Segunda parte- As pedras de casa
7 de paus - O PADRE
Ed. Pov.
O'Reilly, O'Reilly...
Estou pesquisando no catálogo telefônico da região. Já é meio-dia. Tirei um cochilo.
Encontro dois C. O'Reilly. Um na parte nobre da cidade. Outro na área das malocas.
É esse, penso. O das malocas.
Eu sei.
Pra me certificar, primeiro dou uma passada no endereço mais nobre. É uma casa superbacana com uma garagem bem grande. Bato na porta.
— Pois não?
Um cara alto abre e olha pra mim através da tela contra insetos. Ele está de short, camiseta e chinelos.
— Desculpa incomodar — eu digo —, mas...
— Você está vendendo alguma coisa?
— Não.
— É testemunha de Jeová?
— Não.
Ele fica chocado.
— Bem, já que é assim, pode entrar.
Ele mudou imediatamente o tom de voz e faz uma expressão mais acolhedora. Me dá até vontade de aceitar o convite, mas decido recusar.
Ficamos ali, cada um de um lado da tela contra insetos. Tento pensar num jeito de fazer a parada direito, e decido que é melhor ir direto ao assunto.
— O senhor é Collin O'Reilly?
Ele se aproxima e espera um instante antes de responder.
— Não, parceiro, eu sou Cole. Collin é meu irmão. Ele mora em algum buraco lá pela Rua Henry.
— Então tá, valeu, e desculpa qualquer coisa — e começo a andar.
— Oi — ele abre a porta e vem atrás de mim. — O que você quer com meu irmão?
Dou uma parada.
— Ainda não sei.
— Se você for por aquelas bandas, será que poderia me fazer um favor? - Encolho os ombros.
— Claro, sem problema.
— Você poderia dizer pra ele que a ganância ainda não me devorou? A frase cai entre a gente como se fosse uma bola murcha, sem ar.
— Claro, digo sim.
Estou quase cruzando o portão quando Cole O'Reilly me chama uma última vez. Eu me viro pra olhar pra ele.
— Acho melhor te avisar uma coisa — ele se aproxima. — Meu irmão é padre. Nós dois ficamos completamente parados por uns segundos, enquanto eu processo a informação.
— Valeu! — agradeço e saio da entrada da garagem.
Vou embora pensando: Ainda é melhor do que um marido que espanca e estupra a mulher.
— Quantas vezes você quer que eu diga?
— Tem certeza agora?
— Não sou eu, Ed. Se fosse, eu diria.
Estou levando este papo com meu irmão, James, no telefone. Depois que acabei parando no rio e nas pedras de casa, fiquei pensando que podia ser ele. Pelo que sei, James é a única pessoa que sabe que a gente ia lá, já que nunca contamos pra ninguém. A gente sempre achou que ia acabar levando um couro por ir lá pro rio sozinho. Quem sabe outra pessoa não tenha descoberto e decidido ignorar. Eu e o James sabíamos nadar. Um pouco antes, eu contei das cartas pra ele, que disse:
— Por que será que este tipo de coisa vive acontecendo contigo, Ed? Sempre que tem alguma coisa esquisita no ar, ela sempre consegue terminar pousando no seu colo. Você é um tipo de imã que atrai merda.
Nós rimos.
Pensei no que ele disse.
Taxista. Vagabundo das redondezas. Modelo de mediocridade. Um desastre sexual. Péssimo jogador de cartas. E agora, pra completar, imã que atrai merda.
Diga aí, pode admitir.
Que bela lista estou montando, não é, não?
— E como é que vão as coisas, James?
— Tá tudo bem, e com você?
— Tranqüilo.
Fim de papo.
Não é o James.
Já faz algum tempo que estamos sem jogar, e daí o Emm organiza uma noite daquelas. Decidimos que vai ser na casa do Jasper. Os pais dele acabam de viajar de férias.
Antes de ir pro Jasper, dou uma passada na Rua Henry e procuro Collin O'Reilly. Enquanto ando pra lá, sinto um frio na barriga, e minhas mãos ficam desesperadas procurando pelos bolsos. A rua é uma coisa horrorosa e sempre teve essa fama mesmo. É um lugar onde tudo é quebrado: os telhados, as janelas e as pessoas. Não escapa nem a casa do padre, que é bem estranha. Já dá até pra ver de longe.
O telhado é corrugado, vermelho e enferrujado.
As paredes todas de concreto, encardidas.
A pintura está cheia de bolhas, uma coisa horrorosa.
A cerca está caindo aos pedaços, lutando pra ficar de pé.
E um portão que está agonizando.
Estou quase lá quando percebo que não vai dar pra eu chegar...
Três grandalhões saem de um beco e começam a me pedir umas coisas. Não fazem nenhuma ameaça, mas só a presença deles me deixa sem graça e me sentindo sozinho.
— Ae, cara. Tu tem 40 centavos? — um deles pergunta.
— Ou um cigarrinho? — o outro diz.
— Cê precisa mesmo dessa jaqueta?
— Pô, cara, vai! Um cigarrinho. Eu sei que tu fuma. Que mal vai te fazer me emprestar o...
Eu congelo por um instante, me viro e saio andando. Rápido pra caralho.
Na casa do Jasper, não consigo tirar da cabeça o que rolou, enquanto os outros dão as cartas e conversam.
— Mas, então, conta pra onde seus pais foram, Jasper — diz Bella. Ele demora um bom tempo pra responder.
— Não faço a menor idéia.
— Você tá de gozação, não tá, não?
— Eles disseram, mas acho que esqueci.
Bella balança a cabeça, e Emm ri através da fumaça do charuto. Penso na Rua Henry.
Pra variar um pouco, o vencedor de hoje sou eu.
Dou uns vacilos numas rodadas, mas de alguma forma consigo ganhar a maioria. Emm ainda fala todo orgulhoso sobre o Jogo de Verão.
— Ae, vocês tão sabendo? — ele pergunta pra mim e pro Jasper. — Os Falcons tão com um cara novo este ano. Dizem que tem um-cinco-zero.
— Um-cinco-zero o quê? Quilos? — pergunta Jasper.
Assim como eu e Emm, o Jasper jogou nos últimos anos, na lateral, mas ele é menos interessado ainda do que eu. Só pra você ter uma idéia, ele geralmente divide uma ou duas cervejas com a multidão durante o jogo.
— Isso mesmo, Jasper — Emm afirma. O negócio é sério. — O cara é da pesada.
— Cê vai jogar, Ed?
Quem pergunta isso é a Bella. Ela sabe que vou jogar, mas pergunta só para se confortar. Desde o incidente do "Só o Ed" na porta da frente, ela anda meio sem graça comigo, sem saber o que dizer. De onde estou na mesa, olho pra ela e dou um sorriso amarelo. Ela sabe que isso quer dizer que estamos na boa.
— Vou — respondo. — Vou estar lá, sim.
O sorrisinho dela diz: "Que bom." Bom que estamos na boa. Bella não está nem aí pro Jogo de Verão. Ela odeia futebol.
Mais tarde, quando termina o jogo, ela dá uma passada na minha casa, e a gente bebe na cozinha.
— Tudo bem lá com o novato? — pergunto. Estou jogando os farelos de torrada dentro da pia. Quando me viro pra ouvir a resposta, vejo sangue ressecado no chão. Sangue da minha cabeça no meio de todo esse pêlo de cachorro. Lembranças do que rolou estão espalhadas por todos os cantos.
— Tá tudo bem — ela responde.
Quero me desculpar por ter aparecido lá daquele jeito naquele dia, mas prefiro não dizer nada. Estamos na boa agora e não faz sentido revirar um assunto que eu não posso fazer nada pra mudar. Em alguns momentos eu quase falo, mas deixo pra lá. Melhor assim.
Quando estou colocando a torradeira no lugar, vejo minha imagem refletida nela — apesar da sujeirinha. O negócio chega a doer nos olhos. E neste momento que eu rapidamente vejo a natureza lamentável de minha vida. Esta garota que eu não consigo conquistar. Estas mensagens que eu me sinto incapaz de entregar... Mas então vejo os olhos ficarem mais determinados. Vejo uma versão futura de mim mesmo voltando à Rua Henry pra visitar o padre Collin O'Reilly. Vou colocar minha jaquetinha velha e suja, sem nenhum tostão no bolso e nenhum cigarro, igualzinho à última vez. Só que da próxima vez pretendo chegar à porta da frente.
Eu tenho que chegar lá, penso, e falo com Bella.
— Eu sei aonde eu tenho que ir.
Ela toma um gole do suco de toranja que eu lhe servi e pergunta:
— Onde é?
— Mais três pessoas.
Os nomes gravados naquela pedra enorme aparecem na minha cabeça, mas não digo quais são. Como eu já disse, de nada adianta.
Ela está louca de vontade de perguntar os nomes.
Está na cara.
Só que ela não deixa escapar uma única palavrinha sequer, e não posso negar uma coisa: ela nunca força a barra com nada. Ela sabe que eu não vou dizer nada se ela pentelhar muito.
O que eu realmente conto pra ela é onde encontrei os nomes.
— Peguei um passageiro caloteiro que saiu correndo. E foi pra lá que ele foi... Agora Bella só consegue balançar a cabeça de um lado pro outro.
— Seja lá quem for, com certeza tá tendo o maior trabalho.
— E é incrível como os caras me conhecem tão bem... quase que tão bem quanto eu mesmo.
— É, mas quem é que te conhece bem, Ed?
É, meu irmão... é isso.
— Ninguém — respondo.
Nem mesmo eu?, Porteiro entra e pergunta.
Olho pra ele e respondo:
Olha só, companheiro, tomar umas xícaras de café juntos não quer dizer que você me conhece.
Às vezes nem mesmo eu acho que me conheço.
Meu reflexo me ataca novamente.
Mas você sabe o que fazer, ele diz.
Eu concordo com ele.
Na Rua Henry na noite seguinte depois do trabalho, chego até a porta da frente, e, devo dizer, a casa do padre O'Reilly é a própria encarnação do significado da palavra cruel.
Eu me apresento e sem muito mais blábláblá o padre me convida pra entrar.
Sem ao menos pensar, eu digo no corredor:
— Deus do céu, acho que não ia custar nada fazer uma faxininha por aqui de vez em quando, não acha, não, padre?
Que é isso, meu irmão? Será que eu falei isso mesmo?
Mas nem preciso me preocupar, porque o padre responde logo na lata.
— Bem, e o que dizer do seu estado? Quando foi a última vez que você lavou esta jaqueta?
— Taí, o senhor tem razão — digo, agradecido pela resposta rápida.
O padre está ficando careca, deve ter uns 45 anos. Não é tão alto quanto o irmão; tem olhos verde-garrafa e é bem orelhudo. Usa uma batina e fico sem entender por que ele mora aqui e não lá na igreja. Sempre achei que os padres morassem nas igrejas pra que as pessoas pudessem ir lá quando precisassem de ajuda ou de um conselho.
Ele me leva pra cozinha, e a gente se senta à mesa.
— Vai ser um café ou prefere um chá?
Do jeito que ele pergunta, fica parecendo que eu não tenho escolha, e que eu vou beber alguma coisa e pronto. Só falta decidir qual dos dois.
— Café — respondo.
— Leite e açúcar?
— Ah, eu agradeço.
— Quanto de açúcar?
— Quatro cubinhos — tenho um pouco de vergonha desse lance.
— Quatro cubinhos de açúcar! Quem é você, David Helfgott?
— Quem diabos é esse?
— Ah, não lembra, não? Pianista, meio louco — ele fica surpreso por eu não conhecer o cara. — Ele bebia 12 xícaras de café por dia com dez colheres de açúcar em cada.
— Ele era bom?
— Era, sim — ele solta a chaleira. — Louco, mas bom — seus olhos vidrados tomam um ar de bondade agora. Uma bondade gigantesca. — Você também é louco, mas bom, Ed Masen?
— Sei lá! — digo, e o padre cai na gargalhada, mais pra si mesmo do que pra qualquer outra pessoa.
Quando o café fica pronto, o padre traz pra mesa e se senta comigo. Antes de tomar o primeiro gole, ele pergunta:
— Alguém o parou pra pedir dinheiro e cigarro lá fora? — ele joga a cabeça pra trás, na direção da rua.
— Sim, e um cara não pára de me pedir a jaqueta.
— E mesmo? — ele reprova com a cabeça. — Vá Deus saber por quê... Só se for mau gosto! — ele bebe.
Dou uma olhada na jaqueta.
— Putz, ela é mesmo horrível assim?
— Que nada — ele fala bem sério agora. — Só estou pegando no seu pé, filho. Dou mais uma olhada na manga e no material perto do zíper. A camurça preta está bem gasta, quase puída.
Um silêncio desconfortável baixa entre nós. Isso quer dizer que e hora de eu entrar em ação. Acho que talvez o padre sinta o mesmo, e ele faz uma cara de curiosidade, mas paciente, como quem está esperando.
Na hora em que eu estou quase falando, começa a rolar um quebra-pau em uma das casas vizinhas.
Quebram um prato.
Os gritos saem pulando pela cerca.
A briga fica mais feia. É gente gritando e porta batendo que é uma loucura.
O padre percebe que eu estou assustado e diz:
— Espere um minutinho, Ed — ele vai até a janela e escancara tudo. Ele grita:
— Ô, Jenks!
Ouvimos então um murmúrio chegando pela janela, seguido de uma voz.
— Pois não, padre?
— O que tá acontecendo aí hoje?
A voz responde:
— Ela tá me irritando de novo, padre!
— Bem, isso dá pra ver, Jenks, mas e quanto...
Chega uma outra voz. É voz de mulher:
— Vê se pode, padre, já tava ele lá no pub de novo. Enchendo a cara e torrando dinheiro em apostas!
O padre agora fala bem sério e firme.
— Isto é verdade. Jenks?
— É sim, padre, mas...
— Nem mais nem menos, Jenks. Fique em casa hoje, ok? Fiquem de mãos dadas e assistam à TV.
Primeira voz:
— Tudo bem, padre.
Segunda voz:
— Obrigada, padre!
Padre O'Reilly volta pra mesa agora, reprovando com a cabeça.
— Esses são os Parkinsons. Cambada de inúteis.
Fico chocado com o comentário. Nunca ouvi um padre falar assim. Na verdade, nunca falei com nenhum padre, mas duvido muito que sejam assim.
— Isso acontece sempre? — pergunto.
— Duas vezes por semana. Pelo menos.
— Como o senhor consegue agüentar uma coisa dessas?
Ele simplesmente estica os braços e bate na batina.
— É para isso que estou aqui.
Caminho um pouco com o padre.
Conto pra ele como é ser taxista.
Ele me conta como é ser padre.
A igreja dele é aquela bem velhinha lá nos cafundós da cidade, e agora percebo por que ele escolheu morar aqui. A igreja fica longe demais pra ele ajudar alguém, então este é o melhor lugar pra ele. E aqui que o padre precisa estar. Não em uma igreja, juntando poeira.
Às vezes fico pensando no jeito com que ele fala, que é confirmado quando ele explica a igreja pra mim. Ele admite que, se a igreja dele fosse algum tipo de loja ou restaurante, já teria fechado há muitos anos.
— Os negócios andam mal ultimamente? — pergunto.
— Quer saber a verdade? — o brilho nos olhos dele desaparece. — Andam uma merda.
E quando pergunto:
— O senhor pode falar desse jeito? Tipo sendo sagrado e tudo mais?
— O quê? Porque sou padre? — ele termina o restinho de café. — Claro. Deus sabe o que é importante.
ÉE um alívio pra mim que ele não comece com aquele sermão de que Deus conhece cada um de nós e blábláblá. Ele nunca dá sermão. Mesmo quando a gente fica sem o que dizer, ele olha pra mim e diz:
— Mas não vamos entrar nos assuntos religiosos hoje, Ed. Vamos falar de outra coisa — ele fica um pouco formal agora. — Vamos falar sobre os motivos que o trazem aqui.
De frente um pro outro, sentados à mesa, nos olhamos com atenção. Rapidinho.
Depois de um silêncio prolongado, confesso ao padre. Digo que ainda não sei por que estou aqui. Não falo nada sobre as mensagens de que já dei conta, nem das que ainda tenho que dar. Só digo que tenho um propósito aqui e que uma hora ou outra eu descubro qual é.
Ele escuta com atenção, com os cotovelos na mesa, as mãos juntas e os dedos entrelaçados embaixo do queixo.
Depois de um tempinho, ele se dá conta de que eu não tenho muito mais a dizer. Então fala bem calma e claramente:
— Não se preocupe, Ed. O que você precisa fazer certamente chegará ao seu conhecimento. Algo me diz que não é a primeira vez que você passa por isso.
— Não, não é.
— Apenas me faça um favor de se lembrar de uma coisa — ele diz, e percebo que está tentando não ser o típico religioso. — Tenha fé, Ed, ok?
Procuro a caneca de café, mas não tem nenhuma lá.
Ele me acompanha até lá fora e caminha pela rua comigo. Pelo caminho, a gente se esbarra com os cretinos do cigarrinho, da grana e da jaqueta, e o padre reúne a cambada toda ali em volta. Ele diz:
— Ouçam bem, garotos. Quero que vocês conheçam Ed. Ed, este aqui é Royce, este é Vladmir, e este aqui é Nahuel — aperto a mão de todos. — Pessoal, este é Ed Masen.
— Prazer, Ed.
— Fala, Ed!
— E aí, Ed, beleza?
— Quero que vocês se lembrem de uma coisa — o padre agora fala bem sério.
— Ed é um grande amigo meu e não tem isso de ficar pedindo cigarro nem dinheiro pra ele. E podem deixar a jaqueta dele em paz — ele dá um sorrisinho rápido pra mim.
— Afinal, dê só uma olhada, Royce. A coisa é um horror, não acha? Vai ser horrorosa assim lá no inferno!
Royce concorda com prazer:
— Com certeza, padre.
— Muito bem. Então, estamos entendidos?
Apertamos as mãos, nos despedimos, e o padre está bem longe quando eu me viro ao me lembrar do irmão dele. Volto correndo, chamando:
— Ei, padre!
Ele ouve e se vira.
— Já ia me esquecendo — eu diminuo o passo e paro a uns 15 metros na frente dele.— Seu irmão — ele me olha mais atentamente. — Ele mandou lhe dizer que ainda não foi devorado pela ganância.
Então os olhos do padre se acendem, com um toque de arrependimento.
— Meu irmão, Cole... — suas palavras suaves vêm mancando na minha direção.
— Faz muito tempo que não vejo meu irmão Cole. Como ele está?
— Bem — respondo com uma confiança que não entendo. Só a intuição me diz que é a resposta certa e agora ficamos os dois ali parados no meio da sem-gracice e da tolice. — O senhor tá bem, padre?
— Estou sim, Ed. Obrigado pela preocupação.
Ele se vira, sai andando e pela primeira vez não o vejo como padre. Não o vejo nem como homem.
Neste momento, ele é simplesmente um ser humano indo pra casa na Rua Henry.
Contraste total agora.
Estou na casa do Emm, assistindo a SOS Malibu com o volume baixo. O enredo e os diálogos são as coisas que menos interessam pra gente. Estamos ouvindo os Ramones, o Emm se amarra neles.
— Posso tocar outra coisa? — Jasper pergunta.
— Pode. Toca Pryor aí — diz Emm. A gente até passou a chamar o Jimi Hendrix de Richard Pryor. Purple Haze começa a rolar, e ele pergunta:
— Cadê a Bella?
— Tô aqui — ela entra.
— Que fedor é esse? — Jasper pergunta. Ele se contorce. — Isso não me é estranho.
O Emm já sacou e aponta o dedo pra mim. Tipo me acusando.
— Tu trouxe o Porteiro, não trouxe, maluco?
— Não tive outra alternativa, cara... O bicho tava com cara de solitário quando eu tava saindo.
— Você sabe que ele não é bem-vindo aqui.
Porteiro está na porta dos fundos, que está aberta; está olhando pra dentro.
Ele late pro Emm.
A única pessoa pra quem ele late.
— Ele não vai com a minha cara — Emm explica.
Outro latido.
— E porque você olha todo torto pra ele e fica falando mal dele o tempo todo. O bicho entende, tá sabendo?
A gente discute mais um pouquinho, mas a Bella encerra a briga dando as cartas.
— Cavalheiros? — ela dá uma tossidinha pra limpar a garganta. A gente se senta e joga.
Na terceira partida, eu pego o ás de paus. Padre O'Reilly, penso.
— O que você vai fazer no domingo, Emm?
— Como assim, o que eu vou fazer no domingo!
— O que você acha que eu quero dizer com minha pergunta? Jasper diz:
— Tu é muito babaca, Emm. Acho que o Ed só tá perguntando se você vai estar ocupado no domingo.
Emm aponta pro Jasper agora. Está todo grosso hoje porque eu trouxe Porteiro,
— Ah, vê se não começa você também, Pryor — ele agora olha pra Bella. — E você pode ficar quietinha aí.
Bella fica boba:
— Que diabos eu fiz?
Eu interrompo.
— Seguinte: não só você, Emm, vocês três — coloco minhas cartas na mesa, viradas pra baixo. — Tô precisando de um favor.
— Tipo o quê? — pergunta Emm.
Os três estão ouvindo com atenção.
Esperando.
— Bem, será que a gente poderia ir... — deixo as palavras saírem rapidamente da minha boca — ... à igreja?
— O quê?
— Qual o problema? — protesto.
Emm tenta se recuperar do choque.
— Pra que diabos você quer que a gente vá à igreja?
— Bem, tem um padre que eu conheço que...
— Ele não é nenhum daqueles do tipo do Alan Chesters, é?
— Não, não é.
— Que negócio é esse de Alan Chesters? O que quer dizer? — Jasper quer saber, mas ninguém responde. No final, ele nem quer mais saber e deixa pra lá.
A próxima pessoa que fala é Bella, finalmente trazendo um pouco de lógica ao papo. Ela pergunta:
— Por que, Ed? — acho que ela já sacou que tem alguma coisa a ver com o ás de paus.
— O padre é um cara maneiro e acho que poderia ser bom, mesmo que fosse só pra dar umas risadas.
— Esse aí vai também?
Emm aponta pro Porteiro.
— É claro que não.
E o Jasper salva a pátria. Ele pode ser preguiçoso, um jogador e ter a tatuagem mais tosca do mundo no braço, mas ele concorda com quase tudo. Com seu jeito bondoso de sempre, ele diz:
— Ah, por que não, Ed? Eu vou contigo — e então acrescenta: — Pra dar umas risadas, certo?
— Claro — respondo.
Daí Bella diz:
— Tá bem, Ed.
Agora, de volta ao Emm, que sabe que está numa situação delicada. Ele não está a fim de ir, mas, se recusar, ele sabe que vai pegar mal pra caramba. Ele finalmente deixa o ar sair dos pulmões enormes que ele tem e diz:
— Meu Deus, não acredito numa coisa dessa. Tá bem, Ed, eu vou — ele dá um risinho infeliz. — Marcado. Igreja no domingo — e balança a cabeça. — Cristo Rei!
Eu pego minhas cartas.
— Exatamente.
Mais tarde naquela noite, o telefone toca de novo. Não deixo que ele me intimide.
— Alô?
— Oi, Ed.
É minha mãe. Dou um suspiro de alívio e me preparo para ouvir desaforo. Já faz um tempo que não tenho notícias da coroa, provavelmente ela vai despejar em cima de mim o equivalente a uma quinzena ou até um mês de avacalhação.
— Tudo bem, mãe?
— Você já ligou pra Rose? É aniversário dela.
Rose, minha irmã.
— Putz...
— Pois é, putz é a resposta certa, Ed. Agora vê se toma vergonha nessa cara e liga pra ela agora.
— Tá bom, eu vou...
E o telefone fica mudo.
Ninguém consegue assassinar uma ligação telefônica como minha mãe.
Só dei um vacilo: eu devia ter pensado rápido e pedido o número da Rose, pois vai que eu não consiga achar por aqui... Tenho uma má sensação de que perdi o número, o que acabo me certificando ser verdade, depois que revirei todas as gavetas e todo canto na cozinha. Não está em lugar nenhum e nem listado no catálogo.
Oh, não.
Acertou.
Tenho que fazer o que mais temo: ligar pra velha.
Eu disco.
— Alô?
— Mãe, sou eu.
— O que foi agora, Ed? — vejo logo que ela está de saco cheio só pelo suspiro que ouço do outro lado.
— Qual é o telefone dela?
Tenho certeza de que dá pra você imaginar.
O domingo chega mais rápido do que eu pensei.
A gente se senta nos fundos da igreja.
Jasper está na boa e Bella está contente. O Emm está de ressaca — andou bebendo a cerveja do pai de novo — e eu, nervoso por algum motivo que não consigo identificar.
Só tem umas 12 pessoas na igreja, além da gente. É meio deprimente ver este vazio aqui. O carpete está todo ferrado, cheio de furos, os bancos sem ninguém dão até tristeza. Só as janelas chumbadas parecem sagradas. As outras pessoas são velhas e estão sentadas arqueadas feito mártires.
Quando o padre O'Reilly aparece, ele diz:
— Obrigado a todos por virem.
Só por um instante ele parece derrotado. E quando então ele percebe as quatro pessoas no fundo, e diz:
— Boas-vindas especiais aos taxistas do mundo.
O clarão da janela chumbada bate na careca dele e a faz brilhar. Ele olha pra mim, como se agradecesse. Eu sou o único que sorri.
Jasper, Emm e Bella viram as cabeças e ficam olhando pra mim. Os olhos do Emm dão até medo de tão vermelhos que estão.
— A noite foi boa, hein?
— Uma beleza.
O padre organiza os pensamentos e dá uma olhada nas pessoas presentes. Dá pra eu ver que o cara está tentando buscar força pra tocar o barco com vigor. Padre O'Reilly vai lá no fundo de seu ser. E começa o sermão.
Depois, estamos todos sentados lá fora, e a missa já terminou.
— Qual o sentido dessa historinha de pastor? — Emm pergunta.
Ele se deita na grama. Até a voz dele soa feito ressaca.
A gente se senta embaixo de um salgueiro bem grande, com folhas penduradas entre a gente. Antes disso, lá dentro da igreja, me passaram um prato onde o pessoal põe dinheiro um pouco antes de sairmos. Coloquei cinco dólares, Jasper estava duro, Bella pôs uns dólares e Emm remexeu os bolsos e colocou uma moeda de 20 centavos e uma tampa de caneta.
Eu olhei pra ele.
— O que foi?
— Nada, Emm.
— Isso mesmo.
Enquanto estamos sentados embaixo da árvore, Audrey cantarola alguma coisa, e Ritchie se recosta, inclinado no degrau. Emm cai no sono, e eu espero. Não demora muito e sinto a presença atrás de mim. Eu sei que é o padre O'Reilly antes mesmo que ele abra a boca. E a impressão do homem. Seu jeito quieto e realista, até engraçado, de ser.
Ele está atrás de mim e diz:
— Obrigado por vir, Ed — e olha pro Emm. — Esse camaradinha parece que está numa merda maior que você, pelo amor de Deus!
Ele faz uma cara de perverso, e todos nós rimos, menos o Emm.
Emm acorda.
— Oh — ele coça o braço. — Oi, padre. Gostei do sermão.
— Obrigado — ele olha pra todos nós de novo. — Obrigado por virem. Nos veremos na próxima semana?
— Talvez sim — respondo, mas o Emm decide falar por si mesmo.
— É ruim, hein.
O padre leva na boa.
Acho que não sei exatamente o que o padre precisa, mas agora sei o que pretendo fazer. De volta pra casa, eu me sento com Porteiro, de vez em quando dando uma olhada nos retratos em cima da TV e lendo alguma coisa.
Então decido.
Vou encher a igreja do cara.
Só resta saber como.
N/A:. Oi ficnets... Desculpa a demora... Maaas e ai o que acharam? Adoro esse Padre... Deixem Reviews..
Bjs ficnets ;* E até o próximo capítulo
