Segunda parte – As pedras de casa
10 de paus - MOLINHO FEITO SORVETE
Ed. Pov.
Passo os dias seguintes com uma puta dor nos braços e nos ombros, mas ainda acho que valeu a pena.
Acabo descobrindo a tal de Charlotte Carusso. Não tem muitos Carusso no catálogo, e vou eliminando uma por uma, até que eu a encontro.
Ela tem três filhos e parece que foi uma daquelas mães adolescentes nesta cidade. Tem dois meninos e uma menina, e trabalha meio expediente na farmácia. Tem cabelo curto, castanho escuro e fica bonita de uniforme. A roupa é um daqueles vestidos brancos, até o joelho, que se usa em clínicas, que toda assistente de farmácia parece usar. Eu gosto.
Toda manhã, Charlotte apronta as crianças pra escola e vai andando até lá com elas. Vai ao trabalho três vezes por semana. Nos outros dois, ela fica em casa.
Fico observando de longe, e percebo que ela recebe o pagamento toda quinta. Nessas tardes, ela pega as crianças e as leva pro mesmo parque em que eu me sentei com Porteiro quando Sophie veio e conversou comigo.
Ela compra um sorvete pra cada uma das crianças, que devoram o negócio mais rápido do que eu possa imaginar. Assim que terminam, já querem outro.
— Não, vocês conhecem as regras — diz Charlotte. — Semana que vem vocês tomam mais sorvete.
— Por favor...
— Por favor...
Um deles começa a fazer pirraça e por um momento me dá vontade de ir lá e dar um jeito no moleque. Graças a Deus, ele pára logo, pois quer ir no escorrega.
Charlotte os observa por um instante até que fica de saco cheio e os arrasta com ela.
Eu sei.
Eu já sei.
Esta é fácil, penso.
Molinho, molinho, feito sorvete.
Fico triste ao ver as pernas de Charlotte, enquanto ela sai andando. Não sei por quê. Acho que é porque elas se mexem muito lentamente. Ela adora aquelas crianças, mas elas retardam o passo. Charlotte anda um pouco torta pro lado pra poder segurar na mão da filhinha.
— O que vai ter pro jantar, mamãe? — um dos meninos pergunta.
— Ainda não sei.
Ela gentilmente tira uma mechinha de cabelo escuro dos olhos e continua andando, ouvindo as palavras faladas pela filha. A menina está contando a Charlotte sobre um garoto na escola que não pára de pegar no seu pé.
E continuo observando os passos curtos que as pernas errantes de Charlotte vão dando.
Ainda me deixam triste.
Depois disso, ainda trabalho bastante no táxi e ando pra caramba à noite. Minha primeira parada é na Rua Edgar, onde as luzes estão acesas e consigo ver a mãe comendo com a filhinha. O que me chama a atenção é que, sem o cara lá, provavelmente elas não têm muita grana pra pagar as contas. Por outro lado, é muito provável que ele torrasse todo o dinheiro com a birita, e estou quase certo de que ela prefere estar um pouco mais pobre a ter o cara por lá.
Também dou uma passada na Irina e, mais tarde, faço uma visita ao padre O'Reilly, que ainda está vibrando de felicidade depois do Dia de Conhecer um Padre na paróquia. Nas semanas seguintes poucas pessoas compareceram à missa, mas ainda assim, se for comparar com antes, a igreja anda até cheia.
Por último, vou a cada endereço que abriga alguém com sobrenome Rose. Tem mais ou menos uns oito, e encontro quem estou procurando na quinta tentativa.
Eric Rose.
E um camarada de mais ou menos 14 anos que anda com umas roupas velhas e um ar de deboche. Tem cabelo razoavelmente comprido, e as camisas de flanela que ele usa parecem pano de chão.
Ele está estudando.
É do tipo de adolescente que fuma.
Tem olhos azuis da cor da água limpa de banheiro e a cara cheia de sardas.
Ah, e tem outra coisa...
O cara é um tremendo de um escroto.
Por exemplo, ele vai a algumas lojinhas de esquina e desrespeita os donos que não falam nossa língua muito bem. Ele rouba dessas lojas — qualquer coisa que caiba embaixo dos braços ou nas calças. Ele empurra os meninos mais fracos e cospe neles sempre que tem uma chance.
Enquanto observo o filho-da-mãe antes da escola, tomo cuidado para que a Sophie não me veja. Alguns medos antigos voltam a me azucrinar e me arrepio todo só de pensar na possibilidade de Sophie me ver e ficar pensando que eu curto passar o tempo em pátios de escolas. Observando.
Na maioria das vezes, vejo o Eric Rose em casa.
Ele mora com a mãe e o irmão mais velho.
A mãe acende um cigarro atrás do outro, usa botas de pele de carneiro, se amarra em encher a cara, e o irmão é tão escroto quanto ele. Na verdade fica até difícil decidir quem é o pior ali.
Eles moram bem no cu da cidade, perto do riacho sujo e espumante que nasce no rio. A característica principal do lugar é que a única coisa que os irmãos Rose fazem é sair no braço. Quando vou lá de manha, eles estão no maior bate-boca. À noite, eles estão se pegando, no maior quebra-pau. A qualquer hora, eles estão sempre trocando amabilidades.
A mãe não pode com eles.
E pra aturar a desgraceira, ela enche a cara.
Ela adormece no sofá, embalada pela novela das oito.
Em uma semana, eu já vi esses caras brigando pelo menos umas 12 vezes, até que uma noite, na terça-feira, eles travam a pior de todas as brigas. Explodem pela porta da frente e pelo lado da casa, e o irmão mais velho, Daniel, enche o Eric de porrada. Eric já pediu arrego, e o Daniel o levanta pelo colarinho.
Ele passa um sermão no infeliz e balança a cabeça pra frente e pra trás ao mesmo tempo.
— Eu te disse... pra... não... meter as mãos... nas minhas coisas. Entendeu?
Ele o atira contra o chão, antes de voltar pra dentro de casa, andando todo determinado.
Eric fica lá, e, depois de uns minutinhos, ele vai se levantando, apoiando as mãos e os joelhos no chão; fico do outro lado da rua só olhando.
Depois de checar se a cara está sangrando, ele finalmente solta um palavrão qualquer e começa a se mexer pela rua, meio andando, meio correndo. Ele só fala de ódio e diz que vai matar o irmão, até que pára e se senta no meio-fio no pé da ladeira, onde tem uns arbustos ao redor do caminho.
Este é o meu momento.
Eu me aproximo e paro na frente dele. Vou te confessar uma parada: me bate um cagaço dos diabos. O cara é durão, não vai facilitar pra mim.
Uma luz da rua está bem em cima da gente, observando.
Um ventinho frio passa esfriando o suor no meu rosto, e, aos poucos, vejo minha sombra se aproximar e cobrir Eric Rose.
Ele levanta a cabeça.
— O que você quer, ô, babaca?
As lágrimas quentes estão cozinhando seu rosto, e os olhos estão ardendo. Balanço a cabeça.
— Nada.
— Então "sarta" fora, veado, senão acabo com a tua raça.
Ele tem 14 anos, penso. Lembra da Rua Edgar? Isto aqui é moleza. Viro pra ele e digo:
— Ah, então acaba logo, porque daqui eu não saio.
Minha sombra cobriu o cara completamente, e ele não se mexe. Como eu pensei, ele é muito garganteiro. Ele arranca um mato do chão e joga na rua. Sai puxando tudo como se fosse cabelo. Suas mãos estão ferozes.
Depois de um tempo, eu me sento no meio-fio a uns metros de distância e deixo que minha boca acabe com o nada que se instalou depois da ameaça.
— O que foi que aconteceu? — pergunto, sem olhar pra ele. Acho que vai funcionar se eu não olhar.
Ele dá uma resposta bem curta:
— Meu irmão é um escroto imbecil, e eu quero matar o safado.
— Muito bem!
Ele olha enfurecido:
— Cê tá de sacanagem com a minha cara?
Mexo a cabeça sinalizando que não, ainda me recusando a olhar pra ele.
— Não tô, não.
Seu escrotinho, penso. Ele agora começa a repetir:
— Eu quero matar o infeliz. Eu quero matar o infeliz. Eu quero. Matar. O infeliz — o cabelo rebelde meio que cobre seu rosto. As sardas ficam todas acesas com a luz do poste.
Olho pro garoto e penso no que tenho que fazer. Será que esses Rose alguma vez foram testados? Estão prestes a enfrentar um teste.
N/A: Bom gente aqui tá o capítulo bônus. Espero que gostem. Mandem reviews...
Beijos ficnets e até o próximo ;*
