Segunda Parte – As pedras de casa
4 de paus - SÓ O ED
Ed. Pov
— Mais uma?
— Mais uma.
— Qual é o naipe desta vez?
— Paus.
— E você ainda não faz a menor idéia de quem tá te mandando? — Bella olha pra cerveja que caiu na minha jaqueta, e agora pro sangue coagulado e podre no meu pescoço. — Credo, em que fria você se meteu ontem à noite?
— Não se preocupe.
Me sinto meio patético, pra dizer a verdade. Vim direto pedir ajuda pra Bella assim que amanheceu. A gente está aqui conversando na varanda já há algum tempo e só agora me toco que estou tremendo feito vara verde. O sol me aquece, mas minha pele tenta abandonar meu corpo, brigando com a carne.
Posso entrar?, penso, mas rapidinho tenho a resposta, quando aquele novato do trabalho aparece, perguntando:
— Quem é, gatinha?
— Oh... — Bella fica meio...
Sem graça.
Então manda, sem pensar.
— Oh, é só o Ed.
Só o Ed.
— Bem, até mais tarde...
Começo a andar pra trás, esperando. Esperando o quê?
Ela.
Mas ela não vem.
Finalmente, ela dá uns passos pra fora e diz:
— Você vai estar em casa mais tarde, Ed?
Continuo andando de costas.
— Não sei — é verdade. Eu não sei. Meu jeans parece ter mil anos de idade, embrulhando minhas pernas. Parece até uma mosca. Minha camisa arde no corpo. As mangas da jaqueta estão ásperas, meu cabelo, todo bagunçado, e meus olhos, bem vermelhos. E ainda não sei que dia é hoje.
Só o Ed.
Eu me viro.
Só o Ed sai andando.
Só o Ed anda rápido.
Ele faz que vai correr.
Mas ele tropeça.
Ele enfia um pé na terra e diminui o passo, ouvindo a voz dela chamar, se aproximando.
— Ed?
— Ed?
Só o Ed se vira pra ouvi-la.
— Mais tarde eu dou uma passada na sua casa, tá bem?
Ele desiste.
— Falou. Então até mais — e vai embora. Ele olha pra Bella lá na porta...
Uma camiseta supergrande fazendo a vez de um pijama. Cabelo superlindo. Mãos nos quadris. As pernas finas e compridas, bronzeadas. Os lábios secos, de quem acaba de acordar. Marcas de dentes no pescoço.
Putz, cara, dava pra sentir o cheiro de sacanagem nela.
E, na maior angústia silenciosa, fico pensando que seria bacana se eu também estivesse cheirando a sexo.
Só que o único cheiro que sinto aqui em mim é de sangue pisado e de cerveja respingada na jaqueta.
Está fazendo um dia lindo.
Não tem uma nuvem no céu.
Pare de se lamentar, digo a mim mesmo depois, comendo meus sucrilhos, e já que o senhor quer saber, seu Ed, hoje é terça-feira. O senhor vai trabalhar hoje à noite.
Deixo o ás de paus na mesma gaveta de cima onde coloquei o ás de ouros. Por um instante, imagino uma mão cheia de ases naquela gaveta, todos abertos feito um leque, como um jogador os seguraria numa partida. Nunca pensei que eu não fosse querer quatro ases. Num jogo de cartas, o cara reza pra pegar um jogo assim. Minha vida não é nenhum jogo de cartas. Tenho certeza de que o Emm não vai demorar pra me pentelhar de novo, querendo que eu vá correr com ele, tipo uma preparação pro Jogo de Verão. Por enquanto, consigo até rir um pouco quando penso na situação — imaginando nós dois correndo descalços pelo orvalho e os enfeites assustadores dos jardins das pessoas. Não adianta correr de tênis quando o pessoal vai jogar descalço.
Bella chega lá pelas dez, toda cheirosinha, depois de tomar um banho. Amarrou o cabelo pra trás, deixou uns fíozinhos caindo nos olhos. Veste calça jeans, botas caramelo e uma camisa azul com o logo da TÁXI LIVRE bordado no bolso.
— Ed.
— Bella.
A gente se senta na varanda e fica com as pernas balançando na beirada. Agora tem umas nuvens no céu.
— E aí, o que esta diz?
Dou uma pigarreada e falo baixo:
— ... Faça uma oração nas pedras de casa. - Silêncio.
— Alguma idéia? — ela acaba perguntando, olhando pra mim. Sinto os seus olhos. Sinto a maciez deles.
— Nenhuma.
— E como tá sua cabeça e... — ela olha pra mim agora com um certo tipo de preocupação. —... tudo mais. Ed, você tá todo ferrado.
— Eu sei — minhas palavras batem nos meus pés e derrapam pra grama.
— Mas o que você fez nos endereços da primeira carta?
— Tá mesmo a fim de saber?
— Tô.
Eu conto e vejo o que acontece.
— Bem, tive que ler pra uma senhora, deixar uma garota supermeiga correr descalça até ficar toda contente, ensangüentada, gloriosa e... — ainda estou falando calmamente. —... tive que matar um homem que estuprava a mulher toda noite.
O sol aparece depois que uma nuvenzinha se dispersa.
— Tá falando sério?
— Você acha eu ia brincar com uma coisa dessas? — tento falar com um pouco de hostilidade, mas não consigo. Estou sem a menor energia.
Bella não tem coragem de me encarar agora, com medo de saber a resposta só de olhar pra mim.
— Você fez isso?
Agora me sinto culpado por pegar pesado e até por contar tudo isso. Ela não pode fazer nada pra ajudar. Nem consegue tentar entender. Ela nunca vai saber. Bella nunca vai sentir os braços daquela criança, Claire, em volta de seu pescoço; nunca vai ver a mãe se desmontando toda no mercado. Nunca vai sentir o frio daquela arma, nem vai ver o desespero de Milla querendo saber se tinha sido boa com o Billy, querendo ter certeza de que nunca decepcionou o cara. Ela nunca vai entender a timidez das palavras da Nessie no silêncio de sua beleza.
Fico perdido por uns segundos.
Eu me perco nesses pensamentos.
Quando recobro a consciência e me pego ali sentado ao lado de Bella, respondo à pergunta.
— Não, Bella. Eu não matei o cara, mas...
— Mas o quê?
Balanço a cabeça e sinto algumas lágrimas nos olhos. Não deixo que elas saiam.
— O que, Ed? O que você fez?
Lentamente. Vou falando. Lentamente.
Lentamente...
— Levei o cara lá pra cima, pra Catedral, com uma arma enfiada na cabeça dele. Puxei o gatilho, mas não atirei nele. Mirei pro sol — sinto que ficar enrolando o papo assim desse jeito só piora. — Ele saiu da cidade e não voltou. Na verdade nem sei se ele vai voltar um dia.
— Ele merece?
— O que merecimento tem a ver com a história? Quem sou eu pra decidir isso, Bella?
— Tudo bem — a mão dela toca em mim com suavidade, em paz. — Se acalme.
— Me acalmar? Me acalmar? Enquanto você tá trepando com aquele cara, enquanto o Emm planeja a partida de futebol idiota, enquanto o Jasper faz sabe lá Deus o que quando não tá jogando cartas, e enquanto a cidade inteira dorme, eu lavo a roupa suja.
— Você é um escolhido.
— Putz, que consolo!
— Ah é? E o que você me diz da senhora e da menina? Não foram maneiras?
Eu me acalmo.
— É... mas...
— Não valeu a pena passar por essa merda pra conhecer as duas?
Puta merda.
Que ódio.
Eu concordo.
— É que... eu só queria que as coisas fossem um pouco mais fáceis, entende? — neste momento faço questão de não olhar pra ela. — Eu queria que tivessem escolhido outra pessoa pra isso. Alguém competente. Antes eu não tivesse me metido naquele assalto lá do banco. Não queria ter que passar por nada disso — as palavras esguicham de minha boca, feito leite derramado. — E eu queria que você estivesse comigo e não com aquele outro cara. Eu queria que fosse minha pele que estivesse tocando na sua...
E aí está.
A estupidez em sua forma mais pura.
— Ai, Ed... — Bella olha pro outro lado. — Ai, Ed...
Balançamos os pés.
Fico olhando pra eles, e olho pro jeans nas pernas da Bella.
Ficamos lá sentados.
Eu e Bella.
E a sem-gracice.
Espremida ali, bem entre nós.
Não demora muito e Bella diz:
— Você é meu melhor amigo, Ed.
— Eu sei.
Essas palavras podem matar um homem.
Não precisa nem de arma.
Nem de balas.
Só das palavras e de uma garota.
Ficamos mais um tempinho sentados na varanda, e eu olho pras pernas e pro colo da Bella. Cara, que vontade de me encolher todo, colocar a cabeça e dormir nesse colo. Essa história toda só está começando e eu já estou exausto.
É hora de tomar uma decisão.
Tenho que me acalmar.
N/A: Desculpa, tive três provas essa semana e não deu pra postar. Maas, e ai o que acharam? Em em ? rs'... Mandem reviews
Bjs ficnets ;*
Ps: No próximo capítulo eu coloco as respostas das reviews
