Parte um – A primeira mensagem

8 de ouros - BANCANDO O Billy

Ed. Pov.

Já faz um tempo que levei a mesinha de centro pra minha mãe. Tem umas duas semanas que não apareço por lá — pra deixar que ela esfrie um pouco a cabeça. Ela encheu o saco quando apareci com a mesinha.

Dou uma passada nela no sábado de manhã.

— Mas vejam só! Quem é vivo sempre aparece — ela dá uma sacaneada quando entro pela porta. — Como anda a vida, Ed?

— Tá tudo bem. E com a senhora?

— Trabalhando feito uma condenada, como sempre.

Ela trabalha no caixa de uma lanchonete. Não faz porra nenhuma, mas, sempre que alguém pergunta como ela está, a resposta é a mesma: "trabalhando feito uma condenada". Ela está preparando alguma coisa gostosa, tipo um bolo, mas não me deixa comer nem um pedacinho porque está esperando a visita de alguém mais importante. Provavelmente alguém do Lion's Club, ou alguma coisa assim.

Chego mais perto pra ver melhor o que é.

— Nem toque — ela avisa. De onde estou nem dá pra colocar um dedinho.

— O que é isso aí?

— E um cheesecake.

— Tá esperando quem?

— Os velhos Jonhson.

Bem típico mesmo — uns caipiras que moram ali na esquina — mas fico na minha. Melhor deixar pra lá.

— Como é que estamos de mesinha de centro? — pergunto.

Ela dá uma risada sinistra e responde:

— Muito bem. Vá dar mais uma olhada nela.

E o que eu faço: entro na sala de visita e não acredito no que vejo. Não é que ela trocou a porcaria?

— Peraí! — grito pra cozinha. — Esta aqui não é a mesinha que eu trouxe!

Ela vem até a sala.

— Eu sei. Decidi que não gostava daquela outra.

Agora eu fiquei puto. Sério mesmo. Parei de trabalhar uma hora mais cedo pra pegar a outra mesinha e agora o negócio não presta pra ela.

— Que diabos aconteceu?

— Eu tava conversando com o James no telefone, e ele disse que esse negócio de pinho é uma porcaria e que não dura nada — ela se balança toda entre as frases. — E, pode acreditar, seu irmão entende muito bem dessas coisas. Ele comprou uma mesa velha de cedro pra ele lá no centro. Conseguiu mandar uma letra no cara e descolar um abatimento de 300 paus, e ainda levou as cadeiras pela metade do preço.

— E daí?

— E daí que ele sabe o que tá fazendo. Ao contrário de certas pessoas que conheço.

— A senhora não me pediu pra ir buscar essa aí...

— E por que diabos eu ia fazer isso?

— Ué, a primeira a senhora me pediu pra ir buscar...

— É, mas vamos ser sinceros, Ed: seu serviço de entrega é uma desgraça.

Chega a ser irônico.

— Tá tudo bem, mãe? — pergunto mais tarde. — Tô indo fazer umas comprinhas daqui a pouco. A senhora tá precisando de alguma coisa?

Ela dá uma pensada.

— Na verdade, a Alice tá vindo aí semana que vem, e eu tô com vontade de preparar um bolo de chocolate com avelã pra ela e pra família. Compre as avelãs picadas pra mim.

— Tudo bem.

Agora dá o fora, Ed, eu penso logo ao sair. E o que ela estava pensando, tenho certeza disso.

Gosto de ser o Billy.

— Lembra-se de quando você lia pra mim, Billy?

— Lembro, sim — respondo.

Nem preciso dizer que estou na casa da Irina de novo, à noite. Ela estica as mãos e segura no meu braço.

— Será que você poderia pegar um livro e ler algumas páginas? Adoro o som de sua voz.

— Que livro? — pergunto quando chego perto do armário.

— O meu preferido.

Que merda... dou uma vasculhada nos livros que estão na minha frente. Qual será o preferido dela?

Mas não tem problema.

Qualquer um que eu escolher vai ser o preferido dela.

— O Morro dos Ventos Uivantes? — sugiro.

— Como você sabia?

— Intuição — respondo e começo a ler.

Ela cai no sono depois de algumas páginas; daí eu a acordo e a levo pro quarto.

— Boa-noite, Billy.

— Boa-noite, Irina.

Enquanto vou andando pra casa, penso numa parada que vi. E um pedaço de papel que estava no livro, usado como marcador. Não passava de um pedacinho normal de papel de bloco, todo amarelo e velho. Tinha uma data escrita: 1/5/41 e tinha alguma coisa escrita com uns garranchos de homem. Um pouco parecidos com meus garranchos.

Dizia assim:

Querida Irina,

Minha alma precisa da sua.

Com amor,

Billy.

Quando a gente se encontra de novo, ela pega os álbuns velhos e ficamos lá, vendo as fotos. Toda hora ela aponta para um cara que está abraçando-a ou beijando-a ou só está parado lá na dele.

— Você sempre foi tão bonito — ela me diz. Ela chega a tocar no rosto do Billy nas fotos e entendo como é amar alguém como a Irina amou esse cara. As pontas de seus dedos estão cheias de amor. Quando ela fala, sua voz é carregada de amor. — Você mudou bastante, mas ainda está bonito. Sempre foi o garoto mais lindo da cidade. Era o que diziam todas as meninas. Até minha mãe me disse que você era ótimo, carinhoso e forte, e que eu deveria tratá-lo muito bem — ela olha pra mim agora, com uma cara meio que desesperada. — Eu o tratei muito bem, não tratei, Billy?

Eu me derreto.

Eu me derreto e olho naqueles olhinhos velhos, mas adoráveis.

— Você me tratou muito bem, Irina. Muito bem mesmo. Você foi a melhor esposa que eu poderia ter...

E quando então ela se deságua a chorar na minha manga. Ela chora, chora e ri. Ela treme de desespero e alegria, e as lágrimas mornas encharcam minha manga; isso causa uma sensação bacana no meu braço.

Depois de um tempo, ela me oferece bolo de chocolate. É o mesmo que eu trouxe noutro dia.

— Não lembro quem foi que me trouxe este bolo, mas está uma delícia. Quer um pedacinho, Billy?

— Eu aceito, sim.

O bolo já está velho, passado e meio duro.

Mas o gosto está perfeito.

Algumas noites mais tarde, estamos todos na varanda aqui da minha casa, jogando cartas. Eu estou mandando super-bem até que, de repente, todo mundo fica em silêncio. Em seguida, vem um som lá de dentro.

— E o telefone — diz Bella.

Alguma coisa está errada. Tenho uma sensação muito esquisita.

— E aí, tu vai atender? — Emm pergunta.

Eu me levanto e vou andando meio que na dúvida e pulo Porteiro.

O toque do telefone me chama pra perto.

Eu atendo.

Silêncio. Silêncio total.

— Alô?

De novo.

— Alô?

A voz tenta encontrar o centro de minha alma. Quando encontra, diz três palavras:

— Como está, Billy?

Sinto um estalo por todo o corpo.

— O que? — pergunto. — O que você disse?

— Você ouviu muito bem.

O telefone fica mudo, e eu, sozinho.

Volto me arrastando pra varanda.

— Você perdeu — Emm diz, mas quase nem escuto o cara direito. Não estou mais nem aí pro jogo.

— Que cara é essa? — Jasper pergunta. — Senta aí, brother.

Aceito o conselho dele e me sento de novo pra jogar.

Bella olha pra mim e faz uma cara como se estivesse me perguntando "Tá tudo bem?" Respondo que sim, e mais tarde, depois do jogo, ela fica por aqui, e eu quase conto sobre Irina e Billy. Chego bem perto de perguntar o que ela acha disso tudo, mas eu já tenho as respostas. O que ela pensa não vai mudar nada; daí acho melhor eu aceitar o fato de que tenho que continuar. Venho oferecendo a companhia de que Irina precisa, mas chegou a hora de ir adiante e passar pro próximo endereço ou voltar pra Rua Edgar. E claro que ainda posso fazer umas visitinhas pra Irina, mas já está na hora.

Está na hora de seguir em frente.

Naquela noite, saio pra andar com Porteiro, bem tarde. Vamos até o cemitério, vemos meu pai e damos uma volta pelas outras sepulturas.

Uma lanterna nos ilumina.

É o segurança.

— Você sabe que horas são? — o cara pergunta. É um cara grande, de bigode.

— Não tenho idéia — respondo.

— Meia-noite e onze. O cemitério tá fechado, meu velho.

Quase vazo dali, mas hoje não dá. Abro a boca e digo:

— Tô dando uma volta, cara... Tô procurando uma sepultura.

Ele olha pra mim pensando no que fazer. Será que ele deveria me ajudar ou não?

Ele decide que sim.

— Qual o nome do defunto?

— Marshall. Ele balança a cabeça prum lado e pro outro, e ri, meio que criticando.

— Você faz idéia de quantos Marshall tem neste lugar?

— Não.

Uma porrada — ele dá uma fungada no bigode, como se tentasse parar uma coceira. O cara é ruivo.

— Mesmo assim, será que podemos tentar achar?

— Qual é a raça desse cachorro?

— É uma mistura de rottweiler com pastor.

— Pô, ae, o bicho fede que é um inferno, cara. Você não dá banho nele, não?

— Claro que dou.

— Caramba! — ele se vira, fazendo cara feia. — O fedor é diabólico.

— Mas e aí? A sepultura?

Ele já tinha até esquecido.

— Ah, sim, é mesmo. Bem, podemos tentar. Você sabe mais ou menos quando o pobre coitado morreu?

— Opa, olha o respeito!

Ele pára.

— Olha aqui — o ruivo está ficando meio puto agora. — Você quer a minha ajuda ou não?

— Tudo bem, foi mal.

— Por aqui. Andamos quase metade do cemitério e achamos alguns Marshall, menos o que eu procuro.

— Tu é um pouco exigente, não é, não, malandro? — o segurança pergunta. — Esse aí não serve?

— Essa aí é Kate Marshall.

— E quem é mesmo que tu tá procurando?

— Billy... — só que dessa vez eu digo mais uma coisa. — A esposa se chama Irina.

Ele dá uma parada brusca, olha pra mim e diz:

— Irina? Caralho, acho que conheço essa aí. Lembro do nome, porque ela e mencionada na lápide — ele agora fica sussurrando enquanto andamos pra outra ponta do cemitério. — Irina, Irina...

A lanterna dele bate numa lápide e é essa mesma.

WILLIAM MARSHALL

1917-1942

MORREU SERVINDO À NAÇÃO

AMADO ESPOSO DE IRINA MARSHALL

Passamos mais ou menos dez minutos ali, a luz da lanterna assando a sepultura. O tempo todo fico tentando imaginar onde e exatamente como ele morreu e, mais objetivamente, me dando conta de que a coitada da Irina já está sem ele há 60 anos.

Dá até pra sacar.

Nenhum outro homem entrou na vida dela. Não da forma que seu Billy entrou.

Há 60 anos ela espera Billy voltar.

E agora ele voltou.


N.A/ Desculpe a demora... Então, esse e mais um capítulo pra vocês.. Espero que gostem...

Reviews são o meu incentivo de continuar. Então continuo ou abandono?

Bjs ficnets ;*