Segunda Parte – As Pedras de Casa
2 de paus - A VISITA
Ed. POV.
Três dias se passam e nada ainda.
Estive na Rua Edgar e a casa está escura. A mulher e a menina estão dormindo, e ainda não há sinal dele. Cogitei retornar à Catedral pra ver o que aconteceu com ele, afinal.
Ainda.
Cara, como sou ridículo!
Era pra matar o cara e aqui estou, todo preocupado com seu bem-estar. Eu me sinto culpado por tudo que fiz com ele, mas, por outro lado, me sinto culpado por não ter matado o safado. Afinal de contas, foi pra isso que me enviaram lá. Acho que a arma na minha caixa de correios deixou isso muito claro.
Talvez ele tenha conseguido chegar à rodovia e continuado a andar.
Talvez ele tenha se atirado do penhasco.
Dou um pára antes que eu pense em todas as possibilidades. Não vai demorar pra eu não ter mais tempo de me preocupar. Só mais alguns dias.
Numa noite, depois de jogar cartas, volto e encontro a casa com um cheiro diferente. Tem o cheiro do Porteiro, mas tem outra coisa também. Alguma coisa assando. Daí reconheço.
Tortas.
Meio que sem querer, eu me arrasto até a cozinha e percebo que a luz está acesa. Tem alguém na minha cozinha comendo torta, que foi retirada do freezer e assada. Sinto o cheiro da carne processada e do molho. O cheiro do molho sempre se destaca.
Com otimismo sem sentido, procuro alguma coisa pra usar como arma, mas não tem nada no meu caminho além do sofá.
Quando chego na cozinha, vejo uma figura sozinha.
Fico chocado.
Tem um homem usando uma máscara de lã, sentado na mesa, comendo uma torta de carne com molho. Muitas perguntas me passam pela cabeça, mas todas me escapam. Não é todo dia que se encontra uma parada dessa quando se chega em casa.
Enquanto estou ali pensando no que fazer, me dou conta, apavorado, de que tem outro atrás de mim.
Não.
Acordo com uma lambida das grandes.
Porteiro.
Graças a Deus você está bem, digo a ele. Digo fechando os olhos aliviado.
Ele lambe de novo, e sua língua está vermelha do sangue que escorre no meu rosto. Ele sorri pra mim.
— Eu te amo também — digo, e minha voz soa distante. Não sei muito bem se ela saiu ou não, nem se é verdade. Percebo que não ouço nada fora de mim. E tudo interno, e como estática.
Anda, digo a mim mesmo, mas não consigo me mexer. Eu me sinto grudado no chão da cozinha. Até caio na besteira de tentar lembrar o que aconteceu. Isso só faz um barulho esquisito na minha frente e a cara do Porteiro se desfigura. A sensação é de que isso seja o precursor da morte. Um prólogo, talvez.
A minha mente vai se desligando, se transportando.
Para o sono.
Mergulho bem no fundo de mim mesmo e me sinto preso, sem saída. Caio passando por várias camadas de escuridão, quase alcançando o fundo, quando parece que uma certa mão me puxa pela garganta e me traz de volta à dor da realidade. Alguém está literalmente me arrastando pela cozinha. A luz fluorescente me esfaqueia os olhos, e o cheiro de torta com molho me dá vontade de vomitar.
Agora alguém me apóia pra sentar lá no chão, meio inconsciente, segurando a cabeça com as mãos.
Logo os vultos se misturam à névoa e consigo vê-los sob a luz branca da cozinha.
Estão sorrindo.
Estão sorrindo pra mim dentro daquelas máscaras de lã bem grossas. São um pouco grandes e sarados, fortes, ainda mais comparados a mim.
Eles dizem:
— Oi, Ed.
— Como tá se sentindo, Ed?
Tento me concentrar nos meus pensamentos como forma de me manter vivo.
— Meu cachorro — começo a gemer. Minha cabeça vai deixando minhas mãos ensopadas, e minhas palavras rapidamente se afogam. Já esqueci que foi Porteiro que me trouxe de volta à consciência antes.
— Ele tá precisando de um banho — um deles diz.
— Ele tá bem? — palavras serenas. Palavras de medo que saem pela boca, tremem e tentam se manter no ar.
— E de uma coleira antipulga.
— Pulga? — pergunto. Minha voz está espalhada pelo chão. — Ele não tem pulga nenhuma.
— E o que é isso aqui?
Um deles me agarra gentilmente pelo cabelo e levanta minha cabeça pra eu ver. Ele mostra o antebraço cheio de picadas de inseto.
— Não são do Porteiro — digo, sem entender muito bem por que decidi dar uma de teimoso numa situação desta.
— Porteiro? — como Nessie, os intrusos acham o nome curioso.
Balanço a cabeça pra confirmar e daí, pra minha surpresa, o movimento me desperta um pouco.
— Escuta, com pulga ou sem pulga, ele tá bem ou não?
Os dois se olham, e um deles dá mais uma mordida na torta.
— Alec — ele diz tranqüilamente —, acho que não tô gostando muito do tom do Ed. Tá meio... — ele tenta achar a palavra certa. — E meio...
— Azedo?
— Não.
— Depreciativo?
— Não — mas agora ele encontrou. — Pior... E meio desrespeitoso.
A última palavra é dita com total desdém. Ele olha diretamente pra mim ao falar. Seus olhos me avisam mais do que a boca. Ele dá a entender que eu devo me descontrolar e cair no choro, implorando que não machuquem meu cachorro, meu companheiro de cafezinho.
— Por favor — digo finalmente. — Vocês não machucaram Porteiro, machucaram?
Os olhos duros se abaixam.
Ele balança a cabeça de um lado pro outro.
— Não.
A melhor palavra que já ouvi na vida.
— Mas, cá pra nós, êta cãozinho imprestável, hein! — diz o cara que ainda está terminando a torta, mergulhando o pedaço no molho que está no prato. — Sabia que a gente entrou aqui e ele continuou no maior ronco?
— Não duvido nada.
— Mesmo quando acordou, o bicho entrou pra pedir o que comer.
— E?
— A gente deu uma tortinha pra ele.
— Assaram primeiro ou deram congelada mesmo?
— Assada, Ed! — ele se ofendeu. — Não somos selvagens, tá sabendo? Até que somos bem civilizados.
— Sobrou alguma torta pra mim?
— Pô, desculpa aí, cara. O cachorro comeu a última.
Usurário, olho-grande do inferno!, penso, mas não posso usar isso contra ele. Cachorro come tudo mesmo. Não dá pra brigar com a natureza. De qualquer modo, tento pegar os dois. Disparo. Uma perguntinha rápida.
— Quem mandou vocês aqui?
Depois de jogada ao ar, minha pergunta perde o ritmo. As palavras ficam pairando, e, com todo o cuidado, eu me levanto e me sento em uma das cadeiras vazias da cozinha. Estou me sentindo um pouquinho mais à vontade, sabendo que tudo isso faz parte do que está por vir.
— Quem mandou a gente? — o outro assume agora. — Boa tentativa, Ed, mas você sabe muito bem que não dá pra gente dizer. Nada nos daria maior prazer, mas nem a gente sabe. Só fazemos o serviço e pegamos a grana.
Fico puto.
— O quê? — isso não é uma pergunta, mas uma acusação. — Porra, eu não recebo grana nenhuma. Ninguém me dá...
Levo um tabefe na cara. Um tabefe bem forte.
Ele então se senta de novo e volta a comer, mergulhando a última crostinha de torta na poça de molho no prato.
Você colocou demais, penso. Muito obrigado.
Ele come calmamente a crosta, e com a boca cheia diz:
— Pára de reclamar, Ed! Todos aqui temos nossas obrigações. Todos sofremos. Todos encaramos contratempos pelo bem maior da Humanidade.
Ele impressionou o parceiro e a si mesmo.
Os dois concordam um com o outro, balançando a cabeça.
— Maneiro — o outro diz pra ele. — Tenta lembrar da frase toda.
— É... Como foi mesmo? O bem maior da... ? Ele se esforça, mas não consegue lembrar.
— Humanidade — respondo baixinho.
— O que, Ed?
— Humanidade.
— É claro! Você tem uma caneta aí pra me emprestar, Ed?
— Não.
— Por que não?
— Tá achando o que, que isso aqui é papelaria?
— Lá vem ele nesse tom de novo! — ele se levanta, me dá um tabefe ainda mais forte e volta pra cadeira como se nada tivesse ocorrido.
— Essa doeu — reclamo.
— Obrigado — ele olha pra mão: pro sangue, pra sujeira e pra mancha. — Você tá mal, Ed, não tá, não?
— Eu sei.
— O que tá pegando?
— Eu quero uma torta.
Cara, juro por Deus — e tenho certeza de que você vai me entender muito bem baseado nas ações anteriores — às vezes viro criança. Uma criança bem pé-no-saco. O Emm não é o único.
O cara que me deu o tabefe me sacaneia, me imitando com uma voz de criancinha.
— Eu quero uma torta... — ele até suspira. — Você tá se ouvindo, maluco? Vê se cresce, faz favor!
— Eu sei.
— Bem, já é alguma coisa. É o primeiro passo.
— Obrigado.
— Bem, onde é que estávamos mesmo? Os três param pra pensar. Silenciosamente.
Porteiro entra, com cara de quem tem culpa no cartório.
Pelo jeito, acho que não vai dar pra rolar um cafezinho, né?, ele consegue me perguntar. Ah, ele que se dane!
Só olho pra ele, e ele volta lá pra fora. Dá pra ele sentir que está sujo comigo. Nós três ficamos olhando enquanto o bicho se afasta da cozinha.
— Dá pra sentir o cheiro quando ele se aproxima, não dá? — um diz.
— Com certeza.
O que come mais devagar se levanta e começa a enxaguar os pratos na pia.
— Deixa pra lá — digo.
— Nada disso... Civilizados, lembra?
— Ah sim, é mesmo. Ele bate as mãos e se vira.
— Ae, minha máscara tá suja de molho?
— Que eu esteja vendo, não — o outro responde. — E a minha? Ele se inclina e examina.
— Não, cê tá limpinho, limpinho.
— Que bom.
O que come devagar começa a brigar com a própria cara, dizendo:
— Ah, essa porra coça que é um inferno.
— Ah, pára de reclamar, Caius.
— A sua não coça, não?
— E claro que coça! — Alec não consegue acreditar que estão discutindo sobre isso. — Mas você me vê reclamando a cada cinco minutos, por acaso?
— A gente tá aqui há uma hora.
— Mesmo assim, lembre: estas são as coisas que temos que passar pelo bem maior da... — ele estala os dedos pra mim.
— Oh, Humanidade.
— Isso aí. Valeu, Ed. Bom trabalho.
— Tudo bem.
Ficamos meio que amiguinhos agora. Eu sinto isso.
— Olha só, será que dá pra acabar logo com isso pra eu poder tirar essa máscara de lã da cara, Alec?
— Será que você poderia mostrar um pouco de disciplina, Caius? Todo matador que se preza é impecavelmente disciplinado, falou?
— Matador? — pergunto.
Alec encolhe os ombros.
— Bem, é assim que a gente se chama.
— Parece plausível — concordo.
— Acho que sim — e ele pensa mais agora. Ele reflete. Ele fala.
— Ok, Caius, você tem razão. É melhor ir logo embora. Você pegou a pistola, não pegou?
— Peguei sim. Tava na gaveta.
— Bom — Alec se levanta e tira um envelope do bolso da jaqueta. No envelope está escrito "Ed Masen". — Tenho uma entrega pra você, Ed. Por favor, levante daí, filho.
Eu me levanto.
— Desculpa — ele agora usa a razão —, mas tô cumprindo ordens. Tenho que lhe dizer uma coisa: até agora você tá se saindo bem — ele abaixa a voz. — E só entre nós, e eu posso até acabar me ferrando por lhe dizer isso, a gente tá sabendo que você não matou o outro cara...
Ele se desculpa de novo e me dá um soco na costela.
Eu me dobro de dor.
O chão da cozinha está uma imundície.
É pêlo de Porteiro pra tudo quanto é lado.
Com o punho, o cara martela minha nuca.
Meto a cara no chão.
O gosto se junta na minha boca.
Bem devagar, sinto o envelope parando nas minhas costas.
Bem longe, ouço a voz do Alec pela última vez. Ele diz:
— Desculpa aí, Ed. Boa sorte.
Seus passos ecoam pela casa e agora ouço a voz do Caius também.
— Posso tirar a máscara agora?
— Falta pouco, cara — Alec responde.
A cozinha vai escurecendo, e eu mergulho mais uma vez.
N/A:. Oi ficnets.. desculpa a demora tinha muita gente aqui em casa ontem e não deu para postar... E ai o que acharam desse capítulo? Coitado do Ed né?
Obrigada Daia Matos e Mylle Malfoy P.W. por suas motivantes(essa palavra existe? Rsrs) reviews. Fany, o romance só vem depois, mas que bom que tá gostando.
Mandem reviews!
Bjs ficnets ;**
