Only Time

Capítulo 12 - Tenho fé em você

Parte 2 – E tudo parece perdido

Rony há muito desistira de reclamar. Não porque se conformara com a situação, e sim na esperança de que Hermione largasse sua orelha. Quem sabe assim um dia sua orelha voltasse à cor, formato e sensibilidade habituais.

-Aqui estamos – constatou Gina ao chegarem na recepção – Mas onde eles estão? – inquiriu confusa ao ler a enorme placa que constava os andares e respectivas alas do hospital.

-Não foi Envenenamento por planta, nem Ferimento causado por bicho, tampouco um Vírus Mágico. Então com certeza, eles não estão nem no primeiro, nem no segundo, e conseqüentemente no terceiro piso – ponderou Mione, ao ler a placa, largando assim da orelha do amigo – Se eles não acordaram, então obviamente também não estão no Salão de Chá. Só resta o térreo com Acidentes com artefatos e o quarto andar com Danos causados por feitiços – completou, satisfeita com sua lógica – Não foi tão difícil a... – começou Hermione, parando ao ver que seus amigos haviam a abandonado, espumou de raiva, e pôs-se a procurar o quarto de Draco.

Os dois ruivos caminhavam com passos fortes pelos corredores, bisbilhotando pela portas entreabertas à procura de garota de lindos cabelos prateados.

Não demorou muito para encontrarem. Era um dos únicos quartos individuais. Espaçoso e com uma mobília um tanto quanto diferenciada, um pouco mais aconchegante que as dos outros quartos. Um pequeno luxo que até mesmo uma Malfoy inconsciente dispunha.

Os olhos de Gina encheram-se de lágrimas assim que ela avistou a triste figura de Draco na cama. Até mesmo Rony não conseguia ficar alheio à imagem perante seus olhos.

Deitada, com os olhos levemente entreabertos cobertos por uma grossa camada de uma espécie de pomada – provavelmente para evitar que suas vistas ressecassem –, os cabelos um tanto quanto emaranhados displicentemente jogados no travesseiro, e os hematomas que cobriam seu rosto, pescoço e braços – as únicas partes não ocultas por suas vestes ou roupas de cama.

Hermione abriu a porta do quarto com violência. Como Rony ousara largá-la falando sozinha? E Gina então? A garota de cabelos revoltos realmente estava irritadíssima. Porém, ao ver a expressão dos dois, sua fúria acalmou, e quando finalmente olhou na direção da cama, todos os pensamentos fúteis com os quais se preocupara nos últimos instantes evaporaram de sua mente, ao mesmo tempo que seus olhos marejavam e seu peito se contraía dolorosamente.

Ela observava a garota na cama. As marcas em seu corpo. Pareciam marcas de mãos, dedos pesados e brutais.

Hermione se aproximou da cabeceira do leito e, um pouco hesitante, acariciou os cabelos da amada de seu amigo. Não era hipócrita a ponto de esquecer todos os insultos que trocara com Draco desde o primeiro ano em Hogwarts. Mas não podia negar que realmente se afeiçoara àquela garota tímida, irreverente e que tinha um senso de humor extremamente duvidoso. Afinal, não tinha como não se apegar. Somente pessoas realmente intransigentes, como Rony, não conseguiam ver que por trás daquela imagem de esnobe e fútil, escondia-se uma menina encantadora, uma bonequinha de porcelana, como sua mãe costuma dizer ao se referir a garotinhas meigas.

A garota de cabelos volumosos observava Draco, com os lábios um pouco azulados, respirar com um pouco de dificuldade.

-Uma boneca quebrada – pensou amargurada, fechando os olhos com força ao se afastar da cama.

A sensação de culpa em Rony aumentou drasticamente ao ver a amiga se aproximar com uma expressão desolada, e sem esperar mais nem um minuto, ele se aproximou de Draco e começou sua confissão.

O vento soprava violentamente na mata alta mal cuidada assustando a pequena garota que tentava abrir caminho com suas pequenas mãos, o que era um tanto quanto difícil, uma vez que a lua estava encoberta pelas inúmeras nuvens, bloqueando a única fonte de luz naquele campo desconhecido.

As lágrimas corriam pelo seu rosto delicado, enquanto seu queixo tremia incontrolavelmente. Estava cansada, e com inúmeros hematomas pelo corpo. Havia sangue nas suas vestes rasgadas, e sentia muito frio. Mas o que mais aterrorizava a pequena garota, de cabelos platinados e enormes olhos azuis acinzentados, era o a fato de que não tinha nem sinais de seus pais, tio ou irmã. Não havia nada ali além do barulho do vento e da vegetação dali, e de algo mais. Algo que ela não conseguia nomear ou reconhecer.

A garota, que aparentava não ter mais de quatro anos, tentou apurar os ouvidos na esperança de que o tal barulho lhe indicasse o caminho de volta. Foi quando ela identificou o barulho como sendo palavras. Mas ela não conseguia ouvir claramente. Eram só sons embolados, baixos demais.

Assustada, ela correu na direção oposta aos sons, aos prantos, chamando pelos pais.

Rony no começo achara difícil a tarefa de confessar seus "pecados" diante de seu...sua arqui-inimiga. Porém, após os constrangedores minutos iniciais, Rony sentia-se relaxado, e pela primeira vez teve uma conversa civilizada com um Malfoy.

-Um Malfoy bom é um Malfoy inconsciente – comentou mais para si mesmo, com um enorme sorriso no rosto, ao sentir o peso da culpa retirado de suas costas.

Porém, ao reparar o silêncio na sala, ele abriu os olhos e viu Gina, pálida com uma cera, olhando fixamente na direção do leito, enquanto Hermione segurava o pulso da garota que jazia lá, ao mesmo tempo que olhava o relógio. Com o semblante aflito, ela saiu em disparada do quarto, deixando os dois amigos para trás.

-Não dá nem pra elogiar! – resmungou Rony, fitando Bele.

Ela correu até onde suas pequenas pernas conseguiram levá-la. Finalmente conseguia avistar sua casa. Mas parecia tão distante. E não conseguindo dar mais nenhum passo, foi ao chão, esgotada. Seu corpo tremia de frio e dor. Soluçando, ela levou uma mão ao peito. Não conseguia respirar. Seus olhos estavam tão pesados. Ela sentia seu corpo relaxar contra o chão sujo. Foi quando sentiu mãos fortes erguendo-a. E ao encarar a linda moça loira que lhe ajudava, não pôde ocultar o sorriso nos lábios, ao reconhecê-la.

-Encontrei você, Julie – murmurou a garotinha aliviada, ao abraçar as pernas da irmã mais velha.

-Bele, minha Bele - respondeu a garota, que aparentava seus vinte e poucos anos, tristemente – Você me encontrou, minha pequena – completou quando uma lágrima desobediente caía de seus olhos.

-Você fez isso de propósito, não foi? Esperou a gente vir aqui só pra empacotar – alterou-se Rony, assustando a irmã que ainda olhava em choque para o leito, onde Bele começava a convulsionar – Que ruim pra você, Malfoy! Porque eu não vou deixar você ir – informou Rony ao tentar imobilizar a garota, que se debatia com uma força assustadora, e a gritar palavras de encorajamento.

-Você está horrível – disse a garota loira, que aparentava seus vinte anos e ostentava uma vistosa queimadura no lado direito de seu maxilar e rosto, fazendo Bele esquecer momentaneamente do horrível lugar onde estava – Volte de onde veio, pequena – completou com o olhar sério, antes de virar e caminhar em direção à assombrosa mansão situada no final do campo aberto onde estavam.

A pequena criança ao ver sua irmã afastar-se não pensou duas vezes e tirando forças que achava estarem esgotadas, seguiu-a.

-VOCÊ NÃO DEVE PASSAR! – gritou Julie ao tirar um enorme cajado sabe-se lá de onde e batê-lo no chão, formando uma enorme rachadura, o que fez com que Bele recuasse assustada.

Julie, ao ver a expressão de sua irmã, não agüentou e começou a rir. E logo o riso se transformou em gargalhada.

-Você deveria ver a sua cara – riu-se Julie enquanto fazia o cajado sumir com uma das mãos e enxugava as lágrimas com a outra – Ai, ai...sempre quis dizer isso – completou antes de se levantar e continuar seu trajeto.

Porém, ao perceber que estava sendo seguida, parou novamente e sem ao menos se virar, disse:

-Eu não estava brincando, Bele. Volte enquanto pode, pequena. Esse não é o seu lugar.

-Meu lugar é com você – retrucou a garotinha com os olhos marejados.

-Não, o seu lugar é junto daqueles que te amam e precisam de você – constatou Julie, virando-se para a irmã – Eles estão te chamando de volta, não está ouvindo? – perguntou, indicando para que Bele prestasse atenção nos sons à sua volta.

Bele então tentou apurar sua audição e aos poucos os sons sem nexo que ouvira antes e que tanto a assustaram começavam a fazer sentido, e ela pôde identificar uma voz um tanto quanto esganiçada chamando-a.

-Tem certeza? Não sei se gosto dessa voz – duvidou Bele, ao ouvir a voz de Rony e fazer uma careta.

-Absoluta, pequena – sorriu docemente antes de virar e continuar seu trajeto – Conhece as regras, não é? Siga as vozes e tudo ficará bem.

E com as energias renovadas pelos conselhos da irmã, a pequena garota seguiu campo adentro, de encontro com a poderosa voz que a guiava.

Ele queria abrir os olhos. Mas eles estavam tão pesados. Sem desistir, ele tentou mais uma vez, e finalmente conseguiu, porém o feito só durou alguns segundos. Mas por poucos instantes ele viu um pouco de luz, mas tudo parecia tão turvo. Sentia uma placa de gosma sobre os olhos. Será que tinha sido pego durante a batalha e perdido os olhos em alguma tortura e a gosma que sentia na verdade era seu sangue coagulado? Não, nem mesmo Tio Voldie seria tão cruel assim. Afinal, o homem (se é que alguém poderia denominar o Lord das Trevas assim) seria capaz de arrancar seus membros, matar sua família e até desfigurar sua face. Mas ele nunca arrancaria os olhos de um prisioneiro. Afinal, qual seria a graça de torturar alguém e não ver seus olhos gritando "misericórdia" ? Isso sem contar que o Tio Voldie adorava seus olhos, para seu desespero e infelicidade.

Mas tinha algo errado ali. Sentia um desconforto pelo corpo todo. Uma coceira horrorosa. Decidido a descobrir a razão, ele tateou o lençol da maca onde estava deitado. Não é à toa que estava se coçando inteiro. O lençol era de algodão! Mas por que diabos Kireizi tinha colocado lençol de algodão em sua cama? A elfa sabia que ele era alérgico. Tanto que por via das dúvidas, todos os lençóis da mansão eram da mais pura seda. E por sua perna lhe incomodava tanto? A agonia de não conseguir se coçar e o formigamento na perna eram insuportáveis. E onde estava a maldita elfa que não vinha lhe coçar? E por que diabos sua perna não estava boa? Simples. Esse não era seu lençol. Ele não estava em casa. Sua perna estava provavelmente destruída por causa da batalha no Beco. Ele tinha o raciocínio mais lerdo do mundo. E não, ele não estava nem um pouco feliz ao constatar todos esses fatos.

Fazendo um esforço sobre-humano, ele abriu os olhos novamente e fez menção de se levantar. Precisava procurar sua família. Não lembrava de como tinha vindo parar ali. E se Isabele e Cisa não tiveram a mesma sorte? Talvez tivessem sido pegas por algum comensal, ou pior. Ele tinha que saber.

Já estava quase sentando, sua cabeça girava. Por quanto tempo estivera deitado ali? Sentia-se nauseado. E enquanto lutava para equilibrar-se na maca, sentiu mãos fortes empurrando-o de volta à maca, forçando-o a deitar-se novamente.

-Fique deitado, Sr. Malfoy – disse o rapaz vestido de branco que tentava deitá-lo – O senhor está deitado há dois dias, não pode levantar tão depressa.

Dois dias? Mas isso era tempo demais. As duas poderiam estar mortas agora!

-Sua esposa e sua filha estão bem, senhor – informou o rapaz, ao perceber o ar alarmado de Lúcio – Deite-se agora, por favor.

-Minha esposa e filha, ele disse – pensou Lúcio, e quando percebeu que o rapaz tinha comentado sobre sua filha, e não filho, alarmou-se – Como sabe sobre minha filha? – perguntou com a voz meio rouca, ao puxar o rapaz pelo colarinho, piscando incontrolavelmente, numa tentativa inútil de clarear a visão.

- To-todo mundo sabe, senhor – gaguejou o rapaz – Saiu no Profeta Diário – completou, drenando a pouca cor das faces de Lúcio.

-Merda! – praguejou Lúcio, entredentes – Vocês acharam minha bengala depois daquela confusão toda? – inquiriu, tentando parecer mais composto.

-Bengala, senhor? O senhor diz aquele bastão preto com uma serpente em um dos extremos?

-A não ser que eu tenha ganho outro enquanto estava desacordado é o próprio – respondeu Lúcio rudemente –Posso tê-lo de volta agora?

-Claro, senhor – concordou enquanto alcançava o objeto para Lúcio – Aqui está. Mas eu não aconselho a sair andando agora, senhor. O senhor está fr...- dizia o garoto enquanto Lúcio sacava a varinha e murmurava um feitiço.

-Estúpido – resmungou Lúcio ao passar por cima do rapaz que jazia estuporado no chão.

Lúcio então farejou o ar e depois de refletir um pouco, esfregou os olhos com a manga do pijama de algodão e seguiu corredor afora enquanto resmungava algo sobre a sua maldita alergia.

Ar. Ela precisava de ar. Tentava respirar, mas nada vinha. Sentia-se asfixiando. Desesperada, ela abriu os olhos. Luzes ofuscavam suas vistas. Tentava bloquear a claridade com as mãos. Mas era inútil, suas mãos estavam sendo seguras por fortes braços. Sensação horrível. E então uma voz, que se destacou entre as demais (pelo barulho, claramente havia mais que uma pessoa no recinto), pediu para que ela se acalmasse, pois ele ministraria uma poção que a ajudaria a respirar melhor.

Mas Bele não conseguia se acalmar. Algo ali não estava certo. Sentia várias pessoas no leito. Até reconhecia o cheiro da Sanguinho e o fedor do Fuinha. Porém, havia uma daquelas essências que lhe dava calafrios. Algo que fazia todos seus sentidos gritarem "corra".

-Não tem pra onde correr – comentou, em voz baixa, um dos homens vestidos de branco para ela.

E num estalo ela lembrou da onde reconhecia aquela essência horrorosa: Beco Diagonal. Soltando um grito agoniado, ela derrubou o velho medi-bruxo que se assustara com sua reação, ao mesmo tempo em que desequilibrava o comensal. Sem esperar um segundo, e tirando forças que nem sabia que ainda tinha, ela se jogou da maca enquanto tentava limpar seus olhos. Gritos eram ouvidos pelo leito.

Infelizmente, com seu físico seriamente debilitado, ela não foi ágil o suficiente. E quando finalmente conseguiu firmar-se em suas pernas bambas, ela percebeu uma varinha apontada em sua direção.

Ali, em sua frente, estava o comensal que atentara contra sua vida e que agora viera para continuar seu serviço. Instintivamente ela colocou a mão nos cortes, que a essa altura já sangravam novamente, em seu abdome.

-Nos encontramos novamente, Srta. Malfoy – disse o comensal com um sorriso maléfico no rosto.

Fim do cap. 12-2