Parte um – Primeira mensagem
Q de ouros - MAIS UMA VISITA À RUA EDGAR
Ed. Pov.
Parece que as manhãs bateram palmas.
Pra me acordar.
Sempre que abro os olhos, vejo três coisas, uma de cada vez.
Irina.
Nessie.
Rua Edgar, n° 45.
As duas primeiras me encorajam com o nascer do sol. A terceira me dá calafrio por todo o corpo: pele, carne e ossos.
Passo os finais de noite vendo as reprises dos episódios de Os Gatões. O gorduchão sempre fica sentado lá comendo marshmallow na sua mesa de trabalho. Como é mesmo que se chama esse cara?, eu me perguntei quando vi o primeiro episódio. Daí apareceu a Daisy e disse: "Tudo bem, Boss Hogg?"
Boss Hogg.
É claro.
Putz, a Daisy está linda com esse jeans apertadinho. Toda noite quando eu a vejo, meu coração dispara feito louco, mas ela nunca fica muito tempo na tela.
Porteiro faz cara feia pra mim, toda vez.
— Eu sei — digo.
Mas então ela aparece de novo e não adianta discutir. As mulheres lindas são o tormento de minha existência.
As noites e os gatões vão passando.
Dirijo meu táxi com uma dor de cabeça que fica só me esperando por trás. Toda vez que eu me viro, ela está lá.
— Obrigado — agradeço ao passageiro. — Deu $16,50.
— Dezesseis e cinqüenta? — o velhote de terno reclama. As palavras dele parecem uma espuma na minha cabeça, fervendo, subindo e descendo.
— Quer fazer o favor de pagar? — não estou com saco pra isso hoje. — Da próxima vez vá andando, já que acha tão caro.
Tenho certeza de que ele coloca a corrida na conta da empresa. Ele me dá a grana, e eu agradeço. Não foi tão difícil, foi?, eu penso. Ele bate a porta com força. Parece que minha cabeça estava lá também.
De certa forma, estou esperando outro telefonema na minha casa, mandando que eu vá pra Rua Edgar de novo, rapidinho. Espero algumas noites, mas ninguém liga.
Na noite de quinta, saio cedo do carteado na casa da Bella. Mc sinto meio incomodado. A sensação me faz levantar e vazar de lá, quase sem dizer nada. Chegou a hora e sei que preciso estar lá do lado de fora daquela casa no final da Rua Edgar — uma casa refém da violência que rola lá dentro quase toda noite.
Enquanto caminho pra lá, me dou conta de que estou andando rápido. Já consegui dar conta de duas.
Irina e Nessie.
Agora eu tenho que encarar essa.
Viro na Rua Edgar, cerrando o punho dentro dos bolsos da jaqueta. Dou uma olhada pra ver se não tem ninguém me vendo. Com Irina e Nessie, sempre me senti à vontade. Elas foram as mensagens boas. Não teve praticamente nenhum risco na parada, ao contrário dessa agora, onde todas as respostas parecem ser dolorosas. Para a esposa, para a menina, para o marido. E para mim.
Enquanto espero, tiro um pedaço de chiclete que eu já havia esquecido que tinha ali no bolso e coloco na boca. Tem gosto de doença, de medo.
A sensação aumenta quando o homem aparece e sobe as escadas da varanda. O silêncio se aproxima mais ainda, me dá uma porrada e me empurra pra frente.
Acontece.
A violência interfere. Ela enfia o dedo em tudo e sai rasgando. Tudo se destrói, e eu me odeio por esperar tanto tempo pra dar um fim nisso. Eu me odeio por escolher as opções mais fáceis noite após noite. Um ódio está se desenrolando e se soltando dentro de mim. Perturba meu espírito e o faz cair de joelhos, perto de mim, Ele tosse e sufoca enquanto meu próprio ódio por mim mesmo fica insuportável.
A porta, eu digo pra mim mesmo. Vá até a porta — tá aberta, cara.
Mas eu não me mexo.
Não me mexo porque meu cagaço me segura, mesmo quando tento fazer com que meu espírito, que está ainda de joelhos, se levante. Só que ele cai. Ele se vira pro lado e bate no chão fazendo um som seco. Ele olha pras estrelas lá em cima. São estrelas que piscam no céu.
Vá, eu repito pra mim mesmo e, desta vez, consigo sair do lugar.
Sinto tudo chacoalhar enquanto subo as escadas da varanda e paro na porta. Nuvens distantes me observam, mas estão se afastando. O mundo não quer saber dessa história. Não o culpo por isso.
Lá dentro, ouço os dois.
Ele está acordando a mulher.
Perturbando a coitada.
Pegando-a e abandonando-a ao mesmo tempo.
Ele a joga na cama, pega de novo e a abre. As molas da cama soltam um barulho desesperado de queda e, contrariadas, se esticam de novo. Não adianta se recusar. Não adianta reclamar. Um choro vem se arrastando pela porta onde estou parado. Sai mancando pela abertura na porta e pára nos meus pés.
Como você consegue ficar aqui (oral, eu me pergunto, mas mesmo assim espero.
A porta se abre mais um pouco e tem alguém lá agora, de frente pra mim. É a garotinha.
A menina está na minha frente, cobrindo os olhos com os punhos cerrados tentando resgatar o sono preso ali em algum lugar. Está usando um pijaminha amarelo com barquinhos vermelhos; ela está torcendo e contorcendo os dedos dos pés.
Olha pra mim, mas sem medo. Está acostumada com coisa muito pior.
Ela pergunta bem baixinho:
— Quem é você?
— Eu sou o Ed — respondo baixinho.
— Eu sou Claire. Você tá aqui pra salvar a gente? Dá pra ver uma esperança brilhando naqueles olhinhos.
Eu me agacho pra vê-la melhor. Tenho vontade de dizer que sim, mas as palavras não saem. Vejo que o silêncio de minha boca não conseguiu matar a esperança que ela invocou. Está quase terminando quando finalmente eu falo. Olho pra ela com toda a sinceridade e digo:
— Você tem razão, Angelina: eu tô aqui pra salvar vocês. Ela se aproxima quando a esperança se reacende.
— Você consegue? — ela pergunta surpresa. — jura?
Até mesmo uma garotinha de mais ou menos oito anos consegue ver que quase não há resgate de sua vida. Ela tem que confirmar se pode acreditar em mim.
— Vou tentar— respondo, e a menina sorri. Sorri, me abraça e diz:
— Obrigada, Ed — ela se vira e aponta. Sua voz sussurra ainda mais baixinho — E o primeiro quarto ali do lado direito.
Quem dera que fosse fácil assim.
— Vamos, Ed. Eles estão lá dentro...
Só que, mais uma vez, não consigo me mexer.
O medo se amarrou nos meus pés, e eu sei que não posso fazer nada. Hoje não. Pelo jeito, nunca. Se eu tentar me mexer, vou tropeçar no medo.
Acho até que a garota vai gritar comigo. Alguma coisa tipo: "Mas você prometeu, Ed! Você prometeu!" Mas fica calada. Acho que ela saca a força física do pai e que eu sou magrelo. Tudo que faz é se aproximar e me abraçar de novo.
A menina tenta se enfiar na minha jaqueta quando o barulho do quarto aumenta. Ela me dá um abraço tão apertado que fico pensando como que ela não quebra os ossos. Quando ela me solta e vai embora, diz:
— Obrigada por pelo menos tentar, Ed.
Não respondo nada, porque agora a única coisa que sinto é vergonha. Vejo os pés dela virarem e irem embora embaixo do pijaminha amarelo. Ela se vira mais uma vez e diz:
— Tchau, Ed.
— Tchau — respondo atrás de minha cortina de vergonha.
Ela fecha a porta toda, me deixando ali agachado. Eu me inclino pra frente e descanso a cabeça na moldura da porta. Minha respiração sangra. As batidas de meu coração enchem meus ouvidos.
Agora estou deitado na cama, engolido pela noite. Como alguém pode dormir quando não consegue sentir mais nada além dos bracinhos de uma criança usando pijama amarelo, agarradinha no escuro? Cara, não dá.
Sinto que a insanidade logo virá atrás de mim. Se eu não voltar à Rua Edgar logo, acho que vou pirar. Que pena que a menina apareceu — se bem que eu sabia que ela ia aparecer. Ou pelo menos eu deveria saber. Ela havia aparecido nas outras noites e chorado na varanda, substituída mais tarde pela mãe. Sei que, enquanto estou aqui deitado de barriga pra cima, era pra eu conhecer a menininha. Eu queria que ela me desse coragem. Pra me forçar a entrar. Mas não funcionou nem a pau. Na verdade, mais desastroso que isso, impossível. Agora me sinto pior ainda.
Às 2:27 da madrugada, o telefone toca.
Dou um pulo da cama, saio correndo e olho pro telefone. Isso não está me cheirando bem.
— Alô?
A voz do outro lado espera.
— Alô? — repito.
Finalmente a voz se manifesta, e consigo imaginar a tal boca, articulando as palavras. A voz é seca, de taquara rachada. É simpática, mas com um tom completamente profissional.
— Dê uma olhada na sua caixa de correios, Ed.
Um silêncio toma conta e a voz desaparece completamente. Não ouço mais nenhuma respiração do outro lado.
Ponho o telefone no gancho e ando devagar até a porta da frente, chegando à caixa de correios. Não tem mais nenhuma estrela no céu e está caindo uma garoa fina à medida que vou me aproximando. Estou com as mãos tremendo quando me inclino e abro o trinco. Coloco a mão lá dentro.
Toco numa coisa fria e pesada.
Meu dedo toca no gatilho.
Sinto um calafrio.
N.A/ Ai ai ai.. o que será que vai acontecer com o Ed? Mandem Reviews Por Favor (eu sei que isso foi meio dramático maaaas...)
Bjs ficnets ;*
