Capítulo 9 - O Cavaleiro da Morte e o Diabo
Aqui está a sua coroa,
Seu selo e anéis.
Aqui está o seu amor
Para qualquer coisa.
E aqui está a noite,
A noite começou.
E aqui está a sua morte
No coração de seu filho.
E aqui você é caçado
E aqui você se foi,
E aqui está o amor
Em que tudo está construído.
Aqui está a sua cruz,
Suas unhas e sua colina
E aqui está o seu amor
Que inclina-se para onde quiser.
-L.C.
Ela sempre se lembraria da luz do quarto naquele dia: luz cinza de hospital. Seu pai a havia carregado do escritório de Dumbledore, embora ela pudesse andar perfeitamente bem, e sua mãe vinha correndo atrás. Madame Pomfrey tinha preparado uma cama para ela; Ginny estremeceu quando seu pai a colocou sobre ela, e esta não partiu de nenhuma dor física, mas por culpa sobre o que o sangue e sujeira que estavam nela fariam aos lençois e travesseiros escrupulosamente brancos. "Eu sinto muito," disse ela a Madame Pomfrey, mas seus pais só a silenciaram e fecharam as cortinas ao redor de sua cama, pedindo-lhe para descansar.
Mas ela não podia descansar. O corpo dela não permitiria isso, não iria querer ficar quieto. Ele estava inquieta, como se quisesse arrastar-se para longe dela. Rastejar de volta para Tom, talvez. Ela não sabia o que ele havia ensinado seu corpo fazer durante o período de escuridão de que não se lembrava. Quando ela se levantou e foi até a janela, ela se viu desenhar nela com a mão esquerda. Levou um momento de atrapalhação antes que se recordasse: ela era destra.
A janela abriu silenciosamente em um dia de primavera clara: a frente da escola foi banhada pelo sol. A luz ardeu os olhos de Ginny, mas ela os manteve abertos. Quando ela os fechou, ela o viu novamente. Ela tinha visto seu rosto apenas brevemente, antes de hoje. Havia sido um sonho preso em páginas de diário, um fantasma insubstancial que se conjurou de sua própria solidão e necessidade. Ela estendeu a mão para ele, então, mas ele tinha escapado como água. Mas lá na Câmara foi diferente. Com a vida que pulsava para fora dela a cada batida de seu coração, ele parecia evoluir em força e substância, até que, finalmente, ela podia vê-lo por completo: o cabelo preto emaranhado, o rosto branco, a leveza dele, a resistência à tração nas mãos esguias. Os olhos jovens de idade, cuja cor ela já não podia se lembrar, mas eles haviam estado claros e serenos. Olhos que se abriam para uma mente como um caldeirão de cobras.
O som de vozes subia até a janela, lembrando-a do momento presente. Ginny olhou com indiferença. A carruagem tinha subido para o pé dos degraus da frente: ela era negro, e em cima da porta estava projetada uma varinha cruzada com uma espada. Havia uma palavra gravada em letras douradas embaixo: ela não conseguia ler dali. Mas não foi o carro que lhe chamou a atenção, nem o homem loiro que estava impaciente esperando por ele. Ela o conhecia. Ela também conhecia o rapaz que estava ao seu lado, corcunda e de aspecto miserável, apesar do clima quente. A luz do sol era brilhante em seu cabelo pálido. Ela o conhecia, e o odiava, mas que não era para ele que ela olhava: era para o livro que seu pai segurava entre os dedos estreitos de sua mão. Preto, esfarrapado, gasto...
A porta do carro abriu. O homem loiro colocou o livro debaixo do braço enquanto gesticulava para seu filho andar.
"Não," Gina sussurrou. "Você não pode levá-lo..."
Aquele livro era dela. Em algum lugar em suas páginas envenenadas estavam suas palavras, os sonhos que ela tinha derramado para ele, os desejos e os pesadelos. Quem mais poderia reivindicá-lo? Tom, mas Tom se foi agora. Harry, talvez, que havia conquistado a destruição dele e sua própria salvação com sangue e morte venenosa. Mas Harry não iria querer isso, e quem mais tinha o direito? Não Lúcio Malfoy, a quem ela detestava, nem seu filho igualmente repugnante. Ela o viu dar um empurrão duro no braço de seu filho, enquanto empurrava-o para dentro do carro, e subir logo em seguida. O menino estremeceu; Ginny estava feliz.
"Para casa, Anton," disse o homem, seus tons cortantes claramente audíveis através do ar. "Agora."
O carro afastou-se das escadas. Qual o fez, a luz do sol o atingiu, e as letras douradas da lateral faiscaram como fogo:
MALFOY.
A parte superior da torre era suave e ligeiramente inclinada, como se um ângulo tivesse sido cortado fora por um par de tesouras gigantes. Ela era quadrada, e cercada por muros com ameias apenas suficientes para encostar-se enquanto sentado.
Draco subiu em cima do muro com ameias e olhou em volta, pensativo. Ele estava bastante familiarizado com esta torre desde sua infância para saber o que ele veria: paredes escarpadas caindo ao chão, com um brilho prata escuro no crepúsculo, os jardins abaixo como manchas escuras contra a neve, a estrada distante que levava às luzes do Parque Malfoy. O sol estava se pondo ao longe, no oeste. O céu era formado por camadas gradualmente aprofundadas em tons de escarlate: concha, pétalas de rosa, sangue. Em outras circunstâncias, ele teria pensado que era bonito.
"Você tem certeza que tem que subir lá em cima?" perguntou Harry, que estava pairado na porta trancada da parede da torre. "Você poderia cair."
"Eu não vou cair," disse Draco.
Harry murmurou algo sob sua respiração. Draco se virou e olhou para ele. Harry tinha os braços cruzados sobre o peito e olhava para cima, seu rosto uma mancha branca entre o colarinho escuro da capa que ele usava e seu cabelo mais escuro. O ar frio tinha chicoteado toda a cor brilhante de seu rosto.
"Eu disse que não vou cair," disse Draco.
"Eu sei," disse Harry. "Só desça, de qualquer maneira."
Draco deu de ombros e pulou o muro, caindo levemente sobre as lajes. A algema de magnetita em seu pulso bateu contra sua lateral quando ele saltou. Lucius havia algemado seu pulso esquerdo e o direito de Harry antes de trancar a porta da torre: eles descobriram, quase de forma tão eficaz como uma célula adamantina, que isso os impedia de fazer qualquer tipo de magia.
"Eu estou aqui embaixo agora," Draco disse, afirmando o óbvio. "Sente-se melhor?"
"Eu me sentiria melhor se você viesse até aqui e me ajudasse a tentar abrir a porta," disse Harry.
Draco balançou a cabeça. "Nem se incomode," disse ele. "Você não pode forçá-la."
Harry parou de puxar a porta e se virou para olhar para ele. Houve um conjunto de rebelde para o queixo. "Enfeitiçada, não é?"
"É claro."
"E eu suponho que você não sabe como desbloquear o feitiço?"
"Não é exatamente um feitiço de bloqueio. A porta está encantada para abrir somente a partir de seu interior. Ela não pode ser aberta a partir de seu exterior. Nunca mais. E não, eu não acho que seja um feitiço reversível."
"Todos os feitiços são reversíveis," disse Harry.
"Bem, você está convidado a se fazer de bobo tentando. Eu, por exemplo, vou sentar aqui e tentar pensar em um plano."
Draco sentou-se, com as costas contra o parapeito de pedra. Uma tontura fraca caiu sobre ele quando ele se sentou, e ele fechou os olhos, desejando que passasse. Com os olhos fechados, ele sentiu, mais do que viu, Harry se sentar ao lado dele. Ele podia sentir a proximidade de Harry, como se a presença física de seu amigo agitasse alguma corrente psíquica entre eles. Ele ajudou de alguma forma, e as tonturas desapareceram completamente.
"Você está bem?" Harry ouviu dizer.
Ele abriu os olhos. "Sim," disse ele.
"Você parece fraco."
Draco inclinou a cabeça para o lado e olhou para Harry. Ele parecia um pouco cansado, mas no geral seu olhar amarrado e exausto tinha desaparecido. Ele tinha sido substituído por uma energia e fogo de alerta. Seus olhos brilhavam, suas bochechas estavam vermelhas, e suas mãos dançavam em seu colo com um ritmo ansioso. A algema de adamantina em seu pulso brilhava enquanto suas mãos se moviam. Suas mãos rápidas, hábeis, diziam: Encontre-me uma espada para empunhar, uma bandeira para acenar; me encontre um lugar para ficar e vou derrotar qualquer mal que vier. Siga o meu conselho.
"Você está gostando disso," disse Draco. "Não está?"
Harry olhou para cima, surpresa. "Claro que não."
Draco olhou para Harry mais atenciosamente. Harry piscou; Seus olhos estavam arregalados e o rosto inexpressivo. "Você realmente está gostando disso," Draco repetiu. "Droga. Você poderia ser mais estranho?"
Harry pareceu ofendido. "Eu estou me divertindo com o que?"
"Isto." Draco fez um gesto com o braço, que englobava a torre e o céu circundante. "Você gosta quando temos alguma ameaça externa com que lidar. Dragões, Mantícoras, vários dos meus parentes insanos..."
"Eu não estou gostando disso," Harry respondeu indignado. "Estou muito chateado."
"Oh, sim," disse Draco. "Olha aqui. Prosperar em um desastre, você faz. Eu suponho que tenha a ver com ser um herói e tudo isso. Poucas semanas passam, nada acontece, você começa a pensar: 'O que é isso tudo, realmente? Não há universos para salvar ou mal a derrotar, qual é o ponto de viver mais? Se eu tivesse uma horda de bons demônios para lidar, eu seria mais feliz eu. ' Bem, você tem o seu desejo."
"Não!" Harry disse um pouco demasiadamente acentuado. "Eu não quero lidar com uma horda demoníaca. Eu não gosto de demônios. Qualquer outra coisa seria melhor. Zumbis. Pelo menos eles parecem monstros. Mesmo que eles comam pessoas."
"Na verdade, eles só comem as pessoas quando são instruídos a fazê-lo por seus mestres de zumbis. Muita gente entende isso errado."
Harry revirou os olhos.
Draco deu de ombros defensivamente. "Zumbis são pessoas também," disse ele.
"Sim," disse Harry sem rodeios. "Pessoas mortas."
"Você é muito exigente para um grifinório."
"Eu não sou exigente," disse Harry. "Se eu fosse, eu não andaria com você, andaria?"
Draco piscou. "Hum," disse ele. "Eu sei que estamos todos com brincadeiras afiadas, mas essa foi uma pouco afiada demais. O que você anda comendo, Potter? E não diga 'zumbis' ou eu vou te empurrar para fora do parapeito."
"Nada." disse Harry de mau humor. "Bem, o óbvio, em que mais uma vez, estamos à mercê de um maníaco enlouquecido com um plano para dominar o mundo, e nenhum de nossos amigos podem nos ajudar..."
"No topo disso tudo," Draco disse, "Eu não sei sobre você, mas que o feitiço Whirlwind (Redemoinho de Vento) realmente bagunçou o meu cabelo."
"Foda-se, Malfoy, não é engraçado." Harry olhou para longe, para baixo, para a catedral da floresta congelada e sua alvenaria de gelo branco-prata no crepúsculo. "Eu estava muito mais feliz com seu pai quando ele estava tentando me matar e não me adotar."
"Ele não está realmente tentando adotar você," disse Draco. "Como se ele pudesse. Ele está apenas tentando distrair Sirius e o resto de tudo o que, na verdade, ele está planejando fazer."
A boca de Harry estava apertada. "Por que ele acha que isso vai funcionar?"
Draco deu de ombros, e a velha dor no ombro apareceu. "Porque, se há uma coisa em que o meu pai é bom, é em identificar as fraquezas das pessoas. Não há nada que deixaria Sirius tão louco como a sugestão de que ele não será seu pai adotivo mais. É tudo sobre como proteger você, a dívida dele com seus pais, e quem ele é, realmente. Você é a parte dele que permaneceu viva em Azkaban." A voz de Draco parou. "Você sabe de tudo isso, Potter."
"Talvez." A voz de Harry era suave. O crepúsculo estava começando a desaparecer agora, e as trevas gravaram seu rosto com sombras. "Eu apenas não posso pensar assim. Como o seu pai."
"Sim, bem, felizmente você tem a mim para isso."
"Sim," disse Harry. "Felizmente, eu tenho você."
No momento em que Hermione aterrissou sua Nimbus 3000 no Parque Malfoy, ela soube que algo estava terrivelmente errado.
A cidade estava totalmente sem luz. Cada lâmpada e lanterna apagadas, cada tocha extinguida, todas as vitrines escurecidas, e as portas fechadas. As ruas estavam completamente desertas, e um vento frio assobiava entre o vazio de edifícios.
Hermione apoiou sua vassoura emprestada contra a parede do Cold Christmas Inn, e olhou ao redor com perplexidade. Será que ela, de alguma forma, havia errado a data?
Uma olhada rápida no bilhete dobrado em seu bolso lhe assegurou que a data não estava errada. Devia haver carruagens aqui, pensou, olhando ao redor com um desconforto profundo. Devia haver decorações, funcionários esperando para dar instruções, o Cold Christmas Inn devia estar aberto e cheio de luz...
"Hermione!" Uma voz inesperada a tirou de seu devaneio. "O que você está fazendo aqui?"
Hermione virou-se e olhou. De pé nos degraus do Cold Christmas Inn estava uma figura familiar com um tufo de cabelos brilhantes. "George!" exclamou ela. "O que você está fazendo aqui? Você veio da festa?"
"Vim de onde?" George olhou para ela. "Quer dizer que você não sabe?"
O coração de Hermione pulou com uma batida. "Eu não sei o que?"
"Venha aqui -" George pegou-a pelo braço e conduziu-a para o lado da Pousada. Ele baixou a voz e falou em um sussurro: "Você não estava na festa, não é?"
Ela balançou a cabeça. "Não. Eu estou atrasada. Eu só cheguei –"
George riu sem vontade. "Sorte sua."
"George, você está me assustando. O que aconteceu?"
"O que aconteceu? Lúcio Malfoy aconteceu."
Hermione sentiu o afundamento da mandíbula. "Mas ele está... ele está morto."
"Sim," disse George brevemente. "Parece que ele não entendeu esse memorando."
"Você tem certeza que era Lúcio?"
George olhou exasperado. "Talvez não. Talvez fosse outro alto, loiro, mal e Comensal da Morte que também é pai de Draco."
A mão de Hermione voou para a boca. "Ele machucou alguém?"
"Não," George disse lentamente. "Não exatamente. Ele colocou um encanto Whirlwind sobre os convidados... todos foram arremessados para fora da mansão, espalhados por quilômetros. Nós apenas começamos a nos reagrupar."
"E você chegou aqui?"
"Não, eu pousei no meio de um grupo de cantores em Hampstead Heath. Dei-lhes um susto de direita. Então eu aparatei de volta para casa, e todos estavam lá, exceto Rony e Gina, é claro. Pobres pequenos torrões, não podem aparatar. Vai levar um tempão até eles voltarem. Enfim, pai me enviou aqui para cuidar dos atrasados, avisá-los para ir embora..."
"Então, todo mundo está bem?" perguntou ela. "Harry e Draco, também?"
George estendeu a mão para ela. "Vamos, Hermione... Vamos voltar para Toca. Carlinhos está lá, ele pode explicar melhor do que eu."
Hermione permaneceu imóvel. "George, fala."
"Nenhum deles está morto." A voz de George era plana. "Agora é só vir comigo, você pode vir, por favor?"
Ele estendeu a mão de novo, e desta vez ela aceitou.
"Xeque-mate," disse o Lorde das Trevas.
Ron manteve os olhos fixos no tabuleiro de xadrez meio vazio. O tabuleiro em si era feito de ônix e travertinos, as laterais eram esculpidas com cenas da vida na corte e na batalha. As peças eram inteiramente talhadas de jóias: rubis e esmeraldas, claras e escuras. Os cavaleiros tinham olhos de ouro sólido. O tabuleiro e suas peças valiam, provavelmente, metade da Toca. Talvez mais do que a metade.
O Lorde das Trevas sentou em sua cadeira. Ron ouviu o arranhar de suas unhas contra a peça que ele estava segurando, e estremeceu. Ele não tinha olhado para o seu oponente nenhuma vez durante todo o jogo, mas os lampejos que ele tinha visto das mãos de ossos brancos com suas longas unhas negras tinham sido mais do que suficiente para mergulhá-lo em um pânico que semelhante a náusea.
"Você me deixou ganhar," disse o Lorde das Trevas.
Ron não pensou que o medo poderia ficar pior. Mas, aparentemente, estava errado. Ele estava segurando o pino que prendia sua capa firmemente com a mão direita; agora sua mão estava tão apertada ao redor dele que cortou convulsivamente a carne macia da palma de sua mão.
"Eu disse," o Lorde das Trevas repetiu, "que você me deixou ganhar. Não deixou, rapaz?"
A voz de Ron saiu em um sussurro. "Eu apenas não sou tão bom no xadrez," disse ele. Reunindo toda a sua coragem Grifinória, levantou o queixo e encontrou o olhar do Lorde. Os olhos vermelhos como brasas olharam para ele a partir do rosto plano de cobra. O Lorde das Trevas não tinha pálpebras. Ron sentiu-se mal. "Quer dizer, eu sou bom. Mas não sou nada de especial."
"Quando se trata de xadrez, talvez não," disse Voldemort. "Pode, talvez, dado a sua habilidade nativa e sua falta de treinamento, ser impossível para você me vencer. O que é importante, porém, é que você tente."
Ron não podia acreditar. Voldemort estava dando a ele um sermão de vitalidade? "Eu simplesmente não vejo... como eu poderia ser um grande desafio para você."
A boca sem lábios de Voldemort se curvou em um sorriso. "Ah, mas você é," disse ele. "Não, talvez, da forma que você possa imaginar." Ele acenou com a mão para o tabuleiro de xadrez; instantaneamente as peças foram rearranjadas e o tabuleiro foi novamente pronto para o jogo. "Bem, devemos jogar de novo agora. E, desta vez, se eu não ficar totalmente satisfeito com a sinceridade de suas tentativas em me derrotar, vou retirar toda a pele de sua mão direita. Lentamente."
Ron engoliu em seco.
"Vamos começar de novo?" o Lorde das Trevas perguntou.
–
Voltar no tempo nunca havia machucado antes, mas dessa vez o fez. Gina girou o Vira-Tempo, o mundo e a Mansão Malfoy correram para longe dela. Quando ela voltou, em uma explosão de luz e cor, ela caiu de joelhos no chão de pedra lisa e descansou ali por alguns minutos, enquanto as dores corriam por seus nervos como pequenos pontos de fogo.
Quando elas cessaram, ela ficou de pé e olhou em volta. Algumas coisas mudaram muito pouco com a passagem do tempo; a Mansão Malfoy era um deles. A diferença entre os dias de hoje e os cinco anos passados era insignificante. O mesmo teto alto com vigas, as mesmas janelas envidraçadas com chumbo e diamantes azuis e verdes. As mesmas pesadas cortinas de veludo verde escuro que pendiam ao longo das paredes. Não havia fogo na lareira agora, porque era primavera. Os livros... Ginny aproximou-se e olhou para os livros, pois eram eles que estavam diferentes. A maioria destes livros havia sido removida da Mansão antes da primeira vez que ela havia estado lá. Livros pesados, antigos e muitos, obviamente, de grande valor e raridade - Oh, como Hermione teria ficado feliz em pôr as mãos neles! Maneiras Desejadas Por Bruxos e Terríveis Feitos De Dragões acotovelavam-se um contra o outro em uma prateleira baixa ao lado de A Harpa Sem Cordas, por C.F. Earbrass. A prateleira mais alta segurava O Livro das Dores Contadas, Tomé Black de Alsophocus, O Livro de Eibon, Necronomicon (o autor ganhou uma sentença de um ano em Azkaban - o livro guardava todos os segredos de como ressuscitar os mortos) e uma dúzia de outros, todos os quais pareciam igualmente e moralmente questionáveis. Outras prateleiras guardavam peças de ficção: as seis peças de Shakespeare que haviam sido escritas e nunca lançadas no mundo dos trouxas estavam lá, até mesmo As Estranhas Irmãs Bane, que estava inacabada.
Ginny, que não era nem perto tão amante de livros como Hermione era, apreciava ainda assim a raridade da coleção. Ela deixou um rastro com sua mão sobre as lombadas dos livros. A pulseira em seu pulso tinindo e badalando conforme os encantos eram atingidos juntamente. A janela acima da escrivaninha estava aberta, deixando no ar um cheiro de grama e o som fraco do embaraço que o vento causava nas folhas. Sob o som do vento, o som mais fraco de passos no corredor foi audível, e estavam cada vez mais forte à medida que se aproximavam da porta da biblioteca...
Gina sentiu seu batimento cardíaco. Ela olhou ao redor, às pressas - o Vira-Tempo, lhe proporcionava uma rota de fuga útil o suficiente, mas dificilmente a fazia invisível, e ela não queria ser vista. Ela se escondeu atrás da cortina de veludo mais próxima assim que a porta para a biblioteca foi aberta.
A sensação de claustrofobia a pressionando foi imediata e intensa. O tecido da cortina era tão espesso que era quase impenetrável: ela bateu levemente com a varinha que havia escondido na manga, e murmurou, "Fenestrus."
Um pequeno furo do tamanho de uma foice foi aberto na cortina. Ginny olhou através dele, prendendo a respiração.
Um elfo doméstico entrou na sala, carregando um espanador e murmurando para si mesmo. "Deve estar tudo impecável para o mestre Lúcio... o mestre odeia poeira... Noddy não quer ter problemas como Dobby. Dobby bobo, ruim e impertinente, não quero ter que fechar os ouvidos na porta do forno –"
O elfo doméstico rompeu em um grito quando o som de rodas no cascalho flutuou através da janela aberta. Ginny ficou tensa, ouvindo as portas da carruagem batendo e vozes chamando. Eles estão em casa.
Os minutos seguintes passaram em um borrão. Ginny prendeu a respiração por trás da cortina, esperando até que ouvisse passos no corredor, esperando que eles ficassem mais altos, esperando que a porta abrisse. Ela fechou os olhos com força.
"Mestre!" o elfo guinchou.
Os olhos de Ginny se abriram, e ela apertou seu olho direito no buraco na cortina. De perto, agora, ela podia ver como Lúcio estava desgrenhado - seus sapatos estavam apenas metade polidos, o cabelo despenteado, o rosto branco em uma máscara de fúria. E, em sua mão esquerda, ele estava segurando –
Um livro. Um pequeno livro surrado preto com uma capa esfarrapada.
"Noddy, sua criatura estúpida," Lúcio rebateu. "Será que eu não disse especificamente que queria o fogo sempre aceso nesta sala?"
"S-sim. Noddy pede perdão, Mestre –"
"Não se desculpe. Basta fazê-lo. E depois ir para a cozinha e me trazer um copo de conhaque. A garrafa está deploravelmente vazia aqui." A expressão de Lúcio estava profundamente azeda. "E se você vir a minha esposa ou meu filho, passe a mensagem de que se qualquer um deles interromper meu estudo, eles passarão a noite nos calabouços."
"Sim, Mestre. Noddy vai fazê-lo, Mestre. E é muito bom ter o Mestre em casa novamente –"
"Ah cale-se, sua pequena lacraia repugnante," rosnou Lúcio em um ataque de raiva e, então, virou-se e saiu pelo outro lado da sala, entrando em uma porta distante que Gina sabia que levava a um escritório menor. Quando ele passou a lareira, Lúcio fez uma pausa e, em seguida, atirou o pequeno diário esfarrapado na lareira vazia. O coração de Gina contraiu.
A porta do escritório bateu atrás de Lúcio, e Ginny ouviu o som da lingueta deslizando na fechadura. A tensão que atravessa seus músculos estava se tornando insuportável. Não faça isso, pensou em direção ao elfo doméstico, se apresse para as cozinhas e esqueça tudo sobre isso –
Mas o elfo não se apressou em sair. Em vez disso, ele levantou um dedo e o apontou para a lareira; instantaneamente um fogo vivo saltou na lareira, obscurecendo o diário de vista.
"Oh, não," ela murmurou sob sua respiração. "Oh, não, não, não –"
Ela colocou a mão sobre a boca, mas, felizmente, o elfo pareceu não ter ouvido ela falar. Pegando seu espanador, ele saiu correndo da sala.
Assim que a porta se fechou atrás dele, Gina afastou a cortina e apontou a varinha, tremendo diante da lareira: "Accio!" ela sussurrou, e o livro queimado foi retirado das chamas e voou pela sala em direção a ela como uma estrela cadente em miniatura. Ela tentou pegá-lo, mas estava demasiado quente para ser tocado e ela deixou cair a seus pés. Aproveitando-se de um livro que estava em uma pequena caixa ali perto, ajoelhou-se e tentou apagar as pequenas chamas. Quando todas se apagaram, ela pegou o diário com a mão trêmula. Estava quente ao toque, como havia estado muitas vezes antes, embora ela soubesse agora que era apenas por causa do fogo. A capa estava chamuscada, assim como as bordas de várias páginas, mas ele estava intacto.
"Oh, graças a Deus," ela sussurrou. Ela passou um dedo sobre a capa rasgada: agora que o calor do fogo estava se apagando, ela podia sentir quão morto ele estava sob seus dedos, já não era a coisa viva que tinha sido uma vez. Ela o virou e leu as palavras no verso: Loja Vorpal's Variety, 15 Vauxhall Road, Londres.
"Desculpe-me," disse uma voz fria diante da porta, "mas quem é você e o que você está fazendo na minha casa?"
Gina paralisou, escondeu apressadamente o pequeno diário dentro do maior livro que ela estava segurando, e olhou. Um menino com cabelos platinados e expressão arrogante estava na porta, os braços cruzados sobre o peito. Embora ela soubesse muito bem quem ele era – ele era instantaneamente reconhecível – levou um momento para sua mente aceitar para quem ela estava olhando:
Draco Malfoy, com 12 anos de idade.
"Estou entediado," disse Harry, em tom de conversa.
"Mmm. Sim, eu também estou, sim. Não é estranho como o terror absoluto rapidamente se transforma em tédio absoluto? Difícil dizer o que é preferível."
Sentaram-se no topo da parede da torre, lado a lado, dois pares de botas penduradas sobre a borda. Harry olhou de canto de olho para Draco: sua respiração estava ofegante em pequenas nuvens brancas. Lúcio encantou ambas as capas antes de trancá-los para fora da torre, e de fato o feitiço parecia estar protegendo Harry do tempo frio – suas mãos estavam frias, mas as luvas ajudavam. E o ar gelado beliscava suas orelhas e bochechas, mas não era tão ruim. Draco parecia mais gelado do que ele estava, ou talvez fosse apenas sua pele lhe fazendo justiça: suas bochechas estavam escarlates, as pálpebras de seus olhos um azul pálido de frio.
"Nós poderíamos cuspir lá embaixo, sobre os transeuntes," Draco sugeriu. "Embora eu não ache que tenham muitos transeuntes no momento."
Harry acenou com a cabeça. "Nós poderíamos fazer bonecos de sombra."
"Nós poderíamos usar nossas capas para fazer trampolins muito pequenos."
"Nós poderíamos falar sobre nossos sentimentos."
"Tenho um pensamento." Draco olhou intrigado. "Quer me dizer o que está realmente incomodando você no último par de semanas?"
Harry pensou sobre isso. "Não," disse ele.
"Bem, essa foi uma discussão produtiva," disse Draco, com um amplo e expansivo aceno de seu braço. "Eu estou contente que nós conversamos Harry - Se é que posso chamá-lo de Harry -"
"Bem, do que mais me chamaria?" disse Harry, irritado por ter sido atingido.
Draco pausou seu meio-sarcamo. "Não costumo chamá-lo de Potter?"
"Eu sei," disse Harry neutramente. "Mas isso não é um pouco estranho? Quero dizer, você sabe, depois de tudo, e..."
Draco piscou. "Este não é um dos aspectos da nossa relação de que nós não tratamos?"
"Eu não sabia que tínhamos uma política oficial sobre isso."
"A política oficial é de que não temos uma política." Draco parecia chateado. "Você está estragando o clima, Potter."
Harry afastou-se com um sorriso. "Sinto muito."
Houve um momento de silêncio. Então Draco colocou a mão no bolso de sua capa e tirou um livro de bolso extravagantemente decorado. Harry reconheceu imediatamente como o romance que acompanhava Gina para café da manhã, treino de Quadribol, e trabalhos de casa. "Bem," disse Draco, um pouco hesitante, "eu podia ler em voz alta."
"Malfoy," disse Harry com curiosidade. "Por que você tem uma cópia de Calças Apaixonadas em seu bolso da capa?"
Draco limpou a garganta. "Era para ser um presente de Natal para Gina."
"Ela já não tem uma cópia de Calças Apaixonadas?"
"Ela provavelmente tem todo o conjunto. É uma trilogia. Calças Apaixonadas, Calças Em Chamas, e Calças Revisitadas. Eu surrupiei este aqui para fora de sua mochila antes de sair da escola."
"Você ia dar-lhe de um livro que você roubou dela? O que você ia me dar? Uma camisa que eu já tenho?"
Draco fez uma cara rude. "É uma piada interna," disse ele. "E de qualquer maneira, eu iria tentar conseguir um autógrafo para a cópia dela. O autor deveria estar na recepção hoje, mas eu acho que ele –"
"Ele? Quer dizer –" Harry olhou para a capa do livro. "Aurora Crepúsculo é um homem?"
Draco riu. "Você não sabe...?"
"Sabe o que?"
O outro rapaz parecia estar se divertindo extremamente. "Bem, eu não vou dizer a você, então."
"Fazer bonecos de sombra está começando a parecer melhor e melhor," Harry murmurou.
"Pare de reclamar, Potter." Draco apoiou o livro aberto em seu colo. "É uma boa noite, e nós temos uma literatura medíocre para desfrutar."
Harry suspirou, então se acomodou contra a parede conforme Draco começou a ler em voz alta:
Calças Apaixonadas, Capítulo Trinta e Cinco.
O ar frio da masmorra úmida agarrou-se aos membros atormentados de Rhiannon. Novamente, ela lutou debilmente contra as correntes que prendiam seus tornozelos algemados. As órbitas úmidas de seu seio, com seu enorme esforço, agitaram-se umidamente debaixo do pano esfarrapado dela –
"Umidamente?" ecoou Harry. "Isso é mesmo uma palavra?"
"Shakespeare inventava palavras o tempo todo," Draco apontou.
"E você acha que o autor de Calças Apaixonadas está a páreo com Shakespeare?" Harry perguntou.
Draco abaixou o livro. "Você quer que eu continue lendo ou não?"
"Oh continue então," disse Harry, e acomodou-se contra a parede de pedra.
Um raio de luz atravessou a escuridão da masmorra quando a porta de ferro se abriu e o sinistro bruxo encapuzado que tinha levado o seu prisioneiro apareceu, gargalhando histericamente.
"Quem é você?" Rhiannon suspirou, batendo freneticamente em suas correntes. "Quem é você e o que você fez com Tristan? "
"Muhahaha," disse o bruxo, e jogou para trás o capuz pesado que, até aquele momento, havia obscurecido as características de seu captor da vista de Rhiannon.
Rhiannon arfou. "Lady Stacia!"
"De fato, sou eu," anunciou a bruxa voluptuosa. Seu peito arfava no escuro, acima das amarras de seu espartilho vermelho de veludo, botas pretas adornavam suas femininas e bem torneadas pernas. "Bem-vinda ao Castelo de Plumeria, Rhiannon," ela zombou, e estalou o chicote que ela segurava na mão esquerda em direção a adornada prisioneiro, que tremia de terror. "Dispa-se!" Lady Stacia ordenou.
Rhiannon arfou. Ela estava ficando um pouco tonta, provavelmente de todos os ofegos. "Você certamente deve estar brincando..."
"Tire!" Lady Stacia choramingou, permitindo que a ponta de seu chicote passasse sobre as curvas leitosas do torso quase nu deRhiannon. "Ou eu vou fazer isso por você..."
"Você sabe," disse Draco de conversa, olhando para Harry, "este livro é muito melhor do que eu me lembrava."
Harry murmurou algo inaudível.
"Você não é uma mulher!" Rhiannon gritou conforme Stacia escorregava em sua direção, com intenção de realizar uma miríade de atos não naturais em seu corpo, o que, mais tarde, Rhiannon fingiu não ter gostado nadinha. "Você deve ser um tipo de demônio!" Ela então começou a...
"Você não curtindo nenhum pouco, está?" disse Draco, e fechou o livro. "O que está comendo você, então? Não me diga que você e Weasley nunca ficaram noites acordados em seu dormitório na solitária torre, lendo Bruxas Sem Calções debaixo das cobertas com uma tocha."
"Como é que você... bem, é claro que sim. Não é isso..."
"Então o que? O que? Você tem aquele olhar, aquele olhar que sempre começa quando você não está me dizendo alguma coisa, porque você está com medo de que, se você me disser, eu vou ficar com raiva ou então dizer que você é um idiota , então em vez disso você apenas senta lá de mau humor como uma hamster grávida e não me diz nada. "
Harry fez um barulho pomposo.
Draco olhou exasperado. "Pomposo, Harry. Ninguém gosta de um pomposo."
"Eu não estou preocupado se você vai ficar com raiva," disse Harry, os olhos procurando o rosto de Draco – que estava, como de costume, sem expressão. "Estou mais preocupado que você fique chocado."
"Você fez algo chocante? Você? O que, você teve um sonho onde todos os elfos domésticos estavam usando spandex, e quando você acordou você se sentiu estranho..."
"Eu fiz sexo," disse Harry. "Na noite passada."
Calças Apaixonadas bateu no chão da torre com um estrondo. Draco olhou para ele com grandes olhos cinzentos de espanto, "Você fez o que?"
Harry repetiu sua notícia alarmante. Houve um longo silêncio. Draco lentamente baixou a cabeça e apoiou o queixo na mão, seus olhos estavam cheios de luzes curiosas. "Você provou que estou errado, Potter. Eu estou chocado."
Harry não disse nada.
Draco continuou a olhar. "Você tem certeza, Potter – Tem certeza que não era um sonho? Você estava horrivelmente bêbado na noite passada."
"Eu tenho certeza. Ela estava lá quando eu acordei esta manhã, também."
"Quem estava lá?" Draco perguntou, olhando como se ele já soubesse a resposta para esta pergunta.
"Erm," disse Harry. "Rhysenn."
"Gah." Draco arregalou os olhos para ele. "E o que sobre esta terra, Harry, deu em você para pensar que esta foi de alguma forma uma boa ideia?"
"Eu não tenho nenhuma ideia – eu nem me lembro corretamente."
"Você não se lembra? Então como é que você sabe que –"
"Porque, ela me disse! Ela estava lá na cama quando acordei esta manhã e ela me disse!" Harry estremeceu, lembrando-se do olhar frio de diversão em seus olhos, as imagens que suas palavras tinham evocado... Coisas que me aconteceram ontem à noite que nunca tinham me acontecido antes...
"E você acreditou?" A boca de Draco se contraiu em um sorriso. "Nesse caso, eu tenho algumas ações de um tapete voador que eu gostaria de te vender."
Harry limpou a garganta. Podia sentir-se corar como um pôr do sol. "Nós dois estávamos... nus. Debaixo das cobertas."
"Oh, bem, isso se encaixa." Draco revirou os olhos. "Eu não tenho certeza se há alguma maneira de chegar ao fundo disto sem lhe perguntar um monte de coisas que eu realmente não quero perguntar. Vamos apenas tomar como lido que você teve relações sexuais com ela, se é isso que você quer pensar."
Harry olhou para ele. "Eu não posso dizer se você está sendo sarcástico ou não."
"Sou eu, Potter. Estou sempre sendo sarcástico."
A boca de Harry enrugou. "Hermione nunca vai me perdoar," disse ele.
"E é aí que você não está errado," Draco concordou brilhantemente.
"Eu não vejo por que você acha que isso é tão engraçado..."
"Não é engraçado," Draco corrigiu. "É hilário."
Harry olhou para ele.
"Vamos, Potter. Quer dizer, com tudo que temos de lidar, esta questão de saber se você foi embebedado e bateu botas com um demônio do sexo parece um pouco frívola."
"Ela poderia ter feito algo estranho e não natural em mim," destacou Harry rigidamente.
"Espero que sim," disse Draco. "Nada mais justificaria essa insistência em continuar."
"E eu que pensava que ficaria chateado," disse Harry. "Bobo eu."
"Estou chateado," disse Draco, não parecendo nenhum pouco chateado. "E eu ficaria mais chateado se eu achasse provável que ela tenha lhe dito a verdade, o que eu não acho. Por um lado, expande os limites da credulidade supor que você faria sexo antes de mim . Já foi ruim o suficiente quando Weasley fez. Mas você – olhar para você, com essa cara de menino de coral. Você não pode nem dizer a palavra sexo sem gaguejar."
Harry olhou para Draco ressentido. Era muito injusto que Draco, já que não era mais experiente do que ele próprio tinha sido ontem, tenha nascido parecendo como se ele soubesse tudo o que havia para saber sobre sexo e já estava entediado com a maior parte. "Eu posso dizer a palavra sexo," ele estalou infantilmente. "Sexo sexo sexo sexo sexo sexo sexo."
E talvez tivesse procedido nesse sentido por algum tempo, se uma voz não tivesse inesperadamente interrompido. "Na verdade," a voz disse, e Harry se virou para ver Lúcio Malfoy de pé na porta da torre aberta. "Eu sempre tinha ouvido que rapazes não falam sobre nada além de sexo, mas eu não esperava tão literal demonstração."
"Pansy?" Hermione perguntou, levantando a voz cada vez mais alto. "Pansy PARKISON?"
"Bem," disse Charlie. "Na verdade... sim."
"Você tem certeza? Você está totalmente certo de que era era – aquela vaca sonserina?"
Fred e George simultaneamente afastaram suas cadeiras para longe de Hermione. Carlinhos, bravamente, se manteve firme. "A julgar pela reação dela, sim. Nós temos certeza."
"Essa cadela!" Hermione gritou, batendo o punho sobre a mesa. O vaso tremeu. "Eu não posso acreditar que eu tive a chance de torcer aquele pequeno pescoço retorcido ontem e eu nem sabia. Que odioso, horrível – oh, quando eu colocar minhas mãos sobre ela, eu vou estrangulá-la até que ela fique azul! E então eu vou rasgar ela em pedaços e eu vou saltar sobre eles até – até que ela tenha o bastante."
"Você faça isso," disse George.
"Na verdade", concordou Fred. "E se tiver puxões de cabelo, leve uma câmera, também."
"Oh, cale-se, Fred," disse Hermione irritada. "Só porque você é um pervertido não significa que todos os meninos gostem de assistir a uma luta de meninas."
Houve um curto silêncio.
"Alguém quer chá?" Carlinhos perguntou.
"Eu não quero chá," disse Hermione irritada.
"Eu sei," Carlinhos disse amavelmente, "mas estamos todos em falta de uma vingança amarga, por isso é chá ou nada."
"Estou com fome," opinou George, em tom esperançoso.
"Bom." Carlinhos saltou para cima da mesa. "Eu vou fazer um pouco de comida."
"Esse é o Carlinhos," observou Fred alegremente. "Quando em dúvida, cozinha."
Hermione, recusando-se a ser animada, continuou a olhar melancolicamente para a mesa. "Eu realmente queria que você não tivesse me contado sobre a Pansy," disse ela através de seus dentes.
"Tirei sua mente de Harry e Malfoy por um segundo, não foi – ow!" George disse, interrompendo quando Fred lhe deu um soco, não muito sutilmente, no braço. "O que? Ela estava preocupada!"
"E agora ela está se preocupando de novo!" Fred rebateu, acenando com um braço para Hermione como se ela fosse um desastre natural em que George era responsável.
George foi poupado de responder pela abertura da porta da cozinha. O Sr. e a Sra. Weasley entraram, fortemente agasalhados em capas de inverno, flocos de neve derretendo em seus cabelos.
"Qualquer palavra de Rony e Gina?" Sra. Weasley perguntou imediatamente, derramando seu manto pesado e soltando suas luvas sobre a mesa.
"Não, mãe, nada," disse Charlie em voz baixa. "Mas..." Ele apontou para o relógio da cozinha: Rony e Gina mãos permaneceram firmes em viagem. "Eles estão, obviamente, muito bem. Tenho certeza de que se qualquer um deles pudesse aparatar, eles teriam voltado antes de Fred e George."
"Eu sei, eu sei... Ah, Hermione, amor, eu quase não te vi!" Hermione sentiu um breve flash de culpa quando a Sra. Weasley a abraçou e beijou, e Sr. Weasley ofereceu um aperto de mão paternal. Ela sabia que eles preferiam que ela fosse Gina ou Rony, ou até mesmo Harry – ambos adoravam Harry como se ele fosse seu próprio filho. Ela tinha certeza de que estavam doentes de preocupação por dentro, embora ambos escondessem muito bem. "Você está bem, querida?"
Hermione assentiu. "Eu estou bem," disse ela, e voltou ao silêncio enquanto os dois Weasley mais velhos juntavam-se aos seus filhos na mesa da cozinha. Todos, em breve, estavam pegando o típico macarrão com queijo de Carlinhos, que ele fez com pedaços de pão de alho cozido. (Hermione sempre achou um pouco estranho, embora talvez não tão peculiar como o famoso brownie de caramelo-expresso e cerejas pretas de Sra. Weasley, cuja uma migalha – Hermione manteve segredo –foi responsável pela morte de Errol dois anos antes). Ninguém dizia muito.
A conversa animou um pouco quando houve outra batida na porta: desta vez era Lupin e Sirius, tendo passado a última hora de instalando uma Narcisa semi-histérica na casa de um amigo da família que tinha prometido que a sua casa foi era tão bem vigiada e tão ilocalizável que Lúcio nunca iria encontrá-la. Ambos estavam contentes de ver Hermione viva e bem, embora nenhum parecesse interessado no macarrão.
"Como está tudo na Ordem, Remo?" Sr. Weasley perguntou enquanto a Sra. Weasley convocava cadeiras para os recém-chegados e as espremia na mesa entre George e Carlinhos.
Lupin deu de ombros. "Em pânico. Moody está rasgando arquivos. Ele está convencido de que todos os seus documentos classificados estão prestes a ser tomado por comensais de Voldemort. Ele parece arrasado que o seu plano e o de Dumbledore para parar Lúcio não serviu para nada."
"Bem, ninguém poderia ter previsto..." Sra. Weasley disse suavemente.
Sirius suspirou. "Eu sei, eu sei, mas considerando quão tolo eu me sinto, eu só posso imaginar o quão tolo o chefe da Ordem deve se sentir agora. Como estão as coisas no Ministério, Arthur?"
O Sr. Weasley olhou para a esposa, então de volta para Sirius. "Eu não sei," ele disse rispidamente. "Aparentemente eu não sou mais Ministro. Na verdade, eu não estou nem permitido no prédio."
"O QUE? Pai!" Charlie caiu o garfo. "Você não nos disse isso!"
Lupin falou baixinho: "Diga-nos o que aconteceu, Arthur."
Sr. Weasley suspirou. "Aparentemente algum tipo de irregularidade com os votos que me elegeram foi descoberto por alguns dos membros do Conselho. Então eu estou fora do escritório enquanto a investigação fica pendente. E eu não estou autorizado no prédio do Ministério, porque a minha presença pode comprometer essa investigação . Eles mostraram-me. Foi humilhante."
Sirius olhou para Lupin. "Eu lembro de você me dizendo, Arthur, que suspeitou de alguma interferência nos votos durante a eleição. Admito que pensei que você estava sendo paranóico. Sinto muito."
O Sr. Weasley fez um gesto de desprezo. "A água debaixo da ponte," disse ele. "A questão é, o que vamos fazer agora?"
"Eu acho que Remus e eu devíamos ir ao Ministério, enquanto ainda podemos," disse Sirius. "Embora tema que se eu avistar Lúcio Malfoy, eu não seja capaz de me impedir de torcer seu pescoço magro."
"Todas as coisas que ele disse sobre ele ser guardião de Harry – aquilo não era verdade, era?" George interrompeu inesperadamente. "Quero dizer, ele é um condenado, ele foi declarado insano, como ele poderia ser considerado um possível guardião adequado para alguém?"
"Bem, a Mansão e o Parque Malfoy são casos especiais em que a legalidade está em causa," disse Lupin. "Essa área é, em essência, como um pequeno reino ou feudo medieval, em que Lúcio exerce um controle quase total sobre tudo o que acontece dentro de seus arredores. É uma espécie muito antiga e familiar de magia, como a magia de um elfo mágico, tem a ver com laços de sangue até a terra e específicos, localizados tipos de encantamentos. Mas, sim, é claro, esse tipo de leis antigas é um anacronismo, não reconhecido pelo Ministério."
"Que Ministério?" Arthur disse amargamente.
"Bem, exatamente," disse Lupin. "Lúcio nunca se preocupou em tentar implementar a maioria das leis antigas da Mansão, pelo menos não desde o tempo de Voldemort, já que o Ministério teria certamente o detido. Gerações de Malfoy simplesmente fingiram que essas leis não existiam, e assim eles permaneceram tecnicamente sobre os livros. E essas leis, é claro, não reconhecem a jurisdição fora do Ministério, por isso pouco importa se o Conselho já declarou Lúcio ser insano. Eles poderiam tê-lo declarado legalmente como um roedor, não importa."
"Estou confuso," disse George. "Ele é ou não é guardião de Harry?"
Lupin olhou para Sirius, que deu de ombros. "Em essência, isso não importa," disse Sirius. "O grande discurso e tudo isso, era apenas para nos chocar e inquietar. A pretensão de legalidade compra-lhe um pouco de tempo – talvez um dia ou dois É tudo o que ele queria, obviamente. Quanto mais tempo desperdiçado correndo por aí, se preocupando com isso, o melhor para ele seria. É um jogo de distração. Típico de Lúcio."
"Então, ele não tem uma base legal para apoiar-se?" Charlie disse, parecendo aliviado.
"Isso depende," disse Hermione de repente. "Sobre a forma como o Ministério foi corrompido. Quando Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado estava no poder, ele não obedecia às leis. Ele não precisa. É bem possível que o Ministério apoie Lúcio nisso, se todos eles foram corrompidos."
O Sr. Weasley olhou para ela com preocupação. "Hermione, amor, eu duvido que as coisas são assim tão ruins."
Hermione respondeu quase num sussurro: "Eu não sei. Eu não confio em mais ninguém." Ela olhou cegamente para a Sra. Weasley. "Sra. Weasley – tudo bem se eu subir e deitar um pouco? Eu me sinto um pouco tonta."
A bruxa mais velha era todo a simpatia. "Claro, claro! Você pode usar o quarto de Gina."
"Obrigada."
Hermione fugiu para o andar de cima sem olhar para trás, ela sabia perfeitamente bem que todos na mesa estavam olhando para ela com preocupação. Ela estava contente de ir embora. O quarto de Ginny ficava no segundo andar, em frente ao de Fred e Jorge. Hermione parou no patamar do segundo andar, por um momento, perdida em seus pensamentos. Em seguida, ela continuou a subir as escadas para o sótão onde dormia Ron, andando tão silenciosamente quanto podia.
Draco levantou-se, todo o seu riso tinha ido embora. "Pai," disse ele, parecendo surpreso e um pouco estranho. "Eu não pensei que você viria..."
"Não pensou?" Lúcio perguntou preguiçosamente. Ele estava vestindo roupas aquecidas contra o frio da noite, uma capa de pele pesada, luvas e até mesmo um chapéu de pele. Em outra pessoa teria parecido ridículo: Lúcio conseguia portá-las, mas apenas um pouco. "Você acha que eu estava pensando em deixá-lo aqui para sempre?"
"Não," Draco disse. "Achei que você ia mandar criados." Ele recompôs sua compostura como quem coloca uma capa, depois de um momento de surpresa. Seus olhos cinzentos estavam semi-cerrados, a boca se curvou em um sorriso estreito. "Não que eu não esteja contente em te ver, Pai."
Harry começou a levantar-se, mas Draco dirigiu-lhe um sussurro silencioso: Não. Fique onde está até eu ver o que ele quer.
Harry deslizou para baixo na parede. A fita rúnica em sua cintura tocou sua pele nua quando a camisa deslizou para cima, encostou na parede de pedra, e ele se encolheu – queimava como fogo gélido. Dentro dele, o leão em sua corrente resmungou baixinho.
Lúcio deu um passo adiante. A porta da torre atrás dele permaneceu aberta, ligeiramente sustentada – um vislumbre de liberdade enlouquecedora. Conforme ele vinha em direção a eles, cutucou em algo no chão - o Calças Apaixonadas que havia sido descartado – com a ponta da bota. "Aqui em cima lendo romances um para o outro?" ele perguntou brilhantemente, inclinando-se para pegá-lo. "Comportamento estranho para os meninos, eu diria. Algo que você quer me dizer, Draco?"
"Sim," Draco disse uniformemente. "Você parece um cafetão com esse chapéu."
Lúcio sorriu ligeiramente e se endireitou. "Levante-se," disse ele, e foi necessário observar a tensão súbita nos ombros de Draco para Harry perceber que Lúcio estava, na verdade, falando com ele. Ele levantou-se lentamente, e quando ele o fez, Draco levantou-se também, empurrando Harry para trás como ele havia feito – manejando como havia feito anteriormente, dentro da Mansão, para colocar-se entre seu pai e Harry. Harry desejou que ele não tivesse – ele estava quase desejando uma chance para Lúcio atacá-lo. Ele estava mais do que curioso sobre o que aconteceria se Lúcio tentasse.
"Meses atrás," disse Lúcio, seus olhos sobre o seu filho novamente, "Você me disse que eu teria que matá-lo se eu pretendesse prejudicar Harry Potter – isso ainda é verdade?"
Draco não disse nada.
"Não importa," disse Lúcio, com um encolher gracioso dos ombros cobertos por peles. "Eu vejo que é."
Desta vez, Draco falou, sua voz inexpressiva, "O que você quer, pai?"
Para grande surpresa de Harry, a resposta de Lúcio para esta pergunta foi clara e direta. Ela atingiu Harry tão dolorosamente quanto seria se Lúcio tivesse atirado uma caixa de tijolos em seu peito. "Aquela taça que você levou do Museu de Stonehenge," disse ele. "Eu a quero. Dê para mim ou me diga onde ela está, e vocês serão livres desta torre."
Houve um silêncio. Draco se virou e olhou para Harry, e no olhar angustiado do outro garoto, Harry viu uma coisa claramente – Draco, assim como ele próprio, não tinha a menor ideia de onde a taça estava.
A estranheza das viagens no tempo nunca havia levado Gina para casa com tanta força antes. Aquele era o Draco ela tinha conhecido aos onze anos de idade, a quem ela tinha odiado e temido. Ela lembrou-se dele alto e esguio, elevando-se sobre ela, enorme e assustador. E ali estava ele, mas –
"Você é tão pequeno," exclamou ela, sem pensar. "Olhe para você!"
Um rubor vermelho-tijolo resplendeceu sobre o rosto do menino. "Eu não sou pequeno!" ele retrucou, arrastando-se a si mesmo até a sua altura máxima – o que teria ficado no nível do cotovelo de Gina. "Sou um centímetro mais alto que Harry Potter!"
Ele olhou para ela. Ela não podia acreditar. Ela estava dividida entre pânico e vontade de rir. Ele era realmente pequeno – uma frágil criança de pequenos ossos, com um pouco demais de cabelos louros e um rosto magro dominado por enormes olhos cinzentos. O tipo de menino cuja face teria sido beliscada por mulheres mais velhas em mercearias. Este foi o monstro que a tinha humilhado aos onze anos? Gina sentiu vergonha de si mesma.
"E você não respondeu minha pergunta," disparou ele. "Quem é você? Diga-me imediatamente, ou eu vou chamar o meu pai!"
"Eu não faria isso," disse ela imediatamente. "Ele está em seu escritório e não quer ser incomodado."
Draco estreitou os olhos para ela, mas o medo de seu pai o manteve no lugar. "Bem, o que você está fazendo aqui, então?"
"Eu sou sua nova, er, tutora de Aritmancia," disse ela, percebendo enquanto ela dizia que isso dificilmente explicava o seu elegante vestido violeta e suas joias caras. "Para seus estudos de verão."
"Uma governanta? Eu não preciso de uma governanta. Estou indo para o acampamento de Quadribol neste verão. Só vim para casa para pegar meu kit, na verdade." Os lábios de Draco se curvaram em um sorriso de escárnio. Gina olhou para ele com fascínio. Lembrou-se de ter pensado que ele era um menino muito feio. Ele não havia sido, mas a feiura de suas expressões havia feito ele parecer assim. "Eu não acredito em você e, mesmo assim, meu pai jamais iria contratar alguém com tantas sardas para trabalhar nesta casa. Você praticamente se parece com uma Weasley."
Gina saltou. "Eu pareço uma o que?"
"Um membro da família mais pobre e mais repugnante na face da terra," anunciou Draco, com um sorriso superior.
"Você é um menino horrível," ela retrucou. "E quando você for para o acampamento neste verão, espero que Simas Finnegan coloque aranhas mortas na sua cama. Na verdade, eu sei que ele fez. Quer dizer, eu sei o que ele vai fazer. Quero dizer...".
Draco franziu o rosto em uma careta incrédula. "Eu não gosto de você," disse ele.
"E algumas coisas nunca mudam," respondeu Ginny amargamente.
Naquele momento, o som da lingueta sendo movida de volta na porta do escritório quase tirou-a de juízo. Ela agarrou os livros que estava segurando contra o peito e suspirou. Seus olhos se encontraram com os de Draco do outro lado da sala. Ele parecia tão apavorado quanto ela se sentia e, por um breve momento, ela quase viu o Draco que ela conhecia na face de seu eu mais novo. Então ele se virou e fugiu, batendo a porta da biblioteca atrás dele.
E foi no momento certo. Gina pegou o Vira-tempo ao redor de seu pescoço e girou-o às pressas. O mundo ao seu redor se dissolveu em cinza e, de uma distância muito grande, ela ouviu a voz de Lúcio Malfoy desaparecendo enquanto ele gritava: O que foi aquele barulho? Quem está aí? Draco, foi você?
"Eu não posso acreditar que você chamou seu pai um cafetão," disse Harry. Ele sentou-se de costas para o parapeito; Draco se ajoelhou ao lado dele. Doía um pouco ao falar, mas a dor estava diminuindo. Era a única coisa boa sobre a dor induzida magicamente, ele pensou – ela desaparecia quase que instantaneamente uma vez que o feitiço que a provocou fosse suspendido.
A tensão por trás dos olhos de Draco aliviou um pouco. "Bem, ele provavelmente é um," disse ele. "Eu sempre soube que ele estava metido em alguma coisa desagradável... barras de sangue de dragão, contrabando de unicórnios, bordéis de Polissuco..." Ele parou de falar quando Harry fez uma careta. "Você tem certeza de que está bem? Olhe para mim –" Sua boca se esticou quando Harry levantou o rosto. "Suas pupilas ainda estão dilatadas."
"Bem, as suas também," disse Harry obstinado. "Ele só deixou mais em mim, isso é tudo."
"Eu sei. Acho que ele realmente não poderia acreditar que Hermione não nos disse onde estava a taça."
"Ele não deve ler a Revista Bruxas Adolescentes. Se ele a lesse, ele saberia que ela não falaria para mim."
"Ele provavelmente deixou caducar a sua inscrição, enquanto ele estava na instituição mental." O sorriso de Draco era um flash branco na escuridão. "Você consegue se levantar?"
Harry tentou e descobriu que, na verdade, ele podia ficar em pé. Ele ainda ardia um pouco – ele não havia percebido que a maldição Veritas seria tão dolorosa. Ele sentiu como se dois ganchos de aço enormes tivessem sido afundados em seu peito e fossem o rasgando, expondo todos os seus segredos mais íntimos. "Você sabe," disse Harry lentamente, voltando a inclinar-se contra o parapeito, "aquele olhar em seu rosto quando ele percebeu que nós realmente não sabíamos...".
"Eu sei." O sorriso de Draco desapareceu: choque e ansiedade tinham lavado de seu rosto sua cautela habitual. Ele olhou indefeso e cansado, parecendo anos mais jovem. "Eu acho que foi engraçado, mas eu suspeito que signifique que ele logo vai estar de volta com algo pior."
"Esse é o famoso otimismo Malfoy?"
Draco não respondeu. Ele estava olhando para o céu como se esperasse que as respostas fossem aparecer lá, escritas magicamente no espaço entre as estrelas.
"O que você está pensando?" Harry perguntou.
"Eu estava ponderando as palavras imortais de Sócrates, quando ele disse: 'Eu bebia o quê?'"
Harry riu. Draco apoiou o cotovelo no topo da parede, com o queixo na mão. Ele estava olhando para a paisagem de inverno, preta e branca, como um tabuleiro de xadrez, agora que a última luz solar havia ido embora. Os ramos nus das árvores distantes criavam sombras finas ao longo da neve, estreitas como cortes de faca. Entre as árvores, o luar golpeava faíscas de fogo de gelo e redes de frio intenso.
Harry sentiu uma paz estranha e fria tomar conta dele. As coisas estavam ruins, era verdade. Elas provavelmente só iriam piorar. Mas ele havia enfrentado pior no passado, ambos tinham, e eles haviam vencido. Pelo menos isto havia lhe presenteou com um alvo: algo para lutar contra.
"Eu achei que você estivesse gostando disso," disse Draco, tão baixinho que Harry teve que curvar a cabeça para ouvi-lo. Ele era preto e branco sob o luar também, uma estátua de anjo com tristes olhos inexpressivos.
"Eu não estou," disse Harry, com uma parcial veracidade. "Bem... talvez apenas um pouco. É que –"
Ele parou de falar quando a porta da torre foi aberta novamente. Harry virou-se lentamente, o seu medo retornando.
Era, naturalmente, Lúcio, mais uma vez sozinho. Sua capa pesada foi apertada firmemente contra o frio, e um brilhante olhar perverso de alegria interior iluminou suas feições estreitas. "Olá, rapazes," disse ele. "Sentiram falta de mim?"
"É claro," disse Draco categoricamente. "Esta torre fica tão vazia, sem um maníaco balbuciando sobre ela." Ele virou-se lentamente para enfrentar seu pai, mantendo as costas apoiadas contra a parede. Ele parecia muito cansado. "O que te trouxe aqui agora? Apenas mais insultos?"
Lúcio balançou a cabeça, e seu olhar de alegria interior se intensificou. "Eu não vim com maldições ou insultos," disse ele. "Apenas notícias."
/Qual é o seu jogo desta vez?/ Harry exigiu silenciosamente de Draco.
Draco deu de ombros. /Eu não sei./
"Vocês podem, no entanto," Lúcio acrescentou, "quererem se sentar."
"Isso é ridículo," Harry explodiu com raiva. "Você não pode nos machucar, não de forma duradoura. O Ministério está assistindo – e mesmo que você os tenha no bolso, o que eu não acredito, ainda há Dumbledore e o resto. Eles nunca deixariam você viver se você ferisse qualquer um de nós –"
"Eu não tenho nenhuma intenção de ferir qualquer um de vocês."
"Então, qual é o ponto de vir até aqui e fazer ameaças vazias?" Harry estalou, mas Lúcio não estava olhando para ele. Em vez disso, ele estava olhando para seu filho e havia um olhar em seus olhos que Harry achou mais do que inquietante – um tipo de dedicado apetite predatório que fez Harry querer, mais do que qualquer coisa, distrair o olhar de Lúcio para si mesmo. "Você só está tentando nos assustar, e não vai funcionar. Você tem apenas um pouco de tempo até que eles venham até nós, você não pode nos ferir e você não pode nos matar, e você sabe disso . E você não pode me tocar –" A voz de Harry saiu em um sussurro sibilante. "Eu gostaria de ver você tentar."
Lúcio levantou uma sobrancelha prateada, como se achasse a explosão de Harry uma tremenda falta de tato. "Você eu não me incomodaria de matar," disse ele, ainda olhando para Draco, e seu olhar se estreitou e estreitou até que parecia tão afiado quanto uma agulha, apontada para o seu filho. Draco continuou encostada contra o parapeito, o rosto na sombra. "Você eu não me incomodaria de matar, Harry Potter. E Draco já está morrendo."
Quando Harry tinha oito anos de idade, ele havia seguido Duda para a escola um dia – vários passos atrás dele, como seu primo sempre insistiu. Eles estavam atrasados, como muitas vezes estavam, devido ao hábito de Duda de tomar café da manhã duas vezes, e eles eram forçados a esgueirar-se para o fundo da escola depois que os portões fossem fechados. Abaixando-se sob alguns galhos baixos das árvores, Duda tinha segurado um para ele e Harry, esquecendo momentaneamente dos instintos ensinados a ele após uma vida de abuso de seu primo, o seguiu logo depois. Duda, é claro, tinha imediatamente soltado o galho, que havia voltado para trás e cortado Harry no rosto. Mesmo Duda havia ficado surpreso pela quantidade de sangue que tinha produzido. Porém, mais do que a humilhação ou o sangramento, o que Harry sempre se lembrava era do choque repentino e vicioso disto: a dor cegante vinda do nada.
Ele sentia o mesmo choque agora, como se Lúcio tivesse se aproximado e batido em sua cara. As palavras que Lúcio havia falado pareciam de fato não fazer nenhum tipo real de sentido, como se ele as tivesse falado em outro idioma.
"O que?" Harry disse. Ele ouviu sua própria voz, clara e firme, como se ele fosse um estranho. "O que você disse?"
"Acho que eu fui muito claro," disse Lúcio, que parecia quase maníaco com o prazer de sua própria malícia. "Draco está morrendo."
Harry olhou rapidamente para Draco, mas o outro garoto estava tão imóvel quanto tinha sido antes de Lúcio falar. Uma silhueta negra contra o parapeito prateado. Seu peito subia e descia rapidamente, mas fora isso, ele estava imóvel.
"Morrer de quê?" Harry exigiu em um meio sussurro. Ele queria falar mais alto, mas ele não parecia conseguir ar suficiente.
"Veneno," disse Lúcio, como se isso parecesse óbvio. "O que mais?"
Diga a ele, pensou Harry, duro, na direção de Draco. Diga a ele que não é verdade.
Draco não respondeu, mas ele se moveu finalmente, muito levemente, ele levantou o queixo e olhou para seu pai. O gesto levantou seu rosto da sombra. "Foi a flecha," disse ele para Lúcio. Sua voz era calma e concreta. "Foi a flecha, não foi? Havia algum tipo de veneno na haste."
"Não é que você é esperto," Lúcio disse secamente, ele continuou a falar, mas Harry parou de ouvi-lo. Os sons dele foram abafados pelo barulho do sangue nos ouvidos de Harry, que soavam como um trovão. Como que se para compensar essa surdez, sua visão saltou com uma súbita e dolorosa clareza e ele podia ver tudo dentro de seu campo de visão perfeita e simultaneamente. A forma de cada laje irregular, a linha de fusão dos flocos de neve ao longo da parede do parapeito, a sombra afiada de Lúcio no solo.
Ele sabia que Lúcio não estava mentindo. Sabia desde o contentamento seco de Lúcio, do conhecimento maçante nos olhos de Draco, e até mesmo mais do que isso, ele sabia a partir de suas próprias memórias: Draco perder um jogo de quadribol que ele não deveria ter perdido, Draco tropeçando em um jogo de esgrima prática, toda a elegância dele indo embora. Draco descansando contra a parede, apoiando-se enquanto ele falava, estendido no chão em frente da lareira: Harry tinha colocado toda essa recente preguiça sob uma postura meio insolente, mas não era isso, era aquilo. Era aquilo, caso contrário, ele não teria sido capaz de se levantar.
"Quanto tempo," Draco estava dizendo, quando a audição de Harry voltou, "Quanto tempo eu tenho, então?"
"Um mês," disse Lúcio. "Duas semanas, talvez, antes que você não possa mais andar."
Um fraco e duro estremecimento passou por Draco: Harry viu suas mãos apertarem ao seu lado e sentiu o arrepio em seus próprios ossos. O que quer que tenha bloqueado sua garganta, sumiu e ele falou: "Você o envenenou?" ele sussurrou. "Você –"
"Eu nunca disse que eu que o envenenei," disse Lúcio. "Eu estou apenas apresentando os fatos, e eles são os seguintes: ele foi envenenado. O veneno é raro e sutil. É quase indetectável no sangue. Não vai ser uma morte dolorosa, mas também não vai ser uma particularmente rápida."
"Se ele morrer disso," Harry disse em um tom liso e gelado, "Eu vou te matar."
"Fique quieto, sua criança precipitada," disparou Lúcio. "Você não vai fazer tal coisa. Vou fazer um Feitiço de Memória em ambos em breve. Vocês não irão se lembrar qualquer coisa que eu lhes disse. Quando Draco morrer, sua morte será assumida como uma doença natural."
"Então, por quê?" Draco perguntou. Ele ainda estava encostado na parede. O luar deixou seus olhos prateados e opacos. "Por que nos dizer isso tudo? Não é de seu feitio ser sádico sem um propósito maior. Se realmente não há cura..."
"Eu não disse," comentou Lúcio, "que não havia cura."
O ar assobiou nos pulmões de Harry quando ele respirou fundo. "Há cura? Então o que –"
"Harry," disse Draco com a mesma voz inexpressiva. "Pare."
Harry cedeu com relutância. Um sorriso frio e fantasmagórico se formou no estreito rosto de Lúcio quando ele olhou da cara branca de Draco para a de Harry, e de volta. Lentamente, ele flexionou os dedos dentro das luvas. Ele parecia estar fazendo uma aritmética complicada em sua mente – uma aritmética que o divertia muito. "Eu acho," disse ele, "que eu gostaria de falar com Harry, agora. A sós."
"E eu irei pular desta torre então, posso?" Draco disse com amargura plana. "Não importa muito se eu me espatifar todo sobre o fosso de qualquer maneira. Apenas estarei agilizando o processo."
"Seu teatro não me impressiona," disse Lúcio. "Eu sei que você é melhor do que isso. Malfoys não toleram suicídios."
"Não, mas eles parecem estender o tapete vermelho para assassinos," disse Harry, em uma espécie selvagem de voz que ele mal reconhecia como sua. "Não é?"
"Eu faço o que eu devo," disse Lúcio, imperturbável, e fez um gesto em direção a Harry e a porta da torre. "Agora, se você vier comigo..."
"Eu certamente não irei," Harry rosnou.
Lúcio revirou os olhos. "Se você preferir, invocarei meus colegas para arrastá-lo. Seja o meu convidado," disse ele. "Eu não posso prometer que eles serão terrivelmente gentis. Você não é popular entre os meus conhecidos, Harry Potter."
Harry abriu a boca para protestar novamente, mas Draco o interrompeu antes que ele pudesse falar. "Harry," disse ele. "Vá."
Harry sentiu sua boca abrir. "Mas, eu –"
Vá! Draco disse dentro de sua cabeça, tão alto que Harry quase se encolheu. Ele tentou responder do mesmo jeito, mas Draco fechou sua mente tão completamente que era como se Harry estivesse gritando em uma caverna vazia e cheia de ecos – não houve resposta.
"Realmente," Draco disse em voz alta. "Eu prefiro que você vá."
O sorriso de Lúcio era positivamente incandescente. Ele estendeu um braço na direção da porta da torre. "Depois de você, senhor Potter."
E Harry foi, arrastando os pés, sentindo-se como se uma parte de si mesmo – a parte sã, lógica, que esperava que o mundo e tudo que há nele fizesse algum tipo de sentido – tinha sido cortada dele e nunca poderia ser recuperado.
Na porta da torre, ele se virou e olhar além de Lúcio, de volta para Draco. Draco finalmente havia se afastado da parede e estava em pé no meio da torre, em pleno luar, claro como o dia. Ele parecia gravado na luz, como se todos os ângulos e planos dele tivessem sido esboçados em tinta prateada – as maçãs do rosto e o queixo, as linhas de suas mãos estreitas, a linha fina de sua boca. Somente seus olhos, encontrando os de Harry através do espaço que os separava, pareciam pretos.
Mais tarde, quando Harry, sozinho, tentava imaginar seu amigo, era esta imagem de Draco que sempre vinha à sua mente, mesmo que ele tivesse tentado substituí-la por mais felizes: a figura fria e branca, reta e delgada, descrita no luar contra um vazio congelado de estrelas.
O Ministério estava, como Arthur relatou, uma confusão. Funcionários de nível mais baixo corriam aqui e ali, parecendo apavorados, e o uma-vez-gracioso hall de entrada de mármore estava cheio de bruxos e bruxas em uma frenética correria. Registrando reclamações, reunindo-se com os parentes espalhados pelo feitiço Whirlwind de Lúcio, e trocando anedotas apressadas. "Oh, eu cai no meio de um monte de trouxas loucos em algum tipo de jogo, muito chato, eles nem voavam. Onde você foi parar?"
Lupin olhou ironicamente para Sirius. "O Esquadrão do Feitiço de Memória deve estar com força total hoje," observou ele.
Sirius assentiu. "Típico de Lúcio, querendo causar o máximo possível de desorganização... Olha, ali está o jovem Percy Weasley."
No entanto, qualquer esperança que eles pudessem ter tido de que Percy fosse oferecer algum tipo de assistência foi frustrada quando chegaram próximos a ele. Parecendo devastado ao ponto máximo de tormento, seus cabelos vermelhos apontavam para todas as direções e sua capa, normalmente imaculada, estava amassada. Percy cumprimentou-os com um ar distraído de pânico. "Coisas terríveis estão acontecendo," ele sussurrou, tendo consentido em serem arrastados sob a escada para uma breve conversa. "Meu escritório foi transfigurado em um armário de vassouras!"
"Isso é terrível," Sirius concordou. Lupin lutou contra a vontade de chutá-lo na canela. "Você deve estar perturbado."
"Eu estou perturbado! Era um escritório de esquina! Ele tinha uma vista para o Tamisa!" Percy puxou seu cabelo com um ar lamentável. "Agora ele está cheio de esfregões e lustradores de assoalho Perfeito Parkinson!"
"Você não pode registrar uma reclamação...?"
"Aparentemente, isso envolve o preenchimento de diversos formulários em triplicatas, e em seguida enviá-los para o Departamento de Investigação de Atos Aleatórios da Magia, que foi fechado no ano passado por falta de fundos. Maldito Malfoy," Percy fervia. "Vou pegá-lo por isso."
"Você acha que Lúcio Malfoy tem algo a ver com isso?"
"Ele e seus comparsas. Estou lhe dizendo, os únicos funcionários do Ministério que não tiveram seus escritórios transfigurados em algo desagradável são os que sempre foram um pouco sombrios, se você me entende." Percy dirigiu a Sirius um olhar arregalado. "Você me entende, não é?"
"Percy, eu sempre entendo o que você quer dizer," Sirius disse. "Você não tem um osso sutil em seu corpo. Nenhum de vocês Weasleys tem, exceto, talvez, por Gui. É por isso que vocês são mentirosos tão ruins. E eu estou começando a entender porque seu pai foi parar na posição de Ministro quando ele o fez."
Lupin falou calmamente. "Alguma notícia de quem possa substituí-lo?"
Percy olhou rapidamente para cima e para baixo no corredor de mármore deserto antes de responder. "O procedimento geral é que o chefe do Conselho Consultivo atue como substituto temporário, caso o ministro não seja mais capaz de exercer suas funções. A posição do chefe do Conselho muda mensalmente. Agora," Percy terminou amargamente, "é Francis Parkinson."
"Que surpresa." O tom de Sirius era seco. "Francis Parkinson: dirige uma empresa de sucesso que vende cosméticos e encantos domésticos. Forte em corridas de vassoura, fingindo que ele não era um Comensal da Morte há vinte anos atrás, e latindo sobre a forma como os trouxas estão arruinando este belo país. Eu o conhecia quando era um Auror."
"Aparentemente." Lupin ficou impressionado. "Então, em outras palavras, ele é um comensal infiltrado. Quanto do Ministério você diria que agora está totalmente sob o controle deles?"
"Deixe-me colocar desta forma," Percy disse em um tom arrepiante. "Faça o que você tem que fazer aqui e saia. Então, não volte. Este local está agora irremediavelmente comprometido. Não será seguro por muito mais tempo..." Percy fez uma pausa e por um momento o tom oficioso deixou sua voz. "Você veio da Toca, não é? Qualquer notícia sobre Gina e Ron?"
Sirius balançou a cabeça. "Sinto muito, eles não estão em casa ainda. Ainda assim, ambos estão firmes e fortes, de acordo com o relógio da sua mãe."
Percy suspirou. "Tenho certeza que eles estão bem. Ainda assim, você não se importaria de adicionar seus nomes à lista de pessoas desaparecidas no Salão Principal para mim? Em caso de aparecer sem as suas memórias ou algo assim." Ele segurou a capa mais firmemente sobre ele, com uma expressão desolada em seu rosto sardento. "É melhor eu ir," disse ele, e abaixou-se para fora da escada.
"Eu acho que o jovem Percy tem lido muitos gibis," Sirius observou enquanto o terceiro filho dos Weasley desaparecia no corredor. "'Este local está agora irremediavelmente comprometido' de fato. Por que ele não disse diretamente: 'Este edifício está cheio de miseráveis Comensais da Morte em treinamento cujo o maior sonho seria fazer balões de festas não convencionais com seus órgãos internos'".
"Nem todo mundo possui seus fabulosos poderes descritivos, Almofadinhas."
"Verdade." Eles se abaixaram para fora da escada e fizeram seu caminho de volta para o Salão Principal, ainda uma colmeia de ação febril. Lupin e Sirius pareciam um pouco inquietos enquanto faziam o seu caminho pelo piso de madeira. Sirius tinha aquele ar de estar prestes a fazer algo inesperado. Isso nunca era bom.
Pararam na frente de um comprido rolo de pergaminho pregado na parede perto de duas das portas maiores. Nós de bruxos e bruxas estavam ali, resmungando em voz baixa. Perto dali uma bonita e adolescente garota ruiva estava abraçando dois velhos bruxos – obviamente seus pais – e chorando.
O pergaminho tinha uma série de nomes, a maioria dos quais tinham sido verificados e constavam com uma observação sobre o local onde o Feitiço Whirlwind os havia levado: Jessica Noll: Kensington High Street; Serena Verdant: matagal maldito, Yorkshire; Darcy Claiborne: palheiro, Suffolk. Sirius pegou a pena que estava flutuando ali perto e começou a escrever o nome de Rony no final.
"Eu não me incomodaria, se eu fosse você," disse uma voz azeda atrás deles. "Ele não é considerado perdido. Ele é considerado fugitivo."
Lupin sabia quem era antes mesmo de se virar. Snape. Ele estava atrás deles em seu habitual traje preto, o cabelo gorduroso escondendo parcialmente os olhos semicerrados, parecendo um morcego que tinha acabado de descer do forro do alto teto. Seus dedos longos estavam manchados, como se tivesse vindo direto de seu laboratório de Poções.
"Snape," disse Sirius. "O que você está fazendo aqui?"
"Dumbledore enviou-me para encontrá-lo", disse Snape. "Ele tem uma mensagem urgente para lhe entregar."
"Tudo bem," disse Sirius, e cruzou os braços sobre o peito. "O que é?"
"Você não acha que seria melhor se nos falássemos lá fora?" Snape exigiu em um sussurro sibilante.
"Não," disse Sirius. "Eu acho que seria melhor se nós falássemos aqui."
"Sirius..." Lupin começou com um gemido.
"Do que você tem medo de qualquer maneira, Snape?" Sirius agarrou. "Os idiotas agentes dos Comensais da Morte deste edifício? Eles não podem fazer nada para nós. Eles não querem mostrar suas mãos muito cedo, então eles vão nos deixar ir – afinal de contas, nós não somos trouxas e nós não quebramos nenhuma regra."
"Ah, não?" Os olhos de Snape brilharam. "Estou bastante certo de que há uma regra sobre nenhum cão ser permitido na propriedade do Ministério."
Sirius fingiu um olhar ferido. "E eu te convidei para minha despedida de solteiro, também."
"Embora ele tenha pulado a recepção," Lupin apontou.
"Sim," admitiu Snape. "Mas eu tinha uma boa razão."
"Ah?" Sirius olhou curioso. "Qual?"
"Eu não quis ir."
"Então por que você se incomodou em ir na minha despedida de solteiro?" Sirius ergueu as mãos.
"Eu gosto do Cold Christmas Inn." A voz de Snape era ruminante. "Eu gosto do tiro ao alvo deles."
"Seu estranho, antissocial, rato de homem", disse Sirius. "Eu não sei por que me incomodei em convidá-lo em primeiro lugar."
"Eu assumi que Narcisa havia lhe pedido," disse Snape. "Ela sempre gostou de mim."
"Sim, bem, ninguém é perfeito," Sirius murmurou.
"Eu disse a ela muitas vezes que ela era boa demais para você," Snape anunciou. "Teria feito muito mais sentido se você tivesse se casado com ele." Ele apontou para Lupin. "Ninguém mais poderia suportar qualquer um de vocês, e você poderiam levar um ao outro para uma caminhada."
"Eu não tenho certeza se uma mensagem urgente de Dumbledore vale isso," Lupin disse, interrompendo o concurso de encarada Snape e Sirius. "Severo, se você tem algo a dizer..."
Os olhos de Snape correram ao redor da sala. Então, com um suspiro, ele enfiou a mão no bolso e tirou um frasco de vidro. ele tirou a rolha e derramou a poção no chão. Uma nuvem brilhante de fumaça escarlate voou e envolveu os três dentro de uma bolha rubra e nublada. Lupin podia ouvir sua própria respiração e a de Sirius em seu ouvido, mas fora isso, era um silêncio total. O ruído do lado de fora da bolha sem penetrá-la.
"Agora nós quebramos uma regra," disse Snape, com alguma satisfação.
"Sempre andando sobre a borda irregular da rebelião, não é Snape," disse Sirius. Seus olhos estavam brilhantes e divertidos. "Imagino que ninguém possa nos ouvir enquanto estivermos aqui?"
"Exatamente, mas é temporário, então ouça com atenção." Snape falou rapidamente. "O Professor Dumbledore me pediu para lhes pedir que reúnam o grupo ancião mais uma vez. A sede será na Toca. Ele já foi restaurado. A grande probabilidade é que se o atual Ministério já não estiver totalmente sob o controle dos adeptos de Voldemort, em breve estará. Pode ser necessária a criação de um Ministério Auxiliar e um Conselho secundário, reconhecido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros –"
"Isso não tem sido feito há centenas de anos," Sirius protestou em tom reverente.
"A sua compreensão da história é, como sempre, surpreendente. Reconheço que este é um procedimento extremo, mas estes são tempos extremos. Vocês estão encarregados da montagem de nossos aliados. Trabalhem rapidamente. Temos muito pouco tempo."Snape mal tinha acabado de falar quando a nuvem escarlate desapareceu, deixando os sentimentos de Lupin estranhamente expostos. Ele olhou em volta, esperando que todos estivessem olhando para eles, mas ninguém estava.
"A nuvem é invisível para todos, exceto para os de dentro," disse Snape, vendo sua expressão confusa. "Útil, não é? Uma invenção minha."
"Sim." Lupin estava sinceramente impressionado. "Muito bom."
"Eu chamo isso de A Nuvem da Poção de Silêncio," acrescentou Snape.
"Eu teria chamado de Bernard," disse Sirius. "Mas isso é só comigo."
"Você acha que é muito engraçado, não é, Black," o Mestre de Poções estalou.
"Eu sou, como sempre, um escravo da opinião da maioria," Sirius respondeu.
"Eu tenho que voltar para a escola." Snape aparentemente decidiu que ignorar Sirius era a melhor abordagem. "Dumbledore vai lhes mandar uma coruja mais tarde." Ele começou a se afastar, mas parou depois de apenas alguns passos, e se virou. "Vocês têm alguma mensagem para ele?" ele perguntou, um pouco relutante.
Sirius parou por um momento. Lupin sabia que sua antipatia contra Snape estava batalhando com o seu desejo de pedir ajuda ao homem que ele mais admirava no mundo. Finalmente, ele disse: "Diga a ele que seu Chefe está seguro com a gente, no caso de ele estar preocupado. Pergunte a ele, se ele sabe qualquer coisa sobre Lúcio e nossos meninos... qualquer coisa... pra por favor me dizer imediatamente. Mesmo," acrescentou ele, mais baixo, "mesmo que não seja uma boa notícia."
Snape olhou para ele por um longo momento. Então, ele acenou com a cabeça rapidamente, e saiu.
Sirius respirou fundo. "Eu preciso de um pouco de ar Aluado," ele disse, e sua voz estava de repente apertada. Sem um momento de hesitação Lupin levou o amigo pelo braço e conduziu-o entre um nó de bruxos e bruxas, quase derrubando a adolescente e seus pais, na pressa de sair pela porta dupla.
Uma vez fora, Lupin soltou Sirius, que se apoiou pesadamente contra um dos pilares de mármore impressionantes que adornam a frente da fachada do Ministério. Ele olhou para baixo, as mãos fechadas em punhos em suas laterais. Havia cicatrizes ao longo dos nós dos dedos: cicatrizes que ele tinha ganhado em Azkaban, Lupin sabia, pois não tinham estado lá antes. Ele nunca perguntou a Sirius como ele havia as adquirido. Fora às cicatrizes, ele tinha mãos artísticas, as unhas recém-cuidadas para o casamento que nunca havia ocorrido.
"Eu estou tão preocupado, Aluado," disse Sirius. Lupin olhava para longe, em direção ao vazio jardim do Ministério, o solo nu coberto com uma pulverização de neve. "Estou tão preocupado com os dois que mal posso respirar. A última coisa que eu fiz foi gritar com eles..."
"Eles estão bem." Lupin empurrou sua própria preocupação para baixo e falou de forma convincente. "Olhe para o seu feitiço Vivicus."
Sirius olhou para a faixa de prata em seu pulso. A pedra vermelha pulsava brilhantemente quando Harry estava saudável e bem. Estava brilhante agora. "Eu sei," disse ele. "Se não fosse por isso, eu teria ido à loucura a tempos atrás. Eu sei que Harry está bem, e se ele está bem, Draco também está. Lúcio teria que andar sobre o corpo morto de Harry se ele quisesse machucar Draco, sei disso. Eu sei, mas eu não sinto isso."
"Você sentiria se houvesse algo de errado," Lupin assegurou. Ele deu um passo para a frente e pôs a mão no ombro de seu amigo, que estava tenso como uma barra de ferro. "Respire, Sirius. Você vai se sentir melhor, uma vez que agora faremos alguma coisa."
Sirius balançou a cabeça, e colocou a mão para cobrir a de Lupin com a sua. Por um momento, eles estavam ali, imóveis; Sirius olhando para os seus pés, Lupin olhando os jardins. Ele havia passado sua infância confortando Sirius daquela forma: Sirius, que nunca tinha tido qualquer outra pessoa. Tiago era feliz demais para realmente compreender a infelicidade nos outros, e Pedro não era o tipo de pessoa que consolava. Quando Snape e os seus amigos da Sonserina haviam espanado um dos sanduíches de Lupin com pó de prata no jantar, e Lupin passou a noite toda vomitando prata e sangue na enfermaria, Sirius havia sido o único a chorar. E Lupin o consolou em seguida, também. Ele se lembrou de quão assustado e impressionado ele ficou com esse menino estranho e espinhoso que sempre sofria mais pelas outras pessoas do que por si mesmo.
Ele foi tirado de seu devaneio pelo som de passos na neve: ele se virou e olhou para trás. A menina de cabelos vermelhos estava seguindo seus pais até uma carruagem, e tinha olhado por cima do ombro para olhar para ele. Ele a reconheceu então, tardiamente. Ele não a tinha em sua classe desde que ela tinha 13 anos, mas ele a tinha visto com bastante frequência entre os alunos da Sonserina: Blaise Zabini, a namorada de Draco.
Tinha começado a nevar, levemente, como farinha sendo peneirada pelo céu. Draco, sozinho na torre, abriu os braços e inclinou a cabeça para trás e deixou os flocos caírem em seus olhos e boca abertos. O luar picava seus olhos como fogo branco e concentrado: mantinha-o onde ele estava com tanta certeza quando um pico de prata conduzida através de seu corpo e às pedras sob seus pés.
Não é uma coisa fácil ter 17 anos de idade e estar morrendo: ser tão jovem e estar apaixonado e ser informado de que de repente, tudo isso vai acabar. Draco nunca tinha sido uma pessoa particularmente espiritual: ele sempre foi muito apegado ao plano material e no que ele poderia lhe dar. Se ele não podia tocar uma coisa, ela não existia. Se ele não podia vê-la, não importava. Mas então havia Harry, que acreditava no que não podia ser visto: em pessoas que eram melhores do que pareciam ser. No mundo invisível do e do mal e da esperança e da redenção.
Toda a sua vida, você morou em um quarto sem janelas. E agora você pode olhar para cima e ver as estrelas. Dumbledore tinha dito isso a ele, meses atrás, e Draco o ouvia novamente em sua cabeça enquanto ele olhava para o céu preto de inverno desgastado com fogos de gelo. Era o tipo de noite que poderia ter fazer acreditar em anjos. Era o tipo de noite que poderia te fazer pensar que ele poderia ser único, ele mesmo.
Alguma coisa estava arranhada na cornija acima da lareira do escritório de Lúcio; Harry apertou os olhos, mas não conseguia ler as palavras.
Estava quente ali, apesar do fogo já estar morto na lareira. Estava também muito silencioso; os Comensais da Morte haviam levado Harry para o escritório e partido sem fazer barulho, como gatos. Harry se perguntou distraidamente se eles usavam patins sob suas vestes ou se Voldemort os tinha simplesmente treinado de forma rígida para deslizar em vez de andar. Eles se moviam como dementadores, o que acontecia provavelmente de propósito.
Harry afastou-se do fogo. Ele teria apreciado o calor em outras circunstâncias, mas parecia errado, de alguma forma, uma vez que não havia fogo na torre. Ele sentiu o frio de Draco em seus próprios ossos, e estremeceu.
Você está bem? perguntou ele, enviando um fiapo de pensamento.
A resposta veio imediatamente. A voz interior de Draco soou leve, despreocupada, e muito plana. Ele poderia estar comentando sobre o tempo em uma festa de jardim. Eu estou bem. Meu pai está ai ainda?
Não, Harry disse. Eu estou sozinho no escritório. O que devo fazer?
Você poderia roubar coisas, Draco sugeriu. Há algumas valiosas antiguidades aí. Confira o relógio de pêndulo.
Harry hesitou por um momento antes de responder. Tenho a sensação de que seu pai iria notar se eu tentasse sair daqui com um relógio de pêndulo nas minhas calças.
A risada mental de Draco soou como o suave farfalhar de folhas. Harry estava surpreso que ele pudesse rir. Isso é uma chance para tantas piadas à sua custa, eu nem sei qual escolher.
Bem, não se esforce. Então, o que mais tem aqui?
Nada de importante. Olhe para a mesa – ele sempre esvazia suas coisas sobre a mesa quando ele chega em casa. Há algo aí que pareça com – alguma coisa?
Harry foi até a beirada da mesa e observou. Se ele esperava encontrar algum tipo de evidência da maldade recente de Lúcio, como uma faca ensanguentada ou um pergaminho escrito "Trouxas A Serem Mortos" na parte de cima, ficou decepcionado. Não há muito aqui. Alguns papéis em branco, um cachimbo, algumas moedas e coisas. É como se ele estivesse viajando.
Hmm. Draco parecia pensativo. Que tipo de moedas?
Harry piscou para o ouro sobre a mesa. Pareciam galeões comuns a ele, mas então o que ele sabia? Ele escolheu um, sentindo seu peso legal contra seus dedos, e então fechou a mão em torno dele quando a porta do escritório abriu, e vários outras figuras encapuzadas entraram. Harry virou-se, deixando a moeda cair no bolso de sua capa.
O mais alto dos Comensais da Morte tirou seu capuz, era Lúcio. "Harry," disse ele. "Que gentileza sua concordar em falar comigo."
Harry não disse nada.
Com um aceno de sua mão, Lúcio indeferiu sua comitiva. Eles deixaram a sala calmamente e logo Lúcio e Harry estavam sozinhos. Lúcio tirou a capa que ele usava e a segurou; o cabide de mogno no canto dobrou-se de lado e arrancou a capa da mão de Lúcio. Debaixo dela, ele usava um caro terno cinza e uma gravata escura. Para Harry, ele parecia um homem de negócios trouxa. Ele esmagou o impulso de perguntar a Lúcio se o terno era Armani.
Harry sentia muito frio agora, apesar do fogo. Ele observou enquanto Lúcio atravessou a sala e sentou-se perfeitamente na cadeira atrás da mesa. Ele não ofereceu um lugar para Harry, e Harry não fez nenhum movimento para achar um. Eles olharam um para o outro por um longo momento de silêncio, o homem alto e loiro e o menino pequeno com a capa rasgada e mão direita algemada.
"Você," disse Lúcio, finalmente, "quer uma bebida?"
Ele levantou a mão novamente, e a garrafa no aparador subiu no ar e veio pairar ao seu lado. Harry balançou a cabeça. Lúcio, parecendo indiferente, permitiu que o decantador derramasse vinho do Porto em seu copo e, em seguida, tomou um longo e pensativo gole.
Harry, perto de gritar com impaciência, cravou as unhas nas palmas das mãos e falou de maneira uniforme. "Se ele está realmente doente," disse ele, "você não deve deixá-lo lá em cima assim. Está muito frio. Ele pode morrer muito em breve, e então aonde você estaria?"
"Sem dúvida, você está certo," respondeu Lúcio, com um suspiro afetado. "Muito míope de minha parte. Um dos meus muitos defeitos."
Harry não disse nada de novo. Uma das coisas úteis que tinha aprendido com Draco era como eficaz o silêncio podia ser quando utilizado como arma. Se ele esperasse, Lúcio iria ficar impaciente e falar.
Ele o fez. "É muito interessante," disse Lúcio, "o quanto você mudou, Harry Potter. Quanto de você sangrou para longe através desta conexão que você compartilha com o meu filho – e sim, eu sei tudo sobre isso – o quanto sangrou para longe e o quanto foi substituído. Você sabe mesmo quem é agora?"
"Eu sei exatamente quem eu sou." disse Harry friamente. "Sinto muito se é confuso para você. Espera, na verdade, não, eu não sinto muito de forma alguma. Você sabe por quê? Porque eu te odeio."
"Como é triste para mim," disse Lúcio, pegando um tubo fino esmaltado da gaveta de madeira à sua esquerda, e batendo contra o lado da mesa. "E aqui, eu esperava tanto que nos tornássemos próximos."
"Você sempre quer se aproximar das pessoas que você está planejando para matar?" Harry perguntou.
Lúcio riu e pegou uma pequena caixa dourada que Harry pensava ser um peso de papel. Ele abriu-a e retirou uma pitada de tabaco. "Eu não vou te matar," disse ele. "Eu tenho pensado muito sobre qual seria a melhor maneira de fazer o meu filho cooperar comigo, e conclui que matar você, neste momento, seria relativamente ineficaz para este fim."
"Eu estou emocionado."
"Você não seria a primeira coisa que ele ama que eu destruí," disse Lúcio. " Isso poderia ensinar uma lição a ele. Claro," e ele deu de ombros elegantemente, próprio de Draco, ",que essa lição não é lição de hoje."
"Você não pode me matar," disse Harry. "O Ministério teria sua cabeça. Se Draco se importa comigo ou não, esse não é o problema – e de qualquer maneira, você está errado. Você ensinou a Draco que ele não deve amar ninguém. Se você não se lembra, ele não esqueceu. Ele sente responsabilidade, lealdade... obrigação por mim –"
Lúcio riu. "Talvez ele não possa amar," disse ele. "Ou ele não podia. Mas e quanto a você? Você pode, e ele se tornou quem você é. Vejo como isso o mudou. Você sente, e ele sente através de você. Através de você, ele pode saber o que é amar, lamentar, sonhar e sacrificar. Você pode ser a sua expectativa de felicidade, você pode ser o seu coração partido. Pense em todo o mundo de sentimentos que ele iria perder, se ele perdesse você."
"Mas," disse Harry, "não é minha morte que você está planejando."
"Planejamento?" Lúcio repetiu. "Eu não estou planejando sua morte. Ela já começou. E, talvez, agora que eu já lhe disse o que o meu filho iria perder se você morresse, é hora de você pensar no que lhe aconteceria se o inverso ocorrer. Eu apelo," acrescentou, levantando uma varinha de ouro com pouco esforço, "para o seu senso de autopreservação."
Pense o que aconteceria com você, se ele morresse, Lúcio tinha dito. E Harry tentou. Ele ficou onde estava e ele tentou imaginar, mas era como tentar imaginar como seria se ele fosse paralisado. Tão certo como as pernas e os braços se moviam quando ele lhes dizia para fazê-lo, tão certo como os pulmões que se enchiam de ar quando ele respirava, Draco existia como uma parte dele. Lúcio poderia muito bem ter dito: Imagine que você nunca foi um bruxo, ou Imagine que você nunca tivesse ouvido falar sobre magia, ou Imagine que seus pais nunca houvessem morrido.
"Por que você o odeia tanto?" Harry sussurrou finalmente. Ele ouviu sua própria voz, como se de uma grande distância; perguntar-se, vagamente, se Draco podia ouvir ou experimentar qualquer coisa desta conversa através dele. Ele esperava que não. "Eu entendo porque você me odeia. Mas Draco, ele é seu filho. Ele te ama – ele amava você, de qualquer maneira. E ele ainda amaria se você não tivesse tirado tudo isso dele. O que ele fez para você?"
Houve um longo silêncio. O fogo crepitava na lareira duramente, as sombras da tarde se alongando pelo chão. Uma dor nervosa contorcia-se por trás costelas de Harry, como se seu corpo compreendesse o que sua mente não podia, e fosse se encolhendo na antecipação de alguma terrível perda física.
"Eu disse a Draco isso uma vez, há muito tempo," disse Lúcio. Sua voz era curiosamente plana. Harry não o tinha ouvido falar assim antes. "Quando um homem se compromete com o Lorde das Trevas, quando ele recebe a Marca, ele deve, em troca dessa honra e para provar sua lealdade, dar uma coisa ao Senhor das Trevas. Um... presente. Deve ser algo de valor pessoal precioso. Vi homens dar-lhe um grande talento para a música ou a arte, uma memória preciosa, uma grande paixão. Draco perguntou-me uma vez do que eu desisti, e eu disse que havia entregado ele. Isso não é estritamente verdade, pois cada homem pode dar apenas o que é seu para dar. Mesmo meu filho, no final, pertence a si mesmo e não a mim. O que eu dei foi a minha própria capacidade de se preocupar com ele."
"Você desistiu... da sua capacidade de amar?" Harry perguntou. Senti-se estranho, fazendo uma pergunta tão pessoal para Lúcio Malfoy. Mas sua curiosidade foi mais forte do que a sua ansiedade.
"Não," disse Lúcio. "Apenas de meus sentimentos de amor paterno. Eu não tinha filhos, no momento, é claro. Caso eu nunca tivesse um, como eu planejei, eu suponho que teria sido um presente vazio no final. Mas, então, o Senhor das Trevas não tem como usar presentes vazios. Apenas um ano depois de eu lhe prometer meus serviços, ele solicitou que eu tivesse um filho. Então eu tive um filho." Os olhos de Lúcio foram até a janela e, por um momento, ele parecia olhar para o nada. "O Senhor das Trevas não é nada se não há algo que o complete. Quanto a mim, ele sabia que teria um servo que iria produzir uma criança sem se importar de desistir dela quando necessário – porque, é claro, eu tinha o dado a ele um tempo atrás."
"Não é possível..." Harry começou fragilmente, "reverter, de alguma forma, quer dizer, todas as magias são reversíveis –"
"Revertida?" a voz de Lúcio estava, de repente, gelada de novo. "Por que eu iria querer isso revertido? Estou muito satisfeito com o negócio que eu fiz. Para ganhar muito, é preciso muito sacrifício, e eu ganhei muito. Ganhei o mundo."
E perdeu sua alma. Harry pensou em Draco, em cima da torre. Ele estendeu-se até ele com a sua mente, mas sentiu apenas um silêncio resistente e pouco comunicativo. A ansiedade roeu em seu estômago novamente, pior do que antes. "O que você quer de mim?" Ele perguntou de repente. "Você não me trouxe até aqui só para me contar histórias sobre o passado."
"Não." A voz de Lúcio parecia uma navalha agora, Harry suspeitava que o homem mais velho agora estava muito arrependido de ter dito qualquer coisa sobre o seu presente para Voldemort. "Eu o trouxe até aqui para lhe oferecer um acordo."
"Que tipo de acordo?"
"É simples. Você tem essa taça. Que eu quero."
"Eu já te disse, eu não a tenho e não sei onde ela está."
"Eu entendo isso. Mas sua namorada sabe. E, portanto, eu estou disposto a fazer uma troca."
O mundo ficou escuro em torno das bordas. "Uma troca?" Harry sussurrou. "Você quer dizer – você não quer dizer trocar um deles pelo o outro?"
Prefiro morrer, ele pensou, e quis dizer isso, mas não disse. Lúcio não quer ou precisa de sua morte no momento. Oferecer não significaria nada.
Lúcio riu. "Seria divertido para mim ver você fazer essa escolha... não, não é isso que eu quero dizer. Quer dizer que eu vou lhe dar o que você quer, se você escrever uma carta para a senhorita Granger, e lhe pedir para compartilhar a localização da taça comigo. Diga a ela porque, também. Ela vai entender."
"O que você me dará?" Harry disse, sua cabeça girando.
"Isso," disse Lúcio, e de um bolso interno de sua capa, ele tirou um objeto e o colocou sobre a mesa em frente a ele.
Harry olhou. Era um frasco de vidro transparente do tamanho, talvez, de um pergaminho enrolado. As partes superior e inferior do frasco estavam densamente incrustadas com joias cor de vinho. Dentro havia talvez dois centímetros de um líquido palidamente esverdeado.
"Mais veneno?" Harry disse, uma amargura cansada rastejando em sua voz.
"Não," respondeu Lúcio. "Antídoto."
Hermione ficou acordada na cama de Gina, olhando para o teto. A inquietação zumbia em seu sangue e ela não conseguia dormir. Quando ela fechava os olhos, via o rosto de Harry, pálido e preocupado enquanto ele se afastava dela na escola. Não o tendo visto desde aquela vez, ela se afligia: e se ele estivesse morto e a última coisa que ela tivesse lhe dito fosse que ela não queria mais estar com ele?
Desistindo de dormir, sentou-se lentamente, e apoiou o queixo nos joelhos. Pensar no que aconteceria com ela se Harry morresse sempre a enchia de náuseas; lembrou de Draco dizendo que ela não poderia imaginar um mundo sem Harry estar nele. Ah, mas eu posso, pensou sombriamente. Eu só não quero viver nele.
Ela levantou-se e caminhou calmamente até o banheiro em busca de água. Depois de acender a tocha com um sussurrado Lumus, ela olhou desconsolada para si mesma no espelho sobre a pia. Portanto, era assim que era o amor: sombras escuras sob os olhos, palidez comprimida, boca infeliz. Draco teria rido dela, não teria? Olhando para o seu próprio rosto, ela poupou um flash de pena irônico para Pansy: então essa era a ideia de Pansy de uma fêmea fatal e devastadora, era? Qualquer um que tivesse que usar seu rosto para se sentir bonita e adorável... ela fez uma pausa, o copo de água a meio caminho de sua boca. O que na terra TINHA colocado este plano diabólico na cabeça de Pansy? Por que Ron? Não era porque ele tinha escondido uma paixão secreta por ela todos esses anos, Hermione tinha certeza disso. Oh, havia algo ali, sempre havia quando duas pessoas que estavam tão perto já tinham sido envolvidas romanticamente, embora brevemente. Havia a eterna possessividade persistente em Ron, sem dúvida complicada por seu ciúme intermitente de Harry que nunca havia ido embora. Ainda assim, Pansy deve ter pego alguma coisa: um olhar, uma frase, um gesto, algo sobre Ron...
Algo sobre Ron. Hermione colocou o copo sobre a pia, lenta e cuidadosamente. Sua busca, antes superficial pelo quarto de Ron não tinha rendido nada e ela se sentiu envergonhada por olhar, especialmente quando ela não tinha ideia do que estava procurando. Mas algo fez cócegas no fundo de sua mente agora, algo que não podia empurrar para baixo ou ignorar...
Tão silenciosamente como podia, ela apagou a luz e saiu do banheiro, arrastando-se pelo corredor e passando pelo quarto de Charlie, e atravessou a entrada para as escadas. Um rápido feitiço anti-ranger cuidou do barulho; ela subiu, quase silenciosamente, e entrou no quarto de Rony.
Ela acendeu a luz e olhou ao redor. Estava exatamente como tinha estado naquela tarde. Limpo e arrumado, coberto de cartazes, a colcha com o mesmo laranja desgastado. A mesma pilha de fotografias estava sobre a mesa, onde Ron as devia ter colocado após puxá-las das paredes. A mesma pilha de quadrinhos ao lado da cama. Ela tinha olhado nas gavetas e não havia encontrado nada de muito interesse – ou assim ela havia pensado antes. Ela ajoelhou-se agora e reabriu a maior gaveta, deslizando-a completamente e colocando-o no chão.
Havia uma caixa dentro dela, que ela tinha visto antes. Era uma caixa azul, de madeira pintada e simples, com um selo de ouro em relevo na parte superior: Fontes de Adivinhação Mahoney, Beco Diagonal 14. Ela conhecia a caixa: ela tinha dado a Ron no final do verão. O que ele disse, ou então quase disse, para ela quando eles foram aprisionados no castelo de Slytherin sempre tinha ficado em sua mente, embora ele nunca tivesse mencionado isso de novo: ela sempre havia se perguntado se tinha algo a ver com o seu talento para adivinhação não-utilizado. Essa caixa tinha sido o resultado dessas reflexões.
Ela arrancou a tampa, e sentou-se, olhando para o conteúdo da caixa, pensativa. Havia uma bacia de vidência: pequena e é feita de cobre. Havia um maço de folhas de chá com um pequeno livreto de instrução sobre como usá-los. Havia uma esfera de cristal escura sobre um suporte de bronze, na qual estavam gravada as palavras: eu guardo os segredos.
Hermione levantou a esfera pensativamente na mão. Então, ela levou a mão para baixo, com força, quebrando a bola de cristal na borda de metal de mesa de cabeceira de Rony. Ela se preparava para o barulho de quebrá-la: para sua surpresa, ela se partiu em silêncio e ordenadamente, em duas metades perfeitas.
Um pacote pequeno e cuidadosamente enrolado de pergaminhos manuscritos caiu. Eles haviam sido dobrados mais e mais, e enrolados com uma corrente de prata fina. Um sentimento de tristeza indescritível tomou conta de Hermione enquanto ela os pegou: ela sabia o que eram. Mesmo sabendo o que ele sabia, mesmo sabendo a verdade, Ron não teria sido capaz de jogá-los fora. Por baixo de tudo, às vezes ela pensava, ele era o mais sentimental de todos eles – o mais facilmente divertido e mais facilmente ferido. Com um suspiro, ela pegou o pequeno pacote de cartas de amor e deixou-as cair no bolso de sua casa, onde caíram pesadamente, bem em cima de seu coração.
"Então este é o acordo," disse Harry. Ele estava andando para cima e para baixo no topo da torre desde que os guardas haviam o trazido de volta, agora ele havia parado, e colocado as mãos atrás das costas, olhando para Draco. O vento tinha se intensificado: ele continuava soprando os fios de cabelo de Draco em seu rosto, e quando ele os empurrava de volta, a algema de adamantina queimava uma linha de frio em sua pele. "A taça em troca do antídoto. Bem, não exatamente a taça, por assim dizer – apenas enviar uma carta para Hermione lhe pedindo para enviá-la para a Mansão, o que ela fará, uma vez que perceber o que está em jogo. É bem simples, na verdade."
"Eu me pergunto," disse Draco. Ele encontrava-se possuído de uma curiosa calma. "Se ele está planejando isso há muito tempo."
"Eu não penso assim," disse Harry. Seu cabelo explodiu em seu rosto. "Não especificamente. Enfim, isso não importa."Certo," disse Draco. "Nós temos que pensar. O que faremos agora?"
Houve um curto silêncio. Então Harry falou, seu tom muito cuidadoso: "O que você quer dizer com o que faremos agora?"
Draco hesitou e olhou com mais atenção para Harry. Mas o rosto de Harry estava estranhamente ilegível; seus olhos verdes estavam graves e escuros. "Sobre o meu pai," disse Draco. "O que vamos fazer?"
Harry balançou a cabeça – não era tanto um gesto de negação, era mais como se estivesse chegando de águas profundas e, por um momento, não pudesse ouvir corretamente. "Nós daremos a ele o que ele quer," disse ele. "Nós não temos escolha, temos? Ele tem o seu antídoto."
Um cansaço estranho e intransigente tinha se estabelecido em Draco. Era como se ele olhava para Harry de uma grande distância, através de nuvens abafadas de nevoeiro. "Nós temos uma escolha." disse Draco. "Nós não temos que fazer o que ele diz."
"Mas, então, nós não temos o antídoto," disse Harry, falando muito devagar, como se estivesse explicando a situação para uma criança pequena.
"Eu sei," disse Draco. "Então, nós não temos o antídoto."
O entendimento inundou o rosto de Harry, ele ficou muito vermelho, então muito branco. "O que você está dizendo?"
"Eu estou dizendo que não há nenhum ponto," disse Draco. "Se o meu pai diz que é o antídoto, então provavelmente é o antídoto. Mas haverá alguma brecha, alguma desculpa inteligente para não dá-lo para nós – ele vai continuar segurando-o sobre nossas cabeças, nos fazendo dançar como marionetes em cordas, e ainda iremos perder no final."
"Ele disse que iria salvar sua vida," disse Harry.
"E vai – agora," disse Draco. "Mas terá outra coisa, e outra depois disso. Você vê como ele é. Ele acha que é meu dono. E enquanto eu existir sob seu poder, então ele vai fazer de mim um pedaço de pau para bater em você. Se você ceder agora, ele só vai saber que funciona."
Harry balançou a cabeça de novo. "Isso não importa. Nada disso importa agora. O que importa é o que podemos fazer agora, neste minuto, e agora você está morrendo e nós temos que impedir isso."
Draco ouviu-se rindo alto. Não era um riso muito agradável, também. "É por isso que você é um planejador tão ruim, Harry," disse ele. "Como se o mundo não fosse existir nos próximos cinco segundos."
Harry fechou os olhos e cerrou os punhos. Draco podia dizer que ele estava tentando segurar-se. Ele o observou com um desligado sentimento de doença em seu estômago. Ele não gostava de machucar Harry, e se perguntou de forma desconexa por que ele sempre parecia ser forçado em circunstâncias em que não havia outra escolha.
"O que o meu pai disse pra você?" Draco perguntou, finalmente. "Para fazer você reagir desta forma – devo lembrá-lo que ele mente?"
Harry abriu os olhos. "Oh, eu sei que ele mente," disse ele. "Mas ele é como você. Ele não vai mentir quando a verdade está na mão, e é mais poderosa do que qualquer mentira possa ser. Ele não me disse nada que eu já não sabia antes. Realmente. Foi a forma como ele disse."
Draco não o ouvia de verdade. Sua mente havia parado na segunda frase que Harry tinha dito, mas ele é como você.
"Eu não vou deixar meu pai transformá-lo em algum tipo de peão para ele brincar," disse ele asperamente. "Eu não vou. Qualquer acordo que ele ofereça não é um acordo real, você não pode ver isso?" Ele empurrou para trás o cabelo úmido que estava caindo em seus olhos – apesar do frio, ele estava suando. "Eu sei que você não pensa assim, Harry. Quando se trata direitamente disso, você nunca parece entender como as pessoas podem ser más. Meu pai odeia você. Qualquer acordo que ele esteja disposto a fazer ele não terá os seus melhores interesses no coração. Ou os meus. Você teria que ser cego ou burro – ou ambos – para não ver isso."
"Talvez eu seja os dois. Mas eu não vou deixar que o fato de que você odeia seu pai dite se você viver ou morrer –"
"Ele está esperando que você ceda, Harry! Seu plano é todo construído sobre isso."
"Foda-se o plano dele e tudo o mais," disse Harry firmemente. "Eu perdi tudo – todos os meus amigos. Eu não vou perder você também."
"Você enfrenta tudo sozinho, no final, de qualquer maneira – você mesmo disse –"
"Puta que pariu!" A voz de Harry estalou como um osso quebrado. "O que você faria se fosse o contrário? O que você faria se fosse eu morrendo?"
"Isso seria diferente," disse Draco, imperturbável.
"Como? Como isso é diferente?"
"Porque você é Harry Potter." A voz de Draco estava clara e sem tom. Ele estava declarando fatos – fatos simples. "O Menino Que Sobreviveu. Que Vai Salvar A Todos. Você é necessário. Eu não sou."
"Essa é a coisa mais estúpida que já ouvi," disse Harry amargamente. "Eu não posso acreditar que você pegou quem eu sou e jogou isso na minha cara dessa forma – o que há de errado com você? Você acha que eu poderia viver comigo mesmo sabendo que eu deixei você morrer porque eu sou famoso e você não?"
"Não é sobre ser famoso. E de qualquer maneira, você não teria que viver com você mesmo – você não ia se lembrar. Meu pai disse que ele usaria um Feitiço da Memória em nós dois. Você não teria que saber." Draco disse, e imediatamente se arrependeu.
Harry olhou para ele. As pupilas de seus olhos se dilataram tanto que pareciam pretas, aradas com fracas bordas de verde. "Eu nunca," disse ele, "nunca, na minha vida, quis bater tanto em alguém quanto eu quero bater em você agora."
"Bata em mim se quiser," Draco disse calmamente. "Mas saiba disso: se você deixar o meu pai ganhar, Voldemort ganha, E se ele receber a taça, ele pode destruir o mundo com ela. Parece ridículo, mas é assim, Você é um herói, não é? E esta é a escolha de um herói, seus amigos – ou todo o restante."
As mãos de Harry, ao seu lado, flexionaram-se, e Draco se perguntou por um momento estranho se Harry realmente ia bater nele. Então Harry disse, com uma voz clara e fatal, "Eu esperava que você soubesse o que eu escolheria."
Draco olhou para ele. E percebeu, com um estranho tipo de choque em seu coração, que ele não sabia. Ele assumira que Harry ia escolher, da forma como ele havia colocado, todo o restante. Ele abriu a boca para perguntar, mas não conseguia pensar em uma maneira de formular a pergunta. E, depois, perdeu a oportunidade para sempre, pois naquele momento a porta da torre se abriu novamente e Lúcio entrou.
Ele não estava sorrindo, mas tinha um olhar de expectativa sobre ele. Algo de ouro piscou no seu bolso direito, debaixo de sua capa aberta. Em sua mão direita, ele carregava um pergaminho enrolado e uma pena. "Então, meninos," disse ele, olhando de um para o outro. "Vocês já se decidiram?"
Hermione havia espalhado os pergaminhos na mesa e os observava com a mão trêmula. Ela havia conseguido empurrar o seu horror sobre ser representada por alguém para fundo de sua mente: mas agora ele saltava para fora novamente. Alguém tinha copiado a letra dela, copiado tão bem que até mesmo seu melhor amigo tinha sido enganado. E não tinha copiado apenas a sua escrita, mas suas expressões, suas particularidades de escrita... Pansy devia odiá-la tanto, tanto, Hermione pensou, aquela coisa rastejante. Ela devia ter planejado isso por muito tempo, observando-a de perto. O cabelo de Hermione arrepiou ao longo da espinha e ela estremeceu.
Querido,
Senti sua falta hoje. Pensei tanto em você durante Poções que eu esqueci de tomar notas – logo eu estarei encarando o meu maior medo, o que foi que você disse? Um trabalho de casa onde só recebo 9 no total de 10?
Eu mal posso esperar para vê-lo esta noite. Eu gostaria de não ter muito trabalho a fazer para o meu projeto final. Eu sei que é por estar passando tanto tempo com você que ainda não está pronto. Nós poderíamos trabalhar no projeto juntos, se você não se importar de eu levar alguns deveres de casa comigo. Imagine eu arrastando-me ao longo dos corredores com você, meus bolsos cheios de bardana, artemísia e arruda... se você não se importar de trazer a raiz milefólio também, o que seria de grande uma ajuda... agora, não se esqueça!
Tudo que eu quero é apenas passar o tempo com você, é claro, só que vai ter que esperar até depois do Ano Novo, não é? Obrigada querido por sua obediência e capacidade de entender... Eu sei que tem sido difícil manter isso em um segredo obscuro. Não vai ser um alívio quando finalmente poderemos estar juntos sem qualquer clandestinidade?
Oh Senhor, alguém está vindo. Devo correr. Eu te amo.
Hermione.
Uma carranca enrugou o lateral da boca de Hermione. Bardana, artemísia e arruda – o que era aquilo? Algo que Ron tinha dito a ela antes que ele deixasse a escola saltou de repente em sua mente – "Não era apenas sexo, você sabe. Nós conversamos, comemos juntos, fizemos a nossa lição de casa de Poções..."
Ela olhou novamente, com força, para a carta. A transição do primeiro parágrafo para o segundo foi bastante sutil, a súplica de trazer ingredientes para uma poção foi enterrada sob carinhos, mas Hermione tinha a sensação de qual era a essência real da carta. Nenhuma das cartas, após leitura mais cuidadosa, era totalmente apaixonada: eram cuidadosa e carinhosamente formuladas. O que, na verdade, teria feito o estilo de Hermione se ela realmente as tivesse escrito. Ela não fazia muito o tipo de pessoa que escrevia cartas de amor: ela nunca tinha escrito uma carta de amor para Harry, e não poderia imaginar isso. Ela o amava, mas a ideia de sentar e escrever um hino para seus olhos verdes e nariz adorável lhe pareceu um tanto ridícula. Talvez ela não tivesse poesia em sua alma, mas ali estava.
Ela lentamente levantou sua varinha e tocou a sua ponta no papel. Havia um simples encanto rimado...
"Tinta e pergaminho, osso e pena
Deixe a verdade desta carta ser contada.
Pena e tinteiro, selo e pena
Revele o autor desta carta."
O pergaminho tremeu. Em seguida, as palavras no papel reorganizaram-se para formar um nome: PANSY PARKINSON.
Hermione deu de ombros para si mesma quando o nome no pergaminho derreteu e o conteúdo original foi devolvido. Bem, ela esperava que fosse Pansy. Não há surpresa. Ela mordeu o lábio. Havia mais uma coisa que ela poderia fazer, ela não tinha feito isso por estar com medo da resposta. Eles aprenderam em DCAT que certos tipos de Feitiço Confundus poderiam ser tecidos em material escrito: o famoso "O Livro Que Você Nunca Conseguirá Parar De Ler", de acordo com Lupin, na verdade continha um dos mais fortes Feitiços de Obediência já criados tecidos no texto.
"Revelatus Confundus," ela murmurou.
O pergaminho tremeu novamente. Desta vez, as palavras não derreteram, apenas algumas delas escureceram e se destacaram contra o resto do texto.
Querido,
Senti sua falta hoje. Pensei tanto em você durante Poções que me esqueci de tomar notas – logo eu estarei encarando o meu maior medo, o que foi que você disse? Um trabalho de casa onde só recebo 9 no total de 10?
Eu mal posso esperar para vê-lo esta noite. Eu gostaria de não ter muito trabalho a fazer para o meu projeto final. Eu sei que é por estar passando tanto tempo com você que ainda não está pronto. Nós poderíamos trabalhar no projeto juntos, se você não se importar de eu levar alguns deveres de casa comigo. Imagine eu arrastando-me ao longo dos corredores com você, meus bolsos cheios de bardana, artemísia e arruda... se você não se importar de trazer a raiz milefólio também, o que seria de grande uma ajuda... agora, não se esqueça!
Tudo que eu quero é apenas passar o tempo com você, é claro, só que vai ter que esperar até depois do Ano Novo, não é? Obrigada querido por sua obediência e capacidade de entender... Eu sei que tem sido difícil manter isso em um segredo obscuro. Não vai ser um alívio quando finalmente poderemos estar juntos sem qualquer clandestinidade?
Oh Senhor, alguém está vindo. Devo correr. Eu te amo – Espero que você sempre me ame.
Hermione leu as palavras destacadas com uma exclamação audível de desânimo: "O projeto final está pronto. Leve bardana, artemísia e raiz midefólio. Agora esqueça tudo, exceto sua obediência ao Senhor Obscuro e sempre me ame."
Ela se sentou sobre os calcanhares, e balançou a cabeça, um pesado pressentimento caindo sobre ela. "Oh, Ron," disse ela em voz alta. No que você se meteu?"
Harry estendeu a mão para Lúcio. "Dê-me a pena," disse ele.
"Não," Draco disse bruscamente, e deu um passo a frente, mas Lúcio se colocou entre os dois rapazes, e segurou seu filho com o braço. "Harry –"
Harry mordeu o lábio e desviou os olhos de Draco. "Dê-me a pena –" ele disse de novo, rapidamente. "E alguns pergaminhos."
"Uma decisão muito sábia," disse Lúcio. Seu sorriso era afiado o suficiente para cortar um vidro. "Estou feliz de ver que pelo menos um de vocês tem algum senso." Ele continuou a segurar Draco com um braço e, com o outro, ele estendeu um pergaminho e uma pena para Harry. "Escreva," disse ele.
Harry pegou a pena e o papel e recuou. Draco reconheceu a pena: a favorita de Lúcio, pena de corvos, auto-entintados, a pluma mergulhada em ouro. Harry, Draco pensou furiosamente. Harry, isso é estúpido, me escute. Rasgue o pergaminho...
Mas Harry o tinha bloqueado; suas palavras chocaram-se contra as paredes que Harry tinha jogado contra ele, como bolhas de sabão quebrando-se contra rochas. Draco queria correr para frente e empurrar seu pai para fora do caminho, mas isso teria sido inútil – no estado em que estava, ele não poderia ter lutado nem com um duende da Cornuália, e Lúcio sempre foi muito forte.
Como se sentisse os pensamentos de seu filho, Lúcio virou seu brilhante sorriso de para Draco. Draco podia sentir o prazer de seu pai: isto era o que Lúcio mais gostava. Vencer, dominar, controlar uma situação. Controlar as pessoas. Seu sorriso ampliou-se, Lúcio enfiou a mão no bolso e tirou um frasco claro que Draco reconheceu imediatamente a partir da descrição de Harry. O antídoto ali dentro era verde pálido. Ele colocou-o sobre as pedras a seus pés e olhou para Harry. Era evidente a partir de sua postura de que ele estava deixando claro que se Harry fizesse um movimento em direção a ele, ele iria esmagar o frasco sob sua bota.
"O que era que meu velho professor de Poções costumava dizer?" Lúcio pensou, a cabeça inclinada, pensativa. "'Por que eu não posso ouvir o som das penas arranhando contra pergaminho?' Embora, eu suponho que, neste caso, seria apenas uma pena."
Harry não disse nada, mas seus dedos apertaram-se em volta da pena até que eles estivessem brancos e sem sangue. E Draco lembrou-se, sem ser capaz de ajudá-lo, o que Hermione tinha dito a ele sobre Harry na estação de Hogsmeade. /Eles me usaram para chegar até ele, Draco. Eles me usaram – eles sabem a pior forma de machucá-lo, e eu não posso ser parte disso. Eu não vou ser./
Abruptamente, o aperto de Harry ao redor da pena aliviou-se, e ele começou a escrever, segurando o pergaminho desajeitadamente contra seu antebraço. O som da ponta arranhando contra o pergaminho era alto na ainda noite. Lúcio olhou para o antídoto a seus pés, e depois para Draco. "Acalme-se, menino," disse ele, tão suavemente como Draco jamais o tinha ouvido falar. "Deixe seu amigo te salvar, se é isso que ele quer. Ele deveria preservar você, talvez você possa fazer o mesmo por ele, mais tarde."
O tom suave na voz de Lúcio era demais para suportar; Draco desviou o olhar de seu pai e Harry. A cabeça de seu amigo estava dobrada; ele estava escrevendo; ele não olhou para cima. Um estranho estado parecido com um sonho tinha vindo para Draco: ele podia ver tudo muito claramente e, ao mesmo tempo, era como se o mundo inteiro estivesse trancado do outro lado de uma porta de vidro. Esta era, talvez, a primeira coisa que tinha acontecido com ele em um ano que ele sentia que Harry não podia entender, e que não queria que ele entendesse. Ele não era Dumbledore, para considerar a morte como a próxima grande aventura, ele era um Malfoy. Ele olharia a morte de cima a baixo e nunca demonstraria que estava com medo. Um dia...
Um dia você vai entender, pensou em direção a Harry, sem saber se Harry podia ou não ouvi-lo. Eu sempre pensei que eu iria segui-lo até os portões do inferno se eu tivesse que fazê-lo. E que, depois de chegar lá, eu iria pedir ao porteiro para me levar no seu lugar. E se ele tiver que levá-lo, iria pedir para ir com você. E se ele não me deixasse ir com você, eu iria esperar por você, às margens do rio. Eu prometi cuidar de você e segui-lo sempre. Eu nunca prometi deixar você. Eu nunca pensei que a morte pudesse me impedir. Não a sua morte, mas a minha.
Harry não olhou para cima.
Então, ele não estava ouvindo – mas isso não importava. A própria mente de Draco estava feita. Ele fechou os olhos. Se ele pudesse ver, ele não poderia fazer o que ele tinha que fazer. Ele julgou a distância que estava de seu pai, e deu um passo para frente, e então outro. Ele ouviu Lúcio começar a falar. Então Draco atacou com o pé, um chute rápido e difícil. A ponta da bota encontrou com o frasco, ele abriu os olhos e o viu voar para o ar e quebrar-se contra o parapeito baixo. Líquido verde e vidro espirravam sobre as lajes.
Ele viu Harry levantar a cabeça, seus olhos sem entender à primeira vista: então, ele ficou branco, e a pena caiu de sua mão. O pergaminho a seguiu, flutuando como uma pena branca, caindo aos pés de Harry. Draco viu que Harry não tinha escrito nada mais nele do que Querida Hermione. Ele ficou surpreso, parecia que muito tempo tinha passado... Ele olhou para o seu amigo, mas a expressão de Harry tinha mudado e então Draco não poderia olhar para ele mais. Ele olhou para o pai, em vez disso, e viu algo que ele raramente tinha visto antes: Lúcio parecendo chocado além da razão. Ele tinha levantado a mão como se ele pudesse segurar Draco; agora ele a deixava cair ao seu lado, e olhava para o filho com uma amargura incrédula... e algo a mais por baixo disso, algo que quase parecia a Draco como um respeito furioso, embora soubesse que era impossível.
"Você percebe o que você fez," Lúcio disse ao seu filho, sua voz um sussurro feroz. "Isso é tudo o que havia – não há mais."
"Eu sei," disse Draco. "Eu sei o que eu fiz."
A boca de Lúcio se diluiu em uma linha raza. "Você é um idiota," disse ele, virou-se, e saiu pela porta, batendo-a duramente atrás dele.
O cansaço estava tão ruim agora que parecia ser uma dor, mesmo não sendo. Ron não podia calcular há quanto tempo ele estava agora sem sono ou comida: provavelmente não mais do que um dia, mas as horas e horas e horas de xadrez tinha formado uma barreira em sua concentração que faziam parecer muito mais.
Ele sempre gostara de jogar xadrez, agora estava começando a adoecê-lo. Cada vez que um jogo acabava, ele esperava com esperança que seria a última. Toda vez, o Senhor das Trevas acenava com a mão e o tabuleiro era magicamente renovado, e a voz mortal dizia, "De novo."
Ele não podia mais diferenciar peões de cavaleiros ou de bispos. As peças eram pesadas como pedras em seus dedos dormentes. Ele queria que sua mente se concentrasse, forçasse-o a formular algum tipo de estratégia. Nada vinha à sua mente. Ele havia ganhado vários jogos e perdido vários jogos. Ele não parecia se importar de qualquer maneira. Cada vez que Voldemort levantava a mão; cada vez que a voz lhe dirigia novamente aquelas duas únicas palavras: "De novo." Ron tinha começado a pensar que este não era um jogo de xadrez afinal, mas apenas alguma forma refinada de , Ron pegou seu cavaleiro, e olhou para baixo. Sua mente exausta se esforçou para encontrar sentido no tabuleiro de xadrez, para decifrar seus padrões. Parecia vacilar na frente dele, ondulando como se uma nuvem de calor estivesse passando sobre ele. Sua mão direita espalmou-se, e o cavaleiro caiu de seus dedos flácidos, acertando a placa de travertino com um clique, ecoando duramente.
Era como se o clique fosse o som de um interruptor sendo ligado dentro da mente de Rony. Sem aviso, o mundo foi arrancado de seu centro como uma fruta sendo descascada pelo meio. Seus ouvidos rugiram, e a dor agonizante atravessou seus joelhos e cotovelos. Um momento depois, ele percebeu que era porque ele tinha caído da cadeira e batido no chão. Ele rolou e olhou para um mundo de sombras movediças.
"O que está acontecendo?" ele sussurrou. "Isto dói. Isto dói."
"O que você vê?" disse a voz cortante como faca do Lorde das Trevas. "Rapaz, me diga o que você vê."
As formas mudaram e se uniram. Agora, elas estavam correndo por ele como um cenário visto de uma janela de trem. Imagens flutuavam rapidamente, visíveis, mas inaudíveis, mais reais do que sonhos. Ela nunca tinha estado assim antes. Nada nunca tinha estado assim antes.
"Eu vejo," disse ele, e fechou os olhos, mas não fez diferença. O futuro corria em direção a ele e o engolia; ele estava dentro agora, olhando para fora. Ele era o centro do mundo revirado: ele podia ver tudo de uma vez e o poder disso era demais para conter. As palavras saíram de sua boca, ele não poderia detê-las. "Eu vejo a Marca Negra sobre Hogwarts," disse ele em uma única respiração áspera. "Eu vejo o céu negro de fumaça – e a marca de novo, e de novo, e de novo. Eu vejo todas as casas bruxas na Inglaterra e no céu sobre eles está cheio de morte. Eu vejo mortos. Alguns deles são crianças –"
"Muito bom," disse Voldemort. "Diga-me mais. Você vê Harry Potter?"
"Harry – Eu vejo Harry. Ele tem sangue por toda a sua mão. Ele está chorando. E agora eu vejo seu bracelete. Está em pedaços. Eu vejo Harry indo embora. Ele vai até a água. Ele coloca sua mão à garganta, mas ela foi embora – a corrente que ele usava. O feitiço."
"O Feitiço Epicyclical," disse Voldemort. "Aquele que Lúcio fez de forma tão descuidada para seu filho. E o filho de Lúcio – você o vê?"
"Não – Não, eu não vê-lo. Eu não posso vê-lo..."
Uma gargalhada sussurrada. Rhysenn? "Talvez, Mestre, este não tenha um futuro."
"Olhe de novo," o Lorde das Trevas disse a Ron. "Olhe com mais atenção."
Mas Ron mal o ouviu. Ele estava à deriva em um mundo de imagens que já não faziam sentido: ele viu o céu iluminado pelo fogo deslumbrante, viu um corpo amassado dentro de um pentagrama, viu chamas saltando pelas janelas do Ministério, viu duas pessoas abraçarem-se e beijarem-se dentro de um gaiola feita de ouro, e sabia que o que eles estavam fazendo era terrivelmente errado de alguma forma. Ele viu Hermione, que se virou e olhou para ele com uma tristeza horrível, e Simas, cercado por uma luz verde, como se ele estivesse debaixo d'água. Ele viu um coração de vidro quebrado ao meio e, em seguida, viu a fita rúnica que Harry usava quebrada em fragmentos. E ele gritou, embora ele nunca fosse saber até mais tarde o nome que ele tinha gritado. Tudo o que ele via era a escuridão, uma vez que esta a dominou e o puxou para baixo em um esquecimento misericordioso.
A porta se fechou atrás de Lúcio.
Draco se virou e olhou para Harry.
Ele preparou-se para enfrentar a raiva furiosa de Harry, ele esperava a raiva e ressentimento, mesmo desdém ou desprezo. Ele esperava ouvir gritos. Mas Harry não estava gritando. Ele nem parecia irritado. Ele estava de joelhos, e estava cuidadosamente recolhendo todos os pedaços de frasco quebrado espalhados sobre as pedras. Ele segurou os cacos que havia pegado em sua mão esquerda em concha; a outra mão tremia enquanto ele corria sobre as pedras, procurando as rodelas quase invisíveis de vidro transparente.
A boca de Draco ficou seca. "Harry – o que você está fazendo?"
Harry olhou para cima lentamente. O luar bateu em seus óculos; Draco não podia ver seus olhos, apenas seu queixo e a boca torcida. O sangue em suas mãos, onde o vidro o tinha cortado, era negro ao luar. "Talvez não esteja tudo acabado," disse Harry. "Talvez tenha sobrado algo..."
Draco não disse nada sobre a impossibilidade disto, apenas ficou onde estava, olhando para Harry e pensando que ver Harry furioso com ele teria sido melhor do que isso.
"Eu só pensei que poderia ajudar," disse Harry, e olhou para suas mãos, onde o sangue se misturava aos últimos pedaços de antídoto e às pratas do vidro. Seu cabelo caiu e escondeu seu rosto. Draco quis saber exatamente do que Harry estava falando. Ele se lembrou de Harry em seu sonho, de joelhos na areia, dizendo a Draco que havia chegado tarde demais para ser de alguma ajuda.
"Não," disse Draco. "Harry..."
"Se pudéssemos um bocado de um laboratório... testes experimentais..."
/Harry./ Draco se ajoelhou ao lado de Harry. Ele pegou o outro rapaz pelos pulsos, e os segurou firmemente. /Não há razão para isso./
Harry levantou o queixo. Seus olhos estavam anormalmente claros; um verde brilhante e sem lágrimas. /Por que ele não fez um feitiço da Memória de imediato, o seu pai? Assim que você quebrou o frasco?/
/Agora ele está sendo sádico/, Draco disse, cansado. /Agora que fizemos com que ele ficasse raiva – Não há como dizer o que mais ele irá fazer./
/Ou tem feito./ Até mesmo a voz interior de Harry estava indescritivelmente cansada e plana. /Todo esse tempo eu pensei que você o odiava. Mas você odeia mais a si mesmo. Ou talvez você me odeie./
/Odeio você?/ O aperto de Draco nos pulsos de Harry se intensificou, e Harry fez uma careta.
"Minhas mãos," disse ele em voz alta.
Draco olhou para baixo. "Oh inferno, eles estão cheios de vidro. Você é um tolo às vezes – Por que você não colocou suas luvas?" Ele soltou os pulsos de Harry. "Mantenha as mãos abertas. Vou pegar um copo."
Draco tirou as luvas. Harry não disse nada enquanto Draco usava suas unhas roídas para puxar a prata do vidro para fora da pele das palmas das mãos de Harry. O sangue brotava de onde o vidro tinha sido retirado e corria sobre os pulsos de Harry como fios desemaranhados e escarlates.
"Rasgue um pedaço de meu casaco," disse Harry. "Para colocar o vidro dentro."
Draco sabia o que ele queria dizer, e assim o fez, dobrando as lascas de vidro no pedaço de pano. Ele sabia que era um desperdício de tempo, mas o fez de qualquer jeito, sem olhar para Harry. A estranha posição de seus joelhos estava o fazendo suar. Ele entregou o pano dobrado para Harry e esfregou as mãos úmidas em sua capa. Eles deixaram impressões digitais sangrentas para trás. "Que bagunça," ele murmurou baixinho. "Você pode fechar seus dedos?"
"Eu posso fazer um punho," disse Harry. Sua voz soava estranhamente apertada.
Draco se sentou sobre seus calcanhares. "Olha, se você acha que eu..."
Ele não terminou a frase. A porta da torre foi aberta pela quarta vez aquela noite; Harry, que estava de frente para a porta, sufocou em um suspiro – de espanto e horror, Draco não poderia dizer. Ele virou-se e olhou.
A pessoa em pé na porta não era Lúcio Malfoy. Não era um Comensal da Morte também. Era uma figura esbelta em uma capa amarela como uma tocha na escuridão; entre a capa brilhante e seu brilhante cabelo, seu rosto era muito branco.
Draco se levantou, ainda olhando em descrença. "Gina? Que diabos você está fazendo aqui?"
"Oh, meu Deus," disse Gina, olhando para Draco e depois para Harry. Ela pensou por um momento que ele estava usando luvas pretas, mas quando Draco moveu-se em direção a ela e o luar caiu sobre Harry, ela viu que era sangue. "O que ele fez com as suas mãos?" ela sussurrou. "O que aconteceu? Por que vocês dois estão aqui?"
Draco simplesmente levantou-se e olhou para ela. A expressão em seu rosto era tão complexa que parecia totalmente ilegível. Foi Harry que se moveu. Ele ficou de pé e caminhou até ela. "Gina," disse ele, pegando os ombros dela. "Alguém viu você chegar até aqui?"
Ela balançou a cabeça. "Não. Eu segui Lúcio para a porta e então eu me escondi e esperei ele sair. Ele não me viu. Ele parecia realmente com raiva, então eu percebi que tinha que ser algo a ver com Draco." Ela sorriu fracamente. "Só Draco pode enfurecer alguém desse jeito."
Harry não sorriu de volta.
Ela continuou rapidamente: "A porta não estava trancada, então eu esperei que Lúcio descesse e eu vim aqui. Não havia guardas."
"Não," Draco disse. "Não teria – mas Gina, o que você está fazendo aqui? Como você voltou para a Mansão?"
Seu coração saltou. O Vira-Tempo, situado sob a gola de seu casaco, de repente, parecia pesado. "Nunca fui embora," ela começou, mas Harry a interrompeu.
"Não importa," disse ele categoricamente. "Você está aqui e a porta está aberta. Isso é tudo que importa. Temos que sair daqui, e rapidamente, antes que Lúcio volte." Ele se virou para olhar para Draco, com as mãos ainda sobre os ombros de Gina. "Você pode nos tirar da Mansão?"
Os olhos de Draco se estreitaram, como luas crescentes de prata. "Eu poderia muito bem tentar," disse ele.
Harry abaixou as mãos. Mais tarde, Gina iria encontrar duas marcas de mãos sangrentas em sua capa, uma em cada ombro. Muito levemente, ele tocou seu rosto com as costas da mão: era um gesto que Ron poderia ter feito, ou Carlinhos, assegurando-se de que ela estava bem. Pela primeira vez, ela viu que havia uma terrível tristeza em seus olhos que ia além da ansiedade normal de sua situação. "Malfoy," disse ele, sem olhar para Draco. "Você irá nos levar."
Draco não disse nada – embora se ele havia ou não respondido silenciosamente a Harry, ela não sabia e não queria arriscar um palpite – mas ele passou por Ginny como uma sombra, silenciosa e ágil. Ela o seguiu, e Harry ia logo trás.
Voltar às estreitas escadas que conduziam à Mansão parecia errado – como entrar em uma prisão. Gina deu um pequeno suspiro quando Harry fechou a porta da Torre atrás deles e as estrelas desapareceram, agora eles estavam em um espaço escuro e confinado à luz de tochas. Ela seguiu a sombra reta e delgada de Draco quando ele desceu as escadas. Ele virou bruscamente à direita e abaixou-se em um corredor,empurrando uma tapeçaria de lado e revelando uma porta atrás dela.
"Escada secreta," disse ele calmamente, e colocou a mão na maçaneta da porta. Ela abriu sem problemas sob seu toque. Ele soltou um suspiro de alívio e segurou a porta aberta para que Gina e Harry pudessem passar.
Esta segunda escada era ainda mais estreita, e não havia nenhuma tocha. Um tênue brilho fosforescente vinha das paredes. Havia um cheiro úmido, como se estivessem em pé no fundo do mar.
"Eu tenho minha varinha," Gina disse calmamente: "Eu poderia usar Lumos..."
"Não." Draco pegou a mão dela. Algo duro bateu contra seus dedos, ela olhou para baixo e viu uma algema clara de adamantina em seu pulso. "Sem mágica aqui."
Ela assentiu com a cabeça. Harry abriu o caminho, virando-se lateralmente para contornar a primeira curva estreita da escada em espiral. Gina se virou e olhou para Draco, que parecia distante e distraído. Não triste da maneira que estava Harry, mas de uma forma mais controlada. Estava mais magro estes dias e isso tinha lhe dado um ar mais durão: havia algo metálico sobre sua beleza agora, como se o potencial para a crueldade não tivesse evoluído para mais perto da superfície. "Diga-me que você está bem," disse ela, com uma voz muito suave.
"Eu estou bem," disse ele. Sua voz era fria e sem afeto.
"Eu me lembro de já ter resgatado você de uma torre uma vez," disse ela, tão leve quanto pode, esperando fazê-lo sorrir.
Os olhos semicerrados abriram por um momento, e ele olhou diretamente para ela. "E eu me lembro de lhe dizer uma vez que eu não queria ser salvo," disse ele. "Especialmente não por você."
"Você dois vem?" Harry sussurrou em um canto. Sem olhar para trás e para Gina, Draco virou-se e foi atrás dele. Guardando para si uma resposta furiosa, Gina o seguiu. Meio cega pela escuridão e pelas lágrimas, ela tropeçou depois de espremer-se através de um estreito e chegar ao topo das escadas. Uma mão agarrou seu ombro e ela endireitou-se. Era Draco.
"Fique firme," ele disse.
Ela puxou o braço para longe com raiva. "Não me toque," ela retrucou.
Harry, esperando no patamar abaixo, parecia cansado. "Eu não vou perguntar," disse ele.
"Melhor não," disse Draco. Parecia a Gina que por trás de sua expressão fechada, uma diversão leve e sombria tinha despertado.
"Você não vai rir de mim," disse ela, indignada.
"Eu não sonharia com isso," respondeu Draco, e tomou a escada dois de uma vez, caindo levemente ao lado de Harry.
"Seu bastardo ingrato," Gina murmurou baixinho, e desceu as escadas com cuidado. Os meninos, esperando por ela no patamar, já estavam no final de uma discussão quando ela chegou até eles.
"Para onde esta passagem vai?" Harry estava perguntando.
"Sob o fosso," disse Draco. "Ele permite que nós entremos no jardim de rosas. Deveria permitir, de qualquer maneira."
"Tudo bem, assumindo que possamos chegar ao lado de fora," Harry perguntou: "E depois? Se caminharmos para o Parque Malfoy, para onde podemos ir de lá? Tendo em mente que é noite, frio, e só Gina pode fazer mágica."
Draco balançou a cabeça. "Nós não podemos ir a qualquer lugar de lá," disse ele. "Nós estamos no meio do nada, e o Parque não é seguro. Um oficial de justiça e o Prefeito estão no comando lá, e ambos são um fiasco, até onde nós estamos preocupados. Eles estão bolso de meu pai. Todos na cidade estão."
"Onde estão suas vassouras?" Gina perguntou, um pouco de mau humor.
"Na escola," disse Harry, empurrando seu cabelo escuro e emaranhado para longe de seus olhos. "Mas deve haver uma abundância de vassouras aqui na Mansão..."
Draco balançou a cabeça. "As vassouras de meu pai não," disse ele. "Não seria uma boa ideia levá-las. Os artefatos valiosos aqui tendem a ser encantados. Confie em mim."
Harry mordeu o lábio. "Podemos levar uma das carruagens, então?"
Draco balançou a cabeça. "Não, eles são igualmente propriedade do meu pai e..." Sua cabeça se levantou, seus olhos cinzentos iluminados. "Eu sei."
Harry olhou para ele com surpresa. "O que?"
"Eu sou o único que se lembra de que existem dois cabos de vassoura perfeitamente bons presos em uma árvore de fora do Cold Christmas Inn?"
Essa informação pareceu pegar a guarda de Harry de surpresa, e um sorriso escapou. "Inferno," disse ele. "Boa ideia."
Draco sorriu modestamente. "Eu sou um gênio, basicamente," ele admitiu.
A expressão alegre de Harry vacilou em uma carranca. "Mas eles não estão calibradas," ressaltou.
Isso não intimidou Draco. "Quanto a isso," disse ele, e tirou algo do bolso. Ele acenou triunfalmente na frente de Gina e Harry. "Finalmente, um pedaço de boa sorte," ele cantou.
Gina olhou para Harry. "Você está vendo o que eu estou vendo?" perguntou ela.
"Você quer dizer que um avião de papel?" respondeu ele.
"Sim," ela disse.
Ele acenou com a cabeça.
"Não há necessidade de falar sobre mim como se eu não estivesse aqui," disse Draco, parecendo ferido.
"Sim, há, se você está pensando em todos nós entrando neste avião de papel e voando de volta a Hogwarts. Há uma grande dose de razão sobre falar sobre você como se você não estivesse aqui," disse Harry.
Draco jogou o avião de papel para ele. Ele bateu na testa de Harry. "Isto são as instruções de calibração, babaca," disse Draco. "Sirius me deu esta manhã."
Harry pegou o avião e guardou-o no bolso da capa. "Bem, agora que você me diz," disse ele, e sorriu de verdade Draco – era quase um sorriso verdadeiro e coração de Gina levantou um pouco.
"Além disso, eu sei perfeitamente que você não pode voar um avião sem whatchamacallit, " disse Draco. "Baterias."
(*NT: whatchamacallit é um doce da Hershey's de 1978.)
"É isso mesmo, eu esqueci," disse Harry. "Você é um gênio, basicamente."
Draco fez uma careta. "Bem, pelo menos eu não sou um –"
"Aham," Gina interrompido. "Não deveríamos estar em algum tipo de pressa aqui?"
Ambos os garotos assumiram expressões idênticas de culpa. "Certo," disse Harry. "Draco – você nos leva de novo."
Draco assentiu. Gina recuou um pouco quando eles começaram a descer as escadas mais uma vez, olhando os dois a sua frente. No embotamento da fraca luz fosforescente eram apenas sombras, nem escuras nem claras: era quase impossível dizer quem era quem.
"Sirius, se você não comer alguma coisa, eu vou jogar o restante do espaguete da panela sobre a sua cabeça."
Sirius olhou para cima e deu um leve sorriso para Lupin. "Desculpe. Minha mente estava vagando de novo." Ele deu de ombros diante do olhar preocupado do amigo sobre o seu rosto. Eles estavam um diante do outro na mesa áspera em formato de prancha na cozinha de Lupin: a pequena casa era onde ficava quando não estava ensinando em Hogwarts. Era, assim como Lupin, simples, elegante e ligeiramente cinza ao redor das bordas. Ela precisava de uma nova camada de tinta. Alguém poderia dizer o mesmo sobre Lupin também.
Eles aparataram de volta para a casa depois de sua visita ao Ministério, a fim de pegar um pouco da poção de wolfsbane para Lupin (a lua seria cheia em cinco dias curtos) e para recuperar alguns de seus outros pertences: livros antigos e documentos de seus dias mais ativos como espiões. Lupin parecia ter sentido, sem a necessidade de ser informado, que Sirius não queria voltar para a Toca e enfrentar a ansiedade dos Weasley. Desse modo, relembrando em voz alta o Conto da Carochinha sobre aparatar com o estômago vazio, ele empurrou Sirius em uma cadeira da cozinha e começou a inventar uma ceia surpreendentemente satisfatória de macarrão e café preto para ambos. O café estava forte e amargo, e o espaguete tinha gosto de estragão: Sirius sentia-se muito culpado por não ser capaz de ingerir muito de ambos.
"Ainda pensando sobre o que você estava pensando antes?" Lupin perguntou, pegando uma fatia do pão sobre a mesa.
Sirius, que tinha feito várias pilhas com a sua metade das fatias de pão, assentiu. "Estou com medo. Eu continuo vendo o rosto de Draco enquanto eu estava gritando com os dois do lado de fora do hotel. Harry estava bêbado demais para ficar chateado, eu acho, mas só Deus sabe como ele se sentiu no dia seguinte. E quem eu estava enganando? Como se eu nunca tivesse roubado uma vassoura na minha vida."
Lupin riu. "Isso pode ser verdade, mas isso não vai afetar a forma como você se sente quando os vê em perigo, ou o que você acha que é o perigo. Você é o pai deles... depois de tudo."
"Eu me pergunto se sou," disse Sirius pensativo. "Às vezes eu sinto que sou mais um amigo de ambos do que um pai. Um amigo que se preocupa muito com eles, mas ainda assim um amigo. Estou com medo de alguma forma parecer estar tentando tomar o lugar de Tiago com Harry e, quanto a Draco, ele odeia tanto o pai dele..."
"Odiá-lo?" Lupin sacudiu a cabeça. "Ele não o odeia."
Sirius olhou para o amigo com surpresa. "É claro que ele odeia."
"Não." A luz da vela deixava os olhos de Lupin queimados de ouro; olhos de lobo. "Você não vê."
"Ver o quê?"
Lupin suspirou. "Você não tem pais, Sirius, não realmente. Não pais com quem você tenha crescido. E você não conhecia Draco quando ele era mais jovem. Meu pai diz que isso... meu pai faz isso. Cada palavra dita era sobre Lúcio. Ele se definia através de seu pai. Lúcio costumava ser o que ele queria ser; agora ele é o que Draco está com medo que ele já seja, mas isso não significa que ele ainda não seja seu pai..."
"Ele é grato a Lúcio, você quer dizer? Porque sem ele, não existiria?"
"Não. Não é isso." A voz de Lupin foi enfática. "Eu me lembro quando nós estudamos a a seção avançada de DCAT sobre vampiros. Como eles estabeleciam ligações com outros vampiros, como eles passavam adiante suas características, como formavam clãs unidos. Falei sobre o clã de vampiros que eu encontrei nas velhas minas da Romênia e como o vampiro chefe correu até mim mesmo com a luz do sol – sacrificou-se para que seus filhotes pudessem fugir. Todo mundo estava fascinado pela história, mas quando eu olhei para Draco... Eu podia ver o que ele estava pensando. Até demônios amam seus filhos. Como meu pai pode me odiar tanto?"
Sirius olhou fixamente para o seu prato. Ele nunca tinha, à sua recordação, visto os rostos de seus próprios pais. Mas ele se lembrou – ele se lembrou dos pais de Tiago, que disseram a ele que era maravilhoso, brilhante, talentoso e amado, e assim ele tinha sido. E os pais de Pedro, que lhe disseram que ele era um covarde, e assim ele tinha sido. E os pais de Lupin, que haviam lhe dito que ele era um monstro, cuja única responsabilidade na vida era ter certeza de que ele nunca infectasse os outros com sua própria monstruosidade, e levaram anos e anos de trabalho para convencer Remo, mesmo em menor forma, que isso não era verdade.
"Todos os pais têm um poder sobre os seus filhos," disse Lupin calmamente. "E, no final, todas as crianças acreditam que eles são o que seus pais lhes disseram que são."
Sirius olhou para o amigo. "Eu estive todos esses anos em Azkaban por assassinato, mas nunca matei ninguém. Mas se eu colocar minhas mãos em Lúcio Malfoy, eu vou matá-lo. Se eu tiver que voltar para Azkaban, eu vou matá-lo."
"Não, você não vai," disse Lupin com naturalidade. "Porque eu vou fazer isso por você."
Draco tinha razão: a passagem se abria para o jardim de rosas. No momento em que chegaram ao fim de tudo, Gina estava quase desmaiando: estava tão estreito e fechado na passagem por baixo do fosso que sua claustrofobia adormecida despertou. Ela teve de encostar-se nas paredes de pedra enquanto Draco lutava contra o pesado alçapão acima deles; finalmente abriu-se e ar limpo da noite aberta inundou a passagem.
Ela soltou um suspiro de alívio. Draco olhou para ela. "Ansiosa para sair?" comentou.
Gina não disse nada. Foi Harry quem falou, "Deixe-me ir primeiro," disse ele.
Ele foi, escalando a parede áspera através do alçapão aberto, tão ágil como um lagarto. Suas botas balançavam na altura dos olhos de Gina quando ele se levantou, ela podia ver os laços quebrados e as solas pesadas e enlameadas. Em seguida, elas se foram, substituídas pela mão de Harry quando este a estendeu para ela.
"Vamos lá," disse ele. "Eu vou te puxar para cima."
Gina olhou para a mão dele – ele tinha as mãos como as de Draco, esbeltas e articuladamente feitas, com a mesma cicatriz branca ao longo de uma palma – e segurando-se nela, ela deixou Harry puxá-la, estremecendo-se com a dor que devia estar causando às mãos cortadas. Em um momento, ela estava deitada ao lado dele na neve e ele estava ajudando Draco a subir. Draco caiu de joelhos, as mãos ao lado dela e, em seguida, virou-se para bater a porta do alçapão atrás deles.
"Vamos," disse ele, com naturalidade, e ficou de pé. "Nós temos que sair das terras."
Harry olhou para ele e, em seguida, disse algo que Gina achou peculiar, "Você pode correr se for preciso?"
Draco não disse nada de volta, o rosto fechado, e balançou a cabeça em silêncio. Gina olhou de um para o outro – o rosto branco de Harry, o determinado de Draco – e decidiu não perguntar. Ela se perguntou o que Lúcio havia feito a eles na torre: eles pareciam fisicamente ilesos, com exceção dos cortes superficiais nas mãos de Harry. Mas há formas e mais formas de ferir uma pessoa.
"Vamos lá," disse Draco, e fez um gesto para que o seguissem.
Eles surgiram em um ponto a cerca de cem metros da casa: ela apareceu atrás deles como o baluarte de um enorme navio. Todas as janelas dos andares mais baixos estavam escurecidas, Gina ia vendo conforme eles se distanciavam: tochas amarelo-acastanhadas queimando nos andares superiores como uma linha de chamas ao longo do cume de uma montanha distante.
A lua tinha ido para trás das nuvens, e a única iluminação era composta pela luz das estrelas. Isso dava uma penumbra fantasmagórica à beleza congelada dos jardins. Eles se estendiam em todas as direções: longas fileiras de árvores brancas como ossos ordenadamente banhados pelo luar. Linhas delgadas de elo teciam-se entre os ramos. O gelo se empilhava sob a neve em toda parte como montes de açúcar pressionados sob o vidro: os pés de Gina trituravam ruidosamente enquanto ela caminhava, fazendo-a estremecer.
"Não parece tão frio," ela sussurrou, recolhendo sua capa ao redor dela e olhando em volta, "mas há tanto gelo..."
"Meu pai está brincando," disse Draco em breve. Então ele parou – Harry parou ao lado dele, e então Gina parou também.
Eles estavam de pé na frente de um mausoléu construído em mármore preto, que era mais alto do que qualquer mausoléu que Gina havia visto. E o mármore era tão preto que parecia menos com uma estrutura feita pelo homem do que com um buraco feito no centro da noite. Na porta havia o brasão que ela sempre se lembrava: a espada cruzada com uma varinha sob o nome MALFOY. Além de algumas letras menores: Arte perire sua.
"O túmulo de meu pai," disse Draco, com uma risada longe de ser divertida. "Isso foi o que ele pediu em seu testamento... essa coisa enormemente feia. Embora a inscrição em latim tenha sido ideia da minha mãe."
"O que significa isso?" Ginny perguntou, olhando para ele preocupada – a distância tinha voltado em sua expressão novamente.
"'Perecer por sua própria criação," Draco disse categoricamente. "O que, suponho eu, ela achava que ele tinha feito. Não temos tal sorte, no entanto."
Sem ideia do que dizer diante disso, Gina olhou para Harry. Ele estava de pé, os pés com botas a certa distância, olhando para Draco – e ela viu um flash de olhar em seu rosto que ela não poderia ter descrito. Parecia uma espécie de preocupação, um medo terrível, um dor que quase podia machucá-la só de olhar. Finalmente, ele estendeu a mão e tocou Draco no ombro.
"É melhor a gente ir," disse ele.
Se Draco disse algo de volta, foi silenciosamente. Um momento depois, eles estavam se movendo novamente, contornando amplamente o mausoléu. Eles cortaram ao longo da encosta de uma colina baixa, e deram a volta para ver os muros que cercavam a Mansão. Altos, de pedras invioláveis, com um padrão de "M" entrelaçados ao longo do topo. Mais abaixo, havia uma lacuna na parede onde o portão de ferro forjado era enorme, inteiramente coberto de gelo. Gina viu Draco endireitar os ombros.
"Quase lá," disse ele.
Eles continuaram em silêncio, o único som era o crepitar do gelo estalando sob os seus pés enquanto caminhavam. Harry estava na frente agora, e Gina o observava secretamente através de seu cabelo. O olhar em seu rosto no mausoléu tinha a assustado. Ele parecia perdido em pensamentos, mas não o suficiente para deixar a tensão de lado – seus ombros estavam rígidos e suas mãos se abriam e fechavam em seus lados.
Ele parou no portão e olhou para Draco. O portão pairava sobre eles com suas serpentes entrelaçadas, lançando sombras negras contra a neve. O parafuso de bronze que o mantinha fechado era tão grosso quanto um dos braços de Harry.
Draco deu um passo adiante. "Deixe-me fazer isso," disse ele. "É melhor se eu tocar as coisas por aqui," e ele estendeu a mão e retirou o parafuso. O portão se abriu sem nenhum som e passaram por ele: Harry primeiro, depois Gina e finalmente Draco. Ele fechou a porta atrás deles e Gina ouviu o som do parafuso se fechando do outro lado.
Draco soltou um suspiro de alívio. "Agora –" ele começou.
Ele nunca terminou a frase. Uma voz sobrenatural de repente partiu-se na noite: soou como milhares de pixies irritados gritando tudo de uma vez – e estava vindo diretamente do bolso das vestes de Gina.
"Eu pertenço à Mansão Malfoy!" a voz anunciou em um lamento, aumentando de tom e volume a cada palavra. "Eu pertenço à Mansão Malfoy! EU PERTENÇO À MANSÃO MALFOY!"
Draco colocou as mãos sobre os ouvidos e gritou algo furiosamente para ela. Quase desmaiando com choque, Gina cavou em seu bolso – que estava dançando e vibrando contra sua perna como se tivesse um gato vivo nele – e tirou o segundo livro que ela tinha pegado na biblioteca, o que ela tinha usado para esconder o diário dentro. Livre dos limites de suas vestes, ele gritava ainda mais alto: "EU PERTENÇO A MANSÃO MALFOY! LEVE-ME DE VOLTA PARA A MANSÃO!"
Não sabendo mais o que fazer, ela jogou o livro para Draco. Branco com o choque, ele o apanhou e o jogou no chão, trazendo sua bota para baixo com ele novamente e novamente até que a lombada do livro dividiu-se ao meio e a voz interrompeu-se abruptamente, deixando as orelhas de Gina ainda vibrando no silêncio repentino.
Por um momento, Draco ficou ofegante olhando para o livro, seus ombros magros arfando sob o seu manto, como se tivesse saído de um Full Tilt. Então ele se abaixou e pegou o livro, olhando para a capa.
"Eu não acho," ele disse, sem rodeios, "que você vá querer nos dizer por que você decidiu roubar uma cópia de algo chamado Liber-Damnatis do escritório de meu pai?"
"Eu – eu sinto muito," disse Gina em um sussurro. "Eu não sabia que era importante o suficiente para estar encantado –"
"Bem, aparentemente ele é." Draco empurrou o livro para ela, de repente, ela o pegou, apavorado com sua expressão – estava determinada, branca e furiosa. Sua pele parecia estar pressionando-se contra os ossos de seu rosto. "Tome," ele assobiou. "Você inacreditável, sua idiota tagarela – você roubou, então leve-o, se você o queria tanto –"
"Ela não sabia." A voz fria de Harry interrompeu o discurso de Draco.
"Eu não queria isso," Gina sussurrou. "Eu só peguei para – para ter algo para carregar – no caso de precisar de uma, uma arma – e eu esqueci que o tinha comigo. Desculpe..."
"Está tudo bem, Gin." Harry parecia intensamente desconfortável. "Você nos salvou – não é necessário –"
"E como ela conseguiu isso, exatamente?" Draco disse em voz alta. Seus olhos se estreitaram, sua boca macia estava torcida em uma linha dura. "Ein, Gina? Como você conseguiu ficar para trás na Mansão quando todo mundo foi arremessado para fora? Você nunca nos disse isso."
Gina segurou seu queixo. "Você está me acusando de algo?"
"Malfoy," Harry disse rispidamente: "Você não acha que devemos..." Harry se interrompeu então, um olhar perplexo no rosto. "O que foi isso?"
Gina fez uma pausa e escutou. No início, ela não ouviu nada a não ser o suave farfalhar de galhos sem folhas. Ela estava prestes a dizer isso, quando um som tão fraco que ela poderia ter confundido com o suspiro do vento chamou sua atenção: um choro baixo ululante, subindo gradualmente de tom. Não era um ruído humano, era o som de um cão latindo. Mal ela havia pensado nisso, e o som foi acompanhado por outros uivos semelhantes: não um cão, mas um monte deles... ou seria uma matilha de lobos?
Ela virou-se rapidamente e olhou para Harry e Draco. Harry parecia confuso, mas Draco não: ele parecia apenas horrorizado e tão pálido que a fina cicatriz no alto de sua suave maçã do rosto parecia um fio lívido de prata.
"Oh, Deus," disse ele. "Eles soltaram os cães do inferno."
No sonho, ela estava à beira-mar. Era um sonho curioso, porque ela sabia que estava sonhando, e ao mesmo tempo parecia mais real do que qualquer outro sonho que ela já tivesse tido.
Hermione havia ido para a praia vezes suficientes para saber que ela não estava em uma praia qualquer que realmente existia. A areia era muito branca e fina, o mar muito azul e imóvel. Não havia nuvens e o sol estava alto no céu, ainda que a vista parecesse sombreada com um crepúsculo peculiar. Ela estremeceu enquanto caminhava ao longo do perímetro da água na direção das duas figuras que ela podia ver à distância.
Quando ela se aproximou deles, eles tornaram-se subitamente nítidos, como se ela estivesse usando o foco de uma lente de câmera. Um deles era uma criança pequena de cabelos escuros, sentada entre as ruínas de um castelo de areia, metade construído. O outro era um menino mais velho, loiro, ajoelhado ao lado dele e observando-o atentamente. Quando ela se aproximou, eles levantaram a cabeça e olharam para ela. Ela percebeu, sem qualquer sentimento de surpresa, que ela conhecia os dois.
O rosto da criança era magro e mal-assombrado, seus olhos eram de um verde penetrantemente vivos. A cicatriz que cortava na testa era de um escarlate lívido. Ele não poderia ter mais de oito anos de idade e em suas pequenas mãos ele segurava um balde de plástico vermelho. Em torno da borda do balde havia um número de símbolos peculiares que pareciam ter sido riscados no plástico com uma faca.
Harry, ela pensou. Oh, Harry.
O menino mais velho olhou para ela uma vez e depois para longe. Ele parecia ter a idade que ele realmente tinha: se o Draco de seu sonho tinha alguma diferença do Draco da vida real, era simplesmente que seu rosto estava mais transparentemente legível, como o de Harry. Ele usava pijamas, e os seus braços estavam cruzados na frente dele como se ele estivesse com frio.
O menino que era Harry falou primeiro. "Você veio para me ajudar?" ele perguntou, erguendo o pequeno rosto para ela. "Minha mãe construiu um castelo para mim, mas eu o derrubei. Você vai me ajudar a construí-lo de volta?"
Ela olhou para a praia, depois de volta para Harry. "Mesmo se nós o construíssemos, a maré irá levá-lo embora," disse ela.
"Não." O tom de Harry era positivo. "As marés aqui correm para trás. Tudo o que corre de trás para frente."
Ela olhou para o garoto loiro que era Draco, mas não era. "Ele está dizendo a verdade?" perguntou ela.
Ele franziu a testa com a pergunta. "Você não acredita nele?" disse. "Amor é fé, é o que eu sempre pensei."
"Então talvez você devesse ajudá-lo," disse ela.
Ele descruzou os braços lentamente e os estendeu para ela, as palmas para cima: ela viu que em seus pulsos tinham duas incisões irregulares abertas, profundas e vazias. "Eu dei tudo o que eu tinha," disse ele. "Eu não tenho mais nada."
Ela não conseguia parar de olhar para os cortes: ela achou que eles deviam ir até os ossos, e ainda assim estavam limpos e sem derramar sangue. "Não dói?"
"Tudo dói," disse Harry, e inclinou a caçamba na direção dela. Um líquido prateado foi derramado e manchou a areia diante de seus pés. E então ela percebeu o que era: sangue. Derramava-se mais e mais, e ela se afastou da poça. Certamente um recipiente tão pequeno não conseguiria segurar muito mais sangue. Certamente nenhuma pessoa poderia segurar tanto sangue. Mas continuava a se espalhar, movendo-se em direção a ela em uma onda lenta. E o garoto de olhos cinzentos com os pulsos cortados a observava, impassível e imóvel, enquanto ela se afastava e recuava e –
Ela tropeçou e caiu, caindo para trás. Ela estava acordada antes mesmo que ela atingisse o chão.
Hermione abriu os olhos. Algo estava sacudindo-se insistentemente contra o seu rosto na escuridão. Ela sentou-se, afastando-o para longe: então percebi que era uma das asas de Pichitinho. Ele estava pairando acima dela, segurando uma carta em uma de suas pequenas garras.
Ela sentou-se e estendeu a mão para ele, "Obrigado, Pichi." Era um simples pedaço de pergaminho enrolado, amarrado com um pedaço de barbante. Ela o segurou por um momento antes de abrir, deixando a estranheza de seu sonho desaparecer. Parecia tão real: a praia, a areia e o sangue. Sua curiosidade intelectual tinha sido despertada pelos símbolos estranhos ao redor da borda do balde vermelho de Harry. Eram os mesmos símbolos que estavam ao redor das bordas de sua fita rúnica na realidade? Ela teria que verificar seus cadernos. Se fossem, ela ficaria impressionada com os poderes de recordação de seu próprio subconsciente.
Pichi tinha se acomodado em seu ombro direito. Ela suspeitava que ele sentisse falta de Ron, e o deixou permanecer lá enquanto ela abria a carta. Era extremamente curto.
Hermione,
Preciso falar com você. Estou esperando por você lá embaixo, na porta da frente. Eu mandei a pequena coruja para que você não se assustasse. Eu não posso deixar ninguém me ver. Por favor, desça. É sobre Draco.
Ela olhou para a assinatura por vários e longos momentos de descrença. Talvez isso fosse algum tipo de piada? Como ela poderia pensar...? Hermione pulou para trás com uma exclamação quando a carta em sua mão desintegrou-se em cinzas. Droga de sonserinos paranóicos, pensou furiosamente, e passou as pernas sobre a borda da cama.
Ela tinha ido dormir em suas próprias calças de pijama e uma camiseta souvenir do jogo Chudley Cannons/Harpias de Holyhead de 1996 que pertencia a Harry. Ela tirou um vestido florido de Gina do armário, vestiu-o, e desceu as escadas. A indignação deu asas aos seus pés, e dentro de segundos ela estava de pé na entrada, puxando as trancas da parte de trás da porta da frente e abrindo-a.
A figura esbelta nos degraus da frente pulou e se virou. Ela estava enrolada em uma capa verde grossa com um capuz com borda de ouro: só um pouco de seu queixo pontudo era visível. Sua respiração saiu em nuvens brancas de ar congelado.
"Então," disse Hermione friamente. "Você queria falar comigo sobre algo? Fale."
O capuz tremeu por um momento, e então ele foi empurrado decisivamente e uma cascata de cachos vermelho-ouro caiu para fora. Os olhos verdes encaravam Hermione com um apelo mudo, ressentido.
"Deixe-me entrar," disse Blaise. "Podemos conversar lá dentro."
Mais tarde, Draco se lembraria de sua louca corrida dos portões da Mansão à beira do Parque Malfoy como um pesadelo de sombras loucamente inclinadas. O gelo tinha endurecido sobre a estrada, tornando-a suave como vidro e muita traiçoeira: ele nunca tinha sido tão grato por suas botas de sola de dragão. Gina parecia ter mais problemas: duas vezes ele a pegou quando ela escorregou; duas vezes ela endireitou-se rapidamente e continuou a correr. Harry, é claro, sendo Harry, não estava tendo nenhum problema: ele foi feito para correr, leve, magro e resistente. Ele corria como a neve caía, como se ele voasse: como se este fosse seu único propósito.
Ao pé de uma pequena colina na estrada bifurcada; eles foram para a esquerda, para o que deveria ter sido as luzes do Parque. A cidade estava às escuras: os habitantes estavam tão fechados quanto um navio em uma tempestade. Tudo estava trancada. Eles correram para o Cold Christmas Inn, o som de latido crescendo mais e mais por trás deles.
Draco conhecia os cães do inferno da Mansão Malfoy bem o suficiente, desde a sua infância. O dobro do tamanho de cães normais, com longas garras e os olhos sem pupilas do tamanho de laranjas, tinham-lhe dado pesadelos por anos. Divertia seu pai comprar monstros raros e treinar cães do inferno para caçar pelo terreno; Draco tinha visto os cães derrubarem um grifo inteiro e destruí-lo com os seus dentes e garras.
Os cães do inferno também eram rápidos. Muito rápidos. Draco sabia que os três tinham uma vantagem de quase todo o comprimento dos jardins, ele também sabia que não seria o suficiente. No momento em que chegaram à clareira onde as vassouras estavam, o som do latido atrás deles estava tão alto que soava como o crepitar de uma fogueira.
Harry chegou na clareira primeiro, depois Gina, e Draco por último. A clareira estava como Draco se lembrava: o Inn na colina ao longe, as vassouras presas na parte de cima da árvore, a inclinação íngreme que levava ao rio coberto de gelo.
Harry parou sob a árvore e girou, sua capa vermelha voando. "Gina – pegue a sua varinha – rapidamente –"
Gina atrapalhou-se com a varinha, mas o terror fez seus dedos desajeitados a deixarem cair. Ferida, ela inclinou-se para recuperá-la, pegou-a e, tremendo, apontou a mão para os aguaceiros, localizados no tronco da árvore, como se suas mãos tivessem ficado presos ali. "Acci–" ela começou e ofegou, um gemido estrangulado escapou de sua garganta. Draco se virou para olhar: vindo através da escuridão entre as árvores estavam pelo menos sete formas amplas e malfeitoras, ornamentadas com olhos ferozes em formato de jóias.
Ao lado de Draco, Harry praguejou, uma única vez e ferozmente. Um momento depois, Draco sentiu algo agarrar seu braço: era Harry, seu aperto tão duro como ferro. /Sinto muito/ ele disse na cabeça de Draco, e depois agarrou o outro braço de Draco e o empurrou duramente, na direção de Gina. Apanhado completamente desprevenido, Draco cambaleou; Gina agarrou-se a ele, e os dois caíram precipitadamente para baixo da inclinação íngreme que levava ao rio, rolando mais e mais na neve.
De uma distância poderia parecia uma suave rolagem para baixo de um monte coberto de neve, mas não era: havia uma grande quantidade de gelo, que se projetavam de galhos quebrados que rasgavam a eles. Draco ouviu um rasgo de tecido, e uma dor aguda subiu por seu braço. Eles trombaram em uma pedra com força suficiente para separá-los. Draco ouviu Gina gritar, então rolou e parou, tossindo e cuspindo neve. Quando a tosse diminuiu o suficiente para que ele pudesse respirar, ele esfregou o rosto molhado na manga e ela ficou prateada: não com neve também. Sangue. Ele estava tossindo sangue.
Mas não havia tempo para pensar sobre isso. Ele lutou para ajoelhar-se, empurrando seu cabelo para longe de seus olhos. Ao lado dele, Gina já tinha se livrado da neve e parecia estar tentando se esforçar para ficar de pé. Ele olhou para cima, mas não podia ver nada, exceto a inclinação acima deles, marcada com um caminho irregular por onde tinham caído.
Ele agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a com força. Mais tarde, isso daria lugar a hematomas, marcados em sua pele onde seus dedos a haviam pressionado. "Não se mova," ele sussurrou para ela. Eles estavam ajoelhados centímetros de distância, podiam se ver em suas pupilas dilatadas. "Você me entende? – Fique aqui em baixo e não se mova."
Ela acenou para ele com olhos arregalados e assustados. "Harry está –"
Ele não respondeu, apenas soltou-a e se levantou. Em seguida, ele fugiu.
Não foi fácil chegar até o lado da colina: a neve estava tão densamente coberta de gelo que quando ele tropeçou e suas mãos encostaram no solo, o gelo rachou e cortou-o como vidro. Além disso, ele estava fraco – sua respiração era curta e havia sangue em seus ouvidos, ensurdecendo-o. Ele não podia nem ouvir os cães do inferno, que o deixaria em pânico mais do que qualquer ruído o teria deixado. Droga de Harry que o havia derrubado do morro; arrogância estúpida de herói. Ele contava com o fato de que se algo tivesse acontecido com Harry, ele saberia. Talvez Harry tivesse conseguido pegar um dos cabos de vassoura, de alguma forma. Ou talvez ele tivesse corrido para o Inn, talvez alguém tivesse aberto a porta para ele, ao ouvir o latido furioso...
Finalmente Draco alcançou o topo do morro e chegou a clareira. Ele correu alguns passos para frente – depois parou. E olhou.
Harry estava onde ele estado, no mesmo local, no centro da clareira. Em sua capa vermelha, ele estava tão claramente destacado contra a neve branca quanto um respingo de sangue em uma pintura. Ele estava muito quieto, de pé, com as mãos em seus lados. Os perturbados ramos de árvore tinham derramado neve em cima dele, pontilhando seu cabelo preto com flocos brancos, cobrindo seus ombros. Ele poderia ter estado ali parado por horas; com a expressão em seu rosto, ele poderia ter estado admirando a vista.
Ao redor dele em um semicírculo, inclinando-se de cócoras, estavam os cães do inferno, suas patas afundadas na neve. Seus olhos estavam fixos em Harry: catorze órbitas vermelhas-ouro sem piscar, faíscas de fogo na escuridão. Suas bocas estavam abertas, pingando saliva preta e um som baixo rosnava de suas gargantas. Eles olhavam para Harry, e Harry olhava de volta. Sua expressão estava determinada. Ele não parecia assustado.
O gosto asfixiado de sangue encheu a boca de Draco novamente e ele se perguntou por um momento se iria ficar doente. /Harry ...?/
Harry não se moveu ou virou para olhar para ele, ele ainda estava olhando para os cães, e um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca. Ele ergueu a mão direita, com a palma para cima, e quando sua capa caiu, Draco viu que em seu cinto, a fita rúnica ardia tão brilhantemente como um leito de carvões em brasa. "Vá," disse Harry às sete ferozes criaturas parecidas com lobos, que rosnaram e deram patadas no chão. "Saiam daqui!"
E eles se foram.
Enquanto Draco ficou na beira do declive, tremendo de frio e de sua reação, as sete criaturas de pesadelo deram as costas e caminharam com dificuldade para fora da clareira. Eles pareciam indignados, como viúvas que tinham sido convidadas para um chá apenas para descobrir que não havia biscoitos sobrando. Eles foram embora em uma linha ordenada, um após o outro, e só quando o último desapareceu entre as árvores que Harry lentamente abaixou sua mão e virou-se para olhar para Draco.
Ele estava um pouco pálido, mas composto. Manchas brilhantes coloriam suas maçãs do rosto, como se estivesse com febre. "Me desculpe, eu empurrei você," ele disse suavemente. "Eu esperava que, se eles achassem que eu era o único..."
"O que você fez?" Draco sussurrou. "Eu nunca vi eles obedecerem a ninguém – nem mesmo ao meu pai. E sua capa – Eles odeiam vermelho – meu pai costumava pagar alguém para se vestir nas cores da Grifinória e torturá-los através das grades de suas jaulas –"
"Seu pai," disse Harry em desgosto. "Por que você incomoda mesmo em chamá-lo assim?"
"O que você fez?" Draco disse novamente, vertiginosamente, ouvindo sua própria voz soando muito baixa no ar de inverno. Ele descobriu que ele estava segurando seu braço esquerdo com a mão direita, o corte ao longo de seu antebraço deveria ter aberto novamente durante sua queda para baixo da inclinação. "O que você –"
O mundo inclinou-se para frente e ele cambaleou, Harry chegou para pegá-lo, mas Draco torceu a mão de Harry para longe e se endireitou, apoiando-se em um galho de árvore nas proximidades.
"Não me toque," disse ele.
Harry olhou horrorizado. "Não fique com raiva, eu –"
"Não é isso. Estou sangrando, e suas mãos estão todas cortadas." Draco segurou seu braço esquerdo, o punho de sua camisa estava ensopada com o sangue prateado. "Eu não sei se é seguro me tocar ou não." Ele encostou-se no tronco da árvore, o esgotamento infiltrando-se em suas veias como o seu próprio veneno, e deixando seus olhos fecharem-se. "Você deveria ter deixado os cães do inferno me comerem – provavelmente eles teriam morrido engasgados com o veneno antes mesmo de cercarem você."
"Olhe para mim." A voz de Harry estava calma. "Você não vai morrer."
Draco estava tão cansado que mesmo abrir seus olhos pareciam ser um grande esforço, mas ele o fez. "Você vai contar para todo mundo, não vai," disse ele. "Sirius, e Dumbledore e do resto."
Harry acenou com a cabeça. "Sim," disse ele. "Isso é exatamente o que eu vou fazer. E eles vão saber como ajudá-lo. O que fazer."
"E se eles não souberem?" Draco perguntou. "E se eles não puderem consertar isso?"
Harry abriu a boca para responder, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, uma voz suave falou atrás deles.
"Consertar o que?" Gina disse.
A boca de Harry permaneceu aberta. Draco se virou e olhou para ela: ela estava de pé na beira do declive, a capa amarela em volta dela, seu cabelo vermelho formando com listras em sua testa como furtos indiscriminados de pintura.
"Eu achei que tivesse dito para você ficar lá e não se mover," disse Draco, a exaustão tornando sua voz áspera.
"Você disse," disse ela. "Mas eu estava preocupada. Estava tudo tão quieto." Seus olhos passaram por ele e fixaram-se em Harry, havia um apelo mudo neles. "Eu não entendo," ela continuou. "O que é tudo isso sobre veneno e morrer? O que está acontecendo? Onde estão os... cães?"
"Os cães do inferno fugiram," disse Harry. "Quanto ao resto..."
Ele olhou para Draco, e Draco soltou um suspiro cansado interior. Ele imaginou a longa estrada de dizer às pessoas: dizer a Gina, dizer a Hermione, dizer a Sirius, dizer a Dumbledore, dizer a droga dos Weasleys. Ele imaginou todas as suas reações: choque e piedade e horror e, talvez, um medo sobre o que estava acontecendo com ele. Todos os dias o veneno o matava um pouco mais: já tinha tornando seu sangue em prata. E quem sabia que forma subsequente de destruição isso poderia levar?
/Não olhe assim./ A Voz interior de Harry estava calma. /Eu vou dizer a ela no caminho para a Toca. Você não tem que fazer isso./
Draco olhou para ele com surpresa. E percebi que ele não teria que fazer isso – ele não teria que dizer a ninguém, Harry iria fazê-lo. E seria melhor ter Harry explicando: ele poderia explicar corretamente, com o fervor correto e justo – ele poderia lembrar-se dos detalhes que Draco já estava exausto demais para se lembrar. Draco poderia rastejar para a cama e dormir, e Harry iria cuidar de tudo. Ele não precisa se preocupar que Harry fosse estragar tudo, porque Harry sabia o que ele queria mais do que ele próprio. Pela primeira vez ele estava conscientemente feliz com a ligação entre eles: era uma bênção por não ter que explicar e ser compreendido. Este conhecimento lhe deu uma certa quantidade de força, e ele se levantou e estendeu a mão para Gina.
"Vamos descer os cabos de vassoura e ir embora," ele disse, "Eu vou explicar tudo para você no caminho."
A porta do quarto foi fechada atrás das duas meninas com um clique. Hermione atravessou a sala até a poltrona ao lado da cama, virou-se e sentou-se nela tão graciosamente quanto possível, alisando a saia enrugada sobre os joelhos. Ela levantou o queixo e olhou para Blaise. "Então," disse ela. "O que você quer?"
Um sorriso tocou o canto da boca perfeita de Blaise. Mais uma vez, a sensação de familiaridade assaltou Hermione e, novamente, ela sabia que era porque Blaise parecia muito com Draco – não fisicamente, claro, eles não eram nada parecidos, exceto que ambos eram bonitos. Mas suas maneiras, desde sua postura até a inclinação arrogante de seus pequenos queixos, eram uma cópia do próprio Draco. "Eu queria falar com você sobre Draco Malfoy," disse Blaise.
"Ah, meu Deus," disse Hermione friamente. "É uma daquelas visitas de 'fique longe do meu namorado'? Porque se for, você veio até a garota errada. Se o Draco tem te traído, não foi comigo."
"Oh, eu sei disso," disse Blaise facilmente. "Ele nunca tocaria em você. Mesmo que ele quisesse você, ele nunca te tocaria."
Hermione cerrou os dentes. "Fico feliz que estabelecemos isso," ela disse. "Nesse caso, o que você quer?"
"Eu estava no Ministério com os meus pais, esta tarde," Blaise disse, olhando casualmente ao redor da sala. Ela andou até uma fileira de fotografias pregadas acima da cama de Rony e começou a examiná-las. "Eu vi o professor Lupin lá com o padrinho presidiário de Potter."
Hermione não se incomodou em corrigir que Sirius não era mais um condenado. Ela sentou-se sem se mover enquanto Blaise afastava dos ombros o seu casaco bordado; debaixo dele, ela estava simplesmente vestida de jeans e uma camiseta de gola verde. Ela ainda assim parecia deslumbrante. Isso era muito irritante.
"Eu ouvi dizer que o pai de Draco manteve ele e Potter na Mansão," disse Blaise. "Isso é verdade, não é?"
"Até onde eu sei," admitiu Hermione.
"Então, eles estão em perigo terrível," disse Blaise, girando com um gesto rapidamente teatral para olhar para Hermione. Seus olhos estavam arregalados e nebulosamente verdes. Ela era tão bonita que Hermione queria bater nela.
"Você sabe," disse Hermione, "eu meio que percebi que essa era uma possibilidade, obrigada."
"Todos vocês estão," disse Blaise. "Isto é muito maior do que parece – muito maior do que você poderia imaginar Eles não estão nos dizem muito – nós somos muito jovens. Mas eu já ouvi – coisas." Blaise respirou fundo, e Hermione percebeu que ela estava, na verdade, genuinamente assustada. "Um monte de pessoas vão morrer."
O coração de Hermione pulou com uma batida. "Por que você está me dizendo isso, Blaise?"
Os olhos de Blaise se arregalaram. "O que você quer dizer?"
"Quero dizer, preciso de uma razão para acreditar que a sua visita não foi motivada inteiramente pela malícia. Até agora, você me disse que meus amigos estão em perigo – o que eu já sabia. E fez declarações vagas e perturbadoras sobre pessoas morrendo. Você não gosta de mim, você não gosta de Harry. Você é uma Sonserina por completo e eu não posso imaginar que ficariam felizes com você, se eles soubessem que você esteve aqui. Então, por que arriscar para o meu benefício?"
"Você não vai lhes dizer." O tom de Blaise estava confiante. Hermione se perguntou que diabos ela estava atraindo a atenção dela para essas fotos: eram em sua maioria fotografias do Weasley, algumas de Harry e dela, alguns dos colegas de escola de Gina em Beauxbatons. "Você é uma Grifinória tanto quanto eu sou Sonserina. Você não iria me entregar assim. Mesmo que você me odeie também."
"Eu não odeio você, Blaise." Hermione sentia-se muito cansada. "Eu simplesmente não tenho uma boa razão para confiar em você."
"Sim, você tem," disse Blaise. "Draco."
"Draco? Que tem ele?"
"Pense sobre ele se machucando. Pense nisso –"
"Eu tenho pensando. O tempo todo." As palavras saíram da boca de Hermione antes que ela pudesse detê-las, e ela lamentou instantaneamente. Blaise iria colocar a pior enrolação possível sobre isso. E zombar dela. E jogar as palavras de volta em seu rosto e –
"Eu também," disse Blaise.
Hermione levantou o queixo. "Você disse que odiava Draco agora."
"Eu deveria odiá-lo." Blaise encolheu os ombros. "Eu deveria odiá-lo, e eu meio que o odeio, mas eu o conheço desde que éramos crianças e eu não posso simplesmente... Quer dizer, eu sei que ele é impossível. Ele é arrogante... e..."
"E egocêntrico," disse Hermione.
"Oooh, sim," Blaise concordou com entusiasmo. "E teimoso, e ele pode ser tão mau. Ele nunca escuta, e..."
"E ele sempre acha que está certo."
"Especialmente quando ele não está. E ele sorri."
"Oh, eu sei. E ele é tão vaidoso."
"Ele leva horas para se vestir."
"Ele é obcecado com o seu cabelo."
"Ele é terrivelmente egoísta na cama também."
"Gah!" Hermione quase caiu da poltrona. "Eu não precisava saber disso."
Blaise riu. "Eu estava brincando."
"Ah, sim," disse Hermione amargamente. "Esse rico humor sonserino que estamos todos tão afeiçoados."
Blaise sorriu de forma apaziguadora. "Ele é obcecado com o seu cabelo, no entanto. Ah, ele acha que ele é tão bonito. Seria menos chato se ele não fosse, é claro."
"Eu sei," disse Hermione. "Ele é todas essas coisas – e egoísta – e ele pode ser cruel – e se você não é alguém que ele ama, você poderia muito bem simplesmente não existir para ele," acrescentou ela em voz baixa.
Blaise, por um momento, parecia amarga. "Como você sabe? Ele ama você."
"Eu tenho certeza que ele..."
"Me ama também?" Blaise zombou. "Não. Ele só estava me usando. Para tirar a atenção das pessoas que ele realmente se importa. Sei porque... porque ele me disse, quando veio e me pediu para fingir ser sua namorada em primeiro lugar."
"Para fingir ser sua namorada?"
"Acho que ele sempre foi honesto," disse Blaise. "Ele me disse que queria que eu fosse a namorada dele, que ele não queria me dizer por que, mas que tinha a ver com as pessoas que ele queria proteger. E que podia ser perigoso, e se eu entendia isso."
"E você," Hermione perguntou, "entendeu isso?"
"Um pouco. Talvez. Ele me ofereceu dinheiro..." Blaise viu o olhar horrorizado de Hermione, e seus lábios torceram-se. "Eu sei o que você está pensando. Que eu me vendi para comprar vestidos. Eu não. Meu pai... ele perdeu todo o nosso dinheiro. Investiu mal, eu realmente não sei. Você não sabe o que é, no entanto. Meus pais, eles não sabem como viver sem dinheiro. Eles sempre o tiveram. Eles não podiam se ajustar. Foi horrível. Então Draco veio. Ele sabia, é claro. Todos no círculo dos meus pais sabiam. Minha mãe e Narcisa eram melhores amigas. Ele veio e me ofereceu dinheiro suficiente... ele tem muito, ele dificilmente notaria a quantia que ele nos deu. Ele disse... e eu só tinha que ser sua namorada. Só por um ano."
Hermione estava sem palavras. Ela não tinha ideia do que pensar. Ela não tinha certeza com quem ela estava mais revoltada: Blaise, por aceitar tal oferta, ou Draco, por oferecer, em primeiro lugar. É claro, nenhum deles provavelmente sequer entendia o que era tão terrivelmente errado neste acordo. Por mais que Draco houvesse mudado, ele nunca seria nada além de um Sonserino em seu coração.
Blaise continuou a falar, como se tivesse esquecido completamente que Hermione estava lá. "Ele fez o que disse que faria. Ele nos deu o dinheiro, e ele abriu contas para mim em Hogsmeade para que eu pudesse comprar o que eu queria – vestidos, sapatos. E eu suponho que fingi que estivéssemos realmente namorando. Todas as meninas da minha casa sempre o amaram, um pouco... e foi agradável, ser invejada. Eu pensei que talvez ele se importasse comigo. Que ele tinha construído este plano elaborado para que ele pudesse me ter – ele poderia ter tido a mim de qualquer maneira, mas eu nunca disse isso a ele. Então, depois de um tempo, comecei a ver que não era por mim que ele estava apaixonado..." Sua voz estava achatada. "Eu suponho que você saiba o resto."
"Eu não sei o que dizer," Hermione respondeu honestamente. "Ou pensar. Eu não vou dizer que isso não soa como algo que Draco faria. Soa." Se ele pensasse que estava protegendo a um de nós... sim, ele faria algo assim. "Ele tem realmente... um tipo de mente de solteiro, eu acho, seria uma maneira agradável de dizer isso."
"Você não tem que se preocupar em procurar maneiras agradáveis de dizer isso." Blaise encolheu os ombros levemente. "Eu sei o que ele é."
"Por que eu?" Hermione perguntou. "Por que vir a mim com isso?"
"Porque você o ama mais do que você não gosta de mim," disse Blaise uniformemente. "Eu vejo o jeito que vocês são juntos – o seu pequeno grupo, e ele nunca me disse nada, mas eu sempre notei."
"Se você percebeu," Hermione disse, "então você o ama também."
"Um pouco, talvez." O rosto de Blaise tinha fechado como um leque, seus olhos estavam remotos. "Talvez todos nós, em algum grau ou outro. Ele sempre foi capaz de fazer as pessoas amá-lo quando ele tentava ou precisava. Em sua vida, acho que há apenas uma pessoa que não o amava o suficiente."
Hermione sentiu um choque estranho dentro dela – ela entendia o que Blaise queria dizer e, acima disso, ela concordava com ela. Nesse momento, ela tomou a decisão inconsciente de confiar na menina da Sonserina. As palavras saíram inesperadamente:
"Tudo bem, então," disse ela. "Tudo bem. Acredito em você."
Blaise exalou um suspiro de alívio. "Bom." Então ela fez algo peculiar: ela levantou as mãos, e desprendeu as presilhas brilhantes que prendiam seu cabelo. Ele balançou para a frente em uma queda pesada de vermelho escuro e dourado, as cores das escamas de um dragão. Ela olhou para as presilhas em sua mão por um momento – havia três delas, um conjunto combinado de varinhas verdes delgadas. Ela estendeu-as para Hermione, que as olhou. "Dê a Draco quando você vê-lo," ela instruiu.
Hermione recusou. "Sem ofensa, mas eu duvido que isso combine com ele."
"Ele não tem que usá-los em seu cabelo," disse Blaise, como se isso fosse óbvio. "Ele pode fixá-los em sua capa, ou transformá-los em botões. Eu não me importo. Só quero que ele os use."
E eu quero que ele vista calças apertadas e uma camisa de futebol que diga OPORTUNIDADE DE PONTUAR em grandes letras vermelhas, mas nem sempre conseguimos o que queremos, não é? Hermione quase respondeu, mas se conteve. Se havia uma coisa que ela tinha notado sobre Blaise, foi que ela tinha muito pouco senso de humor. Isso por si teria impedido Draco de nunca ter quaisquer sentimentos reais por ela, Hermione pensou com alguma satisfação – e então esmagou o pensamento e também a satisfação.
"Tudo bem," disse ela, com um grande receio, pegando as presilhas de Blaise. "Eu darei a ele – mas cabe a ele a decisão de usá-los."
"Eu gostaria de ter mais, mas estes são tudo o que eu tenho. Eles não são fáceis de encontrar, você sabe... Pansy me disse que tinha que fazer o dela. Tenho certeza que ela cuidou do Weasley também, então você não tem que se preocupar com ele."
"Uh-huh," disse Hermione, se perguntando se Blaise estava, talvez, um pouco fora de seu juízo. Ela olhou para as presilhas, mas não parecia ter nada terrivelmente especial sobre elas – elas não eram joias, mas feitos de algum material duro e verde cintilante, um pouco parecido com titânio.
"Não deixe que dá-los para o Potter, também," Blaise acrescentou, com uma reflexão tardia.
"Se o seu desejo de ver Harry em presilhas de cabelo tornar-se incontrolável, eu vou ter a certeza de intervir," Hermione respondeu secamente. Ela estreitou os olhos para Blaise. "Se isso acabar sendo algo perigoso, ou algum tipo de feitiço de rastreamento..."
"Eles não são," Blaise retrucou, exasperada. "Olha, quando você puder, é só levar os dois para um lugar seguro, tudo bem? Aqui. O Ministério inteiro vai procurar por ele..." Sua voz foi sumindo com o olhar no rosto de Hermione. "O que?"
"O que faz você pensar que eu vou mesmo vê-los novamente para levá-los a um lugar seguro?" Hermione disse em uma voz pequena, odiando-se por ser tão vulnerável na frente de Blaise, mas muito infeliz para deter-se.
Blaise olhou para ela, surpresa, deixando o seu rosto transparente. E, por um momento, Hermione pensou que pudesse olhar através da expressão fechada para a Blaise de verdade – e, nesse momento, ela acreditou que Blaise amava Draco. Poderia ser um amor feito com partes iguais de apego de infância, orgulho chamuscado e lealdade de família, mas ainda assim era uma espécie de amor. "Eles vão voltar para você," Blaise disse. "Eles sempre voltam."
"Oh." Por um momento, Hermione não conseguia pensar em nada para dizer. Ela limpou a garganta. "E Ron – você disse que Pansy já havia lhe dado alguma coisa, então, quando ele voltar aqui, eu tenho que levá-lo para um lugar seguro também?"
A transparência desapareceu da expressão de Blaise, agora ela parecia apenas surpresa. "Você acha que o Weasley vai voltar aqui?" ela exigiu. "Quer dizer que não faz –" Ela parou e se virou, os olhos verdes arregalados. "O que foi esse barulho?"
Hermione saltou e ficou de pé. "A porta da cozinha –"
Blaise ficou branca. "Oh, não." Havia um mundo de medo nessas duas palavras. Ela começou a se atrapalhar em seus bolsos.
"Oh, pelo amor de Deus. Poderia ser Ron, ou Gina ou mesmo Gui –"
"Pense o que quiser. Estou saindo," disse Blaise, e tirou uma pequena caixa de prata – uma Chave de Portal – para fora de suas vestes.
"Mas e a sua vassoura? Ela está lá embaixo."
"Mande-a via coruja para mim," respondeu Blaise, abrindo a caixa. Com um lance de cabeça vermelha, ela desapareceu no ar.
Hermione balançou a cabeça. "Típica Sonserina," ela murmurou, com mais ousadia do que sentia. O pânico evidente de Blaise tinha se comunicado por ela. Pegando a varinha de seu bolso, ela cautelosamente dirigiu-se para o corredor e começou a fazer o seu caminho em direção à escada tão silenciosamente quanto podia.
Ele estava bastante escuro; as tochas do corredor haviam sido apagadas. Estava muito tranquilo. Enquanto ela se aproximava da escada, ela pensou ter ouvido o som da porta da cozinha se fechando – ninguém perigoso devia ser capaz de ultrapassar as proteções, mas proteções poderiam ser subvertidas, é claro. Havia formas e maneiras. Segurando sua varinha com força, ela começou a fazer o seu caminho descendo as escadas.
O Lorde das Trevas reclinou-se na alta cadeira atrás da mesa de xadrez e observou o ar em sua frente. Estava cheio de partículas de poeira, pairadas na tênue luz das estreitas janelas. O menino de cabelos vermelhos estava deitado aos seus pés. Ele não se movia havia quase meia hora agora, era provável que ele não fosse voltar a ser útil naquela noite. O que tinha sido como uma luz dentro dele havia sido derramado como sangue. Ele estava deitado, inconsciente, sobre as pedras duras com o rosto enterrado em seus braços. Uma mão estava estendida, a palma para cima, a cicatriz de serpente intrincada em sua palma era claramente visível.
"Marcado com o meu sinal antes mesmo de eu tê-lo visto," o Lorde das Trevas disse em voz alta, e a menina dentro de sua gaiola de ouro olhou como se ele estivesse falando com ela. "Marcado agora duas vezes, ele é duplamente meu."
"Será que ele vai morrer, Senhor?" perguntou ela.
"Ainda não. Eu nem sequer comecei a usá-lo. O dom da Previsão é como um relógio divino. Eu o ativei... agora, como um relógio diz o tempo, ele vai me dizer o futuro."
"E por que você quer saber o futuro, Senhor?"
O Lorde das Trevas levantou os olhos desumanos para ela e riu. "Você é um demônio um tanto curioso," disse ele. "O que importa para você? A sua espécie continua e continua sem fim. Não importa o que o futuro traga, você vai sobreviver."
"Assim como você – você também não pode morrer."
"A vida não é para ser vivida apenas por viver," disse o Lorde das Trevas enigmaticamente. "Há também o poder, e a busca pelo mesmo. E a vingança. Você deve saber tudo sobre vingança como demônio. Seiscentos anos servindo uma família... você deve querer muito a sua liberdade."
"Você está tentando incitar os meus servos contra mim, meu Senhor?" veio uma voz pela fresta da porta.
A menina virou primeiro, o Lorde das Trevas em seguida. Ele não se levantou de sua cadeira. "Lúcio," disse ele. "Espero que, para o seu bem, você me traga boas notícias."
"A melhor notícia, Senhor," disse o homem pálido, tirando suas luvas e colocando-as sobre a mesa perto da porta. "Tudo foi exatamente de acordo com o plano. Temos Harry Potter em nossa custódia temporária; Arthur Weasley está fora do poder e a transição no Ministério está indo bem." Ele fez uma pausa e olhou para o menino de cabelos vermelhos no chão. "Eu vejo que tivemos um acidente," acrescentou, em tom divertido.
O Lorde das Trevas riu. "Ele não está morto. Ele utilizou muito de seu poder, sem treinamento. O poder o drenou. Ele vai se recuperar. Falando em vítimas..." Ele olhou para Lúcio. "E os meus servos, os meus fiéis Comensais da Morte? Todos eles foram alertados sobre o meu retorno?"
Lúcio pareceu um pouco desconfortável com isso. "Eu não alertei a todos, meu Senhor, eu pensei que você iria esperar até que a transição de poder estivesse completa –"
"Eu pensei que você tivesse dito que tinha ido bem."
"Eu disse que estava indo bem." Lúcio parecia atormentado. Na gaiola de ouro, Rhysenn agitou-se e gemeu como se sentisse dor. "Foi apenas um dia, Senhor."
Houve um silêncio. O Lorde das Trevas se levantou lentamente, e se virou para olhar para Lúcio Malfoy. Lúcio não era nem seu o mais confiável nem o seu mais amado servo, mas era o que ele era: indispensável.
"Quintilius Varo," o Senhor das Trevas disse finalmente, em voz baixa. "Devolva-me as minhas legiões."
Lúcio ficou vermelho. "Nossa grande derrota estão no passado agora, meu Senhor," disse ele. "Temos apenas a vitória para vir. Teremos legiões para lutar por ela."
"Eu queria voltar à frente de um exército, Lúcio. Para não ter que investigar um exército de fora e pressioná-los a servir."
"Meu Senhor, eles são leais a você! Eles simplesmente aguardam instruções. Há alguns menores... dissidentes que precisamos nos livrar primeiro, antes de nosso caminho é claro."
As mãos estreitas do Lorde das Trevas apertaram-se e abriram-se ao seu lado: eram cinzas, as unhas eram um preto pesado. Uma vez ele já havia tido dedos longos e finos, articulados: mãos bonitas feitas igualmente para a poesia ou para a oração. Claro, elas não tinham sido objeto de nenhum uso. "Eu sonho com essas coisas, meu Lúcio. Quando eu ser vitorioso, vou ter um tabuleiro de xadrez feito de varinhas roubadas de meus inimigos. Vou esculpir as peças brancas a partir dos ossos de Severo Snape, que me traiu. As vermelhas devem ser feitas de vidro transparente e cheias com o sangue de Harry Potter. Vou valorizá-lo para sempre."
Na gaiola dourada, Rhysenn riu suavemente. Lúcio ficou muito branco. "Você terá todas essas coisas, Mestre," disse ele em uma voz apertada. "Todas essas coisas e muito mais."
"E ainda assim você me diz que tenho que esperar."
"Sim." O rosto de Lúcio era como pedra. "Você tem que esperar."
Hermione estava no meio da escada quando os viu.
Gina entrou primeiro pela cozinha e Hermione assumiu sem pensar que é claro que ela tinha voltado para casa sozinha. Gina parecia desgrenhada e exausta, havia sujeira em sua capa amarela encharcada e seu cabelo úmido estava um emaranhado selvagem. Nada disso deixou Hermione surpresa, o que a surpreendeu foi a expressão no rosto de Gina quando ela o levantou – além de seu olhar de choque entorpecido, ela tinha, obviamente, chorado muito.
"Gina?" Hermione disse, fazendo uma pausa nas escadas. "Gina, você está bem?"
Gina olhou para cima. "Oh! Hermione." Sua voz era pesada com exaustão. "Sim. Eu estou bem."
"Então, o que..."
Hermione parou quando a porta da cozinha foi aberta novamente, e Harry apareceu, seguido por Draco. Harry estava carregando dois cabos de vassoura na mão direita; Draco atrapalhava-se com o fecho que abotoava sua capa encharcada. Ambos estavam caminhando de forma lenta e pareciam cansados até os ossos. Ela abriu a boca para chamá-los, mas apenas um suspiro de surpresa escapou de seus lábios.
Eles estavam seguros, eles estavam em casa... E agora. Ela queria estar pulando de felicidade, mas a alegria não veio. Havia algo terrivelmente errado: ela podia vê-lo. Estava no jeito que Draco andava, na tensão dos ombros de Harry. Harry foi quem a notou primeiro. Ela pensou mais tarde que talvez ele tivesse ouvido o suspiro agudo de sua respiração. Ele levantou a cabeça e olhou para cima; Draco seguiu seu olhar, e ambos olharam fixamente para ela, como se não pudessem acreditar que ela estava lá.
Ela sempre se lembraria daquele momento depois. Não foi um longo momento, e ainda assim parecia ir e ir. Ela se levantou e olhou para eles. Perguntou-se porque, embora sua mente suspirasse em alívio, um pequeno medo estava crescendo em seu coração.
Ambos estavam mais imundos do que Gina. As vestes de Harry estavam rasgadas e desfiadas, as luvas pretas de sujeira, o rosto apertado com esgotamento e algo mais. A capa de Draco estava rasgada, com galhos grossos, havia uma bandagem irregular em torno de seu braço e seu rosto estava cortado e sangrando.
Mas não foi isso que a fez parar. Foram os olhares em seus rostos. Lembrou-se da expressão de Harry em seu quarto ano, após a terceira tarefa – o olhar meio drogado, atordoado e atônito de choque avassalador. Ela não o tinha visto ele daquele jeito desde então. E agora ele estava.
E Draco. Ela não teria pensado que alguém tão jovem pudesse parecer tão velho. Esse ar velho não estava em seu rosto, mas por trás dele, nas costas de seus olhos glaciais. Era conhecimento e aceitação e outras coisas que eram piores do que isso. Ela se lembrou de que ele havia dito que estava bem, que iria consultar uma medibruxo em breve. Ela sabia que ele estava mentindo, e que isso era o que ele tinha inventado para encobrir. Tudo fazia sentido, de repente: a expressão de Harry, a resignação de Draco. Então lembrou-se de seu sonho e do sangue prateado por toda a areia aos seus pés. Ela sentou-se de repente na escada, a realização e o desespero súbito enfraquecendo seus joelhos.
"Eu sabia," ela disse, "Eu sabia, eu sabia, eu sabia esse tempo todo..."
Um período indefinido de tempo passou para Hermione enquanto ela se sentava na escada com as mãos sobre o rosto, lutando para não chorar. Na realidade, é claro, levou menos de um minuto antes de Harry subir as escadas e sentar-se ao lado dela, Draco e Gina tendo prudentemente desaparecido na sala de estar.
"Eu te daria um lenço," disse ele. "Mas eu não tenho um. Eu arranquei do fundo da minha capa para fazer um curativo no braço de Draco. Mas, se você quiser..."
Ela olhou para cima. "Eu não estou chorando," disse ela.
"Oh," disse Harry. Houve um silêncio momentâneo. "Se você quiser gritar, eu poderia ir embora," ele ofereceu.
"Harry..." Ela olhou mais de perto para ele: sob a sujeira e as contusões, ele estava um pouco abatido de cansaço, mas parecia saudável o suficiente. A mesma reserva estava em seus olhos como ela se lembrava, a mesma distância. Na verdade, ele parecia mais fechado do que nunca. Mas sua expressão não era antipática. Ela percebeu que esta era a primeira vez que ela estava a sós com ele, desde que tinha terminado seu relacionamento. Pareciam mil anos atrás. "Eu não quero gritar. Quero acordar Carlinhos, pegar uma chave de portal, e os levar de volta a Hogwarts antes que qualquer coisa terrível aconteça."
Se ela esperava alguma resistência, ela não conseguiu. "Bom," disse Harry decididamente. "Eu quero falar com Dumbledore. Mas talvez eu devesse falar com Sirius primeiro, ele está aqui?"
Hermione balançou a cabeça. "De volta à casa de Lupin. Estão ambos bem, no entanto. Todo mundo está, exceto..."
Harry olhou para ela de forma restrita. "Exceto quem?"
"Ron," disse Hermione finalmente. Ela ficou tensa, sem saber como Harry reagiria. Mas ele parecia apenas surpreso.
"Ele não voltou ainda?"
"Não. E Harry – eu sei sobre Pansy. Carlinhos me disse."
"Antes ele do que eu," disse Harry, seu tom quase irreverente. Então, ao olhar em seu rosto, sua voz se suavizou. "Sinto muito," disse ele. "Mas também estou feliz que você não estava na recepção, quando Draco contou a todos o que aconteceu. Foi muito horrível."
"Oh, pobre Ron," disse Hermione baixinho. "Ele deve ter se sentido miserável. Quero dizer, Pansy. Ele nunca gostou dela. E ao descobrir que ela estava apenas tentando chegar a ele por qualquer motivo, deve ter sido..."
"Horrível," disse Harry brevemente. "Eu pensei que eu quisesse machucá-lo também, mas eu acho que eu realmente não poderia fazer isso depois de tudo."
"Por que Draco fez isso?"
"Porque," O tom de Harry era cortante. "Eu lhe pedi."
"Oh," ela disse. Então, incapaz de ajudar a si mesma, ela acrescentou, "Harry, cuidado com o que pedir para ele fazer. Ele faria qualquer coisa por você. Isso não seria justo."
"Justo?" A voz de Harry era amarga, ela olhou para ele com surpresa. "O que não é justo é que quanto mais eu tento proteger as pessoas de quem gosto, pior fica para eles. Tentei manter Ron longe das partes perigosas da minha vida, e ele decidiu que eu não me importava mais com dele e virou as costas para mim. O que não é justo é Lúcio Malfoy vivo e caminhando sobre a Terra, enquanto os meus pais estão mortos e enterrados... "
"O Ministério vai lidar com Lúcio –"
"Ele não parece ser alguém que tem medo do Ministério." O tom de Harry era frio. "Ele estava lá e disse a Draco que ele tinha um mês de vida e, talvez, duas semanas até que a dor fique muito ruim para que ele ainda ande – e ele riu enquanto dizia isso."
A náusea subiu pela parte de trás da garganta de Hermione. "Oh meu Deus, Harry."
Harry pareceu conter-se. Alguns traços de furor saíram de sua expressão. "Está tudo bem," disse ele. "Ele não vai morrer. Nós escapamos, então... ele vai ficar bem. Ele disse que Snape está descobrindo que veneno é, e Dumbledore vai nos ajudar, então... ele vai ficar bem."
Hermione estava em dúvida, mas ela sempre tinha sido mais alarmista do que Harry, e ele parecia tão certo que era difícil duvidar dele. Ela olhou para baixo, e começou – "O que aconteceu com suas mãos?"
"Ah. Eu as cortei em algum vidro." Ele colocou as mãos sobre as dela, e ela pegou sua varinha e correu a ponta sobre a pele quebrada. Os cortes desapareceram. Harry acenou com a cabeça em agradecimento e puxou as mãos para trás. Quando ele fez isso, a manga subiu e uma centelha de luz esbranquiçada acendeu em seu pulso. Ele franziu a testa. "Eu suponho que você não possa fazer nada sobre essa algema?" perguntou ele.
"Uma algema de adamantina, muito inteligente," disse ela, tocando-o levemente. "Não, Dumbledore terá que tirá-lo para você. Lúcio devia estar muito ansioso para impedi-lo de fazer mágica – novamente, você é o grande e assustador Harry Potter," ela brincou.
Ele sorriu palidamente, para o seu alívio. "Eu acho que eu sou," disse ele.
Por um momento, ele parecia muito jovem para ela – desgrenhado, como se tivesse acabado de sair do campo de Quadribol. As roupas rasgadas e manchadas, os óculos pendurados tortos novamente. "Eu senti a sua falta," ela disse de repente.
"Eu sei," disse ele. "Eu senti sua falta também."
Com um pequeno suspiro, ela se inclinou para frente, e descansou a cabeça em seu ombro, como ela tinha feito tantas vezes no passado. Por um momento, ele colocou as mãos suavemente em suas costas, segurando-a em sua direção, e eles sentaram-se juntos sem se mover. Ela inalou o cheiro dele: suor, sangue, traços de sabão e lã molhada. "Obrigada," ela sussurrou.
Sua voz estava abafada. "Por quê?"
"Por ter voltado para mim," disse ela.
Aparentemente, foi a coisa errada a se dizer. Ele ficou rígido, todos os seus músculos se transformaram em ferro e ele se afastou dela.
"Harry eu não quis dizer –"
"Você estava certa." Ele levantou, mantendo seu rosto afastado para que ela não pudesse ver sua expressão. "É melhor voltar para Hogwarts rapidamente. Não é seguro aqui."
Quando ela olhou para ele com espanto, ele virou-se e dirigiu-se às escadas, em direção ao o quarto apagado de Carlinhos. Depois de um momento, não sabendo mais o que fazer, ela levantou-se e seguiu para a escuridão.
"Você deve estar com frio," Gina disse nervosamente. Harry e Hermione haviam desaparecido nas escadas e ela estava sozinha com Draco na sala de estar. Ela havia o deixado por um momento para trocar sua capa molhada por um vestido, e ao retornar, o tinha achado esparramado no sofá como se ele pertencesse ali, com a cabeça em um dos travesseiros de malha branca de sua mãe. "Você quer que eu faça um chá pra você antes de ir?"
Um murmúrio fraco foi a sua única resposta. Ela virou-se e viu que ele estava dormindo, ou parecia estar. Seu rosto descansava na palma de sua mão, os cílios de seus olhos fechados jaziam em suas maçãs do rosto como uma franja de seda negra. Em seu rosto ela podia ver a criança que ele tinha sido, a criança que havia enfrentado ela na biblioteca da Mansão e disse a ela o quão má e repugnante ele havia pensado que ela era. Havia buracos no rosto dele agora que não existiam quando ele tinha doze anos, é claro. Ele havia tido um rosto de criança em forma de coração. Agora tinha mais a forma de um gato caro: as maçãs do rosto eram largas, estreitando-se em direção ao queixo. Ele virou-se um pouco ao vê-la, sua respiração exalada mexendo seu cabelo. "Draco," disse ela suavemente. "Você está dormindo?"
Ele abriu os olhos e olhou para ela através de seus cílios. "Eu estava chegando lá."
"Ah. Desculpe."
"Não, está tudo bem." Ele apoiou-se em seu cotovelo e olhou para ela. "Eu queria te perguntar uma coisa de qualquer forma."
"Tudo bem. O quê?"
"Venha aqui e sente-se, você fará isso? Você está me deixando nervoso pairando aí." Ela olhou para ele, surpreso, e ele sorriu. "E não, não era isso que eu queria perguntar a você."
"Tudo bem," ela disse de novo, e foi sentar-se no sofá com receio. Ele deslizou seus pés para fora para dar espaço para ela sentar-se, apoiando-se contra as almofadas.
"Eu queria perguntar a você," disse ele, "quando você pegou o seu Vira-tempo de volta?"
O coração de Gina bateu duramente contra suas costelas, e sua mão voou involuntariamente para corrente em volta do pescoço em um gesto protetor. Os olhos de Draco se arregalaram.
"Você realmente o tem," ele disse. "Eu estava apenas adivinhando."
Gina se afastou dele, pressionando-o de volta para o sofá. "Eu não vou devolvê-lo," disse ela ferozmente. "Eu sou perfeitamente capaz de ser responsável por ele –"
"Eu não disse que você não era," Draco disse calmamente. Ele estava olhando para ela de forma estreita. Um rubor quente subiu pelo rosto dela enquanto ela se lembrava do livro gritando do lado fora dos portões da Mansão: eu pertenço a Mansão Malfoy! Ela parecia condenada a parecer uma idiota na frente dele, pensou com uma pequena amargura pequena que a deixou ainda mais certeza de que havia tomado a decisão certa. Ela não iria dizer a qualquer um deles o que ela tinha planejado até que seu plano fosse bem sucedido e fosse tarde demais para tentar impedi-la. Não ouvi-los dizendo que ela era irresponsável ou muito jovem. Que ela não era corajosa o suficiente ou não fazia parte do grupo.
"Olha," disse ele, um pouco mais suavemente agora, "Tudo o que você está pensando, você não fez nada para se entregar. Mas eu conheço a Mansão. Eu sei que não há forma alguma de resistir a esse tipo de Feitiço de Redemoinho. Se você estava na Mansão e a invadindo, você teria sido atingida. A menos, é claro, que você estivesse na Mansão... mas em outro momento. Sendo truques do tempo a sua especialidade."
"Se você sabe," disse ela com o coração apertado "então Dumbledore saberá, e sua mãe também..."
"Minha mãe está fora em algum lugar seguro, aparentemente. Quanto a Dumbledore, é mais complicado. Vou ter de pensar em uma boa mentira para ele não perceber."
A mão de Gina apertou a ampulheta em sua garganta. "Você mentiria para mim sobre isso?"
Ele endireitou-se e olhou para ela atentamente. "Isso depende. Será que Finnigan sabe que você roubou a ampulheta?"
"Não," ela disse, surpresa com a pergunta. "Eu nunca – quero dizer, ele não iria querer saber. Simas não aprovaria mentiras e roubos. Ele é uma das pessoas mais morais e boas que eu conheço..."
"Oh, ele é um tesouro, claro," disse Draco com uma pesada ironia. "Tenho certeza de que iriam construir um monumento em sua homenagem, se eles pudessem encontrar um bloco de mármore chato o suficiente."
"Humph," disse Gina, incapaz de pensar em uma resposta para isto.
"Então ele não sabe nada sobre isto?"
Gina balançou a cabeça. "Eu não disse a ninguém,", disse ela suavemente. "Honestamente, Draco... o Vira-Tempo... Eu nunca faria nada de perigoso. Eu estava apenas brincando..."
"Eu sei o que você estava fazendo." Um olhar levemente superior roubou seus olhos. "Você voltou para pegar aquele livro."
"Livro...?" Gina quase desmaiou de horror. Não o diário, ele não poderia ter adivinhado, ele não poderia ...
"O Liber-Damnatis," disse ele.
Gina estava sem palavras.
"Você afanou um dos livros mais valiosos da coleção de meu pai," disse ele, parecendo muito divertido. "Ele queixou-se há anos que estava desaparecido, mas uma vez que os encantos ainda estavam lá, ele só assumiu que os elfos domésticos o tinham perdido em algum lugar. 'Peguei para usar como arma'–" Ele bufou. "Você não é uma boa mentirosa."
Isso é o que você pensa, Draco Malfoy, Gina pensou severamente. "Eu aposto que você não pode adivinhar porque eu o queria," disse ela, na esperança de que ele fosse esclarecê-la.
Ele compeliu-se, parecendo divertidamente exasperado. "Hermione estava falando e falando sobre como ele é um dos melhores recursos para obter informações sobre os Quatro Objetos Dignos que já existiu durante semanas," disse ele. "Ela vivia reclamando que não poderia encontrar todas as cópias existentes em qualquer bibliotecas de qualquer lugar: eu lhe disse que já o tinha tido por um momento, mas que tinha desaparecido quando eu tinha doze anos e, de qualquer maneira, os Aurores teriam confiscado no último verão se é que havia aparecido. Ela me fez ver os manifestos... " Ele fez uma cara para ela. "Você deve achar que eu não presto atenção em tudo."
A mente de Gina estava girando. Nada parecia fazer sentido: como, de todos os livros da biblioteca, ela tinha conseguido pegar o livro que Hermione aparentemente queria – o único livro que podia lhes dar informações sobre os Objetos Dignos? Havia coincidências, ela pensou. E depois havia Coincidências. Este era, obviamente, o último caso. "Então é assim que você adivinhou," disse ela, apenas metade consciente do que ela estava falando em voz alta. "O livro..."
"Parcialmente." A voz de Draco estava extraordinariamente gentil, embora pudesse ter sido de exaustão. "Eu acho que eu soube quando vi você neste..." Ele estendeu a sua mão esquerda, estremecendo enquanto o curativo subia em seu pulso, e gentilmente tocou a borda da arruinada capa amarela. "Eu me lembrei da menina na biblioteca naquele dia. Mencionei-a ao meu pai mais tarde e ele me disse que eu devia estar sonhando. Mas eu sabia antes mesmo de ele me dizer que ela estava mentindo sobre o porque ela estava lá. Ele nunca teria contratado uma garota como aquela para ser minha governanta."
"Oh, eu sei, você me disse," Gina disse acidamente. "Sardas demais."
"Não," ele disse. "Bonita demais."
Seus dedos ainda estavam tocando sua capa levemente. Ela cautelosamente pegou seu pulso e se inclinou para roçar sua bochecha contra a parte de trás da mão dele. "Eu sinto muito," disse ela. "Eu sinto muito que você esteja doente."
"Eu vou ficar bem." Ele estava olhando para ela, seus rostos muito próximos. Ela podia sentir sua respiração contra seu rosto, mexendo seus cílios. Um arrepio correu agonizantemente sobre sua pele. "Gina, eu queria dizer que –"
Ele parou. Por um momento, ela não sabia o porquê: em seguida, ela ouviu o que o havia interrompido. Alguém estava batendo na porta. Sua mão apertou a capa. "Não há proteções em torno desta casa?"
"Sim." Ela olhou para a porta. "Eles não deixam qualquer um com intenções hostis entrar. Oh, mas poderia ser Ron, talvez algo tenha acontecido com ele, ele se foi por tantas horas –" Afastando-se de Draco, ela levantou-se e correu para a porta da cozinha. Ele a avisou para ter cuidado, mas ela o ignorou. Ela puxou a corrente e abriu a porta.
O rapaz loiro nos degraus da frente piscou à luz súbita. "Gina?"
Por um momento, ela simplesmente congelou em choque pasmo. Ele tinha sido a última pessoa que ela esperava ver naquele momento, era como se um estranho estivesse ali. Levou um momento para o reconhecimento vir. "Simas?" ela disse. "Simas, o que você está fazendo aqui?"
"Eu estava preocupado," respondeu ele, com o rosto formando um sorriso aliviado ao ouvir o som de sua voz. "Eu ouvi o que aconteceu e eu estava tão preocupado com você. Eu voei a noite toda para chegar aqui –" E, mesmo sem terminar a frase, ele cobriu o espaço entre eles com alguns passos rápidos e jogou os braços ao redor dela. Chocada demais para se mover, ela retornou o abraço fracamente. "Gina," ele sussurrou em seu cabelo. "Oh Gina, eu estou tão feliz em ver você..."
O corredor estreito que levava até a masmorra de Poções era tão mal iluminado que era perigoso. Dumbledore acenou com a mão, enquanto ele andava, faíscas vermelhas e douradas o seguiram, iluminando o caminho. Um pequeno sorriso curvou o canto de sua boca. Ele achou divertida a escuridão habitual em que Severo Snape gostava de trabalhar. Ele achava a maioria das coisas sobre Snape divertidas; Severo sabia disso e ficava severamente aborrecido. Parte de sua penitência, talvez. Dumbledore não tinha certeza. Na parede complexa de sua penitência, culpa e intransigência que Snape tinha construído sobre si mesmo, havia poucas frestas pelas quais um espectador pudesse olhar e entender.
Dumbledore tinha alcançado a entrada para o laboratório agora. Ele se abaixou quando passou pela porta baixa. Dentro estava iluminado de forma extremamente fraca, iluminado apenas pela luz de algumas tochas. As paredes eram revestidas com frascos, tubos de ensaio ou multicores líquidos, assim como estavam as superfícies das múltiplas mesas de trabalho. Fogo queimado, caldeirões com bolhas e enormes livros de magia estavam espalhados. Dumbledore resistiu ao impulso de se mover O Livro de Gramarye para um lugar onde ele não teria essência de cicuta derramada sobre ele.
Ele parou no meio da sala. "Olá, Severo," disse ele calmamente para o homem por trás da maior mesa de trabalho. O mestre de Poções, vestido com suas vestes pretas estava ocupado adicionando algumas gotas de óleo de Thornwood a um caldeirão fervendo e, por um momento, não respondeu. Por fim, ele olhou para cima e balançou a cabeça. "Diretor," disse ele, saudosamente. "O que o traz aqui tão tarde?" Ele olhou em volta, parecendo notar a escuridão da sala pela primeira vez. "É tarde, não é?"
"É quase três da manhã, Severo."
"Ah. Pareço ter perdido a noção do tempo. Eu tenho trabalhado."
"Eu sei." Dumbledore pôs a mão sobre a mesa de trabalho de madeira mais próxima dele. Ele estava muito cansado, mas tinha resistido a oferta de Madame Pomfrey sobre uma Poção Pepperup. "E como vai o trabalho? Você teve alguma sorte na identificação da substância que está no sangue do jovem Malfoy?"
Snape deixou o instrumento que ele estava segurando para baixo sobre a mesa de trabalho e olhou severamente. "Sem sorte grande, não," disse ele. "Havia apenas rastros de evidências de qualquer substância a ser encontrada e eu identifiquei certos componentes – traços de asphodel, beladona e acônito. Eu suspeitava que pudesse ser sangue ou chifre de unicórnio em pó, que dá ao sangue afetado uma cor única. Mas nenhum deles explica os efeitos colaterais. Também não tenho certeza de quais outros elementos possam ter quebrado no sangue desde que o veneno foi administrado. Isto é o mais frustrante. "
"Você disse 'veneno'," respondeu Dumbledore. "Então você acha que é um veneno?"
"Eu não posso ter completa certeza," disse Snape. "Eu certamente não conheço nenhuma maldição que leva tanto tempo para fazer efeito, e que produza efeitos tão peculiares. Mas não posso imaginar o que mais poderia ser."
"Você pode ou não pode ficar feliz em saber que Lúcio Malfoy concorda com você a esse respeito."
Snape olhou. "O que você quer dizer?"
"O jovem Malfoy chegou aqui, esta noite, na companhia de Harry Potter," Dumbledore disse. "Eles alegam ter escapado de uma armadilha preparada por Lúcio na Mansão, e vieram para cá em busca de refúgio. O que, é claro, eu ficarei feliz em fornecer."
"É claro." Snape pegou um copo de líquido púrpura e derramou no caldeirão. A substância dentro ficou de uma cor ouro inesperada. "Qualquer coisa para Harry Potter," ele murmurou baixinho. "Suponho que eles tenham a comitiva habitual com eles?"
"Se você quer dizer a Senhorita Granger e a Senhorita Weasley, sim. Dessa vez de forma inesperada, eles também trouxeram o jovem senhor Finnegan. Enviarei uma coruja para seus pais no período da manhã."
"Não há alguém faltando?" Snape tinha começado a procurar por alguma coisa entre seus frascos e ampolas. Visto através dos líquidos coloridos, seu rosto adquiriu uma aparência estranha e multicolorida: a maçã do rosto azul, o nariz verde, o queixo laranja. "Onde está nosso monitor de antigamente?"
Dumbledore balançou a cabeça. "Ronald Weasley não está com eles."
"Surpreendente. Se eu fosse ele, eu não gostaria de mostrar meu rosto por aqui também." Snape escolheu um frasco de líquido rosa e segurou-o até a luz do teto sumir. Ele derramou um pouco em um pilão de pedra cheio de pó, pegou um pilão, e começou a misturar o que estava dentro em uma pasta avermelhada. "Ele provavelmente está escondido em algum lugar, lambendo suas feridas e sentindo-se tolo."
Dumbledore fez um barulho evasivo.
Snape olhou para ele bruscamente. "Você não acha?"
"Não particularmente, não, mas esse não é o assunto em questão. Estávamos falando do veneno..."
"Sim. Lúcio Malfoy sabe disso?"
"Aparentemente, ele afirma ter administrado isso," Dumbledore disse calmamente.
Houve um curto silêncio. Snape levantou uma sobrancelha. "Envenenar o próprio filho," observou ele, finalmente. "Voldemort vai ficar satisfeito com Lúcio. Fazendo o sacrifício supremo para o Lorde das Trevas."
"Dado o que Lúcio deu ao aceitar servir a Voldemort, é realmente tudo um grande sacrifício?"
"Para Lúcio, sim. Draco ainda é seu. Foram cunhados pelo mesmo metal. Ossos e sangue Malfoy. Ele é uma criança excepcional. Crianças subsequentes não poderiam ser assim... excepcionais. Suponho que," Snape acrescentou, "não há a menor chance de que a fuga de Draco da Mansão seja prejudicial para a aparição pública de Lúcio?"
"Improvável." O tom de Dumbledore era liso e pesado. "Sirius e Remo já começaram a entrar em contato com todo o pessoal antigo e os relatórios estão vindo. Parece que a corrupção no Ministério é mais enraizada do que tínhamos imaginado. Temos sido cegos e complacentes e nós iremos pagar um preço alto por isso. Imagino que Lúcio em breve será capaz de caminhar em qualquer rua bruxa realizando Maldições Imperdoáveis à direita e à esquerda, sem risco de punição."
"Você está pintando um quadro desolador," disse Snape, alguma ironia em seu tom. "Eu pensei que esse fosse o meu trabalho."
Dumbledore suspirou. "Você está certo, Severo. É tarde e meu humor está consequentemente sombrio. Originalmente, eu vim aqui para lhe dar alguma coisa, não para te encher de previsões sombrias."
"Oh, sim? O que é isso?"
"Você disse que estava surpreso que Lúcio tenha autorizado a morte de seu filho," disse Dumbledore. "Eu não estou totalmente certo que ele tenha. Eu acho que ele esperava usar o veneno como moeda de troca."
Snape, sendo Snape, compreendeu imediatamente. "Existe um antídoto, então," disse ele, estabelecendo o pilão.
"Existia um antídoto." Dumbledore colocou a mão no bolso e tirou um rolo de pano escarlate. Ele colocou-o sobre a mesa de trabalho em frente ao mestre de Poções. "Harry Potter me deu isso. Estes são os fragmentos de um frasco que supostamente era o antídoto para este veneno."
Com o dedo indicador, Snape sacudiu o pano, que se desenrolou ao longo da mesa. As lascas brilhantes de vidro pareciam pequenas estrelas brilhantes. "Há sangue sobre esses fragmentos," Snape comentou.
"Sim," disse Dumbledore. "Esse é o sangue de Harry."
Snape olhou para cima, seus olhos escuros com capuz. "Essas lascas minúsculas..."
"Eu sei, Severo. Mas eu lembro que durante o caso Lestrange você foi capaz de detectar a poção impressionante que foi usada nas Longbottom através de um fragmento de uma taça de vinho quebrada, então eu tenho esperança. Sei que você vai fazer tudo o que você pode. "
"É claro que eu vou." O tom de Snape era plano. "Diretor... quanto tempo eu tenho?"
"Lúcio aparentemente disse a Draco que ele tinha um mês. A partir do olhar dele, no entanto, eu acho que seja um pouco menos."
"Menos de um mês..." Dentro da manga de seu manto, Snape fechou a mão em um punho. "Devo ir para cima e falar com ele, então? Ele pode querer me ver. Draco, eu quero dizer."
"Eu sei o que você quer dizer." Dumbledore falou pensativo. "Ele já está dormindo. Todos eles estão. Achei melhor que ele não dormisse na masmorra da Sonserina esta noite..."
"Diretor, eu me oponho!" Um músculo se contraiu no rosto de Snape. "Eu sei perfeitamente bem que ele, inexplicavelmente, não é apenas amigo do Potter, mas de toda a sua tripulação de malfeitores. Sei que seria impossível tirá-lo de longe do Potter com uma Hex Nibbana. Mas nenhum estudante da Sonserina deve dormir na Torre da Grifinória. É mais do que apenas impróprio, é contra as regras, é... é traidor!" A voz de Snape tremia de agitação. "Quaisquer que sejam as alianças que ele possa ter escolhido, mesmo estando doente, Draco Malfoy permanece um Sonserino!"
"Severo." O tom de Dumbledore era gentil. "Eu o coloquei na enfermaria."
"Oh," Snape esvaziou-se imediatamente. "Ah, claro. Sim. Madame Pomfrey deve cuidar dele."
"De fato." Dumbledore quase conseguiu manter a diversão fora de sua voz. "Existe algo que eu possa fazer por você, Severo? Qualquer coisa que você precise para o seu trabalho?"
"Chá," disse Snape, um pouco melancolicamente. "Eu me vejo na necessidade de um estimulante."
"Eu farei os elfos domésticos lhe trazer algum Souchong Lapsang," Dumbledore disse o nome da bebida mal-cheirosa que Snape era apaixonado. "E Severo... obrigado por seu trabalho duro."
Mesmo depois de a porta da masmorra ter se fechado atrás do Diretor de Hogwarts, Snape ficou parado por um longo tempo perdido em pensamentos, olhando para o rolo de pano diante dele, estrelado com sua prata de vidro esverdeado brilhante. O escarlate da Grifinória, o verde da Sonserina. O sangue de Potter, o veneno Malfoy. O fato de Harry Potter ter levado esses fragmentos durante todo o caminho até Hogwarts na pequena chance de que eles pudessem ser úteis o surpreendeu. Ele sabia a partir de observação que Draco adorava o menino Potter, dolorosa e intensamente, mas não tinha assumido que Harry sentisse muita coisa a não ser tolerância em troca. A existência de amizade de ambos os lados era curioso para ele. Se tivesse sido Tiago, é claro, não haveria dúvida...
Pela primeira vez, Severo Snape começou a considerar a possibilidade de que Harry Potter poderia não ser exatamente como o seu pai.
Assim que ele considerou isso, começou com muito cuidado a escovar os fragmentos de vidro em um caldeirão de metal pequeno. A primeira substância identificável no vidro acabou por ser sangue humano, o que não o surpreendeu: o segundo eram lágrimas. Passaria um longo tempo antes que ele descobrisse de quem eram.
NT: Oi gente! Eu sei que faz SÉCULOS, mas enfrentei meu ano de vestibular e não foi nada fácil. Tentei medicina e infelizmente não deu. Amanhã começo mais um ano tentando e a correria vai voltar, principalmente agora que to morando fora e sozinha pela primeira vez. Mas, antes de tudo isso começar (daqui a exatas 5 horas), eu precisava postar um capítulo pra vocês. A Diana infelizmente não pode ajudar nesse capítulo, ela ainda está mais corrida do que eu! Ela vai retornar quando possível e por enquanto eu vou tentando o meu melhor.
Esse capítulo foi suado pra sair, trabalhei durante boa parte das férias nele. Afinal um capítulo de quase 100 páginas não é mole não, viu? Cassandra mata a gente desse jeito!
Quanto a Acasos, já comecei o capítulo 7, mas não tenho ideia de quanto sai, desculpa :(
Enfim, deixem a sua review, afinal todo mundo precisa de inspiração né? E me desejem sorte no cursinho! Beeijos, Gabi :)
