Segunda parte – As pedras de casa

J de paus - A COR DOS LÁBIOS DELA

Ed. Pov

À tarde de quinta-feira passa na boa.

Charlotte Carusso segue a rotina de sempre no trabalho e pega as crianças na escola. Vai com elas até o parque e discutem pra decidir que sorvete vão comprar. Um deles toma uma decisão esperta: a de comprar um mais barato pra poder tomar dois. Ele sugere isso pra Charlotte, e ela diz que mesmo assim ele só pode tomar um. Ele então muda de idéia e volta pro mais caro.

Fico aguardando no parque, enquanto estão lá dentro da loja. Eu me sento em um dos bancos mais afastados e espero até que eles saiam. Depois que aparecem, vou até a loja e tento adivinhar que tipo de sorvete Charlotte Carusso gostaria de tomar.

Anda logo, penso, quando você sair da loja, eles não vão estar mais lá. Por fim, escolho dois sabores. Menta e maracujá numa casquinha de biscoito.

Quando saio, as crianças ainda estão devorando seus sorvetes. Estão todos no banco.

Eu me aproximo.

Disparo a falar, surpreso pelas palavras saírem direitinho.

— Com licença, eu... — Charlotte e as crianças se viram pra me olhar. Bem de perto, Charlotte Carusso é bonita e tímida. — É que eu já vi vocês aqui outras vezes e notei que você nunca toma um sorvetinho — ela olha pra mim como se eu fosse um doido varrido. — Achei que você merecia um também.

Meio atrapalhado, passo o sorvete pra ela e já está escorrendo verde e amarelo pelos lados do cone.

Ela libera a mão devagar e pega o sorvete, com uma cara assustada já se descontraindo. Por uns segundinhos, ela olha pro sorvete. Então, passa a língua pra salvar o que escorre ao lado do cone.

Depois que ela limpa tudo com a língua, tenta dar uma mordida como se fosse o pecado original. Será que eu deveria? Ela olha pra mim cuidadosamente de novo antes de enfiar os dentes no sorvete de menta. Seus lábios ficam verde-claros bem na hora em que os meninos saem correndo pro escorrega. Só a menininha fica e aponta:

— É... hoje até você ganhou sorvete, mamãe.

Charlotte tira a franja dos olhinhos da filha.

— É, Casey, viu só? Agora vá brincar com seus irmãos.

Casey vai, e nós dois ficamos sós no banco.

Está fazendo um dia quente e úmido.

Charlotte Carusso toma o sorvete, e eu fico sem saber onde coloco as mãos. Ela passa a boca ao redor do sorvete de menta e agora começa a explorar o maracujá, bem devagarzinho. Com a língua, ela empurra pra baixo evitando que o cone fique vazio. Parece até que ela não suportaria a idéia de ver o cone oco.

Enquanto toma o sorvete, Charlotte fica de olho nas crianças. Os meninos mal se deram conta de minha presença, e o negócio deles é ficar gritando pra mãe e discutir sobre quem está indo mais alto nos balanços.

— São umas gracinhas — Charlotte diz olhando pro cone — na maioria das vezes.

Ela balança a cabeça e continua:

— Eu era a mais dócil quando era pequena. Agora tenho três filhos e estou sozinha. - Ela olha, e dá pra ver que está imaginando como seriam os balanços se as crianças não estivessem lá. Por um instante ela se sente culpada por pensar isso. Mas o pensamento está sempre ali, nunca sai de sua cabeça, apesar do amor que sente por eles.

Percebo que nada pertence mais a ela, e ela pertence a tudo.

Charlotte chora, por um momento, enquanto observa. Ela se permite pelo menos isso. Na cara, lágrimas rolando; nos lábios, doce sorvete.

Não tem mais o mesmo sabor.

Ao se levantar, Charlotte Carusso me agradece. Ela pergunta como eu me chamo, mas respondo que não importa.

— Nada disso — ela protesta. — Importa, sim. Eu dou um desconto.

— Eu sou Ed.

— Obrigada, Ed. Obrigada mesmo.

Ela me agradece mais algumas vezes, só que as melhores palavras que ouço no dia chegam a mim bem na hora em que eu acho que o negócio terminou. E a menininha, Casey. Segurando na mão da mãe, ela se retorce toda e diz:

— Semana que vem eu te dou um pouco do meu, mamãe.

De alguma forma, eu me sinto triste e vazio, mas também sinto que fiz o que era pra fazer. Pelo menos uma vez, um sorvetinho pra Charlotte Carusso. Nunca vou esquecer da cor do sorvete naqueles lábios.


N/A: Mil desculpas.., mas não consegui postar esses dias, provas da escola, trabalhos, então acho que vocês entendem (mais ou menos)... O que acharam? Mandem reviews...

Beijos ficnets, e até a próxima :*