Parte um – A primeira mensagem

10 de ouros - A CAIXA DE SAPATOS

Ed. Pov.

— Nossa, você anda sumido!

— Ando ocupado.

Estou com a Bella na varanda, tomando uma bebida de quinta, como sempre. Porteiro vem pra fora e pede pra tomar um gole, mas só descola mesmo um carinho que eu faço nele.

— Recebeu mais alguma outra carta pelo correio?

E claro que ela sabia o tempo todo que eu estava mentindo com aquela história de jogar fora o ás de ouros. Só doido pra jogar um ás de ouros fora, certo? São valiosos. Pelo menos precisam ser protegidos.

Irina, penso. Nessie. A mulher na Rua Edgar e a filha, Claire.

— Não, ainda tô na primeira.

— Você acha que vai ter mais alguma?

Dou uma pensada e fico na dúvida se quero ou não receber mais outra carta.

— A primeira já tá dando muito trabalho. E continuamos a beber.

Faço várias visitas à Irina, e ela me mostra as fotos todas de novo, e continuo lendo O Morro dos Ventos Uivantes. Na verdade, já estou até começando a curtir. Algumas noites atrás o bolo acabou, graças a Deus, mas a velhinha continua superbacana.

Nessie perde novamente na semana seguinte, desta vez na corrida de 800 metros. Ela não corre da mesma forma com aqueles sapatos velhos remendados. Precisa de alguma coisa melhor pra pelo menos chegar próximo do que ela corre de manhã. É de manhã que a garota é ela mesma. Praticamente entra em transe, quase fora de si.

No sábado seguinte, de manhã bem cedo, vou à casa dela e bato na porta. O pai dela atende.

— Pois não?

Me bate um nervoso dos diabos, como se eu estivesse aqui pra pedir pra namorar a filha dele. O cara olha pra caixa de sapato que seguro com a mão direita. Não perco tempo, levanto a caixa e digo:

— Tenho uma entrega pra sua filha Nessie. Espero que este número dê nela. O cara pega a caixa e fica sem entender nada.

— É só dizer pra ela que um cara trouxe uns sapatos novos. O homem olha pra mim como se eu estivesse drogado.

— Tudo bem — ele se esforça pra não zoar com a minha cara. — Pode deixar que eu darei o recado.

— Muito obrigado.

Eu me viro e começo a me afastar, mas ele me chama de volta.

— Espere.

— Pois não?

Ele segura a caixa, confuso, levantando.

— Eu sei — digo.

A caixa está vazia.

Eu não fiz a barba e só entreguei o táxi às seis da manhã; fui direto pra casa da Nessie e depois me mandei pra pista de corrida, onde senti um calor dos diabos. Como um salgadinho de salsicha e tomo um café.

Quando a chamam prós 1.500 metros, ela vai descalça.

Quando penso nisso, dou um sorriso.

Sapatos pés-descalços...

— Só espero que ninguém pise nela — digo.

Alguns minutos mais tarde, o pai dela vai pra perto da cerca. A corrida começa.

O outro otário começa a gritar.

E a Nessie tropeça no final da volta.

Ela cai entre o grupo das cinco que estão liderando e o resto passa a frente, ganhando uma vantagem de talvez uns 25 metros. Quando ela se levanta, a cena me lembra aquela parte em Carruagens de Fogo quando Eric Liddell* cai, acaba passando todo mundo e ganha.

* Drama, 1981, Inglaterra:. Harold Abrahams é um judeu inglês rico que estuda em Cambridge. Imaturo e sentindo-se inferiorizado pela sua origem semita, descarrega sua frustração na atividade que mais gosta: correr. Ele alimenta o sonho de competir nas Olimpíadas de 1924. Eric Liddell é filho de um missionário escocês. Depois de um longo tempo na China, onde esteve em missão, retorna à sua terra natal para rever parentes e amigos. Extremamente religioso e ortodoxo. É um excelente atleta. Corre feito o vento e alimenta o mesmo sonho de Harold. A fama de um chega aos ouvidos do outro. Ambos chegam aos jogos na França. Mas não antes de enfrentarem obstáculos de consciência e críticas de alguns retrógrados.

Ainda faltam duas voltas, e ela ainda está bem pra trás.

Ela bate as duas primeiras corredoras molinho e está correndo como corre de manhã. Sem esforço. A única coisa que se vê nela é a sensação de liberdade, e a sensação bem pura de estar viva. Ela só precisa do capuz e da calça vermelha. Com os pés descalços, ela passa a terceira e não demora muito pra ficar lado a lado com sua rival. Passa a rival e a segura, faltando ainda 200 metros.

Igualzinho ao que ela faz de manhã, eu penso, e as pessoas pararam pra assistir. Viram a menina cair, se levantar e continuar a batalha. Agora todos a vêem lá na frente, aprontando um feito que nunca foi visto em um final de semana normal nesta cidade. Parou tudo: o arremesso de discos, o salto à distância, tudo. As atenções se voltam pra menina de cabelo dourado e aquela voz maravilhosa lá na frente de todas...

A outra garota a alcança.

Ela vai com tudo, tentando a liderança.

Os joelhos de Nessie estão sangrando da queda, e acho que ela espetou o pé em algum lugar, mas é assim que tem que ser. Os últimos 100 metros quase a matam. Vejo a dor estampada no seu rosto contorcido. Os pés descalços sangram ao passarem pela grama rasteira. Ela quase sorri de dor — quase sorri da própria natureza disso tudo. Ela está fora de si.

Descalça.

Mais viva do que qualquer pessoa que eu já tenha testemunhado.

E cruzam a linha.

E a outra garota vence.

Como sempre.

Ao cruzarem a linha, Nessie cai, e lá embaixo, no chão, ela rola, fica de barriga pra cima e olha pro céu. Sente dor nos braços, nas pernas e no coração. Mas, no rosto, está a beleza da manhã, e, pela primeira vez, acho que ela reconhece. Cinco e meia da manhã.

O pai dela aplaude, como sempre, só que, desta vez, ele não é o único. O pai da outra menina aplaude também.

— Você tem uma filha e tanto — ele diz.

O pai de Nessie, muito modesto, só faz que sim com a cabeça e diz:

— Obrigado. Você também.


N.A/.. Bom pessoal consegui postar mais um capítulo...

Dedico esse capítulo a Mylle Malfoy P. W. , por ter me acompanhado desde o começo e agradeço pelas suas reviews, são elas que me dão força pra postar.. Bjs linda..

Então pessoal continuo ou não? Mandem reviews

Bjs ficnets ;*