fico com vontade de vê-la rir ou expressar algum tipo de felicidade ou alegria, pra que eu saiba que está bem. Só que logo percebo que tenho que ter certeza mesmo.
Chega a minha vez.
— E você agora, Ed.
E minha vez e eu não vou.
Cheguei a duas cartas e tenho que bater.
Um três de paus e um nove de espadas.
O único problema é que eu quero mais cartas hoje. Não estou interessado em ganhar. Acho que sei o que tenho que fazer pela velhinha e faço uma aposta comigo mesmo.
Se eu pegar o ás de ouros, é sinal de que estou certo.
Se não, estou errado.
Esqueço de bater e a galera ri da minha cara quando vou cavar.
Primeira carta: dama de paus.
Segunda carta: quatro de copas.
Terceira carta: yesss!
Todo mundo fica sem entender por que diabos estou sorrindo, menos a Bella. Bella dá uma piscadinha pra mim. Ela não precisa nem perguntar pra saber que eu fiz de propósito. O ás de ouros está na minha mão.
Isso é muito melhor do que a Rua Edgar.
Estou me sentindo bem.
E terça-feira e estou colocando minha calça branca de brim e as botas maneiras cor de areia. Pego uma camisa responsa. Já dei uma passada na Cheesecake Shop e fui atendido muito bem por uma garota chamada Angela.
— Eu não conheço você? — ela perguntou.
— Talvez. Não sei bem...
— Mas é claro! Você é o cara do banco. O herói.
O otário, isso sim, penso, mas digo;
— Ah, é. Você é a garota do balcão. Tá trabalhando aqui agora? Ela balança a cabeça, fazendo que sim.
— Tô — ficou meio envergonhada. — Não agüentei o estresse no banco.
— O assalto?
— Não. Meu chefe era um escroto.
— O da cara cheia de espinhas e sovaco suado?
— Esse mesmo... Tentou enfiar a língua na minha boca outro dia.
— Pois é... Coisa de homem, sabe? Somos todos um pouco assim.
— É, eu sei disso!
Angela foi superbacana do começo ao fim. Quando eu já tinha saído da loja, ela me chamou e disse:
— Espero que goste do bolo, Ed!
— Valeu, Angela! — respondo, mas acho que ela não ouviu. Não gosto de fazer barulho em público.
E vazei dali.
Por um instante, penso nisso enquanto abro a caixa e olho pra metade do bolo de chocolate. Fico com pena da garota, porque deve ter sido uma droga sentir o cara em cima dela daquele jeito e foi ela que pediu as contas. Que filho-da-puta. Eu, que não tenho espinha na cara nem suo feito um porco, sinto a maior tremedeira nas pernas antes de enfiar a língua na boca de uma garota. E muito besta mesmo, esse cara. Excesso de confiança. Só isso.
Deixa pra lá.
Dou uma última checada no bolo. Estou todo cheiroso. Botei as melhores roupas que tenho e já estou pronto pra ir.
Pulo Porteiro e fecho a porta quando saio. Vou andando pra Avenida Harrison e sinto o dia meio nublado e fresco. Chego lá por volta das seis e a velhinha já está de novo conversando com a chaleira.
A grama na frente da casa está super-amarela.
Quando piso, faz um som que parece alguém mordendo uma torrada. Vou deixando pegadas de botas e tenho mesmo a sensação de estar pisando num pão torrado do tamanho do mundo. As rosas são as únicas coisas vivas, contornando a entrada da garagem, na maior firmeza.
A varanda é de cimento. A porra é velha e rachada, igualzinha à de lá de casa.
A tela contra insetos está rasgada nas beiradas. Bem gasta. Abro a tela e bato na porta de madeira. O som rima com as batidas do meu coração.
Ouço os passos se aproximando. Os pés dela lembram o tique-taque de um relógio. Contando o tempo para este momento.
Ela pára.
Olha pra mim, e por um instante os dois ficam meio perdidos um no outro. Ela se pergunta quem eu sou, mas só por um segundo. Então, com cara de quem se deu conta de alguma coisa depois de muito esforço, ela sorri pra mim. Ela dá um sorriso muito sincero e diz:
— Eu sabia que você viria, Billy — ela se aproxima e me dá um abraço apertado, me envolvendo nos braços macios e enrugados. — Eu sabia que você viria.
Quando o abraço termina, ela olha pra mim novamente, até que uma lágrima aparece nos seus olhos. A lágrima sai e escorre acompanhando o traço de uma das rugas.
— Ohh — ela balança a cabeça prum lado e pro outro, olhando pro bolo. — Obrigada, Billy. Eu sabia, eu sabia — ela me pega pela mão e me leva pra dentro da casa. — Venha, vamos entrando — ela me diz. Eu a acompanho.
— Você vai ficar para jantar, Billy?
— Só se não for dar trabalho — respondo.
Ela ri.
— Imagina, trabalho nenhum... — ela balança a mão pra cima e pra baixo, como se dissesse: "Pára com isso!" — Você é um menino de ouro!
Com certeza! Sou o menino do três de ouros.
— E claro que não será trabalho algum — ela continua. — Será ótimo relembrarmos o passado, não acha?
— Claro.
Ela pega o bolo e leva pra cozinha. Escuto o barulho que faz lá dentro, meio atolada com as coisas, e pergunto se ela precisa de uma ajudinha. Ela manda eu relaxar e me sentir à vontade.
Tanto a sala de jantar quanto a cozinha dão pra rua, e quando me sento à mesa de jantar, vejo as pessoas passando, algumas andando normalmente, outras, às pressas, algumas esperando os cachorros antes de seguir caminho. O cartão de pensionista dela está em cima da mesa. Ela se chama Irina. Irina Marshall. Tem 82 anos.
Quando ela sai da cozinha, traz a mesma coisa que ela comeu no jantar ontem. Salada, sopa e chá.
A gente come, e ela me conta todas as coisas que faz no dia:
Passa cinco minutos conversando com Sid do açougue, mas não compra carne nenhuma. O barato é o bate-papo e as risadas quando ele conta as piadas que não são lá muito engraçadas.
Ela almoça às cinco pro meio-dia.
Senta no parque, olha a criançada brincando e os skatistas fazendo manobras e voltas na rampa.
Toma um cafezinho à tarde.
Assiste ao Roletrando às cinco e meia.
Janta às seis.
Vai dormir às nove.
Mais tarde ela me faz uma pergunta. Nós já lavamos a louça e estou de volta à mesa de jantar. Irina volta e se senta nervosa na cadeira.
Ela estica os braços e pega nas minhas mãos. As mãos dela estão tremendo.
Segura bem minhas mãos e seus olhos suplicantes me deixam todo aberto.
Ela diz:
— Então me conte, Billy — a tremedeira das mãos aumenta um pouco. — Por onde você andou esse tempo todo? — ela não fala com agressividade, mas parece que está magoada. — Por onde você andou?
Algo fica engasgado aqui — as palavras. Finalmente, olho pra ela e digo:
— Estava procurando você — digo isso como se fosse a grande verdade que eu conheço.
Ela me tira um peso, fazendo que sim com a cabeça.
— Foi o que pensei — puxa minhas mãos pra mais perto e beija meus dedos. — Você sempre foi bom com as palavras, não é mesmo, Billy?
— Sim — respondo. — Acho que sim.
Logo em seguida ela me diz que precisa dormir. Tenho certeza de que ela se esqueceu do bolo de chocolate, e estou louco pra comer um pedaço. Já são quase nove horas e estou desconfiado de que não vou ver nem um farelinho daquele bolo. Me sinto muito mal por isso, é claro. Eu me pergunto que tipo de pessoa eu sou, chateado por ficar sem comer a droga de um pedaço de bolo.
Ela se aproxima de mim por volta das cinco pras nove e diz:
— Acho melhor eu ir deitar, Billy. Tudo bem?
Respondo suavemente:
— Sim, dona Irina, acho que sim.
Andamos até a porta e eu dou um beijo em seu rosto.
— Obrigado pelo jantar — agradeço e saio.
— Foi um prazer, Vou vê-lo novamente?
— Com certeza — eu me viro e respondo. — E não vai demorar.
A mensagem desta vez é pra aliviar a solidão desta velhinha. Este sentimento vai tomando conta de mim enquanto ando pra casa, e, quando vejo Porteiro, levanto o danado e seguro os 45 quilos nos braços. Beijo o bichão com toda a imundície e fedor, e tenho a impressão de que conseguiria segurar o mundo nos braços hoje. Porteiro olha pra mim todo confuso e pergunta: Que tal um cafezinho, meu velho?
Eu o coloco de volta no chão, dou uma risada e preparo um café pro velho malandrão, com bastante açúcar e leite.
— Vai querer um cafezinho também, Billy? — pergunto a mim mesmo.
— Se não for incômodo — respondo.
— Incômodo nenhum — e caio na risada de novo, me sentindo um mensageiro de verdade mesmo.
N/A: A Irina é tão fofa, né? Então esse é o capítulo bonûs... O que acharam? Mandem Reviews...
Bjs ficnets ;*
Ps: Só posto agora se semana que vem os meus leitores anônimos aparecerem, e não, isso não é uma ameaça...
