Segunda parte – As pedras de casa

3 de paus - O ENVELOPE

Ed. POV.

EU queria muito poder dizer que Porteiro está me dando uma força, mas é claro que não está. Ele se aproxima e me dá umas lambidinhas até eu encontrar força suficiente pra me levantar.

A luz mergulha em mim.

A dor aumenta.

Quando tento manter o equilíbrio, Porteiro balança, e eu, desesperado, peço ajuda pra ele. Só que a única coisa que ele consegue fazer é ficar ali, balançando e olhando.

De canto de olho, vejo alguma coisa no chão.

Eu me lembro.

O envelope.

Caiu das minhas costas, debaixo das cadeiras da cozinha, no meio dos pêlos do Porteiro.

Eu me abaixo e pego o envelope entre os dedos, feito criança segurando alguma coisa muito suja, tipo um lenço usado.

Com Porteiro me guiando, vou pra sala e me esparramo no sofá. O envelope oscila, fazendo graça de seu próprio perigo, como se dissesse, "É só papel. Só palavras". Nunca menciona se as palavras vão ser de morte ou estupro, ou outros servicinhos horríveis e sanguinários.

Ou se vai ter mais algumas Nessies, ou Irinas.

De qualquer forma, estamos sentados no sofá.

Porteiro e eu.

E aí?, ele pergunta com o queixo no chão.

Eu sei.

O negócio tem que ser feito.

Abro o envelope, e o ás de paus cai, com uma carta.

Caro Ed:

Se você estiver lendo esta carta, provavelmente está tudo bem. Espero que sua cabeça não esteja muito dolorida. Sem dúvida alguma, Caius e Alec mencionaram que estamos muito satisfeitos com seu progresso. Se minha intuição estiver certa, eles provavelmente deixaram escapar que nós sabemos que você não matou o sujeito da Rua Edgar. Muito bem. Você deu conta da situação muito bem. De fato, foi impressionante. Parabéns.

Caso você esteja se perguntando, o Sr. Rua Edgar embarcou em um trem rumo a uma antiga cidade mineradora há pouco tempo. Tenho certeza de que você ficará contente em saber disso...

Agora novos desafios aguardam.

Paus não é brincadeira, meu caro.

A questão é: Você está disposto a encarar?

Ou seria tal questão irrelevante? Você não estava disposto para o ás de ouros.

Mas deu conta do recado.

Boa sorte e continue firme nas entregas. Tenho certeza de que você está consciente de que sua vida depende disso.

Adeus.

Que ótimo.

Simplesmente ótimo.

Tremo todo só de pensar no ás de paus revelando suas intenções. Tudo me leva a não pegar a carta. Contra toda a realidade, chego a imaginar Porteiro comendo a desgraçada.

O único problema é que eu a sinto logo ali, depois do dedão do pé. A droga da carta é como a própria gravidade. Como uma cruz pra eu carregar nas costas.

Ela está nos meus dedos agora.

Eu a seguro.

Está nos meus olhos.

Eu a leio.

Sabe quando você faz alguma coisa e só se dá conta de que realmente fez o troço depois de uns segundos? Pois é, foi isso que acabei de fazer, e

resultado: estou lendo o ás de paus, esperando encontrar outra lista de endereços.

Me dei mal.

Como sempre, não vai ser tão fácil. Desta vez não tem endereço nenhum. Essa história não segue um padrão exato. Não tem nada que garanta a segurança dessa parada. Cada parte é um teste, e parte do teste está no inesperado.

Desta vez o negócio está nas palavras.

Só palavras.

Na carta está escrito o seguinte:

Faça uma oração nas pedras de casa

E aí, o que você acha? Dá pra me dizer que diabos quer dizer isso? Pelo menos o lance dos endereços era curto e grosso, bem direto. As pedras de casa podem ser qualquer coisa. Em qualquer lugar. Qualquer pessoa. Como posso encontrar um lugar sem face, e nada pra me apontar na direção certa?

As palavras sussurram pra mim.

A carta suavemente fala no meu ouvido como se a recordação fosse vir à tona a qualquer momento.

Mas não tem nada.

Só a carta, eu e um cachorro roncando bem baixo.

Acordo mais tarde, todo amarfanhado no sofá, e me dou conta de que minha nuca sangra de novo. O sofá está sujo de sangue, e meu pescoço, cheio de ferrugem. A dor voltou, só que menos aguda. E constante.

A carta está na mesinha de centro, pairando sobre a poeira. Crescendo no meio do pó.

Está escuro lá fora.

A luz da cozinha está muito forte.

Ela me deixa surdo quando me dirijo pra lá.

O sangue enferrujado arranha meu pescoço e chega até as costas. No caminho, percebo que preciso beber alguma coisa, dou uma porrada no interruptor pra apagar a luz, e vou tropeçando pelo escuro em direção à geladeira. Lá no fundo encontro uma cerveja e volto pra sala, tentando beber até ficar de porre. No meu caso, ficar de porre significa ignorar a carta. Dou uma batidinha no Porteiro com os pés, querendo saber que dia é hoje e que horas são, o que deve estar passando caso eu decida me dar ao trabalho de levantar pra ligar a TV. Tem alguns livros no chão. Não vou ler nenhum deles.

Alguma coisa escorre pelas minhas costas.

Minha cabeça está sangrando de novo.


N/A:. E ai ficnets, uma surpresinha pra vocês... O que acharam? Coitado do Ed. Mandem reviews..

Bjs ;*