Segunda Parte – As pedras de casa
6 de paus - As PEDRAS
Ed. Pov.
Em casa.
Volto pro subúrbio enquanto o sol vai despontando no céu. Todas as estradas estão vazias e eu paro na TAXI LIVRE.
Como sempre, volto andando pra minha casa.
Porteiro fica feliz de me ver.
Tomamos o cafezinho obrigatório e tiro a carta da gaveta. Olho bem pra ela, tentando pegá-la desprevenida e fazê-la me revelar os segredos.
A noite podia ter sido de qualquer forma, mas eu me sinto pronto agora. Quero fechar essa boca que só reclama e inventa desculpas, quero prosseguir a jornada. Chego a me encurralar na luz cada vez mais forte da sala. Penso: Não culpe ninguém, Ed. Aceite na boa. Vou até a varanda e percebo minha própria visão limitada do mundo. Quero pegar este mundo, e pela primeira vez tenho a sensação de que posso fazer isso. Sobrevivi a tudo até agora. Ainda estou aqui, firme e forte. Tudo bem, vai, eu sei que é uma varanda toda fodida, caindo aos pedaços, e quem sou eu pra dizer que o mundo não é o mesmo? Mas Deus sabe que o mundo exige muito da gente. Porteiro fica paradinho só de butuca ao meu lado. Ao menos, tenta ficar parado. Quem olha até diz que é um cachorro confiável e obediente. Olho pra ele e digo:
— Chegou a hora.
Quantas pessoas têm esta chance?
E dessas poucas, quantas de fato aproveitam a oportunidade?
Eu me agacho e coloco a mão no ombro do Porteiro (ou alguma coisa muito próxima a um ombro num cachorro), e vamos à luta, à caça das tais pedras de casa.
Depois de meia hora de caminhada pela rua, a gente pára.
A gente pára porque tem um pequeno detalhe.
A gente não faz a menor idéia de onde ir pra procurar a parada.
O resto da semana passa voando — jogo uma porrada de partidas de cartas, trabalho e fico de bobeira com Porteiro. Jogo uma bolinha com o Emm no campo perto de casa na noite de quinta-feira e depois do jogo, lá na casa dele, fico só olhando enquanto ele enche a cara.
— Falta um pouco mais de um mês pro jogo — ele diz, bebendo a cerveja do pai. Ele nunca compra a dele. Nunca.
O cara ainda mora com os pais. Tenho que admitir que a casa é bem maneira por dentro. Tábua corrida. Janelas limpas. A mãe é que se junta com a Marissa pra manter tudo assim, é claro. Os machos — Emm, o irmão preguiçoso e o coroa — não movem uma palha. Emm deixa uma graninha com a família pelo quarto que ocupa e deposita o resto da grana no banco. Às vezes fico me perguntando pra que será que ele está juntando dinheiro. Da última vez que fez os cálculos, ele disse que já tinha uns 30 mil na conta.
— Tu quer jogar em que posição, Ed?
— Sei lá.
— Eu quero jogar no centro — ele conta em segredo. — Só que é bem provável que eu fique na lateral de novo. Tu pega a segunda linha apesar de ser magrelo e fraco.
— Muito obrigado.
— Ué, é verdade, não é?
Nessa eu fiquei sem saída.
— Mas na verdade, quando você quer, até que joga bem — ele continua.
É aí que eu devia dizer pro Emm que ele também é um bom jogador, mas fico na minha, sem abrir a boca.
— Ed?
Nada.
Estou pensando no ás de paus de novo e onde devem estar as pedras de casa.
— Ed? — ele bate as mãos. — Cê taí, cara?
Por um instante, me dá vontade de perguntar pro Emm se ele já ouviu falar nas pedras de casa, mas alguma coisa me trava. Ele não vai entender e já sei perfeitamente bem que, se for pra eu ser o mensageiro, terei que tocar o barco sozinho.
— Tá tudo bem, Emm, tô aqui. Só tava pensando numas paradas aí.
— Você ainda vai morrer disso, meu velho. Melhor não pensar, vai por mim.
De certa forma, bem que eu queria ser assim. Sabe, tipo não ligar nem me preocupar com coisas que realmente são importantes. Acho que seria feliz, do mesmo modo lamentável com que nosso amigo Jasper é feliz. Nada abala o cara, e o cara não abala nada.
— Fica frio, Emm. Isso vai passar e eu vou melhorar.
Emm está no maior pique pra conversar hoje.
— Tá lembrado daquela gatinha que eu namorava? — ele pergunta.
— A Gianna?
Ele diz o nome dela completo, bem devagar:
— Gianna Boyd — e então encolhe os ombros. — Não esqueço de quando ela foi embora com a família sem nunca me dizer porra nenhuma. já faz três anos... Pensei nisso pra caramba até que o lance me deixou maluco — ele agora verbaliza o que acabei de pensar. — Se fosse com alguém como o Jasper, ele não taria nem aí. Chamaria a garota de vagabunda, tomaria uma cerveja e faria uma fezinha lá na casa de apostas — Emm dá um sorriso pesaroso e olha pra baixo.
Quero conversar com ele.
Quero perguntar sobre a garota e se ele gostava dela e se ainda sente saudade.
Só que nada sai da minha boca. Fala sério: é difícil conhecer de verdade os amigos, não é, não? A gente não se abre muito.
Rola um silêncio bem longo até que eu resolvo cortar o clima. Parece até alguém cortando um pão e oferecendo um pedaço. No meu caso, ofereço uma pergunta ao meu amigo.
— Emm?
— O que foi? — os olhos dele de repente me deixam angustiado.
— Como você se sentiria se tivesse que estar neste exato momento em algum lugar e não soubesse como chegar lá?
Ele pára pra pensar. Consegue esquecer a garota por um instante.
— Tipo se eu perdesse o Jogo de Verão por não saber como chegar lá no corredor esportivo?
Dou uma colher de chá pra ele.
— Isso, pode ser.
— Bem... — ele pensa seriamente, esfregando a mão grossa nos pentelhos louros do rosto. Isso é só pra você ter uma idéia da importância do jogo pra esse cara. — Acho que eu ficaria pensando no que estaria acontecendo lá, sabendo que eu não poderia fazer nada pra mudar por estar tão longe.
— Frustrante?
— Pô, com certeza.
Já dei uma olhada nuns mapas. Achei uns livros antigos que eram do meu pai e li umas histórias locais. Só que nada me dá a menor idéia de onde eu possa achar as pedras de casa. Dias e noites se passam. Sinto a coisa ficando cada vez mais preta. Cada minuto me informa que alguma coisa pode estar acontecendo e que eu preciso ajustar. Ou dar um basta.
Jogamos cartas.
Já dei mais algumas passadas pela Rua Edgar e nada mudou. O cara ainda não voltou. Acho que nunca vai voltar.
Quando estive lá, percebi que a mãe e a filha estão felizes. Deixo as coisas como estão.
Uma noite, vou até a casa da Irina e leio pra ela.
Ela fica toda contente ao me ver e, sinceramente, é bom voltar a ser o Billy. Tomo um chazinho e, na saída, dou um beijinho no rosto enrugado de Irina.
Sábado, dou uma passada na Nessie e a vejo correr, Ela continua a tirar segundo lugar, mas não arreda o pé e continua correndo descalça. Ela me vê enquanto corre, e por isso não me diz nada, só me cumprimenta com a cabeça. Paro atrás da cerca que contorna a pista traseira. Só naquele minutinho rápido a gente se reconhece e é o bastante.
"Que saudade de você, Ed", lembro dela dizendo isso naquela tarde no parque. Ainda hoje, quando passa por mim correndo, vejo que ela diz: "Que bom que você veio."
Eu também estou feliz por ter vindo, só que tenho que sair antes do término da corrida.
Naquela noite, enquanto estou no trabalho, acontece.
Encontro as pedras de casa.
Ou, pra ser sincero...
Elas me encontram.
Enquanto estou na cidade, fico ligado pra ver se encontro a Jéssica, sobretudo se eu estiver perto do Quay ou do Cross. Só que não vejo a criatura em lugar nenhum, o que baixa minha bola um pouco. Os únicos passageiros que volto a pegar são uns velhos que sempre conhecem um caminho melhor, ou executivos mauricinhos que estão sempre olhando a hora ou de papo no telefone.
Já é tarde. São pelo menos quatro da manhã e, no caminho de volta pra casa, pego um passageiro, um cara novo. Quando ele faz sinal, eu dou uma checada geral. Ele parece estável, e acho que não é o tipo que vomita no carro. A última coisa de que preciso é alguém vomitando no meu táxi logo agora que estou quase encerrando o turno. Um negócio desses arruína uma noite inteira em apenas alguns segundinhos.
Eu paro e ele entra.
— Tá indo pra onde? — pergunto.
— Deixa de papo e dirige — ele mal abre a boca e já soa ameaçador. — Me leva pra casa.
Fico nervoso, mas ainda assim pergunto:
— E onde fica sua casa?
Ele se vira e me olha de um jeito sinistro.
— Onde você mora — o cara tem uns olhos esquisitos, amarelos, tipo olho de gato. Cabelo preto, curto. Está todo de preto. — Dirija, Ed — são as duas palavrinhas finais.
E eu, como não sou bobo nem nada, obedeço.
Ele sabe meu nome, e eu sei que ele está me levando pra onde o ás de paus quer que eu vá.
Ficamos um tempo sem falar nada, olhando as luzes dos postes passando. Ele está sentado na frente, e toda vez que tento olhar pra ele, não
consigo. Sempre sinto aqueles olhos. Parece que estão prontos para me agarrar.
Tento puxar papo.
— E aí? — digo. Desesperado, eu sei.
— E aí o quê?
Daí tento de outro jeito. Jogo verde pra ver se colho maduro. —Você conhece Alec e Caius? — pergunto.
— Quem?
Seu escárnio dirigido a mim é de matar, só que mesmo assim eu continuo a batalha.
— O Alec... e o...
— Olha só, brother, eu escutei muito bem — ele endurece a voz mais ainda. — Se você mencionar outros nomes aqui, não vai nem chegar em casa, tá escutando? Juro por Deus.
Fico me perguntando: Por que diabos toda pessoa que me visita é estourada, encrenqueira ou as duas alternativas acima? A impressão que tenho é de que não adianta: por mais que eu me esforce, sempre acabo com gente desse nível na minha casa ou no meu táxi.
Acho que nem preciso dizer que não abro mais a boca enquanto a gente vai se aproximando do subúrbio. Fico na minha, só dirigindo e, de vez em quando, tentando dar uma olhadinha nele, sem sucesso.
— Vai descendo toda vida — ele diz quando chegamos na rua principal.
— Perto do rio?
— Não banque o espertinho. Dirija.
Passo pela minha casa.
Passo pela casa da Bella. Desço até o rio.
— É aqui.
Paro o carro.
— Isso, valeu.
— Deu $ 27, 50.
— O quê?
É preciso coragem pra eu abrir a boca. O desgraçado faz uma cara de quem está louco pra me matar.
— Eu disse que deu $ 27, 50.
— Não vou pagar, não, cara.
Eu acredito nele.
Acredito porque ele fica ali parado, arregalando os olhos pretos no meio do amarelo. Este cara não vai pagar. Fim de papo. Não tem discussão — embora eu até tente.
— Por que não? — pergunto.
— Não tenho essa grana.
— Então eu fico com sua jaqueta.
Ele se aproxima, dando uma de simpático pela primeira vez.
— Eles tinham razão: tu é mesmo um cabeça-dura, né?
— Eles quem?
Só que fico sem resposta.
Ele faz uma cara de doido, abre a porta e pula do táxi.
Pausa.
Eu me sinto preso no momento, mas saio do táxi batido e corro atrás dele. Em direção ao rio.
Mato molhado e palavras.
— Volta aqui!
Pensamentos esquisitos.
Pensamentos de: Volta aqui, Ed? "Volta aqui" é muito comum. É o que todo taxista grita numa hora dessas. Tá na hora de inventar outra coisa. É até um milagre não terem adicionado a palavra "moleque" no final...
Minhas pernas endurecem.
O vento passa pela minha boca, mas não entra.
Corro.
Corro e me dou conta de que já tive esta sensação antes — esta sensação de enjôo.
Foi quando eu era pequeno: uma vez, estava correndo atrás do James, meu irmão menor. Esse mesmo, o "tal", o que tem as melhores perspectivas de futuro e melhor gosto para mesinha de centro das redondezas. Mesmo naquela época, ele era mais rápido, é claro. Melhor. Ele sempre foi, e eu ficava envergonhado. Era uma vergonha ter um irmão menor mais rápido, mais forte, mais esperto e melhor. Em tudo. Mas ele era. Era e pronto. A gente pescava no rio, contra a correnteza, e apostávamos corrida pra ver quem chegava primeiro. Nunca consegui ganhar dele. É claro que eu dizia pra mim mesmo que eu poderia ter vencido se tivesse tentado pra valer.
Então uma vez.
Tentei pra valer.
E perdi.
James também encontrou algo extra naquele dia e ganhou de mim em pelo menos quatro metros.
Eu tinha 11 anos.
Ele, dez.
Quase dez anos mais tarde, aqui estou eu de novo, ainda correndo atrás de alguém mais rápido, mais forte e melhor.
Depois de quase um quilômetro, meu fôlego vai pro saco.
Ele olha pra trás.
Minhas pernas se curvam.
Dou uma parada.
Acabou.
O cara solta uma gargalhada, talvez uns 20 metros lá na frente.
— Que azar, Ed — e ele se vira de novo. E vaza dali.
Fico ali parado, perdido nas memórias, vendo as pernas dele desaparecerem na escuridão.
Um vento escuro passa por entre as árvores.
O céu está nervoso. Preto e azul.
Meu coração aplaude dentro dos meus ouvidos, primeiro como uma multidão gritando, depois vai diminuindo, diminuindo, até virar uma única pessoa, batendo palmas com sarcasmo descontrolado.
Pá. Pá.
Pá.
Muito bem, Ed.
Parabéns por desistir.
Fico ali no meio do mato comprido e ouço o rio agora pela primeira vez. Parece até que ele está bebendo. Quando olho pra lá, vejo as estrelas no rio. Parece que estão pintadas na superfície da água.
O táxi, penso. Eu deixei aberto. As chaves também ainda estão lá dentro, que, aliás, é o pecado número um que qualquer taxista pode cometer ao perseguir um caloteiro. Na verdade, chega a ser até um pecado capital. Todo mundo sempre tira as chaves. Sempre fecha o carro. Menos eu.
A imagem do táxi me vem à cabeça.
Sozinho, lá na estrada.
Com as duas portas escancaradas.
— Tenho que voltar — falo bem baixinho, mas não volto.
Fico ali duro até aparecer o primeiro raio de sol, e me vejo correndo com meu irmão.
Vejo quando eu me ferro.
Vejo a gente ali pescando juntos, na beira do rio, e então indo mais adiante, rio acima, contra a correnteza, passando por onde dá pra ver as casas. Pra bem alto, onde temos que escalar as pedras, de onde pescamos.
As pedras.
As pedras lisas.
Como se...
Ando devagar a princípio, então acelero. Ando bem rápido no sentido contrário à correnteza.
Sigo a imagem do meu irmão correndo comigo e então escalo. A água vai caindo enquanto tomo impulso com as mãos e com os pés pra subir. O mundo está ficando mais leve e alegre, tomando forma e ganhando cores. Parece que está sendo pintado, ao meu redor.
Meus pés estão coçando.
Estão ficando mornos.
Eu vejo.
Vejo a gente.
Lá, eu aponto. Lá estão as pedras. As pedras gigantes. Meu Deus, eu vejo a gente lá, jogando, pulando, às vezes rindo. Jurando não contar pra ninguém que a gente vem aqui.
Estou quase lá.
Bem distante daqui, as portas do táxi ainda estão abertas. O sol está bem alto — um recorte laranja em um céu de papelão. Chego ao topo e me ajoelho. Minhas mãos tocam na pedra fria. Solto o ar dos pulmões. Feliz.
Ouço o rio e olho pra cima, e me dou conta de que estou ajoelhado entre as pedras de casa.
Tem três nomes gravados na rocha.
Eu os vejo alguns instantes mais tarde, quando olho pra cima e vou até elas. Os nomes são:
COLLIN O'REILLY
CHARLOTTE CARUSSO
ERIC ROSE
Por um instante o rio passa correndo pelos meus ouvidos e o suor se enfia embaixo dos meus braços. No meu lado esquerdo, o suor escorre, passando pelas minhas costelas e parando na cintura da calça.
Procuro um papel e uma caneta, sabendo que não tenho nenhum dos dois, da mesma forma que se dá uma resposta errada a alguém na esperança remota e improvável de que por um milagre ela possa estar correta.
E é isso aí. Não tenho nada, daí escrevo os nomes com lápis na mente e reforço com a canetinha imaginária. Então eu os rabisco.
Collin O'Reilly.
Charllote Carusso.
Eric Rose.
Nenhum dos nomes soa familiar, o que acho até bom. Acho que seria mais difícil ainda se eu conhecesse as pessoas para as quais sou enviado.
Dou uma última olhada e saio dali, cantarolando os nomes pra não esquecer.
Levo quase 45 minutos pra chegar de volta ao táxi.
Quando chego lá, as portas estão fechadas, mas não estão trancadas à chave, e as chaves não estão mais na ignição. Eu me sento atrás do volante e quando abaixo o quebra-sol, elas caem no meu colo.
N/A:. Desculpa ficnets.. tive 4 trabalhos pra entregar essa semana ai não deu pra postar... Maaas o que acharam desse capítulo? Mandem reviews
Respostas das Reviews:
Mylle Malfoy P. W.: Eu sei menina, ele é O ED rsrs
Fany: Sei como é entrar todo o dia pra ver se tem algum capítulo novo, e não achar nada rsrs, muito frustrante :S
Daia Matos: Desejo passageiro Daia, desejo passageiro rsrsrs
Bjs ficnets :* e até o próximo capítulo
