Terceira Parte – Tempos difíceis para Ed Masen
Ás de espada – O jogo
Ed. Pov
Um mosquito canta no meu ouvido, e eu quase me sinto grato pela companhia. Dá até vontade de cantar junto.
Está escuro, estou com sangue na cara, e o mosquitinho podia facilmente se sentar e beber sem injetar. Ele podia se ajoelhar e beber o sangue da minha bochecha direita e dos meus lábios.
Quando saio da cama, o chão está frio e meus pés curtem o alívio. Meus lençóis pareciam estar tecidos junto com o suor, e agora eu me inclino e me escoro na parede do corredor. O suor escorre até meu tornozelo e rola até a base de cima do meu pé.
Não estou me sentindo mal.
Um riso escapa da minha boca quando olho a hora, vou para o banheiro e tomo um banho frio. A água gelada bota fogo nos cortes e hematomas, mas a sensação é boa. São quase quatro da manhã e não estou mais com medo. Não visto nada além de um jeans velho; depois volto pra cama procurando os dois ases. Abro a gaveta e levanto as cartas nos dedos. A luz amarela do quarto está perto de mim quando olho com felicidade para as histórias dessas cartas. Eu me emociono quando penso na Irina e na Rua Edgar, e desejo que a Nessie tenha uma ótima vida pela frente. Acho graça do padre O'Reilly, da Rua Henry e do Dia de Conhecer um Padre. Então penso na Charlotte Carusso e acho uma pena não ter podido fazer mais por ela. E aqueles filhos-de-uma-puta, os Rose.
Qual será a próxima carta?, imagino.
Acho que vai ser de copas.
Fico então aguardando.
Aguardando a luz do dia e o próximo ás.
Desta vez eu quero que seja rápido.
Quero a carta agora mesmo. Sem palhaçada. Sem charadas. Só me dê os endereços. Me dê os nomes e me mande lá. E isso que eu quero.
A única preocupação é que, toda vez que eu quis que alguma coisa saísse de um jeito X, degringolou pro jeito Y, como se fosse um lance planejado direitinho pra me desafiar com o desconhecido.
Quero ver o Caius e o Alec entrando por essa porta de novo. Quero que entreguem a próxima carta e falem mal do fedor e das pulgas do Porteiro. Nem passei a chave na porta, pra que os caras entrem de maneira civilizada.
Mas eu sei que eles não vêm.
Acho meu livro e vou pra sala. Levo os ases comigo e seguro os danados enquanto leio.
Quando acordo de novo, estou no chão com as duas cartas perto da mão esquerda. Já são quase dez horas, está calor e tem alguém batendo na porta.
São eles, penso.
— Caius? — grito, ficando de joelhos. — Alec? São vocês?
— Que mane Caius o quê? Quem é Caius? - Levanto a cara e vejo Emm parado. Esfrego os olhos.
— O que você tá fazendo aqui, maluco? — pergunto.
— E assim que você fala com os amigos, cara?
Ele agora vê meu rosto melhor e as listras roxas e amarelas formadas pelas costelas. "Meu Deus do céu", eu o vejo pensando, mas ele não fala. Ele dá uma resposta pra uma pergunta diferente da que eu fiz. O Emm adora fazer isso; chega a dar no saco. Em vez de dizer o que está fazendo aqui, ele diz como entrou;
— A porta tava sem a chave e não sei por que cargas d'água Porteiro me deixou entrar.
— Tá vendo aí? Eu te disse que ele é bacana.
Vou pra cozinha e o Emm vem atrás. Ele quer entender o que está vendo.
— Como foi que você acabou nesse estado, Ed?
Ligo a chaleira.
— Quer um café?
Aceito, sim, obrigado.
É claro que Porteiro acaba de entrar no recinto.
— Valeu — responde Emm.
Enquanto bebemos, conto pro Emm o que aconteceu.
— Uns carinhas aí. Não foram com a minha cara e me pegaram pelas costas.
— Você conseguiu revidar?
— Porra nenhuma.
— Por que não?
— Os caras tavam em seis, Emm!
Ele balança a cabeça.
— Meu Deus, o mundo tá muito louco, cara — ele decide voltar pra algo mais tranquilo. — Você acha que vai estar em condições de jogar esta tarde?
É claro.
O Jogo de Verão.
Hoje é o dia.
— Sim, Emm — dou uma resposta bem clara —, eu vou jogar.
De repente, sinto uma puta disposição pro jogo deste ano. Apesar das condições físicas lastimáveis, eu me sinto mais forte do que nunca, e na verdade estou até curtindo a idéia de levar mais umas porradas. Não me pergunte por quê. Eu mesmo não consigo entender.
— Venha — Emm se levanta e vai em direção à porta. — Vamos tomar um café-da-manhã. E por minha conta.
— Tá falando sério?
Sinistro. O Emm não é de fazer um negócio desses.
Quando estamos saindo, peço que ele fale a verdade.
— Você faria isso se eu tivesse tirado o corpo fora do jogo?
Emm abre o carro e entra.
— Nem ferrando.
Pelo menos ele é honesto.
O carro não dá partida.
— Pode ficar caladinho aí — ele me olha.
Nós dois damos um sorrisinho amarelo.
Este dia promete. Estou com unia boa sensação.
Vamos andando pra uma lanchonete de merda no final da rua principal. Eles servem ovos, salame e um pão na chapa. A garçonete é uma mulher grandona, bocuda, com um lenço na mão. Não sei por que, mas pra mim ela tem cara de Margareth.
— Vou logo avisando: aqui não tem essa história de "viado", não.
A gente fica chocado com o comentário.
— "Viado"? — Emm pergunta.
Ela olha pra gente com aquela cara do tipo "Num tô com tempo pra isso". A mulher está de saco cheio disso aqui.
— Meu filho, o que não falta aqui é gente querendo comprar "viado". É aí que a ficha cai, e eu percebo que ela está dizendo "fiado".
— Ei, Emm! "Fiado".
— O quê?
— Fiado.
Emm dá uma olhada no cardápio.
Margareth dá uma pigarreada pra limpar a garganta.
Pra não encher mais o saco dela, faço o pedido rapidinho.
— Será que dá pra me ver um milkshake de banana?
Ela faz cara feia.
— Estamos sem leite.
— Sem leite? Como é que uma lanchonete pode funcionar sem leite?
— Ó só, num sou eu quem compra leite aqui. Tenho nada com isso. Só sei que estamos sem leite. Por que vocês não pedem alguma coisa pra comer?
Putz, essa mulher adora o trabalho. Dá pra sentir no ar.
— Vocês têm pão? — pergunto.
— Não banque o engraçadinho, garoto.
Dou uma geral na lanchonete pra ver o que os outros clientes estão comendo.
— Vou querer a mesma coisa que aquele cara ali pediu. Nós três olhamos pra lá.
— Tem certeza? — Emm adverte. — Aquele negócio tá parecendo bem esquisito, Ed.
— Cara, pelo menos eles têm pra servir, certo?
E agora é que a Margareth fica puta.
— Olha aqui — ela coça a cabeça com a caneta. Só falta ela fazer da caneta cotonete também. — Se não estão gostando do lugar, melhor darem o fora e procurarem outro canto pra comer.
Ela é muito impaciente, pra não dizer outra coisa.
— Beleza — levanto a mão, quase arrastando a cadeira pra trás. — Traga pra mim o que aquele cara pediu e uma banana, tudo bem?
— Bem pensado — Emm aprova. — Potássio pro jogo.
Potássio?
Não acho que vá ajudar muito.
— E você? — Margareth agora volta a atenção pro Emm.
Ele se mexe todo na cadeira.
— Que tal aquele pão na chapa com a melhor tábua de frios?
Ele tinha que fazer uma graça. Emm não resiste em dar uma de engraçadinho com uma pessoa assim. E da natureza dele, não adianta.
Só que a Margareth é cobra criada. Ela já está acostumada a lidar com babacas como a gente o tempo topo.
— Não me faça dizer o que vou fazer com essa tal de tábua, garoto — ela responde e, não vou mentir, nós dois caímos na gargalhada.
Ela decide não notar.
— Os dois vão querer mais alguma coisa?
— Não, obrigado.
— Certo. Dá $ 22,50.
— Quanto?! — não dá pra esconder o susto.
— Sim. Isso aqui é lugar de classe, não sabiam?
— Ah, sim, isso ficou claro: o atendimento é de primeira.
E agora ficamos sentados na parte aberta da lanchonete, torrando e suando ao sol, enquanto esperamos pelo café. Margareth faz questão de passar pela gente, toda feliz, pra servir outras pessoas. Quase perguntamos que fim levou nossos pedidos, mas a gente sabe que isso só vai aumentar o tempo de espera. As pessoas estão na verdade já almoçando antes de nós tomarmos café-da-manhã, e, quando o pedido finalmente chega, Margareth joga as coisas na nossa mesa como se estivesse servindo adubo.
— Um brinde pra você, linda! — diz Emm. — Você se superou! - Margareth assoa o nariz e sai fora.
Indiferença selvagem.
— Como tá o seu? — pergunta Emm. — Ou melhor, o que é isso que você tá comendo?
— Ovo com queijo e mais alguma paradinha.
— E você lá gosta de ovo?
— Não.
— Então por que pediu esse troço?
— Ah, sei lá, tipo... não parecia ovo quando olhei no prato do outro cara.
— Tá explicado. Quer um pouco do meu?
Aceito a oferta e como um pedaço do pão na chapa. Nada mau, na verdade, e finalmente pergunto pro Emm por que ele escolheu exatamente hoje pra me pagar um café-da-manhã fora. Isso nunca aconteceu antes. Nunca saí pra tomar café-da-manhã em toda a minha vida. Além disso, jamais passaria pela cabeça do Emm pagar pra mim. Taí um negócio fora de cogitação. Normalmente, ele preferiria a morte.
— Emm — digo, olhando direto pra ele —, por que você me trouxe aqui?
Ele balança a cabeça.
— Eu...
— Diz aí um negócio: você tá é fazendo uma média pra garantir que eu vá ao jogo esta tarde, né, não?
Emm não pode mentir pra mim agora e ele sabe disso.
— É basicamente isso sim, cara.
— Eu vou, brother. Pode contar comigo lá às quatro horas em ponto.
— Beleza!
O resto do dia passa voando. Graças a Deus, Emm larga do meu pé nas próximas horas, então aproveito e vou pra casa dormir mais um pouco.
Quando chega perto da hora marcada, vou caminhando pro corredor esportivo com Porteiro, que percebeu minha felicidade, apesar do estado aparentemente catastrófico em que me encontro.
Damos uma passada na Bella.
Não tem ninguém em casa.
Talvez ela já esteja no corredor esportivo. Ela odeia futebol, mas não falta a nenhum Jogo de Verão.
São quase quinze pras quatro quando entramos no vale onde fica o corredor esportivo, e eu me lembro de quando estive aqui com a Sophie, na pista de corrida. Isso faz este jogo parecer lastimável, o que aliás não deixa de ser. Já tem uma galera se reunindo no campo de futebol, enquanto a pista está vazia, com exceção das imagens da menina descalça.
Passo um bom tempo encarando a beleza e então me viro pra olhar o resto.
Quanto mais eu me aproximo, maior fica o cheiro de cerveja. A tarde está quente. Faz uns 32 graus.
Os dois times estão em cantos diferentes do campo, e uma multidão de 100 pessoas começa a se juntar e crescer aos poucos. O Jogo de Verão é sempre meio que um evento. Rola no primeiro sábado de dezembro todo ano, e acho que esta é a quinta edição. E a terceira vez que participo.
Deixo Porteiro na sombra de uma árvore, e quando me aproximo do time, os caras que percebem minha presença olham bem pro meu rosto. Só que o interesse deles desaparece rapidinho. Estão acostumados a ver hematomas e sangue o tempo todo.
Em cinco minutos, visto uma camisa com listras vermelhas e amarelas. Número 12. Tiro o jeans e coloco um short preto. Nada de meia nem chuteira — estas são as regras do Jogo de Verão. Nada de chuteira nem de proteção nenhuma. Só mesmo uma camisa, um short e uma boca suja. E só disso que precisamos.
Nosso time é conhecido como os Colts. Os adversários são os Falcons. Eles usam camisas verde e branca com shorts da mesma cor, embora ninguém ligue muito pra eles. Já é muita sorte termos as camisas, se formos lembrar aqui que teve um ano em que a gente malocou algumas de um dos times profissionais e pegou outras do lixo.
Tem uns quarentões no Jogo de Verão. Bombeiros ou mineiros grandões e feiosos. Tem também uns jogadores mais ou menos; alguns novos, tipo Emm, Jasper e eu; e uns que sabem jogar bem de verdade.
Jasper é o último do nosso time a dar as caras.
— Ih, olha só! Apareceu a violeta! — diz um gordo que joga em nossa equipe. Um dos camaradas dele tenta explicar que não se diz "apareceu a violeta", e sim "apareceu a margarida", mas, com toda a sinceridade, o gorducho tem muita banha no cérebro pra entender a parada. Ele tem o que chamaríamos de um bigode do estilo Merv Hughes. Se você não entende a expressão, vou simplificar: é um bigode enorme. Você só precisa saber disso: enorme, cheio e vergonhoso. E quer saber o mais triste disso tudo? O cara é nosso capitão. Acho que o nome dele é Henry Dickens. Nenhum grau de parentesco com o Charles.
Jasper larga a mochila e diz:
— E aí, galera! Como estamos? — mas ele olha pro chão e ninguém esta nem aí pra como está o pessoal.
Faltam cinco pras quatro e a maioria do time esta enchendo a cara de cerveja. Alguém joga uma cervejinha pra mim, mas eu guardo pra depois.
Passo um tempinho por ali enquanto a multidão continua enchendo o lugar e Jasper se achega.
Ele me olha de cima a baixo e fala.
— Meu Deus do céu, Ed! Você tá um desespero. Todo cheio de sangue, todo fodido!
— Valeu!
Ele olha mais de perto.
— O que aconteceu, cara?
— Ah, só uns carinhas mais novos se divertindo um pouco.
Ele me dá um tapinha nas costas, com força suficiente pra doer.
— Acho que agora você aprende, né, Ed?
— Aprendo o quê?
Jasper pisca pra mim e termina de tomar a cerveja.
— Sei lá.
Cara, eu adoro o Jasper. Ele não liga muito pra como as coisas acontecem, nem tem vontade de perguntar o porquê. Ele percebe que eu não estou a fim de falar do incidente, faz um comentariozinho sacana e fica por isso mesmo.
O Jasper é um cara maneiro.
Acho curioso que ninguém tenha ao menos dito que eu deveria ter ligado pra polícia e contado o que aconteceu. Não se faz esse tipo de coisa por aqui. As pessoas estão sempre levando umas bordoadas por aí o tempo todo, e, na maioria dos casos, ou o cara revida ou acata a porrada e vai chorar na cama, que é lugar quente.
No meu caso, acatei na boa.
Enquanto estou fazendo uns alongamentos, dou uma olhada no time adversário. Os caras são maiores que a gente; tem um que parece um armário; olho bem pra ele. O Emm tinha falado sobre essa figura um tempo atrás. O sujeito é um monstro e, pra ser sincero, não dá pra dizer se é homem ou mulher. Na verdade, de longe parece Mimi do Drew Carey Show.
Então.
O pior.
Olho pro número dele.
É número 12, como eu.
— Você vai ter que marcar em cima daquele ali — diz uma voz atrás de mim. Sei que é o Emm, e o Jasper se aproxima também.
— Boa sorte, Ed — ele diz, tentando disfarçar o cagaço. Quase que sem querer, eu solto uma risada.
— Puta que o pariu! O cara vai me esmagar. Literalmente.
— Tem certeza que aquilo é homem? — pergunta Emm.
Eu me dobro e seguro os dedos dos pés, alongando a parte de trás das pernas.
— Pode deixar que eu pergunto quando ele estiver em cima de mim. Só que, pode até ser esquisito, mas não estou tão preocupado.
A multidão vai ficando desesperada.
— Certo, entre aqui — diz Merv.
Isso mesmo que você leu. Eu disse Merv, não Marv — resolvi chamar o gordão bigodudo de Merv porque duvido muito que ele se chame Henry. Acho que os amigos dele o chamam de Merv por causa do bigode.
Todo mundo se junta bem de pertinho e é aí que a gente pega um gás pro jogo. E uma verdadeira coleção de sovaco suado, bafo de cerveja, boca banguela e barba por fazer.
— Certo — diz Merv. — O que a gente vai fazer quando entrar em campo? Ninguém responde.
— E aí, galera?
— Sei lá — alguém resolve dizer alguma coisa.
— Vamos acabar com esses filhos-da-puta! — grita Merv, e agora todo mundo concorda, exceto o Jasper, que boceja.
Outros gritam também, mas nem chega a fazer diferença. Os caras xingam, debocham e esculacham os Falcons.
Isso sim é um bando de homens adultos, penso. A gente nunca cresce.
O juiz apita. Como sempre, o jogo é arbitrado pelo Reggie La Motta, famoso na cidade por ser um bebum. Ele só está nessa pra descolar duas garrafas de birita que todos nós fizemos uma vaquinha pra comprar. Uma garrafa de cada equipe.
— E isso aí, vamos acabar com esses caras — é o consenso geral, e a bola já vai começar a rolar.
Rapidamente, volto pra árvore onde deixei Porteiro. Ele dorme, e um garotinho faz carinho nele.
— Você quer tomar conta do meu cachorro?
— Quero! — ele responde. — Meu nome é Jack.
— O nome dele é Porteiro — e corro pro campo pra me juntar ao time.
— Ouça aqui, pessoal — Reggie fala com a gente. Não dá pra entender muito bem o que ele diz. O jogo nem começou ainda e o árbitro já está todo nervosinho. Chega a ser engraçado. — Se acontecer a mesma merda do ano passado, eu pulo fora e vocês que se virem.
— E daí tu fica sem a birita, Reg — alguém diz.
— E ruim, hein — Reggie responde. — Sem palhaçadas, ouviram bem?
Todo mundo concorda.
— Obrigado, Reggie.
— Certo, Reg.
Todos avançam pra frente e apertamos as mãos. Aperto a mão do cara que joga na minha posição no outro time. O cara chega perto e parece um armário de tão grande, sua sombra me engole. Ele é homem mesmo, mas é bem parecido com a Mimi do Drew Carey.
— Boa sorte — digo.
— Me dê uns minutinhos — Mimi responde com a voz bem rouca. Só falta uma maquiagem bem pesada nos olhos. — Vou fazer picadinho de você.
E a bola começa a rolar.
Os Falcons dão o pontapé inicial e não demora muito pra eu dominar a bola.
Levo uma rasteira.
Recobro a posse de bola.
Levo outra rasteira e ainda ouço merda no ouvido quando Mimi amassa minha cabeça no chão. E essa a essência do Jogo de Verão. A multidão não pára de gritar, vaiar, xingar e gargalhar — isso tudo acompanhado de cerveja, vinho, torta e cachorro-quente vendidos pelo mesmo cara de todo ano. Ele monta uma barraquinha na lateral do campo e não deixa de atender nem à criançada, pra quem ele vende refrigerantes e pirulitos.
Os Falcons marcam alguns pontos sobre a gente e assumem a liderança.
— Que diabos está acontecendo? — alguém pergunta quando paramos perto do meio de campo. E o Merv. Como capitão, ele se sente obrigado a pelo menos dizer alguma coisa. — Porra, só um no time tá suando a camisa: esse aí... Ei, como é seu nome mesmo?
Fico embasbacado, porque o cara tá apontando pra mim. Surpreso, respondo:
— Ed Masen.
— Bem, o Ed é o único que tá correndo e mandando ver. Vamos reagir, pessoal!
Continuo a correr.
Mimi continua me fazendo de gato e sapato, e eu me pergunto se ele nunca perde o fôlego. Não é possível que alguém desse tamanho vá muito longe neste calor.
Eu estou no chão quando Reggie encerra o primeiro tempo e todo mundo pára pra tomar uma cerveja. Cada jogador vai tentar convencer a si mesmo, com dificuldade, a voltar a jogar.
Durante o intervalo, eu me deito na sombra, perto do Porteiro e do menino. E quando aparece a Bella. Ela não pergunta nada sobre o meu estado porque sabe que tem a ver com as mensagens. Já está se tornando um lance normal e então nem toco no assunto.
— Tá tudo bem? — ela pergunta.
Dou um suspiro feliz e digo:
— Claro! A vida é bela! Eu amo a vida.
No segundo tempo, a coisa se inverte e começamos a contra-atacar. Ritchie marca um de escanteio e então outro cara dá um de bicicleta. Ficamos quites.
Emm também está jogando um bolão agora, no maior pique.
Mimi finalmente está se cansando e, durante uma interrupção devido a uma contusão causada por uma falta, o Emm se aproxima e me provoca.
— E ae? — ele vem pra cima. — Você ainda não machucou aquela orca. O lourinho de cabelo sebento está todo cheio de determinação.
Vou contra ele.
— Cara, olha só o tamanho dele. Pelo amor de Deus! O cara é maior do que Mama Grape.
— Quem é Mama Grape?
— Ah, você sabe... daquele livro — eu acabo cedendo. — Fizeram até um filme. Não tá lembrado, não? Johnny Depp?
— Ah, não importa, Ed. Levanta essa bunda e mostra pra ele!
E é o que eu faço.
Aproveito que o cara está sendo socorrido pra me aproximar de Mimi. Eu digo:
— Quero ver se tu consegue dominar a bola da próxima vez. E saio andando, definitivamente me cagando de medo.
O jogo recomeça e então Mimi domina. Vou com tudo atrás dele e por algum motivo eu sei que vou conseguir. Ele tenta se manter com a bola, dou um drible e lhe passo uma rasteira. Só ouço o som. Uma colisão da pesada que faz tudo estremecer. Enquanto a multidão vai ao delírio, eu me dou conta de que ainda estou de pé — e Mimi está esparramado no campo, feito uma trouxa de merda.
Logo, logo os caras estão todos ao meu redor, parabenizando e coisa e tal, mas de repente me bate um enjôo dos diabos. Eu me sinto muito mal pelo que fiz e o número 12 bem grande nas costas de Mimi olha pra mim todo infeliz, paralisado.
— Ele tá vivo? — alguém pergunta.
— Ah, que se foda — vem a resposta.
Eu vomito ali mesmo.
Vou saindo do campo devagar, enquanto todo mundo discute o que fazer pra se livrar de Mimi e dar prosseguimento à partida.
— Ah, pega a maça — ouço.
— Não temos maça nenhuma e, além disso, olha só o tamanho deste cara. Ele é grande demais. Vamos precisar de um guindaste, isso sim.
— Ou de um caminhão.
E não pára de chover ideias e sugestões. Gente assim não está nem aí se vai ofender ou não os outros. Qualquer que seja a característica. Tamanho, peso, fedor. Se você tiver uma delas, o povo não perdoa, mesmo que você esteja todo fodido no chão.
A última voz que ouço é do Merv. Ele diz:
— Essa é a maior unanimidade que vi nos últimos tempos — ele disse essa frase com tanta alegria, e os outros jogadores concordam com ele.
Continuo andando. Ainda me sinto muito mal. Culpado.
Pra mim, o jogo acabou.
O jogo acabou, mas outra coisa começa.
Volto pra árvore e não encontro Porteiro. Um medo familiar corre pelo meu corpo.
N/A: Bom gente, começando mais uma parte... O que será que vai acontecer com essa? Só deixando reviews que eu conto hehehe... Bom tadinho do Porteiro né? Será que o Ed vai acha-lo?
