Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas pela J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.
Capítulo II – O Sinistro está nos olhos de quem vê
O cão feroz no topo da encosta gramada rosnou ainda mais alto em resposta ao grito de Ron, e se colocou em posição de ataque.
- OH, MEU DEUS, O SINISTRO! – Draco berrou em pânico, correndo para se esconder atrás de Ron. – VAMOS TODOS MORREEEER!
Hermione remoeu-se internamente, mas não conseguiu vencer o impulso de rolar os olhos.
- Sinistro? Que Sinistro o que, é só um cachorro.
- Um cachorro grande, furioso e que está correndo pra cá – Harry cedeu, colocando-se em pé com a varinha em punho, pronto para atingir o animal quando este desatou a correr morro abaixo.
Ou não.
Harry logo percebeu que não teria coragem de acertar o cachorrinho – que não tinha nada de 'inho' - com um feitiço – a despeito dos berros de Draco de "Aja, Potter! Aja!"
O animal estava a apenas alguns metros agora. A qualquer momento os alcançaria. Draco estava histérico, agarrado às costas de Ron enquanto chamava por sua mãe aos berros. Ron fez uma anotação mental para sacanear Malfoy com aquilo no caso de sobreviverem.
O cachorro deu um grande impulso e saltou por cima de Ron, aterrissando bem em cima de Draco Malfoy.
- OHMEUDEUS! Estou morrendo! Estou morrendo! Façam alguma coisa. Ele me matou!
- Malfoy, você não está morrendo. Está sendo lambido – Hermione falou displicentemente, coçando o pescoço. Harry e Ron evitavam deliberadamente se olhar.
Draco abriu um olho primeiro, depois o outro. Espiou o cão que estava preguiçosamente deitado sobre si, lambendo seu queixo, antes de fazer cara de profundo nojo.
- Ew, que eca! Tira isso de mim! Ele está me violentando!
- Credo, que drama-Queen – Ron falou, pegando um graveto e voltando-se para o cachorro negro. – Upa, upa, cachorrinho. Vai pegar, vai! – ele atirou o graveto por cima das estufas.
O cão nem ao menos se moveu. Na verdade, lhe lançou um olhar extremamente ofendido.
- Nunca vou entender esses animais mágicos – Harry coçou a cabeça.
- PADFOOT! - ecoou a voz de um garoto pelo jardim. A voz milagrosa fez o cão colocar-se de pé imediatamente e correr de volta na direção do morro por onde uma pessoa descia.
- Hã? – fizeram Harry, Ron e Hermione ao mesmo tempo, olhando boquiabertos um jovem, que poderia muito bem ter sido Remus Lupin naquela idade, correr até onde eles estavam.
O garoto não pareceu perceber que havia várias pessoas que ele nunca vira mais gordas o olhando do gramado; muito menos que essas mesmas pessoas o encaravam como se ele fosse um fantasma, suas bocas abertas num perfeito "O".
- Hn. Garoto feio - fez o menino-que-se-parecia-muito-com-Lupin ao se aproximar do cão a passos largos, dando um tapinha leve em seu focinho. O cachorro apenas abaixou a cabeça para ele e deu um ganido baixo de desculpas. O recém chegado finalmente ergueu a cabeça para as quatro figuras a sua frente, parecendo levemente incomodado com sua presença ali.
Ele franziu as sobrancelhas quando notou os uniformes de Hogwarts tão diferentes dos seus. Começou a passar os olhos em cada um dos garotos. Do loiro de rosto pontudo e expressão fria - e que ele teria pensado ser Lucius Malfoy se não soubesse que o bruxo já tinha deixado a escola - vestindo as vestes da Sonserina e esparramado no chão aos pés do rapaz ruivo e sardento com a gravata da Grifinória, e dele para a única garota, também grifinória, que parecia ligeiramente assustada. E então, finalmente, para o menino de óculos e cabelos iguais aos de...
- JAMES? – o garoto-que-se-parecia-muito-com-Remus praticamente berrou, chamando a atenção do cachorro – que passara os últimos segundos de olho numa mosca gorda, pronto para dar o bote. A reação do garoto-que-se-parecia-muito-com-Remus não fora de todo exagerada, se você parar para pensar. Afinal, se ele tinha acabado de deixar James lá dentro do castelo, como ele poderia estar ali...? Contudo, aquele James...
- Não, eu não sou James, eu sou Harry – o garoto riu com brilho nos olhos. – E vocês são Remus e Sirius! Oi.
O fato do garoto saber seus nomes não foi o que mais chocou o garoto-que-se-parecia-muito-com-Lupin. O que o deixou com a pulga atrás da orelha, mesmo, foi o menino se dirigir a eles tão íntimo e parecendo genuinamente... feliz.
Ele estava se recuperando para o interrogatório, mas Padfoot escolheu aquele momento para se transformar em menino novamente. Hermione deu um gritinho e tampou os olhos com as mãos quando um rapaz de cabelos preto e mais ou menos dezessete anos - completamente nu - apareceu na grama no lugar em que o cachorro estivera se coçando minutos antes. Draco, ao contrário de Harry e Ron, não se permitiu corar.
- Sirius! Pelo amor de Merlin! Na frente de estranhos não! – exclamou o garoto-que-provavelmente-era-Remus, rolando os olhos.
- Não é minha culpa! Foi o choque! Você olhou bem pra cara desse aí? – Sirius apontou Harry, de olhos arregalados. Apesar de tudo, ele parecia bem a vontade do jeito que estava. Naturalmente em contato com a natureza.
Remus respirou fundo e arrancou uma das petúnias da grama. Sacou a varinha das vestes e fez um movimento complexo com ela. Logo, um vestido verde musgo de rendas e estampado com petúnias de todas as cores apareceu de sua ponta. Remus o ofereceu satisfeito para o menino ainda no chão.
- Quem diabos são vocês, afinal? – Sirius perguntou, assombrado, olhando de um para o outro e se demorando mais nos rostos de Draco e Harry. Então viu o braço estendido de Remus. – E o que você espera que eu faça com isso, Moony? – perguntou, apontando o vestido.
- Bem, a gente aprendeu a transfigurar vegetais há duas semanas... Você não espera que eu já tenha dominado a técnica, espera? – Lupin falou mal humorado, quase ofendido, erguendo novamente o vestido para Sirius.
- E por que você precisa transfigurar? É só usar um Accio e me arrumar roupas decentes! – Sirius bufou.
- Se quer coisa melhor faça você mesmo o feitiço, então – Remus estreitou os olhos castanhos e fechou a cara.
- Ai, esse vestido me trás péssimas lembranças do meu quarto ano – Ron deixou escapar, arrancando uma risada de Harry e um sorriso desdenhoso de Malfoy.
- Me dá logo isso aqui – Sirius falou mal humorado, olhando para a roupa como que esperando que ela lhe dissesse por qual buraco sua cabeça entrava. - Bem, mas vocês ainda não disseram quem são – falou, encarando os quatro com mais curiosidade do que medo.
Hermione se aventurou numa olhada por entre os dedos esperando que Sirius já estivesse vestido. Quando se convenceu de que sim, ela deu um passo à frente e estendeu um braço hesitante para ele e o rapaz de cabelos castanhos.
- Er... Olá. Eu sou Hermione Granger. E estes são Ron Weasley, Draco Malfoy e... Harry Potter. – Quando Lupin engasgou com a própria saliva, ela acrescentou. – É. Nós viemos do futuro. Acho. Provavelmente.
Ronco
Ronco
Ronco
Os seis jovens estavam agora sentados à sombra da faia à beira do lago, de uma forma que nem em seus sonhos mais loucos Harry imaginou que pudesse ser possível. Ele não conseguia desmanchar seu sorriso enquanto contava sua história de como eles tinham chegado ali, assistindo Remus fazer cócegas nos tentáculos da Lula Gigante enquanto ouvia e Sirius arrancar a grama da terra, fazer bolinhas com elas e atirá-las em Malfoy. O menino pausou para tomar fôlego, então Ron continuou de onde ele tinha parado, aproveitando cada oportunidade que tinha para xingar Draco.
- Bem, então, este idiota aqui...
- O único idiota aqui é você, Fuinha. E Potter. E Granger...
-... resolveu meter o nariz arrebitado dele onde não devia...
- Meu nariz é perfeitamente enquadrado, muito obrigado.
-... e roubou o vira-tempo da Mione.
- Peguei emprestado...
- Mas ele 'tava quebrado...
- Quem anda com um vira-tempo quebrado pendurado no pescoço? Salazar, que pobreza!
-... e a doninha o usou assim mesmo! Então viemos parar aqui. – Ron terminou com um olhar fulminante para Draco, que simplesmente cruzou os braços e lhe deu língua.
- Ok, deixa ver se entendi – Sirius perguntou, arrumando a alça do vestido. – Um vira-tempo quebrado fez vocês viajarem por vinte anos até aqui? E você é mesmo filho de James Potter? O James? Nosso James?
- Sou.
- Com a Evans?
- Ahan.
- Lily Evans?
- Sim!
Sirius ergueu as sobrancelhas divertidamente para Remus, que girou os olhos numa expressão que dizia claramente 'e lá vamos nós'.
- Eu não te falei que eles fariam um casal lindo?
- Pad... eu realmente não quero entrar nessa discussão de novo. Toda vez que abro a minha boca sobre o assunto parece que o James cai do céu bem no meu colo, pra saber o que penso sobre as mais novas estratégias amorosas dele...
Sirius estreitou os olhos para o amigo, cruzando as pernas comportado.
- Quando é que James esteve no seu colo? Posso saber? Como assim você anda pegando James no colo? Não sei se gosto dessa história de você ficar pegando o veado no colo...
- Sabe... essa é outra discussão na qual eu não quero entrar.
- Você está fugindo do assunto, meu caro!
Remus tossiu e olhou para os outros, que acompanhavam a discussão de olhos arregalados. Resolveu que, por ora, seria melhor ignorar Sirius.
- De qualquer forma, acho que devíamos levar vocês até Dumbledore, então... Não acho que tenha outro jeito de voltar sem consertar o tal vira-tempo, e eu certamente não sei quem possa restaurá-lo a não ser o diretor... – ele falava sério, mais para si mesmo, como se pensasse alto enquanto coçava o queixo. Estava tão concentrado em seu monólogo que nem percebeu quando Hermione se inclinou para Ron e cochichou algo como 'Ele é exatamente como o Lupin do nosso tempo'. O ruivo concordou veementemente.
Sirius olhou de rabo de olho para Remus com um sorrisinho malicioso, e então voltou a atenção para os garotos à sua frente.
- Vamos recapitular a história, então...
- Sirius... - Remus disse baixo, quase um aviso.
- Vocês viajaram vinte anos no tempo só porque o platinado de nariz enquadrado pegou emprestado um artefato mágico perigoso e quebrado e o usou pra se salvar do ruivo, que queria bater nele?
Quando Harry assentiu, Sirius olhou novamente para Remus, levantando as duas sobrancelhas sugestivamente.
- Oh, Moony! Eles não sabem a beleza que uns tapinhas de amor podem fazer por alguém...
Sirius teve que acudir Draco quando este se engasgou. Ron parecia ter perdido o controle da própria fala, enquanto Harry e Hermione faziam um grande esforço para não rir do amigo.
- Tapinhas de amor? De amor? – o ruivo repetia alucinado, corando até a raiz dos cabelos.
- O que você quis dizer com isso? – Draco exigiu saber, afastando a mão de Sirius (que o abanava) com um tapa.
- Ué, se você não sabe, eu é que não vou te explicar – Sirius respondeu com um sorriso torto. Ele podia jurar que vira fumaça sair das orelhas de Ron, que tentava argumentar com Harry o grau de sanidade de seu padrinho.
- De qualquer forma - Hermione interrompeu qualquer discussão que pudesse começar, – concordo com o professor Lupin, Dumbledore é o único que pode nos ajudar aqui. – Parou quando Remus e Sirius ergueram sobrancelhas para ela. – O quê? Qual o problema?
- Professor Lupin...?
- Ihhh... longa história... – disse Harry, sorrindo levemente.
Antes que Sirius pudesse obrigar o rapaz a lhe contar mais sobre essa história de professor, um grito esganiçado foi ouvido vindo do gramado que levava ao castelo. Duas pessoas, que Harry soube imediatamente quem eram, vieram correndo na direção do grupo. O coração de Harry virou um tambor em seu peito ao encontrar um James Potter de carne e osso pela primeira vez em dezesseis anos.
- Yeeeeeeeah! – fez James, se jogando nas costas de Remus, fazendo os dois tombarem para o chão. – Vocês demoraram a voltar, Wormtail e eu achamos que vocês tinham se enganchado em algum lugar, resolvemos vir ajudar. Ai, Moony! – Potter exclamou quando o amigo lhe deu uma cotovelada nas costelas, fazendo-o sair de cima dele. – Você já foi mais legal, sabia... – falou, esfregando o local. Seus olhos então caíram em Sirius. – Credo, Padfoot! De que brechó você saiu?
- É culpa do Remus! – Sirius respondeu olhando emburrado para o próprio vestido.
- Acho que nem vou perguntar o que aconteceu com as suas roupas... – James mandou um beijinho para Sirius e com uma olhada sexy, mordeu a ponta de seu indicador.
- Cala a boca.
- Então, o que estão fazendo sem nós? E quem são voc- CARALHO!
O queixo de James tombou comicamente quando seus olhos bateram em Harry.
Os olhos de todas as pessoas dançavam de um lado para o outro, quietos, enquanto James encarava com olhos e boca arregalados um garoto que parecia a sua imagem em um espelho. Eles se ergueram do chão ao mesmo tempo, o que possibilitou a James, pasmado, andar em volta do corpo que poderia ser o seu próprio. Mesma altura, mesmo cabelo, mesmos joelhos ossudos. As únicas coisas que escapavam à semelhança, além do fato de James se achar mais bonito, eram uma estranha cicatriz e familiares olhos verdes...
Sirius foi o primeiro a sair do transe e, com seu típico sorriso, quebrou o momento de tensão.
- Então, Prongs, deixa eu te apresentar o seu filho – falou, indicando Harry. James finalmente desviou seus olhos, que se possível estavam ainda mais arregalados agora, para o amigo. Black se inclinou um pouco na direção dele e, com uma mão cobrindo parte da boca, falou num sussurro conspiratório que permitia que todos ouvissem. - Ele veio do futuro.
Sirius ganhou um pescotapa de Remus logo depois de James cair duro na grama com um "Minha nossa!". Hermione deu de ombros e suspirou um "Podia ter sido pior".
Ronco
Ronco
Ronco
Agora eles eram oito, galgando a escadaria de pedra que levava às pesadas portas de carvalho do castelo. Draco vinha atrás, emburrado. Como o sinal do almoço tinha soado enquanto conversavam nos jardins, eles decidiram que o melhor era esperar por Dumbledore às gárgulas que guardavam sua sala, já que nenhum deles sabia a senha para entrar.
Hermione ia à frente, lançando olhares amedrontados para os lados, temendo que alguém os visse.
James não cabia em si de felicidade. Passara a primeira meia hora cutucando Harry a fim de conferir se ele não era uma peça dos Marotos que esvaziaria como um balão de ar a qualquer momento. Depois de convencido de que Harry era feito de carne e osso (mais osso do que carne, ele reparou, e teve um momento difícil interrogando Harry para saber se ele era um pai tão ruim que não alimentava a própria cria), ele passou a mimar o rapaz de todas as formas possíveis e a exclamar repetidas vezes para o grupo "Que orgulho! Tem a cara do pai! Como é bonito!".
Eles passaram rápidos pelas portas do Salão Principal e subiram a escadaria de mármore conversando animadamente. Foi quando viraram um corredor do primeiro andar que a pergunta inevitável foi feita.
- Peraí... se eu sou seu pai... você tem que ter uma mãe... Merlin, eu quero saber quem ela é? – James perguntou um tanto temeroso. Medo que só aumentou com os sorrisos maliciosos de Sirius e Harry. – Pelas ceroulas rendadas de Godric, me diz que não é a Arlete!
- Arlete? – Harry perguntou divertido, contagiado pelas risadas de Sirius, Remus e Peter.
- Arlete é uma quintanista grifa que é apaixonada pelo Prongs – Remus explicou erguendo as sobrancelhas sugestivamente.
- E quem não é? – soltou Peter, distraído. Ao sentir todos os olhares sobre si, ele tentou consertar. – Não eu... quero dizer, todo mundo, sabe... tem a Filomena, a-a Olívia... digo, não é que eu... Prongs é bem legal, não é? Qualquer um gosta dele. Quero dizer...
- Worm, é melhor você não dizer mais nada... – Remus falou, visivelmente segurando o riso quando James corou e sorriu constrangido. Sirius não se fez de rogado e soltou uma gargalhada. Peter deu de ombros, emburrado.
- Deprimente... – Draco murmurou audivelmente.
- Invejoso... – Ron rebateu na hora.
- Puxa saco...
- Babaca...
- Ogro sardento...
- Cruza de furão com salamantra...
- Merlin, quanto amor... – Sirius sorriu extasiado.
- O que quer dizer, Black? – Draco virou sua raiva para Sirius, mas Harry cortou o assunto antes que terminasse em mais discussão.
- O nome dela é Lily – ele falou.
- Que Lily é essa? – James perguntou.
- Minha mãe.
Levou cinco segundos. Então Harry sorriu quando James parou de chofre, fazendo Peter colidir em suas costas.
- Você disse Lily?
- Disse.
- Lily Evans?
- Ahan...
- Minha Lily?
- Siiiiiiim... – fizeram todos os outros juntos.
- YEEEEEEEEEEEEAH! – James berrou, dando um salto no ar e puxando Ron para si – que estava mais próximo, – lascando um beijo estalado na boca do garoto ruivo.
Ron e Draco ficaram imediatamente roxos – Ron de vergonha, Draco de rir.
Weasley correu disfarçadamente para o lado de um Harry risonho, saindo o mais rápido possível de perto de James - que não sabia pra onde correr e parecia a ponto de agarrar o próximo desavisado para outro beijo.
- Seu... Seu pai me beijou! – Ron sibilou, desejando que um buraco se abrisse a sua frente.
- Eu sei, cara. Todos nós vimos – Harry falou, sacudindo-se em riso.
- Eu sabia! EU SABIA! Ela me ama! Ela me quer! Eu disse que ela não resistiria ao meu charme natural. Casou comigo a danada! – James saiu cantando na frente, fazendo Harry e Peter rirem alto. Draco continuava a gargalhar de Ron, segurando-se com uma mão na parede de pedras para manter o equilíbrio.
Sirius abriu um sorriso largo para a reação exagerada do loiro.
- Do que 'cê 'tá rindo, ô platinado? – ele perguntou, chamando a atenção dos outros para si mesmo. - Quer saber? Eu acho que é de nervoso. Aposto que você bem queria ter sido beijado no lugar do ruivo.
- Sirius! – Remus sibilou por entre os dentes quando a risada de Draco morreu e ele arregalou os olhos.
- Eu não queria ser beijado pela droga do pai do Potter! – Draco exclamou indignado.
- Ops, me enganei? Pelo ruivo, então?
- Eu não queria ser beijado por ninguém! – Draco rosnou, o que não tinha efeito algum sobre Sirius, afinal ele vivia com Remus.
- Eu também não queria ser beijado por ninguém – Ron jogou a indireta, suas orelhas ainda vermelhas.
- Meu filho, neste momento eu beijaria até a Lula Gigante! – James gritou alegre, praticamente pulando, perdendo o olhar assustado de Draco e o segundo tapa na nuca que Sirius ganhou de Remus. Continuou, – EU SABIA! Eu disse que ia casar me com ela, eu disse! Ohhh, espere só até ela saber...
A risada de Hermione de repente se transformou num guincho alarmado.
- Não acho uma boa idéia contar a ela – ela falou, atrasando os passos para emparelhar com James.
- Por que não? – James a encarou como se ela fosse demente.
- Bem... não é bom que muita gente saiba quem nós somos – ela respondeu sem se importar com a olhada feia de James. – Imagine só, se a escola inteira ficar sabendo vão começar a fazer perguntas. Coisas sobre o futuro e –
- Minha mãe não é a escola inteira! – Harry, do outro lado da amiga, estava tão indignado quanto James.
- E de qualquer forma, que mal faria contar a apenas mais uma pessoa, Mione? – Ron perguntou timidamente. – Quero dizer, é a mãe do cara!
- Não interessa, Ron. Não era nem pra eles – ela apontou para os Marotos - terem visto a gente. Aliás, não era nem pra gente estar aqui! – Hermione lançou um olhar feroz para Draco, que do momento em que ela lhe deu as costas novamente, passou a imitá-la, fazendo caretas e gesticulando os braços. - Já tem gente demais sabendo dessa bagunça. E depois, seria bom evit-
- Quem é você, afinal? – James perguntou arrogante. – Você é muito metida a sabichona, sabia disso?
O queixo de Hermione caiu em ultraje. Ela ignorou o "Eu vivo dizendo isso a ela" de Ron e falou ofendida:
- E já que você não parece ser nem um pouco sabichão, pergunte a Dumbledore, então!
- Ah, qual é... – James voltou a caminhar. – Ele com certeza vai concordar comigo.
Hermione grunhiu exasperada e cruzou os braços, novamente acelerando os passos e se afastando do grupo. Draco começou a imitá-la, mas Remus lhe deu um pescotapa também.
Harry decidiu mudar a direção da conversa antes que Hermione resolvesse usar o feitiço dos pássaros de novo. ¹
- Mas e aí, ela ainda te odeia? Mamãe, eu quero dizer – Harry perguntou, recebendo um 'como você sabe disso?' e um 'sim, ela o odeia' de James e Sirius respectivamente, no momento em que chegavam às gárgulas.
- Ela não me odeia, aquilo é pura tensão sexual, se vocês querem saber.
- Oh, claro - Peter falou, - porque te encher de furúnculos é um novo código para "quero dar uns amassos."
- Ihhh, Wormtail, não vem agourar não, 'tá legal. E fiquem vocês sabendo que eu tenho uma vida sexual muito saudável, obrigado.
Os garotos começaram a discutir apropriadamente a vida sexual de James – ou a falta dela, - e Draco rolou os olhos, resmungou alguma coisa sobre 'grifinórios pervertidos' e saiu da rodinha. Eles ficaram por ali por mais alguns minutos, Hermione recusando-se a participar da conversa. Até que Malfoy, encostado à uma parede afastada, praguejou.
- Salazar! Vinte anos no passado e Dumbledore já era velho!
Todos viraram para onde Malfoy olhava e assistiram o velho diretor caminhar calmamente pelo corredor de pedras em que eles estavam. Albus Dumbledore parou em frente aos adolescentes, olhou de uma cara culpada para a outra - demorando-se em Harry, Draco e Ron - e sorriu gentilmente. Depois lançou um segundo olhar curioso para um Sirius Black sorridente antes de dizer, particularmente sincero:
- Belo vestido, senhor Black.
Ronco
Ronco
Ronco
Ron esteve no escritório de Dumbledore apenas uma vez, em seu segundo ano, logo após ele e Harry terem resgatado Ginny na Câmera Secreta. Ou talvez ele nunca tivesse estado ali ainda, esse negócio de voltar no tempo confundia sua cabeça. Ainda assim, o lugar se mantinha basicamente do jeito que ele se lembrava, com exceção de um ou outro objeto e do Chapéu Seletor, que tinha no momento um remendo a menos. Dumbledore conjurou banquinhos de madeira para todos e Ron correu para se sentar entre Harry e Sirius, deixando Hermione para se virar com Malfoy.
O diretor chamou a professora McGonagall através da enorme lareira que ficava a um canto da sala. A professora apareceu em segundos, rodopiando nas chamas verdes, e ficou em pé no meio da sala estreitando seus olhos de gato para os oitos jovens. Ela olhou reprovadora para Albus, como se ele fosse o culpado, de alguma forma, por aqueles alunos estarem ali. O foco dela rapidamente mudou, entretanto, quando Sirius acenou alegremente para ela com um "Bom dia, Minie, tudo bem?"
- Ponha-se em seu lugar, senhor Black – ela ralhou com severidade..
Sirius olhou para sua esquerda, avaliando Ron sentado ao seu lado, e então abriu um sorriso quando olhou para a direita, encostando-se em Remus de uma maneira muito natural - Ron poderia jurar que o viu ronronar! - e piscando um olho para a professora.
- Eu acho que já estou no meu lugar, Minie.
Minerva encarou o garoto por mais algum tempo e seus olhos se arregalaram um pouco quando finalmente caíram em sua roupa.
- Essa cor não te favorece, Black – ela falou, como se estivesse comentando uma lição em que Sirius pudesse ter tirado uma nota melhor se tivesse se esforçado mais.
- Eu sei, o Remus tem um péssimo senso de estilo – ele falou deprimido, fazendo Lupin girar os olhos para o céu.
- Deixe disso, Sirius, você fica esfuziante nesse vestido – Dumbledore se colocou na conversa. A professora torceu o nariz elegantemente e voltou a ignorar o aluno com toda a dignidade que possuía. Ron trocou um olhar divertido com Harry.
Ele estava feliz pelo amigo, sempre lamentou Harry não ter tido oportunidade de conhecer os pais. Esperava que Dumbledore não tivesse uma alternativa imediata para fazê-los voltar para o presente, pois sabia que Harry ainda gostaria de conhecer a mãe, não importava o que Hermione dissesse. E, por mais que o mero pensamento de ter que passar um tempo a mais com Draco lhe desse uma fisgada mais forte nas entranhas, ele estava disposto a esse sacrifício.
Albus deu a volta na escrivaninha e sentou-se em sua própria cadeira. Deu uma breve olhada no grupo à sua frente antes de sacar a varinha – se perguntassem, Ron não saberia dizer da onde – e conjurar dez picolés de limão, oferecendo a cada um deles. Minerva recusou.
- Então... quem são vocês? – ele perguntou, indicando Harry, Ron, Mione e Draco com o picolé.
O trio grifinório e os quatro Marotos desataram a explicar para o diretor quem eles eram e como chegaram ali. Malfoy prontamente se intrometendo toda vez que seu nome era mencionado. Obviamente, Dumbledore não entendeu uma palavra sequer, então sacou a varinha mais uma vez e produziu um alto e ardido estalo que fez Ron dizer um palavrão muito audível.
- Er... desculpe – ele se dignou a ficar vermelho quando Minerva o olhou como se ele fosse alguma coisa suja no carpete.
- Senhor? – chamou Hermione.
- Sim, senhorita...?
- Granger, senhor, Hermione Granger. E estes são Ronald Weasley, Draco Malfoy e... Harry Potter...
- Harry é meu filho, professor! - James disse orgulhoso, fazendo Harry sorrir. - Meu e de Lily Evans. Nosso. Nós dois vamos fazer.
- Dá pra acreditar? – falou Sirius, ganhando um tapa de Potter.
Pelo canto do olho, Hermione viu Minerva arregalar os olhos. Ao aceno de cabeça de Dumbledore, ela continuou.
- Bem, nós quatro viemos do futuro. Usamos um vira-tempo quebrado... sem querer... e acabamos aqui.
- Sem querer o escambau! Foi o platinado aí que meteu o nariz onde não devia – Sirius dedurou.
- Black, por que você não mete seu nariz no –
- Contenha-se, senhor Malfoy – Minerva falou ríspida. Draco não evitou o olhar de desprezo.
- Hum, Ronald Weasley? Filho de Arthur e Molly, me pergunto? – Ron concordou. Dumbledore sorriu e virou-se para Draco. – E você é filho de Lucius, certamente.
- Certamente... – o loiro respondeu de má vontade.
- Interessante... – o diretor comentou mais para si mesmo, olhando de Draco para Ron.
- O quê? – Ron perguntou assustado, também olhando dele próprio para Draco, e do loiro para ele. Mas Albus apenas sorriu.
- BEM, - Hermione acentuou, tentando trazer a atenção de volta para ela.
- Oh, sim, senhorita Granger, se me permite uma pergunta, por que, em primeiro lugar, a senhorita estava em posse de um vira-tempo? – o diretor perguntou, olhando-a por cima de seus oclinhos de meia-lua.
- Er... Bem, foi a professora McGonagall que me deu no nosso terceiro ano.
- Eu? – a professora arregalou os olhos.
- Sim, para poder assistir à todas as aulas, entende?
- Foi uma autorização especial do Ministério, professora – Harry ajudou. – Hermione é muito boa aluna e se matriculou em todas as matérias.
- Entendo. Está bem, então... E o que posso fazer por vocês? – Dumbledore indagou.
Hermione tirou o vira-tempo do bolso do casaco e caminhou até a escrivaninha, o estendendo para Dumbledore.
- Será que o senhor poderia... poderia arranjar outro, senhor?
- Hum... claro que posso! – o diretor exclamou, e até mesmo Draco respirou aliviado. – Mas vai levar muito tempo.
A menina o olhou assustada.
- Muito tempo?
- Muito tempo mesmo, senhorita Granger.
- Seja específico! – Draco perguntou arrogante, e quando Albus voltou os afiados olhos azuis para ele: – Por favor... Professor... Senhor...
Dumbledore se recostou em sua poltrona de chintz enquanto conjurava outro picolé de limão. Ron não conseguiu deixar de reparar que o velho parecia estar se divertindo muito com a situação.
- Muito tempo, senhor Malfoy... O vira-tempo é um objeto mágico poderosíssimo, por isso fica sob controle total do Ministério da Magia. O senhor deve entender que o uso dele só é liberado por uma autorização especial do Departamento de Mistérios, como bem disse o senhor Potter. Como não temos nenhum bom motivo para solicitar um vira-tempo ao Ministério, e o motivo real só acabaria causando mais problemas a vocês, eu vou precisar consertar o objeto quebrado. – Ao ver a expressão preocupada dos outros, ele acrescentou – Não se preocupem, o conserto é possível, mas pode demorar dias, semanas,...
Draco levantou-se, indignado. Estava tão vermelho que fazia um contraste engraçado com seus cabelos quase brancos.
- Quer dizer que eu vou ter de passar sabe-se lá quanto tempo aqui no passado? Com todos estes desastres do mundo bruxo? Grudado no Fuinha?
Ron estava prestes a fazer um comentário sobre onde ele ia enfiar uma fuinha em Malfoy quando compreendeu as implicações de 'muito tempo'. Largou-se deprimido no banquinho.
- Devo ter cuspido no chapéu de Merlin pra merecer isso, só pode... – lamentou. Sirius deu um tapinha solidário em suas costas.
- Professor – chamou Peter, - onde é que eles vão dormir?
- Oh, claro... Minerva...?
- Sim, sim, eu dou um jeito nisso. Tem uma sala vaga na Torre Norte que acho que servirá... – a professora falou, ainda que contrariada.
- Perfeito! Acomode-os, por favor – Minerva assentiu e foi até a lareira, onde chamou um dos elfos domésticos. Dumbledore prosseguiu. - Enquanto isso, vamos tratar das condições para vocês ficarem...
- Condições? – Draco ergueu uma sobrancelha. Então deu uma risadinha debochada. – Você não tem outra opção que não nos acolher, não tem outro lugar que possa nos mandar. Por que eu deveria aceitar alguma condição?
- Oh, mas senhor Malfoy, se eu fosse o senhor pensaria duas vezes antes de recusar minhas simples propostas. Afinal, ao contrário do que você possa imaginar, há sim outros lugares para onde posso te mandar.
Hermione soltou um "você poderia ter passado sem essa" enquanto lixava as unhas, e Draco ficou escarlate. Pelo canto dos olhos, viu os meninos fazerem força para não rir. O diretor aproveitou o silêncio do garoto para prosseguir.
- Onde é que estava mesmo? Ah, sim. Bem, eu os proíbo de revelar a qualquer um quem são e de onde vieram.
James inclinou-se para frente com um sorriso inocente.
- O senhor quer dizer 'qualquer um com exceção da senhorita Evans', não é?
- Não, não, James, eu raramente digo algo que não quero dizer, e nesse caso eu realmente quis dizer qualquer um. Temo que muita gente já esteja a par desse segredo.
- Mas isso não é justo! - James exclamou. – E além do mais, foi o senhor mesmo quem passou a fofoca para a Minie.
- Senhor Potter! – a professora ralhou, exasperada.
- Mas é verdade... – ele resmungou baixinho, cruzando os braços.
Hermione fez sua melhor cara de 'eu te disse' para James, enquanto brincava com um cacho dos cabelos. O moreno revidou com uma careta.
- E como é que eles vão andar por aí, diretor? – Peter perguntou. – Quero dizer, qualquer um que olhe para o Harry vê que ele é a cara do Prongs!
- Oh, sim – Dumbledore ergueu-se e caminhou até uma estante de livros, pegando quatro volumes muito grossos e de aparência muito antiga. – Mas vocês são alunos de História da Magia – Ron gemeu - da Universidade da Bruxandade Britânica, e vieram fazer uma pesquisa de campo sobre os quatro fundadores de Hogwarts. E Harry Potter, naturalmente, é um daqueles primos que todos temos e pouco falamos sobre.
- Brilhante! – Draco resmungou.
- Que bom que pensa assim, senhor Malfoy – Dumbledore sorriu, olhando o uniforme sonserino do garoto e lhe entregando um volume. – Você pode ficar com Griffindor.
- O quê? – Draco perguntou escandalizado quando Ron começou a gargalhar.
- E o senhor Weasley, com Salazar – sorriu, fazendo Ron parar de rir imediatamente. - Tenho certeza de que achará o capítulo sobre sua vida e morte fascinante...
- Tenho certeza que não. Isso é algum tipo de castigo? – o ruivo perguntou incrédulo, aceitando um dos livros.
- Oh, é claro que sim – respondeu o diretor entregando os outros dois livros a Harry e Hermione. Ron rolou os olhos e desejou que ele parasse de sorrir. Começava achar que aquilo era puro sadismo do velho. Finalmente, leu o nome da obra que segurava.
- Ei! É Hogwarts, uma história! – E olhou para Hermione, que parecia satisfeita que ele e Harry teriam que ler o livro na marra, no final das contas.
- Quanto a vocês – Albus olhou para os Marotos, que fizeram cara de 'não fui eu!', – perguntas sobre o futuro não devem ser feitas... Tenho certeza de que a senhorita Granger conhece a lei de uso do vira-tempo que diz que é perigoso tentar alterar o futuro. É preferível prevenir que caiam na tentação... Alguma objeção?
Todos concordaram um tanto relutantes. Apenas James bufou irritado, e Harry ergueu os olhos para Peter, mas assentiu com os outros. Malfoy se limitou a grunhir e examinar as unhas.
- Ótimo! Então a professora McGonagall vai levá-los até a Torre Norte. Nos vemos no jantar.
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- Inacreditável! Inacreditável! E você ainda tem coragem de dizer que esse velho é o melhor bruxo do mundo, Potter, que vergonha... – Draco praguejava enquanto desciam as escadas do escritório de Dumbledore. Minerva caminhava a passos firmes muito adiante, decidida a ignorar a conversa dos adolescentes.
- Mas ele é! – insistiu Harry, fiel.
- Minha bunda que é! Eu consertaria aquele troço em um minuto, se você quer saber.
- Ah, é? Não consertou ainda por quê?
- Porque estou sem minha varinha, idiota.
- Por que você está sem varinha, Malfoy? – perguntou Hermione.
- Por que o trasgo do Weasley resolveu me perseguir por todo o castelo! – respondeu sarcástico.
- Não seja por isso – Sirius falou, sacando a própria varinha e estendendo-a para Draco.
- O quê? Você acha mesmo que vou tocar na varinha de um traidor do sangue como você?
- Tá, fica sem varinha, então – Sirius deu de ombros e continuou andando. Draco estava perplexo. Não estava acostumado a ser ignorado.
Ron, então, pareceu se lembrar de algo e parou de caminhar, passando a tatear os bolsos da roupa.
- Merda! Deixei minha varinha lá também...
- Me pergunto como você pretendia virar o Malfoy ao avesso sem sua varinha, Ron – Remus comentou divertido.
- Com os punhos, lógico. É assim que se faz nas melhores famílias.
Logo a frente de Remus e Sirius, James e Peter cantavam. James tinha um dos braços em volta dos ombros de Harry.
- "A arvre tem gaiooooooo. O gaio tem ninhoooooo. O ninho tem ovo o ovo tem gema a gema é 'marelaaaaaaaaaaaa..."
- O que vocês estão cantando? – Harry perguntou achando graça.
- 'A arvre tem gaio', - James respondeu prontamente. – Ou seja lá qual for o nome dela. É música de trilha. Aprendi nessas férias. Você gosta de trilhas? Aposto que te levei pra conhecer várias.
Mais atrás, Ron repassava mentalmente as explicações de Dumbledore.
- Já não me lembro mais o que eu sou... – ele resmungou para si mesmo, coçando a cabeça. Hermione girou os olhos para o amigo, exasperada.
- Esqueça Ron, se alguém perguntar, só finja que tem um problema de audição.
- Se o problema dele fosse neurológico, ele não teria que fingir - Malfoy se meteu na conversa, de seu lugar atrás do grupo.
Todos os outros sete lhe lançaram olhares de profundo desprezo.
- Escuta, ele é sempre assim? – Remus perguntou para ninguém em especial.
- Fica pior se você não alimentá-lo de três em três horas – Harry não se importou em responder.
- Eu ouvi isso, Potter! – Draco falou por entre os dentes quando os outros começaram a rir.
Eles subiram dezenas de escadas, atravessaram tapeçarias, mudaram de caminho para evitar Pirraça. Finalmente, arrastaram-se pelos degraus estreitos de uma escada que subia em caracol e levava à Torre Norte, sala que Harry, Ron, Hermione e Malfoy sabiam que viria a pertencer à Sibila Trelawney num futuro próximo. Ron quase deixara escapar um comentário sobre ocupar a sala da morcega velha, mas Hermione o impediu a tempo. Explicar Sibila significava explicar predições, que significava explicar o que acontecia no dia das bruxas de mil novecentos e oitenta e um.
Quando alcançaram o patamar minúsculo sob o alçapão circular, cada um largou-se em um canto, arfando pesadamente. McGonagall apontou a varinha para o teto e o alçapão se abriu, fazendo uma escada prateada escorregar lentamente até eles. Hermione e os outros subiram e se inclinaram contra a abertura da sala quando Minerva começou a falar.
- Um elfo arrumou o cômodo para vocês, se precisarem de algo sabem onde me encontrar... – Apontou para os Marotos. – Vocês quatro em sua casa antes do toque de recolher.
- Pode deixar, Minie! – Sirius falou, jogando um beijo para a professora. Os lábios dela se crisparam, mas Harry não sabia dizer se de irritação ou de esforço em segurar o riso.
Peter finalmente abaixou o alçapão e eles olharam em volta pela primeira vez.
A sala circular não tinha cheiro de incenso, nem era escura, quente e muito menos tinha cortinas coloridas de seda, puffs e bolas de cristal. Ela era simples, limpa e iluminada, com um largo sofá vermelho de frente para a janela, duas poltronas, uma mesinha baixa de centro, uma grande estante repleta de livros empoeirados num dos cantos, uma pequena lareira do outro, e uma mesinha de estudo próxima à entrada. Do lado oposto, Harry quase pôde ver Trelawney aparecendo por detrás de uma porta de madeira escura, onde ele suspeitava estarem os aposentos privados da sala.
- Que pobreza... – Draco torceu o nariz para a simplicidade do lugar.
- Ninguém está te obrigando a ficar aqui, Malfoy. Você pode compartilhar o corredor com Pirraça, nem ligo – Ron deu de ombros, sentado no sofá dando pulinhos para experimentá-lo. – Maneiro – ele sorriu satisfeito.
- Gostou? Pode dormir aí mesmo então – Draco cruzou os braços.
- Só porque você quer – Ron respondeu.
Então houve um segundo de silêncio antes dos dois se entreolharem, e olharem brevemente para a porta de madeira, e entreolharem-se de novo. Aparentemente compreendendo algo que estava além do entendimento dos outros, no instante seguinte os dois rapazes estavam apostando corrida como hipogrifos no cio em dia de acasalamento, direto de encontro ao segundo cômodo.
E entalando na porta quando tentaram atravessá-la ao mesmo tempo.
- Sai-pra-lá... Weasley! – Draco falou, ofegando, tentando empurrar Ron que o espremia contra o batente.
- Sai pra lá você. E tira esse cabelo da minha cara! Ai, meu ombro! Você me mordeu! – Ron exclamou indignado depois de desvencilhar-se de Draco com o susto.
O sonserino aproveitou a pausa chocada de Ron para escapar para dentro do quarto. Estava quase alcançando a cama mais próxima à janela quando teve seus joelhos presos por Ron, que tinha se atirado atrás dele e o segurado por trás. Caíram espetacularmente no chão.
- Weasley, eu vou arrancar seus olhos quando me levantar daqui – Draco falou por entre dentes, estendido no carpete, tentando se arrastar por ele do jeito que estava: com Ron agarrado aos seus joelhos.
Harry, Hermione e os Marotos tinham alcançado a entrada do quarto e riam divertidos com a cena.
- Olha só, Moony, eles mal conseguem manter as mãos longe um do outro – Sirius falou excitado, ganhando um rolar de olhos de Remus, que ainda assim não conseguia esconder seu próprio divertimento.
- Que ridículo, vocês dois – Hermione resmungou, ocupando a quarta cama do quarto, que por acaso ficava bem longe da qual Ron e Draco cobiçavam.
Draco, ainda se arrastando com esforço, já estava quase alcançando o pé da cama quando Ron ergueu-se rapidamente do chão e passou correndo pelo sonserino, atirando-se de barriga na cama e agarrando-se ao travesseiro.
- Há! É Minha! – ele ergueu os braços no ar em sinal de vitória. – Você fica com o tapete, Malfoy.
- O caramba que é sua! – Malfoy esbravejou, finalmente levantando-se e ocupando a cama também. - Eu cheguei primeiro na porta, a cama da janela é minha! – ele tentou tomar o travesseiro de Ron, mas o mais alto o colocou prontamente fora de seu alcance.
- Vá arranjar outra cama pra você, Malfoy. Sai do meu pé! – Ron corou com a proximidade, mas não cedeu.
- Eu quero esta! – o loiro bateu o pé.
- Problema seu.
- Pois eu não saio daqui – Draco se fez bem vindo no colchão e cruzou os braços, teimoso.
- E eu menos! – Ron se acomodou na cama, deitou a cabeça no travesseiro, ajeitou as mãos sob ele e ronronou.
- Veremos quem cansa primeiro – Draco estreitou os olhos. Então, deitou-se também com a cabeça voltada para os pés da cama e as mãos cruzadas sobre o peito, usando os próprios pés para se livrar displicentemente dos sapatos. Um dos tênis caiu bem na cabeça de Ron que, sem levantar-se, o pegou e atirou na direção geral em que imaginava estar a cabeça de Draco.
Sirius tinha um sorriso saudoso no rosto quando, com um braço em volta dos ombros de Remus, suspirou algo como 'Ah... bons tempos...'.
Harry lançou uma olhada hesitante para a cama que ficava ao lado da que Ron e Draco ocupavam, e dela para a terceira cama, e decidiu que no mínimo estava mais seguro ao lado de Hermione.
- Vejam só! A Minie pensou em tudo. Até roupa para vocês ela mandou – James observou impressionado, indicando os malões que descansavam aos pés de cada cama.
- Espero que ao menos não sejam trapos parecidos com estes que você usa – Draco falou sem nem abrir os olhos.
James tinha uma resposta na ponta da língua, mas então uma imagem veio à sua cabeça e ele sorriu de um jeito que só os Marotos sabiam o que significava. Ele piscou para os amigos.
- Nah, aposto que não são... – respondeu simplesmente, antes de gritar 'Montinho', sair correndo e se jogar em cima de Harry.
- O que fazemos agora? – Hermione perguntou para o grupo.
- Bem, já perdemos mais da metade do primeiro tempo depois do almoço, mas acho que dá para chegar a tempo de Feitiços – disse Lupin, que estivera observando Ron lutar para achar uma posição confortável na cama sem ter que encostar em Draco. – E não, Sirius, você não pode matar de novo a aula.
- Você não é nada divertido, Moony – Sirius deixou os ombros caírem com a intenção de fazer Remus sentir dó dele, mas em seu vestido rendado de petúnias só o que conseguiu foi arrancar-lhe uma risada pelo nariz.
- Bem, então acho que vou lá dar mais uma chance pra Lily sair comigo – James sorriu afetado, mas fechou a cara assim que notou o olhar desconfiado de Hermione. – Tá, tá, já sei.
- Não se preocupe, Hermione, a gente fica de olho nele – Remus sorriu para ela. – Vou descer, então. Nos encontramos no Salão Principal no jantar? – perguntou para os outros, que assentiram.
- Espere, Moony, eu vou com você! – Sirius deu um tchau animado para o grupo e correu atrás do amigo. James bagunçou os cabelos de Harry uma última vez antes de seguir os outros dois para fora do quarto.
Peter ficou sorrindo parado à porta do quarto, pois eles ainda podiam ouvir James, Sirius e Remus discutindo enquanto desciam pelo alçapão.
- Mas, Moony, a gente já perdeu todas as aulas do dia, que diferença faz mais umazinha?
- Faz diferença quando a gente tem quarenta centímetros de redação para entregar.
- REDAÇÃO? QUE REDAÇÃO? – ouviu-se o berro de James.
- Não esquenta, se eu conheço bem o Moony ele fez dois metros, o que dá quarenta centímetros pra cada um e ainda sobra quarenta de bônus.
- Se você me conhece, sabe muito bem o que vou te mandar fazer com o bônus.
Peter riu e balançou a cabeça. – É tudo pose do Remus. Antes do sinal tocar as redações do James e do Sirius vão estar prontas.
Então ele virou-se para os meninos e encontrou três pares de olhos o encarando agudamente. Engoliu em seco.
- Você devia ir com eles – Harry sorriu amarelo e fez um gesto com a cabeça, indicando a porta.
- Harry! – Hermione guinchou.
- Oh, hum... Er, acho que eu devia descer mesmo. A aula. – Peter apontou o polegar vagamente para trás de si, subitamente inquieto. O rosto redondo estava em chamas. – Bem, vou nessa...
E sem se demorar mais um minuto, o rapaz deixou o quarto a passos largos, desaparecendo sob o alçapão.
Hermione, cuja cama ficava de frente para a porta que levava à sala, esperou que o alçapão estivesse em seu lugar novamente para rosnar.
- Você é impossível, Harry!
- Mas que raiva! Hoje mesmo vou contar tudo pro meu pai! – Harry explodiu.
- Não vai, não – Ron interveio, sentando-se na cama. – Harry, você não sabe o que está dizendo, Bill me contou várias histórias de gente que interfere no futuro. Sério, pode acontecer muita coisa ruim, cara.
- Pior do que meus pais serem traídos por alguém que consideravam um amigo? E Sirius ser preso injustamente, e Remus segurar essa barra toda sozinho? Ou Pettigrew ajudar no retorno de Voldemort? – Harry perguntou sarcasticamente, o rosto vermelho de pura revolta. – Então, talvez valha a pena correr o risco, Ron.
Hermione soou um tanto desesperada em seu apelo e colocou-se entre a porta e Harry com a intenção de evitar uma tragédia.
- Harry, você não pode! Você prometeu a Dumbledore!
- E então? Você acha mesmo que eu vou ficar sentado aqui trocando sorrisinhos com esse... covarde, sabendo no que ele vai se tornar daqui a um tempo?
- Bem, gosto disso tanto quanto você. Mas enquanto Dumbledore não encontrar uma forma de nos levar de volta pro futuro, vamos todos ficar de bico calado. – Então ela abrandou o tom, abraçando Harry pelos ombros. - Você sabe que não deveríamos nem ao menos ter deixado que eles nos vissem, Harry, mas já que aconteceu, temos de seguir o jogo. Você sabe!
- É impossível! É impossível que você aceite não fazer nada! – Harry grunhiu furioso, soltando-se do abraço. Então deu as costas para a garota e andou até o malão, onde começou a atirar as coisas de dentro dele, procurando roupas limpas.
Ron abriu a boca para defender o argumento da amiga, que permanecia parada à porta, temerosa que Harry decidisse sair atrás de James a qualquer momento. Contudo, e para a surpresa de todos, foi Malfoy quem falou primeiro.
- Que Salazar me perdoe, mas, a trouxa está certa, Potter! – falou Draco, sentando-se. Harry, Ron e Hermione o olharam atônitos. - O que é? Está mesmo! Você é um tremendo de um babaca egoísta, cicatriz, chorando por sua mamãe e seu papai...
- Você lave essa sua boca nojenta antes de falar dos meus pais, Malfoy. Você não sabe de nada!
- Não, Potter, talvez, só talvez eu não saiba o que é ter a vida controlada por Você-Sabe-Quem – o trio grifinório recuou desconfortável. Era a primeira vez em sete anos que Draco praticamente admitia a ligação de sua família com Voldemort. – Mas você deveria ouvir seus amigos, sabe... Deveria entender o sacrifício da sua mãe. Sem ela, e não me importa o que as pessoas digam, você não teria chances contra o Lorde. – Um silêncio desconcertante se seguiu e Draco voltou a se ajeitar em sua cama com um som de desdém. - E não espere por mais conselhos sabidos como esse.
xXx
Peter alcançou James ainda nas escadas em caracol. O garoto de cabelos pretos parou para esperar quando o amigo gritou seu nome.
- Acha seguro ir para o quarto agora? – Peter perguntou.
- Não quando o Sirius está naquele fogo desde manhã – ele respondeu. Pettigrew fez cara de 'foi o que pensei'. James deu uma olhada curiosa em Peter. – Achei que fosse ficar lá em cima.
- Hum..
- Ok. Desembucha.
- Bem... Não, não é nada. É só cisma minha.
- Fale logo ou eu te largo aqui falando sozinho.
Peter olhou feio para James, então suspirou.
- Você acha justo a gente perguntar algo sobre o futuro a eles?
- Não – James respondeu sem hesitar.
- Você perguntou sobre a Lily! – Peter resmungou indignado. Ele claramente estivera esperando um pouco de apoio moral do outro.
- É, perguntei... E talvez tivesse sido melhor não ter perguntado – James deu de ombros.
- Do que você está falando? – Peter olhou o amigo com preocupação.
- Bem... sei lá... Tirou todo o elemento surpresa, entende? – Peter fez que não. – Ora, Wormtail, agora eu vou ficar mais ansioso ainda sobre quando vai acontecer, quando ela vai finalmente aceitar sair comigo... E você me conhece, e se eu acabar fazendo alguma merda e estragar tudo? – James deu uma olhada em Peter pelo canto dos olhos, e viu que ele ainda estava preocupado. - O que você gostaria de saber, afinal?
Peter hesitou por um momento, mas como sabia que, apesar das ameaças, James não lhe deixaria em paz até que contasse, falou o que estava pensando.
- Não acho que eles vão muito com a minha cara.
- Quem? Harry e os outros? Oh, como não, Pettigrew? Você é tão fofinho! – Potter sorriu malicioso, apertando as bochechas de Peter. O mais baixo empurrou as mãos de James e suspirou triste.
- Não foi isso que quis dizer, besta. É só que... eles realmente parecem... não sei...
James o deixou encontrar sozinho a palavra.
- Ressentidos... acho. – Então Peter suspirou derrotado. – Você acha que eu...?
- Fez alguma coisa ruim? – James interviu e Wormtail assentiu. – É claro que não, mané. Você não faz mal nem ao Seboso, que merece.
Peter não pareceu convencido.
- Olhe, talvez eles só estejam bravos porque você... Hum... Perdeu o último Natal na casa dos Potter. É, aposto que você saiu num cruzeiro com uma loira gatona e não trouxe nem presentes. E aí, o que acha? – James cutucou Peter nas costelas, fazendo o amigo rir.
- Parece bom... Mas olha só, diga ao Harry que eu não queria realmente perder o Natal. É só que ela era muito gata, entende?
- Ahhh, seu rato! – James deu uma chave de braço em Peter e bagunçou seus cabelos. – Podexá que eu digo. Agora suma daqui que eu estou atrasado.
Eles tinham saído da escada em caracol e agora James estava tomando um corredor à direita, que levava à ala leste da escola.
- Atrasado pra quê? – Peter perguntou, o seguindo.
- Não te interessa, vá procurar uma coisa pra fazer.
- Ah, Prongs, não me deixa aqui, ainda estou cabisbaixo, olha só.
- Vá conversar com Remus, Peter, ele sempre sabe dessas coisas.
- Não quero pensar em Remus agora, Prongs. Não quando ele deve estar pelado no momento. – James o olhou como quem diz 'obrigado pela péssima imagem mental'. – Vamos, James, me diga para o que você está atrasado e eu vou embora.
James suspirou fundo.
- Estou atrasado para encontrar Lily.
Peter parou de chofre, a boca escancarada.
- Como assim 'encontrar Lily'? Desde quando você tem encontros com a Lily.
James trocou o peso do corpo de pé e mordeu o lado de dentro das bochechas.
- 'Tá, não é bem um encontro... É só que... Lily gosta de usar o banheiro dos Monitores no término das aulas... – James se dignou a ficar com as bochechas vermelhas.
Peter levou alguns segundos para entender, e então um sorriso maroto apareceu em seu rosto.
- Uou, Prongs! E eu que sou o rato! – ele disse, e saiu correndo atrás do amigo que ia rindo à frente.
Notas:
¹ - HP e o Enigma do Príncipe, pág. 236.
