Segunda Parte – As pedras de casa

Ás de paus - O QUE RESTOU

Ed. Pov

Secura.

Saio cambaleando do carro e escorrego em direção à tela anti-inseto. Estou sentindo uma coisa que se parece mais com uma desolação total. Sinto a coisa me correndo direto pelo corpo. Direto, não. Em ziguezague. Cansei disso de ser mensageiro, não estou mais nem aí pra isso. Essa história me deixou cheio de culpa. Tento me livrar, mas volta sempre. Ninguém disse que ia ser fácil.

A arma.

Tudo que sinto na mão é a arma. O metal quente e macio se fundindo com minha pele. Está lá no porta-malas agora, fria e dura novamente, fingindo inocência.

Quando caminho pra varanda, ouço o corpo dele batendo no chão de novo. Acho que deve ter sido um choque pra ele ainda estar vivo. O cara ofegava toda vez que tomava um ar, tentando sugar a vida, tentando não morrer. Estava acabado. Eu tinha atirado pro sol, mas, é claro, estava longe demais. Naquele momento, me passou rapidamente pela cabeça a questão de onde a bala tinha parado.

O tempo todo enquanto eu voltava pra casa, com os pneus remarcando o caminho que a gente tinha trilhado, olhei pro banco do passageiro. Estava cheio de vazio. O que restou daquele cara provavelmente ainda estava lá deitado, respirando com a cara no chão, até entupir os pulmões de terra.

Tudo que eu quero agora é entrar em casa e abraçar Porteiro. Espero que ele retribua o abraço.

A gente toma um cafezinho.

— Tá bom? — pergunto. Excelente, ele responde.

Às vezes eu queria ser cachorro.

O sol está bem alto, e as pessoas estão indo trabalhar. Eu me sento à mesa da cozinha e sinto uma certeza de que ninguém naquela rua anônima, coberta de orvalho, teve uma noite como a minha. Imagino todas elas se levantando no meio da noite para dar uma mijada, ou gozando juntas em suas camas — enquanto eu estava fora, com a ponta de uma arma na nuca de um outro ser humano. Por que eu?, penso, mas é sempre assim. Estou me queixando, embora eu ache que tenho todo o direito. Teria sido maneiro estar fazendo amor no lugar de tentar cometer um assassinato. Tenho a sensação de que perdi alguma coisa, e meu café está esfriando. O fedor de Porteiro se ergue e bate nos meus ombros. Apesar de perturbado pelos meus pensamentos, eu me sinto aliviado por ele estar dormindo.

Não demora muito e o telefone toca.

Ah, não, você não tá podendo com isso, Ed,

São eles, não são?

O coração dispara feito louco. As batidas perdem o ritmo.

Êta, pulsação incompetente!

Eu me sento.

O telefone toca.

Quinze vezes.

Pulo Porteiro, olho atentamente pro telefone e decido então atender. Fico com a voz meio presa na garganta.

— Alô?

A voz do outro lado está irritada, mas graças ao pai do céu é a voz do Emm. No fundo, dá pra ouvir homens trabalhando. Martelando. Xingando. Cenário de fundo pra voz do Emm.

— Pô, ae, muito obrigado por atender à porra do telefone, Ed — ele reclama. Não posso com isso agora. — Eu já tava começando a pensar que...

— Cala essa boca, Emm — desligo.

Como é de se esperar, o telefone toca de novo. Eu atendo.

— O que é que tá pegando, Ed?

— Nada, Emm. Não tem nada pegando.

— Não venha de sacanagens, Ed. Minha noite foi péssima.

— Sei. Você também tentou matar alguém, Emm?

Porteiro olha pra mim como se estivesse perguntando se o telefonema era pra ele. Rapidamente, ele volta pra tigela e lambe, buscando um cheirinho perdido de café.

— De novo essa sandice? Olha, já ouvi tudo quanto é desculpa esfarrapada nesta vida, mas nada se compara a essa aí, Ed.

Sandice. Adoro quando um cara como o Emm usa uma palavra assim. Eu desisto.

— Deixa pra lá, Emm. Não é nada.

— Então ótimo — Emm está sempre mais feliz quando eu não tenho nada a dizer. Ele consegue então dizer o que estava tentando o tempo todo. — E aí, já pensou na parada?

— Que parada?

— Você sabe, cara. - Aumento a voz.

— Não, Emm, no estado em que me encontro, não faço a menor idéia do que você tá falando. Ainda é cedo pra caramba, passei a noite toda fora e, se quer saber, não tô pronto emocionalmente pra levar esse papinho honesto agora — me dá vontade de desligar de novo, mas eu me seguro. — Dá pra facilitar e me dizer exatamente do que estamos falando?

— Ok, ok — ele age como se eu fosse o maior filho-da-puta do mundo e que está me fazendo um favor por não bater o telefone na minha cara. — O pessoal tá querendo saber se você tá dentro, cara.

— Dentro do quê?

— Você sabe, pô.

— Cara, me atualiza.

— Você sabe... O Jogo de Verão.

Puta que o pariu, como você pôde esquecer, otário? A pelada de pés descalços. Vai ser egoísta assim lá no inferno, filho-da-puta.

— Emm, ainda não pensei muito bem no assunto.

Agora ele ficou triste. E não falo de qualquer tristeza, não. Emm está fervendo. O cara praticamente me dá um ultimato:

— Então vê se decide logo, Ed. Você tem 24 horas pra me avisar se vai ou não jogar. Se não, vamos chamar outra pessoa. Tem uma porrada de gente querendo jogar, sacou? Esses jogos já são uma tradição super-procurada. Tem uns caras tipo Alec Carter e Horse Scout que tão doidinhos pra participar...

Eu me desligo. Horse Scout? Eu nem quero pensar quem diabos pode ser esse desgraçado. Só me dou conta de que o Emm desligou na minha cara quando ouço o sinal de ocupado. Acho melhor ligar pra ele mais tarde e dizer que vou jogar.

Se Deus quiser, alguém vai quebrar meu pescoço no meio de um matagal cheio de espinhos. Seria muito bom.

Assim que largo o telefone, pego uma sacola plástica e levo pro táxi e tiro a dor na consciência do porta-malas. Eu a coloco de novo na gaveta e tento esquecer. Não consigo.

Durmo.

Nem sinto as horas passarem enquanto estou na cama.

Sonho com a noite passada, com o sol de rachar da manhã e com a enorme tremedeira de um homem. Será que ele já voltou pro subúrbio? Será que conseguiu voltar a pé ou pelo menos pegar uma carona? Tento não pensar nisso. Toda vez que esses pensamentos sobem na cama, eu me viro, tentando amassá-los contra o colchão. Só que eles conseguem escapar.

Quando acordo pra valer, parece que já estou no meio da tarde, só que ainda não são nem onze horas. O nariz molhado do Porteiro beija meu rosto. Devolvo o táxi, volto pra casa e levo Porteiro pra passear.

— Fique atento — digo pra ele quando pegamos o caminho. Agora estou todo paranoico. Penso no cara da Rua Edgar, embora eu saiba que ele está longe de fazer parte de minhas preocupações. Preciso me preocupar, isso sim, com quem me mandou o ás de ouros. Tenho um mau pressentimento: acho que os caras já sabem que eu completei a carta e logo, logo vão me enviar uma outra.

Espadas. Copas. Paus.

Qual será a próxima carta que vai parar na minha caixa de correios? Acho que é a carta de espadas que mais me preocupa. O ás de espadas me deixa bolado sempre me deixou. Tento não pensar nisso. Sinto como se alguém estivesse me vigiando.

De tarde, andamos um bom pedaço e acabamos na casa do Emm, onde encontro vários caras nos fundos.

Quando chego no quintal, chamo o Emm. Ele não me escuta de primeira, mas, quando ele vem, eu digo:

— Tô dentro, Emm.

Ele aperta minha mão como se eu tivesse acabado de lhe pedir para ser meu padrinho de casamento. Pro Emm e importante que eu jogue porque nós dois participamos nos últimos anos e ele quer que isso vire uma tradição. Emm dá a maior importância ao jogo, e eu me dou conta de que não devo fazer pouco caso da parada. O negócio é assim e pronto.

Olho pro Emm e os outros caras no quintal.

Eles nunca vão sair deste lugar. Não vão querer, e também não tem problema.

Converso com o Emm um pouco mais e tento vazar, embora uma porrada de suburbanos carregando caixas de isopor já tenha me oferecido cerveja. Os caras vestem bermudas de tactel, camisetas regata e chinelos de tiras. O Emm me acompanha até o portão onde Porteiro aguarda. Quando estou quase chegando na rua, ele chama.

— Ed!

Eu me viro. Porteiro, não. Ele não gosta muito do Emm.

— Valeu, cara!

— Falou.

E continuo andando. Levo Porteiro pra casa, vou pra TAXI LIVRE e bato meu ponto. Dirijo pra cidade, pensando novamente na noite passada. Fragmentos dela estão pelas ruas e correm pertinho do carro. Quando uma imagem vai sumindo, é logo substituída por outra. Por um momento, quando olho no espelho retrovisor, não reconheço quem sou. Parece que não sou eu. Nem me lembro quem Ed Masen tem que ser.

Não sinto nada.

Pra minha sorte, o dia seguinte é minha folga. À tardinha, eu me sento com Porteiro no parque na rua principal do subúrbio. Comprei sorvete pra gente. Dois sabores numa casquinha só. Manga e laranja pra mim. Chiclete e capuccino para Porteiro. É legal sentar na sombra. Fico prestando atenção em Porteiro gentilmente atacar o sorvete, querendo sentir o doce, ele amolece a casquinha com a baba. Taí um sujeito bonitão.

Ouço passos na grama atrás da gente.

Meu coração dispara.

Vejo sombras. Porteiro continua comendo — um sujeito bonitão, mas um cão de guarda inútil.

— Oi, Ed. - Reconheço a voz.

Reconheço e no fundo fico meio sem graça. É Nessie. Dou uma rápida olhada em suas pernas atléticas quando ela pergunta se pode se sentar.

— Claro. Quer um sorvete?

— Não, obrigada.

— Não quer dividir um com meu amigo Porteiro?

Ela ri.

— Não, obrigada... Porteiro?

Nossos olhos se encontram.

— É uma longa história.

A gente fica calado, esperando, até que me lembro que sou o mais velho e assim devo puxar papo.

Mas não puxo.

Não quero encher essa garota com papo furado.

Ela é linda.

Ela faz carinho em Porteiro, e a gente fica ali sentado por meia hora. Acabo sentindo que ela está olhando pro meu rosto. Sua voz penetra em mim. Ela diz:

— Tô com saudade de você, Ed.

Olho bem pra ela e respondo:

— Eu também tô com saudade de você.

Pior que é verdade. Ela é tão novinha, e eu sinto falta dela. Ou será que não a esqueço porque ela foi uma mensagem bacana? Acho que sinto falta da pureza e da sinceridade dela.

Ela é curiosa.

Sinto isso.

— Você ainda tá correndo? — pergunto, negando.

Ela faz que sim com a cabeça e participa do papo.

— Descalça?

— Claro.

Seu joelho esquerdo ainda está esfolado, mas, quando olhamos pra ele, não existe arrependimento nos olhos da menina. Ela está contente, e pelo menos só de ver como ela está à vontade comigo já é um consolo pra mim.

Você fica tão linda correndo descalça, penso, mas não consigo dizer. Porteiro termina o sorvete e continua se empanturrando, lambendo da mão e dos dedos de Nessie.

Um carro buzina atrás da gente e sabemos que é pra ela. Ela se levanta.

— Tenho que ir.

Não rola nenhum tchau.

Só os passos e uma pergunta quando ela se vira.

— Tá tudo bem com você, Ed?

Quando olho e a vejo, não agüento e dou um sorriso.

— Tô esperando — respondo.

— Esperando o quê?

— O próximo ás.

Ela é esperta e sabe o que dizer:

— E você tá pronto pro próximo?

— Não — encaro e aceito um fato muito claro. — Mas ele vai chegar do mesmo jeito.

Ela vai embora e eu vejo seu pai me olhando do carro. Espero que ele não ache que eu sou um safado, sei lá, sentado em parques e espreitando adolescentes inocentes. Ainda mais depois do lance da caixa de sapatos.

Sinto o focinho do Porteiro na minha perna, e ele olha pra mim com seu olhar adorável de velhinho.

— E aí? — pergunto. — O que vai ser, amigão? Copas, paus ou espadas?

Que tal mais um sorvetinho?, ele sugere.

Ele não ajuda mesmo, né?

Mastigo minha casquinha e a gente se levanta. Percebo que estou todo duro e dolorido de duas noites atrás, na Catedral. É nisso que dá tentar assassinar

N/A:. A Nessie é muito fofa, né? O que será que está por vir agora? Mandem reviews

Bjs ficnets ;*