Capítulo 2 — And if you go, I can't fall apart ("E se você for, eu não posso desmoronar")
Ele odiava aquilo. Odiava se sentir daquela maneira. Odiava a dor que lhe tomava o peito a cada vez que os olhos severos pousavam sobre si. Mas era submisso, aceitava aquele tipo de tratamento. Sentia-se como um lixo, mas, afinal de contas, não havia nada que pudesse fazer. Então se mantinha calado, e apenas observava a cena, os orbes de cor verde esmeralda enchendo-se de lágrimas a cada vez que via um sorriso sendo formado. Um sorriso que, ele sabia, nunca seria dirigido a si.
Algo dentro dele se despedaçava a cada vez que percebia o tipo de sentimento que estava sendo privado de receber, a cada vez que percebia o tipo de emoção que estava sendo privado de sentir. E era algo lindo, que irradiava energia e contagiava as pessoas ao redor. Por que não podia fazer parte daquela cena? Bem, certamente tinha algum problema, algo que fazia e afastava os demais.
Os dedos pálidos seguraram a navalha com força, e ela deslizou de um lado a outro na pele branca, fazendo surgir uma fina linha escarlate, que amenizou aquela dor interior durante breves segundos. Superficial demais. Suspirando, pressionou a lâmina novamente contra a região do abdômen, e o corpo se retorceu com um leve espasmo. Bom. De novo, mais fundo. Melhor ainda.A sensação de dor física era melhor do que a emocional, e, mesmo com o choro preso na garganta, não emitiu nem um único soluço quando repetiu o gesto, observando com um arquejo o sorriso que surgia nos lábios finos.
Era essa a cena que sempre se repetia durante a tarde: ele lá, com o rosto na janela, observando a família no quintal, cortando-se longe dos olhares que iriam julgá-lo. Às vezes, acreditava que havia algo errado em seu cérebro.
Não se lembrava com exatidão de quando havia começado a fazer aquilo, mas as cicatrizes já eram impossíveis de se contar, estendendo-se pelos braços, abdômen, coxas... Será que era tão errado assim, fazer aquilo para conseguir se sentir bem?
xxx
— Hey, menino, venha aqui! — o tom usado era autoritário, sem deixar qualquer espaço para reclamações ou dúvidas. Aquilo não era um pedido, e sim uma ordem.
A lua erguia-se de maneira majestosa no céu, as estrelas brilhavam intensamente, iluminando com uma pálida e tímida luz o corredor pelo qual ele caminhava cambaleante. As mãos sujas de sangue tremiam, os lábios estavam rachados, o abdômen queimava de dor. Ainda assim, seguiu em frente, um passo após o outro, ouvindo o leve rangido da madeira sob os tênis esfarrapados.
Fechando os olhos com força, sentiu uma lágrima caindo, e algo em seu interior se agitou com violência. O desejo de poder fugir, a vontade de poder revidar, de gritar ao mundo o que pensava, de gritar o que queria e o que sentia. Mas tudo isso era reprimido por algo bem maior e aterrorizante, algo que o assombrava no fundo de se âmago.
Não foi a primeira e nem seria a última vez que Dean sentiria medo do pai.
