Capítulo Oito: O Mestre da Mansão Malfoy

Nenhum exorcisor te prejudicará,

E nenhuma bruxaria te encantará.

Fantasma liberto te evitará,

Nenhum mal chegará a ti.

-Cymbeline


Quando Draco tinha seis anos de idade, seu pai tinha lhe dado um pássaro para levar sua correspondência. Draco sabia que as outras crianças tinham corujas amigáveis, ou ocasionais pássaros azuis, mas o pai de Draco lhe deu um falcão, com brilhantes olhos negros e um bico curvo como uma foice.

O falcão não gostava Draco, e Draco não gostava dele tampouco. Seu bico afiado o deixava nervoso, e seus olhos brilhantes pareciam estar sempre observando-o. Ele o golpeara-o com o bico e as garras quando ele chegou perto: durante semanas, seus pulsos e as mãos estavam sempre sangrando. Ele não sabia, mas seu pai havia selecionado um falcão que tinha vivido na selva por mais de um ano, e, portanto, era quase impossível de domar. Mas Draco tentou, porque seu pai lhe tinha dito para tornar o falcão obediente, e ele queria agradar seu pai.

Ele ficava com o falcão constantemente, mantendo-o acordado, conversando com ele e até mesmo tocando música para ele, porque um pássaro cansado era para ser mais fácil de domar. Ele sabia qual era o equipamento: a peia para falcão, a venda dos olhos, o brail, a coleira que prendia a ave ao seu pulso. O equipamento servia para manter o falcão cego, mas Draco não poderia fazê-lo – ao invés disso ele tentou se sentar onde o pássaro podia vê-lo ao tocar e acariciar suas asas, desejando que este confiasse nele. Ele alimentou-o de sua mão, e no início ele não comia: mais tarde ele comia com tanta selvageria que seu bico cortava a pele da palma da mão. Mas ele estava feliz, porque era um avanço, e porque ele queria que o pássaro o conhecesse, mesmo que tivesse que consumir o seu sangue para que isso acontecesse.

Ele começou a ver que o falcão era bonito, que suas finas asas foram construídas para a velocidade de vôo, que ele era firme e veloz, feroz e suave. Quando ele mergulhava para o chão, se movia como um relâmpago bifurcado. Quando aprendeu a dar a volta e chegar a seu pulso, Draco quase chorou de alegria. Às vezes o pássaro pulava em seu ombro e colocava o bico em seu cabelo. Ele sabia que seu falcão o amava, e quando ele estava certo de que não estava apenas domesticado, mas perfeitamente domesticado, ele foi até seu pai e mostrou-lhe o que tinha feito, esperando que ele se orgulhasse.

Em vez disso, seu pai pegou o pássaro, agora manso e de confiança, em suas mãos, e quebrou seu pescoço. "Eu lhe disse para torná-lo obediente", disse o pai, e deixou cair o corpo sem vida do falcão no chão. "Em vez disso, você ensinou-o a amá-lo. Falcões não devem ser animais de estimação amorosos: eles são ferozes e selvagens, bárbaros e cruéis. Este pássaro não estava domesticado, estava arruinado..."

Mais tarde, quando seu pai lhe deixou, Draco chorou sobre o seu animal de estimação, até que finalmente o seu pai enviou um elfo doméstico para levar o corpo do pássaro e enterrá-lo. Draco nunca chorou novamente, e ele nunca esqueceu o que aprendeu: que ser amado era destruir e que amar era ser destruído.


O baú de Blaise estava derrubado; o conteúdo derramado no chão aos pés de Draco. Ele os vasculhou com uma mão despreocupada – livros, maquiagem, jóias, pergaminhos, pilhas de fotografias. Nada muito interessante. Ele puxou as gavetas de seu gabinete para fora também, e suas roupas foram atiradas a esmo na cama em um monte de blusas, saias, camisolas, e roupas de baixo de seda cara. Seu diário, um livro verde claro com um cadeado em forma de borboleta, também tinha caído sobre a cama, mas algum cavalheirismo obscuramente motivado impediu-o de abri-lo.

"Já acabou?" Blaise perguntou, quebrando a valiosa meia hora de silêncio. Seu tom era frio e afiado. Ela sentou-se onde ele a tinha colocado: encostada à parede, com as mãos ainda presas às costas. O olhar em seu rosto era de desprezo fulminante de tal forma que até mesmo Draco que não cansava de agir assim sarcasticamente, ficou receoso.

"A maior parte," ele respondeu.

"E você achou o que estava procurando?" Sua voz detinha tanto desprezo gélido que poderia ter evitado o derretimento de um suprimento de Mousse Gelado por um ano.

Draco suspirou. Se sutiãs verde limão fossem o que ele estava procurando, ele tinha fechado negócio. Infelizmente, não eram. "Como é que você nunca usou qualquer uma dessas coisas quando estávamos namorando?" ele perguntou, levantando uma coisa preta transparente para fora da cama com um dedo torto.

"Talvez eu tenha usado. Você nunca foi longe o suficiente em minhas roupas para descobrir."

"Você está desapontada é?" Draco deixou cair o objeto de rendas transparentes e olhou estreitamente para ela.

"Nem um pouco," ela cuspiu. "Você é nojento."

Draco decidiu deixar essa passar. Ele se levantou e foi se agachar ao lado dela, para que seus rostos estivessem no mesmo nível. Seus olhos verde-escuros, com menos brilho que o habitual, olhavam nos seus com desprezo. "Em resposta à sua pergunta", disse ele, "não. Eu não encontrei o que eu estava procurando. O que me leva a outra pergunta."

Seus lábios apertados. "O que era?"

"Onde estão os chinelos que eu lhe dei no seu aniversário? Outubro passado?"

Seus olhos se arregalaram com descrença. "Por quê? Você quer de volta? Seu filho da puta mesquinho, Draco Malfoy – Só porque eu terminei com você –"

"Você romper comigo? Acredito que fui eu que terminou com você."

Ela o chamou um nome muito rude. Draco ficou impressionado. "Legal", disse ele. "Mas este não é, no entanto, o assunto em questão..."

"O que importa, eu nem sei do que você está falando – ? "

"Os chinelos. Onde estão? Lembra deles? Eram muito caros, bordados, dourados, seda pura – "

"Eles não eram de seda pura," Blaise rebateu, olhando altivamente de novo. "Eles tinham algum material barato misturado que irritava minha pele. Eu não conseguia usá-los."

"Então o que você fez com eles?"

Ela encolheu os ombros. "Eu os dei a Pansy."

Draco expulsou um longo suspiro. Ele não tinha certeza se ele se sentia aliviado ou não. "Eu realmente não achava que era você", ele disse lentamente. "Mas eu tinha que ter certeza."

Seus lábios se apertaram. "Você não pensou que fosse eu?"

"Eu pensei que talvez você estivesse tentando jogar a culpa nela, por isso seria você. Você é desonesta o suficiente."

"Por isso seria eu a o quê?"

Draco deu de ombros e se levantou. Afastou a tela pintada à mão que separava Blaise lado do da sala de Pansy. A metade de Blaise da sala era um pouco maior; a de Pansy era mais cheia de coisas – várias cadeiras, um sofá, um toucador com um espelho curvo. A superfície do toucador era densamente coberta de potes, frascos e tubos de ungüentos e cosméticos, assim como Blaise lhe tinha dito semanas atrás. Por que ele não soube? Eu sabia que ela tinha que ser monitora, ele pensou. E uma sonserina. uma sonserina iria pensar nisso.

Ele se afastou do toucador e foi até o enorme baú de bronze ao pé da cama de Pansy. Blaise inclinou-se ao redor da tela e olhou para ele. "Você não pode abri-lo," ela retrucou rancorosamente. "Ele tem dezesseis diferentes encantos anti-Alohomora e só Pansy sabe as senhas –"

"Dezesseis?" Draco disse suavemente. "Sério? Tantos assim?" Ele deu outro passo em direção ao baú e olhou para ele pensativamente. Com a ponta da bota de dragão, ele cutucou de leve na fechadura. Então, ele ergueu o pé e trouxe-o com força. Uma, duas, três vezes, colocando toda a sua raiva reprimida nele – na quarta vez ele ouviu o protesto como o ranger da madeira começou a se dividir – na quinta vez a fechadura arrancada da madeira e caiu no chão. A tampa do baú se abriu.

"Alohomora," Draco disse.

Blaise não disse nada. Ela parecia ter decidido a ignorá-lo. Ainda assim, ela ficou olhando como ele ajoelhou-se perto do baú e começou a revirar seu conteúdo. Livros caíram em primeiro lugar, perfeitamente empilhados, e debaixo deles estavam potes e garrafas vazias, e debaixo estava um par de chinelos de seda pálida de ouro e um conjunto dobrado de pijamas brancos todo salpicado com flores azuis e amarelas.

O coração de Draco começou a bater como um martelo. Ele estava certo. Ele sabia que ele estava certo, mas não que a prova disto iria apresentar-se tão prontamente. Ela devia estar certa de que ninguém poderia adivinhar. Ele mergulhou as mãos no baú, empurrando o pijama e chinelos de lado – havia papéis dobrados debaixo deles, ele pegou e os empurrou a esmo nos bolsos capa. De baixo deles estava uma longa caixa de esmalte, que se abriu quando colocou pressão sobre os cantos. Dobrada dentro estava uma faixa longa de tecido multicolorido, que brilhou quando ele o tocou...

"Uma capa de invisibilidade", ele sussurrou baixinho. Um sorriso surgiu e se contorceu no canto da boca. Pansy esperta. Ele enrolou a capa em uma pequena bola e enfiou-a no bolso. Ele tinha certeza que ele estava começando parecer extremamente irregular. Ele colocou as mãos de volta no baú, mas não havia mais nada, reunindo apenas areia debaixo das unhas. Ele se levantou, e voltou para a parte de Blaise do quarto. Ela se virou para olhar para ele.

"Você está roubando as coisas de Pansy?"

"Evidências," disse ele curtamente.

"Você é um ladrão," disse ela. "E um bastardo. Virando contra os membros de sua própria casa para defender um bando de escória da Grifinória –"

"Cale a boca, Blaise."

"Eu vou dizer. Vou dizer para todo mundo."

Draco se ajoelhou e olhou em seus olhos. O rosto limpa de maquiagem, o cabelo livre de suas presilhas de jóias e solto ao redor de seu rosto, ela parecia muito menos elegante do que ele já tinha visto ela. "Faça isso," disse uniformemente, "e eu vou dizer a todos exatamente por que você concordou com este falso namoro comigo em primeiro lugar."

Sua respiração sibilou entre os dentes. "Você é um bastardo inconcebível. Você iria me chantagear?"

"Basta manter as coisas justas. Eu não gosto de desequilíbrios de poder. A menos, claro, que eu tenha vantagem, o que agora, eu tenho."

"Talvez agora." Seus olhos se estreitaram. "Mas não para sempre. Todos sabem na realidade onde jazem suas lealdades, Draco. E se há uma coisa que a Casa Sonserina odeia é um traiçoeiro."

"Eu não estou certo do que você está tentando dizer aqui, Blaise. Você está sugerindo que eu não tenho mais chance de ganhar o Mais Popular Sonserino do Ano?"

"Eu protegi você," ela rosnou para ele, e ele ficou surpreso ao ver que por um momento, seus olhos estavam estranhamente brilhantes, como se ela pudesse estar prestes a chorar. E nesse momento, eles lembraram-lhe tão fortemente de outro par, diferentes, de olhos verdes de modo que ele sentiu uma centelha de simpatia para com o brilho dentro de seu peito. "Você nunca prestou atenção, mas eu protegi você – Eu menti por você – Eu cobri o quanto tempo você realmente gastava com Potter e seus seguidorezinhos, inventei razões para você estar com ele – Perca a mim e você perderá a última pessoa nesta Casa que tinha qualquer fé de que você poderia voltar para nós. Perca-me e você estará por sua conta, Draco."

Ele suspirou. "Então eu estou por minha conta. Obrigada por me proteger, se você realmente o fez, mas não era necessário. Eu não tenho medo da Casa Sonserina."

"Você deveria ter," disse Blaise, e desviou o olhar dele. "Você deveria ter, Draco."

Ele lutou outro suspiro. Ele se sentiu muito cansado. "Eu vou te desamarrar agora," disse ele. "Eu quero que você prometa não me bater no segundo que suas mãos estiverem livres."

"Eu prometo," disse ela, sem olhar para ele, e no momento que suas mãos estavam livres, é claro, ela bateu-lhe de qualquer maneira.


Um leve toque no ombro o despertou. Harry rolou e piscou. O mundo estava embaçado, mas ele sabia que a forma pairando acima dele era Draco. Estendeu a mão para os óculos e sentou-se lentamente. Seus músculos estavam rígidos e doloridos de cair no sono no sofá da sala comunal, mas ele não queria subir as escadas e encarar Simas, Neville e Dino. "Hey," ele disse, sua voz um pouco enferrujada. "Será que ela...?"

"Hermione? Ela se foi," Draco disse, agachando-se ao lado do sofá. O fogo estava alto na grelha, e a sala estava muito quente. Draco estava com olhos brilhantes e parecia quase excitado. A cor agitada e vermelha lavada no alto de suas maçãs do rosto. "Eu tenho algo para lhe dizer."

"Oh, Deus," disse Harry, determinante. "Não mais uma coisa." Ele olhou para Draco mais de perto, vendo o cabelo desgrenhado, as botas enlameadas, as marcas de arranhão ao longo de sua bochecha esquerda, como se alguém tivesse passado suas unhas ali. "É algo ruim?"

"Não exatamente," disse Draco. "Eu descobri quem era."

"Quem foi que – oh," Harry disse. "Oh, você quer dizer..."

"Rony..." Draco deu, de repente, um sorriso de lobo. "A mulher misteriosa de Ron."

Harry sentiu a velocidade de seu batimento cardíaco aumentar. "E você vai me dizer?"

"Isso depende." Draco inclinou a cabeça para o lado, cabelos louros caindo nos olhos. "Você quer saber?"

Harry sentou-se reto. Estava muito tranqüilo na sala comunal. Ele podia dizer que era muito tarde, apenas pela qualidade do silêncio e até mesmo pela escuridão ele podia ver através das janelas. O crepitar da lenha era alto, como gelo quebrando. Podia ouvir a respiração de Draco. Muito timidamente, alcançou a mente de Draco com a sua própria, tentando avaliar o que o outro menino estava sentindo com a notícia que ele tinha para contar. Culpa, raiva, dor, terror, divertimento, horror? Ele estava com medo de dizer a Harry, será que ele se preocupava que Harry não conseguiria lidar com isso? Era muito ruim? Não exatamente, ele tinha dito. O que quer que isso significasse.

"É alguém que conheço bem?" Harry perguntou baixinho, finalmente. "É um amigo meu? É alguém que eu gosto?"

"Não," disse Draco. "Para todas as perguntas."

Uma onda de alívio tão intenso que chegava a ser quase náusea passou por Harry. "Tratava-se de mim? Será que tinha alguma coisa a ver comigo?"

A luz nos olhos de Draco piscou. "Eu não sei ao certo."

Harry cruzou os braços sobre o peito, embora estivesse quente na sala. "O que você vai fazer?"

"Investigar," Draco disse simplesmente. "A uh, parte culpada já deixou a escola. Mas tudo bem. Me dá algum tempo. Eu tenho que investigar as coisas. Oportunidades, motivação, cúmplices, propósitos."

Harry sentiu seus lábios se curvarem em um sorriso trêmulo. "Você soa como um detetive."

"Li um monte de quadrinhos de Auror quando criança," disse Draco. "Sempre quis um casaco impermeável."

"Você precisa da minha ajuda?" Harry perguntou. "O que eu devo fazer?"

Draco balançou a cabeça. "Eu não preciso de sua ajuda, não agora. Se eu precisar, eu lhe digo. E se você quiser saber, eu te digo. Mas talvez agora você não precise de mais nada em sua mente." Ele ficou de pé, em um rápido gesto gracioso. Harry olhou firme para ele, lembrando da fraqueza de Draco no jogo de Quadribol e enquanto eles treinavam esgrima. No entanto, ele parecia muito melhor. Haviam fortes cores em seu rosto e seus olhos brilhavam. Esperançosamente, ele tinha superado isso. "Vá dormir," disse Draco, e se dirigiu para a porta. "Eu vou te ver –"

"Você vai fazê-los se arrepender?" Harry disse. Ele tinha ficado de pé sem perceber, e ele colocou a mão para firmar-se no braço do sofá. Suas pernas formigavam com dores do acordar.

Draco virou-se, uma mão no retrato da porta, e olhou para ele com curiosidade. Mesmo descabelado e cansado, ele tinha um distanciamento elegante que Harry vagamente invejava. Ele sabia que ele usava seu próprio coração em sua manga, não como um distintivo de honra, mas porque ele não conhecia outra maneira de ser. Considerando que nada parecia tocar Draco tanto, ou tão profundamente, que ele não conseguisse controlar suas expressões. Nada nunca fazia seu ombros retos afundarem. "Se eu vou o quê?"

"Fazê-los se arrepender," Harry disse. Sua voz ligeiramente áspera. "Eu sei... que você pode fazer coisas que eu não conseguiria. Você é implacável de um jeito que eu nunca poderia ser. E você sabe sobre vingança."

"Eu sei?" Expressão de Draco estava ilegível.

"Eu sei que sim," Harry disse.

"Você não?" Draco disse. "Aquilo que você me disse..."

"Oh, eu sei sobre odiar," disse Harry, sua voz plana e vazia. "Mas eu não sou esperto quanto a isso, como você é. Eu não poderia pensar em uma maneira realmente criativa de fazer alguém sofrer. Não como você pode."

"É isso que você quer?" Draco perguntou. Seus olhos estavam planos, cinza metálicos. Não expressavam nada: nenhuma emoção, medo, preocupação ou arrependimento. Ele ficou onde estava, ilegível como um pergaminho escrito em Gobbledygook.

"Sim," disse Harry. "É o que eu quero."

"Então eu vou fazer isso," Draco disse, e ele sorriu, e por um momento um brilho levemente perverso iluminou sua expressão. Se havia alguma amargura ou tristeza por baixo dela, Harry não viu. Ele estava muito ocupado lutando contra seu próprio alívio. "Vou fazê-los se arrepender."

Ele saiu e fechou o retrato atrás dele.


Ginny uma vez havia lido em algum lugar que a diferença entre memória e recordação era que com a memória, você sabia empiricamente que você tinha estado em um determinado lugar por um determinado tempo, enquanto com a recordação você sente que alguma vez você já esteve lá.

Quando ela olhou para trás para os últimos dias antes do fim do inverno em seu sexto ano em Hogwarts, estava sempre com um sentido de recordação. Ela não poderia ter dito exatamente como os dias passaram, mas várias imagens e momentos estavam queimados em seu cérebro – ela lembrou-se do frio que desceu sobre o castelo, literal e figurativo, depois de Ron e Hermione terem ido para casa. As lascas de flor de gelo que se formaram nas vidraças durante a noite, a água congelando na caneca ao lado de sua cama. Sentada à mesa da Grifinória com Simas, esperando Harry descer. Observando-o sentar-se sozinho, sem dizer nada. E Draco. Sempre com Harry, ou observando-o do outro lado da sala se não estivesse ao lado dele. Ele parecia ter tomado as palavras que Dumbledore tinha falado para ele semanas antes – "Harry é forte e pode suportar muito, e para aquilo que não pode suportar ele tem você" – como se fossem uma espécie de dever sagrado. Ela se perguntava se ele estava tentando pagar por algum pecado que ele pensou que ele havia cometido, ela imaginava que tal devoção devesse vir apenas da culpa. Claro, ela não sabia até mais tarde que Hermione o havia feito prometer ficar com Harry sempre – e ele tentou o melhor que pode, dadas as restrições óbvias. Os professores, nesses últimos dias, fizeram vista grossa ao fato de que Draco algumas vezes estava na sala comunal da Grifinória. Ele nunca tentou ir mais longe do que a sala comunal, no entanto, sentindo que, provavelmente, não fosse bem-vindo.

Harry parecia apenas notar pouco tudo isso. Ele passou por tudo em um tipo confuso de jeito sonâmbulo, provavelmente porque durante a noite ele não dormia – Seamus havia lhe dito isso. Aparentemente, ele passava a noite sentado no vão da janela, olhando os terrenos cobertos de neve. Ele estava começando a parecer translúcido, como se ele tivesse estado muito doente, os ossos aparecendo nitidamente sob a pele. Ginny o tinha visto caminhar acidentalmente na direção de Draco várias vezes, como se tivesse esquecido de todo de que Draco estava lá.

Uma tarde ela entrou na sala comunal e achou Harry lá, deitado no sofá, um cobertor sobre as pernas, aparentemente dormindo. Ela caminhou em direção a ele, e alcançou o cobertor para puxar sobre seus ombros, quando uma mão disparou do nada e agarrou seu pulso.

"Shhh." Era a voz de Draco. Ela virou os olhos para ele. Ele estava sentado afundado nas sombras de uma poltrona estofada ao lado do sofá, e tinha se misturado tão completamente com a escuridão que ela não tinha visto. "Não o acorde."

"Eu não ia." ela sussurrou de volta, irritada. "Eu ia apenas puxar seus cobertores para cima."

Draco, parecendo cansado, soltou seu pulso. "Só... deixa ele," disse ele. "Ele não dorme há três dias."

"Eu sei," disse Gina. Ela olhou para Harry e seu sentimento de aborrecimento desapareceu, enterrado sob uma avalanche de simpatia. Ele parecia um menino, enrolado para o lado no sofá, com a cabeça repousada em seu braço, seu rosto pálido corado de sono febril. Seu cabelo escuro enrolado ao redor de sua cabeça em emaranhados como lambidas de fogo escuro. "Como ele está?" ela perguntou, sentando-se na cadeira ao lado de Draco. "Como ele realmente está?"

Draco olhou considerando. "Podre," disse ele, finalmente, e sua voz era plana. "Bem como você esperaria."

Ela mordeu o lábio. "Eu gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer," disse ela. "Ele teve tanto sofrimento em sua vida – Eu gostaria de poder livrá-lo dele, sabe?"

Ele olhou para ela, seus olhos cinza escuro, ligeiramente fora de foco com o cansaço. "Você ainda o ama," disse ele.

"Eu sempre o amarei", disse Gina, "se não for dessa maneira. Todos nós. Ele é assim."

"Não o seu irmão," disse Draco, e seu tom era amargo.

Ginny suspirou. "Especialmente meu irmão," disse ela. "Eu não esperaria que você entendesse."

"Eu não quero entender," disse Draco. "E eu não posso me aborrecer – Eu tenho o suficiente para me aborrecer sem ponderar os motivos do seu irmão criar esta confusão do caralho."

"Ele não a criou," Ginny disse rispidamente. "Já estava lá –"

"Shhhhh," Draco disse. "Mantenha sua voz baixa."

Ela olhou mais de perto para ele. "Faz quanto tempo desde que você dormiu?"

"Ei," Draco levantou um dedo para ela. "Eu dormi uma hora inteira na terça-feira."

"Você deveria ir dormir," disse ela com firmeza. "Você vai quebrar caso contrário."

Ele deu de ombros. "Não é tão ruim. Eu tenho alucinações ocasionalmente e acho que isso cuida do problema. Ontem eu pensei que eu era um bule de chá. O que não teria sido tão ruim se eu não tivesse pensado também que Malcolm Baddock era uma xícara de chá..."

Ginny sorriu para ele. O calor do fogo estava a deixando sonolenta, e ela estava consciente da forma adormecida de Harry no sofá. Ela queria muito abraçá-lo, e alguma parte dela quase queria abraçar Draco também, apesar dele ser uma espécie espinhosa de pessoa que não abraça. Ela reconheceu que era simplesmente o stress que estava fazendo ela se sentir perto de ambos garotos, quando, na verdade, era Hermione que amava e cuidava deles, e era amada em troca. Mas Hermione não estava lá... ela empurrou esse pensamento para baixo. "Draco..."

"Talvez eu vá dar um passeio," disse ele, seus olhos indo até a janela atrás dela. "Eu sinto como se eu não visse o sol há dias."

Ela assentiu com a cabeça. "Eu sento aqui com Harry, se você quiser."

Um lampejo de alívio passou pelo rosto dele. "Você fica?" Ele se levantou, e ela estendeu sua capa, que estava cobrindo todo o encosto do sofá. Seus dedos se tocaram brevemente quando ele pegou e encolheu seus ombros nele, fechando os pesados fechos da frente. "Eu vou estar logo ali fora..."

"Está tudo bem," disse ela. "Vá," e ele foi, fechando a porta silenciosamente atrás dele.

Ginny se acomodou na poltrona que ele tinha desocupado. Ela estava prestes a alcançar seu livro no bolso, quando um movimento brusco a assustou. Foi Harry, que tinha baixado o braço de seu rosto. Seus olhos estavam abertos.

"Você está acordado," disse ela, surpresa.

"Sim." Harry sentou-se e pegou os óculos apoiados no braço do sofá. "Desculpe se eu tiver assustado você."

"Há quanto tempo você está acordado?" perguntou ela.

"Horas," ele disse brevemente. "Eu ouvi você entrar..."

"Você nos ouviu conversar? Deveria ter dito alguma coisa."

"Não, você estava certa. Ele deveria dar uma caminhada. Obter um pouco de ar. Deve ser chato, cuidando de mim o tempo todo."

Ginny tinha certeza de que Draco não achava chato, em si, mas segurou a língua.

"De qualquer forma," Harry acrescentou, "Eu queria te perguntar uma coisa, e eu queria te perguntar quando estivéssemos a sós."

"Pra mim?" Ginny ficou surpresa. "O que você queria me perguntar?"

Harry olhou o fogo logo atrás dela. "Eu queria saber se você faria um favor e tocaria em uma coisa para mim."

Ginny olhou para ele, incrédula. "Perdão?"

Harry piscou, então corou. "Isso soou ruim, né?"

"Sim," disse Gina. "Soou."

Harry sorriu. "Deixe-me começar de novo. Eu sei que às vezes você pode sentir Magia Negra, se estiver presente em objetos ou pessoas. Eu queria saber se você poderia dar uma olhada em algo para mim, me dizer se você sente algo de anormal nele."

Gina puxou nervosamente a corrente de ouro ao redor sua garganta. "Claro."

"Obrigado." Harry abaixou a cabeça, depois olhou para ela de novo, rapidamente. "É no meu cinto." disse ele, "espera um segundo", e virou-se para correr o cinto de couro através do passador de suas calças. Quando ele abaixou a cabeça, seus cabelos se afastaram, mostrando a nuca, claramente exposta entre o cabelo escuro e a gola redonda de seu suéter preto. Os botões de sua coluna vertebral estavam ligeiramente visíveis sob a pele... ele tinha ficado tão magro. "Aqui," ele disse, e estendeu a mão.

Ela pegou o que ele oferecia: era um círculo pesado do que parecia ser de vidro vermelho. Mas era muito mais pesado do que vidro. O seu peso em sua mão estava tão substancial como se tivesse sido esculpido em pedra. Virou-o lentamente entre os dedos, maravilhada com sua textura suave, apesar de ter gravações em todas as bordas.

"Você sente alguma coisa?", perguntou ele, os olhos ansiosos.

Ela balançou a cabeça. "Não. Nada." Ela devolveu-o a ele, e ele o pegou sem sorrir. "Você não estava esperando que seria algo ruim, então?" ela perguntou, meio brincando, mas ele pareceu levar a pergunta a sério.

"Não, realmente não, mas eu estava esperando por algum tipo de pista sobre o que é," disse ele. "Eu odeio não saber as coisas."

"Me conta isso," disse Gina. "Eu estou quase desistindo dessa sensação de como se nós nunca soubéssemos de nada. Quer dizer, aquela taça que vocês levaram do museu – O que Hermione fez com ela?"

Ela imediatamente se arrependeu da pergunta. Ao som do nome de Hermione, Harry enrijeceu e recuou visivelmente de volta para dentro de si como um coelho fugindo em sua toca. "Não sei," disse ele rigidamente. "Eu não tenho idéia do que ela fez com ela," e ele se levantou de repente, lançando os cobertores de volta para o sofá. "Eu acho que eu deveria subir por um tempo," disse ele, pondo as mãos nos bolsos. "Provavelmente algum tempo sozinho me ajudaria. E eu preciso fazer as malas."

Ginny sentiu-se obscuramente ferida. A essa altura, porém, ela já era mestre em esconder mágoas. Tudo o que ela disse foi: "Quando você parte, então?"

"Amanhã de manhã, assim como você," disse Harry. Ele estendeu a mão e bagunçou levemente os cabelos dela, como se ela fosse uma menininha. "Obrigado," disse ele. "Eu agradeço por você ter olhado a cinta."

"É claro. Se houver mais alguma coisa que eu possa fazer..."

"Você poderia ir fazer companhia a Draco. Seria bom para ele, eu acho, passar algum tempo com alguém que realmente fala."

"Mas eu não sei onde ele foi," Gina protestou.

Os olhos de Harry ficaram sem foco por um momento. "O lago," disse ele, pegou o cobertor do sofá, e com um aceno de cabeça, encaminhou-se para a escada do dormitório dos meninos.


Estava um brilhante dia de inverno lá fora. Tinha nevado na noite anterior, o que tornava mais fácil de seguir impressões distintas das botas de Draco na neve. Gina puxou o capuz de sua capa para cima – estava muito frio lá fora, apesar da luz do sol brilhando na neve – e rumou para o lago.

Ela estava a meio caminho ao redor do perímetro da água congelada quando percebeu com uma pontada estranha que Draco parecia estar seguindo o caminho exato que Harry e Hermione geralmente faziam em torno da borda do lago. Ela não podia contar as vezes que ela tinha olhado pela janela da sala de aula e visto as duas figuras familiares caminharem juntos, ombro a ombro, pelo mesmo caminho. Ela perguntou-se se Draco tinha percebido.

Não foi difícil encontrá-lo. Ela fez uma curva e lá estava ele, sentado num toco de árvore preto. Mais tarde, ela não conseguiu se lembrar exatamente o que ele estava fazendo naquele momento. Jogando pedras no lago congelado, ou arrancando as últimas folhas de um raminho perene. Ela parou por um momento e olhou para ele, livre para examiná-lo sem que ele percebesse. Sob seu manto negro, ele vestia calças um pouco desgastadas e um pulôver vermelho escuro – ela raramente o tinha visto parecendo tão desarrumado. Ele tinha uma estranha expressão pensativa. Alerta, e no entanto, sonhadora. Isso a fez se perguntar no que ele estaria pensando.

Ela deu um passo adiante em direção a ele e um pedaço de gelo rachou sob o salto de sua bota. Ele olhou para cima, e quando ele a viu pareceu assustado. Ele começou a ficar de pé. "Aconteceu a..."

"Harry está bem, você não é necessário," disse Gina. "Relaxe."

Ele não relaxou exatamente, apenas enfiou as mãos nos bolsos e olhou para ela com uma expressão quase de ressentimento.

"Bem, se você quiser que eu te deixe sozinho..." ela retrucou.

Sua expressão relaxou ligeiramente. "Essa capa," disse ele. "É nova?"

Ela piscou para ele, então olhou para sua capa. Era, de fato nova, sua mãe havia enviado a ela porque ela se queixou que tinha crescido demais para sua capa do último inverno. Ela era longa, feita de uma lã amarela pálida, não particularmente requintada. Draco notava roupas mais do que outros meninos, mas ela ficou surpresa que ele até mesmo se impressionasse com ela. "Sim, presente de Natal antecipado."

"Huh. Parece familiar." Ele sentou-se de volta no toco de árvore, as mãos ainda nos bolsos, e olhou para longe dela. Ginny virou para ir embora, quando a sua voz a impediu: "Espere," disse ele. Ela se virou e o viu olhando para ela, um estranho tipo de súplica em seus olhos. "Fique."

Com um suspiro, ela foi e se juntou a ele sobre o toco de árvore. Por um momento eles se sentaram e olharam para o lago cinza juntos em silêncio. A luz do sol tocava aqui e ali através do padrão de galhos nus, lançando manchas brilhantes de ouro contra o prata.

Foi Draco quem quebrou o silêncio. "Alguma coisa nas vestes do seu bolso," disse uniformemente, "está batendo na minha perna."

"Oh." Gina enfiou a mão no bolso e tirou Calças da Paixão. Ela estava prestes a colocá-la no bolso do outro lado de seu manto, quando Draco parou com a mão em seu pulso.

"Você não terminou de ler isso ainda? Quanto tempo pode demorar?"

Ginny lançou-lhe um olhar irritado. "Bem, se eu não fosse interrompida por triângulos amorosos malucos e um roubo em grande escala, eu poderia estar fazendo melhor com tempo."

Draco soltou seu pulso e deu de ombros. "Eu só tenho de me perguntar se você está tentando punir a si mesmo, ou o quê. Se você quer um livro, eu tenho muitos livros bons que eu posso emprestar. O Conto dos Dois Bruxos, Grandes Encantamentos..."

"Eu leio bons livros. Estes são apenas... reconfortantes."

"Reconfortantes como?"

"Porque eles são previsíveis. Você pode dizer o que vai acontecer apenas olhando as ilustrações capa."

"Oh, realmente?" Draco se inclinou para frente e olhou por cima do ombro dela a capa do livro. "Como você imagina este?"

"Bem, olhe". Ela moveu dedo pela página, conscientes dos olhos dele o seguindo. "Esta é Rhiannon, a menina de vestido branco. Ela é a heroína. Ela vai passar por alguns momentos difíceis, mas, basicamente, ela vai vencer no final, com seu único e verdadeiro amor ao seu lado. E aquele cara, aquele nos calções, é Tristan. Ele é corajoso e impetuoso e ele só quer estar com Rhiannon, mas forças sinistras os mantêm separados. Não para sempre, é claro. A garota de espartilho vermelho apertado de couro é Lady Stacia. Ela é má e bem vadia, e ela definitivamente vai morrer no fim, mas não até ter transado com metade dos principais personagens masculinos. E o homem da capa preta é o Sombrio Bruxo Morgan, ele é mau também."

"E quem é o idiota com o vestido?" Draco perguntou.

"Isso não é um vestido, são túnicas do Estado. Ele é Geoffrey Montague, é um amigo de infância de Rhiannon e muito confiável. São unha e carne. Se Tristan morrer, ela provavelmente vai acabar com ele, mas ela sempre vai estar realmente pensando em Tristan. Se Tristan estivesse vivo –" Ginny interrompeu. Os ombros de Draco tremiam com um riso silencioso. "O que é tão engraçado?"

Draco fez um gesto abrangente com a mão. "Deixe-me dizer o que realmente acontece," disse ele. "Dada a informação disponível e estas ilustrações fabulosas, prevejo que Montague finalmente sairá do armário e fugirá com o Sombrio Bruxo Morgan, que não era de todo mal, realmente, apenas solitário. Eles se mudam de país, compram uma torre com vista e passam os próximos 60 anos a renovando e comprando antiguidades. Rhiannon abre uma escola no convento de bruxas jovens e instala Lady Stacia como a diretora, onde ela se diverte ao tentar mudar o código de vestimenta para incluir espartilhos de couro e espancando as meninas quando elas saem da linha."

Ginny olhou para ele. "E quanto Tristan?"

"Ah, ele. Ele é muito vaidoso para ter interesse amoroso decente por alguém. Olhe para suas botas. Leva horas para polir botas deste jeito. Não, é melhor Tristan ficar sozinho."

"Tristan," disse Gina com firmeza "quer ficar com quem ele ama."

Draco sorriu para ela. "Bem, para tudo o que ele realmente precisa serve uma pilha de revistas maldosas e uma porta com trava."

"Aaargh!" gritou Gina, e jogou o livro nele. "Você faz tudo parecer tão sujo!"

"Obrigado," disse ele. "Eu faço o quê parecer sujo?"

"Você sabe." Ela se sentiu repentinamente envergonhada. "O amor."

Draco inclinou a cabeça para trás e olhou pensativamente para o céu. "Bem, ele é sujo," disse ele. "Não é uma coisa sagrada, elevada, você sabe. É sobre o apetite e desejo e necessidade e todas aquelas outras coisas que fazem as pessoas fazerem coisas feias umas com as outras. Não há traição sem amor, não há perda sem ele, nem inveja. Metade da feiúra do mundo vem dele. Ele corta e queima e faz feridas que nunca saram. Dê-me o ódio qualquer dia. Esta sim é uma emoção com que posso lidar. Você sempre sabe onde você está com ele."

"Isso não é verdade. O amor torna as pessoas altruístas –"

"Como seu irmão?" Sua voz era suave. "Como seu irmão era altruísta?"

"Aquilo não era amor –" Ginny estava furiosa. Como ele ousa trazer o assunto Ron a tona.

"Oh, era," disse Draco. "Eu vi o rosto dele quando ele olhou para ela. Ele estava apaixonado por ela, seja lá o que você pense."

"Bem, pelo menos ele foi sincero quanto a isso," retrucou Gina. Ela sabia que soava rancorosa. "Ele não fingiu que não se importava."

Isso fez Draco sentar-se. Ele abriu os olhos e espirrou seu frio olhar de gelo de água-cinza sobre ela. "Ah, e eu finjo?" Ele deu de ombros. "Talvez você esteja certa. Talvez eu realmente não me importe com ninguém. Ou talvez seja apenas o que parece aos seus olhos idealistas, você pensou nisso?"

"Eu não sou idealista. Só porque eu acho que é ridículo você fingir que não se importa com ninguém quando você obviamente se importa não me faz idealista. As pessoas não podem viver sem se preocupar com alguém."

"Não, as pessoas não podem viver sem comida, água, abrigo, e no meu caso, lençóis de algodão percal de 3000 fios. Outras pessoas são um luxo e não uma necessidade."

"Então por que você está cuidando tanto de Harry?"

"É diferente."

"Como é diferente?"

Algo indefinível moveu-se por trás seus olhos cinzentos. "Simplesmente é."

Gina sentiu repentinamente muito cansada. Não parecia haver sentido nesta conversa. Era impossível ganhar uma discussão de Draco, especialmente de um argumento como este. Ela não tinha idéia de por que ela continuava se incomodando; seria igualmente produtivo tentar cavar um túnel para a Câmara Secreta usando uma colher. "Eu vou voltar para o castelo," disse ela, e levantou-se abruptamente, protegendo os olhos com uma mão – ela não queria que ele visse o quão perto ela estava de chorar. Ela estendeu a mão. "Posso ter meu livro de volta, por favor?"

Ela ouviu um barulho de neve estalando, e então ele estava ficando de pé. "Você está bem? Você não está chorando, está?"

"Não – algo em meu olho," ela mentiu.

"Oh. Vem cá, então." Com vivo profissionalismo, ele tomou seu pulso e puxou-a para ele, sua outra mão sob o queixo. Ele inclinou-se o queixo, e seus olhos procuraram os dela por um momento. "Fique parada," disse ele.

Ela sustentou o olhar sem piscar. Ela não tinha estado tão perto dele desde a noite do Baile de Inverno. (Mais tarde ela percebeu que isso não foi estritamente verdadeiro – ela havia estado perto assim quando ele a beijou no museu, mas aquilo tinha sido uma tentativa tão óbvia para irritar Simas, que ela mal considerou como um beijo real.) Na verdade, ela praticamente nunca tinha estado tão perto dele durante o dia. Ela não queria encará-lo, mas ela não podia evitar – uma parte de sua mente parecia determinada a gravar este momento em sua memória, como se de alguma forma ela sentisse como se ela nunca mais fosse poder vê-lo. Ela tentou se concentrar nas coisas que estavam erradas no rosto dele, as imperfeições - a cicatriz em seu olho, onde o tinteiro de Harry o havia cortado, o fato de que seus olhos tinham formas ligeiramente diferentes, que um dos lados de sua boca era maior do que o outro, o que era responsável pelo fato de que ele sorria tão bem, e até mesmo o fato de que seu cabelo precisava ser cortado e estava caindo em seus olhos. Não, ele não tinha a aparência perfeita levando isso em consideração. Simas era tão bonito quanto – mais até, se você gosta de uma aparência menos delicada. Não importa, é claro. Simas não poderia enviar arrepios que reverberassem pelos seus braços apenas tocando seus pulsos.

Os olhos dele roçaram o rosto dela como um toque. Ele falou lentamente. "Eu não vejo nada," disse ele.

Levou um momento até ela a perceber do que ele estava falando. Quando ela recordou a si mesma, ela firmemente separou seu pulso da mão dele e se afastou, mal notando o seu olhar surpreso.

"Eu sei," disse ela. "Eu sei que você não viu."


O dia seguinte foi o último dia do período escolar. Gina foi de Hogsmeade de volta para estação de King's Cross no compartimento de trem com Dino, Simas e Charlie. Ela poderia dizer que Simas estava ansioso para conversar com ela a sós, mas que a presença de Dino o envergonhava e a presença de seu irmão, alto e musculoso, o apavorava.

Em um ponto ela viu Harry e Draco passarem através da janela do compartimento, mas não estava particularmente surpresa deles não terem entrado – Harry dificilmente queria estar perto de Charlie, e o ódio de Draco por Simas era inabalável. Ela acenou para os dois, uma vez que desembarcaram na Plataforma 9 3/4 em King's Cross. Harry acenou de volta, Draco se virou para ver o que ele estava olhando, e então eles tiveram sua visão bloqueada por Sirius e Narcisa.

Ginny se virou para ver sua própria família vir em sua direção pela outra extremidade da plataforma – sua mãe, seu pai, os gêmeos, Percy, (Bill, ela sabia, ainda estava no Egito) – mas Ron não estava com eles. Ela sentiu uma pontada, mas era supôs que não poderia culpá-lo por não vir.


"Ginny..." disse uma voz em seu ouvido. Ela se virou e viu sem surpresa que era Simas. Ele tinha as mãos nos bolsos, e um boné preto puxado para trás sobre seus cabelos claros. Ela percebeu que não tinha propriamente olhado para ele em dias – ele parecia cansado e abatido, mas conseguiu sorrir para ela. "Eu só queria desejar Feliz Natal."

"Oh, Feliz Natal," ela respondeu sem jeito, mas antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa eles foram envolvidos por uma onda repentina de Weasleys. A Sra. Weasley desceu sobre Ginny e a abraçou e beijou, o Sr. Weasley bateu nas costas de Charlie, Percy fez comentários importunos de boas-vindas, e Fred soltou uma miniatura de Fogos de Filibusteiro, que tocava 'Jingle Bells' em um volume irritantemente alto. Apenas George parecia notar a presença de Simas entre eles.

"Ei, Finnigan," ele disse uniformemente.

Simas, parecendo em estado de choque, não respondeu.

A Sra. Weasley soltou Charlie de seu abraço e lançou um olhar amistoso na Simas. "Oh, olá," disse ela. "Você é...?"

"Este é Simas, mãe," disse Gina lançando a sua voz uma oitava acima, para que sua mãe pudesse ouvi-la sobre o som de Jingle Bells. "Ele é do mesmo ano de Ron e ele é batedor da nossa equipe e," acrescentou ela, sem ter a menor idéia do por quê: "ele é meu NAMORADO."

Houve um silêncio assustado. Todos pareciam chocados, mas ninguém mais do que Simas.

"Seu namorado...?" ecoou a Sra. Weasley vagamente.

"Bem, bem," disse o Sr. Weasley, e estendeu a mão para Simas. "Prazer em conhecê-lo, filho."

Alguma cor tinha voltado ao rosto de Simas. "Prazer em conhecê-lo também, senhor", respondeu ele, e apertou a mão do Sr. Weasley firmemente. "Meus pais sempre falaram muito bem de você, especialmente a minha mãe. Ela diz que você é o melhor Ministro da Magia que a Grã-Bretanha teve desde Felonius Plum".

O Sr. Weasley corou de prazer e apertou a mão de Simas com vigor renovado. "Bem, bem," disse ele novamente. "É bom ouvir isso, muito bom ouvir isso. Será vamos ver sua família no casamento?"

Simas balançou a cabeça com pesar. "Não, temo que não. Reformas na casa da família..."

"Casa da família?" ecoou a Sra. Weasley.

Simas sorriu para ela. "Sim, você sabe como esses grandes castelos antigos são, sempre se desmoronando um pouco aqui e ali."

"Castelos?" A Sra. Weasley disse.

"Mãe," Ginny gemeu entre dentes.

Simas deu um sorriso brilhante para a Sra. Weasley, que se comportou de uma maneira geralmente reservada apenas para Gilderoy Lockhart. "A Irlanda deve ser linda no inverno," disse ela gentilmente.

"Ah é, embora faça muito frio," disse Simas, de alguma forma conseguindo soar como se ele achasse a conversa fascinante. "Eu certamente poderia usar um daqueles suéteres maravilhosos que você sempre tricota para Ron e Harry, Sra. Weasley, eu seria a inveja da minha cidade inteira."

Ginny pensou que sua mãe devia estar prestes a se asfixiar de alegria. Ela sabia que a Sra. Weasley era excessivamente orgulhosa dos suéteres que fazia todo Natal. Ela também sabia que Ron anualmente tentava dar seu suéter para Simas, Dino e Neville, sem conseguir. "Que uso eu posso dar para um suéter com um RW grande bordado na frente?" Dino tinha perguntado no último Natal com sua diplomacia habitual.

"Você pode fingir que representa Royal Wanker," Harry tinha sugerido de forma amigável, e então ele e Ron tinham caído de rir e fazendo outras sugestões, cada uma mais rude do que a outra.

Gina saiu de seu devaneio e encontrou sua mãe olhando Simas como se ele fosse uma criança há muito perdida. "Me chame de Molly", ela estava dizendo. "A Irlanda parece realmente adorável. Tenho certeza que Gina iria gostar de visitá-la."

"Mãããããããããããããããe," lamentou Ginny, escandalizada, mas seu pai felizmente já tinha começado a puxar sua mãe em direção à extremidade da plataforma, o que sugeria que eles iam dizer um rápido Oi a Narcissa, Sirius e Lupin.

"Vocês dois digam adeus," a Sra. Weasley sorriu para Ginny e Simas como seu marido levando-a embora. Charlie e Percy os seguiram, e George e Fred saíram para cumprimentar alguns de seus amigos que ainda não tinha se formado.

Ginny virou-se lentamente para Simas, que tinha um sorriso que teria deixado um Malfoy orgulhoso. "Bem," ela disse, em tom acusatório. "O que foi tudo isso?"

Simas abriu bem seus olhos azuis escuros. "O que foi tudo isso?"

"Você, transfigurando-se em Super Namorado".

"Ei, você começou. Eu nem sabia que eu era seu namorado. Teve algum memorando que eu não recebi?"

Ginny subitamente arrependeu-se. "Oh, eu sei, eu sinto muito. Foi horrível. Eu não tenho idéia do que deu em mim."

"Nem eu," disse Simas. "Mas eu espero que isso aconteça novamente."

Ginny olhou para ele rapidamente. Ela poderia dizer que ele estava nervoso, porque quando ele estava nervoso seu sotaque macio irlandês aparecia mais fortemente.

"Estou feliz que você não está com raiva de mim," disse ele.

Ela balançou a cabeça. "Claro que não. Por que você acha que eu estaria?"

"Bem," ele disse, "você não fala comigo há três dias. Eu ainda não tive chance de lhe dar seu presente de Natal."

"Meu presente de Natal?" ela repetiu. "Você tem um presente de Natal para mim?"

"Claro que sim."

"Oh, mas – eu não tenho nada!"

"Está tudo bem," respondeu ele com um sorriso. "Você pode me trazer algo quando sua mãe fizer você me visitar na Irlanda."

"Mas eu me sinto tão culpada..."

"Não fique." Sua voz era firme. "Eu quero dar-lhe isso. Eu estive pensando sobre isso por tempos, e bem... não há ninguém mais a quem eu queira entregá-lo. E foi meio de caro, e iria parecer estúpido em mim."

"É melhor não ser roupa íntima de renda," disse ela.

"Dificilmente. De qualquer forma, eu pareço fabuloso em roupa íntima de renda." Ele enfiou a mão no bolso de sua capa e tirou uma pequena caixa. Não era o tipo de caixa que você coloca livros ou roupas dentro. Era, definitivamente, uma caixa de jóias. Ela hesitou. "Pegue," ele disse gentilmente.

Ela pegou, vagamente se perguntando se sua família estava assistindo a tudo isso e esperando desesperadamente que não fosse um anel. Ela estava esperando muito que não fosse um anel, pois não tinha idéia do que ela faria se fosse.

"Vá em frente," disse ele, "abra-o," e algo ocorreu a ela. Nenhum menino que não era seu irmão já havia dado a ela um presente. Nem uma única vez. Nunca.

Ela abriu a caixa. No interior, sobre uma base de tecidos coloridos, havia uma pulseira. E não uma pulseira de qualquer tipo... a etiqueta fixada declarava ser um Bacelete Encantado Porte Bonheur. Ginny quase deixou cair a caixa. Braceletes eram muito caros e muito famosos, porque cada encanto tinha que ser feito à mão com feitiços complicados, então transfigurado em um objeto que pudesse ser ativado mais tarde. Na verdade, ela nunca tinha conhecido alguém que possuía um.

"Um dos meus tios os faz," disse Simas um pouco timidamente quando ela o tirou da caixa e segurou-o contra a luz. A pulseira em si era uma faixa delicada, mas não extraordinária, de ligas de prata, mas os Encantos eram o que eram de fato interessante – uma minúscula nota musical, um pequeno candelabro de ouro, uma seta em miniatura, um coração de vidro, um prato e uma colher, uma pequena pena, e mais uma dúzia de outros. "Basta jogar o Encanto no fogo para ativá-lo – aqui, deixe-me ajudá-la a colocá-lo..." Ela estendeu a mão e com um movimento hábil, ele o fechou em torno do pulso dela. Ele olhou para ela através de seus cílios. "Você gostou?"

Ginny percebeu que não havia dito uma palavra durante os últimos cinco minutos. "Como eu sou boba," ela suspirou, sem pensar. "Oh, é maravilhoso. – Eu amei ele, e eu –"

Mas sua família estava de volta, surgindo ao seu redor em uma onda de cabelos vermelhos e vozes altas, e agora eles estavam puxando Ginny em direção ao carro. Ela teve tempo de agarrar a mão de Simas brevemente antes de serem separados quando a mãe de Gina levou-a embora, falando com entusiasmo em seu ouvido enquanto caminhavam.

Ginny só entendeu algumas das palavras, "Castelo, tão educado, tão boas maneiras, e tão bonito também!" Ela assentiu com a cabeça sem responder quando ela olhou de volta para a plataforma, observando Simas recuar a distância até que ele se perdeu de vista. Eu amei ele, ela lhe dissera. E ela tinha quase acrescentado que ela o amava também. O que, ela se perguntou, quase a tinha levado a dizer algo que ela estava quase totalmente certa de que não era verdade?


Dois dias depois de chegar à Mansão, Draco estava deitado de costas no meio da sua cama, olhando pela janela as nuvens correndo no céu de inverno azul-claro.

Ultimamente, ele havia decidido que gostava bastante de seu quarto novo. Ele havia inicialmente se irritado quando Harry tinha destruído seu antigo quarto. Então ele se lembrou que nunca gostou muito dele, com sua pesada, feia e escura mobília e sombrias cortinas pretas. (Ele já havia tido memórias carinhosas do guarda-roupa, mas Harry o tinha reduzido a palitos de fósforo.) Assim, ele recolheu os pertences que ele queria e se mudou para uma sala mais ao fundo do corredor, que ele sempre tinha preferido. Ela tinha rodapés de madeira escura, e as paredes eram pintadas de um azul tão leve que era quase cinza. Ela o lembrava do céu de inverno, que ele gostava. Ele também gostava da considerável lareira de mármore ao longo da parede norte – Harry estava certo, Mansão Malfoy poderia ter usado um melhor sistema de aquecimento central. A lareira estava ligada à Rede de Flu, o que tinha se provado, recentemente, ser muito útil.

"Você está me ouvindo, Draco?" A voz de Hermione havia assumido um ligeiro tom de impaciência.

Draco rolou sobre seu estômago e descansou a cabeça sobre os braços cruzados. "Eu faço alguma outra coisa?"

Hermione fez uma careta para ele através das chamas. Ele supunha que não podia culpá-la, sabia que custava dinheiro usar as lareiras no Caldeirão Furado para Comunicação via Flu privada, e o serviço não era o melhor. Ocasionalmente, eles eram interrompidos por conversas de outras pessoas, e no dia anterior, Hermione tinha informado a ele com a cara rosa que tinha sido levado para uma "lareira bastante errada", onde ela tinha visto "coisas realmente chocantes". Para a grande decepção dele, ela se recusou, apesar de ser assediada com perguntas curiosas ("Elas envolviam balões, marmelada, ou uma marmota viva?") para descobrir o que eram essas coisas chocantes.

"Tudo bem então," ela fungou, "o que eu estava dizendo?"

"Você estava," disse Draco num tom entediado, "contando-me sobre Rhysenn e Nicholau Flamel."

"Ah, certo, e os Quatro Objetos Dignos... você sabe que ele foi a última pessoa que já reuniu todos eles juntos?"

"Sim, você me disse isso."

"E então ele foi roubado e os objetos foram espalhados e perdidos –"

"Isto foi antes ou depois que ela morreu – Rhysenn, eu quero dizer?"

"Oh." Hermione consultou um livro que ele não podia ver. "Depois. Embora, como eu lhe disse, ela tenha morrido em 1616, mas essa não foi a última data que ela foi avistada."

"Considerando que a avistei semana passada, eu acho que não, não foi."

"Hmph!" disse Hermione. "Eu quis dizer a última visão histórica."

"Ah, quis é?" Draco falou com voz arrastada.

Ela sorriu, apesar si mesma. "Quis sim."

"Bem, então, me diga um pouco mais sobre estes avistamentos históricos."

Ela disse. Parecia que Rhysenn, que tinha outros sobrenomes além de Malfoy, reapareceu de novo e de novo nas ilustrações dos livros de alquimia que Hermione tinha verificado na grande biblioteca do Beco Diagonal. Ela estava sempre nas imagens da população atrás de um Malfoy ou outro, vestida na moda do dia, imediatamente reconhecível com seu fino rosto pálido e cabelos negros até a cintura.

"Então ela segue os Malfoys, deixando um rastro de sangue, morte e devastação por seu caminho, é isso?" Draco perguntou enquanto Hermione estava no meio de sua recitação. "Isso é encorajador."

"A questão é," Hermione disse, "o que ela quer?"

"Não", respondeu Draco, "a questão é: como é que vamos fazê-la nos deixar em paz?"

"Talvez se nós déssemos o que ela quer, ela nos deixe", disse Hermione.

Draco pensou em Harry no cemitério, doente depois de Rhysenn ter tocado nele, e ao olhar drogado em seus olhos. "Você pode não querer dar a ela o que ela realmente quer."

"Eu estive pensando que o que ela quer deve ser algo que os Malfoy possuem, já que ela parece tão fascinada com a sua família. Existem todos os tipos de exemplos de pessoas que são magicamente ligadas a objetos, incapazes de ficar longe deles. Almas podem ser incorporada em várias relíquias de família, pedras preciosas –"

"Como Encantamentos Epicyclicais", Draco disse.

Hermione suspirou. "Sim, como Encantamentos Epicyclicais".

"Mmm". Draco puxou a capa do edredom. "Qual é a última aparição registrada dela?"

"Em 1824, ela foi contratada como babá para os filhos de Octavian Malfoy – algum tio-avô seu – na Romênia. Ela saiu quando... oh, querido. A mansão que ele estava morando foi incendiada."

"Mais mortes e destruição?"

"Só Otaviano morreu. Voltou para a casa para salvar seus filhos... todos eles sobreviveram."

Houve um curto silêncio. Draco ficou deitado onde estava, olhando sonhadoramente para o fogo que lambia ao redor de Hermione com tentáculos azuis, verdes e violetas escuros. "Eu gostaria de morrer assim," disse ele, um pouco distante.

Hermione derrubou o que ela estava segurando. "Queimado até a morte? Não, você não gostaria, Draco, é uma maneira terrível de morrer."

"Não, não queimado até a morte. Salvando a vida de alguém – se você tiver que morrer, essa é a maneira de fazê-lo, não é? Salvando a vida de alguém?"

Hermione prendeu tanto o ar que sua respiração soou como lenha estalando. "Não diga isso. Não fale sobre a morte assim."

Outra onda de cansaço rolou sobre Draco. "Acho que você não teve nenhuma sorte pesquisando..."

"Seu ferimento? Não," disse Hermione em voz baixa. "Eu estou te dizendo, eu estou reduzido a referência cruzada entre "ferimentos" e "coisas mágicas que brilham" e vendo se eu acho alguma coisa."

"Não é um mau plano," Draco disse uniformemente.

"Você disse que ia ver um medibruxo –"

"Eu tenho uma consulta com um amanhã."

Ela olhou estreitamente para ele. "Você tem mesmo ou está apenas dizendo isso para me calar? E você ainda está tendo aqueles sonhos?"

"Os do Snape com pijamas de coração? Não, graças a Deus."

"Draco..." A voz de Hermione saiu em um lamento. "Honestamente, eu não sei nem mesmo com qual aspecto da sua vida me preocupar primeiro."

Draco foi poupado de responder quando a porta do quarto se abriu com um estrondo, e Harry entrou, carrancudo. "Malfoy, você viu –"

Ele parou, arregalando os olhos com a visão de Hermione na lareira. Hermione se empalideceu, mas não disse nada. Seguiram-se vários momentos de um silêncio muito desconfortável.

"É melhor eu ir," Hermione disse finalmente. "A biblioteca fecha às cinco horas, e eu quero pesquisar por mais algumas horas. Dê minhas lembranças a Sirius," acrescentou ela, e com uma ligeira ondulação, na direção geral de Harry e Draco, ela desapareceu.

Draco rolou para uma posição sentada e olhou para Harry, ainda nem dentro nem fora do quarto. O olhar aflito havia desaparecido de seu rosto; agora ele parecia como se tivesse esquecido o que tinha vindo fazer.

"Está tudo bem, Potter, ela foi embora," disse ele. "Deixa o mau humor."

"Eu não vou ficar de mau humor, é apenas... eu pensei... que a casa dela não estava conectada à Rede de Flu."

"Não está. Ela está no Beco Diagonal no Caldeirão Furado. Ela disse aos pais que tinha uma pesquisa para trabalhar. O que, suponho, é parcialmente verdade. Ela está investigando sobre os Quatro Objetos Dignos. A vida continua, você sabe."

"Certo." Harry finalmente pareceu se decidir, e entrou no quarto, fechando a porta atrás dele. Na pequena mesa ao lado da porta estava uma coleção antiga de soldados bruxos de brinquedo, Harry pegou um desatentamente e fingiu examiná-lo. "Assim, com que frequência você vai falar com ela, então?"

"Todo dia," disse Draco, que não viu nenhum motivo para mentir sobre isso. Eles se falavam todos os dias, hoje tinha sido a primeira vez que a maioria da conversa não tinha sido sobre Harry.

"Ai," disse Harry. Houve um momento antes de Draco perceber que Harry não estava repreendendo-o, mas sim reagindo ao fato de que o bruxo de brinquedo o tinha apunhalado no polegar com a sua varinha. Ele o deixou cair de volta na mesa e colocou seu polegar sangrando na boca, que teve o efeito imediato de fazê-lo parecer ter oito anos. "Bem," ele começou devagar, como se as palavras estivessem sendo arrastadas para fora dele. "Como ela está, então?"

"Podre," disse Draco, muito sinceramente, "vocês dois estão podres; sem comer, sem dormir, jovens frustrados no amor, muito trágico. Aqui, pega emprestada minha pena, pode ir escrever um poema no seu diário sobre tudo isso."

Harry pareceu indignado. "Eu não escrevo poesia," disse ele, sobre seu polegar.

"Bem, talvez agora seja uma boa hora para começar."

"Eu não consigo rimar," Harry disse. "Eu tentei."

"Não é tão difícil," opinou Draco alegremente.

"Ah é?" Harry disse imprudentemente. "Experimente."

Draco sorriu maldosamente e ajoelhou-se ereto sobre a cama, uma mão colocada sobre o coração. "Ai! A dor é minha vida," ele declamou.

Ai! A dor é minha vida
A tensão constante, a luta sem fim!
Hermione não vai ser minha esposa
Porque eu sou uma prostituta tola.
Então agora eu estou ansiando minha ex,
Estou lamentando a falta de sexo,
A varinha do destino lançou um feitiço
Sobre meu coração nobre.
Meu amigo mais querido tem transado com a minha garota –"

"Ele não TRANSOU COM ELA," gritou Harry, tornando-se aproximadamente da cor de uma berinjela. "Eu te odeio, Malfoy, e eu odeio o seu poema estúpido!"

Draco pareceu vagamente ofendido. "Eu estava simplesmente tomando licença artística. Pense nisso, sua vida dá um excelente poema épico – de um modo patético. Eu pergunto o que rima com 'armário' ou com 'noites solitárias de masturbação no dormitório da Grifinória' – ow! OW!" ele gritou enquanto Harry se lançou sobre a cama e o atacou vigorosamente com um travesseiro verde bordado. Seguiu-se uma furiosa mas silenciosa luta, que terminou quando Harry conseguiu dar uma cotovelada no plexo solar de Draco, ao mesmo tempo sentando em suas pernas.

"Retire o que disse," disse ele.

Draco fez uma careta para ele. Eles estavam frente a frente, e Harry estava parecendo ter olhos ainda mais arregalados e cabelos mais selvagens do que o habitual. "Me desculpe, eu disse que você era uma prostituta," disse ele.

Harry ignorou isso. "Você sabe o que quis dizer! Por que você está trazendo à tona – você sabe – Ron e tudo aquilo? Você não deveria estar sendo sensível e amigável e –"

"Sim, bem, eu tentei isso, mas não parece estar funcionando. Então eu pensei que talvez eu devesse apenas continuar mencioná-lo tão rudemente quanto for possível até você ficar dessensibilizado."

"Ah, isso é uma grande idéia. Uma verdadeira campeã mundial."

Draco lutou para sustentar-se nos cotovelos, colocando-se ao nível dos olhos com Harry, que ainda estava de joelhos sobre suas pernas. "Olha, Potter," ele disse uniformemente. "Este casamento é amanhã. E você sabe quem vai estar aqui. Weasley, por exemplo. Metade da Casa Sonserina... – os pais deles são todos amigos da minha mãe. Eu sei que Blaise e Pansy vão estar aqui. Você não vai viver em um mundo onde as pessoas não sabem ou são educadas demais para dizer qualquer coisa, não mais. E do jeito que você está hoje em dia, o primeiro comentário desagradável que qualquer um fizer vai quebrar suas pernas. É melhor você começar a se acostumar agora, e ouvir de alguém que não quer realmente te machucar."

A raiva desapareceu da expressão de Harry como uma vela apagada. "Sabe, Malfoy," disse ele a contragosto. "Você é provavelmente a única pessoa no mundo que pode ser um idiota enorme comigo, então virar e me convencer de que está na verdade me fazendo um favor."

"Sim," concordou Draco, inexpressivo. "Eu sou um floco de neve único e belo."

"Argh," disse Harry, e rolou de cima dele. Ele deslizou suas costas e deitou ao lado de Draco, olhando para o teto. Draco corajosamente revogou seu desejo de dizer a Harry para não colocar os pés sobre a colcha. "Eu acho..." Harry disse lentamente, seu olhar desfocado, "Eu acho que tenho estado um pouco deprimido ultimamente..."

Draco quase caiu da cama. "Um pouco deprimido? Um pouco deprimido?"

"Eu –" Harry começou, mas Draco não estava ouvindo nada.

"Você chama isso de um pouco deprimido? Eu suponho que você diria que os habitantes da Pompéia estavam um pouco surpresos quando o topo da colina local explodiu e os enterraram em cinzas? Ou que a tripulação do Titanic estava um pouco irritada por ter batido num iceberg? Ou que –"

"Eu entendi," Harry interrompeu, contorcendo ligeiramente com aborrecimento. "Então, eu tenho estado deprimido."

"Eu vou te dizer, Potter," Draco confidenciou, "houve vezes ultimamente que eu estive tentado a andar com a Murta Que Geme só para ter alguém otimista com quem conversar."

"Bem, por que se preocupar em andar comigo, então –" Harry começou, irritado, e depois se conteve. Ele mordeu o lábio. "Olha, me desculpe," disse ele mais calmamente. "Eu sei que não foi agradável para você. Não quero parecer como se eu não fosse grato –"

"Grato," ecoou Draco, sua voz com um leve tom de nojo. "Seja como for, olhe –"

"Você acha que eu não percebi o que você fez por mim," disse Harry sem rodeios. "Bem, eu notei. Pode não parecer, mas eu percebi."

Draco sentiu-se de repente auto-consciente. "Eu sei," disse ele. "Olha, eu não estava reclamando – bem, eu estava, na verdade, mas agora você fez eu me sentir estúpido sobre isso. Eu odiei."

Harry quase sorriu. "Preciso de um favor," disse ele. "E é um favor estranho."

Draco piscou. "Esta conversa já teve reviravoltas mais alarmantes do que Snape dançando rumba." Ele deu de ombros. "Eu sou todo ouvidos."

Harry olhou de soslaio para ele, sua expressão aberta e confiante. Era aquele olhar que era muito difícil dizer não, porque ele fazia você querer confiar nele e acreditar que qualquer idéia que ele tivesse era a certa. "Eu preciso que você," disse Harry, "apague as minhas memórias."


"Você não tem escolha quanto a isso, Ronald Weasley," seu pai disse, num tom que indicava claramente que ele não toleraria argumento. "Você me entende?"

"Sim," respondeu Ron, e seu tom era tão implacável quanto o de seu pai. "Mas eu ainda não vou."

"Sim, você vai. Você irá."

"Não," disse Ron. "Não, eu não vou."

Ginny olhou com um apelo mudo para a mãe, que voltou seu olhar com um que era igualmente desanimado. As duas mulheres estavam sentadas juntas na mesa da cozinha Weasley; através da porta aberta para a sala podiam ver Rony e Sr. Weasley. O Sr. Weasley andava furioso para cima e para baixo no tapete da lareira; Ron estava sentado calmamente no sofá, com as mãos balançando entre os joelhos. Sua cabeça estava inclinada, seus cabelos emaranhados caindo para esconder sua expressão.

"Não se preocupe, amor," disse a Sra. Weasley e acariciou a mão de sua filha sobre a mesa. "Seu pai vai fazê-lo ver a razão."

Gina apenas olhou para ela silenciosamente. Pela primeira vez em sua vida sentiu brevemente pena da mãe, que realmente não tinha idéia do que estava acontecendo com seu filho mais novo. Não como a pena que ela sentia por Ron, é claro. Ela não o culpava por não querer assistir ao casamento. De modo algum.

"... Pelo menos me dê uma explicação decente!" Arthur estava trovejando, mudando de Todas As Providências Já Foram Tomadas e Mas Toda A Família Irá para o mais geral, mas ainda eficaz, Não Há Nenhuma Razão Para Este Tipo De Comportamento.

"Eu disse a você," disse Ron em um tom monótono. "Eu tive uma briga com Harry. Ele não vai querer me ver. Vai tornar o casamento todo estranho. Não é justo com Sirius."

A Sra. Weasley suspirou. "Coitadinho," Ginny a ouviu murmurar baixinho. Ela não tinha idéia se sua mãe estava se referindo a Ron ou Harry. É claro que a Sra. Weasley adorava filho mais novo, mas ela também era nitidamente ridícula sobre Harry, preocupando-se com ele como se ele fosse mais um dos seus filhos. Ginny pensou com um sorriso interior que talvez fosse uma coisa boa que ela e Harry nunca tivessem namorado – a mãe dela ficaria do lado dele em qualquer discussão, e ela teria acabado acertando sua mãe na cabeça com uma tábua, ou querendo. Para a Sra. Weasley, a idéia de que Ron e Harry não estavam se falando era tão angustiante quanto Fred e George ou Bill e Charlie não se falarem – uma deformação horrível na teia familiar.

"E eu lhe disse," Sr. Weasley respondeu furiosamente, "que eu recebi uma coruja de Sirius exatamente esta manhã. Ele me disse o quanto eles estão ansiosos para nos ver na Mansão e o quanto, em particular, Harry está ansioso para ver você."

"Sirius tem que dizer disso," Ron disse rigidamente.

"Não, ele não tem! E se vocês dois realmente tiveram uma briga, então talvez esta seja sua chance de corrigir-se. Vocês já brigaram antes. Isso nunca dura."

Ron não respondeu, mas Ginny sabia que ele estava pensando. Isto vai durar.

"Sua ausência iria realmente arruinar a felicidade deste evento para Sirius e Narcisa," Sr. Weasley disse calmamente. "Realmente iria."

Isso estourou na cabeça de Rony. Ele olhou para seu pai. "Você não pode honestamente esperar que eu acredite que eles se importam. Por que fariam isso?" ele disse, e sua voz era tão inexpressiva que não era uma pergunta. "Por que você faria?"

"É claro que eu me importo!" Sr. Weasley começou de forma explosiva. Então, ele ergueu as mãos. "Não consigo falar com você," ele olhava furiosamente. "Não consigo falar com você de modo algum!" Ele girou sobre os calcanhares e saiu pisando duro até a cozinha. Fez uma pausa para olhar para Gina e sua mãe, com o rosto vermelho-tomate. "ADOLESCENTES," anunciou no mesmo tom que os repórteres da rede de rádio bruxa normalmente reservavam para relatar um surto de febre entre os duendes, e lançou se para fora da porta da cozinha, para o jardim.

O rosto da Sra. Weasley era o retrato do desânimo. "Oh, querido," disse ela, olhando ansiosamente para fora da janela para o marido, que tinha começado uma violenta e provavelmente desnecessária desgnomização do canteiro de alfaces. "Suponho que é melhor eu ir falar com Ron."

"Não." Gina se levantou com um suspiro. "Deixe-me ir. Eu acho que entendo o que está acontecendo."

Ela deixou a cozinha sem outro olhar para a mãe, fechando a porta de ligação para a sala firmemente atrás de si. Seria sua imaginação, ela se perguntava, ou a temperatura na sala estava vários graus mais fria realmente que a temperatura do resto da casa? Certamente um frio parecia vir de Ron, que ainda estava sentado no sofá na mesma posição que tinha estavado nas duas horas anteriores – a cabeça para baixo, os ombros curvados. Ela sentou-se no sofá ao lado dele. Ele não se moveu.

"Eu não vou, Ginny," disse ele.

"Eu sei," disse ela. "Mas você tem que ir."

Sua cabeça levantou e ele olhou para ela, a traição evidente em seus olhos. Gina fez uma careta. Quando ela tinha sido onze, o verão após o incidente do diário, ela tinha sido atormentada por pesadelos. Seus irmãos haviam dividido turnos dormindo no chão ao lado da cama para que ela não estivesse sozinha. Seus pais se ofereceram para fazer o mesmo, mas Ginny queria seus irmãos lá. Irmãos são para proteger você. Foi o que eles fizeram.

"Não olhe assim," disse ela. "Você sabe por quê."

"Por causa de mamãe e papai –"

"Não, não por causa de mamãe e papai. Por causa de Harry."

"Harry? Harry é a razão de eu querer ficar longe! Ele não pode me quer lá."

"Não," admitiu Ginny. "Possivelmente não. Mas pense nisso por um minuto, Ron. Harry é famoso. Draco é famoso. Sirius e Narcisa são famosos. Este casamento vai ser um evento de mídia enorme e irão repórteres lá. Se você não for, eles terão uma mina de ouro. 'Melhor amigo de Harry Potter, o filho do Ministro da Magia, foi notável por sua ausência da festa de gala...' "

Ron escondeu o rosto entre as mãos com um gemido. "Não," disse ele. "De qualquer forma, tudo bem, talvez eu tenha de ir ao casamento, mas por que eu tenho que ir um dia mais cedo com o resto de vocês? Eu pensei que o almoço amanhã era para ser secreto de qualquer maneira, não haverá nenhum repórter lá, ninguém sequer sabe sobre ele, exceto as pessoas que foram convidadas."

"Eu sei, Ron, mas não pense que eles não vão perguntar pelo casamento e descobrir quem estava lá no dia anterior."

"Eles não iriam," disse Ron, miseravelmente.

"Eles iriam," Ginny respondeu categoricamente. "Eles vão examinar ao redor também, e eles vão encontrar alguém disposto a falar. E então eles irão respingar tudo sobre as páginas de fofocas do Semanal Bruxa Adolescente exatamente como eles fizeram no terceiro ano com aquele negócio do Krum, e quarto ano com aquilo tudo de Harry e Cho – ...e nenhuma dessas coisas era mesmo verdade. E Harry será humilhado mais uma vez. Você quer isso?"

"Não! Não, claro que eu não quero!" Ron pôs-se de pé e andou até a lareira. Ela estava vazia e fria, não havia fogo aceso. No silêncio momentâneo entre eles, Ginny podia ouvir que tinha começado a chover lá fora. "Se eu pudesse voltar atrás e mudar as coisas, você não acha que eu faria?"

"Não importa. Você não pode," disse ela. "Você não pode consertar o que você fez no passado. Mas talvez você possa fazer o presente um pouco mais tolerável."

"Se você tivesse me dito há um ano," Ron disse baixinho, ainda olhando para a lareira vazia "que eu iria para a Mansão Malfoy nas minhas férias de Natal, para assistir a um casamento, e que Harry estaria lá também, porque ele mora lá agora – e que eu deveria estar feliz com isso, porque todo mundo está – eu teria rido de você. Eu odeio Malfoy. Eu odeio todos os Malfoys e tudo que eles representam. E às vezes, eu ainda me pergunto se Draco é o único além de mim que se lembra de como as coisas costumavam ser. Eu posso dizer pela forma como ele olha para mim – como se ele fosse se vangloriar sobre ele finalmente ter ganhado. Ele sempre quis Harry ao seu lado e agora ele tem. Eu sinto falta dele, Gina –" a voz de Ron falhou, e ela levantou-se para ir até ele, mas ela podia ouvir a viva corrente de dor em sua voz, e tinha medo de que qualquer expressão de simpatia pudesse rachar o último do auto-controle dele. "Eu sinto falta do meu melhor amigo," Ron disse, mais calmamente. "Ele amava o que eu amava e odiava o que eu odiava, e sempre me colocava em primeiro lugar. E agora – agora eu não sei. Se tivéssemos que passar por aquela Segunda Tarefa novamente nesse instante, quem você acha que ele estaria resgatando do fundo do lago? Não eu, isso é certo."

"Ron," Ginny disse suavemente. "As pessoas mudam."

"Eu não. Eu não mudo." Ron olhou para ela e através dela, ela sabia que ele não a estava realmente vendo. "Eu vou," disse ele. "Eu vou para o casamento, por todas as razões que você disse. Mas eu tenho um mau pressentimento sobre isso. Algo está me dizendo que há escuridão a caminho. Coisas ruins vão acontecer – Coisas terríveis."

Ginny ficou subitamente em estado de alerta. "Coisas ruins? Você está só dizendo isso, Ron, ou você viu alguma coisa? Porque se você –"

Ron sorriu amargamente. "Não importa se que eu vi. Não importa o que qualquer um de nós faz. O que há de vir virá e não podemos pará-lo."


Draco sentou-se e olhou. "Você quer que eu o quê?"

"Você me ouviu," disse Harry.

"Uh-huh," Draco disse. "Isso seria selecionar as memórias, ou você quer que todas se vão? Planejando iniciar a vida outra vez como outra pessoa? Vai entrar para o Programa Mágico de Proteção a Testemunhas? Passar o resto de sua vida se perguntando de onde veio essa marca engraçada na sua cabeça, não é?"

"Ahem," disse Harry. "Você está histérico."

"Eu não estou histérico," Draco disse com dignidade.

"Sim você está, e mesmo assim, eu nunca disse nada sobre você tirar todas as minhas memórias. Eu não quero que você tire todas elas, nem mesmo a maioria delas. Eu só quero não me lembrar..." Sua voz sumiu.

Draco se sentou muito reto. Nos últimos sete dias, ele tinha ouvido Harry dizer o nome de Ron apenas uma vez, e isto tinha sido porque ele estava com raiva. Ele não tinha dito o nome de Hermione também, referindo-se a ela apenas como "ela" e "dela" quando absolutamente necessário. Apesar das palavras de luz de Draco sobre dessensibilização ele estava, em um nível interno muito profundo, muito assustado com a reação de Harry a tudo o que tinha acontecido. Ele nunca teria admitido isso para si mesmo ou qualquer outra pessoa, mas ele estava.

"Eu só não quero lembrar de tudo isso," Harry terminou. "Você sabe. Somente esta noite, porque é a festa de Sirius e eu não quero arruiná-la estando depressivo. Eu deveria estar feliz por ele, e eu estou, só que..." Harry fechou os olhos, e por um momento, prendeu a respiração. Olhos fechados, os cílios tocavam os topos das maçãs do rosto em finos traços pretos. "Eu estou tão cansado," disse ele, finalmente, fracamente. "É um esforço tão grande, agir normalmente."

"É apenas uma noite," Draco disse.

"Eu sei," Harry respondeu, abrindo os olhos "e depois outra, e outra depois desta, e eu tenho que passar por todas elas, e eu vou – eu vou. É que esta noite – esta noite é especial. É Sirius, sabe?"

Sua última frase pairou no ar com um som melancólico. Draco realmente sabia. Sirius era mesmo especial, ainda mais agora quando Harry sentia que tinha tão pouco com que contar. Draco limpou a garganta. "Não," disse ele. "Eu não vou fazer isso."

Harry pulou em uma posição sentada e olhou. "Por que não?"

"Porque eu não fui treinado para fazer Encantos de Memória. Porque eles podem sair pela culatra. Você pode perder as memórias erradas, ou perder as suas memórias completamente."

"Mas eu pensei que você – quero dizer, com todo o treinamento de Artes das Trevas que..."

"Encantos de memória não são Artes das Trevas!" Draco quase gritou. "E eu não posso acreditar que você seria fraco o suficiente para pensar que se eles fossem Artes das Trevas eu iria praticá-los em você!"

Harry pareceu espantado. "Eu..."

"Sirius iria me matar, para começar," Draco disse com raiva. "De qualquer forma, pense em como ele ficaria se, no meio da festa, você esquecesse o nome dele ou algo assim."

"Oh, tudo bem. Eu acho que eu te entendi. Mas deve haver alguma coisa..."

"Que tal um Feitiço Animador?" Draco perguntou de má vontade. Internamente era sua opinião de que pedir a Draco Malfoy um Feitiço Animador não era diferente de pedir a Snape uma poção do amor, ou a Filch um bolo de aniversário cor de rosa. "Não poderia lhe trazer muito dano."

Harry deu de ombros. "Você pode fazer um?"

"É magia do terceiro ano! É claro que eu posso fazer um."

"Acho que eu quis dizer: você vai fazer um?"

Draco suspirou. "Contra o meu bom senso, sim eu vou. Mas não agora. Eu preciso procurá-los, e mesmo assim, eu não quero que você por aí sorrindo como um lunático a tarde de toda."

Harry sorriu – de uma forma calma e não como um lunático – e rolou para fora da cama, pousando levemente nos seus pés. "Obrigado. Vou voltar antes da festa, então."

"Que notícia feliz Potter –"

Harry se virou. "O quê?"

"Nada."


A mansão Malfoy era tão grande, Harry pensou, irritado, que ele desejava que Sirius simplesmente desenhasse um Mapa do Maroto para o lugar. Ele parecia ser capaz de encontrar seu caminho razoavelmente bem quando não pensava sobre ele – provavelmente vestígios da poção Polissuco mal sucedida, um eco do pouco de Draco que ainda residia na parte de trás do seu crânio. E ai Malfoy, pensou com um divertimento sombrio enquanto se aproximava do frio cruzamento de dois corredores, por que caminho eu vou?

Ele foi para a esquerda, em parte porque seu instinto lhe dizia e em parte porque Draco estava em sua mente e ele associava Draco a todas as coisas para a esquerda e sinistras. A curva o levou a outro corredor, desta vez iluminado por candelabros de suportes cor jade. Não precisava ser um gênio do nível de Hermione para perceber que ele estava na Ala Verde – tapeçarias verdes pendiam das paredes, e o chão era composto de pedras de mármore branco e verde. Verde, verde e mais verde. Bleh, Harry pensou. Pelo menos ele estava indo na direção certa, porém. A estufa era na Ala Verde.

Ele desviou de um antigo retrato de moldura verde com um ancestral de Malfoy em uma evidente cara azeda e aproximou-se de outro corredor, e lá estava ela, a estufa.

Harry olhou em volta em silencio, maravilhado. Ele sabia que a família de Draco tinha dinheiro. Eles tinham dinheiro, eram quase a família de bruxos mais rica da Inglaterra. Mas ele próprio tinha assumido uma natureza tão abstrata, especialmente nos últimos tempos, que ele realmente nunca tinha parado para pensar, ou notar, os grandiosos interiores da mansão. Provavelmente porque a maioria da casa, embora impressionante, era ornamentada com frieza, sem beleza; a estufa, no entanto, era linda. As paredes eram de vidro colorido, erguendo-se acima da cabeça, e a pálida luz do sol de inverno derramava-se através delas, tornando o ar uma névoa prateada e dourada. Jacintos flutuavam no topo de calmas piscinas de água. Árvores enormes cresciam sobre suas cabeças, envoltas em melancólico musgo; havia palmeiras, samambaias, um pinheiro e uma planta aves-do-paraíso gigante. E, claro, sendo esta a casa dos Malfoy, uma parede era dedicada a plantas carnívoras que Harry reconheceu das aulas de Herbologia: entre eles orvalhinhos, erva-de-manteiga, plantas carnívoras, Vênus Armandilha-de-moscas e erva-vesical.

Ele assobiou entre os dentes, e o som agudo ecoou no vidro. Isto o lembrou de sua tarefa. Atravessando rapidamente o piso da estufa, ajoelhou-se em uma cama que tinha acabado de transfigurar da terra, como um coroinha ajoelhado em uma grade. Ele enfiou a mão no casaco, e começou a tirar os objetos que tinha trazido, um por um, colocando-os no chão de mármore perto de seu joelho direito.

Ele não tinha idéia do que ele estava fazendo, realmente, ele estava seguindo quase totalmente por instinto, mas então o que ele estava tentando reproduzir foi o instante de magia mais instintivo que ele poderia imaginar. Assim, os objetos que ele tinha trazido com ele não tinham sido recolhidos com um propósito específico em mente, exatamente. Eles eram simplesmente o que lhe parecia certo e na hora: a Penseira que Draco tinha lhe dado em seu aniversário e o álbum que Hagrid havia lhe dado cheio de fotos de seus pais. A pena de águia que havia sido presente de Hermione em seu décimo segundo aniversário. O divertido desenho que Sirius havia esboçado para ele, mostrando o time da Grifinória em suas vassouras. Uma carta de Lupin.

Ele queria trazer algo relacionado a Ron também, mas tinha sido incapaz de olhar para qualquer um dos presentes que seu melhor amigo já havia lhe dado. Ele poderia ter forçado a si mesmo, mas isso teria exigido um exame de consciência que ele sentia-se incapaz de fazer. Ele não queria pensar muito sobre o que ele estava fazendo. Pensar poderia destruir a frágil teia que ele estava tecendo aqui, uma teia com amor, instinto e desespero em volta. Era como se as instruções que ele estava seguindo fossem previstas para ele em sonhos. Ele não tinha consultado qualquer livro de feitiços, não tinha ido à biblioteca. Sua boca se contorceu quando ele imaginou como Hermione ficaria horrorizada com o que ele estava fazendo.

Hermione. O pensamento nela trouxe um gosto amargo para o fundo da garganta. Ele olhou para a dispersão de pequenos objetos no chão a seus pés, em seguida, estendeu a sua mão direita. "Apparecium incêndio" ele sussurrou, e um fogo saltou do chão de pedra na frente dele, fazendo-o puxar a mão rapidamente. Era quente, mais quente do que um fogo normal. Ele esperou um momento para ver se ele iria se espalhar, mas este manteve-se contido em um espaço pequeno e inviolável, do tamanho de um círculo feito por seus próprios braços. Mantendo sua mente em branco, ele pegou a pena de águia e arremessou-a no coração do fogo.

As chamas queimaram azuis por um momento. Harry pegou o esboço de Sirius e jogou do mesmo modo. As cartas de Lupin em seguida, a tinta aparecendo preta e brilhante enquanto as páginas desmanchavam-se em cinzas. Harry levantou o álbum de fotos – hesitou por um momento – atirou-o dentro. Lágrimas que ele não percebeu ter derramado, com os olhos ardendo como o fogo, que tornou-se um violento azul, inflamaram-se e saíram, deixando um punhado de cinzas para trás.

Harry pegou um punhado de cinzas, e lentamente a peneirou por entre os dedos dentro da Penseira. Seu coração batia com força contra seu peito. A coisa branca com fumaça incipiente dentro da Penseira tornou-se vermelha, e começou a girar mais rápido, como raivosas nuvens tempestuosas.

Harry enfiou a mão no bolso de trás, e tirou a sua faca de bolso muito usado. Ele balançou a lâmina aberta, envolveu seus dedos em torno dele, estendeu a mão, e apertou com força. Uma dor zunindo prateada atingiu seu braço, e um fio lento de sangue vermelho mostrou-se de seu punho cerrado, derramando-se na Penseira.

A cor vermelha da fumaça intensificou-se. Agora era a cor de sangue velho. Harry sentiu que era hora. Ele deixou cair a faca, e com a mão sangrenta de dentro de sua camisa tirou pequeno frasco de vidro com terra na ponta de seu cordão desgastado. Ele tirou a tampa e derramou a sujeira na Penseira, em seguida, jogou o frasco de lado. Ele ouviu o vidro quebrar no chão de pedra, que soou como a chuva distante.

As próximas palavras que Harry falou deixaram seus lábios sem qualquer pensamento consciente. A fumaça, a tontura de não comer há dias, a dor na mão, e a magia instintiva que ele estava conjurando tinham colocado-o quase em um estado de transe. Nesse estado, sua mente chegou a voltar para dentro de si para o que era quase a sua lembrança mais antiga – sua mãe, inclinando-se sobre ele e cantando baixinho, e a música que ela cantava era uma magia de proteção.

Nenhum exorcisor te prejudicará,
E nenhuma bruxaria te encantará.
Fantasma liberto te evitará,
Nenhum mal chegará a ti.

Houve um som suave, como os fios de uma corda desgastada se partindo sob pressão. A fumaça na Penseira, de repente, disparou para fora da bacia, como uma serpente subindo sob a ministração de um encantador de serpentes. A fumaça vermelha subiu mais e mais, enrolando-se em torno de Harry. Ela enrolou ao redor dele três vezes, com força, e ele sentiu a pressão, como se a fumaça fosse um cordão de seda vinculado a ele – uma vez em torno de sua testa, uma vez em torno de sua garganta, e uma vez em torno de seu coração. Ele ficou, por um momento, cego pela fumaça vermelha, e surdo por ela também. Ele viu apenas sombras escarlates, ouviu apenas o bater do próprio coração.

Em seguida, o silêncio foi quebrado. Ele ouviu uma voz dentro de sua cabeça. Ela falou com ele como ele tinha pensado que apenas Draco poderia falar: sem palavras, mas dizendo tudo.

Está feito. Você está protegido.

E a fumaça desapareceu, canalizando de volta para a Penseira como a água que está sendo sugada de volta para baixo por um dreno. Dentro de um momento, a fumaça voltou a sua cor anterior, e a Penseira parecia exatamente como tinha estado uma hora antes, totalmente intocada.

Harry piscou e engasgou no ar – sua garganta queimava por respirar a fumaça acre, e seu rosto estava viscoso onde suas lágrimas fizeram linhas na sujeira e fuligem que o cobriam. Sentiu-se exausto, mas estranhamente aliviado. Lentamente, ele abaixou a cabeça, e descansou em sua mão sangrenta. Está feito, disse a si mesmo, ecoando a voz em sua cabeça. Estou protegido. Agora posso fazer o que eu tenho que fazer. O que eu nasci para fazer.

Agora posso matar.


Hermione esfregou as costas de sua mão sobre os olhos, cansada. Era a terceira tarde que tinha passado dentro da Biblioteca Memorial Thoon Althea no Beco Diagonal. Ela nunca pensou que iria se sentir desse jeito, mas ela estava farta do interior da biblioteca. Provavelmente porque sua pesquisa não estava chegando a lugar nenhum.

Hermione sempre foi capaz de enterrar-se no trabalho, quanto mais complicado melhor. Mas ela nunca tinha estado tão preocupada como ela estava agora – pensamentos de Ron e Harry enchiam sua mente, agravados pela preocupação com Draco, que parecia pior a cada vez que ela falava com ele – e ninguém mais notou? Eles não se importavam? Ela sabia que ele era inteligente o suficiente para esconder as coisas de Sirius, mas e Harry, a única pessoa que deveria saber, instintivamente, a única pessoa que poderia realmente ser capaz de obrigar Draco a fazer algo sobre isso. Ela ansiava por mandar uma coruja a Harry, mas ela sabia perfeitamente bem que ele rasgaria qualquer carta que ela enviasse sem lê-la. Ah, cabeça dura. Droga.

Ela olhou para cima e em volta dela e suspirou. As paredes da biblioteca eram feitos de painéis de mogno, muito escuras, e com pinturas de bruxas e bruxos famosos penduradas. Hermione tinha tomado um assento debaixo de um retrato de Rowena Ravenclaw em vestes azuis, esperando que isto a inspiraria. Em vez disso, ela fora assombrada pelo sentimento persistente de que Rowena parecia desapontada com ela.

Ela se levantou, esticou os músculos doridos, e andou até o catálogo de cartões flutuantes ao longo da parede leste. Ela já tinha pedido às traças (ou ratos de biblioteca/ leitores ávidos) para fazerem pelo menos quatro pesquisas para ela, e estava bastante certa de que eles estavam cansados de seus pedidos – era difícil dizer, porém, quando se tratavam de vermes, sendo extremamente inteligentes, mágicos, e um pouco confusos.

Um deslizou ao longo ao longo do topo do catálogo e acenou suas antenas de um dourado pálido para ela, com curiosidade. Hermione suspirou de novo. Ela já tinha feito pesquisas sobre veneno, ferimentos, sangue, brilhos, prata, feitiços de fraqueza/debilitação e fosforescente. Ela não tinha chegado a nada – não parecia haver uma poção ou veneno que fizesse o sangue brilhar. Havia poções que faziam a pessoa brilhar, e vários feitiços cosméticos que prometiam pele brilhante e revitalizada, mas ela tinha a sensação de que este não era um feitiço cosmético que tinha saído horrivelmente errado. (Embora, com Draco, tudo fosse possível.)

A traça acenou suas antenas impacientemente. Hermione suspirou de novo e fez sua última tentativa, "Você poderia pesquisar na seção de Armamento Mágico para mim? Eu quero saber quais armas têm brilho próprio, ou causam ferimentos que são brilhantes."

As antenas acenaram novamente, e a traça se contorceu ativamente para longe. Hermione o assistiu partir, reprimindo um bocejo. Ela sabia que poderia demorar várias horas para a traça vasculhar todos os livros da seção de Armamento, e ela estava mesmo terrivelmente farta de estar em ambientes fechados. Com um decidido encolher de ombros, ela voltou para sua mesa, pegou sua capa de lã azul, e correu para fora das portas da biblioteca para o sol de inverno fraco.

No Beco Diagonal, uma multidão estava em atividade. Havia menos de cinco dias para o Natal, e parecia que todos os bruxos da Inglaterra haviam descido para o labirinto estreito de ruas comerciais do beco. Fitas flutuantes, vermelhas e verdes, cobriam os altos lampiões de metal, pequenas estatuetas encantadas de anjos dourados tremiam nos topos das árvores de Natal. Centenas de corujas voavam no ar, carregando pacotes estampados com o logotipo do SMP (o Serviço Mágico Postal, para aqueles que não têm suas próprias corujas – as corujas tinham fama de perder pacotes em rota, e Ron tendia a chamar o SMP de "Shhmp" como apelido). Hermione passou por uma banda de metal tocando energeticamente "Leal Acaso" ao dobrar a esquina da Alameda Petticoat.

As vidraças da alameda eram dedicadas agora à exposição de bonitos vestidos de inverno e vestes a rigor. Hermione diminuiu seu ritmo, olhando pelas janelas. Ela nunca tinha estado terrivelmente interessada em roupas, e ainda não estava – ela gostava de uma boa aparência, limpa e apresentável, e de vez em quando para usar uma saia moderna ou suéter, mas a triste verdade era que tudo o que ela possuía tinha tendência a manchar de tinta depois de um tempo. Ela gostava de coisas bonitas, mas nunca parecia ter tempo ou inclinação para trabalhar incansavelmente em sua aparência da forma como Blaise ou Pansy faziam, a menos que fosse uma ocasião especial.

Ter em sua vida Harry como namorado a tinha feito pensar mais sobre sua aparência, mas agora... ela olhou para seu reflexo na janela da loja mais próxima e suspirou. Cabelos emaranhados, rosto sujo, suéter nubby de idade e pregas em sua calça. Ugh. Seu olhar voou para cima, para os vestidos na vitrine. Ela estreitou seu olhar. Hermione odiava vestidos de festa espumantes, cobertos de rendas ou contas ou montes de flores a deixavam enjoada. Mas estes eram realmente bastante agradáveis – em claras linhas retas e cores de jóias, vermelho-escuros, verdes e azuis. E ela precisava mesmo de um vestido para o casamento. E ela não queria chegar parecendo que tinha sido arrastada por uma selva de Samambaias Esvoaçantes, já que Harry iria estar lá. Ela pretendia parecer fabulosa e varrê-lo com um olhar altivo para esmagá-lo como um inseto. Bem, ela não queria esmagá-lo, realmente. Talvez apenas achatá-lo um pouco. Amassá-lo, talvez.

Estava decidido. Hermione ergueu os ombros e empurrou a porta da loja aberta, alisando o cabelo para baixo melhor o que pôde com a mão enluvada. Ela sabia que não tinha sua melhor aparência, mas era pouco provável que ela encontrasse por acaso qualquer um que conhecesse.

Improvável, mas aparentemente não impossível. Hermione deu alguns passos na loja, seus olhos se ajustando à pouca luz. Lâmpadas de sombras rosadas jogavam um brilho rosa por cima de tudo: vestidos elegantes eram exibidos como bombons em caixas de vidro e penduradas nas paredes. Haviam ousados vestidos curtos, bainhas pretas, longas e dramáticas, e vestidos de confecção rosa com bainhas de renda. Mais perto da janela, uma menina morena de cabelo curto estava de pé pacientemente, enquanto uma bruxa alta com um firme coque cinza habilmente aplicava Feitiços de Fixação na bainha do seu vestido rosa.

O sino soou quando a porta fechou atrás de Hermione, a bruxa alta se virou. "Olá, querida", disse ela. Sua voz era fria e distante, contrariando suas palavras quentes. "Eu sou Madame Magsby, e esta é a minha loja. Se você esperar, eu estarei com você em um momento."

Hermione não respondeu, ela estava muito surpresa. Pela a menina de vestido rosa, que tinha se virado, e estava olhando para ela com um olhar de horror absoluto em seu rosto.

Era Pansy Parkinson.


Draco estava de pé se examinando no espelho que estava pendurado do lado de dentro da porta de seu guarda-roupa. Ele parecia bem – mas este era um elemento garantido. Ele sempre parecia bem. Ele provavelmente possuiria a mesma quantidade de arrogância natural se tivesse nascido simples ou até mesmo infeliz de aparência, o fato de que a sua arrogância parecia sensata, era justificada, era algo em que ele raramente pensava. Os Malfoys eram uma família de boa aparência e sempre tinham sido. Garotas começaram a olhar para Draco (e alguns meninos também) na altura de seus quinze anos; antes disso, como sua mãe gentilmente dizia, ele não havia crescido o suficiente ainda. Ele sempre tinha sido pequeno e leve, como Harry, e tinha começado a crescer no mesmo tempo que Harry. Ele suspeitava que ele mesmo quisesse isto – ele não teria suportado ser mais baixo do que Harry Potter.

Ele fez um ajuste minúsculo na gravata, inclinou a cabeça, e deu um último olhar de crítica a si mesmo. Ele não tinha certeza do que deveria vestir para uma despedida de solteiro que não era realmente uma despedida de solteiro. Sirius tinha sido muito claro sobre este ponto. Não haveria bruxas nuas saindo de bolos, ele disse – apenas uma noite tranqüila no Hotel Frio Natal com amigos e alguns dos moradores de Malfoy Park, de quem Sirius estava esperando se tornar mais amigo. Os habitantes do Parque sempre tiveram uma relação delicada com os da Mansão Malfoy, e Sirius estava esperando que as coisas pudessem ser consertadas. Draco sabia que Sirius estava fazendo isso para seu próprio benefício, e estava agradecido. A idéia de Sirius no Hotel Frio Natal também fez Draco sorrir – o Hotel tinha sido um marcante lugar de seu pai relaxar por anos.

"Pare de brincar com sua gravata," disse uma voz atrás dele. "Você sempre mexer com ela e ela sempre acaba do mesmo jeito."

Ele virou-se. Harry estava de pé na entrada, um olhar indagador no rosto. Usava calças azul-escuras Kenneth Troll e um pulôver cinza-claro sob um longo manto de lã de inverno; Draco reconheceu a roupa como uma das que ele tinha sugerido Harry a comprar. Harry não tinha senso de moda de sua autoria, Draco pensou, mas pelo menos ele podia receber instrução.

"Pelo fantasma de Merlin," Draco murmurou. "Você nunca bate?"

Harry pareceu indignado. "Eu bati. Você estava ocupado demais admirando seu próprio reflexo para perceber."

"Bata duas vezes, então. Não se limite apenas a vir valsa dentro. O que você teria feito se eu tivesse sentado aqui nu, cobrindo-me em pudim de tapioca?"

Um olhar alarmado passou pelo rosto de Harry. "Eu não sei, é o tipo de coisa é provável que você faça?"

"Eu posso," Draco disse arrogantemente. "É o meu quarto, eu posso fazer o que eu quiser nele."

"Bem," Harry disse diplomaticamente "para ser honesto, eu teria que dizer que eu acho que você é muito estranho."

Draco o encarou.

"Além disso," Harry acrescentou. "Você odeia tapioca."

"Eu acho que você está perdendo o ponto."

"Ah, você tinha um ponto? Sinto muito, deve ter ficado enterrado sob todos os pudins."

"Ahem." O som de uma tosse educada interrompeu seu discurso. "Eu não vou nem perguntar do que se trata." Era Narcisa, olhando pela porta aberta e parecendo divertida. "Draco, querido - alerta de cinco minutos. Sirius está esperando por vocês dois lá embaixo."

Ela saiu com um sorriso. Harry olhou ansiosamente para Draco. "É melhor nós fazermos isso agora," disse ele.

"O quê? Ah – o Feitiço Animador. Sim, tudo bem. Vem cá." Draco suspirou e pegou sua capa de inverno, dando de ombros, enquanto Harry veio devagar pela sala em direção a ele. "Você tem certeza disso?"

Harry parou na frente dele. "Sim, eu tenho certeza. É apenas um feitiço, de qualquer maneira."

"Tudo bem." Draco terminou de fixar o broche em forma de grifo na frente de sua capa, empurrou as mangas para cima, e observou pensativo Harry por um momento. "Feche os olhos," disse ele.

Harry parecia preocupado.

"Potter," Draco disse com uma voz de alerta.

Harry suspirou e fechou os olhos. Draco estendeu a mão e colocou seu dedo indicador hesitante nas têmporas de Harry; Harry não reagir, apenas abaixou a cabeça então seu cabelo escuro caiu para frente sobre as mãos de Draco. O cabelo estava molhado, e os fios estavam frios na pele de Draco. Logo abaixo das têmporas de Harry havia manchas de fuligem; Draco se perguntou o que diabos era aquilo.

"Fique parado," Draco ordenou, e pensou o máximo que podia em coisas alegres – quanto mais alegres os pensamentos do mago, mais eficaz o feitiço, neste caso. Ele pensou determinadamente em vitórias no Quadribol, presentes de Natal, piadas divertidas... o olhar no rosto de Simas quando, em algum lugar na Irlanda, ele abrisse seus presentes de Natal e descobrisse que um benfeitor anônimo enviou-lhe um novíssimo conjunto de pás...

Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca de Draco. Ele inclinou sua cabeça e se concentrou tanto quanto podia em deixar clara seu desejo em um ponto tão fino quanto a ponta de uma faca, tão forte quanto adamantina inflexível. Tenso como se um arco bem esticado estivesse amarrado mantendo seus nervos juntos, ele fechou os olhos.

"Felicitus," disse ele.

Ele sentiu a magia deixar as pontas dos seus dedos como uma respiração exalada. Harry enrijeceu; Draco deixou as mãos caírem e recuou.

Os olhos de Harry estavam arregalados. "Uau," disse ele.

Draco deu-lhe um olhar estreito. "Por que 'uau'?"

Harry sorriu. Era um sorriso feliz, cheio de vida e luz e alegria; o tipo de sorriso que ninguém poderia fingir. "Incrível," disse ele.

"Incrível...?" Draco repetiu.

"Eu sinto como se um peso de mil quilos tivesse sido tirado de mim," Harry disse, olhando para si mesmo, depois para Draco. "Eu me sinto – normal. Obrigado, Malfoy." Ele olhou para Draco com olhos largos. "De verdade. Obrigado."

"Claro, " disse Draco. Um sentimento de vaga inquietação tinha se enraizado nele. "Ainda bem que funcionou."

"Funcionou..." Harry parecia estar sem palavras e, possivelmente, a ponto de distribuir abraços, flores, coelhinhos e só Deus sabe o que mais. Draco recuou às pressas, pegou suas luvas na mesa e gesticulou para Harry.

"Nós deveríamos ir," disse ele. "Não é o seu pai adotivo esperando por nós lá embaixo?"

"Certo, certo." Harry acenou com a cabeça e se dirigiu para a porta. Ele parou lá, mão na maçaneta e girou para olhar para Draco. "Você fez uma coisa boa, Malfoy," ele disse simplesmente.

Draco fez uma pausa e olhou para ele, deteve-se no ato de pôr as luvas. Os olhos de Harry estavam cheios de luz, ele não o tinha visto assim em meses. Ele não tinha certeza se Harry estava olhando para ele ou através dele – O que ele está vendo? Não a mim, alguém melhor do que isso.

"Espero que sim," Draco disse, e seguiu Harry para fora da sala com um inabalável sentimento de profunda desconfiança.


"Oi," disse Hermione, depois de um momento muito estranho tinha passado. "Oi, Pansy."

Pansy não respondeu. Hermione olhou para ela com espanto. Todo o sangue do rosto da outra garota tinha fluído de seu rosto e a brilhante e bela cor de seu vestido se destacou em contraste gritante com sua pele pálida. Seus olhos castanho-escuros estavam arregalados de horror, como se Hermione fosse algum fantasma assombroso.

"Acho que vocês duas se conhecem," disse a bruxa com o apertado coque cinza, parecendo divertida.

"Estamos no mesmo ano," disse Hermione, ainda olhando para Pansy.

"Em Hogwarts?" a bruxa perguntou.

"S-sim," disse Hermione, uma vez que Pansy parecia estar atordoada em silêncio. Uma idéia estranha estava começando a tomar forma na cabeça de Hermione. Mas não. Isso era ridículo. "No ano sétimo."

"Suponho que você também estará presente no casamento Malfoy-Black no sábado?" a bruxa começou, mas desta vez a Pansy interrompeu.

"Você vai ao casamento? Eu pensei que você –" Pansy começou, então estalou os lábios fechados. A cor tinha voltado para seu rosto em uma inundação, ela estava tão cor de rosa quanto uma das rosas em seu vestido. "Quer dizer, depois de –"

"Claro que eu vou," disse Hermione uniformemente, lutando para esconder seu aborrecimento. Não era inteiramente surpreendente que Pansy sabia do seu rompimento com Harry – certamente toda a escola sabia disso. Ainda assim, foi rude Pansy mencioná-lo. Mas então, quando Pansy não tinha sido rude? "Eu nem sonharia em faltar o casamento de Sirius".

"Bem," Pansy disse, sua voz estranhamente estridente, "Apenas um conselho: parece um pouco patético aparecendo na casa da família de um cara que acabou de te deixar com você. Eu não faria isso se eu fosse você."

Hermione demorou cerca de quatro segundos para ficar absolutamente rígida enquanto digeria a observação verdadeiramente espantosa de Pansy. Quando ela falou novamente, sua voz tinha uma nota rouca, como se estivesse lutando para mantê-la uniforme. "Eu não gosto de você, Pansy, e eu nunca gostei," disse ela. "Mas parece-me que ultimamente você tem sido ainda mais cruel do que o habitual. Qual é, exatamente, o seu problema comigo?"

As feições de Pansy se espessaram, seus olhos endureceram e se apertaram, quase se juntando. "O que te importa," ela assobiou, e a costureira que estava ajeitando seu vestido deu um passo para trás, as sobrancelhas levantadas. "Você, com sua vidinha perfeita e seu namorado perfeito, e Ron e Draco babando em cima de você como se você fosse especial, o que você não é. Você os trata como se eles fossem menos do que você, e eles são bruxos puro-sangue. Como você se atreve? Sangue-ruim!" ela gritou para Hermione, num paroxismo de raiva abandonada. "Sangue-ruim!"

"Pansy, já ocorreu a você que nenhum daqueles meninos gosta de você porque você é uma completa vagabunda?" Hermione explodiu enfim, farta. "Eu não os trato como eles fossem menos do que eu, mas eu não babo e adulo só porque eles são meninos, e puro-sangue – você bajula até mesmo Ron, e ele te odeia –"

Pansy gritou em voz alta, e pareceu por um momento que ela fosse atirar-se em Hermione, mas Madame Magsby a pegou e segurou suas costas. "Já, já, querida," disse ela. "Você vai danificar o material."

"Você é patética!" Pansy gritou para Hermione, com os olhos molhados. "Pendurando Potter e Draco atrás de você como se você tivesse todo o tempo do mundo para se decidir, você acha que todos nós não olhamos para eles e rimos? Você fez deles uma piada, e eles estão bruxos de sangue puro, além do mais. Todo mundo acha você tão especial e inteligente – bem, eu vejo através de você. Só porque você é popular e é monitora não significa –"

"Você quer resolver isso com um duelo? É isso que você quer?" Hermione a interrompeu, sua voz se elevando. "Eu duelo com você, Pansy – Eu duelo com você, e quando eu terminar com você não sobrará o suficiente de você para encher um pastel de abóbora!"

"Oooh," disse Senhora Magsby. "Eu amo um pastel de abóbora."

Pansy começou a chorar. Como Hermione olhava com espanto, ela rasgou-se longe da costureira, correu pela sala, e atirou-se em um dos compartimentos de vestir. A porta fechou atrás dela, e som de choro alto era audível.

"Honestamente!" disse Hermione, para ninguém em particular.

"Bem, bem," disse Madame Magsby, um pequeno sorriso cruzando seu rosto. "Muito impressionante, minha querida. Gostaria de experimentar um vestido agora?"

"Eu..." Não havia que Hermione quisesse menos. Ela queria voltar para o Caldeirão Furado, pegar um travesseiro e chorar. Mas ela estava determinada a não deixar que uma esnobe como Pansy expulsá-la da melhor loja da Alameda Petticoat. "Acho que posso."

"Bem, fique aqui perto da janela, então, e tire esse cardigan. É assustador."

Hermione fez o que ela foi propunha, e logo foi envolta em camadas de um material de chiffon de pêssego dourado impresso com pequenos pássaros. Ela se sentia tensa, esperando Pansy emergir da sala de vestir, e Madame Magsby continuava enfiando alfinetes em seu pescoço. Hermione segurou seus cabelos longe da gola do vestido dela e deu um suspiro martirizado.

O sino na porta da frente da loja soou. Hermione esticou o pescoço e foi recompensada com outro alfinete no pescoço. Uma bruxa alta, de aparência elegante tinha entrado na loja. Ela tinha um rosto firme e atraente e cabelos loiros cheios de laquê. Seus olhos examinaram a sala rapidamente, pousando em Hermione. "Querida, você –" ela começou, então parou. "Você não é minha filha", disse ela, como se Hermione a tivesse ofendido pessoalmente de alguma forma.

A porta do vestiário abriu-se. "Mamãe!" exclamou Pansy, e correu em direção à bruxa alta. "Você está atrasada."

Sra. Parkinson olhou para sua filha com diversão. "Você não pode estar levando todos aqueles vestidos, Pansy."

"Oh," Pansy engasgou, e olhou para a pilha de roupa que ela tinha retirado do vestiário. "Não, eu – eu –"

"Decida rápido, querida, seu papai está esperando na Fonte de Beleza Nutkin, ele acabou de entregar um carregamento e você sabe como ele detesta esperar."

"Eu vou – Vou levar este aqui," declarou Pansy, e agarrou um vestido da pilha, obviamente, ao acaso: era um verde pálido hediondo com punhos e gola de babados. Ela jogou o resto deles sobre o dorso de uma cadeira acolchoada.

"Ele serviu?" perguntou a mãe, "parece um pouco –"

"Ele serviu bem, mamãe," disse Pansy, tão obviamente ansiosa para sair, mesmo que sua mãe percebesse.

"Muito bem," a Sra. Parkinson suspirou. Ela olhou para Madame Magsby, "Ponha na nossa conta," declarou ela, pegou o vestido de sua filha, e varrendo majestosamente a loja como um barco que partem de um porto à vela cheia.

Ela é a garota mais estranha, Hermione pensou, quando a porta bateu atrás de Pansy. Agora, sobre o que era realmente aquilo?


O sol estava se pondo em uma torrente de ouro e sangue do lado de fora das janelas do Hotel Frio Natal: um pôr-do-sol da Grifinória. Sirius o assistiu através das janelas de vidro-diamante em seu lugar no bar ao lado de Lupin, e sentiu que tudo estava bem com o mundo.

"Experimente um pouco de vinho de olmo," disse Lupin, e empurrou um copo em sua direção. Estava cheio de um líquido cinza claro que brilhava como a pérola-mãe e cheirava vagamente a meias. "Bruxos da Romênia juram por isto."

"Eu aposto que eles juram", disse Sirius com profunda desconfiança. "Eu aposto que eles dizem 'Que diabos é essa coisa?'"

"Verdade," disse Lupin. "Só eles dizem em romeno." Ele sorriu e seus olhos cinzentos brilharam. "Vamos lá, você tem que experimentar. O prefeito comprou uma garrafa inteira em sua homenagem."

Sirius resmungou consigo mesmo. Essa reunião em particular tinha sido uma espécie de ato político, juntamente com um social. Ele tinha convidado o Prefeito e o oficial de justiça da cidade de Malfoy Park, uma vez que o município nunca tinha se dado muito bem com a Mansão – Lúcio tinha os mantido esmagados sob suas botas de ferro. Ele estava esperando que eles tivessem um melhor relacionamento com atuais ocupantes da mansão, e convidá-los para a festa parecia ser um passo na direção certa. Ele agora acenou para o bar, para o prefeito – tanto ele como o oficial de justiça eram homens de rosto cinza, altos, parcimoniosos – e estendeu a mão para o copo de vinho de olmo.

Ele bebeu. "Eca," disse ele em voz baixa, e abaixou o copo.

Lupin riu. "Antes você do que eu."

"Eu pensei bruxos romenos juravam por isso?"

"Eles juram," disse Lupin agradavelmente. "Mas bem, eles também comem morcegos."

"Você está morto para mim," disse Sirius. "Espero que você saiba disso."

Lupin riu novamente, e soprou em seu charuto. Fumaça azul girou para cima vinda da ponta deste. "Você poderia ir sentar-se com Snape," disse ele. "Ele parece entediado."

"Ele não está entediado. Ele está jogando dardos."

"Ele é péssimo em dardos. Ele sempre foi péssimo em dardos. E ele usa 'Expelliarmus' para enganar."

"Certamente ele não faz mais isso."

"Shh..." disse Lupin.

Sirius se calou. Um momento depois, um leve "Expelliarmus!" podia ser ouvido dos fundos do bar, e ele olhou para cima para ver um dardo ir de volta para a mão de Snape.

"Ele é um desastre," disse Sirius, impressionado.

"Ei," disse Lupin. "Você o convidou."

"Eu convidei todo mundo aqui," disse Sirius. "Parece que eu conheço um monte de ratos, não é?" Ele sorriu polidamente e acenou para o prefeito no bar novamente. O prefeito acenou de volta, o oficial de justiça, Sr. Stebbins, apenas o olhou, carrancudo. "Viu o que eu quis dizer? Ratos."

Lupin apontou. "Eles não são ratos."

"Quem?"

Lupin apontou novamente, e desta vez Sirius seguiu seu gesto e viu que ele estava apontando para Draco e Harry, que estavam sentados afastados do resto, perto da enorme lareira de pedra que ocupava a maior parte da parede sul. Sirius não tinha ficado particularmente surpreso que eles quisessem se sentar fora sozinhos, pois eles eram 15 anos mais jovens do que o resto da festa, afinal de contas, e Harry especialmente estava muito calmo ultimamente.

Sirius sorriu. "Não," disse ele, virando-se para estudá-los mais de perto. "Não, eles não são."

Os dois rapazes estavam sentados lado a lado em um dos longos sofás cobertos de travesseiros, ambos olhando para o fogo, ambos em silêncio, pelo menos aparentemente. Sirius sabia, no entanto, pelas expressões concentradas dos rostos de ambos, pelos meio-sorrisos que apareciam em suas bocas ao mesmo tempo, causados por alguma piada invisível e inaudível, que eles não estavam em silêncio de modo algum, pois eles estavam falando, habitando num mundo fechado onde só eles podiam ouvir a conversa. Como qualquer adolescente, ele pensou com diversão, eles têm seu próprio mundo particular – levar o segredo do adolescente comum ao seu extremo lógico, pareceria muito com isso.

Não, é claro, que eles eram pessoas comuns, todos os dois. Sirius olhou com mais cuidado. As velas e as tochas nos suportes, juntamente com o fogo da lareira, pareciam atingi-los em uma rede de escura luz dourada, transformando as bebidas em suas mãos em jóias transparentes. Ele não podia ver os detalhes do que eles vestiam realmente, apenas que eles estavam vestidos de forma semelhante, com roupas escuras de material caro, elegantemente cortado. Era um pouco estranho, ou talvez apenas interessante, que Draco, que sempre tinha sido tão cuidadoso com sua aparência, tinha recentemente deixado o cabelo crescer de qualquer jeito por muito tempo, enquanto Harry, que sempre parecia como se tivesse se vestido no escuro e cortado seu cabelo com uma tesoura de unhas, finalmente parecia ter algum entendimento e apreciação por roupas: o que ficava bom nele e o que não ficava, que cores combinavam ou não com ele. Vestia-se bem agora. Eles ainda tinham algumas manias em comum, embora quem imitou de quem, Sirius não sabia dizer. Tudo isso contribuiu para a peculiar justaposição de igual e desigual que os caracterizava quando eles estavam juntos. Escuro e claro, luz e sombra: duas metades de um todo imperfeito.

"É engraçado vê-lo parecendo um pai," disse Lupin.

"Não é tão engraçado quanto vê-lo fumando um charuto."

"O truque é não inalar."

"Como já me disseram." Sirius olhou para o lado de Draco e Harry e de volta ao seu amigo. "Eu pareço um pai, então?"

"Bem, você parece um pouco como eu me lembro que meu pai parecia. Satisfeito e preocupado ao mesmo tempo. Claro, meu pai tinha razão para preocupar-se."

"E eu não tenho razão para me preocupar?"

Lupin fez uma careta para seu charuto e falou calmamente. "Não. Você não. Eles são muito especiais, seus meninos."

"Meus meninos? É, acho que eles são," Sirius disse. Ele esperou um momento, pensando em como ele se sentia sobre isso, e decidiu que ele se sentia bem. "Não são meninos por muito mais tempo."

"Oh, eu não sei." Lupin colocou o charuto para baixo, ainda franzindo a testa. "Eles são muito jovens."

"São e não são. Quero dizer... olha pra eles."

"Eu já vi. Parece que eles estão se divertindo."

"Não foi isso que eu quis dizer. Eu quis dizer, pense em tudo com que eles já lidaram. Perdas, morte dos pais, decisões difíceis..."

"Eu sei. Estou feliz que eles têm um ao outro para conversar." Lupin sorriu. "Lembra quando éramos daquela idade e costumávamos conversar sobre tudo?"

Sirius balançou a cabeça. "Eu me lembro. Gostaria de saber o que estão falando agora? Algo sobre o significado da vida e da morte, tenho certeza..."


"Não é uma estúpida bebida feminina," disse Draco.

Harry bufou, e no processo, quase inalou o resto de sua bebida pelo nariz. "É sim, muito. Olhe para ela. É cor de rosa. Por que você bebe essas coisas? Ela ainda tem um gosto ruim."

Draco olhou para a bebida em sua mão. "Não tem um gosto ruim."

"Ah, é?" Harry colocou sua própria bebida em cima da mesa, estendeu a mão, arrancou o copo de Draco de seus dedos submissos e o esvaziou. Ele tossiu, fez uma careta, e entregou o copo vazio de volta para Draco. "Tem gosto de fluido de isqueiro," Harry disse. "Fluido de isqueiro com o açúcar."

Draco lutou contra a vontade de mostrar a língua. "Não é tão doce."

"É doce, tem gosto de frutas, é rosa – vem em um pequeno copo pomposo –"

"Ah, tudo bem!" Draco gritou. "Eu não sabia que Mai Tais eram rosa! Eu pensei que eles eram verdes! É por isso que eu pedi desta vez – e agora não podem voltar! É coisa minha! É a minha bebida de assinatura."

"Posso apenas dizer que você é um imbecil por ter uma bebida assinatura? Quero dizer, você tem dezessete anos, você deveria ser autorizado a mudar de idéia. Qual é o próximo? Roupas de assinatura, vassouras de assinatura, endossamento das linhas de produtos, em breve você será tão idiota que ninguém será capaz de te suportar –"

"Obrigado, Potter. Muito obrigado por esse voto de confiança no meu futuro."

"Martinis de maçã," disse Harry.

"O quê?"

"Martinis de maçã são verdes. Eu estou quase certo."

"Sério?"

Harry sorriu. "Sim, sério." Ele acenou com a mão em uma bandeja de prata passando levitando. "Martini de maçã," disse ele, e um copo de coquetel apareceu. O líquido dentro era, na verdade, verde pálido. Ele entregou o copo a Draco.

"Harry Potter?" Draco disse, aceitando o drinque.

"O quê?"

"Eu achei que eu já era tão idiota a ponto de ninguém me suportar."

"Ah, cala a boca, Malfoy, e beba a sua bebida."


"Então ele já sabe sobre Lúcio e Pedro?"

"Harry? Não, não, ele não sabe. Agradeço-lhe por me dizer, a propósito," disse Sirius, tomando um gole de cerveja Arquelândia para limpar o sabor do vinho de olmo.

"Eu pensei que você deveria saber, e de qualquer forma, Draco não me pediu para não contar a você."

"Ele lhe pediu pra não contar ao Harry?"

"Não," disse Lupin lentamente "Não em tantas palavras, não. Mas acho que ele provavelmente estava certo. Eu acho que Harry iria levá-lo a mal. Eu acho que quer isto faça ou não sentido lógico, ele sentiria que de alguma forma não poderia falar com Draco sobre isso e ele realmente não tem ninguém para conversar agora. Ele é muito dependente de Draco. Eu acho que ele se sentiria terrivelmente só."

"Ele poderia falar para mim," disse Sirius.

"Não, ele não poderia." Lupin sorriu. "Você está velho."

"Aham," disse o Sirius. "Panela. Chaleira. Negra."

Alguém na vizinhança limpou sua garganta. "Perdão, Senhor Black, Senhor Lupin." Era o redondo e grisalho prefeito e seu ajudante, sempre presente, o oficial de justiça esquálido. Sirius recordou que o nome do prefeito era Michael Gray (NA: que é cinza em inglês), que parecia se encaixar perfeitamente, já que seus cabelos, olhos e pele eram todos de uma cor acinzentada. O oficial de justiça, tão fino quanto uma cana com estreito e pontudo nariz, também era todo cinza. Sirius jamais havia o ouvido falar, embora o tivesse encontrado antes na Mansão, quando ele havia vindo para oficializar a notarização de alguns papéis. "Eu só queria agradecer a você, Senhor Black, por nos estender um convite para este evento. Eu sempre quis uma oportunidade para conhecer os moradores da Mansão socialmente, por assim dizer."

"Ah, sim. É um prazer conhecê-lo, também," Sirius mentiu. "Você, er, já encontrou Harry?"

"Sim, sim, jovem Draco nos apresentou. Harry Potter! Muito emocionante."

"Ele é bem emocionante," Sirius concordou, inexpressivo. Seguiram-se pelo menos um quarto de hora de conversa educada e um pouco empolada. O prefeito quis saber se Sirius achava o clima muito severo; Sirius respondeu que era bastante agradável ter um Natal branco. Lupin perguntou sobre a história da cidade, e o prefeito compartilhou alguns fatos salientes. O prefeito, em seguida, disse que o sujeito lá no canto de capa preta estava trapaceando com os dardos usando o feitiço Expelliarmus, e Sirius lhe disse em confidência que o sujeito no canto era seu primo distante Dunforth que tinha uma reputação de excentricidade e tendia a ser violento quando assediado. O prefeito se afastou discretamente, e o oficial de justiça o seguiu.

"E levou apenas quinze minutos para que você pudesse assustá-los e fazê-los ir embora," disse Lupin. "Um novo recorde!"

"Bah," disse o Sirius, e escondeu um sorriso. "Desculpe".

"É com Snape que você deveria se desculpar," começou Lupin com a gravidade simulada, em seguida, parou, quando um barulho ecoante soou de fora da estalagem. Ele piscou. "Que diabos foi isso?"

Sirius endireitou-se e olhou. Fosse de algum instinto paternal recém-adquirido, seus olhos foram imediatamente para o sofá perto da lareira para ver se os meninos estavam bem. O sofá estava vazio. "Eu não sei," disse ele. "Mas... onde estão Draco e Harry?"


"Como você está, Harry?"

"Bem. Eu acho."

Ele não parecia bem. Draco sentiu um nó de ansiedade se mover debaixo de sua caixa torácica. Harry afundou na poltrona ao lado dele, olhando vagamente para o fogo. Ele parecia tenso e enforcado e febril. Pontos brilhantes de cor queimavam no topo de suas maçãs de rosto angulares e seus olhos estavam muito brilhantes. Havia três copos vazios na mesa ao lado dele.

"Eu não acho que você deveria beber mais," disse Draco.

"Eu sei," disse Harry. Draco observou com crescente alarme que Harry estava muito vermelho, e que seu cabelo escuro estava colado até a testa de suor. "É muito quente aqui – por causa do fogo –" Harry desfez o nó da gravata em seu pescoço e inclinou a cabeça para trás como se estivesse tendo problemas em conseguir ar suficiente. "Não te incomoda?"

"Não. Você só bebeu demais. É o álcool. Talvez você devesse ir para o fundo e deitar-se."

"Eu não quero. Eu quero ir para fora. Preciso de ar." Harry ficou de pé, usando o encosto da poltrona para apoiar-se. "Eu preciso de uma caminhada."

"Você vai cair no rio," disse Draco.

Harry piscou. "Há um rio?"

Draco se perguntou se Sirius iria notá-los se saíssem, mas ele parecia ter caído em uma conversa profunda com Lupin e o prefeito, e não olhou para cima quando eles saíram da ante-sala. Harry fez uma pausa para puxar para baixo as capas na prateleira, então empurrou a porta aberta. O frio bateu forte em Draco, tão forte que ele foi ofuscado por um momento, afundando seu casaco em sua cabeça rapidamente. Quando ele passou pela porta, o vão da porta estava vazio. Ele correu para os degraus da frente, procurando por Harry, com os pés derrapando no tijolo coberto de gelo.

"Estou aqui," disse Harry.

Ele já estava lá embaixo no fim da escada, seu manto puxado desajeitadamente sobre os ombros. Ele parecia estar olhando para algo um pouco além da fronteira das sebes. Draco desceu lentamente as escadas e se juntou a ele.

"O que é isso, Potter? O que você está olhando?"

"É lindo," disse Harry. "Não é lindo?"

Draco olhou para ele com surpresa, e depois se voltou para a paisagem de inverno. A lua tinha uma pureza clara e imaculada peculiar para as noites muito frias de inverno. Ela acendia a neve em torno deles em um branco fogoso, e prateava o ar escuro e os topos das árvores distantes. Acima das árvores, uma massa de estrelas de inverno brilhava como piscas de cristal verde vivo e azul gelo, enquanto embaixo, na parte inferior do morro, Draco podia ouvir a água do rio correndo debaixo de seu manto de gelo. Era realmente uma noite muito bonita, embora ele duvidasse que teria parado para perceber isso se Harry não tivesse apontado para fora.

Ele se virou para olhar Harry. Na escuridão, ele podia ver o outro rapaz apenas como uma textura de luz e sombra: cabelos escuros, pele branca, calça escura. Seus olhos tinham perdido um pouco de sua exaustão vazia e enegrecida e estavam acesos por trás dos óculos.

"Eu quero voar," disse Harry.

"Isso é ótimo," disse Draco. "Não temos vassouras."

"Eu sei onde algumas estão", disse Harry, e se sentou no chão gelado de repente. "Ai," disse ele. "Me ajuda – eu vou lhe mostrar."

"Potter – Você não está em forma para fazer nada."

"Eu não estou bêbado," Harry disse claramente. "Estou muito feliz – me deixe ser feliz. Passou um bom tempo desde a última vez que me senti assim."

"Harry," Draco protestou. "Não."

Harry não prestou atenção. Ele estava tentando levantar, e estendeu a mão. "Me ajude," ele disse novamente.

Draco tomou a mão estendida e puxou Harry até ele levantar. Harry sorriu para ele. Era um sorriso cheio de luz e felicidade, e ainda assim Draco sabia que era quase inteiramente artificial. Draco se sentiu um pouco doente. "O que estamos fazendo?" ele perguntou.

"Vamos lá," disse Harry, virando e começando a atravessar o gramado congelado.

Draco o seguiu. Ele estava se acostumando a isso. Parecia-lhe que tudo que ele havia feito esses dias era seguir Harry a vários lugares. Era como ter um bebê, embora um de grandes dimensões e de mau humor.

O gramado inclinou para baixo atrás do Cold Christmas Inn para a estrada de serviço. Os carros que vinham se alinhavam ao longo do meio-fio, em uma procissão ordenada. Harry derrapou de lado na última parte da inclinação e parou ao lado do veículo de Sirius. Draco o viu bater no porta-malas com a mão direita, e ele abriu. Harry enfiou a mão e tirou dois objetos, ambos embrulhados em papel colorido. Eram longos e estreitos, cada qual queimado em uma extremidade. O formato era inconfundível.

"Vassouras?" Draco disse inexpressivamente. "Que diabos...?"

"Nossos presentes de Natal," disse Harry. "Eu ouvi Sirius dizendo a sua mãe que ele ia nos dar estas. São Cloudbursts. As mais novas."

"Eu sei o que Cloudbursts são." Os protótipos para a vassoura Cloudburst foram destaque na última edição do Quidditch World News. Elas haviam sido concebidas por uma empresa conhecida e apresentavam um número de adições experimentais, os detalhes esquecidos irritavam a parte de trás da mente de Draco de forma irritante. "Eu li as mesmas revistas de Quadribol que você."

"Ótimo. Então pega."

Harry lançou um dos pacotes embrulhados para Draco, que pegou instintivamente. Harry voltou sua atenção para rasgar o papel de embrulho fora de seu próprio cabo de vassoura. Ela subiu rapidamente sob os seus dedos ágeis, e ele olhou e sorriu. O sorriso desapareceu quando viu que Draco ainda estava de pé olhando para sua própria vassoura, sem se mover.

Harry fez um gesto impaciente com a mão direita. "Relasio," disse ele, e o papel de embrulho derreteu sobre a vassoura de Draco como a neve sob a luz solar.

Por um momento, Draco esqueceu tudo sobre Harry e o ar frio e sua ansiedade crescente, e só olhou com admiração. A Cloudbursts era um objeto, elegante e estreito que para quase mais como metal do que madeira em suas mãos, era tão densa e tão bem polida. O eixo era negro, os galhos terminavam em jatos coloridos e faixas prateadas. Ela cantarolou quando ele a tocou, um som como o ronronar de um gato curioso.

"Você gostou?"

A voz de Harry. Draco olhou para cima. O vento soprava seus cabelos em seu rosto. Por um momento, ele não conseguia ver nada. "Oh, sim. Teria sido uma grande surpresa." Ele estendeu uma mão e empurrou para trás seus cabelos, e viu que Harry já estava sentado em sua Cloudbursts, e seu sorriso estava de volta. "Potter, o que você está –"

Harry deu um impulso, e sua Cloudburst disparou para o ar em uma velocidade como a de um cometa que se lança.

"... está fazendo?" Draco acabou. Ele suspirou. "Maldição," disse ele, cansado, e passou a perna por cima da vassoura, e saiu do chão.

Imediatamente isso pareceu errado. A vassoura disparou para cima depois de Harry em um tom quase vertical com um escorregadio, silencioso e deslizado movimento que Draco fez sentir como se estivesse prestes a cair. Ele agarrou desesperadamente a vassoura, o que só fez com que o jogasse violentamente para a direita. Ele segurou-se firmemente quando a Cloudburst girou mais uma vez, endireitou-se e retrocedeu no silêncio.

O ar frio assobiava em seus pulmões como se ele tivesse engasgado com bocados de oxigênio. Seu coração estava batendo. Eu estou doente. Eu não deveria estar fazendo isso. Eu estou doente. Eu não posso voar corretamente. Harry sabe disso. Onde ele está?

Draco inclinou a cabeça para trás. O ar gelado encheu seus olhos de lágrimas, mas podia ver Harry um pouco além do seu campo de visão turvo imediato, pairando acima dele, um pedaço da escuridão contra as nuvens de prata. Harry olhou para ele, rindo, em seguida, decolou novamente. Mais tarde, Draco iria querer saber o porquê o havia seguido, no momento, parecia que a única coisa a fazer. Ele se inclinou para frente e a Cloudburst explodiu debaixo dele, atirando para o céu como um meteoro no sentido inverso.

No inverno, as equipes de Hogwarts normalmente voavam em blusas pesadas, com caneleiras e protetores de cotovelo e botas de couro de alta. Agora, as roupas de festa elegante que Draco estava usando não formavam praticamente nenhuma barreira contra o frio. Ele tremia quando ele subiu e o vento cortou o tecido de sua camisa como se fossem pequenas facas. Seu manto soprou para trás; à frente, ele podia ver que a capa de Harry estava fazendo o mesmo, atirando-se atrás dele como uma bandeira ao vento. Ele fixou seus olhos nisto como um alvo e inclinou sua vassoura.

Ela foi para o lado, ao invés disso.

As mãos de Draco, geladas e dormentes de frio, agarraram-se convulsivamente no cabo da vassoura. Seu coração estava batendo. Ele se lembrou, de repente, do que tinha lido na nova publicação do Quidditch World News.

Os novos modelos Cloudburst possuiam um charme anti-roubo único. Antes de serem utilizadoa, as vassouras deviam ser calibradas para seu usuário específico, ou não responderiam adequadamente às tentativas de voar.

"Inferno," ele murmurou. "Inferno, inferno, inferno." Ele jogou a cabeça para trás. Harry era uma mancha que desaparecia no alto dele. "Harry Potter!" ele gritou, e se puxou para trás em sua vassoura. Ela, por sua vez, o puxou vários metros para cima, entrou em um rolo preguiçoso e lento, e endireitou-se com relutância. "Harry Potter!" ele gritou novamente, inclinando-se para a frente.

Isto acabou por ser um erro. Como se fosse um tiro de canhão, a Cloudburst foi arremessada para a frente tão rapidamente que Draco não teve chance de fazer outra coisa senão agarrá-la cegamente. Ela se virou duramente para a esquerda, e depois para a direita, e depois atirou-se para a frente, reta como uma flecha.

Diretamente em direção a uma grande árvore de carvalho.

Draco empurrou asperadamente a Cloudburst, mas ela não sairia de seu curso. Ele trovejava para a árvore tão inexoravelmente quanto o Expresso de Hogwarts - os ramos raspavam em seu rosto – ele jogou os braços para cima – e algo bateu duro, não de frente, mas de lado, derrubando-o definitivamente fora de sua vassoura. O mesmo algo o enrolou em seu manto e então ele estava caindo, o que parecia quase como voar, mas era muito mais aterrorizante.

Durou apenas um momento, no entanto. Ele bateu na neve macia e o impacto tirou seu fôlego. Ele engasgou e capotou, cuspindo neve, cego por ela. Houve uma forte dor pungente em seu braço.

"Ei – Malfoy –" Era Harry, é claro. Draco sentou-se, tirando o cabelo molhado dos olhos. Harry estava ajoelhado na neve ao lado dele. Seus óculos estavam cobertos de neve, assim como suas roupas. "Desculpe por te jogar para fora da vassoura, mas você ia bater na árvore. Por que você não afastou dela?"

"Eu estou bem, obrigado por perguntar," Draco disse, através de seus dentes. "Potter - onde estão as vassouras?"

Harry acenou grandiosamente em direção da árvore de carvalho que quase haviam trombado, e quase se desequilibrou. "Eles não tiveram tanta sorte como nós tivemos."

Com um sentimento de mau presságio em seu coração, Draco ficou trêmulo em seus pés e olhou para onde Harry tinha indicado. No começo, ele não viu o que Harry quis dizer, então, esticando o pescoço para trás, viu as duas vassouras, muito acima de suas cabeças. A força do impacto as fez perfurar a árvore, já que elas pareciam duas grandes flechas que tinha sido disparadas, quer queira quer não, através dos galhos e pelo tronco da árvore.

"As Cloudbursts devem ser feitas de algo realmente duro," Harry observava em um interesse desconexo. "Você pensaria que elas apenas iriam se espatifar, na verdade."

"Você quer dizer como os nossos crânios teriam se espatifado, se tivéssemos batido naquela árvore?" Draco disse, friamente irritado. "É isso que você quer dizer?"

"Mas nós não batemos na árvore," Harry apontou jovialmente.

"Não graças a você, seu grifinório maluco!" Draco explodiu. "'Vamos montar nestas vassouras, vamos, não importa que eles precisem ser calibrados primeiro, não importa que sejamos mortos –"

"Eu não sabia disso," Harry disse, surpreso.

"Cinco segundos a mais e eu teria sido salpicado todo como uma pintura impressionista. 'Monitor Esmagado Em Um Carvalho,' você poderia dar esse nome."

"Não brinque com isso. Olha, se você sabia que elas precisavam ser calibradas, então você deveria ter me dito –"

"Eu não tive tempo, tive? Você simplesmente pulou na vassoura e decolou –"

"Você não tinha que ir atrás de mim!"

"Eu sempre tenho que ir atrás de você!"

"Meu Deus, o que é toda essa gritaria?" disse uma voz, e Draco se virou para ver Sirius de pé logo atrás dele, Lupin ao seu lado. Várias outras figuras estavam em pé no caminho de volta para onde os carros estavam; Draco não conseguia ver quem eram, mas sabia que eles estavam olhando.

Seu coração ficou apertado quando ele olhou para Sirius. Sirius parecia absolutamente furioso. "Que diabos vocês estão fazendo?" perguntou ele friamente.


Os dois rapazes olharam para Sirius com as bocas abertas. Draco nunca tinha visto o padrasto com raiva antes. Ele parecia pairar sobre eles, seus olhos negros de raiva. "E qual é esse significado de todo este barulho?" perguntou ele.

Lupin pigarreou. "Aham," disse ele. "Sirius..."

Sirius se virou para olhar para o seu amigo. "Sim?"

Em resposta, Lupin apontou para cima. Sirius virou-se para seguir o seu gesto, e ficou boquiaberto com as duas vassouras cravadas na árvore. "Eu estou vendo," disse ele lentamente, sua voz plana. "Eu sabia que vocês dois estavam voando. Mas eu não achei que vocês fossem tolos o suficiente para voar em suas duas Cloudbursts não calibradas!"

"Não sabíamos que precisavam ser calibradas," disse Draco em voz baixa. Ele se virou para Harry buscando alguma assistência, mas logo percebeu que não haveria ajuda deste canto. Harry tinha a mão sobre sua boca e parecia estar rindo.

"Ah, mas vocês ainda se sentiram qualificados para voar com elas? Sem contar que aqueles eram os seus presentes de Natal, que certamente não serão substituídos. Com todas as coisas idiotas, impetuosas, imprudentes, irrefletidas e estúpidas que vocês poderiam ter feito -"

"Pedimos desculpas," Draco interrompeu desesperadamente. Harry ainda estava rindo ao lado dele. Ele resistiu ao impulso de bater na parte de trás da cabeça de Harry.

"Eu não acho que vocês perceberam o quão sério isso é," Sirius olhou com raiva.

O riso finalmente escapou por trás a mão de Harry. "Sirius," disse ele. "Seu nome significa duas coisas. Hee."

Sirius piscou para seu afilhado. "Harry? O que diabos está acontecendo de errado com você?"

Harry apenas riu como resposta.

"Ele está bem," Draco disse em voz baixa. "É apenas um, er... Feitiço Animador. Eu o enfeiticei antes."

Para sua surpresa, Sirius reagiu como se ele tivesse dito 'É apenas um balde de veneno' em seu lugar. "Um Feitiço Animador? Você colocou nele um Feitiço Animador e depois o deixou beber álcool?"

"Er..." Draco disse, olhando Harry com o canto do olho. "Bem, sim, um bocado. Mais ou menos. Por quê?"

"Você estava tentando matá-lo?" Sirius demandou.

"Sim," Draco disse, a raiva soltando faíscas nele. "Sim, era o meu plano brilhante."

"Você, Draco – você de todas as pessoas, devia saber melhor sobre misturar Feitiços Animadores e álcool."

"Por quê? Por que eu deveria saber melhor? Feitiços Animadores não são exatamente algo que meu pai teria aceitado. Eles são para as pessoas fracas. De acordo com ele. Por que eu deveria saber sobre eles?"

Parte da raiva morreu na expressão de Sirius. "Sim, mas ainda assim. Você não pode ver que havia algo de errado acontecendo com Harry?"

Draco quase gritou. Ele queria dizer que, é claro que havia algo errado acontecendo, estava tendo algo de errado acontecendo há meses, e este foi, na verdade, o mais normal que ele tinha visto Harry há tempos. Mas ele não podia. Ele engoliu as palavras, e seu ressentimento com elas. "Tudo aconteceu muito rápido," disse ele, em vez disso. "Além disso, eu sequer sabia o que era pra eu supostamente estar procurando."

"Histeria," Sirius disse. "Mudanças repentinas de humor."

"Wibble*," disse Harry, melancolicamente, da neve. "Eu não me sinto nada bem."

*(NT: Wibble: Palavra usada por Rowan Atkinson em "Blackadder Goes Forth" para denotar um estado de insanidade.)

"Ah," Sirius acrescentou. "Náuseas também."

Draco suspirou. "Será que ele vai ficar bem?"

"Provavelmente," disse Sirius, ele se curvou e ajudou Harry a levantar. "Ele só precisa dormir, é tudo." Harry balançou um pouco, e a expressão de Sirius se suavizou ainda mais. Ele se abaixou para pegar Harry em seus braços como se ele ainda fosse uma criança que não pesava quase nada. "Venha aqui," Draco o ouviu sussurrar, num tom gentil. Draco teria pensado que Harry não estava ouvindo nada a esse passo, mas, ao som da voz de Sirius, Harry virou a cabeça no peito de seu padrinho, fez um pequeno ruído, e ficou mole.

Sirius se levantou, segurando Harry em seus braços, depois olhou para Lupin. "Eu não faço isso desde que ele era um bebê," disse ele, "quase não pesa nada, nem mesmo agora."

Lupin disse alguma coisa de volta, tão baixinho que Draco não pode ouvi-lo, e depois ambos se viraram e começaram a caminhar de volta para as luzes da Pousada Malfoy.

Sirius se virou e olhou para Draco. "Você vem?" perguntou ele. "Nós estamos tomando uma carruagem."

Draco balançou a cabeça. "Eu volto de Flu por conta própria," disse ele. Ele queria ficar sozinho para pensar um pouco.

Infelizmente, não era para ser. Mal chegou à porta da Pousada, e Snape saiu das sombras e se aproximou dele. "Sr. Malfoy," disse Snape. "Uma palavra com você?"

Draco olhou desanimado para seu professor de Poções mal-encarado. "Eu não suponho," ele disse, "que se eu desmaiasse aqui, você fosse me levar pra casa, né?"

Os olhos de Snape diminuíram, e ele levantou a mão com luvas pretas. "O que," ele disse friamente, "é isso?"

Draco olhou para onde Snape estava apontando, e sentiu um choque parecido com um soco em seu coração – a manga direita de sua camisa, onde sua capa havia escorregado, brilhava com fios de prata que pareciam brilhar na luz do luar. Sangue. Ele fechou seu manto rapidamente, mas já era tarde demais; Snape havia visto.

"Professor..." Draco começou.

"Deixe-me ver o seu braço," disse Snape.

Draco não se moveu. "Não é o que –"

"Deixe-me ver o seu braço, senhor Malfoy!" Vociferou Snape e Draco pulou. "Podemos não estar em Hogwarts, mas ainda posso tirar pontos de sua Casa!"

Isso pareceu monstruosamente injusto para Draco, que o interrompeu. "Mas é férias de Natal!"

"Sim," Snape concordou. "E o meu presente de Natal para você será que não vou tirar os pontos imediatamente, e em vez disso, dar-lhe uma segunda chance para me mostrar seu braço." Ele bateu o pé abotinado na neve. "Estou esperando."

Com um olhar rebelde, Draco se adiantou e tirou o seu manto de cima do ombro esquerdo. Ele estendeu o braço em direção ao Mestre de Poções, que o pegou – bem mais suavemente do que a sua expressão feroz poderia levar a crer que ele seria – e puxou a manga da camisa de Draco. Sua ingestão imediata de alento foi ruidosamente audível no ar. Relutantemente, Draco olhou para baixo e viu para o que Snape estava olhando: um corte longo e raso corria seu antebraço, onde havia jogado o seu braço para proteger o rosto. O corte em si não parecia grave, o que causou o alvoroço de Snape foi que o sangue vazando de seu ferimento estava um prateado-vermelho escuro, a cor do mercúrio visto através de vidro escarlate.

"O que é isso?" Snape exigiu. "Esta é a primeira vez que vê isso? Você não parece surpreso."

Draco deu de ombros. "Eu não sei. Não é nada."

"Acho muito pouco provável que ele não seja nada." Snape deixou o braço de Draco cair, pegou seu ombro, e o conduziu forçosamente de volta a Pousada. Draco tropeçou um pouco sobre a neve desigual, mas Snape não diminuiu seu ritmo intenso até chegar o mais próximo da lanterna, onde ele parou, se virou, agarrou os ombros de Draco e o empurrou sob a piscina de luz brilhante vinda da lanterna. Draco piscou na súbita luz brilhante e tentou se virar para longe, mas Snape o segurou rapidamente, os olhos negros como carvão estudando o rosto de Draco com uma intensidade sem pestanejar. "Há quanto tempo isso vem acontecendo?" perguntou ele finalmente.

Draco tentou sustentar o olhar de seu professor, mas falhou. "A quanto tempo o que vem acontecendo? O sangue? Porque – eu posso explicar isso."

"Sério?" Snape ergueu uma sobrancelha. "Então vá em frente."

Draco se mexeu. "Eu, er..."

"Sim? Exagerou na geléia Glow Worms? Ficou bêbado e comeu um pacote de luzes de fadas? Tentou praticar um encanto em si mesmo que garante que iluminar uma sala com seu sorriso, mas deu terrivelmente errado?"

"Bem, se você só continuará sendo sarcástico..."

"Explique-se, senhor Malfoy, e com sinceridade. Está frio, e eu gostaria de voltar para dentro."

"Bem, assim como eu." Draco murmurou. "Olha, eu não sei o que é. Estou destinado a ver um medibruxo, e irei, é só que..."

"Então você conversou com Madame Pomfrey sobre isso?"

"Mais ou menos."

"O que quer dizer com 'mais ou menos'?

"Quer dizer, eu disse a ela, de alguma forma, mas eu não disse realmente."

"Eu prefiro pensar assim." Snape soltou os ombros de Draco, e do nada, ao que pareceu, produziu um lenço branco. Ele entregou a Draco. "Amarre isto em torno de seu corte," ele instruiu. "E então me diga há quanto tempo isso vem acontecendo."

"Há quanto tempo o que está acontecendo?" Draco perguntou, fazendo conforme as instruções. "O sangue de aparência engraçada? Eu honestamente não sei. Há algumas semanas, talvez. Não é sério –"

"Não é nada sério, o caramba! Você está doente. Você sabe, eu diria que você parece sofrer os efeitos de uma grave maldição negra ou hex –"

"Eu não fui enfeitiçado".

"Você pode ter certeza disso?" Snape exigido.

Draco acenou com a cabeça. "Eu tenho certeza." De repente, ele se sentiu muito cansado. "Não é uma maldição ou um feitiço – ou se é um não é um que eu tenha sido capaz de detectar, e você sabe que eu não sou ignorante quando a questão é magia negra. Eu não sei o que é."

"Bem, você parece a Morte." Snape falou sem rodeios. "Vou falar com o Sirius Black imediatamente."

"Não!" Draco disparou de alarme. "Não – não faça isso. Não Sirius."

"Está fora de suas mãos, Draco. E Black é o seu guardião. Se estivéssemos na escola, eu iria falar com Dumbledore –"

"O casamento é depois de amanhã," Draco disse desesperadamente. "Os convidados começam a chegar amanhã para o jantar de ensaio. Não é possível esperar dois dias?"

"Eu não posso ajudar, mas sentir que, com alguma magia desconhecida afetando sua saúde, seria irresponsável da minha parte não –"

"Por favor," disse Draco. "Eu não estou tão doente, eu não vou morrer agora. Isso poderia arruinar o casamento. Minha mãe entraria em pânico – e para que? Para eu descobrir que há algo terrivelmente errado comigo alguns dias antes? Eu já sabia disso. Obrigado, mas: Não, obrigado."

Snape parecia hesitante. "Alguém sabe sobre isso? Potter, talvez?"

"Harry? Ele sabe um pouco. Hermione sabe. Ela está procurando por isso."

"Oh, de fato," Snape disse acidamente. "Você está bem cuidado, então, não é?"

"Por favor," disse Draco novamente. Ele não conseguia pensar em nenhum argumento elegante e nenhum motivo pelos quais ele poderia logicamente apelar para Snape. Snape estava provavelmente certo; Sirius deveria saber. Era só que Draco odiava a idéia. Uma vez que todos soubessem, se tornaria real. Algo que ele teria que enfrentar. E haveria medibruxos e enfermeiras e pessoas em pânico e nenhum deles iriam ajudar - disso ele estava certo - e ele não iria ser útil para Harry no fim das contas. "Não há nada que..."

"Muito bem," disse Snape, inesperadamente.

Draco piscou para ele. "Perdão?"

"Eu disse muito bem. Vamos esperar até depois do casamento. Isso vai me dar tempo..." Snape retirou o lenço do braço de Draco, o dobrou e colocou no bolso. Draco olhava para ele com olhos arregalados. "Isso vai me dar a chance de fazer alguns testes em seu sangue. Estou longe de ser um medibruxo, mas eu certamente posso detectar se uma poção foi utilizada em você."

Houve uma longa pausa. "Obrigado," Draco disse, finalmente.

Os olhos pretos como carvão de Snape brilharam. "Não me agradeça. É desnecessário. Vou voltar para meu laboratório e fazer alguns testes no sangue. Ele vai me dar uma desculpa para faltar ao jantar de ensaio."

Draco se viu quase sorrindo. "Ainda bem que pude ajudar."

"Eu não gosto de festas," Snape ruminado. "A menos, claro, que haja karaokê."

"Certo," Draco disse com muito tato.

"De qualquer forma, você deve retornar para a casa. Você não deveria estar aqui fora no frio enquanto está doente. Devo aparatá-lo de volta?"

Draco balançou a cabeça. "Eu vou pegar uma carruagem. Tudo bem. Obrigado novamente."

Por um momento, Snape pareceu hesitar e Draco teve a idéia de que Snape poderia dar um tapinha no ombro dele – mas o momento passou, e o pensamento com ele. Snape soltou o braço de Draco, assentiu com a cabeça brevemente e aparatou, deixando Draco em pé na neve e sob a lanterna, perdido em pensamentos.


Harry estava recuperado o suficiente quando chegaram na Mansão para subir as escadas para seu quarto sem qualquer assistência. Ele deixou Sirius e Lupin olhando meio preocupados e meio distraídos no hall de entrada, cambaleou ao subir os degraus, encontrou a porta do seu quarto, a abriu, e praticamente desabou para dentro.

Alguém tinha acendido o fogo na lareira e as velas enquadradas nas paredes. Normalmente esse tipo de coisa incomodava Harry, que gostava de fazer as coisas sozinho, mas agora ele estava feliz de não ter de andar à procura de uma luz. Tonto e balançando em seus pés, ele tirou a cueca, dobrou sua roupa e as deixou num belo cesto do lado de fora da porta para a lavanderia dos elfos, e rastejou entre os lençóis de sua cama.

Ele pensou que iria cair no sono instantaneamente, e ele teria, se a cama só pudesse parar de girar. Podia senti-la girar com ele, o mundo se inclinar ligeiramente. A felicidade flutuante do Feitiço Animador foi sumindo, substituída por uma vertigem rodopiante pálida-ouro. Parecia um pouco como voar, se pudesse voar deitado.

Harry esperava que aquilo se extinguisse quando ele caísse no sono, mas isso não aconteceu. Em vez disso, intensificou-se. De olhos fechados, viu novamente o céu de inverno vasto e escuro acima dele, os fragmentos de estrelas, as nuvens débeis, ele sentiu o vento gelado em seu cabelo, rasgando-o, ouviu sua própria voz gritar quando ele caiu. Eu não posso morrer, ele tinha pensado, caindo através do ar, eu não posso morrer, porque eu ainda não fiz o que devo fazer. Portanto, eu devo ser invulnerável. E se ele era invulnerável, certamente Draco também estava imune ao mal, porque era impossível que um deles deixasse de existir e o outro continuasse. A raiva de Draco havia o confundido por este motivo. Será que ele não entendia?

E Harry não tinha morrido. Ali estava ele, e ele sentiu-se melhor do que havia sentido em meses e meses. Ele parecia ter deixado seu corpo e inconsciente de cada molécula. O raspar suave dos cobertores de lã contra a sua pele quando ele se virou, o alto crepitar do fogo estalando na lareira, o calor da sala o pressionando, pressionando para baixo, como se um grande peso tivesse resolvido ficar em cima dele. Era tudo parte do mesmo sonho de gelo e febre.

Algo roçou seu rosto. Com os olhos ainda fechados, ele virou a cabeça de lado, mas o leve toque em seu rosto permaneceu. Ele ergueu a mão para afastar aquilo, mas parou: era agradável. Onde ele tinha estado muito quente, ele sentia roçar dedos frios em sua pele – e eles eram os dedos, percebeu – e a mesma luz fria o tocou nas têmporas, pescoço e cabelo. Alguém estava acariciando seu cabelo para trás, suavemente. Somente uma pessoa tinha feito isso com ele. Hermione, ele pensou, e então, eu estou tendo um sonho. Eu não quero acordar.

Ele manteve os olhos fechados, com firmeza. Ele estava sonhando, disse ele estava certo. Ele tinha sonhado com ela várias vezes desde que tinha chegado à Mansão novamente. Cada vez que ele acordava contra sua vontade, ficava infeliz por deixar o mundo dos sonhos para trás. Este, porém, era mais real do que qualquer outro com que ele já houvesse sonhado. Ele sentiu o leve toque das mãos em seu rosto novamente, e depois uma sombra se moveu para além de suas pálpebras, e sentiu os lábios contra sua própria boca, frescos e suaves. Sua respiração ficou presa em sua garganta, ele de repente estava tonto, tão tonto que se sentia como se fosse cair pra fora da borda do mundo. Ele caiu em uma escuridão fria radiante, sentiu prazer, e o prazer era doentio, sentia dor, e congratulou-se com a dor. Ele machucou, queimou, ele congelou e tremia, sentia – como ele não se sentia em um longo, longo tempo. Isso foi o que ele tinha tentado alcançar naquela noite no beco com Hermione, era isso que ele não conseguia dizer a ela que queria, porque ela iria odiá-lo por isso. Mas agora ele estava sonhando, e ele poderia ter isso dela nos sonhos, ela iria perdoá-lo por isso, ela nunca saberia.

"Harry," disse ela. Ele abriu os olhos, ele podia ver apenas um balançar louco de sombras. O cabelo dela caiu em torno de ambos como uma tenda. Ela era um gênio em uma garrafa: um sonho que nasceu da solidão e do álcool. Foi um sonho, e ele sabia que era um sonho, mas ele não queria deixar aquele sonho, e não poderia ter deixado se quisesse. Uma fadiga como ele nunca tinha experimentado antes tinha invadido o seu corpo, seu sangue tinha sido substituído por um fluído lento de xarope de ouro. Ele queimava-lhe nas veias. "Mantenha os olhos abertos," disse ela, e sua voz era doce como rebuçados envenenados. "Olhe para mim."

Ele tentou, e talvez ele o tenha feito. Ele nunca saberia, mais tarde, se ele realmente tinha. Uma escuridão negra como seu cabelo rolou em cima dele, ele lutou por um momento, mas a corrente o levou para longe e ele não se lembrou de mais nada depois disso.


Draco acordou cedo na manhã seguinte após passar uma noite agitada para encontrar o resto do seu presente de Natal de Sirius em um pequeno envelope ao lado da cama. Era o manual de instruções para a nova vassoura Cloudburst. "Aqui está o resto do seu presente idiota," disse a nota em anexo. "Dica: ele não voa."

"Isso é o que você pensa," Draco anunciou rebelde, e começou a fazer um avião de papel na capa frontal.

Abandonou este divertido passatempo quando uma coruja militar, carregando uma carta, rolou e bateu na janela com seu bico. Ele abriu a janela, deixando entrar grandes explosões de ar frio, e retirou o pergaminho da ave. Apoiando os cotovelos no peitoril da janela, ele leu em voz alta para si mesmo:

Draco,

Alvo me pediu para enviar a você uma palavra de confiança, já que ele temia que você pudesse estar preocupado. Eu disse que se preocupar é bom para um menino em crescimento. No entanto, ele queria que você soubesse que todos os planos estão em vigor para amanhã e temos tudo sob controle. The Constant Vigilance Synchronized Auror Auto Response Team estará a sua disposição em caso de convidados inesperados ou indesejados que podem talvez passar por nosso sistema de vigilância. Desfrutai o hoje e tente não se preocupar com o amanhã. Estou ansioso para o casamento em si e não esquecerei de usar a minha perna especial para festas.

Meus votos,

Alastor Moody.

"Louco como uma escova," anunciou Draco, e jogou o pergaminho amassado em sua cama. Ainda assim, aquilo fez ele se sentir um pouco mais tranquilizado embora um pequeno nó de nervosismo tivesse se formado em seu estômago, enquanto pensava no casamento. Isso, era provável, algo um pouco socialmente desajeitado, e acima disso...

O som de rodas sobre a neve interrompeu seus pensamentos. Ele olhou para baixo para ver uma carruagem ser puxada para cima na base da enorme escadaria de pedra que levava a Mansão. Era umas das carruagens contratadas na vila e que os havia levado para o Cold Christmas Inn na noite anterior, e que estaria trazendo todos os convidados do Parque Malfoy até a casa hoje. As carruagens eram negras, com o emblema Parque Malfoy sobre eles – uma varinha formando uma cruz com um punhal em uma jazida de prata. Draco já havia visto vários convidados chegarem, incluindo os Parkinson e os Zabinis. Blaise não estava com os pais; Draco suspeitava que ela tivesse pensado que eles não deveriam ver um ao outro, o que, lhe pareceu, provavelmente a única opinião que tinham alguma vez sustentado em comum.

A carruagem parou e as portas se abriram. Os ocupantes começaram a empilhar-se para fora. Uma bruxa e um bruxo em um escuro manto azul com o capuz puxado para cima saíram primeiro, depois um bruxo alto, cujo a capa estava para baixo, seu cabelo vermelho brilhante e inconfundível sob o sol de inverno. Carlinhos Weasley. Ele se virou e estendeu a mão para ajudar a sua irmã: Draco não podia vê-la claramente, apenas seu manto amarelo e familiares os cachos escarlate como um rio de fogo brilhante pelas costas.

E depois dela, movendo-se lentamente e com relutância, veio Ron.

Draco olhou para ele por um momento, então se afastou da janela e ficou por um momento, perdido em pensamentos. Ele havia se perguntado se Weasley iria realmente aparecer; suspeitava que sim, mas não estava inteiramente certo. Agora que ele estava aqui, Draco viu o seu cansaço caindo e um nervosismo fraco de antecipação tomando o seu lugar.

Faça eles se arrependeram, Harry tinha dito.

Draco sorriu. E então foi para o guarda-roupa e começou a se vestir.


Estava tão escuro quando Harry finalmente abriu os olhos no dia seguinte que ele pensou que ainda estava no meio da noite. Foi um momento antes que ele percebesse que as cortinas haviam sido firmemente fechadas em torno de sua cama. Ele piscou. Que estranho, pensou. Eu nunca faço isso. Um dos elfos domésticos deve ter vindo fechá-las.

Sentou-se lentamente, estremecendo, e se atrapalhou com os seus óculos. Ele os deslizou, sua cabeça batendo. Sentiu-se decididamente peculiar. E ele tinha certeza que ele tinha tido um sonho muito incomum...

"Ei você aí, tigre," disse uma voz em seu cotovelo.

Harry virou tão rapidamente que mais tarde ele teria ficado surpreso por não ter deslocado nada. Ele sabia o que, de alguma forma, ele veria, antes mesmo de se virar - e ainda assim isso quase não diminuiu o choque: os cabelos negros caindo sobre os ombros alvos, os grandes olhos cinzentos cheios de travessuras, e um lençol envolto em torno de um corpo obviamente nu.

Rhysenn.

Harry tentou dizer alguma coisa, mas tudo o que saiu foi um ruído de assobio como uma chaleira em ebulição.

O sorriso dela se arregalou. "Sem palavras, não é?" ela disse. "Eu não estou surpresa depois de ontem à noite. Eu ficaria chocada se você estivesse em qualquer forma para falar, de todo modo."

Aquilo libertou sua voz. "O que – que – o que –" ele gaguejou. "O que você está fazendo aqui? Como você chegou ao meu quarto? Onde estão suas roupas?"

Ela acenou com a mão alegremente. "Provavelmente, onde você jogou, gatinho."

Harry arregalou os olhos, sem fala. Certamente este era um pesadelo horrível. Certamente ele acordaria logo. "Mas," ele começou. "Mas eu estava sonhando."

"Tsk tsk." Ela franziu os lábios. "Realmente, agora. Pareço um sonho para você? Será que estes?" E ela estendeu-lhe os finos braços brancos. Havia hematomas acima e abaixo deles: marcas de dedos. "Eu não tinha idéia que você seria tão forte. Quero dizer, eu sabia que você era algo especial, O Garoto que Sobreviveu –"

"Cale a boca!" Harry sibilou, e cobriu o rosto com as mãos. "Cale a boca – eu não deveria, eu não poderia ter..."

"Ah, mas você deve e você pôde." Sua voz endureceu, embora ela ainda soasse divertida. "Como é perturbador que você não se lembre da noite passada Foi certamente uma das noites mais singulares da minha vida. Coisas que me aconteceram ontem à noite que – bem, nunca haviam acontecido comigo antes."

Harry fez um som borbulhante, baixo em sua garganta. "Eu não acredito nisso," ele sussurrou. "Eu não acredito nisso. Eu tenho uma namorada."

Rhysenn parecia interessada. "Eu pensei que vocês tivessem terminado."

"Eu – não – mas – de onde você saiu sabendo tanto sobre minha vida pessoal?"

Ela encolheu os ombros, e o lençol escorregou para baixo. Harry desviou os olhos. "Recebo o papel," disse ela. "Todo mundo sabe que vocês terminaram. Exceto você, aparentemente."

"Estamos apenas - nós estamos apenas dando um tempo."

"Bem, querido, nesse caso, da próxima vez você pode trazê-la."

"Da próxima vez? Não vai ter uma próxima vez! Não houve esta vez!"

O canto esquerdo de sua boca se contraiu. "Você pode dizer que com certeza?"

Harry ficou em silêncio.

Rhysenn se inclinou para frente. "Você disse o nome dela na noite passada," disse ela suavemente, e estendeu a mão para tocar o seu rosto. Harry se afastou. "Você disse Hermione. Mas você só disse isso uma vez."

Harry se encolheu para longe dela, ainda mais longe, ou tentou. Mas ele descobriu que não conseguia se mover. Tinha algo sobre ela, apesar de seu horror e sensação de náuseas, que ainda o obrigava; o olhar dela o hipnotizava como o olhar de uma cobra. Não era que ela era bonita, ela era, mas em um jeito estranho, distante e adulto que o perturbou mais do que qualquer outra coisa. E seus olhos, aqueles olhos Malfoy, cinza como mares de inverno, o assustava. E ele descobriu ainda que não conseguia se afastar quando ela estendeu a mão, e escovou as costas de seus longos dedos contra o seu rosto, e ele sentiu isso como a dor da mordida em um dente quebrado, todos os seus nervos gritando ao mesmo tempo –

Ele provavelmente teria caído da cama se não tivessem batido na porta do quarto naquele exato momento. Harry saiu de seu estado confuso instantaneamente, e olhou horrorizado.

Rhysenn suspirou e olhou vexadamente. "Você vai atender a porta ou eu devo?"

"Senhor Potter," disse uma voz à porta, muito alta e sepulcral. Um dos funcionários fantasmas da Mansão, provavelmente. "Senhor Black enviou-me para acordá-lo. É meio-dia, senhor."

"Vá embora!" Harry gritou desesperadamente em resposta. "Eu estou – eu não estou aqui!"

Rhysenn bufou. "Oh, bem feito."

A batida soou de novo, com mais força neste momento. "Senhor Potter, receio que o Senhor Black impressionou-me com a necessidade de despertá-lo sem demora."

"Aaaaaaargh." Com um meio-lamento de desespero, Harry se levantou, envolvendo um lençol em torno de si, e cambaleou até a porta. Ele abriu uma fresta para ver Anton, o mordomo fantasma, pairando na frente dele, olhando gravemente. "Senhor Potter," disse ele. "Senhor Black também instruiu-me para lhe trazer suas roupas para o par –"

"Oh, sim, obrigado, eu vou pegá-las," Harry gaguejou, arrancou a pilha de roupas do fantasma, e os atirou no chão atrás dele. "Obrigado, Anton, agora, se não há mais nada –"

"Oh, mas há", disse o mordomo.

Harry hesitou miseravelmente. "O quê?"

"Senhor Malfoy também me pediu para passar adiante uma mensagem por ele. Creio que foi, 'Venha aqui embaixo agora, seu grande idiota preguiçoso."

"Isso é ótimo," disse Harry, e começou a empurrar a porta novamente.

"Senhor Potter! Um momento, por favor. Há mais uma coisa," disse o mordomo, e estendeu a mão semi-transparente. Cintilante no meio da palma da mão do fantasma estava um círculo familiar de vidro escarlate, uma tira com ouro e preto. Harry olhou para sua fita rúnica, sua mente corrida. Era impossível – ele a usava sempre – ele a estava usando na noite passada em seu cinto – lembrou de desafivelar o cinto e – e deixar suas roupas para fora para os elfos domésticos levarem. "Os elfos que cuida das roupas me pediu para devolver isto para você, Senhor."

"Obrigado," Harry respondeu mecanicamente. "Obrigado, Anton," e ele pegou a fita rúnica do fantasma. Então ele fechou a porta e se virou lentamente para encarar a garota sentada em sua cama.

Apenas, é claro, que ela tinha desaparecido.


Hermione não estava de bom humor quando ela chegou na biblioteca ao meio-dia. Tinha dormido mal na noite anterior – muito mal. Seu quarto no Caldeirão Furado parecia muito quente, e ela tinha sido atormentada com pesadelos horríveis com um peso pressionando-a, cortando sua respiração. Ela acordou de madrugada com o som da voz de Pansy gritando "sangue-ruim!" para ela tocando em seus ouvidos, e tinha sido incapaz de voltar a dormir. Em geral, havia sido uma noite ruim.

Ela teve que esperar em uma longa fila antes que de atingir as traças de biblioteca (*NT: bookworm (book, livro; worm, traça) aquele que ou estuda demais. Espero que tenha dado pra entender). Ela passou o tempo todo preocupada com a festa que estava por vir. O pensamento de ver Harry era como uma parede preta de medo subindo na frente dela, ele lamentaria-se pela festa parecendo deprimido e bonito, e ela iria querer afogá-lo em uma tigela de ponche de frutas. Ou, pior ainda, ele teria superado ela completamente e estaria em um grande pique espiritual. Draco teria armado um encontro com alguma prima veela fabulosamente sexy que estaria empoleirada toda em seu colo, o alimentando com uvas descascadas com um par de pinças de ouro maciço. E ela ainda ia querer afogá-lo em uma tigela de ponche de frutas.

"Uvas," disse ela em uma voz mortal para o leitor ávido, quando ela atingiu o começo da filha. "Quem come uvas descascadas? O quanto preguiçoso é isso?"

A traça de biblioteca acenou suas antenas de forma preocupada. Hermione suspirou. "Não importa," disse ela. "Eu sou Hermione Granger. Referência #97356. Você foi referência cruzada para mim...?"

A traça de biblioteca correu e voltou com um carrinho atrás dele, e vários livros empilhados nele. Hermione tomou-os e se retirou para seu canto, agora familiar, da biblioteca, sob o retrato de Rowena Ravenclaw.

A maioria dos livros eram aqueles que ela já tinha olhado. Vários pareciam ser guias de armamento em geral. Ela começou a folheá-los desanimada. Havia capítulos em Living Blades, páginas de flechas-elfo que nunca iam para fora ou não atingiam o alvo, facas que cortavam pedra, porretes e cetros e punhais e...

Hermione fez uma pausa, e voltou várias páginas até uma ilustração de página inteira de um punhal. Tinha um cabo de osso de unicórnio, uma lâmina de prata resistente, e a caixa de texto abaixo dela estava um pouco turva com a idade:

A Lâmina Angurvadel é conhecida a existência de apenas um, em exibição no Museu de Magia Stonehenge. A natureza exata da adaga não é conhecida, mas produz cortes que nunca cicatrizam. Quando tocado por uma bruxa ou bruxo que é comandado por um Juramento das Trevas, adquire a cor azul fosforescente.

Hermione olhou para as palavras, sua mente rodopiando. Juramento das Trevas? Mas só um verdadeiro necromante pode ligar qualquer um por um Juramento das Trevas – eles eram uma terrível magia negra, mortal e impermeável – lembrou-se da lâmina da faca ficando azul quando Ron a empurrou de lado, e o estômago dela se revirou. Ron! pensou. Ela levantou subitamente, quase derrubando sua cadeira, e começou a amontoar seus livros a esmo em sua bolsa.


Harry olhou friamente para seu reflexo no espelho. Ele realmente parecia melhor do que ele se sentia. Embora, ele suspeitava, que se ele se parecesse com o jeito que se sentia, ele estaria olhando para o reflexo de uma cabeça decepada em um poste.

Em vez disso, ele parecia bem. Principalmente devido às roupas que ele usava, que eram caras e muito bem cortadas. Tirando o fato de que ele estava mortalmente pálido, com sombras escuras sob os olhos. Ele começou a perceber por que Draco era tão apegado a roupa. Elas faziam você se sentir como se pelo menos você parecesse bem, mesmo que você estivesse se sentindo como um inferno.

algo de errado comigo, ele pensou, olhando melancolicamente para si mesmo no espelho. Rhysenn nunca havia afetado Draco da forma como ela o afetou. Obviamente, havia alguma falha terrível que ele tinha e as outras pessoas não. Ou isso, ou ele era um viciado em sexo. Algum tipo de louco viciado em sexo que ninguém jamais iria querer estar ao redor. Hermione – ela nunca iria querer tocá-lo ou estar perto dele novamente. Sirius ficaria horrorizado. Então, teria Narcisa. Eles não iriam deixá-lo ficar na casa mais, ele teria que sair e viver no galpão no fundo do jardim. Draco ia sair e encontrar outros amigos, amigos que não estavam deprimidos o tempo todo, amigos que não dormiam com os demônios do sexo.

Então, novamente, talvez não. Ele percebeu que Draco iria achar sua corrente de pensamento infinitamente divertida. Você, um viciado em sexo? ele sorriu. Potter,você não poderia ser um viciado em qualquer coisa. Quero dizer, basta olhar para você. Ou, Oh, bom, parabéns, você encontrou algo mais para se superar. É um dia especial! Vamos aproveitar o máximo disso!

Harry olhou para suas mãos, elas tinham, no momento, parado de tremer. Sim, ele definitivamente precisava falar com Draco. Ele não tinha idéia de como ele iria enfrentar a festa de outra forma. Graças a Deus Hermione tinha dito que ela não estaria lá, ela estava vindo para o casamento, mas não para o jantar de hoje. Ele não poderia encará-la. Estava quase o matando apenas pensar sobre isso.

Ele se afastou de seu reflexo pálido no espelho, e viu a cama com seus lençóis amarrotados. Náusea subiu em sua garganta. Ele agarrou sua capa e correu para fora da porta.


"Eu pareço bem?" Ginny perguntou a Ron, pela terceira vez em que subiu os degraus da Mansão Malfoy. Ela havia esquecido o quão ameaçadora era aquela construção. Uma pilha de pedra cinza-aço, circundada com dezenas de varandas, coroada de torres e torreões, liderada por uma enorme escadaria dupla do tamanho da Toca. E havia jardins ao redor da Mansão; não havia na última vez que tinha estado lá. Eles estavam cheios de rosas, rosas vermelhas, que mais pareciam sangue contra a neve. Os encantamentos que as mantinham vivas nesse tempo devem ter sido muito caros.

Ron, que já havia dito a sua irmã que ela estava linda, duas vezes, suspirou martirizado. "Eu continuo dizendo que você está bonita," disse ele. "Não é isso que você quer ouvir? Tudo bem. Você está horrível. Só olhar para você me deixa doente."

Gina olhou para ele. "Eu te odeio."

"Sim," disse Ron. "Eu escuto muito isso."

Gina não disse nada, ela apenas acelerou um pouco seu ritmo na esperança de recuperar o atraso diante de seus pais. Tanto ela quanto Ron estavam ficando para trás; Ron devido a uma relutância óbvia, Gina devido aos nervos. Afinal, ela tinha planejado este dia há várias semanas.

Ela e Ron atravessaram as portas duplas para o hall de entrada logo após Fred e George; Gina olhou em volta, satisfeita e espantada como sempre pela beleza da Mansão. Era uma beleza fria, mas ainda assim era bonita. O piso em tacos preto-e-branco brilhavam, e as paredes estavam amarrados com milhares de diamantes, como globos de cristal, cada um dos quais cintilando com uma única chama pálida.

Sirius estava lá, cumprimentando as pessoas, Narcisa, disse ele, estava em algum lugar dentro do salão principal, entretendo convidados. Gina mal ouviu seus pais trocando conversa com Sirius, que parecia extremamente bonito em um terno preto. "Eu acredito que Draco também está no Hall, e ainda estamos esperando Harry descer... um pouco atrasado na noite passada," ele estava dizendo, e os Weasley riram.

Gina não aguentou outro momento, ela estava muito impaciente. Recusando aos elfos domésticos que queriam pegar sua capa, ela se desculpou e foi para o Hall; a única pessoa que até parecia perceber que ela estava saindo era Ron, que murmurou que ele iria alcançá-la em um momento.

"Oh, não, você não vai," ela murmurou baixinho.

O cômodo que os Malfoys há anos chamado de Grande Salão já estava meio-cheio de convidados: as mulheres em vestidos casualmente bonitos, homens de terno e vestes. Ginny reconheceu Lupin, Pansy Parkinson em um vestido verde horrível, e alguns outros rostos na multidão. Ela cortou a sala diagonalmente, caminhando em direção a uma pequena porta no lado oeste da sala, e abaixou-se para passar por ela rapidamente.

Ela estava em uma escada, que ela se lembrava muito bem. Uma escada estreita a levou para cima, e havia tochas enquadradas nas paredes de cada lado de um espelho quadrado. Gina olhou para ela, vendo seu próprio rosto muito pálido entre seu manto amarelo e seu cabelo vermelho ondulado. O colar de ouro ao redor de sua garganta brilhava intensamente. Ela estendeu uma mão para mergulhá-lo debaixo de seu vestido –

"Gina, o que você está fazendo aqui?"

Ela virou-se. Era Harry, de pé no degrau mais baixo da escada. Ele usava uma camisa escura que fazia sua pele ficar muito pálida, e calças pretas. Sob a luz fraca, ela não podia ver claramente seu rosto, mas ela achou que ele estivesse franzindo a testa.

"Você está perdida?" perguntou ele.

Ela deixou o colar de ouro cair. "Não. Eu só estava – eu estava –"

"Você está procurando Draco? Porque eu não sei onde ele está."

Gina quase sorriu. "Isso é de muita ajuda, Harry. Mas não, eu não estava procurando por Draco. Eu só estava – consertando o meu cabelo. O vento o arruinou."

Harry piscou. "Ele parece muito bem para mim. Você está bonita."

"Obrigada." Gina olhou para ele, estranhamente tocada. Ele parecia de alguma forma distraído e um pouco perdido, como tinha parecia perdido há sete anos em pé sobre a plataforma na Estação Kings Cross, e aquela perdição parecia agarrar-se a ele mesmo agora e para sempre iria. As mulheres sempre ficavam todas caídas por Harry, Gina pensou, ele era de alguma forma vulnerável, sem nunca ser fraco, atraente sem parecer se dar conta disso. Ninguém nunca se perguntaria se ele era bonito, porque seu rosto era tão familiar e tão cativante no detalhes: o esfumaçado profundo de seus olhos verdes, seus cílios laminados, os pequenos ossos afiados. Mesmo agora, quando ele parecia tão infeliz, sua melancolia parecia lhe servir. "Você está bem, Harry?"

"Oh. Sim". Ele sacudiu-se um pouco, como um cachorro sacudindo a água. "Apenas cansado. Tive uma longa noite."

"Eu sei, Sirius disse a nós."

"Nós?"

"Sim," Ginny disse lentamente. "Estamos todos aqui. E Harry – Rony está aqui também."

A expressão de Harry não mudou, apenas as sombras sob seus olhos escureceram. "Eu pensei que ele não viria."

"Bem, ele veio. É para o melhor, Harry, realmente –"

"Inferno," disse Harry sem rodeios. Ele enterrou suas mãos nos bolsos. "Agora eu realmente gostaria de poder encontrar Draco."

"Você não poderia..." Ela bateu na lateral de sua cabeça. "Você sabe. Encontrá-lo?"

Harry balançou a cabeça. "Ele parece estar bloqueado no momento. Ocupado provavelmente." Ele deu de ombros, e tentou sorrir, mas não foi muito bem sucedido. "Eu acho que seria melhor ir até lá e enfrentar a música."

"Vai ficar tudo bem. Sério."

Ele endireitou os ombros. "Eu espero que sim."

Ela ficou observando enquanto ele passava por ela e pela porta, fechando-a silenciosamente atrás dele. Seu coração se penalizou por ele. E pelo irmão dela também, e Hermione. E então havia Draco. Não era exatamente simpatia que ela sentia por ele. Era medo. Ela estava com medo por ele. Ela estava por um tempo agora.

Sua mão voltou para o colar em sua garganta. Ela o agarrou uma vez, com firmeza. E então ela começou a subir as escadas.


Draco estava à espreita.

Ele nunca pensou em si mesmo como um espião – ele gostava demais dos holofotes – mas não havia outra palavra para isso, ele estava espiando. Em um corredor em desuso, nada menos, iluminado apenas por uma única tocha. Ele estava esperando por Pansy Parkinson.

Ele estava cansado. Sua cabeça doía. Ele tinha dormido mal na noite anterior, e ele suspeitava que seu cabelo parecia ruim. Mas tempo, maré e vingança não esperavam por ninguém, e ele permaneceu em um balcão superior até ver Pansy em seu vestido verde subir as escadas da Mansão com seus pais. Então ele voltou para dentro.

Ele precisava, ele percebeu de imediato, separá-la de seus pais. Então ele enviou um elfo doméstico, juntamente com uma mensagem para Pansy, que uma nota de urgência estava esperando por ela na Sala Verde. O elfo tinha instruções para levá-la a este corredor, e depois deixá-la lá. Draco não gostava de elfos domésticos – eles o deixavam nervoso – mas às vezes sua obediência inquestionável tinha suas vantagens.

Pareceu como uma hora, embora provavelmente fosse mais como a metade de uma, antes que ele ouvisse o som de alguém caminhando em sua direção ao longo do corredor. O alguém estava andando rápido, e estava, obviamente, usando salto alto. Draco sorriu para si mesmo. Já era tempo. Ele esperou até que ela estivesse quase em cima dele, em seguida, saiu das sombras e se virou para encará-la.

Foi tão gratificante como ele poderia ter esperado, ela gritou, e quase cambaleou para trás.

"Olá, Pansy querida", disse ele. "É bom ver você aqui."

"Draco!" Pansy ofegante, a mão ostensivamente sobre seu coração. "Me assustou assim! Quero dizer, realmente." Ela baixou a mão, olhando. "Agora, se você não se importa, eu estava a caminho de algum lugar –"

"Para receber uma mensagem urgente. Eu sei." O desejo de rodar seu bigode era quase esmagadora, felizmente, Draco não tinha um bigode. "Só que a mensagem não existe. Eu inventei. Eu queria que você ficasse sozinha para que eu pudesse falar com você."

"Você o quê?" Pansy estava à imagem de respeitabilidade indignada. "Você se importa? Eu estava ocupada na festa e eu deveria voltar."

"Você não parece tão ocupada para mim," Draco interrompeu. Ele falou baixinho, mas havia uma ameaça em sua voz que fez Pansy olhar para cima bruscamente. Ele começou a circular lentamente em volta dela e podia senti-la resistir ao impulso de se virar e olhar para ele. "Embora eu tenha ouvido que você está muito ocupada ultimamente."

A expressão irritada de Pansy vacilou. "O que você quer dizer com isso?"

"Eu acho que você sabe." Draco foi se aproximando mais dela agora. Seus cachos tremeram um pouco acima da gola redonda de seu vestido verde mal ajustado. "Você sabe, Pansy, o ponto de ascensão social é fazer o seu caminho até a escada social. Não deslizar para baixo dele. Embora eu ouvi dizer que você está talentosa nessa área, também."

"Em que área?"

Ele se inclinou, de modo que seu sussurro agitou seus cabelos. "Decair," disse ele.

Demorou um momento para Pansy reagir à observação terrível de Draco. Então, ela estremeceu, e virou. "Isso é nojento. Você é nojento eu não sei por que você diria uma coisa dessas, mas –"

"Não sabe?" Sua voz estava afiada de repente, e ela estremeceu como se ele tivesse literalmente a cortado. Ele podia ver o medo em seus olhos escuros. "Bem, talvez eu possa sacudir sua memória com um pouco de recitação. Você não se importa se eu ler em voz alta, não é?" Ele limpou a garganta ostensivamente, e tirou um pergaminho dobrado do bolso. "Esta é uma coisinha que eu gosto de chamar de 'Sonetos do Iludido Tragicamente'. Eu acho que você vai gostar." Ele tirou o pergaminho aberto com um movimento do pulso e leu em voz alta:

Hermione –

Estou escrevendo isto na aula de Poções. Eu estou sentado aqui olhando para você do outro lado da sala, mas você não pode me ver. Você está olhando para frente. Posso ver sua mão movendo-se sobre o seu pergaminho, enquanto você faz anotações. Talvez você esteja escrevendo para mim, como eu estou escrevendo para você.

Eu não sou bom nisso. Neste negócio de escrever cartas. Harry seria melhor. Inferno, Malfoy seria melhor nisso. Mas eu estou te escrevendo porque eu tenho que fazer isso. Porque dói estar tão longe de você, especialmente depois de –

"Pare com isso," Pansy sussurrou. "Pare."

"Mas por quê? É cativante. Você pode dançar." Draco sorriu para ela. Ela não pareceu notar. "'Não se preocupe," continuou ele, lendo a partir do final da carta: "Vou deixar isso para você em nosso esconderijo usual. Sinto muito sobre o que eu disse ontem à noitesobre nós vindo a limpa e dizendo a todos. Você estava certa. E mesmo se você não estivesse, não importa. Estamos tão além de todos os argumentos que costumávamos fazerquando vejo a maneira como você olha para mim, eu me sinto"

"Pare com isso!" Pansy gritou. "Pare, pare, pare!" E Draco soube que tinha conseguido o que queria. Sua voz era crua e descontrolada, os olhos arredondados em ovais grotescamente enormes. "Me dê isso – me dê –"

Ela arrancou a nota de seu alcance e rasgou-a em pedaços, que ela espalhou pelo chão com um ar triunfante.

Draco riu. "Há mais trinta de onde veio isso. Weasley parece ter sido um correspondente surpreendentemente dedicado."

"Como –" Ela estava olhando para ele. "Como é que você – meu tronco – é impossível –"

"Às vezes as soluções mais simples são as melhores."

"Será que ele sabe? O Potter sabe?"

Draco levantou uma sobrancelha. "Você tem mais medo dele do que de mim?" ele perguntou docemente. "Você não deveria ter."

Ela parecia atordoada. "O que você vai fazer?"

"Antes ou depois de eu ir para os seus pais e lhes dizer sobre tudo o que você está fazendo ultimamente?"

Surpreendentemente, alguma cor voltou ao rosto dela. "Talvez você devesse tentar dizer-lhes algo que nãosaibam."

Era a sua vez de olhar. "Não me diga que você confessou a eles em um ataque de culpa atormentado."

"Foi idéia deles, Draco," disse Pansy categoricamente, tendo recuperado um pouco de sua auto-possessão. "Foi meu pai quem desenvolveu os feitiços glamour – onde é que você acha que eu consegui deles, de qualquer maneira? Eles são protótipos – novíssimos."

"E você espera que eu acredite que eles pensariam que era uma boa idéia prostituir sua única filha para um Weasley?" Draco se esforçou para colocar o nojo que sentia em palavras. "Eu nem –" Ele parou, e ficou em silêncio. Ele quase podia ouvir as engrenagens zumbindo e zumbindo dentro de sua cabeça enquanto as coisas se encaixaram. "Não. Eles não fariam isso. Eles apoiaram seu disfarce como Hermione, para obter informações, para espionar – mas dormir com ele, foi idéia sua. Ou você o odeia tanto assim, ou – mas não, eu não acho que você o odeie. Você se apaixonou por ele, não é? Por um grifinório. Oh, isso deve ter ferido o seu orgulho."

A cabeça de Pansy retrucou. Seus olhos estavam muito brilhantes. "Foi..."

"Foi o quê?"

Seu tom era cruel, mas a crueldade parecia ser o que ela estava esperando. Ela falou baixinho: "Foi o jeito que ele olhou para mim," ela sussurrou. "Ninguém nunca me olhou daquele jeito."

"Não foi você que ele estava olhando. Nunca foi você."

"E você não sabe o que é isso, eu suponho?" Seu tom foi subitamente enriquecido com veneno. "Ser amado mesmo por algo que não é – parece real, não é, Draco?"

Seus olhos estavam muito brilhantes. E por um momento, ele emudeceu. Ele não tinha idéia de quanto ela sabia, e o quanto do que ela disse havia disso um tiro selvagem no escuro, mas de uma forma incontrolável a memória de Hermione colocando seus braços ao redor dele no guarda-roupa se levantou em sua mente, de sua voz o chamando Harry. E a voz de Harry mais cedo naquele dia, Você fez uma coisa boa, Malfoy. E naquele momento, olhando para Harry, e se perguntando,O que ele quando ele olha para mim? Não a mim. Outro alguém. Alguém melhor.

E por um momento uma seta de impulso de simpatia por Pansy passou por ele, e ele sentiu pena dela, e então a voz de Harry lembrou a ele mesmo, lhe dizendo para fazê-la pagar. Porque, claro, ele possuía reservas de crueldade que Harry não possuía. Não possuía?

"Eles não sabem quem você realmente é," disse Pansy, quebrando seu devaneio. Ele observou com um interesse desconectado que sua voz era muito peculiar: tanto rouca quanto estridente, ao mesmo tempo... "E eu estou começando a pensar que você não sabe também. Blaise sempre disse diferente – ela sempre disse que você era um verdadeiro sonserino em seu coração. Eu não acredito nisso. Eu penso que você virou as costas para nós na primeira chance que teve. Bem, você escolheu o lado perdedor, Draco Malfoy. Eu sei coisas que você não sabe – todos nós sabemos – nenhum de nós confia em você mais, nós estamos o mantendo de fora de nossos planos. Mas isso não significa que nós não temos planos –"

"Pansy?" Draco interrompeu.

Ela piscou, cortada no meio do seu discurso. "O quê?"

"Cale a boca," disse ele.

Ela comprimido lábios numa linha fina. "Certo. Enfie sua cabeça na areia. Mas você vai pensar sobre o que eu disse, mais tarde – eu sei que você vai –"

"Pansy," Draco observou gentilmente. "Eu não pensei sobre o que você disse enquanto você estava dizendo. Agora vamos lá." Ele pegou o braço dela, e ela não se afastou – ela parecia ter ido além de pânico, em uma fúria fria e presa. "Nós vamos voltar para a festa."


Vários caminhos errados levaram Ginny quase às caves do vinho, e foi só com a ajuda de um mordomo fantasma que estava de passagem, que ela conseguiu encontrar seu caminho de volta para a frente da casa. Finalmente ela se viu em um longo corredor com painéis de madeira que tinha a extensão da fachada da casa; logo fora da janela ela podia ver a varanda de pedra que dava para os jardins. Agora ele estava empilhado com neve, as janelas de diamantes lacradas contra o frio.

Logo abaixo do hall estava a porta que ela se lembrava: quando ela estava na Mansão antes, eles passaram a maior parte de seu tempo nesta sala. Ela foi até a porta e a empurrou e caminhou para dentro da biblioteca.

Parecia exatamente a mesma. A mesma janela de vidro azul e verde; as mesmas prateleiras altas cheias de livros. Estava tranqüilo ali, tão silencioso que se podia ouvir a batida de seu coração sobre o suave tique-taque do relógio de ouro na parede norte.

Gina respirou fundo. Então ela enfiou a mão no pescoço de seu vestido e retirou seu Vira-Tempo da sua corrente de ouro fino.


Harry queria muito um copo de vinho, mas havia proibido a si mesmo de um. Após os acontecimentos da noite anterior, ele nunca mais queria beber novamente. O que ele realmente queria, no fundo de seu coração, era voltar para a cama e nunca mais se levantar. Na sua falta, ele queria falar com Draco. Mas Draco parecia estar desaparecido – ele não estava no Grande Hall e quando Harry tentou encontrar sua mente, ele sentiu apenas um zumbido fraco a distância, como um sinal de rádio interrompido. Draco ainda estava visivelmente ocupado.

"Oh, Harry, é ótimo ver você – você está bonito." Era a Sra. Weasley, curvando-se para beijar sua bochecha, alisando seu cabelo e admirando suas roupas novas. Harry conversou um pouco com ela, sem realmente olhar para ela – ela parecia muito com Ron, era doloroso. Ron estava com as costas apoiadas contra a parede mais distante com o resto de seus irmãos. Harry podia vê-lo no espelho que pairava sobre a longa mesa coberta de pratos de comida. Ele também podia ver a si mesmo, a Sra. Weasley inclinando a cabeça para trás para olhar para ele – ele se lembrou de quando ela tinha que se abaixar para falar com ele. Ele também podia ver o brilho escarlate de sua fita rúnica na cintura. Por que tinha sido estúpido o suficiente para tirá-la?

"Embora todos os Blacks pareçam um pouco deprimentes para um casamento," acrescentou a Sra. Weasley. Desta vez, Harry olhou para ela, e perguntou-se de repente o que ela sabia – embora conhecesse Ron bem o suficiente para estar certo de que Ron não teria dito aos seus pais. Ele estava prestes a responder quando viu um lampejo de movimento com o canto do olho, e no espelho viu as portas duplas na extremidade do corredor se abrirem e Draco vir através delas. Ele não estava sozinho também; ele estava segurando Pansy Parkinson pelo cotovelo. Talvez ele tivesse prometido acompanhá-la por algum motivo?

"Sinto muito," Harry disse a Sra. Weasley. "Eu tenho que – uh – tenho que – eu tenho que ir lá," e ele bateu em retirada, deixando-a olhando para ele com surpresa.

Draco estava em pé atrás da porta com Pansy, com os olhos percorrendo a sala. Quando Harry se aproximou deles, ele notou que Draco parecia estar menos segurando Pansy pelo braço em direção a algum lugar do que a agarrando com força e contra sua vontade. Ela foi se afastando, um olhar de aflição óbvio em sua cara pálida de raposa. Conforme Harry se aproximava, Draco olhou para cima, seu rosto limpo. "Ah, Potter – feliz por você estar aqui."

"Onde você estava?" Harry perguntou em voz baixa, consciente de que uma parcela significativa dos ocupantes da sala estava olhando para eles.

Draco olhou para ele, obviamente cansado. "O quê?"

"Onde você estava? Eu preciso falar com você."

"Fui pescar no Alasca. Onde você achou que eu estava? De qualquer maneira, Potter – estou um pouco ocupado agora. Espere um minuto, você vai você vai ver o que eu quero dizer." Seus olhos passaram por Harry, varrendo o cômodo. "Os Weasleys já chegaram aqui?"

Pansy fez um rangido e redobrou seus esforços para se afastar. Harry piscou e apontou. "Sim, eles estão lá – Malfoy, é importante."

"Isso é importante também." Draco começou a atravessar a sala, puxando Pansy com ele. Harry andou ao lado dele, sentindo que algo muito estranho estava acontecendo. "Pansy aqui esqueceu de trazer um presente de casamento. Ela está em apuros."

"Oh, quem se preocupa com presentes de casamento?" Harry exigiu.

Draco lhe lançou um olhar. "Você sabe, para alguém tão brilhante você pode ser um idiota cego na maior parte do tempo." Seus olhos de repente se estreitaram. "Você está diferente, Potter – você cortou o cabelo ou algo assim?"

Harry fez um som estrangulado. Pansy olhou para ele. "Você parece mesmo um pouco diferente," ela concordou.

Harry engasgou, e agarrou a manga de Draco. "Droga – Malfoy, me escuta – eu tenho que falar com você!"

"Harry, não agora!" Draco sussurrou, parando em seu caminho. Ele ainda, surpreendentemente, estava segurando Pansy, que tinha parado de tentar fugir e estava olhando para Harry com o que parecia curiosidade.

"Você não vê que eu preciso falar com você?" Harry disse desesperadamente, abandonando qualquer pretensão.

"O que eu vejo é você fazer uma imitação morta de um esquilo elétrico. Pare de pular para cima e para baixo e espere um segundo –"

"Não posso esperar –"

"Você está morrendo?"

Os olhos de Harry se arregalaram. "Não."

"Então isso pode esperar. WEASLEY!" Draco gritou inesperadamente, lançando a sua voz muito alta. A maioria da sala se virou e olhou, e todos os Weasleys, que estavam agrupados em torno de uma tigela de ponche, se viraram também. A boca fina de Draco se curvou em um longo sorriso. "Ron! Oi! Aqui!"

Ron, preso em um meio movimento com um copo de suco de abóbora a meio caminho dos lábios, olhou. Draco estendeu a mão livre e fez um movimento acenando. Os olhos de Rony foram para Harry, Harry olhou para ele, o desafiando a chegar perto, a desviar o olhar. Com um olhar nervoso para seus irmãos, Ron pousou o copo em cima da mesa e começou a fazer o seu caminho através do cômodo em direção a Draco e seus dois companheiros.

Pansy, um olhar ferido no rosto, começou a tentar fugir novamente. Draco apenas segurou-a mais apertado. Harry podia ver que seus dedos estavam segurando tão duramente a parte superior dos braços dela, que devia a estar machucando. Em outras circunstâncias, ele poderia estar intimidado diante da crueldade de Draco, agora ele não estava. Ele estava começando a ter uma idéia do que estava acontecendo, e seu coração começou a bater mais rápido contra suas costelas. O que Draco achou que estava fazendo?

O mundo pareceu diminuir para um único caminho de movimento: Ron, caminhando em direção a eles. Ele passou pelos pais de Pansy, que estavam por perto e observando. Cabeças giravam conforme ele andava. Todo mundo estava olhando, as expressões das pessoas que assitiam a cena tomar conta eram meio envergonhadas, meio fascinadas.

Ron parou na frente de Draco. Harry não tinha estado assim tão perto de Ron em quase duas semanas. Ele podia ver sombras violeta sob os olhos de seu amigo. Eles não provocaram nenhuma compaixão por ele. Sua raiva tinha consumido qualquer compaixão que ele pudesse ter sentido e o deixou sem palavras.

"Que história é essa, então," Ron disse, baixinho, olhando não para Harry, mas para Draco. "Se você queria a minha atenção, Malfoy..."

"Se eu quisesse sua atenção, eu me vestir como Hermione e tentar transar com você no armário de vassouras," Draco disse sorrindo como uma ponta de uma faca.

Ron corou ligeiramente, mas não se mexeu. "Diga o que quiser, Malfoy," disse ele. "Mas não arruíne o casamento. Eu estou te pedindo."

"Não é o casamento ainda," disse Draco, o mesmo sorriso malicioso e brilhante nunca deixando seu rosto. "É o jantar de ensaio."

Diante disso, Harry olhou além de seu amigo e viu que Sirius estava vindo na direção deles. Atrás dele, Lupin estava congelado. Todo mundo ainda estava olhando. Ele sentiu-se encolher sob os seus olhares, sabia que Ron devia estar sendo coalhado com a humilhação ao lado dele, mas Draco estava em seu melhor quando todos estavam assistindo. Draco, sozinho entre eles, parecia estar se divertindo.

"O jantar de ensaio," Draco continuou sem problemas "que significa para a família e amigos próximos da família. Você, eu acho, não é nenhum deles."

"Isso não é para você dizer," disse Ron. "Eu vim por causa de Harry, não por causa de você." Seus olhos foram para Harry, e eles eram enormes e quase pretos com a súplica, "Harry," ele sussurrou. "Harry, eu sinto muito, eu estou tão triste –"

Harry sentiu cada palavra de desculpa como uma ponta de faca conduzida em sua pele. "Não," ele sussurrou. "Não, eu não quero ouvir isso –"

"Harry –" Ron disse.

"Não!" Harry gritou. "Você não sabe que eu –"

"Cale a boca, Potter! Só – cale a boca!" Era Pansy, falando pela primeira vez, sua voz esganiçada e um pouco embargada pela emoção, e Harry sabia – naquele momento, ele sabia. Ela tinha começado a se afastar de Draco, que ainda segurava seu braço com força por trás, e seus olhos estavam no rosto de Rony. Harry tinha visto aquele olhar antes. Hermione olhando para ele, Draco olhando para ela, Simas olhando para Gina, o mesmo olhar no seu rosto, capturados em fotografias ou espelhos – "Deixe ele em paz," gritou Pansy. "Como se você nunca tivesse feito nada errado –"

Ela rompeu, como se ela tivesse percebido que tinha falado demais. Harry podia ver pelo olhar de horror nascendo no rosto de Rony, que ele também estava começando a entender. Mas foi Draco que atuou. Foi Draco que inclinou a cabeça, e falou no ouvido de Pansy. Foi baixo o suficiente para que ela não se afastasse, em voz alta o suficiente para que todos pudessem ouvi-lo.

"Ele nunca fez nada de errado, querida Pansy," ele sussurrou, e sua voz era suave como veludo. "Mas eu já."

E ele a empurrou, de repente, duro e violentamente para Ron. Que, sendo Ron, pegou-a em vez de deixá-la cair. Ela tropeçou e se agarrou a ele, e Draco riu.

"É isso mesmo, Weasley," disse ele. "Apanhou-a decentemente? Veja se você sente qualquer coisa familiar – qualquer que for o feitiço de glamour que ela tenha usado, eu acho que ela ainda sente o mesmo. E você deve conhecer esse corpo muito bem – tantas noites juntos na sala dos monitores. "Você parece o tipo de desajeitado sem graça para mim, mas depois de tanto tempo até mesmo você deveria ter –"

Com uma exclamação gutural de horror, Ron empurrou Pansy para longe dele, e passou os braços em torno de si, ele estava tremendo. Draco não fez nenhum movimento para recapturá-la e ela não fez nenhum movimento para fugir, apenas jogou as mãos para cima sobre o rosto e explodiu em voz alta, soluçando. Ron olhou para ela, tornando-se rapidamente verde.

"Agora você sabe," Draco disse a Ron, e sorriu.

Harry estava consciente de que havia movimento ao redor deles; Sirius correndo em direção a eles, os Parkinsons quase correndo para sua filha chorando, toda a sala explodindo em sussurros – mas ele via, como se iluminado por um holofote único, apenas o círculo estreito que formavam ele e Ron, Pansy e Draco. Pansy chorando, Ron chocado e silencioso, e Draco – Draco parecia um nada na terra. Ele parecia desenhos que Harry havia visto em sua infância de anjos vingadores. Havia algo inexorável sobre ele e Harry sabia que ele era o único que tinha fixado isto em movimento – ele tinha pedido a Draco para fazê-la pagar, e ela iria. Em algum lugar no fundo dos olhos de Draco, ele parecia estar fazendo a Harry uma pergunta, É isso que você queria? Isso é suficiente? Isso foi como você imaginou que seria?

E uma parte de Harry, alguma parte inimaginável e cruel, sussurrou de volta para Draco que ele não deve parar.

O sorriso deixou rosto de Draco. Ele ainda estava olhando para Ron. "Agora você sabe," disse ele novamente. "Pelo que você jogou tudo fora – por isso – por ela. Por uma garota que você não pode mesmo estar. Por um pacote de mentiras estúpidas. Por uma fantasia que sequer valeu a pena. Eu teria dado tudo para ter o que você teve uma vez, Weasley." Harry olhou para Draco, surpreso, mas ele não estava mentindo – ele quis dizer isso. "Eu teria dado tudo, e você jogou tudo fora por nada, e você nunca terá de volta. Ninguém vai. Está arruinado agora. Uma das únicas coisas realmente boas que eu já vi neste mundo podre, e você a arruinou." Draco olhou para Ron, como se ele o odiasse; Harry se perguntou o quanto ele estava atuando. "Valeu a pena, Weasley? Ela valeu à pena?"

Foi pior do que qualquer insulto que ele poderia ter jogado em qualquer um deles. Ron estava em uma branca agonia, e sua voz quebrou quando ele respondeu, ainda olhando de Draco para Harry. "O que você acha, Malfoy?" ele sussurrou.

Draco ficou em silêncio. Seu silêncio disse tudo o que ele poderia ter precisado dizer. O soluço de Pansy evolui para um grito que poderia ter quebrado o vidro. Harry olhou para ela e olhou para Ron e uma sensação de mal estar começou a se espalhar através de seu estômago. Ele levantou os olhos e encontrou o olhar de Draco sobre a cabeça de Pansy, e ele não sabia o que ele teria feito ou pedido a Draco fazer depois disso e ele nunca teve a chance de saber, porque naquele momento as portas duplas para o Hall se abriram e Lúcio Malfoy entrou.


"O que você quer dizer com elas não estão funcionando?" Hermione perguntou, meio histérica, para o homem de aparência perturbada que estava atrás do balcão no Caldeirão Furado. "Como todas elas não podem estar funcionando? Eu tentei chegar três vezes na Mansão Malfoy e não consegui! Deve haver algo errado com suas lareiras! Faça algo! Arrume um – um limpador de chaminés!"

O recepcionista olhou divertido. "Um com uma vassoura enorme, eu suponho?"

"Não tente bancar o esperto comigo!" Hermione gritou, com tanta força que ele se sentiu intimidado diante dela.

"Olha, senhorita," disse ele. "Não há nada errado com as nossas lareiras aqui. Deve haver algo de errado com o controle das lareiras na Mansão. Obviamente, elas estão bloqueadas. Alguém na Mansão deve estar bloqueando todas as conexões de Flu."

"Mas por que fariam isso?"

O balconista deu de ombros. "Eu realmente não poderia te dizer."

"Bem, o que posso fazer?" Hermione gemeu. "Eu tenho que chegar a Ron ou Draco, e ambos estão lá, e vai demorar uma eternidade para conseguir uma coruja, todos elas estão reservadas para levar presentes de Natal!"

O balconista olhou como se ele, obviamente, considerasse este como problema de outra pessoa. "Você não pode aparatar para onde você está indo?"

"Não, eu não tenho uma licença e, além disso, há feitiços contra aparatação lá."

"Bem, por que você não voa, então?"

"Eu não tenho uma vassoura..." Hermione de repente, e estreitou os olhos para ele. "Você tem uma vassoura?"

"Er," disse ele. "Você está pedindo a minha vassoura?"

Hermione cruzou os braços e olhou para ele. "O futuro do mundo bruxo poderia depende da minha chegada na Mansão Malfoy," disse ela.

Seus olhos se arregalaram. "Sério?"

"Bem, não," ela admitiu. "Mas eu estou muito preocupada com um amigo meu. Por favor, me empresta a sua vassoura? Por favor?"

O atendente pareceu vacilar.

"Se você não emprestar," ela acrescentou, "Eu vou dizer ao gerente que você fez furos nas portas para que você pudesse observar as pessoas tirando a roupa em seus quartos."

Seus olhos estalaram. "Você não faria isso."

"Ah, eu faria."

Ele olhou para ela. "Você deve ser uma sonserina," disse ele.

Hermione sorriu. "Eu não sou," disse ela. "Mas obrigada por ter dito isso."


O tique-taque do relógio continuava e Ginny olhou para a pequena ampulheta em sua mão enquanto os minutos passavam.

Não tinha sido fácil conseguir seu Vira-Tempo de volta. Na verdade, tinha sido muito difícil, mas, no final, não é tão difícil como talvez deveria ter sido. Se ela fosse o tipo de pessoa em que as pessoas prestam atenção, teria sido impossível. Mas eles a ignoraram, então ela pode escapar.

E ela escapou, no momento crucial. E ela passou despercebida por todos, até mesmo por Draco, o os olhos afiados de Draco que viam tudo. E ela tinha colocado o Vira-Tempo de volta em sua corrente e o manteve escondido, e somente Seamus tinha perguntado sobre seu colar de novo, e ele não sabia o suficiente para ser suspeito.

Ela tinha planejado isso. Ela vinha planejando isso durante semanas. Então, por que ela estava tão nervosa? Não era como se ela não tivesse voltado no tempo antes. Você voltou centenas de anos atrás, ela disse a si mesma. Desta vez serão apenas cinco. Do que você tem medo?

Ela fechou os olhos e, lentamente, levantou a mão em que estava a ampulheta. Ela ouviu o som de um vento veemente e as pessoas gritando – eles estão olhando para mim, pensou em terror, embora mais tarde ela fosse perceber que o que tinha ouvido era algo completamente diferente.

Rapidamente, ela girou o Vira-Tempo, e o mundo desapareceu.


"Saudação a todos," disse Lúcio Malfoy. "É muita gentileza vocês comparecerem a minha festa de 'bem-vindo de volta ao lar'."

Alguém gritou, uma taça de champanhe caiu no chão e quebrou. Caso contrário, a sala estaria em silêncio sepulcral. Era esperado que Harry fosse ser o mais chocado, mas ao invés disso ele sentiu apenas uma sensação cansada de inevitabilidade. Então novamente, ele soube que Lúcio estava vivo. Todo mundo devia estar pensando que eles estavam olhando para o fantasma de um homem morto há seis meses.

"Oh, meu Deus," sussurrou Pansy, distraído de seu choro. Seus olhos estavam enormes. "Oh, meu Deus, Draco – o seu paiacabou de entrar."

"Sim," Draco disse, rigidamente. "Sim, eu notei isso."

Harry queria colocar uma mão no ombro de Draco, mas não se atreveu. Parecia o tipo de coisa que seria imprudente fazer na frente de Lúcio. Não que Lúcio não soubesse que eles eram amigos. Mas ainda assim. Harry sentiu como se seus pensamentos estivessem sendo forçados através de várias camadas de gaze. Talvez tenha sido o resultado de muitos choques, um após o outro. Ele assistiu com um horror desconectado como Lúcio fez a seu caminho pelo cômodo. Ele não estava sozinho, também; pelo menos dez Comensais da Morte encapuzados e em suas usuais vestes pretas estavam com ele. Dois deles estavam com seus capuzes para baixo; Harry reconheceu como o prefeito e o oficial de justiça do Parque Malfoy.

Os que estavam no cômodo recuaram conforme Lúcio e sua comitiva passavam por eles. Harry não podia culpá-los. Poucos tinham suas varinhas com eles, e os Comensais da Morte eram aterrorizantes em seus tempos de auge. Sirius estava branco de choque, e estava sendo segurado pelo braço de Lupin; os Weasleys estavam em torno dele.

Havia um estrado em uma das extremidades do salão, cercado por uma grade de ouro. Era onde a banda havia ficado na festa de aniversário de Harry. Lúcio o tinha alcançado agora, subido os degraus e virado o rosto em direção ao Hall lotado, com o prefeito e o oficial de justiça ao seu lado. O resto dos Comensais da Morte se afastou e se estendeu contra a parede. Mais Comensais da Morte estavam chegando através das portas duplas abertas para se juntar a eles. A sala estava cercada.

Lúcio se inclinou contra a grade e sorriu. Ele estava impecavelmente vestido – terno preto elegante, capa preta, sapatos caros, anéis de prata. Seus olhos cinzentos vagavam sobre a multidão, avaliando-os como ele poderia ter avaliado a qualidade de uma pintura. "Para citar um escritor trouxa," ele disse: "Os rumores sobre minha morte foram muito exagerados."

Pansy fez um som um pouco estrangulado em sua garganta, que poderia ter sido uma risada ou um soluço. Draco olhou tristemente para o pai. Seus olhos eram ilegíveis.

"Tenho certeza que poucos de vocês estão contentes em ouvir isso," disse Lúcio. "No entanto, continua a ser verdade. Estou vivo, e eu voltei para casa. Como eu imagino que meu filho sabia que eu faria. Não sabia, Draco?"

Harry se virou e olhou para Draco, que teve sua cor indo para uma espécie giz e estava olhando incrédulo para o pai. "Mas você estava indo – eu pensei – o casamento," ele sufocou, a voz embargada.

Lúcio sorriu. Era um sorriso brilhante e malévolo. "Menino estúpido," disse ele. "Você nunca percebeu que sabíamos que você poderia nos ver? Você realmente achou que poderia me espionar sem o meu conhecimento? Você achou que poderia se colocar contra o Lorde das Trevas e todos os seus poderes?"

Draco não disse nada. Ao que parecia, pela primeira vez, ele não tinha nada a dizer. Ele afundou-se de volta contra a mesa e parecia mais devastado do Harry já tinha o visto parecer. Foi, de fato, Ron quem quebrou o silêncio. Ele girou, e não para Lúcio, mas para Draco, e olhou para ele acusadoramente. "Você sabia?" disse ele. "Você sabia que seu pai estava vivo e você não contou a ninguém?"

Esquecendo a promessa que havia feito a si mesmo, no surto repentino de raiva quente e branca que o possuía, Harry girou ao redor, de costas para Draco, e enfrentou Ron com fúria. "Eu sabia, também," ele cuspiu. "Ele me disse. Se você vai culpar Draco, me culpe também."

Ron hesitou e recuou.

Como se anúncio repentino de Harry houvesse libertado a sua voz, Draco falou. "Dumbledore me disse para não contar a ninguém," disse ele. Harry virou a cabeça e descobriu que Draco estava olhando por cima de sua cabeça, para Sirius. "Sinto muito."

"Dumbledore é o único que deve se arrepender," disse Lúcio. "Aquele tolo senil de idade, fazendo seus planos pouco inteligentes, pensando que ele poderia nos comandar, o tempo todo confiando em você e em seus sonhos para obter informações. E você, acreditando em todas as nossas mentiras."

"Foi tudo mentira – tudo aquilo?" Draco disse, e por um momento Harry achou que um flash do que parecia quase como esperança atravessou o rosto de seu amigo.

Lúcio olhou para o filho. Seus olhos cinzentos não entregavam nada. "Bem," disse ele. "Talvez não tudo."

"Isso é o suficiente." Era Sirius, Harry viu, destacando-se do resto da multidão e dando um passo à frente. "Não há nenhuma necessidade para estes jogos de gato e rato, Lúcio. Você é um doente mental foragido –" Ele riu, embora não houvesse humor nele. "Eles vão te levar de volta ao St Mungus, antes mesmo que você possa –"

"Prefiro não pensar," Lúcio interrompeu. "É, na verdade, todos vocês, que estão violando a lei."

Sirius ficou branco. "E o que você quer dizer com isso?"

"Eu não, não você, sou o dono da Mansão Malfoy," Lúcio disse, olhando friamente para Sirius. "As leis da Mansão são velhas, leis antigas, e a Mansão conhece o seu mestre."

Potter! A palavra ecoou tão fortemente na cabeça de Harry, que por um momento ele pensou que Draco havia gritado em voz alta. Potterfique atrás de mim, rápido.

O quê? Harry deu meia volta e olhou para o outro rapaz, cujo a cor de giz havia retornado. Porquê?

A Mansão – é encantado contra invasores, e o mestre da Mansão tem o controle final sobre os encantos. Se meu pai decide que estamos todos invadindo – ele poderia nos lançar daqui sem levantar sequer uma mão –

E você?

Para trás de mim. Os feitiços não vão funcionar em mim, porque –

Eu sei. Sangue Malfoy, Harry respondeu, se apoiando ligeiramente. Vocês precisam de um novo sistema de segurança.Talvez um que não é, ouso dizer, baseado no sangue?

Draco olhou sombriamente e fugazmente divertido. Orgulho puro-sangue, disse ele. Você não iria entender.

Sirius tinha cruzado os braços e estava ofuscante. O resto da dos convidados aglomeraram-se atrás dele, olhando em confusão. "Diga o que quer, então, Lúcio," ele retrucou. "O que você quer?"

Lúcio inclinou-se cuidadosamente sobre a grade. Por um momento, Harry se lembrou de Draco... a mesma graça insolente, o mesmos movimentos gatunos preguiçosos que eram, de alguma forma, ameaçadores. Claro, Draco devia ter aprendido isso em algum lugar. Mas quando Draco fazia isso, ele tinha um certo charme irônico. Com Lúcio, era meramente sinistro. "Eu quero todos vocês," ele disse lentamente, "que não são minha família ou meus servos, que saiam agora da minha casa. Não haverá jantar de ensaio, porque não haverá casamento. Não haverá casamento, porque eu digo que não. Agora saiam, todos vocês."

"Eu não vou deixar Draco aqui sozinho com você," Sirius protestou veementemente. "Ele vem com a gente."

"Você não vai precisar deixá-lo aqui sozinho," respondeu Lúcio, sua voz como seda. "Ele terá a companhia de Harry."

Harry piscou. Certamente ele tinha ouvido errado. Ele olhou para os lados na direção de Draco. Draco estava olhando fixamente para seu pai. Ele usava uma expressão que Harry nunca havia visto antes – um olhar tonto, horrorizado. "Deixe Harry fora disso pai," ele disse, sua voz firme. "Sou eu que você quer –"

"Por favor, nos prive de sua presunção," disse Lúcio. "Se fosse você que eu quisesse, eu diria isso. Harry ficará aqui."

"Não tenho uma palavra a dizer neste processo?" Harry exigiu, um tanto melancolicamente.

Ambos, Sirius e Lúcio, giraram sobre ele. "Não!" disseram em uníssono.

Harry deu mais um passo para trás. "Certo," disse ele. "Só queria verificar."

Sirius puxou a gravata, lívido de raiva. "Você honestamente acha que pode mantê-lo aqui, com você?" ele cuspiu para Lúcio. "O Ministério –"

"Não tem escolha no assunto," disse Lúcio. Estava começando a nascer em Harry que Lúcio estava sendo sério. "Draco é meu filho pelo sangue e esta é a casa dele, você não tem o direito de levá-lo de mim... E Harry." Os olhos de Lúcio passaram brevemente sobre Harry, e eles estavam gelados. "Harry é minha propriedade."

Sirius riu, era um latido furioso. "Você realmente precisa voltar ao St. Mungus, Lúcio."

"Oh, eu lhe garanto que eu estou muito são," Lúcio sorriu. "E que eu tenho a lei ao meu lado. Harry Potter tem sido um residente domiciliado desta casa por seis meses hoje. Ele é menor de idade sob a lei dos bruxos. Portanto, eu sou seu tutor oficial."

"Isso é ridículo," Arthur Weasley irrompeu, avançando para estar ao lado de Sirius. "Sirius Black é seu tutor oficial, eu mesmo assinei os papéis da adoção."

"Ah, sim, você," Lúcio disse, sorrindo agora, seus olhos em Arthur. "O nosso falso ministro. Vou chegar até você em um momento." Ele se virou para o homem pálido ao seu lado que Harry sabia que era o conselheiro municipal do Parque Malfoy. "Mr. Stebbins, você seria gentil de..."

Com um breve aceno de cabeça, o conselheiro municipal desenrolou uma longa faixa de pergaminho e começou a ler em voz alta:

"Sob a lei dos bruxos, o domicílio é o lugar onde uma pessoa tem a seu verdadeiro, fixo e permanente lar e principal estabelecimento principal, no seu âmbito, e para qual, sempre que ele está ausente, ele tenha a intenção de retornar –"

"Então, o lar de Harry é, obviamente, Hogwarts," Sirius protestou. "É a sua casa principal – não é, Remo?" ele exigiu, girando sobre seu amigo.

Mas Lupin, parecendo atordoado como o resto da multidão, apenas baixou os olhos. "Na verdade, Sirius, legalmente falando..."

"Ahã," Stebbins interrompido. Ele estava obviamente se divertindo – provavelmente ninguém tinha prestado tanta atenção a ele nos últimos anos. "Se eu puder continuar:

"Assistentes individuais que estão matriculados para estudar em Hogwarts são, como determinado de acordo com o Loco Parentis Chattel Expiditor de 1721, não são considerados domiciliados em Hogwarts, já que não há presunção do castelo em si para que os alunos o considerem sua localidade como o estabelecimento permanente ou principal, já que esses estudantes não têm expectativa de permanecer dentro da base eternamente. A prova da intenção de ser um morador de uma residência particular é demonstrada pela ausência de laços de uma antiga residência; na matéria instante, essa ausência de laços é demonstrada, desde o início, pela ausência de qualquer correspondência entre o Sr. Potter, ou em verdade, qualquer residente de Mansão Malfoy, com aqueles que ainda estão em residência na Rua dos Alfeneiros número 4, exceto, é claro, pela carta enviada pelo Sr. Sirius Black, e assinado pelo mesmo, que fornece a Mansão como um endereço de retorno e que afirma, em parte, que – citação – Harry vai viver aqui comigo, minha noiva e seu filho, e ele não tem interesse em ouvir de você, sua esposa ou seu filho, então eu devo pedir que qualquer comunicação adicional com ele seja feita através de mim no endereço fornecido acima– fim da citação. Com essas palavras, o Sr. Potter é considerado legalmente domiciliado na Mansão Malfoy."

"Com a força de uma carta que escrevi para os Dursleys? Isso é ridículo!" Sirius protestou. "Não havia nada de legal sobre a carta – Eu a enviei sem o conhecimento do Ministério –"

"Seis meses atrás," Stebbins interrompeu, "Sr. Potter mudou seu discurso de registros em Hogwarts para afirmar que seu tutor era o Sr. Black, e como Hogwarts aceitou a carta assinada pelo Sr. Black, no lugar de seus pais ou responsáveis, para o Sr. Potter por mais de três anos antes de tal mudança, ceteris peribus (*latimorestoserácortado), os registros em Hogwarts realmente indicam que o Sr. Potter é um residente do Parque Malfoy, isso é correto... Sr. Lupin?"

"Isso é correto," Lupin disse numa voz quase inaudível. "Para o melhor de meu conhecimento."

"Há também trouxa lei," Sirius disse com uma voz apertada. "Os Dursley - eles são da família de sangue de Harry -"

"Eles são," disse Stebbins, que Harry estava começando a odiar. O próprio Lúcio estava sem dizer nada; encostado na grade, permitindo que o oficial de justiça falasse. "Mas nós temos outras evidências aqui sobre a questão da localização domiciliar. Também estamos em posse de uma carta do Sr. Dursley na qual ele afirma que foi avisado de que sua tutela sobre o Sr. Potter terminou em seu décimo sétimo aniversário. Eu acredito que ele terminou a carta com – citação – adequada libertação e nunca chegar perto de mim ou minha família novamente – fim da citação – A decisão foi emitida nesta manhã considerando toda a parafernália mágica da competência da Rua dos Alfeneiros para ser Bona Vacantia (*latim boa vaga), e foi confiscada pelo Ministério da Divisão de Resposta cerca de 17 minutos atrás. Como prova adicional que o Sr. Potter agora é domiciliado na Mansão, os registros do Ministério mostram claramente que diversas alas e proteções ao redor da casa dos Dursleys foram removidos durante o mês de julho deste ano."

"Eles foram?" Sirius girou em direção ao Sr. Weasley. "Arthur, isso é verdade?"

O Sr. Weasley assentiu, parecendo chocado. "Bem, sim – a Equipe Auror de Resposta pensou que já que Harry não estaria mais lá, e há uma alta despesa alta envolvida em manter um tal sistema de ala extensa no lugar..."

"Meu Deus," Sirius sussurrou. "Há quanto tempo eles vêm planejando isto...?"

Lúcio deu uma risada feliz. "Fique em silêncio por um momento, Black," disse ele. "O melhor ainda está por vir, eu acho. Stebbins...?"

O conselheiro municipal deu um sorriso fino. "Muito bem. 'De acordo com isso, o Tribunal do Parque Malfoy tem considerado as provas apresentadas, de acordo com os pedidos Amicus Curae arquivados por Lúcio Malfoy, e em seguida, apresentado à revelia. Em nossa audição da mesma queixa, cadit quaestio (*latim: questão de se enquadrar), emitimos este Decreto de Comando e Reintegração. Lúcio Malfoy é agora considerado, por esse tribunal, por cúrio e por lei, o guardião de seu filho de sangue, Draco Malfoy. E também tem a custódia total, de acordo com os atos e determinações discutidas aqui, em relação à Harry Potter, como seu período de residência, e, assim, o seu domicílio, na Mansão dos Malfoy anterior à data em que ele faça dezoito anos. Nemo dat quod non Habet, e res Gestae (*latim Ninguém o que não tem, as façanhas). Assinado por Lúcio Malfoy e seis funcionários do Ministério, bem como o conselheiro municipal do Parque Malfoy, no ano de 1998' E isso," ele terminou, enrolando o pergaminho,"é tudo."

"Seis oficiais do Ministério? Que seis oficiais do Ministério?" Sirius exigiu; Harry nunca o tinha visto tão zangado, nem mesmo em seus cartazes de Procurado.

"Sinto muito," respondeu Lúcio brilhantemente. "Isso é confidencial."

Sirius saltou em direção a ele, mas o Sr. Weasley e Lupin seguraram cada um de seus braços, e o detiveram. "Sirius," Harry o ouviu sussurrar: "O Ministério vai cuidar disso, não entre em pânico, podemos lidar com isso..."

Sirius não parecia confortado com isso e Harry quase não culpou ele. "O Ministério está, obviamente, nisso," ele sussurrou de volta. "Como você não pôde perceber isso, Arthur –"

"Sr. Malfoy." Ele Lupin que estava falando, sua voz firme e recolhida. "Você pode estar certo. Você pode ser capaz de manter Harry aqui por um determinado período de tempo, embora você seria um tolo de pensar que poderia mantê-lo permanentemente, e eu não acho que você é um tolo. No entanto, isso não muda o fato de que qualquer dano que venha a ele enquanto ele estiver sob sua custódia é de sua responsabilidade. Se você machucá-lo... se você danificar o menino de qualquer maneira... ainda é crime, e você irá para Azkaban."

Lúcio suspirou e acenou com a mão fortemente cercada em um gesto de desdém. "Eu não tenho nenhuma intenção de prejudicar os meninos," disse ele. "O que mente estreita todos vocês têm."

"O Ministério estará observando você!" Arthur Weasley gritou inesperadamente. "Se você sequer tocar em um fio de cabelo da cabeça de Harry –"

Lúcio bufou. "Burocrata mesquinho e entediante," disse ele, "não tenho paciência para isso. Eu já tomei conta de você, de qualquer maneira. Deixe o Ministério ficar com raiva e rugir. Tudo o que eu tenho feito aqui é perfeitamente legal. E agora... Eu gostaria que todos vocês me deixassem em paz, por favor."

Lúcio levantou sua varinha. Harry sentiu Draco pegar involuntariamente em sua manga e puxá-lo duramente de volta, ele abaixou a cabeça, não havia um rugido em seus ouvidos. Lúcio gritou um feitiço que Harry mal pode ouvir, e algo como um forte vento passou por ele, rasgando sua roupa e cabelo. Lembrou-se do Feitiço Whirlwind que o tinha expulsado no ano passado e tinha arremessado Lúcio para fora da Mansão – se perguntou se esse era o mesmo – quão irônico seria se fosse. Ele prendeu a respiração –

E tudo estava acabado. O vento acalmou e foi embora. Draco soltou manga de Harry, e Harry abriu os olhos.

A sala estava quase vazia. Lúcio ainda estava onde ele tinha estado, intocado pela tempestade, o sorriso em seu rosto estreito o deixando muito mais parecido com seu filho do que Harry já tinha visto. Os Comensais da Morte ainda estavam lá, também, de pé perto Lúcio. Tudo o que restou daqueles que tinham estado na festa antes da chegada de Lúcio, era Draco, o próprio Harry, e Ron – amontoados juntos em um pequeno semicírculo.

Lúcio olhou para eles com uma expressão de calmo interesse. Então ele estalou os dedos em direção dos Comensais da Morte, e eles começaram a caminhar em direção a ele.

Draco limpou a garganta. "Pai," ele disse, e apontou para o queixo para Ron. "Eu acho que você esqueceu um Weasley. Eu sei que há um monte deles; é difícil manter o controle, mas..."

Ron fez um som estrangulado em sua garganta.

"Fique quieto," Lúcio estalou. "Não fale sobre assuntos que você não sabe nada sobre."

"Desculpe," disse Draco. "Eu não sabia que você tinha decidido que Ron era sua propriedade também. Quero dizer, quem será o próximo depois disso? Você irá pseudo-adotar o resto da minha classe e renomear a Mansão como 'Lar Lúcio Malfoy Para Jovens Bruxos Desobedientes'?"

Lúcio olhou friamente para seu filho. "Eu acho," disse ele, "que você não foi muito sábio em qualquer discurso ou julgamento recentemente, Draco. Eu odiaria perder você."

Draco piscou. "Sim," disse ele. "Isso seria muito descuido de sua parte."

"E o que eu disse quando você era criança? Que é errado ser descuidado com suas posses? Eu acredito que eu lhe disse isso."

"Provavelmente," Draco disse. Ele parecia assustado e cansado e isso deixou Harry nervoso – ele não estava acostumado em ver Draco assustado, mesmo quando ele estava. "Pai – seja isso o que for, por favor, vá em frente."

Sem qualquer alteração em sua expressão, Lúcio desceu da plataforma que ele tinha estado em pé, deu alguns passos em direção ao seu filho, e lhe deu um tapa forte no rosto. Soou alto na sala, como o som de um chicote rachando. Draco colocou a mão em seu rosto, Harry ficou tenso e falou antes que ele pudesse parar a si mesmo, "Você não tem permissão para feri-lo," ele protestou ferozmente – "Você disse que sabia disso."

"Certamente um pai pode repreender seu filho," Lúcio disse calmamente, sem olhar para Harry. Seu olhar estava em Draco, que tinha tirado a mão de seu rosto. A marca vermelha permaneceu lá, como um vergão de chicote, em sua bochecha.

"Eu esperava um castigo pior," Draco disse, sua voz sem entonação. "Considerando tudo o que eu fiz."

"Essa não foi a sua punição," disse Lúcio. Sua voz era friamente suave. "Esse foi o meu perdão." Ele levantou a cabeça e olhou para seus Comensais da Morte. "Tire-os," disse ele, apontando para Harry e Draco. "Tranque-os lá em cima, na Torre Norte. Não – ele não," acrescentou, e pôs a mão de dedos longos na manga de Rony. "Deixe este aqui comigo."

Harry ouviu uma ingestão acentuada de Rony no ar, e mesmo agora, mesmo depois de tudo o que tinha acontecido e tudo o que tinha dito a si mesmo, o sentiu como um golpe em seu estômago – ele se virou para Rony, mas o prefeito, atrás dele, já o havia agarrado e puxado seu braço direito por trás de suas costas. A dor foi imediata e intensa, e Harry gritou, e chutou para trás com os pés. Seu pé esquerdo se conectou satisfatoriamente com algo macio e carnudo, e o prefeito quase o deixou cair.

"Pare com isso," ele ouviu Lúcio dizer bruscamente, e tocou Harry com sua varinha. Instantaneamente, os músculos de Harry congelaram como se ele tivesse sido envolto em gelo. Ele não conseguia sequer virar a cabeça para olhar para Ron ou Draco. Atrás dele, o prefeito riu,baixinho em sua garganta. Então ele pegou Harry mais uma vez e começou a arrastá-lo para fora do Hall.


O pôr do sol passou e a noite tinha caído completamente sobre o castelo. As sombras se alongaram em cada cômodo; a menina na gaiola dourada olhou para cima, seus olhos brilhantes, a lua crescente do lado de fora da janela. Perto da gaiola, o Lorde das Trevas, jogando xadrez com ele mesmo, usando o cavaleiro verde para capturar o rei vermelho.

"Alguém está vindo," disse a menina na gaiola.

O pequeno homem com a mão de prata que estava sentado na sombra ergueu a cabeça, seus olhos estavam brancos na penumbra. "Quem é?" disse ele.

"É Lúcio," disse a garota demônio. "E tem alguém com ele."

"Vou deixá-los," disse o homem da mão prateada, que foi muitas vezes chamado de Rabicho por seu mestre, apesar de não gostar desse nome. Ele se levantou e atravessou a sala, dando a gaiola de ouro e a menina dentro dela um grande beliche.

O Lorde das Trevas continuou a jogar seu jogo solitário. Logo ele teria que sacrificar o seu cavaleiro. Ele não olhou para cima quando Rabicho abriu as portas duplas de bronze e se afastou para deixar Lúcio Malfoy passar. Ele pareceu sentir, no entanto, que a menina estava correta: o servo não estava sozinho.

"Lúcio," disse ele. "Você me trouxe alguém. Um prisioneiro?"

Lúcio limpou a garganta. "Trouxe-lhe o menino," disse ele.

Diante disso, o Lorde das Trevas se levantou e virou; a menina na gaiola se ergueu sobre os joelhos e olhou. Lúcio, calmo e composto, estava segurando o braço de um garoto alto com o cabelo vermelho, vestido em roupas de festa desalinhadas. O rosto do menino estava muito branco.

"Lúcio," sussurrou a menina dentro da gaiola, e passou a mão através das grades. "Lúcio, olhe para mim."

Lúcio ignorou, embora o menino ruivo tenha olhado para ela com os olhos arregalados. Em vez disso, ele falou com o menino, "Saudai o Lorde das Trevas," disse ele.

O menino ruivo ficou em silêncio.

O Lorde das Trevas tinha um pequeno sorriso no rosto. "E você tem certeza que ele é aquele?"

"Lúcio," lamentou a garota dentro da gaiola. "Você prometeu."

Lúcio não pareceu ouvi-la, ele riu baixo em sua garganta. "Estou bastante certo de que ele é o único," disse ele.

O menino ruivo falou. "Eu não entendo," disse ele. "O único o quê? Por que estou aqui?"

O Lorde das Trevas olhou para ele, e um sorriso leve e divertido tocou a borda de sua boca desumana. "Você realmente não sabe? Você não pode adivinhar?"

O garoto balançou a cabeça. "Não."

"Bem, então." O Lorde das Trevas colocou uma mão no ombro do menino e o menino estremeceu de dor. "Talvez isso seja algo que devemos discutir. Venha aqui comigo à mesa... Você joga xadrez?"


NA (Cassandra Claire): Lúcio "lida" com Harry e Draco. Ron passa um tempo com o Lorde das Trevas. Gina descobre que o passado é um país estrangeiro. Sirius se queixa para o Ministério. Hermione lê o diário de Rony. Que rude.

NT(Dianagfg):Oie gentee, não desistam dessa fic! nós tbm não desistimos, só estavamos mtt ocupadas, mas tentando fazer o melhor tempo.
Vou me esforçar mais pra próxima sair mais rápido, bjoos! diana gfg ;**

NT(G.Granger):Fim do capítulo 8 e... parabéns! Vocês acabaram de ler umas 100 páginas hahaha! É, depois de meses (espero que algum dia me perdoem por isso), aí está.

Cassandra surpreende a cada capítulo, né? Estou tão curiosa quanto vocês sobre o 9! Não vou prometer nada porque sempre que prometo, eu demoro! haha então só vou dizer que pretendo não demorar pra postar o próximo!

Gostaria de agradecer todas as reviews maravilhosas do capítulo anterior, se checarem seus inbox, todos que tem como responder, foram respondidas! Obrigada: whoisyourlover, Sara (Muito obrigada a você por estar acompanhando, fico muito feliz! e desculpa ter demorado :/), megalves00 (Querida, desculpa desculpa desculpa! Vou fazer o possível pra não sumir mais assim, e pode ficar tranquila, como eu já disse, sou teimosa demais pra não levar isso até o fim! Um beijo, continue sempre acompanhando (ps: muito fofo esse seu final da review, amei! Obrigada mesmo), caderninhoazul,Sett,Yela:)

Mais uma coisa, CarolSantos, que 'assinou' a review como Caroline!Primeiramente obrigada pela review maravilhosa!Eu enviei um e-mail (séculos atrás) pra você sobre o seu interesse em ajudar a traduzir, mas não sei se você recebeu ou viu. De toda forma, obrigada por se oferecer e entre em contato comigo caso ainda esteja interessada! E você não é a única que torce loucamente pelo Draco e pela Gina, hihihihi

Um obrigada especial para minha co-tradutora dianagfg, sem ela grande parte disso não seria possível!

Aos leitores de 'Acasos?' o cap. vem o mais rápido possível! E pra quem quiser ler (é D/G), fiquem a vontade, vou adorar ter vocês lá!

Um beijo, e obrigada mesmo pela paciência (ou não paciência né, enfim.. hihi)! Espero 'ver' vocês logo logo! G.Granger (: