Disclaimer: Essa história é baseada nos personagens e situações criadas pela J.K. Rowling, várias editoras e Warner Bros. Não há nenhum lucro, nem violação de direitos autorais ou marca registrada.

Nota: Porque vocês vão reparar que só tem Petúnia Máscula nessa fic.


Capítulo III – Aquele das petúnias másculas

Remus e Sirius voltaram da aula de Feitiços e entraram no dormitório deserto do sétimo ano da Grifinória. Longbottom provavelmente estava atracado com Alice em algum canto do castelo.

Sirius imediatamente arrancou o vestido pela cabeça, o jogando de qualquer jeito na cama de James. Remus se sentou na beira de sua cama, enquanto observava o amigo revirar seu malão.

- Ainda não acredito que você me fez vestir esse vestido ridículo o dia todo, Moony.

- Não estava tão ruim assim... Flitwick adorou as rendas!

- Não estava tão ruim? Ele tinha flores, Moony! Flores! E nem eram flores másculas, eram petúnias!

Remus riu de lado, deitando-se na cama e se acomodando. Aparentemente Sirius gastaria um bom tempo procurando uma roupa bastante 'máscula'.

- Eu realmente não sei qual é a sua definição para flor máscula, Padfoot, mas aparentemente você estava esfuziante com as petúnias nada másculas.

- Dá pra acreditar nisso? Eu juro que achei que o Dumbledore fosse me perguntar de que grife era o vestido! - ele disse com a voz meio abafada enquanto tentava enfiar, sem sucesso, a cabeça pelo buraco da manga de uma blusa justinha que tinha achado no malão. - Estou te dizendo, Moony, Dumbledore é tão gay quanto você.

- Como assim 'tão gay quanto eu'? E você é o quê? Ah, sim... esqueci... você é uma petúnia super desenvolvida e muito máscula.

- Cale a boca! - Sirius atirou uma meia no amigo e terminou de abotoar suas calças pretas. Andou até o espelho que ficava ao lado da cama de Lupin e deu uma olhada rápida antes de se virar para o garoto, com os braços abertos. - O que acha?

Remus o olhou por um tempo, parecendo pensativo, e de repente agarrou um dos braços de Sirius, que deu um grito muito digno de seu vestido de petúnias antes de ser virado e jogado na cama ao lado do outro. Remus se deitou sobre ele, eficientemente prendendo-o à cama e impedindo que o moreno indignado se levantasse.

- Eu acho que você teve trabalho demais se sabia que eu ia acabar tirando a sua roupa, eventualmente.

- Idiota.

Com um beijo rápido no queixo do moreno, Remus rolou de cima dele e voltou para seu lugar ao seu lado.

- A roupa está ótima, Pad. Bem máscula.

- Ótimo - Ele respondeu com um sorrisinho discreto.

- Eu bem gostaria de saber onde se meteram Peter e James, que não apareceram na aula.

- Eles que estão certos. Não sei por que os professores mandam a gente entregar trabalhos sobre coisas que eles já sabem.

- Eles querem saber se nós sabemos, Sirius.

- Grande coisa, se é você quem faz os meus.

Remus deu um fraco soco na perna de Sirius.

Os dois ficaram olhando pensativos para o teto por um momento, até que Sirius não agüentou mais se segurar, virou de lado e apoiou a cabeça em um braço, de modo que pudesse olhar para Remus.

- O que você achou disso tudo? Quero dizer, conhecemos o filho do James! O nosso James! O idiota que nunca consegue receber nem um 'oi' de resposta de Evans!

- E eles vão se casar. Não é incrível? – Remus riu. Então franziu o cenho. – Acho que devemos desculpas a ele por toda a gozação.

- Ah, deixe de ser estraga prazeres, Moony. – Um sorriso malicioso de repente cruzou o rosto de Sirius, que encarou Remus. – E a gente? Será que vamos juntar nossos trapinhos, também?

- Eu me casar com você? – Remus fez ar de desdém, mas estava visivelmente escondendo um sorriso de quem acha a idéia muito boa. Então ele também virou de lado e apoiou a cabeça na mão. – Você acha isso possível?

- Eu não. Você ronca – Sirius respondeu, e sorriu afetado quando Remus fechou a cara para ele. – A única coisa que acho impossível nessa vida é o Seboso deixar de ser ensebado, Remus.

- Ué, mas eu não te contei que o vi ensinando Runas para um grupinho de Lufas?

Sirius arregalou os olhos e tampou a boca com uma das mãos: - Mentira! - sussurrou em falsa surpresa. - Você não está realmente falando sério. Está? - perguntou com um sorrisinho malandro.

- É óbvio que não - Remus respondeu com um sorriso à altura e puxou o moreno para outro beijo.

Ronco

Ronco

Ronco

Sirius já estava só de cueca quando James entrou desabalado no quarto segurando o nariz, trancando a porta atrás de si e arrastando a penteadeira para bloqueá-la.

- Moony, conserta meu– AH, PELO AMOR DE DEUS! Isso é um quarto comunitário! – James usou sua mão livre para tapar os olhos ao perceber Remus e Sirius. Foi caminhando até a sua cama assim, uma mão nos olhos e a outra no nariz, e com um baque surdo bateu com o joelho na quina da cama sem querer. Ele sentou-se nela, choramingando.

- Deixe de frescura, Prongs, você já viu pior – Sirius rolou os olhos, se desenrolando de Remus e sentando-se.

James pareceu considerar por um momento, então percebeu que era verdade. Ele já tinha visto os dois em situações piores. Deu de ombros e abriu os olhos.

- Ai, que dor – ele gemeu, ainda segurando o nariz.

Remus escondeu uma risada nas costas de Sirius, mas levantou-se e pegou a varinha do criado mudo.

- Episkey – ele pronunciou assistindo o nariz de James se endireitar. – Por acaso esse nariz quebrado tem alguma coisa a ver com a penteadeira bloqueando a porta?

Antes que Potter pudesse responder, entretanto, alguém – que Remus suspeitava ser um trasgo montanhês – tentou derrubar a referida porta.

- POTTER!

Sirius sorriu todos os seus dentes.

- Vejam se não é lindo o chamado do amor! Acho que isso é o mais próximo de um convite para acasalamento que você vai conseguir de Evans, Prongs – ele observou, considerando arrastar também o guarda-roupa para proteger a porta.

- Cale a boca e me ajude! – James reclamou com a voz abafada, pois no momento estava escondido sob a cama.

- 'Tá bom... - Sirius levantou-se e usou a varinha para tirar a penteadeira do caminho. Abriu a porta.

Lily olhou o garoto de cima a baixo, notando certo volume na cueca das Guerreiras Mágicas que ele usava, antes de dar um grito e sair correndo.

- Foi embora... – Sirius falou, espiando o corredor.

- Ótimo! Agora só falta você assediar minha futura esposa, Moony! – James resmungou, se arrastando para fora da cama.

"Talvez não..." – Remus cantarolou para si mesmo enquanto procurava alguma coisa para ler.

- Que tática você usou agora, James? – Sirius estava parado no meio do quarto, parecendo não ter pressa em colocar suas roupas de volta.

- Na verdade, nenhuma. Só estava espiando pelo buraco da fechadura, mesmo.

- Ah, tá. Cadê o Worm?

- Se transformou em rato e correu para o outro lado. Deve estar se escondendo de Lily ainda. Ou virou a janta da Madame Nor-r-ra. – James falou como se estivesse comentando o tempo. - Droga, eu sabia que isso não ia dar certo.

- Do que você está falando agora? – Remus perguntou, finalmente encontrando algo que parecia promissor em sua pilha de livros: 'O que todo lobisomem inteligente deve saber'.

- Acho que eu e Peter estamos com alguns probleminhas com a vinda de Harry e os outros. – James admitiu, jogando-se contra seu travesseiro.

Sirius parecia verdadeiramente confuso. – Desculpe?

- Peter acha que os garotos têm alguma coisa contra ele e James está com medo de estragar sua chance com Evans – Remus falou. Com o silêncio que se seguiu no quarto, o lobisomem saiu de trás de seu livro. – O quê? É óbvio.

- Você me dá medo às vezes, sabia? – James comentou. – E não estou nem falando do seu probleminha peludo.

- Ô, James, que história é essa, hein? – Sirius quis saber, finalmente achando que o clima sério pedia por calças. James suspirou.

- É verdade. Peter 'tá achando que os meninos o olham meio estranho e, quer saber, eu bem que dei uma enrolada nele lá em baixo, mas também reparei nisso. Principalmente o Harry. O Worm 'tá bem chateado. Botou na cabeça que fez alguma coisa ruim pra ele.

- Ha! Tô pra ver o dia do Worm fazer uma coisa ruim pra alguém – Sirius soltou uma exclamação de pouco caso, sentando-se ao lado de James.

- Foi exatamente o que eu disse a ele – James balançou a cabeça veementemente. – O que você acha, Moony?

Remus ergueu os olhos para os outros dois e considerou a situação por um momento: - Acho que não devíamos estar falando de Peter quando ele não está aqui. Mas... acho que não faz mal dizer: Confio no Worm tanto quanto vocês.

Os três amigos sorriram timidamente um para o outro, e caíram num silêncio contemplativo. Remus, então, encarou James com a testa franzida.

- Sobre a Lily, Prongs, você já pensou em deixar as coisas correrem naturalmente?

- Hã? – James perguntou distraído.

- Sabe... Por que você não dá um tempo nas suas tentativas com a Lily? É, pense só... Todos nós sabemos que a Evans é um tanto esquentada, e não gosta de dar o braço a torcer. Quem sabe se com um gelo ela não demonstra alguma coisa?

- É, e se ela demonstrar que não quer nada comigo?

- Pelo amor de Deus, homem, ela vai casar com você!

- E se eu a obriguei? – Remus e Sirius estreitaram os olhos para James. – Ok, sem pânico. – Então... – Vocês acham que pode realmente dar certo?

- Não custa tentar, meu caro – Sirius deu de ombros. – Tenha sempre em mente que, se alguma coisa der errado, você pelo menos já pegou a ruiva em alguma realidade alternativa.

James derrubou Sirius no colchão e sentou-se em cima, tentando sufocá-lo com o travesseiro. Remus girou os olhos e voltou a meter o nariz em seu livro.

- O que vocês estavam fazendo quando cheguei, afinal? – Potter perguntou ofegante quando Sirius pediu penico. Remus ergueu uma sobrancelha para ele por cima da borda do livro. – Tá, pergunta besta.

Mas Sirius já estava sorrindo, cruzando os braços sobre o peito.

- Eu estava prestes a arrancar a cueca do Moony com os dentes.

- Credo, Sirius, sai pra lá!

- O quê? Eu falei a do Moony, não a sua. A não ser que você queira – Sirius sorriu.

Remus rosnou.

- Sem graça... – James murmurou.

- Por falar nisso, acho que o Draco Malfoy é gay.

- E de onde surgiu o assunto 'Malfoy'? – Remus perguntou, falhando em soar desinteressado.

- Do interesse do Prongs.

- Vá se ferrar! – James estava vermelho.

- Falando sério: vocês repararam no jeito afetado dele?

- Ele é tão afetado quanto você, Sirius – Remus constatou.

- Ahhh, não é, não! Eu sou gay, mas muito macho!

- Tá, mas aonde você quer chegar com isso? – James se esparramou na cama, virando de frente para os outros dois. – Que ele tem uma queda pelo meu filho ou algo assim?

- Oh, que lindo, James! 'Meu filho'. Não foi fofo, Moony?

- Que bom que você não é afetado, Padfoot – Remus se limitou a responder.

- De qualquer forma, não era no Harry que eu estava pensando – Sirius sorriu matreiro. - Acho que a doninha albina prefere os ruivos.

Ronco

Ronco

Ronco

O estômago de Ron roncou.

- 'Tô com fome! – o ruivo resmungou, esfregando a barriga. Nenhum deles tinha almoçado aquele dia.

- Cadê o Draco? – Hermione perguntou, passando os olhos pelo Salão Principal lotado de alunos famintos, mas não vendo sinal dos cabelos pálidos.

- Quem se importa? – Harry e Ron responderam ao mesmo tempo. Hermione bufou e o jantar finalmente apareceu.

A boca de Ron salivou. Por toda a mesa surgiram terrinas de ervilhas, cenouras e batatas, travessas enormes de galinha assada, costela de porco e peixe. Jarras pesadas de suco de abóbora fresquinho. Seus olhos se encheram quando ele começou a encher um prato com um pouco de tudo.

- Sabe, ele também não almoçou. Deve estar com fome – a menina insistiu, olhando agudamente para Ron.

- Azar o dele – ele respondeu simplesmente, esperando Harry lhe passar a couve de Bruxelas.

- Deve ter descido pelo ralo – Harry falou enchendo os copos de todos com suco.

- Por que um de vocês não vai chamá-lo? – sugeriu Remus, brigando com James pela travessa com o último pedaço de frango. Sirius esticou o braço calmamente, espetou o frango com o garfo e o botou no próprio prato.

- Se ele estivesse com fome já tinha descido. Ele tem pés – Ron avançou na costela de porco, mas Hermione pegou a travessa primeiro.

- Só come quando Draco estiver aqui – a grifinória empinou o nariz, colocando as costelas fora do alcance de Ron. Do outro lado da mesa, James tentava dar uma chave de braço em Sirius enquanto Remus rosnava e ameaçava morder o amigo, ainda tentando pegar o frango de volta.

Ron tentou trocar um olhar incrédulo com Harry, mas o amigo não parecia interessado em desgrudar os olhos do pai, que agora se juntava a Remus para fazer cócegas em Padfoot. O frango esquecido no prato.

Ron lançou um olhar desconfiado para Hermione. Por que ela se importava tanto com o fato de Draco não estar ali? Desde quando ela se preocupava com o bem estar do garoto? Ron sentiu aquela já conhecida fisgada na boca do estômago, e rapidamente a atribuiu à fome.

Convencendo-se de que a amiga não o deixaria em paz até que a doninha estivesse ali, ele bufou e resmungou algo ininteligível antes de caminhar para fora do Salão Principal, batendo os pés.

A fisgada não o deixou enquanto subia as escadas em direção à Torre Norte.

Ronco

Ronco

Ronco

O estômago de Draco roncou.

Ele aguçou os ouvidos para ouvir se ainda havia alguém no quarto, mas só ouviu silêncio.

Estava morrendo de fome, tomara um café da manhã apressado e não tinha almoçado naquele dia. Mas obviamente ele podia muito bem agüentar até o dia seguinte. Não queria ser tomado como algum parente esfomeado do Weasley.

Draco terminou de tirar o sabão do cabelo e fechou o registro. Estendeu a mão para pegar a toalha e percebeu que tinha se esquecido de levá-la para o banheiro. O loiro coçou o nariz, coisa que fazia quando estava irritado, e caminhou de volta para o quarto, pingando água no piso de madeira.

Ele se debruçou sobre o malão que Minerva tinha arranjado para cada um e o abriu, esperando encontrar roupas decentes.

Não havia uma peça de roupa ali. Nem uma cueca.

Antes que pudesse registrar o fato propriamente, no entanto, ele sentiu mais do que ouviu alguém entrar no quarto.

- AI, MEUS OLHOS! – Ron berrou, tapando os olhos com as mãos.

- WEASLEY! O que raio você está fazendo aqui? – Draco esganiçou, olhando em volta em busca da toalha e não a encontrando no lugar onde ela deveria estar.

- Eu vim te chamar pra jantar! Dá pra você guardar essa coisa?

- Aonde?

- Em qualquer lugar! – Ron falou, espiando por entre os dedos.

- Eu não tenho roupa!

- Como não tem roupa? Você tem roupa! Bote uma roupa!

- Elas sumiram, Weasley, ou você acha que meu hobby é andar pelado pelo dormitório? Na sua frente?

- Cadê seu malão?

- Está vazio, besta. Não me ouviu dizer que as roupas sumiram?

Ron apertou mais os olhos e esticou os braços à frente, passando a tatear o ar em busca do próprio malão. Draco rolou os olhos quando ele tropeçou na cama e abriu os olhos com o susto, só para fechá-los novamente ao dar de cara com Malfoy. O loiro cruzou os braços e esperou com ar de tédio Ron se aproximar do malão e enterrar a cabeça lá dentro, como se estivesse se escondendo.

Draco suspirou sofridamente. – Sabe, em outra ocasião eu acharia uma afronta você se recusar a olhar meu corpinho maneiro.

Ron o fuzilou com apenas um olho. - Toma – ele falou, atirando uma camiseta e uma calça para o outro.

Draco olhou para a roupa e novamente para Ron.

- Mas são roupas trouxas.

- Ande pelado, se quiser – Ron respondeu, cruzando os braços e encarando a parede atrás das camas.

- São enormes, Weasley. Só servem num trasgo do seu tamanho.

- Me dê essas roupas aqu-

- Não, não, não – Draco se abraçou às roupas, correndo de volta para o banheiro. Ron corou até as orelhas com a visão súbita da bunda de Draco.

Ele ficou ali, completamente constrangido, torcendo para ninguém vir atrás deles.

- Ande logo, estou faminto.

- Você não pensa em nada além de comida, não?

- Nada que te interesse, pelo menos.

- Por que você está aqui, afinal? Eu não preciso de babá.

- Hermione confiscou a comida até que eu arraste você lá pra baixo. Aliás, ela parecia bem incomodada com a sua ausência – Ron falou mal humorado.

Draco abriu a porta do banheiro e ficou parado no lugar. Ron arriscou uma olhada no garoto. Ele tinha ficado engraçado nas calças largas demais - que caíam por sua cintura e o obrigava a ficar dando pulinhos para colocá-la no lugar -, e na camiseta laranja dos Chudley Cannons, que o fazia parecer ainda menor.

- Seu time é uma bosta, sabia disso?

- E você está ridículo.

- Não tem um cinto, não?

- Não, só o que eu estou usando – Ron respondeu, e deixou o quarto.

- Pobre... – Draco o seguiu.

- Não sou eu quem está pedindo roupa emprestada, só dizendo.

Os dois entraram no Salão quase vazio, Ron se apressando para chegar à mesa antes que a comida desaparecesse.

Sirius olhou Draco de cima a baixo com o cenho franzido.

- O que você 'tá olhando, Black? – o garoto perguntou mal humorado. Sirius cutucou Remus nas costelas, sorrindo de lado.

- Olha, Moony, eles já estão até trocando roupas – Remus olhou por cima do ombro de Sirius para Draco e sorriu como quem sabe mais do que quer admitir.

- O que aconteceu com suas roupas, Malfoy? – James perguntou com a cara mais cínica que conseguiu, lambendo a colher de seu pudim de caramelo.

- Sumiram – Draco respondeu quase desolado.

- Jura? – James falou falsamente surpreso. Draco o encarou por dois segundos antes de estreitar os olhos para ele.

- Foi você!

- Eu? Eu o quê?

Ron ignorava completamente a conversa ao seu redor enquanto pegava uma costela de porco nas mãos e se preparava para dar uma bela mordida. Foi quando a comida dos pratos e das mesas do Salão desapareceu.

- Nãããão! – ele exclamou devastado, ainda com a costelinha na mão.

Dumbledore, que vinha caminhando pelo corredor entre as mesas da Grifinória e Lufa-Lufa na direção do Saguão de Entrada, parou ao lado de Ron e lhe deu uns tapinhas nas costas.

- Não fique assim, senhor Weasley, ainda sobrou uma costela. – Sorriu. – E o senhor está particularmente esfuziante nessa blusa, senhor Malfoy – falou, e foi embora.

Draco ficou olhando as costas do velho diretor por um momento, e então falou.

- Eu acho que ele é gay.

- Eu tenho certeza! – Sirius exclamou.

- E eu acho que ele achou 'esfuziante' no dicionário e tem como objetivo usá-la em pelo menos cinco ocasiões esta semana – Peter concluiu, cobiçando a costelinha na mão de Ron. O ruivo o olhou de rabo de olho e se afastou rapidamente para o lado, protegendo a costela.

xXx

Na manhã seguinte, Ron acordou com um chute na cabeça.

- Malfoy! – ele rosnou.

- Que é?

- Você me chutou.

- Não tenho culpa que você tenha esse cabeção. Reclame com seus pais.

- Você me chutou a noite toda!

- Não senti nada.

- Não acredito que dormi na mesma cama que você.

- Poupe os infortúnios, Weasley. Desista da cama.

- Jamais!

- Veremos.

- A cama é minha! Eu cheguei primeiro...

- Chegou nada, você trapaceou.

- Você me mordeu!

- Bela nobreza grifinória a sua... Não sei como conseguiu colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente.

Ron sentou-se, coçando os olhos. O dia ensolarado se exibia do outro lado da janela.

- Você ronca.

Agora Draco estava completamente acordado, e apoiou-se nos cotovelos. Ron ficou surpreso ao descobrir que Malfoy acordava amassado e com os cabelos bagunçados como todo mundo. Ele sempre imaginou o sonserino dormindo numa espécie de caixão imperturbável.

Não que eu gaste meu tempo imaginando como a doninha dorme, ele pensou.

- Ronco nada!

- Ronca sim – falou Hermione, saindo do banheiro. – Roncou a noite toda.

- Eu ressono, é totalmente diferente.

- Então você ressona muito alto – comentou Harry, a cabeça enterrada sob o travesseiro.

Ron riu, ganhando um olhar letal de Draco.

- Potter, que maneira ridícula é essa de dormir com o traseiro virado para cima?

- Pelo menos eu não ronco – Harry ergueu o travesseiro alguns centímetros para ver a cara irritada de Draco. Sorriu e voltou a desaparecer sob o travesseiro.

- O que nós vamos fazer hoje? – Ron bocejou, se preparando mentalmente para deixar sua confortável cama.

- Nada – Harry respondeu com a voz abafada. – Estamos de férias. – Ele acenou as duas mãos no ar, como se comemorasse.

- A gente tem que começar a pesquisa – Hermione falou como quem diz o óbvio, erguendo a cabeça do malão onde tentava encontrar o outro pé de seu tênis.

- Dumbledore não estava falando sério – Ron rolou os olhos.

- Eu vou recuperar minhas roupas – Draco avisou.

- Eu acho que quero ver minha mãe.

- Harry!

- Eu sei, Mione, eu sei. Mas eu sou apenas um primo de James, lembra? – Harry sorriu para ela.

A garota o olhou desconfiada por alguns segundos, antes de suspirar e jogar as mãos para o céu.

- Argh, desisto – resmungou. Ela pegou a cópia que Dumbledore lhe emprestara de Hogwarts, Uma História, e o botou debaixo do braço, ensaiando uma saída teatral. – Se precisarem de mim, estarei na-

- Biblioteca – os três meninos completaram em uníssono.

Ela estreitou os olhos para eles antes de deixar o quarto a pisadas fortes.

- Maluca – disse Ron.

- Doida de pedra – falou Draco.

- Só eu posso falar assim da Mione – Ron apontou o dedo no nariz de Draco.

Draco revirou os olhos, levantou-se, pegou a camiseta do Chudley Cannons e saiu dando pulinhos na direção do banheiro, arrumando as calças no lugar. Ron o observou sair com um sorriso matreiro.

- Na verdade, Minerva me emprestou três cintos – ele falou em voz baixa, só para Harry ouvir.

Potter soltou uma risada pelo nariz e finalmente saiu da toca. - E você, vai fazer o que hoje? – perguntou a Ron, jogando as pernas para o lado da cama.

Ron piscou, ponderando sobre suas opções.

- Acho que vou voltar a dormir – ele respondeu, largou-se novamente na cama e soltou um comprido ronco.

Harry o encarou de boca aberta por um segundo.

- Ron?

- O que é?

- Só conferindo.

xXx

Draco Malfoy sentou-se sozinho à beira do lago de Hogwarts, entediadamente observando a lula gigante passar preguiçosa pela superfície da água. Sirius Black também estava passando por ali, e viu o garoto sentado sozinho, olhando para o nada. Ele deu uma olhada em volta e se aproximou.

- Ainda não recuperou suas roupas? – perguntou.

Draco apenas deu de ombros, o queixo apoiado numa das mãos. Sirius largou-se ao lado dele, prontamente se esparramando na grama. Malfoy lhe dispensou uma olhada fria.

- Te convidei?

- E eu lá preciso de convite? Somos família!

Draco não reagiu. O encarou sem expressão por quase um minuto inteiro.

Sirius sorriu superior.

- Cissa já estava com o casamento marcado com o babaca do seu pai quando eles saíram daqui. – Sirius ignorou o olhar que Draco lhe deu pela ofensa a seu pai. – E ela não se cansava de se gabar que o primogênito se chamaria Draco.

- Do que você está falando? Minha mãe nunca teve amizade com um -

- Traidor do sangue, filho da discórdia como eu, blábláblá... Arre, como vocês são cansativos. Sempre a mesma tagarelice. – Ao ver a expressão perplexa de Draco, ele sorriu torto. – Mas você tem razão, nunca fomos amigos, muito menos próximos, mas isso não quer dizer que podíamos evitar a presença um do outro nos adoráveis almoços de família dos Black. De qualquer forma, sua tia Andrômeda é a única Black com a cabeça no lugar.

Draco queria muitas coisas no momento. Queria um cinto, queria gritar que não tinha nenhuma tia amante de trouxa, queria que Black fosse para o inferno, queria se lembrar como começava a letra daquela música d'As Esquisitonas sobre cada peixe em seu aquário – estava na ponta da língua! – e queria, sobretudo, saber onde Weasley tinha se enfiado. Só para ter com quem implicar, é claro.

Draco ignorou esse último pensamento desagradável e sem sentido, e suspirou. Ele estava acostumado a ter tudo o que queria numa realidade alternativa àquela. Queria sua casa!

Quando Sirius pareceu se acomodar melhor na grama, com os braços apoiando sua nuca, Draco se ofendeu.

- Não tem nada melhor pra fazer, não? – ele perguntou por fim, olhando com desprezo a forma como o outro não se importava com a terra que grudava em seu cabelo.

- Não, o Remus 'tá estudando. Ele não me dá atenção quando está estudando.

As sobrancelhas do sonserino se fundiram com sua franja em perplexidade.

- Mas hoje é sábado!

- Estamos falando do Remus, cara.

Draco considerou que o lobisomem que ele conhecera realmente parecia um tipo menos cabeludo de Hermione Granger, então até que aquilo fazia um pouco de sentido. Continuou.

- E cadê seus outros comparsas?

- Ocupados. E os seus?

- Eles não são meus comparsas – respondeu irritado. - Nem meus amigos.

Sirius sorriu como quem tinha esperado por aquele momento na conversa durante todo o tempo, e sem rodeios foi logo soltando:

- Então... Posso entender que são mais do que amigos?

Draco soltou uma exclamação de profunda indignação no fundo da garganta. Era impressionante a capacidade que Black praticamente monopolizava em falar uma abobrinha após a outra. Como se ele fosse...!

- Black, eu não sou idiota... Já entendi o que você anda insinuando por aí com essas suas... frases maliciosas. E vou deixar claro que você está redondamente enganado. É repulsivo que você considere a possibilidade de eu pensar no Weasley dessa forma. É impossível! Eu nem sou gay!

- Mas eu nem falei de Weasley nenhum. Você que acabou de se entregar – o sorriso de Sirius facilmente encontrava suas orelhas, agora.

Draco Malfoy, no entanto, abria e fechava a boca com a articulação de um verme cego.

Ele não conseguia se decidir se estava mais irritado com Sirius, por ter armado uma cilada para ele, ou se com ele mesmo, por ter mencionado o nome do ogro sardento sem nenhum bom motivo.

Porque era óbvio que ele só tinha falado o nome por impulso.

Ele nem tinha motivos para ficar dizendo o nome de Ron assim, por aí.

Sirius suspirou cansado só em assistir à sessão infindável de flexões que o maxilar de Draco estava fazendo, sem, no entanto, emitir som algum.

Como ele era um camarada, decidiu ajudar.

- Pobre platinado, você está na tortuosa fase da negação... Eu sempre a reconheço quando me deparo com uma.

Draco bufou. Ele fazia muito aquilo quando estava perto de Sirius.

- Black, primeiro: não é porque você usa vestido e é extremamente afeminado que todo o mundo é também. E segundo: Eu odeio o Weasley! Sentiu a entonação?

- Entre o amor e o ódio existe uma linha tênue... – Sirius recitou solene.

- Que linha, o quê! Entre o Weasley e eu existe um precipício cheio de explosivins furiosos no fundo! Quer saber, não sei nem porque estou lhe dando alguma satisfação. Por mim, você pode pensar o que quiser – com isso, Draco cruzou os braços e encarou determinado um ponto qualquer no horizonte.

Sirius não era um homem de desistir das coisas, contudo.

- Pode até ser, mas eu sei que você quer a opinião de alguém. Acredite, doninha, eu conheço os sinais.

Draco não podia acreditar que estava tendo aquela conversa com o cara que tinha lhe lambido em público. Ele verbalizou esse pensamento, que só fez Sirius soltar sua costumeira risada parecida com um latido.

Draco, então, resolveu tornar aquilo o mais racional possível (possível no sentido de "o mais racional que uma conversa com Sirius Black permitia").

- Olha aqui, você não pode estar levando essa história a sério. Quero dizer, você conhece a gente há um dia e não sabe metade do que se passa no nosso tempo. A única coisa que tenho vontade de fazer quando vejo o Fuinha, é pular no pescoço dele e estrangulá-lo...

Sirius ergueu uma sobrancelha satisfeita.

- Contato físico: checa.

Draco franziu o cenho.

- Então eu lhe lanço olhares que expressem todo o meu desprezo pelo conjunto ridículo que ele é: dos tornozelos a mostra pelas roupas de segunda mão curtas demais, àquele cabelo vermelho detestável.

- Troca de olhares: checa.

- Então, eu o ofendo e à família dele com as coisas mais criativas que minha mente consegue imaginar. – Draco tinha um brilho insano nos olhos, enquanto tentava desesperadamente provar seu ponto para si próprio. - Sério, eu consigo passar vários minutos rimando coisas como 'Fuinha', 'Pobre' e 'Sombra do Potter' com várias ofensas para serem usadas no dia seguinte.

- Necessidade de comunicação e desejo de encontrar no café da manhã: checa e checa.

- E sempre provo o quão superior eu sou, e passo um bom tempo imaginando vários cenários de tortura para ele... e...

- Vontade de se exibir, sonhar acordado e mais contato físico: checa, checa e checa.

Draco parou de contar nos dedos as várias formas de que ele era capaz de fazer Ron Weasley infeliz.

- Espera, espera, espera. Não entendi o 'mais contato físico'.

- BDSM.

O garoto loiro fez um som de passarinho raivoso antes de brigar com suas calças para se levantar. Ele começou a se afastar de Sirius, pulando, mas não por muito tempo.

- Ei, aonde você vai? – o grifinório chamou.

- Não te interessa.

- Posso ir junto?

- Pra quê? – Draco nem se deu ao trabalho de olhar para trás.

- Já não te disse que o Remus tá estudando?

- E você nasceu grudado nele, por acaso?

- Nascer eu não nasci, mas não posso dizer que de vez em quando... - Sirius estalou a língua, inocente.

Draco Malfoy parou de saltar para longe. Girou no próprio eixo.

- O que você quer dizer com isso?

Sirius piscou quase inocentemente para ele.

- Se você não sabe, eu que não vou te explicar.

Draco voltou pulando para o lado de Sirius.

- Conta – ele falou como costumava falar com os elfos domésticos de sua mãe.

Sirius talvez não tenha reparado nisso, mas se reparou escolheu lhe presentear com o sorriso torto de quem sabe mais.

- Contar o quê? Pensei que você tinha dito que eu era óbvio.

O queixo de Draco caiu como o de um personagem de desenho animado.

- Mentira! – ele largou-se novamente na grama, finalmente pouco se importando para a terra grudando na calça de Weasley. Se havia alguém no mundo digno de ter a total atenção de Draco, esse alguém provavelmente era o portador de alguma fofoca quente.

- Não, é verdade – o maroto respondeu com um sorriso ainda maior. Qualquer um poderia jurar que os cantos de seus lábios se encontrariam, a qualquer momento, em algum ponto atrás de sua cabeça.

- Jura?

- Juro.

- Então quer dizer que vocês...

- Sim.

- Você e Lupin?

- Você é meio lento, hein?

- Eu sou um detalhista. Lento é o Weasley.

- E lá vamos nós...

- Não disfarce, Black, me conte tudo! Em detalhes! Sórdidos ou não. Você 'tá pegando o professor Lupin?

- Na verdade, geralmente é o contrário, mas de um modo geral... Sim, se responde à sua pergunta.

- Rapaz! – Draco assoviou.

- É o que eu sempre digo ao Moony... – Sirius murmurou com um olhar sonhador.

Draco ainda estava apoplético. Ele permaneceu encarando um risonho Sirius com a boca ligeiramente aberta. Até perceber e fechá-la rapidamente.

- Er, e como... – pigarreou. - Como você soube...?

- Que eu gosto de meninos? - Sirius tentou adivinhar quando Draco deixou a frase no ar.

- Não! Isso é óbvio! – Sirius lhe deu uma careta, como quem diz que não tinha lhe parecido tão óbvio assim até o dia em que ele ouvira Chery, a bruxa disco, pela primeira vez na rádio. - Como você soube... sobre Lupin, quero dizer...

O animago achou graça na pergunta, e soltou uma pequena risada-latido. Ele ficou encarando o lago com um sorriso tímido, bagunçando o cabelo com as mãos de um jeito que fez Draco lembrar – com desgosto – de como Weasley tinha a mesma mania estúpida.

- Cara, essas coisas a gente não explica – Sirius respondeu simplesmente, com um dar de ombros.

Draco fez um som de descrença – Que coisa mais clichê, Black!

- Mas é sério, você... simplesmente sabe.

- Ok, mas e o resto? Digo, a sua família... seus amigos? O que eles acham disso tudo?

Num primeiro momento, pareceu que Sirius não tinha ouvido a pergunta, ou não se incomodaria em responder. Mas estão Black estava anormalmente sério, olhando diretamente para Draco, e o sonserino não tinha muita certeza se iria gostar do que estava prestes a ouvir.

- Você deve saber que tem um louco lá fora, platinado. A opinião dos outros dificilmente me importa, e você vai descobrir que importa menos quando eu penso que talvez não esteja vivo amanhã. A gente se gosta, a gente fica junto. Se Remus fosse uma planta eu o levava ao baile, e ninguém teria coisa alguma a ver com isso. Deveria funcionar assim pra todo o mundo. Mas são poucas as pessoas que agem assim. Nós só estamos vivendo o nosso tempo, fazendo o que queremos hoje. E eu não falo isso porque estamos em guerra, mas principalmente porque estamos em guerra eu percebi que poucas das nossas vontades têm espaço numa situação dessas. E isso é insano!

Draco não disse uma palavra. Ele ficou ali, considerando tudo o que Sirius dissera. Era quase surreal para ele como duas pessoas tão diferentes como ele e Sirius, podiam viver situações tão parecidas em tempos distintos. Draco Malfoy, educado como todos dentro de um controle social, onde as ações são recriminadas por pessoas pelas quais você não dá a mínima. Alguns, como Sirius e Remus, se rebelavam contra essa condição. Poderiam até ser (e seriam) recriminados, mas estavam vivendo. Qual fora a última vez que Draco fizera algo que sentia vontade de fazer? Qual foi a vez que escapara do controle e enlouquecera?

Draco imaginou que houvesse muito esforço nesse tipo de atitude, e um bocado de coragem. E Draco Malfoy era conhecido pela sua covardia quase autônoma.

Ele também imaginou como seria legal fazer tudo o que lhe desse na telha, mas momentos depois ele trombaria com Ron e uma nova discussão jogaria esse pensamento para a escuridão do seu subconsciente.

xXx

Não foi Draco, no entanto, quem encontrou Ron primeiro.

O Weasley em questão estava preguiçosamente espalhado na parte gramada do jardim que levava à cabana de Hagrid. O sol de março e a brisa fresca da primavera contrastavam bruscamente com o ar gelado e a perspectiva de neve que eles haviam deixado no futuro.

Ron decidiu que o sol e a brisa o convidavam para uma bela manhã de nada-para-fazer, então se ajeitou melhor na grama, sorrindo bobamente.

Até uma sombra bloquear sua fonte de bronzeamento natural.

- Boa tarde, senhor Weasley.

Ron abriu apenas um olho e espiou. Então viu Dumbledore.

- Diretor! – ele exclamou, sentando-se imediatamente.

- Tirando uma folga do trabalho, meu jovem?

- Trabalho de quê? – o menino olhou o professor assustado. Ele estava se perguntando se Dumbledore ainda se lembrava que Ron era Ron, ou se estava caducando de vez.

Dumbledore parou de sorrir e olhou para Ron por cima de seu oclinhos de meia lua. E Ron teve o péssimo pressentimento de que o fundo de seu cérebro tinha acabado de passar por um processo de escaneamento.

- Oh... Oh! O trabalho, claro! Como poderia esquecer do trabalho! O trabalho está perfeito, senhor. Perfeitamente... trabalhoso... – Ron franziu o cenho para si mesmo, encolhendo sob o olhar de Dumbledore.

O diretor lhe dispensou uma olhada rápida, porém penetrante, antes de voltar a sorrir.

- Que bom. Aposto que um pedido de ajuda aos seus amigos não faria nada mal.

- Hum... é... aposto... – Ron ainda estava tentando aceitar o fato de que não teria férias extras.

- O jovem Malfoy me parece ser a pessoa certa para lhe ajudar com Salazar; e você, é claro, poderia retribuir com algumas das aventuras grifinórias de Godric. Seria uma excelente troca de experiências – Albus parecia deliciado com a expressão de horror no rosto de Ron. - Agora, se me dá licença, meu jovem, tenho uma saborosa xícara de chá me esperando na casa de Hagrid – o diretor ajeitou os óculos na ponte do nariz e saiu assoviando.

Ron ainda continuou no chão por mais alguns minutos, olhando embasbacado para as costas de Dumbledore, que se afastava na direção da cabana de Hagrid. Ele não viu quando Draco se desviou de seu caminho original e se aproximou.

- Dormindo em pé, Weasley? Ou a cara de babaca é natural, mesmo? – o sonserino provocou. Para Draco, azucrinar Ron era sempre uma parte positiva de seus dias.

Ron pulou no lugar ao ouvir a voz arrastada a suas costas. Virou-se, espumando.

- Se esgueirando por aí, Malfoy? Sempre a cobra traiçoeira, você.

- E você, sempre a toupeira lerda.

- Tá querendo o quê? – o grifinório perguntou.

- Sua morte. Lenta e dolorosa. Mas enquanto isso, me contento em te chatear – Draco cruzou os braços e sorriu falsamente.

Ron girou os olhos para o garoto, grunhiu algo como "Devo ter cuspido no chapéu de Merlin e dançado a polca com ele", e decidiu que era cedo demais para estar se estressando com doninhas. Ele se ergueu do chão e espanou a sujeira de sua jeans, começando a se afastar na direção do castelo.

- Ei! Espera aí, fuinha! Pra onde você vai?

- Passear.

- Passear pra onde?

- Pra longe - e com isso, Ron começou a subir a encosta sem nem reparar na cara de abandono do outro.

Draco coçou o nariz, encarando as costas de Ron por três segundos. Então mentalmente mandou tudo para o inferno e seguiu pelo mesmo caminho.

Weasley demorou algum tempo para notar o sonserino andando em sua cola.

- 'Tá fazendo o quê? – ele perguntou ao olhar por cima do ombro.

- Fazendo o que, o quê?

- Você está me seguindo?

- É óbvio que não.

- Pois está parecendo.

- Não se ache especial, Weasley. Nunca que eu perderia o meu tempo te seguindo.

- Hum, o que você está fazendo, então?

- Andando atrás de você.

-... Então... você está me seguindo...?

- É claro que não.

- Argh! Malfoy, você não tem nada melhor para fazer, não? – Ron finalmente parou de andar; as mãos na cintura numa desengonçada imitação da senhora Weasley.

- Melhor do que te fazer querer arrancar os cabelos? Não. – Draco sorriu, e Ron se deu conta de que ele nunca vira Malfoy soar tão sincero antes.

Aquilo era uma novidade, já que ele estava acostumado com o sorriso torto e desagradável que Draco dispensava a todos. Ron considerou que talvez aquilo fosse o "jeito Malfoy" de propor uma trégua pelo tempo indeterminado em que seriam obrigados a conviver.

Então, Ron se imaginou num cenário onde ele e Draco viviam em plena harmonia e músicas New Age ao fundo, quando um trator de guerra passou por cima de sua fantasia e ele acordou.

- Vá se ferrar, Malfoy – ele falou em voz baixa, pegando um corredor aleatório que ele logo descobriu ser o da biblioteca. Ele quase nunca passava por ali.

- Você sabe que fingir que faço parte da decoração não vai adiantar, não sabe? – Draco ia falando quando seguiu Ron para dentro da biblioteca. O ruivo logo avistou Hermione numa das mesas e caminhou diretamente até ela. – Como diria o mago Raul: "Eu sou a mosca da sopa" – ele completou, pomposo.

Hermione ergueu olhos esbugalhados de seu livro – Você conhece o Raul, Malfoy?

- 'Tá brincando? Ele foi um dos maiores filósofos da bruxandade!

- Perdão? O que... ? Mas... – Hermione parecia embasbacada, o que fez Ron erguer duas sobrancelhas confusas. – De que Raul você está falando?

- Ora, Mione, do Raul Sei-

- Ah, aí estão vocês! – Harry exclamou alto quando ia passando em frente à biblioteca. Madame Pince se assustou e derrubou um pesado livro no pé, o que a fez olhar irritada para Harry. – Uh, foi mal, senhora. – Ele voltou-se para os três garotos. – Vocês não vão acreditar!

- Que você é um babaca ocludo de testa rachada? Acredito sim – Draco prontamente respondeu.

Harry mandou Draco fazer algo que rendeu um "HARRY!" horrorizado de Hermione, um acesso de riso de Ron e um "Shhhhhhhhhhhhh" inflamado de Madame Pince.

- Era verdade... Sabiam? – Potter estava incrédulo. - O trabalho. A pesquisa sobre os fundadores. A gente realmente tem de fazer, dá pra acreditar? Acabei de esbarrar em Dumbledore!

- Não mesmo! – Draco revoltou-se.

- Velho caduco, o Dumbledore, é o que eu digo... – Ron resmungou.

- É o que eu venho dizendo há anos – Draco concordou veementemente com o Weasley.

- Não sei por que o histerismo, eu disse a vocês.

- Hermione, dá um tempo.

- Mas eu disse!

- Mas que chato! Eu não quero ler "Hogwarts, uma história" – Harry lamentou-se, batendo repetidas vezes a testa contra o tampo da mesa.

- Se você já tivesse lido, não precisaria ler agora... Só dizendo... – Hermione completou quando Harry lhe dirigiu um olhar assassino.

Draco Malfoy, então, se aprumou na cadeira, subitamente animado.

- Nossa! Preciso contar a última!

- Última de quê? – Harry o olhou estranhamente.

- Última fofoca. Mas não se acostumem. Só conto pra vocês porque não tem mais ninguém aqui a quem contar.

Um silêncio breve envolveu a mesa dos quatro garotos, enquanto Harry, Ron e Hermione encaravam Draco como se um terceiro olho tivesse brotado bem no meio de sua testa. O silêncio foi quebrado pelo ronco de risadas do trio.

Malfoy cruzou os braços e fechou a cara, assim como Madame Pince.

- Vou ter de persuadir vocês quatro para fora do recinto? – ela elevou o tom de voz, acenando ameaçadoramente a varinha no ar.

- Me desculpe, Madame Pince, foi a última vez – Hermione secou algumas lágrimas e Harry e Ron esconderam as cabeças nos braços para abafar o som das risadas. – Ok, desculpe, Malfoy. Conte a sua fofoca.

- Não quero mais contar – o loiro tinha se ofendido.

- Ah, qual é! – Ron ainda tentou, mas o sonserino se recusou a compartilhar seus novos conhecimentos com o trio de babuínos-hienas.

Quando os três grifinórios finalmente se acalmaram eles deram de ombros, ainda risonhos. Draco observou o trasgo montanhês do Weasley levantar-se e caminhar até uma das estantes, onde pegou o "Uma história". Ron voltou para a mesa, abriu o livro e passou o indicador pelo índice. Draco ainda assistiu os outros três voltarem suas atenções para suas atividades (Harry, que não fazia nada, ficou encarando o teto enquanto estalava a língua), parecendo completamente alheios a sua presença.

Ele suspirou.

- Tá bom, eu conto – falou como se estivesse sendo obrigado a se submeter a um doloroso e sofrível sacrifício. – Só porque vocês insistem.

Ele chegou a cadeira um pouco mais para perto da mesa e esperou pacientemente que os três pares de olhos estivessem nele. Ron massageou a ponte do nariz e Hermione colocou a pena de lado com visível esforço.

- Então Malfoy, qual era a "última"? – Harry perguntou visivelmente desinteressado.

O loiro sorriu como um tubarão, como se guardasse a verdade mais valiosa por trás de seus dentes. Ele olhou brevemente para cada um, aumentando o suspense do momento, antes de despejar.

- Eu descobri... que o Black e o lobisomem são um casal.

- Sério? – Hermione deu um gritinho, colocando as mãos espalmadas nas bochechas e sorrindo. – Foi um espirro, Madame Pince.

Ron, que estivera relendo a primeira linha de "Vida e Obra de Salazar Slytherin", ergueu a cabeça lentamente, fixando o olhar em Harry à sua frente.

- Como?

- Gays, Weasley. Black e Lupin são gays. Um casal gay.

- Eles são gays? – Ron arregalou os olhos.

- São – Harry respondeu, e quando todos os olhares estavam sobre si, deu de ombros. – O quê? Ele é meu padrinho – falou, roubando o livro de Ron e procurando o capítulo de Rowena Ravenclaw.

Hermione estava quase dando pulinhos na cadeira.

- Você sabia? – ela perguntou encantada.

- O professor Lupin é gay? – Ron repetiu, abobado.

- Sim, Weasley, afinal, qual o seu problema com isso? – Draco parecia um pouco ofendido.

- Não tenho problema algum, eu só nunca pensei que... O professor Lupin... Bem, Sirius até que é meio óbvio. – Todos concordaram. - É só que o professor é meio 'Hn'...

- Meio o quê? – os outros três perguntaram.

- Meio 'Hn', sabe? Grande, quietão... Às vezes imagino que ele pode tirar uma peixeira do bolso a qualquer momento – Ron comentou assustado.

- Não seja ridículo, Weasley. Quem anda com uma peixeira no bolso?

- Hermione anda com um vira-tempo quebrado no pescoço, e aí?

- Isso porque ela é maluca!

- Já disse que só eu posso chamá-la assim.

- Urgh, não comecem vocês dois. Harry, não acredito que você não tenha me contado que Sirius e Remus costumavam sair juntos. Como você descobriu isso, Malfoy?

Draco sorriu, esticou as pernas cruzando-as sobre a mesa e inclinou o corpo para trás, sustentando-se nas pernas traseiras da cadeira. Ele estava bem relaxado.

- Digamos que eu precisei apenas de um pouco de persuasão.

- Persuasão? Com o Sirius? – Harry fez um som de desdém e revirou os olhos para os amigos. – Sirius nunca precisou de persuasão para se exibir.

- Ok, ele me contou de boa vontade, e daí? A fofoca ainda é válida.

- Nossa, que emocionante! Em pensar em tudo o que aconteceu depois com o Remus e o Sirius... Isso daria uma história...

Mas ninguém teve tempo de perguntar a Hermione o que ela quisera dizer com aquilo. Madame Pince soltara um grito de horror tão profundo que fez os quatro pularem nas cadeiras.

- O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO COM OS PÉS EM CIMA DA MINHA MESA, SEU MOLEQUE!

- Droga! – Ron exclamou quando o primeiro livro acertou sua cabeça. – SEBO NAS CANELAS!

Harry, Hermione e Draco não precisaram de segunda ordem quando a Coleção "O Guia Completo da Magia para Principiantes" atirou-se contra eles com a evidente intenção de arrancar uma orelha ou duas pelo caminho.

xXx

Enquanto isso, no dormitório do sétimo ano da Grifinória, James Potter cantava animado:

- Vamos lá, comigo! A arvre tem gaioooooooooooo... O gaio tem ninhooooooooooo... O ninho tem ovo, o ovo tem gema, a gema é 'marelaaaaaaaaaaaaa...

James estava mais hiperativo do que nunca, e como Sirius não estava em nenhum lugar a vista, ele decidira ocupar-se mudando a disposição dos móveis do quarto. Sem varinha. Remus e Peter, que também estavam no cômodo, sabiam que toda essa alegria só podia ser atribuída a uma monitora ruiva. Para evitar que suas próximas horas fossem cheias de "Vocês já repararam em como o cabelo dela ondula quando o tempo está úmido?" ou "Vocês acham roxo uma cor muito formal para um casamento? Eu gosto de roxo", ou então, "Já contei como Harry vai se chamar?", os dois marotos estavam decididos a ignorar a presença de James: Remus com o nariz enfiado em um livro, Peter jogando xadrez bruxo contra ele mesmo.

Foi quando James empurrava alegremente seus pertences para lá e para cá, que Sirius entrou praticamente saltitando no dormitório. Ele atirou-se na cama ao lado de Wormtail, derrubando as peças que o amigo passara o último minuto centralizando em seus respectivos quadrados.

- Vocês nunca vão advinhar a última! - Black anunciou para o quarto.

- Snape fez plástica no nariz? – Remus tentou.

- Oh, que maldoso, Lupin - Peter sorriu afetado e apoiou-se em um cotovelo. - Mas não acho que Pad estaria tão contente se o Seboso tivesse tirado algumas polegadas da nareba. A vida não teria mais a mesma graça. Hum... deixe eu ver... Já sei! A poção para crescer peitos que o Prongs derramou no suco do Kensington finalmente funcionou.

- Nah! Eu disse que vocês nunca iam advinhar – então, Sirius estava sorrindo seu típico sorriso de gato da Alice. - Eu estava batendo um papo com a doninha albina lá fora e sabe o que ele me contou?

- Que perdeu o horário da manicure?

- Que laranja não te favorece?

- Não, seus bestas! Ele me confessou que é gay!

- Ahhh, esse era meu segundo palpite.

- Ahan. Tão óbvio! Cavalo na E4.

- Sim, eu sei. Mas a questão é que ele me confidenciou que está perdidamente apaixonado pelo ruivo, mas não sabe o que fazer. Vocês não acham isso triste?

Remus ergueu uma sobrancelha cética para Sirius.

- Draco te disse isso? – perguntou.

Sirius titubeou.

- Não com essas palavras...

- Sirius...

- Mas está tudo nas entrelinhas, gente! Sério! - o grifinório acrescentou quando Peter e Remus o encararam como se ele fosse maluco. Peter foi o primeiro a se recuperar.

- Okeey... Se não levarmos em conta os apelidos carinhosos que eles trocam e que o passatempo favorito do Ron é caçar o Draco... Bem, acho que Sirius pode estar certo?

- Worm! Não acredito que você caiu nessa! – Remus falou indignado.

- Ah, qualé! Você também odiava o Sirius dois anos atrás.

- E com razão! - o lobisomem rosnou.

- Nada de violência com o bando, Moony – Sirius sacudiu um dedo sabido para Remus. - E eu já te disse mil vezes: a gente não queria sangue.

- Isso é verdade - Peter concordou com vigor. - Nossa única intenção era assustar o Seboso ao ponto da alma dele sair gritando do corpo.

Remus estreitou os olhos para os dois, mas não replicou.

- Então, continuo achando que devíamos fazer alguma coisa. Aposto que o Prongs concordaria comigo. - E foi então que os três Marotos deram, enfim, pelo silêncio do amigo veado.

- Prongs? - Sirius chamou, virando-se na direção de onde tinha visto James pela última vez.

James não mais empurrava móveis e tão pouco cantava 'A arvre tem gaio'. O garoto estava sentado à escrivaninha mais próxima, inclinado sobre um longo pedaço de pergaminho, o queixo apoiado em uma das mãos enquanto a outra girava preguiçosamente uma pena de escrever por entre seus dedos.

Sirius levantou-se sob os olhares curiosos de Remus e Peter e foi se prostar às costas de James, para espiar o que tanto roubava a atenção do Maroto.

Um pergaminho em branco.

- 'Tá fazendo o que, Prongs? Lição?

James pareceu assustado ao ouvir a voz de Sirius. Então o olhou como se ele fosse maluco.

- É claro que não. Pergunta besta, Sirius – James entortou o nariz para a folha e o amassou como se ela tivesse acabado de lhe insultar. Atirou a bola de pergaminho para algum lugar do quarto e pegou um novo de uma pilha à sua frente. – Estou escrevendo uma carta.

- Sua mãe? Ela está bem? – O senhor e a senhora Potter já eram bastante idosos.

- Mamãe está ótima. Não é uma carta para casa, é uma carta de amor.

Sirius, Peter e Remus encararam a nuca de James por alguns segundos. Então caíram na gargalhada.

- Qual é a graça? – James perguntou, girando na cadeira para ver seus três melhores amigos se divertindo às suas custas (Remus tinha até mesmo empurrado o livro para o lado!).

- É que foi tão bonitinho... – Sirius comentou por entre as risadas. – "Uma carta de amor..."

- Ainda não entendi a piada.

- Oh, Prongs, não liga para estes dois babacas – Peter falou, sorrindo gentilmente. – Aposto que agora sim a Evans aceita sair com você.

Os outros dois Marotos riram mais fortemente depois disso. James fez uma careta para os três e voltou-se emburrado para seu pergaminho, uma mão apoiando o rosto enquanto a outra rabiscava a linha solitária que tinha escrito.

"Meu chuchuzinho...".


Notas: Oh, gente! Estou feliz por vocês acompanharem a fic. É importante porque, além de ser uma coisa que gosto de fazer, é para alguém especial. ^^

Este é o cap que mais gosto de ter feito até agora. Ficou ENORME, não acabava nunca. Espero que tenha sido bom pra vocês também XD

Talvez o próximo capítulo demore um pouco mais que esse para sair (perdi o arquivo para um vírus no pen drive, shame on me u.u). Mas sai, ou não me chamo Margot! u.ú

Beijosmeliga!